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Leite derramado
{oLiterato on-line }

25.11.07

Para todos que já não vem por aqui, é lícito informar que ambos, eu e Guilherme, estamos em outros prados: http://guilhermepovoas.blogspot.com e http://obocatriste.wordpress.com. Saudades daqui.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 12:46 Comentários:




28.10.07

Dizem que depois de quatro anos de namoro a coisa vai. Se não casa é porque alguém está enrolando – hoje em dia, não raro é a mulher. E ainda tem a lenda da crise dos sete anos, mas aí é muito tarde para deixar de fazer alguma besteira. A ficha só cai depois. Mas a história a seguir não envereda pelas formalidades dos relacionamentos informais. Trata-se do ponto onde a insistência sobrepõe a vontade e não resta outra coisa se não acreditar. Eis o causo:

À província
Guilherme Póvoas
Eucária e Perpétuo se conheceram ainda quando ela usava saias ripongas e ele insistia contra os pais em seu cabelo comprido a andar pela noite com um vinil do Black Sabbath por debaixo do braço. À época, sonhavam juntos com o dia em que um novo Woodstock – tão real e original – fosse reinventado e o som da voz de Ozzy Osbourne e da guitarra de Tony Iommi pudesse se materializar em show na frente do casal. Enfim, o tempo se encarregou de mudar as melenas de Perpétuo e de transformar as vestes de Eucária em algo menos colorido. Passaram a freqüentar respeitáveis casas de espetáculos assistindo a shows de Maria Rita e Nei Lisboa. Muita coisa além do gosto musical mudou, mas eles continuavam juntos.
E aí que um dia Eucária resolveu perpetuar sua carreira profissional: iria para a Argentina fazer “aquele doutorado sobre o qual eu tanto falei.” Dinheiro, reconhecimento, aprendizado, dinheiro. Tudo contava muito.
– É uma grande oportunidade – comentou Perpétuo, ainda com os olhos flagrantes de espanto, abismado com a ousadia da mulher. – Mas logo na Argentina – resmungou.
– É! Cortázar, Esquivel e Borges. Estarei mais perto deles, pelo menos dos lugares de onde eles fizeram suas linhas.
– Faz sentido, faz sentido – resignou Perpétuo. Ele sempre pensou que assim que acabasse a faculdade de Letras, Eucária iria se limitar a dar aulas de espanhol “em qualquer lugar”.
A moça deixou claro: se não quiseres, eu não vou. Ah! Mas e a culpa de ter atravancado todo um potencial que ele enxergava em sua mulher?

O sol ainda buscava espaço atrás de morros no horizonte quando Perpétuo estava já com a cabeça inclinada sobre o vidro que dá visão ao pátio central do aeroporto. E assim viu aquele Airbus-A320, de detalhe azul, escrito bem grande Aerolíneas Argentinas, levar embora quatro anos de namoro. “Não é qualquer homem que perde sua mulher para Cortázar, Esquivel e Borges”, pensou Perpétuo. E enquanto fumava o primeiro cigarro do dia, numa das pequenas poltronas de couro rasgado do lado de fora do aeroporto, teve emoção suficiente para se irritar com um bando de argentinos que tiravam suas luxuosas malas da van para retornar. Como se não houvesse mais nada o que pensar e dizer, resolveu fazer os dois, ao mesmo tempo, discretamente: “Filhos da puta!” Só não arranjou confusão ali mesmo porque os hermanos ignoraram o caso. Mas Perpétuo queria descontar tudo naquele “time de pólo” que visitava o país que julgam ser uma farra. Marginalia!
O primeiro e-mail já veio com o endereço do remetente mostrando seu serviço: eucaria@uniba.com.ar. Qual outro da Universidad de Buenos Aires teria um nome como Eucária? Num texto com erros em demasia, coisa rara para Eucária, o que denunciava a pressa com que foi escrito, a mulher mandava saudações e limitava as palavras típicas de namoro a um “tudo vai dar certo”. Àquelas alturas, nem a Velhinha de Taubaté acreditava naquilo.
De qualquer forma, não havia um santo dia de semana ou um tedioso domingo em que Perpétuo não se erguesse da cama, de olhos arregalados e corpo rijo, pensando em visitar para sempre “esta brasileira que está a aprender e ensinar numa universidade castelhana”. Nunca trabalhou tanto, e nem tão mal. Com uma barba esparsa porém longa, Perpétuo voltou – seis meses, nove dias e três horas depois – ao aeroporto em que deixara ir Eucária. Era para recepciona-la. Quem dera! O guichê da Aerolíneas Argentinas estava vazio e uma atendente de cabelos e pele morena lixava as unhas. Não querendo atrapalhar ninguém, voltou ao lado de fora do aeroporto. Sentou na mesma poltrona – que agora já tinha um rasgo muito maior no couro – e fumou de novo o primeiro cigarro do dia.
– Para Buenos Aires, tá? Dia 12 de março, o horário da manhã mais barato.
A atendente foi tão objetiva quanto ele, mas sem grosserias.
– Ida e volta custam US$ 900,00, já com a taxa de embarque – respondeu ela. A morena fixou seus olhos à face de Perpétuo, esperando alguma coisa, algo do tipo puxar a carteira do bolso e pagar de uma vez. Mas ela não sabia o que se passava. Portanto:
– Só ida – disse ele, com um tom tão autoritário quanto firme na voz. Foi a deixa para a atendente perceber a afobação.
– O senhor tem que voltar.
Perpétuo guardou as passagens numa das gavetas de seu guarda-roupa. Uma gaveta que costuma exalar perfume de maçã verde, sabonete Dove e xampu Seda. Porém, há mais de seis meses estava vazia e, nos ataques noturnos de saudade não-correspondida, ele a abria e sentava em frente ao guarda-roupa. Da gaveta escancarada parecia sair milhares de pequenas Eucárias, todas elas recém vindas do banho. O passaporte e o tíquete de viagem iriam ficar perfumados.
Mesmo com as ligações esporádicas e com as trocas de correspondência eletrônica, ele sempre escondia a viagem. Aparecer de surpresa era tão brega quanto romântico e aventureiro. Como o rapaz fosse bem isso tudo, adorava fazer as coisas para Eucária no roda-pé dos pensamentos. No dia da viagem, ela tentou ligar para a casa de Perpétuo durante a tarde inteira. Queria contar como presenciara a participara de mais um tango em La Boca. Mas aquelas ligações de preço descontados nos domingos não iriam ser respondidas naquele 12 de março.
O Aeroporto Internacional de Ezeiza era desproporcional à fama de elegância da cidade. Quando Perpétuo desembarcou em Buenos Aires, não deu muita bola para alguns xingamentos que ouvira de dois jovens vestidos de azul e amarelo. “Hijo de puta”, teriam dito. Enfim, fez questão de não querer escutar, mas tudo era por causa da camiseta que na frente trazia escrito CBF abaixo de cinco estrelas. E nas costas: Ronaldinho Gaúcho.
Foi com esta camiseta que ele entrou nos portões brancos mas enferrujados da Universidade de Buenos Aires. Como tudo aquilo fosse muito mais convidativo ao estudo do que as melhores universidades do Brasil, ele resolveu resmungar para si mesmo a ausência de árvores no local – algo que demorou a perceber. Mas não tinha insistido num namoro de quatro anos, acreditado numa vida inteira que ainda nem sabia se aconteceria, para chegar a Buenos Aires e reclamar de um verde do qual nunca fizera tanta questão.
Quando ingressou no corredor que leva ao departamento de estudos de línguas latinas, o rapaz avistou um muro que servia de suporte para um imenso desenho. De barba preta e grossa, e com um charuto que deixava escapar uma fumaça pesada, Cortázar observava o local sob a forma de grafite. “Um belo desenho”, reconheceu, já se acostumando com a universidade depois de tanto ter caminhado por ela atrás do tal de departamento de estudos onde estava Eucária. Quando parou em frente à porta, de um negro envelhecido, leu por três vezes a placa: Eucária dos Santos. E, logo abaixo numa fonte bem menor, se lia: Profesora visitante. Era uma sala só dela, a princípio. Dou uma ou duas? “Duas, sou afobado mesmo”, pensou o aventureiro. Ergueu o braço direito e cerrou o punho: toc toc.
Ela poderia não estar na sala. Mas a porta se abriu mais rápido do que o nervosismo do rapaz poderia agüentar. E como quando as coisas são feitas com a insistência que só o coração permite, e com a destreza que apenas o amor proporciona, Eucária falou pelos dois quando o viu estanque naquele corredor de Cortázar com uma mochila verde e estufada nas costas:
– Perpétuo.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 03:22 Comentários:




2.10.07

Quem é?
Guilherme Póvoas
Três batidas no peito, um aperto forte no coração e duas golfadas pelo nariz. Braços abertos, estirados sobre a mesa de trabalho. Duas semanas no hospital. Corredores de paredes cinzas e roupas verdes de doutores e aventais brancos de enfermeiras. Eram as cores da melancolia.
- Infarto, só isso - noticiou e comentou o médico, sem preocupação alguma após ter salvo a vida do velho.
Livre, por ora, o velho Gregório pensou que a morte deve aparecer daquela forma – dando três fortes toc-toc próximo ao pulmão e soprando forte o coração. O resto se faz sentir por todo o corpo. Manejou com cuidado a cadeira de rodas para o lado, não queria chegar à porta do hospital sentado num carrinho de doente.
- Eu não sei dirigir, dona enfermeira - satirizou ele, com um sorriso sincero de dentes amarelos, colocando sua locomoção distante de seu leito.
Das vestimentas que usara nos 14 dias de hospital, levou apenas as desgastadas alpargatas. No mais, não queria muita coisa que lembrasse os tempos cinzentos de passarinhos verdes e brancos – bons e ruins – que avistava enquanto esteve enfermo. Antes de sair, ainda fez uma última visita na sala do doutor para últimos conselhos. Aquilo que ouviu reafirmou a vontade de se livrar das lembranças hospitalares a partir do infarto.
- Esqueça que teve este infarto. Vá viver sua vida, por assim dizer, normalmente - arrematou o médico. O resultado foi um Gregório de sorriso mais estonteante ainda. E a carteira de cigarro, mais escondida que guardada, no bolso do guarda pó do doutor, lhe dera mais vontade de fumar ainda. Já eram duas semanas sem cigarros. Ele até tinha vontade de uma vida regrada, com suco de laranja pela manhã, alface no almoço e beterraba com cenoura no jantar.
- Mas este tipo de vida só é colorida enquanto o prato está cheio - pensava Gregório, incapaz de se desfazer dos prazeres culinários mais saborosos e menos saudáveis. Quando deixou o pátio do hospital, ainda olhando os passarinhos brancos a cuidarem dos enfermos, prometeu para si mesmo que só voltaria ali para morrer de vez.
O táxi que havia deixado Gregório em frente ao seu apartamento nem havia dobrado a esquina, o velho já entrara no Bar do João. Pequeno, mas de boa comida caseira, o local dera alguns dos prazeres mais especiais para Gregório desde que ele ultrapassara os 55 anos. Já havia jogado por ali bisca, pontinho, canastra e jogo de damas. Ultimamente, as máquinas de caça-níqueis ligadas o dia inteiro – escondidas no fundo, atrás do balcão - era a nova diversão dos conhecidos de Gregório.
- Porcaria! Estes velhos agora se viciaram nesta merda eletrônica e esqueceram o que é jogo de verdade - reclamava Gregório toda vez que encontrava a mesa vazia e os conhecidos sentados em frente à enorme máquina preta que “piscava e comia o bolso destes babões”. Ao chegar aquele dia no Bar do João, o velho pediu um filé a cavalo sem arroz e, assim, tirou aquele gosto de comida de hospital que lhe obrigava a palitar os dentes depois de toda refeição.
- Gregório, não morre tão cedo. Estávamos a falar de tua pessoa, pois - exclamou um idoso português, amigo de bar do velho. Ele teve que explicar o que aconteceu, o hospital, as duas semanas. Alguns já sabiam, outros não. Enfim, para estes que estavam cientes do estado de Gregório, este reclamou:
- E nenhum de vocês foi me visitar, seus cornos!
Amigos relapsos, mas que sentiam a falta do velho para um baralho. Antes de comer tomou uma cerveja e bateu o isqueiro para acender um cigarro. Depois, tomou mais uma, e outra. Acompanhado da carteira em maço. “Três, vou embora”, exclamou Gregório, olhando para João, dono do bar, e fazendo um sinal com a mão, referência clássica ao “anota a conta”.
Quando abriu a porta de casa, o cheiro ocre de vazio e velho deixava a sala ainda mais asquerosa. O dia estava cinzento, com aparência de chuva. Talvez por isso, Gregório abriu bem as janelas e as cortinas. “Lá fora está combinando com aqui dentro”, pensou ele. Um jovem desconhecido que entrasse no apartamento diria que ninguém mora ali há anos, talvez por década. Mas havia se passado apenas duas semanas sem Gregório. Nem fantasma, nem alma, nem espírito dormira por ali. Já que se safara da morte “por um fio de cabelo de bebê louro”, como disse a enfermeira, iria agora acreditar em outras coisas além de dinheiro, solidão e em Santo Antônio “naquelas horas de desespero, sabe?”. No momento, todos os fantasmas - do Geléia ao Patrick Swayze - eram bem-vindos. “Qual deles vai descer para pegar as minhas correspondências acumuladas”, pensou, meio que falando em voz baixa e olhando para o nada.
Antes de chegar no último lance de degraus, enquanto ainda procurava a chave da caixa de correspondência, sentiu um toc único na porta do peito. Parou. Se apoiou no corrimão e deu uma forte inspirada para inflar os pulmões. Olhou para os braços, para os lados - respirava lento, de propósito - e continuou a caminhada até suas cartas. “Só não vai ser fácil subir este degraus.” O corredor era imenso, ainda cheirava a urina de cachorro que as senhoras do prédio permitiam acontecer. Eram velhas que Gregório considerava tão nojentas quanto inválidas – mas estavam sempre marcando presença no prédio, seja pelo seus berros, pelo latido de seus cachorros ou cadelas, pelas suas vontades quanto à arquitetura interna do local, ou pelo nauseante cheiro de seus perfumes, usados à exceção e que fazia aflorar um asco imenso em Gregório.
- Este é o cheiro da infelicidade - comentou uma vez com o porteiro do prédio, logo após uma destas solitárias senhoras passou pelo hall segurando um pequeno cão de pelos brancos no braço direito.
Nas correspondências, apenas propagandas e cobranças. O panfleto que mais lhe chamara a atenção foi um que conclamava os jovens ao Exército. Com 62 anos, Gregório nunca havia colocado o pé dentro de um quartel, coisa que o fazia gabar-se desde os 18 anos, quando jurou a bandeira pela primeira e derradeira vez. Além disso, o carteiro também deixou para ele a conta de água. Gregório tinha certeza de algum vazamento em seu apartamento. “Era muita água para pouca sede de vida!” Deu meia volta, rumou até as escadas. O medo de um novo infarto o fez - pela primeira vez - lamentar que o prédio não possuísse um elevador, mesmo que esse “luxo” acarretasse numa multiplicação nos números das despesas de condomínio. “E eu tenho que subir até o terceiro andar”, pensou Gregório.
Foi nas passadas feitas no jogo de escadas do segundo pavimento que Gregório sentiu um outro toc. Parou. Dois, três segundos. Não mais que isso e continuou a erguer, pé por pé, perna por perna, com as alpargatas surradas.
Arrumando com a mão direita seus cabelos grisalhos que se haviam bagunçado durante o exercício nas escadas, procurando com a mão esquerda a chave do apartamento em seu bolso. Já começava a tatear toda sua perna: em algum dos bolsos desta calça estava a chave. E, como não a encontrasse, ergueu o braço e bateu à porta.
Toc. A morte a abriu prontamente.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 22:33 Comentários:




7.8.07

Três dias de sol
Guilherme Póvoas

Quando acordou, três dias depois, continuava sem acreditar. Estava cansado, abatido ainda. Mesmo depois das 72 horas de olhos fechados. “Vai, dorme aí e não conta nada para ninguém”, sugeriu o irmão, com olhar de ordens, antes de fechar a porta do quarto. Sem desejar um pouco sequer, obedeceu de alguma forma as palavras do mais velho. Quando acordou, três dias depois, continuava sem acreditar.

Joaquim despertou Marcos pelo pé. E nem teve muito trabalho: naquele frio de inverno onde nos jornais só se lia declaração de estudiosos do clima, não precisou muito para o caçula abrir os olhos e enxergar a lata do irmão, com a boca de sorriso e os olhos arremelados. “Vamos, vamos que hoje o dia vai ser divertido”, atiçou Joaquim, prometendo tudo aquilo que uma criança deseja. Típico de um início de férias de inverno. Os dois foram “enviados” à chácara do tio, no interior mais frio do Rio Grande do Sul. “É passando São Francisco de Paula, mas antes de Cambará, senhor Rodrigo”, explicou a mãe ao motorista, que levou junto uma carta de agradecimentos aos tios , que “tenham paciência, só mais esta vez”, finalizava a epistola.
Seriam dez dias a fio – descontando o dia inteiro de viagem – onde Joaquim poderia provocar Marcos, e Marcos fugir de Joaquim. Tudo à vontade. Tudo a ser apagado no final das férias. Tio Flau e tia Iê juravam não se incomodar com a visita, mesmo que a fome dos dois denuncia-se a idade: 10 e 12. “Larguem as coisas lá em cima e venham já comer, chegaram ainda na hora da janta”, avisou Iê, na noite em que os dois entraram na chácara à procura de cachorro para chutar e passarinho para assustar. Porém, como quem sempre quer por banca acaba sem cadeira para sentar, os dois moleques, que chegaram atrevidos e levados nos campos da Serra gaúcha, iriam voltar sem olhar para trás.

Marcos seguiu Joaquim até o fim da cerca “para ver onde iria dar”. E o caçula nem titubeava em fazer o que seu irmão decidia – era um Sacho Pança melhorado. Quando avistaram o fim do cercado de arame farpado, que dizia ter acabado as terras do vizinho dos tios [o Estancieiro, como era conhecido], Joaquim teve que assustar um boi de pêlo bem preto que estava entre a estrada e a estância. Para Marcos, aquilo era perigo extremo e, como conseqüência, adrenalina de fazer os olhos brilharem. Mas, diferente da razão que dava coragem a Joaquim, o boi preto não foi se afastando para o lado, voltando para as terras do Estancieiro.
Olhos brabos, tão pretos quanto os pelos. Visão pétrida, fixa. E, de repente, as ancas se voltam para cima e a cabeça começa a se aproximar do chão – as patas dianteiras enrijecem. “Ah tá! Só falta bufar agora”, gracejou Joaquim, com um sorriso que diminuía a cada secada braba do boi. “Mano, acho que este bicho vai atacar”, alertou Marcos, com a sabedoria sobrepujando a ingenuidade das crianças. Joaquim ainda chegou a exclamar um “que nada”. Logo em seguida sua vontade era dizer “o tio falou que eles são todos mansos”. Mas não deu tempo de completar. Joaquim se virou e Marcos já estava correndo. Eles, que sempre correram por alguma travessura, com graça e ironia na cara, agora fugiam apavorados, com os chinelos entre os dedos da mão. “Tira o chinelo que se corre mais, Marcos!”
Joaquim foi o primeiro a perceber. Num misto de surpresa e interesse, estancou a corrida e gritou para Marcos fazer o mesmo. O boi preto não estava mais no horizonte. Ao mesmo tempo, o sol foi encoberto por alguma nuvem muito escura, que fez uma sombra intensa sobre os dois moleques. Enquanto se olhavam, boquiabertos, Marcos foi o primeiro a notar: “E tem a forma de boi. Ou será de vaca?” Enfim, não dava para perceber se tinha chifres ou não. “Sei lá! Mas está voando”, constatou, sem acreditar, Joaquim. O caçula ainda cutucou: “E ele nem faz barulho para isso, né?” Mas seu irmão estava absorto naquele fato. Olhando, olhando, ainda boquiaberto. E, quando de apavorado Joaquim passou a maravilhado, Marcos perguntou: “Mano, isso não é estranho?” Era, de fato, mas para as crianças, aquilo tudo vale muito mais que qualquer história. nem na estância, nem na chácara, e muito menos na cidade aquele caso iria passar de lorota.

Depois de dormir três dias seguidos, Marcos descobrira que Joaquim não havia cerrado os olhos durante todo aquele tempo. “Como?”, era só isso que dizia e perguntava o primogênito. Algumas vezes acrescentava um “mas” à frase – para não parecer repetitivo. “Não faço nada há três dias senão descobrir como”, explicou ao caçula. E, para isso, se valeu da Barsa do tio Flau. Nada. Dos contos sobre bois e vacas que são falados pelos empregados da casa de baixo. Nada. Das poucas lembranças das aulas. Nada. “Ora, férias”, explicava-se. Enfim, voltaram para a casa dos pais, na cidade. E, ao descerem do carro, perceberam que o sol estava diferente. Era sol, sem nuvens, tão pouco bois preto, mas não era a mesma coisa. Joaquim e Marcos viveram, viveram, mas nunca usaram óculos de sol, boné, guarda-sol. Nem mesmo ousaram levar a mão à testa para assistir lances do jogo sentados nas ensolaradas arquibancadas do estádio. Tudo involuntariedades de um dia às voltas com a desconhecida natureza.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 01:33 Comentários:




21.7.07

Artúrio Mozefa
Gabriel Silveira
O sono é franco às noites. Mas não às tardes, quando o silêncio é o acidental, quando os brios esquentam à luz do sol navegando no ritmo das máquinas que machacam o tempo. Minguado em forma, discretíssimo em sons, mas determinado nas sensações, é o sono das tardes, uma de suas espécies menos estudadas, mas entretanto um dos que mais expõe homens e mulheres às suas artimanhas bucólicas. Não são poucas as vezes em que, à hora do almoço, o sono encrava-se à região mais elevada de nosso orifício encargado da alimentação - ironicamente denominado "céu" da boca - e põe-se, desde aí, a buscar sítio para suas canções taciturnas e ações chamadas "contra-horárias", manipulando nosso sistema nervoso que se vê implicado em ridículos desvios de conduta cronológica.

Uma das conseqüências mais comuns deste mal é o neurodistúrbio frontal dos maxilares, também conhecido como bocejo. São diversos os tipos de bocejo. Muito conhecidos são o foice-e-martelo (que dura até que a face fique totalmente enrubescida) e o caça-vampiros (decorrente da alimentação carregada com os elementos da família dos alliaceae, como alho e cebola). Mas também os menos conhecidos irrompem nos sonolentos da siesta, como o bocejo engole-besouros (que se desenvolve de forma muito singular, com a boca quase fechada e com um leve soluço no final, como se o inseto, que o dá nome, entrasse pelo pequeno orifício do gesto até chegar à garganta do sujeito) e o trem-da-meia-noite (que possui a maior abertura bucal de todo o mundo dos bocejos e, de tão silencioso, pode passar desapercebido, excluindo-se o caso de flagrante visual, que normalmente pode ser evitado com o auxílio de um simples fólio).

Outro problema comum - dos inúmeros que são conseqüência dos ataques silenciosos do sono das tardes - é o refluxo inconsciente de idéias, popularmente conhecido como o "sonhar acordado". São diversas as toxinas que o corpo produz para chegar a tal ponto, as mesmas que geram outros diversos distúrbios emocionais, como as paixonites e as depressões, mas nenhuma de ambas motiva tanto dito refluxo como o sono das tardes. São milhões os que se põe, a diário, a misturar realidade e sonho, mundos tão paralelos como distantes, enfiando seus pés em um, enquanto suas cabeças já estão em outro.

Se o sacro ministério da saúde pública houvesse decretado já um grupo de risco aos ataques do sono das tardes, certamente Artúrio Mozefa faria parte dele. Agora mesmo está atirado em sua grande cadeira equipada de rodinhas e furos de cigarro, combinando com sua camiseta das últimas eleições - pelos furos, não pelas cores, visto que o vermelho das estrelas do candidato destoa do bege manchado do estofamento. É bem verdade que nem preciso levantar-me, ir até a entrada de meu pequeno despacho, escorar-me levemente na porta até que um suficiente vão me permita a visão completa de Artúrio. Assim mesmo o faço, talvez como uma forma de passar o tempo que titubeia no relógio, talvez como uma doentia e apaixonante maneira de massagear-me o ego, tão vital ego que me rege nesta vida insossa. Não pensem que não me pergunto o porquê de deixar-me levar por tão tola ânsia. Afinal, por que um homem tão pronto para ganhar, tão desenhado para estar no topo, simplesmente deixa tudo de lado para desaguar suas atenções em um ser tão mórbido quanto patético, feito Artúrio Mozefa. Mas basta com que surja a silhueta tão desastrosamente pincelada sobre a cadeira, com que reponte sob o emaranhado graxento de seus cabelos a piriforme cabeça levemente descentrada do tronco, basta com que me assalte a visão dos gordos ombros que lutam sem sucesso por alinhar-se, para que qualquer das minhas razões abandone as tentativas de devolver-me à lucidez – afinal alguém nunca é ou está lúcido, à lucidez ou se pertence ou se é estrangeiro – e me entregue de corpo e alma ao deleite masoquista de observar a miséria humana, tão bem representada neste desprezível ser, como uma forma de contemplar a mim mesmo, atestando-me do distante que estou da escória humana.

Não fosse esta distração em meio às minhas jornadas laborais, eu certamente já estaria com um cargo e um salário muito mais convincentes do que os atuais, a mim outorgados por um concurso fajuto que fiz para este mísero posto de coordenador de projetos. Talvez a única vantagem que tal cargo me permita – e uma das únicas coisas que extraio de proveitoso desta rotina infundada – é a de ser responsável pela busca e seleção dos estagiários necessários aos projetos de minha alçada. Usualmente não passam de dois, e, por políticas da empresa, não há qualquer restrição para as contratações, que não as que eu mesmo encontre e imponha. Assim que acabo sempre por ceder à minha maior virtude, a de admirador do prazer e da liberdade, e contrato jovenzinhas que, durante as entrevistas, me pareçam mais bem estimuladas para o trabalho, no melhor sentido que a palavra poderia possuir. Não me importa que no final eu necessite tocar o projeto sozinho. O primordial, para mim, é disfrutar o possível do pouco poder que meu posto oferece.

Meu problema surgiu, vale lembrar, no dia em que pensei ter finalizado meu último processo de seleção. Eram já as doze e lembro do escritório absolutamente vazio, dividindo espaço comigo somente as fotos de alguns currículos que eu comparava atentamente, o que fazia para distrairme do calor infernal. De repente, sentí que uma aura pesada e mal cheirosa entrava pela porta, mas tão forte que até pensei ver uma sombra aplastada de vermes arrastando-se pelo chão. Imediatamente fui até a janela, mas não encontrei mais do que o sol debruçado sobre as casas e o mundo que suava feito um porco escaldado. Nunca havia visto Madrid assim. Voltei até minha cadeira, o controle remoto fez despencar a temperatura do ar-condicionado e relaxei por um segundo, libertando meus pensamentos simplesmente para saber até onde iam. Foi a primeira vez que vi Artúrio Mozefa. Levava uma camisa branca-amarelada de mangas curtas, com dois grandes círculos de suor marcando a região das axilas, o colarinho por passar e ainda identificável somente por uma gravata listrada marrom e negra, que quase o estrangulava. Como os vidros de meu escritório são espelhados, não podia ver-me desde o lado de fora, por isso grudou uma de suas mãos gordurentas na janela, tentando avisar alguém de sua inóspita e incômoda presença. O natural, para mim, seria simplesmente ignorar que aí estava, inclinar a poltrona até que me permitisse um ângulo perfeito para recostar-me as pernas, fechar os olhos em harmoniosa e condescendente sincronia, para depois, e somente depois de entregue à escuridão dos sonhos, jogar triunfalmente os braços para trás, sustentar a nuca com a palma de cada uma das mãos e acolher-me em um sono petulantemente tranquilo. Naquele dia não. Naquele dia, levantei-me da poltrona esforçando-me para transmitir um ar de desentendimento, fui até a porta e dei com a cara abatida e em decomposição de Artúrio, preso que estava aos mais de quarenta e três graus daquela tarde. O pior era a umidade, mas umidade em Madrid? Me disse que estava ali pela vaga de estagiário, bla bla bla, a vaga já está preenchida, blé blé blé, sabe-se lá por que razões infames do destino lhe abri a porta, ele entrou e, assim, nesta tarde pegajosa de fevereiro, iniciou-se uma história de devota admiração por toda a marginalidade e a conseqüente pureza que Artúrio representava. Dois dias depois, estava decidido sobre meus estagiários. Um deles, uma jovem mexicana de dezenove anos, Mariana, porque tinha a certeza de que logo estaria em minha cama. O outro, Artúrio. Por incrível que parecesse, Artúrio Mozefa.

Lembro que, nas primeiras reuniões sobre o projeto, já tomado pela curiosidade sobre sua figura, eu sempre lutava por descobrir novas maneiras de estender nossos encontros, inventava problemas, levantava questões absolutamente dispensáveis, propunha temas, exercícios, mil maneiras de encarar cada questão, até que, ao final da tarde, como último refúgio, lhes convocava a uma cerveja, todos precisamos relaxar, me acompanham? Não lhes restava outra se não acompanhar o novo chefe, vá lá que este é daqueles que por qualquer coisa se magoa, não vá lá nos chutar do emprego por não ir a um happy-hour. Íamos, os três, sentar-nos em um bar vasco da Bravo Murillo, até que algum resquício de responsabilidade me obrigava a dispensá-los.

A verdade é que, nestes tempos, eu ainda não estava consciente de minha aficção. Minhas ações e comportamentos eram regidos por uma vontade que ainda não havia brotado, como um cogumelo que jaz em vida, escondido na umidade de um porão eternamente encerrado. Fui abrir dita porta, e dar-me conta da situação, quando me flagrei pela primeira vez acocorado atrás de um vão do exaustor, pelo qual as duas salas – a minha e a dos estagiários – respiram entre si. Estava atento vendo-o manejar a copiadora – certamente xerocando para os amigos mais uma das infinitas piadas que recebia em seu email diariamente – e não me importava um pepino se iam para as cucuias os cartuchos de tinta e os estoques de papel, o único que me consumia era a maneira tosca incapaz de pressionar os delicados e singelos botões da pequena máquina, a torpeza ao mover as folhas, esmagando-as com seus grossos e sudorentos dedos, a inquestionável ausência de escrúpulos – chula palavra, escrúpulos! – de sua genética, que o imprimia um caminhar quase enigmático entre o ar que caía morto ao seu lado, incongruentes que eram.
Qualquer outro, que também conheça a Artúrio Mozefa, bem poderia gastar-se aqui, defendendo-o de tamanhas acusações e infâmias (elogios?). E talvez falasse com muito mais razão e autoridade com as quais eu o faço. Também admito que Artúrio não está entre os mais repelentes seres deste mundo, mas é um exemplar admirável de tão dispersa e variada espécie. E também foi o único que adentrou minha porta. Fatalidade do destino? E mais: o admirador, que de certa forma o sou, constrói o mito de acordo com a visão sonhadora que tem do homem. E esta, muitas vezes, ultrapassa a realidade com uma leveza cor-de-caramelo que só as fantasias podem ter.

A verdade é que, passados alguns meses, eu estava feliz. Artúrio me fazia feliz, a sua maneira. Eu utilizava as primeiras horas do dia, além de grande parte das noites, para adiantar o trabalho diário, o mínimo essencial para o bom encaminhamento do projeto. Depois deslizava minha cadeira até a porta da sala, abrindo um vão na exata medida para que pudesse analisar os movimentos da sala contígua. Passava tanto tempo aí, absolutamente imóvel, que muitas vezes cochilava, exausto, sobre o trinco da porta.

Foi numa destas oportunidades, nas quais entregava-me ao sono depois de alongada vigília, que Mariana deu-me com a porta na cabeça, ao vir pedir-me que assinara uma folha de cheque, e caí estatelado abraçando-me ao chão. A desculpa que dei me caiu do céu. Lhe disse que espiava a ela, que já me tinha consumido pela forma que roçava uma perna na outra, que ficava horas a imaginar o calor quente que escondia-se sob os saiotes justos que sempre levava e que naquele dia, sem falta, necessitava que ficasse até mais tarde, revisando alguns documentos comigo. Então pôs uma cara assustada e esboçou um choro quieto.
- É uma piada – lhe disse.
Ela respirou fundo, sem desmanchar a expressão de susto e ficou em silêncio.
- Menos a parte de ficar hoje pela noite. É realmente indispensável para o projeto. Sabes que estamos na reta final.
- Sim, senhor, respondeu disfarçando um sorriso. Aí virou, forçou a porta que eu mantinha escorada e voltou ao escritório.

Às seis, Artúrio se foi. Mariana veio bater em minha porta por volta das seis e quinze, carregando uma pasta cheia de documentos e uma lapiseira encaixada entre os dedos.
- Um segundo, - lhe disse - sente-se enquanto termino um e-mail.
Pôs-se na cadeira em frente à minha mesa, mas não me dirigiu o olhar, que manteve na janela de vidros espelhados.
- Já podemos começar. Lembra do que conversamos antes?
- Dos documentos do projeto, claro, estão todos aqui. Jorge Motta me ligou hoje e confirmou que a numeração do exped...
- O outro tema.
- As faturas?
- Outro.
Ela respondeu pondo a mesma expressão assustada da tarde, comprimiu as mãos e se reajustou na cadeira.
- Que outro? – perguntou, visivelmente conturbada.
Então levantei de minha poltrona, contornei a mesa e sentei-me na cadeira ao seu lado.
- O tema que realmente me interessa – disse e levei as mãos às suas coxas, levantando sua saia até ver suas justas calcinhas. Algodão, quem diria, algodão! Ela tentou levantar-se e eu a segurei, apertando com força minhas mãos contra suas pernas.
- Mariana, é um tema indispensável de trabalho. Está tudo incluído no seu salário – afirmei, levando os dedos até suas nádegas – Não está?
- Por favor, por favor...
Mas eu já lhe erguia com as duas mãos, já lhe traía erguida até meu colo, já lhe beijava o pescoço e, de cada lágrima que lhe brotava, mais me contaminava a vontade de penetrá-la com força, deslizar por entre suas coxas douradas que já a mantinham de quatro, respingando do suor que exalava. Virei-a de barriga pra baixo e penetrei-a suavemente, forçando com os dedos a calcinha até quase arrebentá-la. E vendo como sua pele dançava ao ritmo do seu suor, sabia que me tinha asco, que me tinha nojo. E meu gozo, por isso, era maior.

No outro dia pela manhã, quando cheguei, Mariana não estava. Artúrio estava em sua mesa, fingindo trabalhar, e me cumprimentou com certa aspereza.
- Mariana ligou. Se sente mal, não virá pela manhã.
- Okay.
- Quando saiu daqui, ontem à noite, ela estava bem? – me perguntou, de uma forma que não pude deixar de interpretar como uma espécie de desafío, como se ele soubesse de tudo que havia passado.
- Claro, parecia bem. Ligaste o ar condicionado?
- Não.
- Melhor. Precisamos guardar energía para quando chegue a tarde. Dentro de um mês teremos que prestar contas.

Entrei direto em meu escritório e, como sempre ocorría, me martirizei pelo que havia passado, fiquei imaginando em todos os problemas que poderia acarretar-me. Depois terminei dois relatórios que tinha pendentes, recostei outra vez na poltrona e passei o resto do dia tranquilizando-me, afinal já era um fato tão banal, uma espécie de costume destes horríveis que se herda da família ou do grupo de amigos e que, exatamente por isso, nos parece tão natural e legítimo, incontestáveis, digam o que digam.

Por isso voltei a fazê-lo. Passaram-se dois meses e, ao menos uma vez por semana, dizia a Mariana que ficasse, às vezes hesitava, implorava para que eu não o fizesse, mas quando lhe tocava com os dedos entre suas pernas, sentindo o caldo quente e cheiroso que lhe empapava a calcinha, quando lhe roçava a língua nos mamilos alertas e aveludados, não fazia mais que silenciar e aceitar sua posição. Talvez por isso tenha me cansado de Mariana. Não dela, em si, mas do jogo que jogávamos, do movimento das peças, do mesmo tabuleiro. E também porque comecei a ver que Artúrio desenvolvia uma espécie de carinho protecionista por ela, podia ver em seus olhares, nas palavras que escolhia. Não sei bem se por uma espécie de ciúme - não por Mariana, mas por Artúrio - e de não ser mais o único gestor de tão nobre e altruísta sentimento que significava apreciá-lo, comecei uma vigília implacável sobre ambos. Instalei câmeras no escritório e todos os dias, ao final da tarde, fazia questão de segui-los na saída do trabalho. Criava desculpas para manter a porta de minha sala aberta, os obriguei a mudar suas mesas de posição dentro do escritório para manter um campo de visão completo e até criei horários alternativos para que saíssem a almoçar por separado. Depois de algumas semanas, me vi obrigado a dividir tarefas específicas para cada um deles e deixei de ir às reuniões para gerentes de projeto nas sextas-feiras, com o único intuito de não deixá-los a sós.

Faltava apenas uma semana para a entrega do projeto e meu estado de nervos me impedia qualquer tipo de concentração no trabalho. Tinha a certeza de que Artúrio e Mariana estavam juntos, ainda que não encontrasse prova alguma disso. Mas também já considerava a possibilidade de que tudo não pasasse de efeitos colaterais de minha obsessão por Artúrio. Pela quarta vez naquela semana, pedi a Mariana que ficasse até mais tarde. Artúrio se foi a casa com um rosto feliz, com uma expressão de tranquilidade estampada no peito. Estava especialmente pitoresco naquele dia: vestia uma calça de abrigo azul, os cordões dependurados na região do largo ventre, a regata desenhando o formato da barriga até o largo vale que a separava dos peitos, as grandes tetas femininas que lhe desfiguravam o corpo, os ombros salpicados talvez por um potencial câncer de pele, a barba empapada roçando o peito. Quando passou pelas janelas de minha sala, já do lado de fora da empresa, pude ver como me encarava com seu sorriso amarelado, sabia que eu estava ali, atrás dos espelhos, e me desafiava, aumentando minha tensão. Mariana entrou sorrindo em meu escritório, perguntou-me em tom de deboche qual o trabalho que estava pendente para aquela noite. Eu, com os pelos eriçados, me deixei cair de joelhos no carpete, abraçando-lhe o ventre. Enquanto ela, assustada, tentava evitar-me, eu lhe implorava que me amasse, lhe pedia, inundado em terror que estava, que me protegesse, que me perdoasse, que me salvasse. Então ela respirou fundo, ergueu-me por debaixo das axilas e falou secamente, olhando dentro de meus olhos:
- Te levo à minha casa.

O outono já chegava em Madrid e, como todos os outonos madrileños, trazia um ar de alívio e esperança. No céu, um avermelhado rubi escorria detrás da Catedral de la Almudena e do bairro de La Latina. Já o dia escorregava detrás do horizonte quando chegamos a sua casa. Estávamos em Aluche e eu cochilava no banco do caroneiro. Ela desligou o motor, passou a mão carinhosa sobre meu cabelo e me convidou para entrar.
- Não tens do que desculpar-te. Vem comigo, vou cuidar de ti.

Era um casa pequena e humilde, mas o local me pareceu muito reservado. Me levou até seu quarto e me disse que esperara na cama.
- Vou buscar algumas coisas, mas volto já. Deita, relaxa e não se preocupe com mais nada.

Não sei exatamente em qual momento comecei a perder a noção do tempo. Creio que a espera por Mariana, que nunca voltava, me levou a mergulhar em um mundo de pensamentos, me induziu a refletir. O teto era de uma madeira acizentada e todo o quarto seguia a mesma aura incolor. Da grande janela que dava ao pátio, entrava uma forte luz amarelada, que me impedia distinguir o movimento das árvores no horizonte negro. Lembro de movimentar meus dedos contra a luz e pensar que seria divertido que Mariana nunca mais voltasse. E de notar que os lençóis dançavam sobre o meu corpo, fazendo-me girar no ar até encostar a ponta de meu nariz no teto cinza e novamente voltar à cama para recomeçar o percurso. Sabia que algo havia mudado, alguma regra enfim havia sido quebrada e até imaginei que a sensação que me invadia poderia ser chamada de liberdade. Então percebi que já não estava na cama, mas na sala e que Mariana estava a meu lado. Eu andava lentamente, em silêncio, com a mão direita segurando uma faca e o outro braço jogado sobre seus ombros. Vi que me sorria, me olhava aliviada e tranquila e que me dava um beijo desejando-me boa sorte. Então visualizei a porta de seu quarto. Retirei a chave do bolso, destranquei-a e vi a mim mesmo deitado na cama, remexendo-me como se lutasse contra os lençóis. Cubri os olhos rapidamente, assustado, e uma secura desceu por minha garganta até a altura do estômago. Quando abri os olhos, já estava deitado novamente, agora tentando recompor-me para olhar o homem que entrava no quarto, tentando entender por que Artúrio Mozefa estava ali, olhando-me com satisfação, abraçado a Mariana, com uma alegria e um sorriso que pintavam de dourado seus contornos despoporcionais e anti-estéticos, sua boca asquerosa e seu fedor estúpido. E enquanto Artúrio sorria com a faca na mão, ainda que assustado, eu me sentia liberto, perdoado e lhe admirava mais do que nunca. Era Artúrio Mozefa, meu salvador, e lhe devolvia o sorriso até que um sono profundo invadiu-me o corpo, um sono realmente franco, como somente o sono das noites pode ser.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 21:33 Comentários:




15.7.07

Gráfica Chrislane
Gabriel Silveira
Foi de meu pai que herdei a gráfica. O maquinário, ao menos, a linotype, a tipográfica manual, o velho gaveteiro de tipos. O nome não. O nome coloquei em homenagem à Chrislane, minha mulher. Sempre fui muito creativo para estas coisas, criar nomes, motivos, letreiros. Quando meu pai morreu, trouxe Chrislane para cá e lhe disse: - De agora em diante, é aqui tua casa. Vamos viver como devem um marido e uma mulher. Aí chamei o rapaz da serigrafia e lhe disse para retirar o pequeno letreiro Impresos Márquez e substituir-lo por Gráfica Chrislane, assim lhe disse: - Chrislane, porque é o nome da minha mulher. Estava feliz por estar casado, por assumir sozinho os negócios, me sentia pela primeira vez um homem completo. Acabei tão seduzido por essa oportunidade de ser independente que a morte de meu pai não me abalou. Sentia como estivesse finalmente livre. Minha mãe, que Deus a tenha, já se tinha ido, pra mim era crescer ou crescer. E olha que custou. Naqueles tempos já completava meus trinta e oito anos e até ali não sabia o que era sentir-me como um homem de verdade. Ah, e isso Chrislane sabia fazer como ninguém. Toda manhã, quando bebia o café que preparava Chrislane, ali, ao lado dela, eu voltava a sentir o que era ser um homem. Claro, naquela época não era este café amargo que bebo hoje, nem esta broa de milho, pálida como um morto, que tenho estocada desde o inverno passado. Naquele tempo era bolo quente feito na hora, era café passado no ponto, leite morno e pão quentinho, destes que parecem recheados de vida, de calor. Aí era fácil olhar os empregados como se deve, impôr-me na labuta, nas obrigações. Era fácil ser um homem de braço firme. Era fácil porque tinha Chrislane. Mas Chrislane morreu há sete anos. Só Deus nosso protetor sabe que foi que passei, que é que ainda passo. Neste tempo, o país desenvolveu muito, todo mundo fala em oportunidades, em melhor padrão de vida, de educação, mas aqui nada disso chegou. A gráfica continua a mesma, a tinta é a mesma, os tipos são os mesmos, as resmas, a guilhotina, o chumbo, o benzeno. Pra mim esta conversa de desenvolvimento é pura invenção da televisão e dos políticos. Essa gente endinheirada querendo que o povo trabalhe calado. O político pede pra televisão falar que tudo está bem, que o povo tem poder de compra, que a economia está crescendo, que a classe média aumenta, aí o povo acredita, começa a comprar, o rei mandou, gasta tudo o que tem, se endivida, os comerciantes ganham mais, a indústria ganha mais, o político recebe voto. Só o trabalhador é que come pó nesta história toda, fica dependurado na corda, sem dinheiro e sem paz, só com a esperança de que alguém venha de lá, lhe extenda a mão, lhe puxe pra cima, lhe convide para jantar. Chrislane é que virava cuca com esta falta de condições do povo. Nunca se conformava com o pouco que tínhamos. As poucas, as raras vezes que discutimos foram por essa razão. Quando notava que estava demorando demais no banho, já sabia, andava pensando, tendo idéias, aí vem bronca. Dito e feito. Saía discursando sobre tudo, desde o preço da batata até nossa impossibilidade de viajar, de conhecer outros lugares. Que o quê? Lhe respondia. Daí pegava do seu braço, levava ela até a rua, fizesse chuva ou noite fresca, e a obrigava a olhar para o letreiro com seu nome, bem no alto, iluminado, Chrislane lá no alto, Chrislane minha luz, minha estrela, meu céu, lhe dizia. E nestes momentos ela era mais linda do que nunca, de camisola e roupão sob a confusão das luzes da lua e do letreiro. Voltávamos pra cama, nos enrolávamos e dormíamos tranquilos. Depois Chrislane morreu, nem me passou pela cabeça a possibilidade de tirar seu nome dalí, trocar o nome do letreiro. Isso sim, deixei de acender a luz pelas noites, vá saber se o fantasma de Chrislane não se incomodaria. É bem verdade, também, que há uns seis meses tentei acendê-lo de novo, mas a lâmpada estourou. Nao saí para comprar outra. Já quase não saio para comprar nada. Passo todo tempo encerrado aqui, sozinho, tocando os pocos pedidos que me restam. E pela noite fico recordando aqueles tempos, bons tempos aqueles em que passávamos as noites despertos, conversando sobre os filhos que teríamos, sobre as viagens que nos esperavam. Chrislane sorria, sorria muito. Isso é o que mais sinto falta. Daquele tempo ficou só esta mania de passar as noites em claro. Horas e horas como um soldadinho em frente a boneca chique de porcelana, sua pele de pedaço de nuvem. Hoje ainda faço o mesmo, mas no quarto dos fundos, afasto com dificuldade o armário da parede, retiro as tábuas que cobrem o buraco no chão e fico observando Chrislane com amor, com mais amor e dedicação do que nunca, sou seu marido, seu marido dedicado e fiel, seu homem. Mas agora Chislane já não tem mais o rosto tranquilo, a tez rosada, infantil, os cílios adormecidos como um campo de trigo. Agora já não reclama mais do futuro, já não perde a cabeça pelos temas pequenos do dia-a-dia, pelos pequenos vícios do homem. Agora só resta sua paz naquele buraco, um amontoado de podridão, osso, carne e a imaginação, esta minha imaginação sempre tão incrível, esta imaginaçao que ainda me permite ver aquele sorriso, o sorriso daqueles dias sob a lua, sob o letreiro, tudo aqui, tudo em minha mente. Sempre tive imaginação pra estes tipos de coisas. É só lembrar de quando chamei o rapaz da serigrafia e lhe disse: - Aqui vai escrito Gráfica Chrislane, porque Chrislane é o nome da minha mulher.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 14:46 Comentários:




7.7.07

Do sobrado
Guilherme Póvoas
Saiu do sobrado a pé
saltou de sua boca
sílabas altas – gritava
Sombrio, satírico,
sentimento de consumo
sarcástico – como sempre
Seriam sérias suas palavras?
sem mais a dizer
sustentou a resposta – sim
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 00:32 Comentários:




6.6.07

Pobre poeta: foi querer sentir o mundo e morreu do coração.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 17:22 Comentários:




5.6.07

Nostalgias não bastam para o perdão.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 12:08 Comentários:




2.6.07

Publico, aqui, o seguinte texto do Bourdoukan, porque o tema é sério e estou enlouquecendo com a falta de coerência das pessoas na análise de tal situação. O mundo mais uma vez está sendo enganado e quem vai pagar a conta é a América Latina. Deixo uma pergunta: se a Antena 3, rede televisiva espanhola, houvesse patrocinado um golpe de estado do ETA, ou se a Rede Globo houvesse respaldado publicamente um golpe contra Lula (um presidente eleito democraticamente assim como Chávez), a concessão pública (ou seja, do estado vigente, em poder do povo) deveria ser renovada?


Chávez que se cuide
Georges Bourdoukan

Estão querendo transformar o presidente Hugo Chávez em pária.O pretexto é a não renovação da concessão de uma estação de TV. Os Estados Unidos, como sempre, puxam o coro e os papagaios repercutem. Acusam Chávez de atentar contra a liberdade de imprensa. Bobagem. Logo eles. O verdadeiro motivo dessa campanha liderada pelos Estados Unidos chama-se petróleo.E exemplos não faltam.

Invadiram o Afeganistão porque segundo eles, era um abrigo para terroristas. Depuseram um governo legitimamente eleito, não encontraram os terroristas, mas aproveitaram para construir um oleoduto que lhes permite controlar todo o petróleo que vem dos países da antiga União Soviética.

Invadiram o Iraque porque, segundo eles, o país produzia armas de destruição em massa. Sabe-se agora, e sabia-se antes, que era tudo mentira. Estavam de óleo no petróleo, que agora controlam, não antes de destruir um país e assassinar 800 mil seres humanos.

E agora tentam encurralar o presidente Chávez em nome da liberdade de Imprensa. Logo eles que dominam a indústria de informação e de entretenimento. O dramático é que muita gente, inclusive pessoas bem intencionadas, acreditam em tais disparates.

Se a memória dos congressistas brasileiros não fosse tão curta não esqueceriam do pedido de Bush para se encontrar com Lula a sós na Alemanha. O propósito é um só. Neutralizar o governo brasileiro sobre um possível golpe de Estado na Venezuela. E exemplos não faltam.

Já não tentaram depor o mesmo Chávez? E quem armou tudo? Foi a tal RCTV, que nunca deixou de conspirar contra o presidente eleito. E Chávez jamais cogitou em tomar qualquer medida fora da lei contra essa estação. O que ele fez, e a Constituição de seus país lhe permite, foi não renovar sua concessão. Tudo dentro da lei. E esperou cinco anos para fazê-lo.
Esse presidente legitimamente eleito, que age de acordo com a lei, a mídia chama de ditador.
Chávez que se cuide!

Bush, que constrói muros segregacionistas, que aprova leis ditatoriais para maltratar seu próprio povo, um bucaneiro que invade e destrói nações para apossar-se de suas riquezas, que assassina centenas de milhares de seres humanos, que é contra o Tribunal Penal Internacional, que é contra os protocolos de Kioto e que está destruindo o planeta; a esse criminoso planetário, a mídia chama de presidente.

Não se enganem, somos todos reféns!
E há ainda aqueles que acreditam na existência da tal liberdade de imprensa...
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 10:40 Comentários:




27.5.07

Quero ela viva
Guilherme Póvoas
Acendeu três velas. Para Deus, para o diabo e mais uma para garantir - era o retrato do desespero. Mandou e-mail, mensagens por celular, carta, fax e... ah! mandou recados por amigos em comum. Olha, ainda acho que aquela terceira vela era para o Negrinho do Pastoreio, dizem que ele ajuda a achar - além de objetos - também pessoas, inclusive as mais amadas. Querida, desapareceu na noite fria e não voltou mais com os cigarros e o vinho argentino barato de rubrar lábios, dentes e línguas. Barato mas argentino, por supuesto. Para quem ela está olhando, ou para que belezas naturais fugiu os seus olhos. Agora, ele fica sozinho com seu estômago vazio e a cabeça cheia, respondendo às reclamações do estômago. Sem forças mais, mas em seus primeiros sinais de fraqueza. Quedou-se diante da porta, ela deve abrir. Não volta mais mesmo. E quê? Powe on. Play. Já é Simone e Sartre, não precisa mais de mim. Mas antes de andar por campos elísios ou minados de grandes morangos, ela suspirou devagar em seu ouvido: "Acredite em mim." Pelo menos foi isso que falou a amada. Agora, ela tem um imenso e veloz cavalo negro montado por um ágil negrinho a lhe procurar. Seja onde for.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 01:44 Comentários:




15.5.07

À mãe distante
Gabriel Silveira
Busquei um verso longo,
de milhares de kilômetros,
que fosse uma imensa ponte,
destas pontes disfarçadas
de árvore natalinas e que,
como todas as pontes,
ligaria lugares demasiado próximos
para estarem distantes.

Mas era trabalho para um Eiffel e cansei.

Busquei um verso lindo,
inundo de imágens e metáforas,
que fosse um reflexo dourado
deste sentimento-obra-prima
de cores alaranjadas e que,
como qualquer obra-prima,
concentraria sensações
para a eternidade.

Mas era trabalho para um Goya e enlouqueci.

Busquei um verso curto,
com mais sentidos do que palavras,
que tomasse o caminho mais breve,
belo e barato em direção aos salões
do materno coração e que,
como qualquer verso curto,
falaria com a mesma intensidade
da intensidade de um pensamento.

Mas era trabalho para um Leminsky e fui curto.

Busquei um verso cinematográfico,
com gente feito personagem,
vinte e quatro emoções por segundo
e uma hora e meia de aventuras,
perseguições amorosas e que,
como qualquer bom filme de amor,
teria final feliz
e reencontro emocionado.

Mas era trabalho para um Zefireli e fui mudo.

Busquei, busquei e busquei
um verso que fosse completo,
com perguntas e respostas,
talvez até um pouquinho de certezas.
Mas vi que nada era tudo e que
nada rima com a verdade.
E dizem que verso que é verso
da verdade não se orgulha.

Mas era trabalho para mim e fui persistente.

E não sendo Eiffel ou Goya,
Leminsky ou Zefireli,
acabei rimando assim, foi o que pude:
Saudades de ti, mãe do filho.
O filho da mãe te ama.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 09:47 Comentários:




Hay que escribir por escribir. Luego, al encontrar la entrada de la habitación maldita, hay que deslizarse serenamente por debajo de la puerta, tranquilamente buscar el interruptor y luego prender la luz que iluminará los caminos que uno anda buscando, ya tanto tiempo hace. Después de todo eso, basta con fijarse bien en cada detalle de los carteles mal pegados en la pared, estudiar el suelo cambiante que del césped va al parquet y de ese al ladrillo, mirar con esmero cada una de las rayas coloridas que dan a la pieza este aspecto tan infantil y, cuando uno completa dichos primarios movimientos, ya es hora de que sepa exactamente qué es lo que pasa en dicha habitación, que compreenda las reglas y leyes a que uno se submete estando en tal lugar y que tome la decisión de seguir adelante o volver atrás. Y eso significa volver al mismo salón donde la vida seca y incolor está encerrada. Uno ríe de si mismo al piensar en tal posibilidad, señal clarísimo de que ya ha recordado de todo lo que ha venido hacer. Pero las mentes también suelen engañarse y aún más que los corazones. Sobretodo cuando ya se sabe de dichas reglas, cuando ya se tiene consciencia de que la gravedad, aquí, no es la misma gravedad; de que la noción de bueno y malo, aquí, tiene sus conceptos multiplicados de tal forma, que es imposible llevar a cabo cualquier tipo de condenación o, y sobretodo, de absolución; de que a este sítio no se pertenece, no se es, no se compra, pero se vive y solamente si compreendemos de un todo este mundo increíblemente cruel y bonito, al cual los pringados seres humanos lo decimos fantasioso.

Por eso uno tiene que escribir por escribir, porque al no encontrar un rincón - aunque lo busque intensamente - que le pertenezca aquí, en el lado colorido del mundo, uno puede divertirse viniendo así, no más, cuándo le viene bien, o quizás venga cuando lo decidan estos, los que ya han dominado la suprema forma de ser todo sin tener nada.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 08:44 Comentários:




6.5.07

Alface cru
Guilherme Póvoas
Eu cansei de bater cabeça. Mas, dizem, a esperança é a última que morre. E eu continuo carregando um resto de "vai dar certo". Que errou fui eu, como um desvio padrão esperado. Mas vou passar o resto da vida com o peso de sete chagas sobre o meu corpo. Por isso, tenho esperança. Em cada lágrima, cai esperança.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 12:47 Comentários:




16.3.07

Vá saber de que cor é o mundo ou que dizem os versos sob o tapete. Vá saber de que falaz os rapazes da copa ou que cheiro tem o verde musgo de tua blusa. Qual a fonte natural de seis segundos ou quantos seres são sérios como sou sério. E quem é o azul que corrompeu a neve este ano, alguém sabe? Tantos quantos sabem como fazer o doce de goiaba doce. Chorar um canto em dúvidas é aprender mil melodías em tom menor.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 20:43 Comentários:




13.2.07

Dois erros, um destino
Guilherme Póvoas
- Não! Não. Eu já falei que não serão duas ou três cervejas que resolverão os nossos problemas.
- Marijuana?
- Não.
- Merry Blues.
- Não! Não. Pára de insistir.
Mas ele insistia. Como se não tivesse outra coisa a fazer. Na verdade, ele não conseguia resolver seu próprio problema sem dar transtorno aos outros. Três horas de conversa. Cerveja derramada ao chão. Garçom moreno [como é mesmo o nome dele, Wanderley, sei lá], limpando a laje. Que lata! Tanto tempo, porém não chegam a uma conclusão.
- Tu não sabes o que quer.
E, de fato. É daquele tipo de palavra cruzada que se começa fazendo e, depois de ler cinco ou seis questões, não se consegue completar um quadro sequer. Um labirinto sem saída. Que lama!
- Tenho que ir embora.
Desta vez ele sentiu firmeza. Ela tinha que ir mesmo. O rapaz já havia a chateado muito. Era melhor não insistir mais - não, pelo menos, pessoalmente. Não, pelo menos, mais naquela noite.
- Que horas são, meu...? - ela brecou na hora certa. Iria falar. Ele sentiu. E se tivesse se referido a ele como [coração]... seria um indicativo. Mas, como não falou. Saiu derrotado.
- Me liga quando chegar em casa?
- Para quê?
- Só para saber se chegou bem - mentiu ele.
Faltou coragem. E o problema persiste, ele insiste. Mas não completou um quadro apenas. Nem a terra de Abraão.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 00:30 Comentários:




7.2.07

Despierto - 2
Gabriel Silveira
El sol todavía no está despierto, Cervantes todavía duerme como una piedra sob los aires de la Plaza de España, en San Blas las viejitas apenas piensan en levantarse buscando las panaderías y los inmigrantes latinos que vienen de Leganés no hacen más que llenar un único vagón de la renfe. Así mismo, aquí dos puchos ya han quemado en el tiempo y me voy cebando el segundo mate, sin otra prisa que la de mi pensamiento. Eso porque me los llevo, recostados - pero no perdidos - en un rincón del pecho, un Buordoukan irreversible y un Voltaire pegajoso, ambos míos, ambos dueños de mí. Canso de pensar en el día que vendrá, hay que vivírselo, hay que pensárselo. El madroño no parece importarse con el viento que hace afuera y otra vez más pienso en las viejitas de San Blas, porque son como los madroños, perdidas en un mundo que, en realidad, desconocen, estas mismas viejitas que cierta vez apenas podrían comer el chorizo o la mantequilla y que ahora, involucradas en esta neo-España, en este mundo neocom que han visto salir de la oscuridad, parecen sobrevivir - o sobremorir - como fantasmas del pasado. Les toca las pensiones y los carritos de mercado. Y no piense usted que son pocas. Hay veces en que uno cree realmente haber llegado al cielo (sic), por ejemplo al entrar en cualquier autobús por la mañana, y se pone desperado a buscar el conductor para que le confirme el trayecto, no va uno a tomar el bus al umbral cuando quiere ir a Carabanchel, vaya ironía. Pero lo que realmente importa es que ahora ya empieza a salir el día, el sol viene un poquito templado, como la leche, y ahí ocurre lo más increíble: y es que todo el mundo (sic) despierta como si el mundo, en si, no existiera. El mundo todavía duerme para el mundo. Las viejitas no saben del chaval somalí que ya sale por el agua, y la madre de este, fastidiada, también no imagina que las viejitas españolas hagan sus compras llevándose siempre un carrito como perros-guía, que les sirve para aliviar el peso y la soledad. Tampoco saben los bouquinistes de Paris que, un poco más abajo (o arriba) del Sena - si pasas el dedo sobre el mapa - una docena de chicos llevan puesto kalashnikovs y miedos mil, los mismos que cita Kaputscinsky en uno de sus tantos libros que ahora están expuestos a la orilla derecha del río, cerca de la Ile-de-la-Cité y todavía iluminados por uno de los postes en octavo de la ciudad. No sabría yo, si no fuera por Bourdoukan, que Fátima An-Najar, una viejita palestina, de sus 67 años, explotó su propio cuerpo en protesta por las agresiones israelíes. Ya les habían matado a su marido y sus dos hijos, pero lo que le quitó la paciencia fue la muerte de un nieto. Después de eso, le bastó un día. Si estuviera aquí, ¿no estaría también Fátima a comprar el pescado del almuerzo, a escoger, en el pasillo de los dulces, un regalito para su nieto? ¿En el carrito llevaría sus compras o una bomba? Piense usted, che, en cómo rutinas tan distintas pueden estar tan conectadas. ¡Qué mundo más desparejo! ¡Salve Yupanqui! Al mismo tiempo en que Doña Fátima se va por los aires, están las viejitas españolas a pasear por el súper, discutiendo la inseguridad, <<¡vaya árabes!>>, <<¡en el tiempo de Franco no era así!>>, <<¡vaya inmigrantes!>>. Al escuchar eso, ya es hora de que uno vuelva a apagar otro pucho en el tiempo que se va, hora de que la renfe esté tan llena que ya mal se mueva con tantos inmigrantes, hora pasada para que el circo del mundo parezca completo. ¡Hay feria! Y el único que todavía queda dormido es Cervantes, hecho piedra, eco de un quijote que, si está despierto, lo estará en cualquier otro mundo, que no el nuestro, que no este que se despeja en la ventana y que insiste en no despertar para la realidad.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 10:02 Comentários:




1.2.07

Números do cotidiano
Guilherme Póvoas
Três ovos caíram no chão. Ao mesmo tempo? Não se sabe. Também não importa. Três ovos menos. Duas horas até chegar ao supermercado. Três horas para voltar. Dois ônibus. Mais sete quadras caminhadas com sacolas em mãos, escancarando duas veias do braço esquerdo além de três do direito. Uma parada. Sacolas no chão. Duas baratas correndo, ao longe, para o bueiro. Cinco minutos, voltam os passos, com as duas pernas, dois braços riscados pelas veias e as sacolas. Um quarto de hora depois, frente ao prédio. Dois olhos voltados para cima: doze andares, vinte e quatro lances de escada. Não tem nenhuma outra alternativa. Trinta e dois graus à sombra - para quem a encontrasse. Foram-se dezesseis minutos com apenas mais uma parada, lá no sétimo andar, sentado no segundo degrau daquele lance de escada. Uma sacola de cada lado. Três puxadas bem fundas de ar, apenas duas para respiração. Enfim, a única porta do apartamento. Três chaves. Escolheu a uma. Entrou no lar e viu os dois pratos sob a mesa. Pensou que pudesse jantar com alguém apenas neste único dia. Um sonho. Um movimento para bater a porta. As três chaves no chão. O molho de chaves no chão. Antes de pensar em colocar as sacolas na mesa. Três ovos estralados no velho assoalho. Três ovos menos. Acidente. Comida menos. Sem comida. Nas sacolas, o peso do trabalho. E o peso da solidão.

Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 22:20 Comentários:




30.1.07

Me disseram mais de uma vez: «há dois caminhos para tornar-se um escritor: nascendo em berço de ouro ou passando fome mesmo». Já encontrei uma forma bacana de justificar minha gastrite.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 14:36 Comentários:




28.1.07

Despierto
Gabriel Silveira
Hay veces en que uno piensa que, para empezar a escribir, basta con sentarse de la forma que más le guste en su propia silla, sorberse un poco del té que mejor le valga para tranquilizarse, echar en el cenicero el pucho del cigarro que acaba de fumar, para que luego, como si un dios despejara el cielo y saliera el sol, o como si, al revés, le asaltara un viento que comandara una tormenta, arrastrando fuerzas y pensamientos, las palabras simplemente empezasen a saltar, como ranas contentas en el día que amanece lleno de humedad, desde un mundo lejano - o, si no lejano, al meno oscuro y aparentemente inaccesible - describiendo acciones, es decir historias, es decir dramas - que, al fin y al cabo, todas historias lo son - hasta que no quede nada más que espacios carcomidos por personajes y tramas sin más ley que las que uno crea; sin más vida que las que uno inventa; sin más poesía que las que uno posee. Y es ahí, al releer lo que se ha escrito en este breve período, que uno se entera de la fragilidad de la escritura que nace del escritor y no del personaje; de la infantilidad de las palabras que brotan de una mente y no de una boca; de la incapacidad de otorgar vida a nombres y mentes falsas, cuando las verdaderas ya están a su lado, en el mundo más que real del más allá, que es este mundo tan dulce y sereno al cual llamamos, con el cariño y el cuidado que sólo a él podríamos tener, de mundo de la fantasía.

Entonces, al debatirse con dicha imposición, uno es obligado a retroceder, caminar en pensamientos buscando Cortázar por el boulevard St. Michel o F. Pessoa en el alto Chiado, o quizás por las callecitas floridas de Etretat, buscando la posibilidad - si es que es posible buscarlas en algún mundo - de darse con Guy de Maupassant o Proust, hasta que uno de ellos le indique el camino al mundo de la idea humana, donde uno puede reconocer el verdadero mundo de la fantasía real, la noche de nuestro día, la muerte de nuestra vida, la ceguera opuesta a todo lo que vemos. Es ahí donde uno, tan sabiamente convicto de su papel de creador y criatura, quita toda la veste que lleva encima, corta el pelo de forma a que apenas quede algo de su antigua apariencia humana, y se pone a modelar sus personajes, dibujando lo que ya está dibujado, escribiendo diálogos que ya han sido dichos, relatando sentimientos que ya están plasmados en el ancho y largo agujero de la conciencia humana, sus sufrimientos y angustias, sus incapacidades y perezas, sus miedos y aflicciones, sus victorias y secretos.

Son más de la una de la mañana cuando uno despierta sentado en la silla - que todavía le gusta - y ve sobre la mesa el té, así como el cigarro, ambos consumidos por el frío y por el tiempo. Encontrarse devuelto a una realidad enferma, identificar las señales que así lo testifican y comprueban, estornudar una o dos veces por la alergia que siempre tuvo a dicha realidad, todos esos motivos son más que suficientes para que uno guarde parsimoniosamente el archivo al que estuvo añadiendo historias en este pequeño rato metafísico, mire otra vez más a la luz que brilla sobre la puerta de la habitación donde duerme y espera la mujer de uno, y empiece a echar otro cigarrillo - qué daría, che, por otro té ahora -, esperando que otra vez más las palabras turbias le salgan y se vea obligado a buscar a ver si encuentra un Cortázar, un Borges, un Márquez, un Chejóv a indicar caminos por ahí afuera. Ahí, una vez más, podrá salir del mundo de la realidad fantástica para adentrar la fantástica realidad, tan buena y sabrosa que siempre podría haber sido.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 22:07 Comentários:




Casa
Guilherme Póvoas
Olha vivente, não te conto mais nada depois daquela vez que tu foste fofocar lá pra Dona Branca. E a história nem era verdadeira. É, não era. Mas deu um problemão daqueles. Senta aqui, desta tu vais gostar. E pode ter certeza: é tudo acontecido mesmo.
Eu estava esperando o Zé Destino chegar com sua rural na frente da porteira da fazenda. Ali ó, vê? Eu estava bem ali. Era bem de manhã cedo, ninguém passava. Ainda bem, se não comeria poeira a manhã inteira. Acontece que fiquei a esperar por três horas. Acabou até as palhas para o meu cigarro - e me vi arrancando um sabugo do milharal para ver se inventava alguma coisa. Mas não adianta, tem que ser a palha que tem na venda mesmo. Então compadre, compadece de mim, que estou cansado mas vou longe para te contar este causo. Que é verdade! Ocorreu que, enquanto esperava o Zé Destino não vir - sem saber que ele não viria mesmo - me dei conta dumas cousas estranhas que estavam acontecendo do outro lado da estrada. Ali ó, do outro lado da estrada, na casa do Bastião. Umas cousas muito das estranhas por demais. E eu vi tudo. E foi por isso que as três horas em que eu fiquei esperando o Zé Destino chegar com sua camioneta me passaram tão depressa. Vê se presta a atenção, para depois, quando fores fofocar, fazer o troço direito.
Tu podes ver daqui que o casebre do Bastião é dum vermelho bem velho. Numas épocas passadas, bem atrás, deveria ser de um vermelho tal qual lenço colorado de guri com pilcha nova. Bom, agora não é mais. Até as roupas de baixo de minha falecida mãe são de cor mais viva do que aquilo ali que é a fachada do lar do Bastião. E eu tava lá já fazia uns quatro cigarros, minha palha acabando, olhava para tudo isso que costumo enxergar todos dias. Foi depois que peguei a carapuça de milho para tentar usar de palha: a casa do velho Bastião começou a piscar. Assim ó... Sabe daqueles vaga-lumes em dia de calor sufocado? Pois é, tal qual. E bem rápido. Piscava e piscava. De luz bem forte, porque era já de dia e eu enxergava aquele piscarel. Olha, vou te contar!
A luz vermelha vinha da parede de fora. Era mais estridente que a sinaleira que tem lá na cidade, na frente do colégio das crianças. Piscava e piscava. E dentro da casa, era a mesma cousa. Só que aí era tudo amarelo. Tanto que até olhei pro céu para ver se o sol não tinha caído dentro da casa do Bastião. Mas não era o caso. Compadre, demorei a acreditar no que minhas vistas haviam de avistar. O telhado também trocava de cor. Trocava, assustava e não parava. Vermelho piscante da fachada, amarelo sol de dentro da casa e verde limo de pedra de cachoeira vindo do telhado. Pensei, e me perguntei: o que será que o coitado do Bastião está passando? Será que precisa de ajuda? Se precisa, problema é dele. Por aqui a gente não se mete muito na vida dos outros, não é? Eu nunca me meti na vida de ninguém. E não iria fazer isso agora, colocando a minha própria vida em risco. Sei lá o que eram aquelas luzes a piscar.
Fiquei mais atucanado quando me lembrei que o Zé Destino estava pra chegar. Ih, o que aquele velho carrancudo iria pensar de tudo aquilo. Eu já estava vendo: o Zé dando ré naquele trambolho velho, engatando uma primeirona e depois entrando com tudo, portão a dentro, na casa do Bastião. Mas antes ele iria pegar a espingarda que fica atrás do banco da camioneta - não conta isso pra ninguém. É, da espingarda. Ninguém sabe. Enquanto estava sentado, ali na frente da porteira, cheguei a me ajeitar melhor na pedra para pensar em alguma coisa para fazer. Mas não me passou nada pela cabeça, compadre. E também não queria alarmar ninguém. Mas aí, antes de eu pensar em desistir em aguardar o Zé Destino, o negócio no lar ali na frente começou a mudar.
Pelos telhados, começaram a se arrestejar um bando de bicho estranho. Era tipo um jacaré do filme do crocodilo, mas bem pequeno. Pequeno assim, um pouco maior talvez. E tinham uma coisa na cabeça que parecia cabelo duro coberto por escama. A língua eu conhecia, era língua de cobra. De cobra, não vai se confundir. Mas não eram cobras, estavam mais pra lagartão. E, compadre, tu sabes: já andei por toda extensão destes pagos. Mas nunca tinha visto bicho daqueles. O que ocorreu foi que aqueles jacarés miúdos começaram a sair do telhado, desceram pelas paredes que ainda piscavam, e se desaparecem mato a fora. Até pensei que o Bastião fosse perder a vaca leiteira com uma dentada daqueles bichos. Mas ela está lá ainda. E os animais foram embora, o telhado parou de se fresquear. Voltou a sua cor normal, cor de telhado, tu conheces, é só olhar pra minha casa, pra tua, tudo cor de telhado. Logo me deu uma aliviada, compadre. Um pouco porque pelo menos o telhado não piscava mais, e muito porque aqueles lagartão não vieram se meter a besta perto de mim - foram bem na direção contrária. Te mete!
Vivente, mas aí logo que parou o telhado, foi a vez da fachada rubra. Parece que aquela tinta fraca das paredes de fora da casa do Bastião começara a descascar e foi caindo como se fosse peça de um quebra-cabeça sem desenho. Tinha pedaço de tinta por todo pátio do velho. Só que aí, uma que outra lasca de tinta, dura e velha também, começou a pipocar. É, estou te falando. Isso, saltitar. Sabe quando tua mulher faz pipoca, né? Então, tal qual. Só que não faziam barulho. Mas tinham cheiro, isso logo eu senti. Mas não era de tinta, não. Era doce, compadre. É, tu vê. Eu senti. Um cheiro doce que parecia aquela maçã melada que eu comi com a Dona Branca quando levei ela no parque que visitou a cidade no ano retrasado. O cheiro daquilo nunca vou esquecer, e nem das cascas de tinta da casa do Bastião. Elas começaram a saltitar cada vez mais alto. Pra cima, e chão. Pra cima, e chão de novo. E nisso ficou um tempo, vivente. Ah, não sei quanto, mas o sol deve ter se movimentado bastante. Mais alto, mais alto. E cada vez mais. Mais cascas. Quando todas pararam e permaneceram no chão, o Bastião parecia rei: à entrada de sua casa, estava estendido um longo tapete vermelho. Mas, alegria de pobre dura pouco. Rápido, rápido vi que aquilo já não eram mais cascas de tinta velha. Borboletas vermelhas começaram a voar. Se me fiquei um pouco assustado com os lagartos, aqueles passarinhos de papel me deixaram de boca aberta. Mas era um mundo de borboleta, tudo vermelha. Demoraram, custaram, era muito compadre, mas foram embora. Seguiram o mesmo caminho dos miúdos jacarés, mas foram pelo ar. É, cada animal tem seu jeito - e direito - de ir para onde quer. As borboletas foram voando. Aí me deu duas pontadas de dor no coração: uma porque eu achei aquele retrato todo muito bonito, mas as borboletas haviam ido embora; outra porque aquela velha e enjoada cor voltou à fachada da casa do Bastião. Depois das borboletas, aquele vermelho não passava nem por rosa. É, ri, mas é verdade, nem por rosa de mulher.
Aí, compadre, tal qual se foram os piscos do teto e das paredes, eu fiquei esperando ir embora as luzes amarelas de dentro da casa. E o Zé Destino que não inventasse de aparecer agora - eu já tinha perdido o medo e estava já gostando daquela cena toda. Mas o que ocorreu foi que o amarelo luminoso demorou mais para se ir. Porém, compadre, quando se foi...
Primeiro começou a ventar bem forte. Vinha reto na minha cara, mas, não sei como, deixava de levantar poeira. Era um vento reto. Custei a perceber, vivente: aquela ventania vinha de dentro da casa do Bastião. E olha que o casebre do velho só tem duas janelas bem picurruchas. Mas vinha de lá. Cada vez mais pesado. Vento, vento, ventania, vendaval, e eu comecei a achar que aquilo iria acabar tal qual o filme de furacão e tornado que vi no cinema lá na capital com a Dona Branca. Aí voltei a me assustar. Não, vivente, não sou homem disso. Mas tu sabes que estas coisas deixam qualquer um de calças na mão. É ou não é? A luz amarela começou a ficar cada vez mais potente. O vento também e também. E quando eu pensei que a casa estava a ponto de explodir com o Bastião e sua mulher lá dentro, aquelas duas janelas pequeninas começaram a vomitar um exagero de passarinhos de fogo. Um monte. Parecia a colheitadeira de trigo colocando pra dentro do caminhão aquelas intermináveis toneladas de semente. Saia, saia, tudo passarinho de fogo. No ato, compadre, na mesma hora eu senti que a temperatura havia subido uns quinze graus. Assim, pá-pum, dum tempo pro outro. E, também, nesta hora, tive que colocar o meu chapéu na frente das vistas, se não ficava cego. Mas a luz que vinha daquelas aves era bem mais forte que o sol. Muito mais. Quando aquele amarelo começou a fraquejar, eu tirei o chapéu da cara e ainda consegui avistar um que outro passarinho de fogo atrasado. Mas fiquei olhando aquela caralhada de aves batendo suas longas asas que já estava bem distante - e olha como estes bichos voam rápido. E estava na cara, vivente: eles não seguiram o rumo dos miúdos jacarés ou das rubras borboletas, foram diretos para cima. Eu acho que era para o sol. Aves.
Não sei bem direito. Mas o Bastião eu ainda vi ele depois, estava comprando palha na venda. Mas, olha, a Alemoa, a mulher dele, essa, depois da manhã que eu vi tudo isto que acabei de te contar, nunca mais avistei. E o Bastião não é de fazer cousa estranha, é velho certo, não ia largar duma mulher prendada feito a Alemoa, com aqueles cabelos cor de fogo de nó de pinho. Mas o que ocorre é que nunca mais a vi. Nem ela, nem o Zé Destino, por quem espero até hoje.

Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 02:50 Comentários:




25.1.07

Às voltas com o tempo
Guilherme Póvoas
Si vis pacem, para bellum. Três horas diante da mesma mulher. Ali, cara a cara, mas com olhares desviados. Era o medo. E foi um inferno. Não é fácil achincalhar tudo falando a verdade para alguém que merece ouvir mentira. Porém, se lembrou que as coisas boas vêm com sacrifício e as ruins vêm com a mesma intensidade e semelhante esforço: o sacrifício daquele que pensa estar certo. E até agora ele não sabe. Certo ou errado? Três horas de uma batalha onde as palavras só feriam - nunca matavam. O ditado em latim vale: Se queres paz, prepara-te para a guerra. Durante os 180 minutos, lutou como bravo guerreiro: caiu, levantou, chorou. E, por fim, amou como se o único amor impossível fosse a paz que sucede a guerra.

Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 22:43 Comentários:




Horizontes
Gabriel Silveira
Calavera no llora. Morre Kapuscinsky e Bush, chaval, envia mais soldados ao Iraque, hey ho lets go. Ainda os curdos (minoría?), ainda os palestinos, ainda Darfur. Vengo a ofrecer mi corazón, mas o pequeno laberinto de merda e suor sem sangue vai escoando as virtudes do mundo para um riachinho qualquer, um eco do mundo que, como tantos outros, logo secará. Pero calavera no llora, ya lo sabía Posada. Água fervendo sobre o mundo, vem abaixo a goma-laca, vem abaixo o delicioso mundo Daniel Auteuil, fica só a fumaça do petróleo-putrefacto, fica só o espelho da ação sem o manto do verbo, fica só o esqueleto de um pobre-podre-mundo. Êta tristeza, pero calavera no llora. ¿Pero qué más da? ¿Qué más da si la bomba viene de los israelís o iranís; de los norte-americanos o de los alemanes? Que importa se, no final, todas levam a mesma etiqueta "made in..."? Baixa a voz e respira fundo, baixa o sangue e respira a vida, mas para que pensar se não há mais o que pensar? Enxaqueca de chá de mundo, pur eh de mundo, deste mundo de Bush e Aznar e tantos, Hitler e Mussolini e outros, farinha do mesmo, mais do mesmo, mais farinha ao lixo. E a luta ideológica da vez é saber quem cai antes, Fidel ou Guantánamo, je ne sais pas, et alor?. Entre técnicas de humilhação coletiva, inundados no fenômeno da mentira verdadeira, resta engolir seco, engolir ao léu a lágrima que nem vem, de um olho que não mais vê, uma pontinha de nostalgia de almas que já não são, das quais só ficou o alicerce, não ficou nem gota d'água, só ficou a calavera. Alguém se anima a chorar?
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 15:00 Comentários:




19.1.07

¡pal carajo con guantánamo!
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 13:34 Comentários:




18.1.07

E esta fragata que navega preguiçosa.... ousando sentir o cheiro azul do mar, interpelando sonhos pelos ventos; corta pensamentos, ousa reencontros e continua lá, ao léu. E é lá, sobre as virtudes do mar, cortando o canto dos pássaros marinhos que lutam pela vida com os peixes, que está a saudosa folhinha verde da sabedoria (no meio do mar??? Sim, ela está em todos os lugares), pairando sobre corações que ousam ser pacientes e aguardam pelas oportunidades verdes da vida. E eu aqui, no deserto de sentimentos do mundo, inundado de maresia.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 19:24 Comentários:




15.1.07

Me ajuda?
Guilherme Póvoas
Quando caiu na desgraça da dúvida - daquelas que procura sempre um momento de fraqueza para tomar mais força - seu fiel escudeiro disse: "Vai." E falou isso assim mesmo, acompanhado de um ponto final, sem vírgulas ou espaço para uma conjunção adversativa. Se era certo ou errado, não interessava para seu coração. Mas era o conselho que desejava ouvir. A dúvida era: qual a dor mais forte? De largar ou de se largar. De interromper ou ser interrompido. Pois o amor - prosseguiu o amigo - não toma conhecimento do egoísta, do solícito ou da felicidade. Mas é amor? Não sei - respondeu, aflito - mas prefiro acreditar que sim. É nestas horas em que a palavra acreditar toma força e acaba, enfim, sobrepujando a dúvida. "Vai." Ficou olhando para o conselheiro, esperando um mas, um porém. Nada. Assim, se foi. Desfez e começou tudo de novo, em outro lugar.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 22:21 Comentários:




Céu e inferno
Gabriel Silveira
Era uma voz que falava duro, nada desta voz furada dos humanos, feito panela de barro. Comparando assim, era mais uma panela de cobre, porque deu eco. E ela falava o que era, nada do que foi nem do que será, claro está que era a voz de um adulto. E foi isso que o assustou, tal como se uma bola de gude rebentasse em sua cabeça de latão, tirando em casquinhas o pouco de brilho que lhe restava. Restou contar os segundos até cair em si, virar o rosto, arredio, e dar de cara com um fígado, pequeno era ele, acima da média o outro. Resetou a expressão do rosto, pendurou-se no fio da vida e devolveu com meias palavras tristes, mas honestas:
- Me matarás de novo?
- Sei quem eres.
- Te perguntei se me matarás de novo.
- Nunca te matei antes.
- Dar a vida é matar.
- Quer dizer que te salvei a vida?
- Quero dizer que eres meu pai.
- Pai?
- Sim, pai.
- Queres dizer que fui teu pai.
- Isso.
- Pois saiba que aqui ninguém morre, ninguém vive. Neste limbo, para jovens como tu, só resta divertir-se por aí.
- Não sou divertido.
- Não puxastes a mim?
- Não me lembro de que, alguma vez, estiveras ao meu alcance para que te puxaras. Que sei eu de ti?
- Que és sangue do meu sangue.
- Se te matasse agora, que aconteceria?
- Eu seguiria vivo, dentro de ti.
- Então é a mim que deveria matar?
- Aos dois.
- Já não importa, aqui não há mais mortes.
- Há mortos.
- Meu corpo está gelado.
- Aí algo que puxaste a mim.
- Já te disse, nunca pude puxar-te. Aliás, por que tens raízes nos pés?
- Não sei. Uma vez apareceram juízes por aqui, me disseram que era por tua causa e que sería o melhor para mim.
- Minha causa?
- Isso, minha culpa, tua causa.
- Quer dizer que estás pagando o preço por matar-me?
- Nunca te matei, mas pode ser que tenhas razão.
- E se te digo que fui eu quem te matei?
- Nunca tiveste la oportunidade, mentes descaradamente.
- 27 de fevereiro, estava escuro mas me lembro que vestias um sobretudo negro.
- Ainda estou com ele.
- É verdade, não o havia notado. Pois aí ainda está também a marca da bala. Uma única e certeira bala.
- Então foste tu.
- Sim, sim, por isso é que também tenho raízes nas pernas.
- Outra coisa que puxaste a teu pai.
- É verdade.
- É verdade.
- E ficaremos pra sempre assim, nunca nos moveremos?
- Bom, já estou aqui tanto tempo... não há nada que não possamos nos acostumar. Até que venha o próprio Deus e nos libere de nossos juízos.
- E isso é quando?
- Quando ele quiser.
- Então devemos esperar.
- Esperar e esperar.
- Como a Godot.
- Dizem que ele era Deus.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 15:37 Comentários:




13.1.07

Gente Grande Miúda
Guilherme Póvoas
- Sobre o que fala esse livro que está lendo?
Uma menina que parece andar pela inocência dos 12 anos não costuma perguntar isso para um alguém dentro de um ônibus que sacolejava aquele povo cheio de sacolas de compras do Centro da cidade.
- Fala de uma enorme família cheia de gente diferente. Fala sobre magia, música e também bastante de amor.
A menina, morena e ainda com a pele surrada pelo sol, apenas abria mais os olhos. Isso demonstrava atenção, mas era seu único gesto. Depois que o rapaz falou, ela voltou à cabeça para a capa do livro. Nas mãos do jovem, o dedo indicador marcava a página. Ele recém havia começado a ler a obra. Pela terceira vez.
- Tem mágica, é?
O rapaz não falou a língua da inocência. Era magia, não mágica. Mas, se ela assim entendeu, assim o é.
- Sim, tem bastante. Chove por décadas nesta cidade - respondeu o homem, abrindo os braços para mostrar o quanto significativo é chover tanto assim.
- Nossa! Lá onde moro, se chove dois dias quem está na rua não entra em casa, e quem está dentro do lar não pode sair.
A face do jovem rubreceu. Talvez a moça entendesse mais daquele livro do que ele mesmo, soubesse mais daquela realidade do que todos os seus estudos em cima daquelas linhas.
- Pois é. E nessa cidade faz muito calor também. Ela fica no Caribe colombiano - explicou o rapaz, tentando mostrar que alguma coisa, que não era do conhecimento daquela pequena cabeça adornada por longos cabelos escuros, ele sabia.
- Nossa! E esta cidade então fica bem longe, né?
- Sim. Macondo fica muito longe. Mas você pode ir até lá. Quer? - e o rapaz fez a pergunta estendendo o braço e oferecendo o livro à menina.

Cara, em 2007 Cem Anos de Solidão completa 40 anos de existência. Fica aqui, registrada modestamente, a nossa homenagem (quase póstuma) a um daqueles que fez tudo isso acontecer. Tudo tu por aí, tudo eu por aqui.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 01:29 Comentários:




8.1.07


Lágrimas do mundo
Gabriel Silveira
Sim, bem fundo olhei nos olhos
daqueles meninos de Guantánamo,
e me tomou o medo ou a certeza
de que os olhos eram teus,
companheiro, como se o destino, de um,
sempre fosse o destino de todos.
E foste tu o que vi na terra seca,
no rosto sentindo o passado a soprar,
olhando o longe de perto.
Era tua a busca e, tua também,
a ânsia daqueles meninos de Guantánamo.
Vi tua dor na dor deles
e vi também todos teus medos.
E que humilde orgulho senti quando vi
que era tu o que rezava nas mesquitas,
em meio à guerra buscando a paz.
Pedi ao meu e ao teu Deus, que são um só,
a explicação de ver-te, perdido,
de Mazar-e Sharif a Kandahar,
caminhos de um só mundo feito muitos,
vendo-te pelo homem aprisionado e,
do teu destino de homem, privado.
E ao ver-te rodeado dos teus, tive medo,
sem saber, ou esquecido, de que o demônio,
tão conhecido, vivia em minha casa.
E que pavor quando vi tuas negras sobrancelhas
a tremer frente à mão executora,
assim como o sol que, eterno,
vibra sob as passageiras gotas de chuva;
ou quando ouvi teu grito de horror
saindo do peito de cada um daqueles meninos,
em cada instante de tortura,
em cada segundo de injustiça,
em cada amanhecer proibido.
Era tua a mão que segurava o Corão,
teus os joelhos que caíam sob o sol,
tão ilustre e maculado sol do Caribe.
E mesmo com um saco negro a tapar-te o rosto,
sabia que era o tu o que ali sucumbia,
com a única esperança de inspirar uma vez mais.
Ai que dor, companheiro, pois vi tua barba,
tua pele e teu futuro sendo destroçados
pelo enemigo, que só sabia mentir-te.
E vi teus olhos, e os meus,
bem no fundo dos olhos daqueles meninos.
Nos olhos dos meninos de Guantánamo,
neles eu vi as lágrimas do mundo.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 13:33 Comentários:




7.1.07

Na palma da mão
Guilherme Póvoas
Três horas de cavalgada lenta para longe da sesmaria de seu pai, sem visão do lago dos peixes azuis, descampado enorme e os urubus a voar. Mesmo assim, só veio a perceber que estava perdido quando acabou o cantil de água. E uma criança de 11 anos bebe isso bastante. No seu caso, bebe outras coisas também. O pequeno não era Dom Quixote, e também o animal que o acompanha não prestava para Rocinante. Mesmo assim, titubeou antes de tentar voltar às terras do senhor seu pai. Nada. Moleque de bombachas grandes tinha se perdido só para ir atrás de chuva - se molhar um pouco. E nem isto encontrou. Se fosse pela máquina de Erico Verissimo, estaria numa emboscada sem índia velha para proteger seus finos braços loiros. Se fosse pela pena de Josué Guimarães, esperava seu coração parar enquanto conversaria com uma senhora gorda, sentada à beira do barranco de diferentes cores verdes. Mas, como não era nenhum Dom Quixote, nem Mortágua, tão pouco um Cambará, pôs-se a chorar. Mais e mais. O cavalo comia o pasto molhado pelas lágrimas do guri que fazia o trabalho da chuva. Uma solidão de cem anos baixou naquele momento, os raios de sol diziam adeus, e o frio recebia as boas-vindas da noite.
As buscas pelos capatazes não duraram mais que trinta minutos. Três tropeiros acharam o guri, rápido. Se ele foi atrás de chuva, deve estar perto do barranco das árvores verdes coloridas, raciocinaram. E como a inteligência da palma da mão não falha, chegaram ao encontro da criança antes que a velha índia pudesse lhe ensinar como voltar ali, de novo, à hora que quisesse.

Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 22:59 Comentários:




4.1.07

Na rua, na frente de casa
Guilherme Póvoas
Olha, não te acordei por pouco. Foi um estrondo daqueles! Feito carro velho batendo - Fusca contra Variante - dá mais barulho que estrago pois não há mais nada para estragar. Eu estava deitado de rádio ligado, hora do tango, quando aquele troço caiu em frente a minha rua. Scarabum! E vários outros buns que não sei descrever. Também não sei se deu rajadas de luz porque eu estava de olhos fechados virados para parede - com o nariz tão perto daquele muro frio, cor gelo, que a gripe persiste até agora. E como incomoda! Antes de me levantar, esperei para ouvir a reação dos bêbados e desocupados que adentravam a madrugada nos bares da frente daqui de casa. Nem um bah! Nem um mas ah! Nem um mas o que é isso? Aí, só depois disso, depois do nada a acontecer, comecei a me preocupar - o que causou tanto barulho lá fora? Para me levantar não custava nada. Eu estava acordado, mas, como disse, não te acordei por pouco. E por muito menos, nem virei para o lado. Quando se está com sono, a distância da cama até a janela é tão grande, tipo aquele guri novo que vimos tentando subir a escada-rolante que descia. A cara de "não estou entendendo nada" que ele fez dizia tudo. Já perto da janela, senti uma dor no peito. Não era bem dor, mas alguma coisa estava faltando. Olhei para janela, vi, espatifado lá fora, o meu coração. Retornei à cama, olhei para ti, já não te amava mais.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 22:57 Comentários:




Começar o processo da escritura é tão complicado quanto dar-le um fim. Enquanto ao primeiro tudo parece um deserto que precede um maremoto, o outro é um oceano inteiro de idéias e conceitos de tamanho tal que às vezes é quase impossível conceber que em algum momento chegarão a cessar, a estancar, a secar por completo deixando somente o perfume da criação a envolver o ambiente. São como crepúsculos do desenvolvimento intelectual - e talvez uma das únicas situações que possam honrar o uso de tão perfeita palavra: crepúsculo. Já verão que se trata de uma saudável analogia. Começar o processo da escritura é como desvendar, por entre a escuridão da madrugada, os primeros reflexos rosados no horizonte; é encontrar as primeiras variações de nuances no verde das imensas árvores de um bosque; é sentir os primeiros golpes de calor de um sol que ainda não nasceu, de um dia que ainda não é, mas que já ousa compor seu habitat como seguro de que seu esplendor chegará. Até que, então, de um só golpe, nascem as idéias como um imenso sol que domina o universo, imperialista em sua posição soberana e infindável, líder supremo do teto do mundo, renovando as almas e empurrando a história adiante, até que o anoitecer venha escurecer o poder da criação. Também é verdade que, muitas vezes, o dito crepúsculo dá-se de fuça contra um nada, um cinza de nuvens emboloradas a cubrir o dia que não vem. Como agora, que nada chega, que nada é. E acabo, como sempre, escrevendo por escrever: cantando nada, mas cantando algo.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 21:50 Comentários:




2.1.07


Aurora lisboeta
Gabriel Silveira
Amanhece em Lisboa, não tarda,
desagüando ouro trás-os-montes,
e sinto-te próxima, mãe-pátria amada,
nascendo colônia em original horizonte.
E de irmãos o brado, calado na fonte,
cantando em vingança tua liturgia,
só faz mais intenso o defronte
entre teu carinho e minha agonia.
Com amor de mãe, em tua vilania,
e ingratidão de filho, em verso fatal,
nosso dia amanhece em umbilical tirania.
Teu raiar me seduz, cativo natural,
e me entrego em teu colo, vil ironia,
escravo outra vez, sob o sol de Portugal.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 20:26 Comentários:




27.12.06


À noite, onde o frio é dançarino uivante,
com passos de orgías pagãs feitas de vento,
não há mortal sequer, ainda que amante,
que não encontre, na sombra, medo e tormento.
Os gemidos, quase sussurros, do parque maldito,
levam falsos consolos de esperanças finitas,
que escritos com verso e verbo proscritos,
errantes passeiam por mentes aflitas.
A mim, tal o de Mântua em caminho tenebroso,
tal filho de Anquises em busca eternal,
me resta rezar, réu sob véu tão assombroso.
E faz-se meu único guia, como Virgílio desigual,
a lembrança de teu olhar, presente do Divino Generoso,
lanterna e alívio em meu martírio moral.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 17:12 Comentários:




23.12.06

Diante do presépio
Guilherme Póvoas
Saiu e ficou em casa para começar, adivinhar, advir e copiar o que lhe havia parecido até então tudo aquilo que lhe pareceu vida. Sem saber tentou se posicionar, tecer, fazer críticas, ou fazer acontecer, até para não cair em desgraça. Não era a última noite, ainda, em que a lua nua iria iluminar a rua sem que tão sua ela fosse. E foi. Já não é mais, não foi atrás por tantos "capaz". Oh, meu rapaz, agora não adianta se tornar um brabo assaz. Não tem efeito. Acorda e vai ver: é Natal. Não faz diferença para ti, mas, por aqui, muita gente está contente.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 23:06 Comentários:




17.12.06

Atrás dele
Guilherme Póvoas
Uma multidão correu atrás do homem de cabelos grisalhos. As calçadas do bairro onde moravam foram tomadas. E não tinha hidrante, cachorro apertado ou poste de iluminação em conserto que impedisse a caça. O velho até já tinha guardado seus óculos no bolso de dentro do paletó e jogado fora o pente de plástico que ficava guardado na calça bege. Tudo aquilo estava lhe atrapalhando. Sapato de sola dura. "Eu jamais imaginei que iria desejar um Nike", pensou, enquanto o povo inteiro se aproximava. Cada passada que o velho dava a multidão avançava cinco. Se tivesse optado pelas exatas, faria uma rápida conta, de cabeça mesmo, para calcular onde e quando a massa o alcançaria. Enfim, não demoraria muito. Coisa de mais três quadras. Mas três quadras se não tivesse um muro no meio do caminho. "Se fosse uma pedra, ajudaria." Parou, tentou pular a parede. Upa! Mas nada. Ficou ofego, cansado até mesmo para se virar e encarar a multidão que chegava perto. Ou será que era medo? E o povaréu enxergava um homem com as mãos nos joelhos que tremiam. Dava para sentir seu coração pulsando e seus pulmões inflando rápido. Diante de um muro escuro e sujo, havia um homem de cabeça limpa. E branca. Alguém vai respeitar?
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 15:24 Comentários:




8.12.06

Lição mal passada
Guilherme Póvoas
Quando acordou, lembrou que já não era mais hora de deixar o diabo do sono prega-lo na cama. Até porque estava sozinho. Nem pregos, nem mãos, nem braços. Tão pouco o frio, que deixava o vidro da janela embaçado. Colocou as calças, tomou às pressas um ovomaltino batido e desceu as escadas sentindo remexer a língua por toda boca. Talvez estivesse sentindo falta de ter escovado os dentes. Mas ele sabia: quando o dia começa assim, tal qual o roteiro dirigido pelo cotidiano, as coisas prosseguiriam ao bel-prazer da esperança - até que, ao final, iria se criar uma enorme vontade de voltar para o quarto, para o leito, sob as cobertas, e esperar uma mão, um braço para apregoa-lo junto à cama.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 10:32 Comentários:




3.12.06

Aguarde!
Guilherme Póvoas
Cansou de desistir. Cansou porque sabia: desta vez não iria ser diferente. E, ao invés de deixar as coisas passarem com o vento dos entusiastas, se atirou na primeira brisa do sopro quente de verão. E não deu outra. Deu tudo errado. Que estafa! Sempre acabava tendo que pernoitar sozinho enquanto nada acontecia. Nada acontecia fora de seus pensamentos. "Será que está isso tudo dentro da minha cabeça está em algum lugar?" A resposta estava já na pergunta. Mas não era o suficiente. Não era o suficiente pois sabia: lá no fim, quando o vento pós-primavera acaba, é onde ficam guardadas todas as coisas boas. Até aquele cigarro de chocolate derretido que costumava tirar da mochila na hora da merenda. Que sina! Enquanto isto tudo se eternizava na curva da brisa de verão, elas desapareciam de sua cabeça. Desapareciam porque sonhava de graça, sonhava em vão. E foi por isso que cansou. Cansou por desistir em demasia. Que lástima! Chegou um momento em que sua idade se contrapunha à sua vontade. Matutava idéias, tão distantes com o passar dos anos que mesmo cem deles não dariam conta. E olha que já deram uma vez, em algum livro. Que figura! Em segredo, o que desejava era ser desejado. Desejado por alguém e até por ele mesmo - que não almejava ser quem era. Mas como cansou de desistir, começa agora a tentar ser desejado num vagão junto à janela, para acompanhar aquele vento quente de verão, dos entusiastas, das coisas eternas e das coisas boas. Sem saber que este vagão é, por si só, ele mesmo.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 00:39 Comentários:




1.12.06

Novas vidas secas
Gabriel Silveira
Nem deu tempo de chover e molhar, a água secou, o gato comeu e o vento levou. Foram eles, a velha com o bebê no colo, o vento e o gato farto pela terra batida. Crescer, ali, nem fome mais crescia. E ainda assim o céu padecia de tristeza, traía o astral do mundo e levava as nuvens lavradas pelo azul. A velha, que nem suava tamanha era a sede, ia olhando pra frente, nunca pra dentro, tinha era vergonha de olhar o sentimento, lhe arrepiava toda tocar o medo com os dedos. E nem a menina ousava sorrir, levava a boca aberta como se fosse falar, mesmo sem nunca ter falado, e vez em vez parecia que fechava os olhos para meditar sobre algum tema. Cruzaram seca e seca, o sol também cruzou e acabaram chegando até a beira de um precipício, donde tudo que caía era nada. Como ninguém lá embaixo alguma vez havia chegado sem saltar da vida, tampoco sabia-se de alguém que ali tivesse subido. Aí é que a velha pela primeira vez olha para baixo, vê o rosto solene da menina e dói como melado fervendo fritando a pele do antebraço. Então olha para o gato, lhe dá uma raiva do pobre gato, safado que mais vida tem, que mais esperto é, raiva do gato só porque ele hoje comeu. Mas alguém viu? Ela sabe que ele comeu, viu mastigar, viu roçar o focinho com as patas, viu que não gemeu como nos últimos quinze dias. Era fato, o gato comeu, o gato é culpado, o gato que faça a vez. Aí a velha disfarçou-se de sombra, sacou o pano - um dia branco - que levava na cabeça, atou a menina na ponta de cá, o gato na ponta de lá e jogou o bichano, deixando que ele é que levasse a menina. Aí deixou que o vento - também presente - fizesse o resto e ficou na beira do mundo, vendo a leveza da vida, a fraqueza do corpo e a velocidade do vento, que lhe soprava a tristeza.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 13:46 Comentários:




20.11.06

Vou te contar
Guilherme Póvoas
É, quando eu falo, ninguém acredita. Mas depois, não dá outra: todo mundo cita. Mas o causo é o seguinte, e aconteceu prá baixo das bandas de Santo Antônio da Patrulha, descendo o Rio dos Sinos, mais perto ainda das bandas de Sapucaia do Sul e São Leopoldo. Passava das 80 toneladas de peixes mortos, vivente! É. Viu? Essa tua cara, bem que eu sabia que não irias acreditar. Mas era. É que uma empresa, mejera, andou largando uns densos caldos, daqueles que não se organiza com água de rio. É peixe por peixe, seu! O rio estava que era um tapete de escamas ¿ com um cheiro de fazer qualquer pescador enjoar. Deixa estar, pois ninguém mexeu muito em coisa de punição. Logo acontece de novo. E nem é acontece, é ocorre ¿ porque a gente sabe que vai acontecer. Tal qual uma tragédia anunciada, falada, discursada. Ah, é aí. No discurso que acaba tudo. O cardume, olha, subia à superfície, tentando respirar... Nada, vivente! Teve até um, experiente, desses que já viu de tudo no Amazonas, chegou ali e falou: "Nunca passei por coisa igual." É, aí a vergonha fica maior. Mas é que era muito peixe. É, de retroescavadeira e tudo que é técnico tirava eles de lá. E, por aqui, se inventou coisa nova: cemitério de cardume. Não, não foi esse nome que deram pro lugar. É, não foi. Fizeram um aterro em Sapucaia mesmo e largaram os coitados dos bichos por lá. E vou te avisar: tinha de tudo quanto era tipo. Dourado, pintado... peixe fraco aos montes e peixe forte a dar com pau. E eram robustos, davam um bom assado. Engraçado é que nem se pescar podia lá ¿ a água, de tão podre, não deixa comer os peixes. É, podre mesmo.
Mas isso tudo faz um tempo já. É coisa de dois meses. É sim, mas nada mudou. Só que o causo fecha no seguinte, vivente, e vê se nisso tu acreditas: o verão está se avizinhando. A água vai baixar e a coisa vai piorar. E aí, tu podes até não estar aqui para ver, mas eu vou viver isso de novo e, infelizmente, terei que te contar. E é.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 00:49 Comentários:




14.11.06


O trem e a caça
Gabriel Silveira
Se torcia de tanta lágrima ao ver o caixão descendo sem dó ao pó. E assim gritava:
- Èta, pôrra! Êta, pôrra! Hai hai, Deus-pai. Pra donde leva meu véio?
Ao lado dela, só um coveiro amigo da morte e as carpideiras que já se iam. E ela, mais incompreensível do que incompreendida, seguia:
- Êta, porra! Pra donde leva meu véio? Tirou logo de mim, que podia dar por não perder?
E o coveiro já lhe cobria de um todo, e a velha já era só uma sombra sozinha, e o sol já parecia acostar-se, mas a mulher insistiu:
- Tirou logo de mim, que podia dar por não perder?
E falar isso é como dar queijo pra cabra, é farelo de pão no trigo, é entrecote no espeto para desaiúno de vaca de abate. Era o corpo à morte. E era ela, a morte, quem já preparava suas maletas para a próxima cidade, quando a dita velha disse tal dizer. Por baixo do grande sombrero negro, escondida com suas longas tranças também noturnas, quase fez careta de preguiça, quase negou o instinto, mas acabou por soltar as maletas e decidir ficar. Ainda olhou um instante para o horizonte, não pensem que divagava sobre quão bonito estava ou sobre como o silvar das catorritas é bonito ao crepúsculo, não, só se divertia vendo o vermelho sangrento que tomava conta do céu e sentiu-se totalmente inserida no grande circo da criação. Ficava, afinal era o destino do mundo que tinha que ser cumprido.
Caminhou sob o entardecer, pensando se alcançaria descobrir o endereço da encomendada já para a noite, sempre ideal para as idas. Passou com seu longo sombrero negro em frente aos bares nos quais as gentes começavam a apuleirar-se e não um nem dois, mas nenhum dos que ali pereciam pelo cigarro ou pelo álcool, vendo-a, pensaram no destino mortal que lhes aguardava. Foi aí que viu a prometida já cruzando ao longe e apertou o passo, pensando em pegá-la de surpresa na chegada à casa. O lusco-fusco, no entanto, lhe confundia as vistas e só voltou a ver-la quando já cerrava a porta do barraco donde vivia.
A morte, então, soube que sería obrigada a encontrar outro plano para dar o que não se diz à dita velha. Pôs-se a observar desde a janela e inconformada ficou - ai e como - quando notou que a prometida, a mesma que agora mesma se esbugalhava em água e sal, estava abraçada em outro homem, mais jovem e gordo que o último - que eu o tenha! -, com a saia já levantada, esfregando as partes donde as outras partes hão de caber.
Mais raiva não lhe deu por estar gozando da vida. Isso bem lhe apetecia. O que lhe indignava é que estivera gozando da morte, ou seja, era bem mentira o que ela mesminha havia ouvido agora há poucos minutos de cá, a mesma mentira que lhe havia tirado as malas da mão e a viagem dos pés. E lhe subiu um sangue colorado entre as crinas negras, lhe explodiu um ser que há muito não tinha voz, e sem que percebera abriu a maleta extendida no chão, passou a mão na foice mais afiada que levava e abriu a janela jogando as longas tranças para o lado de dentro.
- Boas noites - ordenou.
A mulher saltou de cima do homem, gritando muito assustada, mas a morte, com um simples movimento de braços, impediu que ela fugisse até a cozinha. Ficaram os dois nus, o homem totalmente em silêncio e a velha em transe, até que a morte sorriu como se fosse começar a falar e realmente o fez:
- Não havias dito que daria tua vida pelo outro defunto que já foi?
- Disse? Será?
- Sim, disse. É por isso que estou aqui.
- Tens bem certeza disso? Olha que não...
- Juro pela minha vida. - respondeu a morte.
Ficaram alguns segundos em silêncio a pensar se tal dizer cabia na boca e contexto.
- A proposta está ou não está de pé? - repetiu a fúnebre.
- Não, não está - irrompeu o homem, com tom desafiante.
- Entendo - disse a morte virando o rosto para baixo por um segundo - então darte-ei outra opção para que puedas escolher..
Pensou um momento e enquanto o fazia começou a arrastar o cabo da foice na altura do ventre, volteando-o na palma da mão.
- Deixo que te esqueças de mim - coçou o lóbulo da orelha esquerda com a mão direita como se lembrasse de umas palavras e seguiu - mas para que fiques com teu novo maridinho, terás que casar-te com ele. E agora mesmo! Sem mais rolos que suas vidas estão por um fio!
Então a mulher olhou para a foice, virou para o homem que já protestava, não, não, isso não, e ele começava já a vestir-se para largar-se, mas a morte lhe ordenou que parasse ali mesmo e virou-se, esperando a resposta da mulher:
- Eu caso. - respondeu a velha firmemente.
E o homem tentava correr, no desespero que estava, e gritava que já tinha outra esposa e, assim sendo, uma mais não lhe cabia, mas a morte lhe disse que a ela não lhe vinham bem estas frescuras de fidelidade - principalmente à vida - e começou a disparar cânticos sem alma e idade, acendendo incensos por toda a casa. Quinze minutos e a cerimônia já tinha ido - não fizera jus ao nome.
- Pode beijar a noiva - disse a morte.
E a velha sapecou um beijo ao homem que se via preso por uma espécie de encanto ou mágica ou sabe-se lá que coisas. Mas logo beijou-a calado porque com a morte mais vale estar de bem do que estar com ela. Aí a morte pôs o sombrero negro arriba das tranças e quase sorriu, tanta graça que foi findar a função com frase e foice:
- Lhes declaro marido e mulher, até que a morte lhes separe.

Olhou para o relógio, pensou que o último trem ainda não saíra, passou a mão na maleta e foi indo pela porta, com as duas sombras negras que lhe seguiam.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 09:27 Comentários:




12.11.06

Hora
Guilherme Póvoas
Ninguém compareceu ao seu enterro. Mas tudo ocorria normalmente. O caixão, a cabeça sempre baixa do coveiro. Tudo nos conformes. Estava só, ali, inconformado. Do amigo de bar, do companheiro de cervejas e de mulheres, nada. Do filho, que mesmo desgarrado recebia dinheiro pelo correio, nada. Da faxineira da casa, para quem tanto carinho depreendeu durante décadas, nem um fio de cabelo. Nada durante o enterro. Apenas o padre a rezar em vão um pai nosso com fé. Dois olhos negros observavam distante o funeral, mas não. Não era alguém. Mas um ninguém a roubar flores de outros jazigos. Até aquela vizinha, cuja qual devia-lhe algum dinheiro, não compareceu. E olha que ela havia prometido. "Não morra sem eu lhe pagar." Agora, dívida quitada. Paga com um cheque assinado pela morte. Pois nem guarda-chuva preto, aberto sob a chuva, estava lá. Aliás, nem a chuva apareceu. Sem saber o que acontecia, o morto deu por si. Deu conta, de que estava vivo. Ainda não era a hora. Ele que se ausentara tanto de sua própria vida.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 03:04 Comentários:




31.10.06

46 músculos
Gabriel Silveira
Parece incrível que, onde eu vejo equilíbrio, os outros vejam o contrário. Nunca foi uma questão opinativa. É como se, simplesmente, eu tivesse um extra sentido, um dispositivo a mais - ou a menos, insistem alguns - que me permite saborear ao máximo a estabilidade e o comportamento civilizado nas pessoas. Sei bem, ninguém precisa repeti-lo aos ventos, que cada qual tem suas maneiras e seus pontos-de-vista, sería uma ofensa de minha parte conceber a liberdade individual de uma forma distinta a de meus contemporâneos. E, para a surpresa de alguns, é exatamente neste ponto - nas bases do sagrado liberalismo! - que esteio meus principais argumentos em meu favor. A questão é que, fruto de minha paixão quase orgânica pela estabilidade material e pela manutenção da harmonia moral, brotou-me uma verdadeira rejeição a um ato que parece totalmente natural no restante das pessoas: o gargalhar.

E não se trata, como alguns poderiam de antemão supôr, de uma inquietude despertada pelo som que emitem. Isso, apesar de que em algo realmente me incomode, não chega a ser de todo um distúrbio grave em meu discorrer diário. Talvez seja tamanha a ¿oferta¿ de barulhos em nossa sociedade, que minha concepção de mundo já venha auto-programada para recebê-los sem maiores problemas. O que, sim, me quita a paciência por completo e atua em meu cérebro como se lhe enfiasse milhões de mínimas e pontiaguas agulhas cirúrgicas, é o lento contorcer que precede a abertura repentina da boca, o balançar impaciente das cadeiras sobre as pernas e, finalmente, o dobrar oblíquo dos joelhos, deixando o corpo cair para trás e os ombros dançando sempre no sentido inverso das costelas. Desequilíbrio! Todos os meus sentidos me dirigem a esta verdade. Parece realmente - somente se percebe estando atento aos sentidos! Aos sentidos! - que são quase como macacos buscando voltar à caminhar sobre quatro patas, ou restos de uma raça bizarra e agonizante que agacha-se para se aproximar ao pó que lhe gerou um dia. O que tenho certeza é que, somente o citar de tal ato, choca a cada milímetro nervoso do meu corpo, deixando-me totalmente extasiado. Já me instruiram: nestes momentos é preciso respirar fundo, contrair e estirar cada um dos dedos da mão e contar lentamente até 100 (este exercício me ensinou o velho Dani, que se burlava dizendo que só funcionaría se eu fizesse esta contagem em números romanos).

Enquanto exercía um cargo absolutamente acadêmico, esta espécie de sexto sentido nunca me foi prejudicial. Está claro que o mundo intelectual em que convivia não era lá muito chegado a dito mal e eu podia estar sempre confortável - e seguro - enquanto estava no Campus da Universidade. Meu medo restringia-se às grandes reuniões docentes ou às festas de final de ano, em que sempre precisava construir argumentos que me liberassem de tais eventos. Apesar de que, desde muito jovem, eu tenha perdido contato com qualquer tipo de família - morreram meus pais e avós meses antes de completar 12 anos e, portanto, sempre quando me refiro a eles visualizo o representante da seguradora que me tornou um homem rico alguns dias depois - é deles que me utilizo para minhas escapadas. Assim, uma nobre avó que sofre de uma síndrome qualquer me evita o confronto com uma turma de estudantes juvenis e um solitário pai na noite de ano-novo me poupa da abertura de vinte e cinco garrafas de champagne em sequência pelos diretores de cátedra.

No final, foi a própria falta de entrosamento com os tais diretores que acabaram por desgastar minha imagem interna na Universidade. Depois das duras críticas que recibi pelos artigos em que defendia uma fundamentação schopenhauriana a Joyce - o preço que se paga por não seguir as modas! - fui primeiro obrigado a estabelecer minha posição ética frente a meus colegas e finalmente, como única e última forma de evitar um confronto que quebraría qualquer tipo de harmonia que ainda mantinhamos, deixar o corpo acadêmico, abandonar o colegiado de desenvolvimento intelectual que ajudei a fundar e ausentar-me de meu retiro de tranquilidade.

Nunca pude ver com clareza aquele vácuo em que simplesmente deixei de existir para o mundo. Lembro de sentar-me na janela do décimo sétimo andar em que fica meu apartamento, com um único e solitário cigarro ao lado. Prometia a mim mesmo, como prova de disciplina, fazer com que durara por toda a noite e, assim, o acendia, tragava e logo o apagava, e via-me obrigado a gastar todo o tempo que me esperava até a próxima tragada com o único entretenimento que me restava: pensar.

Levei algumas semanas para organizar meu currículo e revisar todas minhas publicações, então o enviei a diversos contatos que haia construído no mundo editorial. Confesso que esperava um trabalho como uma espécie de correspondente ou articulista, mas me vi obrigado a aceitar o cargo de especialista técnico em uma revista científica. O grande problema é que tinha que estar na redação diariamente, o que nunca imaginei que pudesse tornar-se tamanho suplício.

Só trabalhando seis horas diárias com esta raça para saber do que se trata. Jornalistas! Jornalistas! Menos deles e teríamos um mundo parcialmente melhor. São dispersos, disconectos, momentáneos e supérfluos. Menos de cinco dias levei para constatar a impossibilidade de dividir meu espaço vital com esta espécie intolerável. Não pensem que sou eu o intolerante, não me encaixo para nada ao estereótipo sensível que preenchem os intelectuais à moda antiga. Até as nove da manhã, enquanto estes corvos certamente ainda dormiam baixo seus ninhos preguiçosos, eu conseguia desenvolver todo o trabalho que me encargavam, com o silêncio da manhã balançando suavemente a palmeira que terminava à janela da editorial. Mas logo antes das dez já começavam a soar os telefones, o abrir e fechar dos elevadores e os jornalistas se amontoavam nas pequenas salas fumando seus cigarros baratos, enchendo de gritos o ambiente e, o que é pior, gargalhando sem parar, como se, a cada frase, lhe descargassem correntes de altas tensão que lhes fizessem abrir as grandes bocas cheias de sorriso e gargalhar, gargalhar, efusivamente gargalhar.

Na segunda-feira seguinte à minha admissão, solicitei uma sala em que pudesse ficar em meu ambiente reservado. Frente à negativa - mais que previsível - da diretora que me havia contratado, propus um horário alternativo em que pudesse trabalhar em paz. Em princípio parecia uma loucura, mas certamente pude estar mais tranquilo, ao menos nos primeiros dias. Começava meu labor diário às seis da manhã e, até as nove horas, organizava meu artigo diário. Saía antes da chegada da manada de gargalhantes, e voltava a meu apartamento, onde passava grande parte do dia. Às cinco e meia, então, voltava à editorial, que já estava de volta à normalidade, para terminar o artigo com as idéias e conceitos que estavam totalmente maduros em minha cabeça. Trabalhava com muito mais facilidade a este horário e por algum tempo pensei que, ali, havia finalmente encontrado meu verdadeiro modelo de trabalho. O primeiro incidente que tive foi em um destes dias em que meu trabalho havia fluído com total naturalidade. Desci da editora por volta das dez da noite e voltei passeando pela cidade silenciosa, como sempre fazia questão. A melhor amiga do homem é a noite - ao menos sempre que esteja em silêncio. Tão somente saí do edifício e cruzei a rua, notei que um grupo de pessoas conversavam alegremente na esquina com a avenida que me leva a casa. Respirei fundo e segui adiante, sem mudar o caminho. Quanto mais me aproximava, entretanto, mais baixo tornava-se o volúme de suas vozes. Isso me ajudou a relaxar tanto, o que só piorou o momento em que finalmente passei ao lado dos dois casais, que soltaram uma imensa e aparentemente infinita gargalhada ao meu lado. Meu susto foi tamanho que, automaticamente, fui jogado no gramado que costeava a esquina. Os quatro me olharam com olhos mais do que assustados, ameaçadores, como se fosse eu um demente ou algo assim. Só tive tempo de levantar-me e correr pela avenida afora, até chegar a meu apartamento, onde o décimo sétimo andar finalmente me deu um pouco de tranquilidade.

No outro dia, estendi-me um pouco mais no trabalho, prevenindo-me de um novo encontro com os mesmos casais. Inclusive fiz um caminho alternativo, saindo dos fundos do edifício e obrigando-me a contornar toda uma quadra a mais para sair do outro lado da avenida. Entretanto, quando já a tranquilidade invadia-me, no segundo semáforo depois do cruzamento, três jovens, como verdadeiras aparições, como vultos fantasmagóricos de uma nostalgia, saltaram desde um poste de luz, cortando-me o caminho bruscamente, e soltaram verdadeiras ¿carcajadas¿ com tal manobra, despejando-se pela calçada como se fossem bebês famintos a chorar. Me protegi daquela agressão violenta, disparei entre os carros que cruzavam o sinal verde e, por muito pouco, não me atropela um ônibus metropolitano que vinha contra minha direção. Utilizei os buzinaços como uma espécie de cobertura para minha fuga e me perdi na escuridão dos cedros do parque municipal.

Semelhantes ataques ocorreram nos dias que se seguiram. Na quinta-feira à noite, cheguei em casa perdido em lágrimas, totalmente inundado em medo e pavor, arranhado de cima abaixo pelas trepadeiras de meu condomínio e tremendo-me com os nervos saltando-me da carne. Na sexta não fui trabalhar. Nem na segunda ou qualquer outro dia da semana que vem. Simon Paez, velho amigo psicoanalista, enviou-me um atestado de saúde que me preveniu da perda do emprego. Na outra segunda, não pude abrir a porta de casa. O quadro de Beckett, dependurado detrás da porta, me mirava com um desafío nervoso, me lembrando das demências do mundo, das limitações dos horizontes a céu aberto e das virtudes do isolamento. Às três da tarde, levantei-me, troquei minhas roupas empapadas em suor e fui até a editora. Era dia da entrega de um prêmio jornalístico especializado - único evento ao qual refuguei com um argumento verdadeiro em toda minha vida - e por isso pude trabalhar em silêncio. Revisei os textos que haviam sido publicados em minha ausência, os quais já tinham preparados no caso de alguma emergência como realmente ocorreu e deixei o edifício por volta das onze e meia da noite. As luzes da cidade pareciam querer acordar todos meus fantasmas. Assim mesmo, não fiz rodeiros, cruzei a rua em direção à avenida e preparei-me para o pior. Logo ao cruzar o primeiro poste, comecei a sentir uma sensação estranha. Olhei com atenção por detrás dos bancos de concreto da esquina e não havia ninguém, assim que segui em meu caminho silencioso. Aos poucos, senti que algo me adentrava, assombrando-me desde dentro. Sentia que ofegava mais do que o normal, certamente uma reação ao momento que enfrentava a respiração acelerava, ao passo que minhas narinas abriam-se lentamente e senti que minha pele enrugava-se abaixo do pescoço, minha língua parecia querer saltar de dentro de minha boca e meus olhos foram fechando-se mais e mais, até que o peso de meu peito me levou a dobrar os joelhos, jogando o corpo harmoniosamente para trás e naturalmente, como se uma faca cruzasse de lado a lado meu peito inflamado, gargalhei, gargalhei solenemente, até cair de nádegas no solo, respirando fundo para novamente gritar em meio à gargalha e morrer com um sorriso estampado no peito, mais que no rosto; e uma tristeza infinita da derrota que me condenava à morte.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 06:14 Comentários:




25.10.06

A vida cai gota a gota
e o mundo, de secura, encharca,
despindo da veste, goma-laca,
o que outrora escondeu toda amargura.

Aí é que a mente pura (não crua)
alcança as certezas da vida,
e de suas chagas e feridas
tem visão e consciência.

Lhe ataca a fúria, a demência,
vê a razão em loucura embebida,
lhe roga pragas a penitência.

Chora em tom de despedida,
vaga frio sem rumo, sem ciência,
até morrer de morte chovida.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 14:06 Comentários:




E se, de uma hora a outra, o frio uivante do fim do mundo corrompesse todos os sóis, todos os ardis amanheceres; e o mundo inteiro, desde o fim até o começo, desde os altos picos até as mais baixas profundezas, desde os mais pobres que choram até os mais ricos que não consolam; se tudo, de um só golpe, ficasse sob o opaco do gelo e das almas enfriadas; se todo o universo e todas as almas e incluso o tempo fosse congelado em um único e breve instante; eu ainda vivo seria, pois brilharia a lembrança de teu sorriso feito chama de vida, como uma brasa que não se apaga, uma fagulha de vontade em minha eternidade individual e intransferível.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 13:57 Comentários:




10.10.06


Espelho meu
Gabriel Silveira
Momento interessante este, em que o sujeito se põe em pé, mirando-se frente a um grande espelho - com que outras pessoas decoraram o banheiro que agora é seu. Primeiro observa atentamente a cor que lhe contorna os olhos, nota como pequenos circulos escurecidos é que lhe dão o aspecto cansado, logo passa a mão sobre o cabelo como se pusesse à prova sua reação ao vento, para depois, repentinamente, lhe assaltar um pavor ao ver como as orelhas saltam da sua cabeça, como se fossem nascer ali novos braços ou pernas, mas este medo dura somente alguns segundos, até que o espectador raciocina sobre a visão que teve, compara-a com todo o já visto em sua vivência e registrado em sua memória vital e pode, enfim, descansar relaxado porque tudo em seu rosto parece totalmente normal, de acordo com o que entende e estabelece sua civilização. Mas engana-se quem pensa que o sujeito, a estas alturas, simplesmente apagará as três pequenas lâmpadas que iluminam o espelho e irá até a sala para tomar o chá que sua governanta preparou para quando terminara o banho. Não. Acabada a análise facial, chega o momento da análise moral, como se, somente nu e depois de cinco minutos discorridos mirando a si mesmo, o homem pudesse ver o que realmente habita dentro de sua alma. Este momento normalmente é o que me eriça os pêlos, a barba parece crescer até roçar-me o peito e, não poucas vezes, levo menos de um minuto para terminar esta análise, apagar as três lâmpadas que iluminam o espelho e dirigir-me a sala, onde, certamente, já me espera uma xícara de twinnings e uma pequena madalena de maçãs verdes. Ontem não. Estava tão preocupado com a janta dos Forero que levei mais de meia hora analizando-me a alma, buscando minhas facetas mais bonitas, rememorando meus escritores favoritos, minhas noitadas de cinema francês com Sr. Wagner, repassando - ou simplesmente inventando - histórias autobiográficas que pudessem enriquecer o diálogo, elevar o nível da conversação, propôr novas pautas de discussão, tudo para não ser tratado como um cão destes que vivem na rua, aos que todas as pessoas distribuem sorrisos solidários, sem escutar seu coração latindo por um pouco de comida. Depois do chá, levei horas relendo trechos soltos de romances do boom hispano-americano e decorando aforismos de Nietszche, até que o sono cessou tréguas e eu, solidário comigo mesmo, entreguei-me a um sono tranquilo que durou até hoje pela manhã.

Não consigo saber se em decorrência do estresse, gerado por tamanhos estudos, ou ainda se pela demasiada importância que dei para este jantar, só o que sei é que, quando acordei, senti um estranho aperto na garganta. Quando fui até o banheiro vi, no mesmo grande espelho em que tão cuidadosamente havia me analisado no dia anterior, que uma espécie de ovo, de coloração vermelha e densidade gelatinosa, me havia surgido no pescoço. Ordenei, como precaução, que me trouxessem o café na cama, o qual recebi com um simples, ¿muito obrigado¿, desde meu esconderijo no banheiro. A questão é que outros ovinhos foram surgindo em todo o corpo, até que não me restou mais alternativas que a de chamar minha governanta e lhe solicitar ajuda. Mas imaginem que a primeira idéia que a pobre pôde conceber foi a de avisar a um médico que avaliasse o ovo imediatamente, não fosse isso ser um mal de morte. Lhe respondi que de maneira alguma um médico deveria ser contatado. Fizesse isso e certamente toda a vizinhança, incluídos o casal Foreiro, me veriam nesta assombrosa situação e arruinariam meu estatus local. Por isso ordenei que a ordenança fosse levada com total naturalidade durante o dia, com a única diferença de preparar-me alguns lenços umedecidos, sob o efeito dos quais os ovinhos certamente reduziriam ou desapareceriam por completo.

Passei o dia inteiro sem sair do quarto. Estudei o que pude das tragédias de Ésquilo e das fábulas de Esopo, e ainda me sobrou tempo para folhar algumas páginas do estudo sobre Klimt com que minha sobrinha normanda me presenteou na festa do doutorado. Durante o dia, apliquei várias vezes os lenços umedecidos sobre os ovinhos - que eram cerca de nove ou dez distribuidos entre o pescoço e as pernas - e quando tocou as sete horas, já quase não se notavam. Ainda assim, chamei minha governanta, lhe disse que aplicasse uma base para que desaparecessem por completo e me vesti com um fraque negro e as abotoaduras da congregação.

Cheguei pontualmente às 21h e fui recebido pelo mordomo dos Forero. Para meu disgosto, perguntou se estava bem, e minha reação imediata foi deixar que me tirasse o casaco e somente lhe contestar com um movimento da cabeça. Não pude deixar de sentir-me um pouco nervoso, então me dirigi discretamente, e esforçando-me por parecer descontraído, até a sala de estar de onde vinham vozes animadas. Quando cheguei, já estavam ali o engenheiro Sánchez e sua esposa, sentados no bar e que pareciam levar uma animada conversação com o casal Forero que permanecia de pé. Cessaram o debate para me receberem e notei que, do fundo da sala, vinha também o reverendo Paez, que fumava compenetrado seu tradicional charuto. Todos fizeram questão de me saludarem a pontualidade, o que me instigou questionamentos de por que já estavam ali todos menos eu, e se não haviam chegado mais cedo para manter conversações da qual me excluiriam. Tentei manter a dose de equilibrio e me senti um pouco aliviado quando a Sra. Forero convocou todos para a sala de jantar.

Durante a cena, não houve maiores percalços. Saboreamos deliciosamente as entradas exóticas que havia preparado a cozinheira grega que haviam trazido de sua última viagem, e depois nos esbanjamos com uma variedade de pescados e frutos do mar que, segundo a Sra. Forero, haviam sido escolhidos para divertir o ambiente e entreter-nos antes das discussões que a noite previa. Eu limitei meus elogios efusivos ao vinho de Imaz - que realmente estava excepcional ¿ o qual tirou um pouco do peso que o nervosismo me apregoava. À sobremesa, foi servido uma maravillosa baclave, outra surpresa da contratada ateniense.

Então nos dirigimos novamente até a sala de estar, donde escolhemos cada um o licor que lhe apetecia e servimo-nos dos deliciosos cohiba, para a alegria do reverendo Paez. A partir deste ponto, senti que as coisas tornavam-se mais difíceis para mim. A primeira discussão entrou em campos religiosos e discordei severamente da posição radical que o reverendo guardava sobre as declarações de um imán valenciano e só fui salvo de um possível mal estar porque a Sra. Forero concordou com meu ponto de vista - segundo o reverendo, conservador. Depois deste primeiro confronto, deixei que os outros se desgastassem também, fiquei restrito à interrupções que me soavam inteligentes - mais do que necessárias - e consegui inclusive encaixar algumas das idéias de Ortega y Gasset, além das citações da Religação dos Saberes de Morin, durante a discussão sobre o modelo de aprendizagem francês.

O fim da noite estava quase chegando e eu me sentia plenamente satisfeito e vitorioso. Havia até me esquecido dos ovinhos, quando notei que o engenheiro me dirigia um olhar ¿a la vez¿ estupefacto e atônito. Me recoloquei na poltrona tentando esconder minha preocupação, mas minha estratégia não funcionou, porque acabei ficando tão próximo da Sra. Forero que era quase impossível que não percebesse o ovinho que revelava-se no meu pescoço. Foi então que o reverendo, como se relembrasse um bom argumento para impor-se sobre mim na questão do imán valenciano, levantou e começou a discursar, com a lareira de fundo, sobre a ética otomana e o sistema judicial do império anatólio. Enquanto isso eu me esforçava por fugir do foco dos presentes. Me pus ainda mais nervoso, processo que teve seu auge quando notei que o Sr. Forero - banhado em suor - quase caía da sua longa poltrona ao tentar identificar de que se tratava o globo azul que saía de minha nuca. Me sentí afogado naquela situação e minha postura - esforçada por levar tudo com total naturalidade - impedia que qualquer dos outros tomasse alguma atitude ou fizesse algum questionamento em relação ao fenômeno. Finalmente, para surpresa de todos e meu absoluto pavor, um dos ovinhos que crescia em meu pescoço estourou, soltando um som totalmente patético acompanhado por um pus inegavelmete asqueroso. Levei até a área, rapidamente, um lenço úmido que trazia no bolso da calça, mas de nada adiantou pois outro ovinho - desta vez o que já aparentava um globo em minha nuca - estourou soltando aquela babosa escarlate por toda a poltrona. Somente neste momento o reverendo deu-se conta da situação e me dirigiu um olhar atônito, com um cruel sorriso no canto da boca. Certamente calculava que com a pontuação de estatus que eu perderia com tal cena, ganhariam ele e suas idéias. Era bem verdade que não podia me orgulhar do que ocorria. Estávamos todos ainda sentados nas poltronas, mas haviam como que se afastado de mim, inclinando-se para os lados contrários ao que eu estava. Nenhum deles me ajudava, e já estava claro que precisava de auxílio, visto que mal conseguia levantar a cabeça, pois logo onde o globo havia estourado já haviam surgido outros tantos ovinhos que me impediam dobrar o pescoço. Foi aí que o reverendo explodiu em uma gargalhada insensata, a qual - para minha surpresa - foi seguida de imediato pelos outros presentes, que roçavam-se em espasmos de alegria, extasiados com a bizarra forma que contemplavam mexendo-se na poltrona. Como se fosse meu último movimento, fui até a lareira andando de quatro, passei a mão em um forcado e finquei no pé do reverendo que pôs-se a dançar de dor no chão, ao redor do seu próprio sangue. Os outros não fizeram mais que seguir gargalhando, apenas mudando a direção de onde apontavam, que agora dirigia-se ao cura agonizante no chão. Fiz um esforço para levantar a pesada bola que saía-me do braço e dei com o mesmo forcado na nuca do Sr. Forero, que caiu levando consigo sua esposa, extendida no solo. Aproveitei para morder-lhe a orelha e bater-lhe com o punho na nuca. Ao mesmo tempo, vi que o engenheiro e sua esposa começavam a desnudar-se sobre o sofá e não fossem os ovinhos que me saíam dos ouvidos, teria escutado os gemidos do casal que desmanchava em prazer. Fui arrastando-me pela sala, agarrando-me em cada fio do tapete e alcancei chegar até a porta da saída. Dei as graças por não topar-me, na situação em que me encontrava, com o mordomo dos Forero. E apenas pude gritar à minha governanta desde o meio da rua e ela já estava aí para resgatar-me. Enquanto me arrastava puxando-me pelo asfalto, repetia que nunca mais, que nunca mais, nunca mais. Mas nem eu, e muito menos ela, acreditávamos que seria assim.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 11:50 Comentários:




3.10.06


O casamento de Luís
Gabriel Silveira
Até ali, nem sombra dela. Mas eu estava bem preparado para o caso de que ela aparecese. Pra dizer bem a verdade, sabia que ela estaria lá, foi pensando nisso que eu estive me preparando todos estes dias. Aliás, o próprio Luís, ainda duas semanas antes do casamento, me chamou uma noite para umas cervejas e lembrou-me de que ela estaria ali, alertando sobre o difícil - ou pelo menos constrangedor - que a situação poderia tornar-se. Lembrou-me de que deveria ir com calma, prevenir-me de qualquer encontro com ela e, claro, sempre primar pela discrição. Confusão desnecessária era o último que queriam.

Que ela estaria ali, era óbvio antes mesmo de que ele dissera. Não iria perder este dia por nada. Mas quando ouvi aquilo pela boca de Luís, foi como se o que estava guardado em uma velha gaveta voltasse à pilha de assuntos não-acabados. A cerveja começou a me descer em solavancos e não pude deixar de notar seu desconforto frente a uma perigosa e inevitável situação. Naquela noite neguei sua carona e voltei para o hotel a pé. Tanto a Balden quanto a Arenal ficaram pequenas para minhas angústias e só quando cheguei na puerta de Sol, onde renascia Tio Pepe já iluminado pelo escuro frio da madrugada, é que consegui vencer os meus demônios. Deixei-os com o porteiro noturno do hotel Paris e subi para o quarto.

Não tive a mínima dificuldade para pegar no sono. Isso sim, tive muitas turbulências durante a noite. Mas do único sonho que lembrei, dos muitos que tive naquela madrugada, só ficou em minha cabeça a cena em que eu estava no púlpito da catedral de Almudena, esperando a entrada de minha noiva. Ela chegava triunfante e, depois das palavras do padre - estas não me lembro do que se tratavam, certo mesmo só a ordem de beijar a noiva - eu quitava-lhe o véu e, para minha surpresa, comigo mesmo é que estava casando. Logo já me via do outro lado, sob o véu e o noivo que o erguia. Tratava-se de mim novamente. Fiquei assim, intercalando-me posições até que acordei totalmente encoberto pelo edredon e passei o resto da noite me convencendo de que o pesadelo era conseqüência do calor.

No outro dia, o primeiro que fiz foi ligar para Luís e dizer-lhe que não se preocupasse. À primeira vista, sim, havia sentido medo da situação, mas raciocinei sobre tudo e lhe assegurei que nada de ruim iria acontecer. Que eu estaria alí, como o prometido, e que nem ela nem pessoa alguma poderiam interfir na minha vida e nas coisas que deveria fazer. Se eu me submetesse a este jogo, certamente em muito pouco estaria escanteado novamente em meu próprio mundo.

A partir deste dia, em que tudo ficou esclarecido, as coisas melhoraram. Uma semana antes do casamento, poderia mesmo dizer que estava nas nuvens. Era como se tudo estivesse encaixando-se na minha cabeça e eu via uma clara possibilidade de que fosse o fim de todas minhas angústias. No final de semana que antecedia a festa, saí pela Gran Vía a comprar os presentes para os noivos e tudo mais que necessitava para o casamento. Assim que pude gastar o restante dos dias para meditar sobre meus próprios assuntos e até terminar de ler o Chejóv que me havía deixado Luís. Às noites, ficava fumando horas e horas na janela do hotel, observando as pessoas que se amontoavam na entrada do metrô e os chinos com suas pedrinhas mágicas. E uma vez ou outra - três oportunidades no máximo - saí a conhecer o que oferecian de diversão as ¿callejuelas¿ da moderna Madrid, na qual apenas havia vivido antes de ir-me a Paris. As mulheres que conheci não hesitaram em apresentar-me - isso, claro, com um mais do que justo incentivo econômico de minha parte - algumas das inúmeras atrações durante as intermináveis madrugadas que não levavam a dias cheios de obrigações.

Sei que, quando por fim havia chegado o dia do casamento, eu estava me sentindo totalmente pronto para cumprir com minhas incumbências. Levantei quase radiante, respirei fundo os ares madrileños, enquanto me asegurava de aproveitar ao máximo cada último instante no ¿balcón¿ do hotel Paris. Sabia que aquele dia sería inesquecível. Pus o traje que havia comprado e pareceu sentar perfeitamente em meu corpo. Ninguém podería descrever o quão tranqüilo e completo eu me sentia durante aquele ritual de preparação. A sensação beirava um orgasmo, e aquela euforia, por não mais do que um segundo, me trouxe a preocupação de que talvez o êxtase tivesse chegado cedo demais. Descartei esta possibilidade, ou simplesmente a esqueci, e peguei um táxi para a catedral, pela dificuldade de carregar os presentes e a maleta que me acompanhava.

Por pouco não me confundiram com a noiva. Aliás, a preocupação do atraso dela não era maior do que pelo meu - apesar de que eu não levava as alianças. Cheguei justo à frente da limusine e entrei na catedral quase ao lado dela. Corri pela nave direita em silêncio e, sem que ninguém o notara, já estava detrás de Luís, ao lado dos outros padrinhos. Aí a música começou, harmoniosa com o repentino choro de todos e a noiva deu os primeiros passos no longo corredor que a separava do púlpito. Pude notar que, por debaixo do véu, mantinha um sorriso profundo e por um longo momento cheguei a entrar em uma espécie de transe, como se estivesse encantado por sua aura nupcial. Finalmente obriguei-me a estar lúcido e, enquanto a cerimônia discorria, me concentrei em buscar o rosto dela nas filas da frente. Mas alguns familiares me olharam desconcertados, pois eu observava os convidados enquanto o padre ditava a missa, e desisti de buscá-la para manter meu posto em silêncio.


Certo é que, quando acabou a cerimônia - e ainda antes de entrar no carro que os levaria para a festa -, Luís me dirigiu uma expressão de tranquilidade ou satisfação, a qual não terminei de desvendar. Assim mesmo tive a certeza de que ela estava ali. Esperei que todos deixassem a catedral, voltei a pegar um taxi e me dirigi a Cercedilla, à casa de veraneio da família, onde dariam a festa. Deixei o táxi ainda na cidade, em frente à prefeitura, e fui caminhando, sempre costeando o asfalto, até começar a subida que acabaria na propriedade. Cruzei ao lado oposto do sítio, subi até ter uma visão perfeita de toda a festa e me pus a abrir a maleta e preparar-me para cumprir com minha promessa.

Quando pus meus olhos na luneta, a localizei de imediato, como se ela sempre estivera ali, esperando por este momento. Gastei alguns segundos observando como parabenizava os noivos, como fazia questão de valorizar aquele acontecimento. Depois, sem mais, dei dois tiros secos: um que provavelmente lhe atravessou a cabeça e outro que deve ter raspado levemente a perna direita. Imediatamente soltei a arma, a parti em pedaços e voltei a guarda-la. Preparei um sanduíche tranquilamente - não comia desde o almoço do hotel! - e fui comendo enquanto me dirigia à casa. Quando entrei, as pessoas estavam eufóricas e sonâmbulas ao mesmo tempo. Pareciam como meninos ao enxergar, pela primera vez, um avião a jato próximos de si. Se põe extremamente exaltados, mas uma espécie de dormência lhes invade todo o corpo, decorrência do ruído causado pelas turbinas. Claro, tudo mudou claramente quando fui até meu pai, que estava agachado sobre minha mãe enquanto ordenava a meus primos que buscassem os cachorros - e abri a maleta, mostrando-lhe a arma. Me agarrou diretamente do pescoço, chamando-me de bastardo, um grande bastardo, e pude ver que todos os outros vinham também a linchar-me. Me jogaram dentro de uma espécie de celeiro, que hoje em dia já servia somente de garagem, e me cercaram completamente. De forma que vi a meu pai, meus cinco primos, meus dois tios e todas minhas quatro tias chutando-me por todos lados, com expressões de raiva e gritando palavras de desprezo. Até que, finalmente, um silêncio tomou conta da minha cabeça - talvez minha audição tivesse sido afetada por algum golpe - e fiquei a ver somente seus rostos em movimento. Aí tive a certeza de que todos estavam ali por mim, que eu lhes possuía por todo aquele instante, que, por fim, eu era uma parte da família. E meu regozijo final veio já enquanto agonizava, quando Luís surgiu entre as cabeças, fazendo sinal de afirmativo, aprovando com toda sua bondade de irmão o ato final de minha existência em família.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 07:38 Comentários:




14.9.06


Fugas
Gabriel Silveira
Descería do andar oito até o primeiro, da empresa de polímeros até a empresa em que trabalhava, e resolveu buscar as escadas, cruzando as garagens abarrotadas de carros. Mesmo no ambiente grisalho, o ar lhe pareceu mais limpo, mais cômodo e foi ali, desde que bateu o cartão pela manhã, que catou um bocado de tranqüilidade. Aproveitando cada segundo, absorvendo ao máximo cada movimento, se viu pisando paso por paso, sentido cada uma das nuances do concreto sendo impressas na sola do sapato. Como se não bastasse, riu. Mas não riu tanto da alegria que lhe brotava e sim de encontrar nas escadas a calmaría, na calmaría uma fuga e só então lhe veio a certeza de que tinha pego a saída de emergência.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 09:59 Comentários:




18.8.06


Horizonte no Guadalquivir
Gabriel Silveira
Não era por isso que ia estragar seu dia. Saiu pela porta dos fundos, abrindo espaço entre as missangas coloridas que escorriam do marco e logo batendo o pequeno portão verde que estremeceu e desfez-se em milhões de cacarecos de tinta. Em frente à casa parou, sacou o olhar e observou a calha meio solta sob o telhado, atravessou as nuvens e chegou até as palmeiras que pareciam crescer do céu. Engoliu seco pensando no ocorrido e, mais uma vez, repetiu que aquilo não ia estragar seu dia. Foi encontrando calçada entre os pedaços de lajota e levando o nariz na cara. Sentia o cheiro de tudo, até do sol que lutava contra as copas para atirar-se ao solo. Foi por levar a cabeça concentrada no nariz que sentiu que o Guadalquivir lhe chegava em rufadas contaminadas de desejo. Ele chegou a cessar os passos e respirar fundo fechando os olhos para enganar os sentidos. Aí resolveu fugir do centro, pegou à esquerda e chegou à ponte que lhe dava os bons dias. Sentiu o sorriso lhe subindo do estômago, como querendo saltar-lhe na boca, mas não pode desfazer a cara de nojo, voltou a pensar no ocorrido e respirou fundo uma vez mais. Seguiu caminhando, vendo a ponte romana ao longe e parecia que o horizonte lhe fugia, mas logo viu que era ele quem percebia o movimento da água de forma inversa, que o horizonte, na verdade, vinha carregado pelo Guadalquivir, em sua direção, lhe ameaçando os pés, lhe tomando o dia que tanto defendera. Correu até a ponte romana e seguiu observando as águas que pareciam crescer e crescer, até que subiram a tal ponto que as ruas todas da Córdoba mergulhariam no Guadalquivir, não fosse ele o que caía desde o alto do seu dia, tão precioso dia que era para estragá-lo por uma bobagem.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 12:27 Comentários:




10.8.06

10 mil vidas
Gabriel Silveira
Não é de hoje essa minha cara melancólica. Antes de passar por aqui, enfrentei lugares tão mais piores que este, tão mais imersos em temores e maldições, que fui me encarcelando pouco a pouco. Enquanto o mundo começava a brotar do nada, eu cacei, pus fogo e pintei a vida. Fui mercenário líbio decapitado nas fronteiras egípcias, enquanto o mundo mal sabia que era um mundo. Como cananeu, montei emboscadas contra as forças hebráicas e paguei com cada órgão do meu corpo. Mas me vinguei, porque vi com meus próprios olhos quando Nabucodonosor pôs fogo ao templo de Salomão e levou consigo a Arca da Aliança. Assassinei e paguei com a vida na batalha de Salamina, agonizando por cinco dias na proa de um barco inimigo. Morri três vezes na batalha de Gaugamela, a ultima delas atingido pelo punho de um soldado pessoal do próprio Dario. Fui ostrogodo e morri com o ventre aberto nos cárpatos ucranianos, depois de ser traído por um irmão. Pelo braço firme do pró cônsul Craso, lutando em terras da capadócia, fui esfolado até a morte. Ordenei rebeliões ao lado de Judas e estava pregado em uma cruz ainda antes de Jesus pregar a verdade. Durante as convocações para o Conselho de Nicéia, caí em um emboscada que calou na alma qualquer das minhas revoltas. Fui feliz levando a mensagem de Maomé aos desertos da Eritréia. Fui por duas vezes líder entre os aztecas, mas provei de meu próprio veneno ao ser assassinado, muito tempo depois, como camponês maia. Carrego nas costas a vida de cinco de meus familiares, que morreram congelados ao me acompanharem na busca pelos confins do universo, através do gelo norueguês. Fui célebre professor em Alexandria e miserável agricultor no Chipre. Cavalguei ao lado das tropas de Saladín. Fui conselheiro pessoal e senhor dos gaviões de Kublai Khan, e foram eles que me mataram quando assim o quis o imperador. Alimentei minha família como pastor na Lapônia e como amo de porta da Alhambra. Fui padre inquisidor e bruxo incinerado, e em ambas vezes era um apaixonado por cristo. Reescrevi as mitologias irlandesas em um gelado quarto de mosteiro católico. Fui poeta do Albaicin. Testemunhei o terremoto de Lisboa e a guerra civil americana, escondido em um navio mercante francês. Tive toda minha família queimada pelos Afrikaners em sua busca desenfreada por terra. Fui expulso da China quando Lin Zixu Lin Tse-Hsü declarou a Guerra do Ópio. Atentei contra a vida de Lawrence da Arábia. Matei e fui morto en 17, em 59 e em 68. Fui companheiro de Lumumba, Biko, Kwame e Ben Bella. Chorei na copa de 50. Estive em Serra Pelada e em Serra Leoa. Lutei nas trincheiras soviéticas do Afeganistão e era comandante dos homens que mataram Marighella. Então não me diga para desfazer esta cara de asco. Eu não nasci assim há dez mil anos atrás.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 14:24 Comentários:




E não é que o pobre foi pregar e acabou pregado?
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 13:23 Comentários:




1.8.06

Sorriso só vale quando é sério.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 14:08 Comentários:




31.7.06


Estações
Gabriel Silveira
Era um porto com trejeitos de montanha que, por pudor, disfarçava-se de mundo à beira-mar.

Como todos os que imitava, corria da chuva e sorria ao sol. Mas a verdade, aí, não em falso, nunca havia se ancorado.

Até que veio a secura dos dias e a estiagem dos mares e a greve das chuvas. E tudo que era bacana virou deserto.

Como os outros que eram sede de sol e banho de água, virou sede de água e banho de sol.

E quando todos sentiram-se como que perdidos naquela nova realidade, naquele mundo melancólico, ele parecia descoberto à verdade.

E teve certeza da pureza de sua escuridão, da essência de sua natural infelicidade.

No primeiro pôr-do-sol daquela costa de desertos, ele foi, finalmente, o único a sorrir e sentir-se parte de um mundo.

E a maresia, que ainda pairava na cidade, não trouxe nostalgia à população que dormia.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 12:47 Comentários:




18.7.06

¿Y tu?
Gabriel Silveira
Apoyó la cabeza en la ventana del autocar y miró su sombra recorrer el asfalto soleado. A las tres estaría en casa, pensó. La llamada, el silencio, el autocar, el silencio, la casa, el silencio, el flagrante y después, después el destino iba a crear su propio remate. Él mismo había creado esta trampa, él mismo la tendría que poner un fin. El autocar giró, irónico, en la Calle de las Parejas. Una lágrima escurrió de su ojo y resbaló por la ventana hasta tumbarse en la goma del cristal. Él crujió los dientes y miró al reloj. Luego se levantó de susto, hizo señal que iba a bajar y, hasta hacerlo, dio cinco pasos hacia el fondo mirando los árboles del parque, que todavía era en la ventana. Luego bajó decidido. El zapato negro tocó la piedra calentada del alta tarde. Se puso en pasos rápidos hasta la esquina, esperó el hombrecillo verde para cruzar la calle, cerrar los ojos en los pasos al lado del parque, distribuir unos saludos por las pequeñas tiendas de la Sé y después, y solamente después de unos segundos a pensar en frente a la puerta de su propia casa, sacó la llave del bolsillo e ya se encontró en la cocina, sin percibir los segundos que perdiera titubeando en busca de las llaves, intentando encajarla en la cerradura, dejando el abrigo detrás de la puerta, nada, nada, simplemente se encontró parado en la cocina, de espaldas para la mesa, con la mirada fija en la nevera que parecía dormitar roncando bajo el aura de la tarde muerta. No más, silencio, como previera. Fue hasta el callejón, sacó el primer cuchillo que encontró escondido entre las cucharas, luego se puso a roer la punta del propio índice izquierdo. ¿Miedo? Contestó subiendo la escalera sin darse cuenta de la blusa estirada sobre la mesa, sin notar los dos móviles en el escritorio del salón, en que apenas había entrado. En la escalera, el silencio se había desecho en el tiempo, cediendo lugar al obvio, al esperado, al no esperado, al anunciando en la llamada, así como en tantas cartas, era obvio, al final. A cada gemido envejecía un año. Llegó mayor a la puerta del cuarto. Se mordió el labio después de apoyar la cabeza y las lagrimas en la puerta de madera, después de meditar si tenía o no miedo de ir hasta el fin, solamente después de haber oído por unos segundos los gemidos estridentes de los hijos de puta, pensó, hijos de puta, ¿que he hecho? pero ¿que he hecho yo? vida de mierda, de mierda y vino el llanto, vino la cabeza apoyada en la puerta, vino la mordida en el labio y un golpe en seco del golpe del cuchillo hizo arrebatarse la puerta que se hundió en el tiempo entre los gritos de la pareja desnuda, él sobre ella, ella de espaldas, de boca bajo, manos sujetando el borde de la cama, ojos hacia la puerta, senos fregándose en el sudor de la sábana, mientras él sujetaba su cabello, de rodillas sobre la cama, sobre ella, sobre el destino, exhalando por toda la habitación el olor del lascivo, de la cópula salvaje, del fausto eterno que regían en el pequeño dormitorio, dando razón a lo que la tenía, y él, harto de ella, levantó el cuchillo hasta una altura que sobrepasaba el armario escogido con tanto cariño, aún pensó, para luego bajar de un solo golpe matando de inmediato al hombre, que no tuvo tiempo ninguno para huir de la posición del coito, sobre la mujer que, berro tras berro, pedía no, no, no lo haga, pero que antes, nada menos que unos segundos antes, estaba a gemir con el placer de la penetración, con el distribuir harmonioso de calofríos por su cuerpo, con el deslizar sereno de sus senos en el colchón, con el humedecer continuo de los labios y más y más, pero ahora lloraba y lloraba, imploraba por menos, menos, rogando por paciencia, por perdón, por cristo, por días. El hombre del cuchillo silenció. El otro también, muerto. El primer se acercó de su cuerpo, le miró en los ojos cerrados, le dio un beso en la boca y lloró. Luego, giró la cabeza hacia la mujer paralizada por el miedo y le preguntó: - Y tú, ¿quién eres?
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 11:27 Comentários:




3.7.06

Reza forte
Gabriel Silveira
Quatro menos quarto, sentiu o pé resvalar no barro quente, levantou a voz sem o corpo e não conseguiu gritar. Com os joelhos nos cotovelos, comeu da terra que nos terá pó, sentindo o nariz filtrar a água pastosa que bebia pelos poros. O outro ergueu os dedos en riste, os dois, com os outros fez n minúscula, apontou a mão para o que no barro era e, em panorâmica, girou vinte graus o rosto sério. Bradou o cenário e a chuva atirou-se branca sobre o barro. Os dois ouviram as vintecinco kombis, que ali jaziam à ferrugem, virarem tambores da natureza. Um cachorro era paçoca sob a carcaça de um corcel e um burro não despertava sob a enxurrada.
- Comeu ou não comeu, velho safado?
- A menina foi lá brincar, não fiz nada, te juro, meu irmão. Calma lá com esta arma.
- Tá pensando que eu sou trouxa, imundo? Ou morre confesso ou morre covarde.
O velho conseguiu levantar o joelho, firmou a base do pé direito na lama. Depois olhou o ferro-velho sentindo a fricção das gotas no olhar. Voltou os olhos para o cano dos dedos.
- Quer saber? Sim, comi sim. Deu bandeira, a molequinha levou, onde é que tu estava que não cuidando dela? Na hora de deixar a menina sozinha pra comer as tuas mulatas nada era problema.
- Vai pro inferno - disse o que tinha os dedos - bam, bam - falou enquanto movimentava duas vezes a mão, desenhando uma hipotenusa da altura do peito até o nariz.
O outro, como se a arma fosse real, caiu com a orelha no barro, a água mergulhando em seus orifícios. O olho estancou na chuva. Moleque, moleque, o que ficou de pé desligou a mangueira que chovia e pela primeira vez sentiu na pele o choro que sempre chorara. Mirou para o morto movediço. Caminhou de um lado ao outro como se buscasse uma solução, depois juntou os dois dedos da mão, roçou ambos nos lábios e deu duas estacadas no céu da boca, caindo ao lado do outro morto. Ficaram os dois ali, sozinhos, até que o cachorro ensopado acordou, tomou coragem para pisar no lamaçal, foi até os dois corpos, cheirou a carniça e pôs-se a comer as vísceras, deliciando-se por ter alimento na fantasia. E os dois estavam mesmo mortos, mas há muito mais tempo, mas de muitas outras formas, mas fedendo muitos outros cheiros, porque reza a vez que, mais ou menos tardar, todos teremos a nossa.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 20:26 Comentários:




25.6.06

Ave, nobre
Guilherme Póvoas
Vou te contar a história de uma galinha. Era ela e mais três, numa meia-cerca, atrás da casa de uma velha idosa, vivendo de milhos espalhados pelo galinheiro durante as tardes de sol. O causo é da galinha rosa - a branca, a marrom e a preta eram quietas, sem brilhantinas no ego. Bem ao contrário da azul, que já não estava mais por lá. Pelas manhãs, a galinha rosa sorvia a poeira da fazenda levantada pela Kombi do marido velho da idosa, sorvia a duras penas pequenas, que nesta hora não pareciam mais rosas, bolas. Mas, vivente, o sonho dela era conseguir voar. É ruim, nem na caçamba bamba da camioneta preta do leiteiro, e nem na do pedreiro, ela conseguia se jogar, avoar, nem pensar. Ao contrário da galinha azul, ela era rosa, sem portfólio, tão pouco forma de aerofólio, para pular e se manter por lá, lá por cima.
Com o tempo ela foi deixando a esperança se perder pelo galinheiro. Não tinha jeito: era com ela o problema. A mania de se rebaixar era, além de egoísta, também antropocêntrica. Era um estorvo, reles vida, cacarejar e, na obrigação, colocar ovo. Mas, ah, a esperança. Podia até tirar a vida de alguém, mas não seria morte morrida por desgosto. A galinha rosa tentava voar, continuava, e não tinha agricultor, daqueles de posses grandes ou pequenas, dali da região, que não a avistavam, por vezes zombavam, da mania daquela ave. Mas que coisa chata, correria todo dia para tentar ficar alguns segundo a mais do que o normal, do natural, permitia.
Sem jeito, e sempre sem argumento, a galinha rosa, já bem desbotada, acabada, estancou seu sonho, suponho, pois não agüentava mais correr. Assim, sem correr, passou a temer - pois não poderia voar - a morte.

Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 23:27 Comentários:




15.6.06

Como se culpa o escritor que o é, bonitos são os nãos, os que escrevem por escrever, escritura sem sentido, carente de motivo, órfã de estímulo. Estes não são escritores, são lindos corredores donde vazam as fortes águas da poesia, inundando dias sedentos, colorindo mundos desaturados, maravilhando mentes acostumadas. E como nos culpam eles.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 10:12 Comentários:




24.5.06

Ciclos
Gabriel Silveira
Chegar em ponto tal e desfazer-se dedo por dedo, para logo tirar o muco da boca morna, gritar ao meio-dia que já, lamber o troféu da estafa e bordar-se o medo à inércia de múltiplos grises. Aí refazer o silêncio, matar a bala no peito, vala perdida, e ecoando silêncio na mueca de gargalha, chorar pincéis atômicos e manchar o mundo de negro, despencar à terra-tela, rosnar inundo em barro-tinta e erguer-se até um outro ponto, onde recomece a sonhar, até que chegue novamente, esperadamente, ao ponto tal donde voltará a desfazer-se dedo por dedo para logo tirar o muco da boca morna.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 13:45 Comentários:




19.5.06


¿Onde?
Gabriel Silveira
Andrade, onde? Meteu o pente no bolso, lambeu o pelo que brilhou e brilhou seu sorriso. A colônia sete amêndoas sugou o ar. Abriu o bolso de cima da camisa, passou a mão na maleta marrom e conferiu gás, fogo e janela antes de bater a porta do quartinho que arrendava. Já era o terceiro ano que vivia na pensão da João Pessoa com a Sebastião Leão. Quando entrara prometeu que não passava ali mais de dois. Meses. Andrade, onde? Passou pela frente do bar do Branco segundos depois. A noite espiralava o vento com o calor e o suor começou a dançar-lhe sobre os olhos. Sacou o lenço, pano na cara, carteira na mão, entrou na padaria que já fechava. Cara feia de um, pago teu salário de outro, acabaram-se entendendo - um com a pressa de sair que tinha, o outro com a lata de cerveja que queria. Saiu a passos largos Santana acima, cortando as ruazitas que cortavam a cidade que cortava a noite, iluminando-a de cima abaixo. Ahhh cerveja fazia-lhe cosquinhas bebendo seu corpo e ele sorria, sorriu até que a Bonifácio lhe impôs o tom sério, estas horas, sabe-se lá, ¿onde, Andrade? A cerveja terminou, hesitou, lata no chão, uma mão na outra, procurou o cigarro, em casa, ¿onde Andrade? Enfezou, viu as luzes da Osvaldo, voltou o sorriso, caminhou batucando Jacob do Bandolim, tranquilizou, já na Garibaldi, o Voyage estacionado em frente a casinha, abriu o portão de leve, cheiro de comida, bateu e abriu, estava aberta, Vem cá minha filha, a menina saltou do sofá, abraçaram-se, ele a cabeça, ela a barriga, ¿Pai, veio jantar? Risada e não, minha filha, vim falar com teu irmão. Entrou na cozinha, abraçou por trás a ex-mulher, cara feia dela, Nem vem que não tem janta, e ele, Calma, mulher, vou como vim, só quero falar com o Jorge, taí? Taí sim, no quarto, tem compromisso, é? Coisa minha, coisa minha. Viu a cara feliz dele, aí sim torceu o nariz, cara feia mesmo é a do ciúme. Ele já estava no corredor, bateu na porta, ¿Filho? Já foi abrindo, o rapaz abatoava a camisa, fez sem-surpresa, Pai, ¿tudo bem? Vem cá rapaz, dá-me um abraço. O cheiro, do cheiro veio mais sem-surpresa. Deu o abraço e ¿Essa hora e já enchendo a cara? Só uma cervejinha, moleque, senta aqui, preciso te pedir uma coisa. O outro nem sentou, tirou a carteira do armário, sacou vinte, toma aqui, também vou sair, saímos juntos, a mãe que não veja isso. Obrigado, filho, te pago quando sair o meu. ¿INSS? O pai não respondeu, o filho sorriu sem-surpresa. Jogou o braço direito por cima do pai, que lhe devolveu com um afago na barriga, saíram pelo corredor, Vou sair, mãe. ¿Com teu pai? Acompanho o velho até por aí, depois vou para a casa do Marquinhos, qualquer coisa liga. Tem comida quando chegar. Tchau, meu amor, disse Andrade, mas ¿onde? Saíram batucando ambos, o um alcançou cigarro ao outro que não tinha, o dois agradeceu. Íam juntos até que, Vai com Deus, não exagera, e o outro, Tem juízo, cuida da tua mãe, e um pra cá, um pra lá, fossem dois era dança. Vistos de cima, eram x e y traçando v. O filho foi pra onde quer que seja, Andrade foi pra onde? Foi descendo a Garibaldi pensando no filho, na mulher, na comida quente, no de sempre e foi pego pela idéia do de hoje, do de nunca e a responsabilidade evaporou. O primeiro vento a levou à independência. Andrade sorriu leve, cruzou duas esquinas e empurrou a portinha vermelha com as costas da mão. Longa escada, gigante sorrindo, tapinha nas costas, olha a senha, De costas se sabe se é homem ou mulher?, Andrade sorriu, Na dúvida não ultrapasse, e subiu rindo e dobrando o passo nos degraus. Cheiro, o cheiro, o fumo lhe divertindo o nariz, a luz lhe divertindo a alma, o rosto no fundo da sala lhe divertindo os olhos. A música dali não importava. Tudo lhe soava Jacob. Desviou de um, de dois quantos foram os dois e os uns, encostou na copa, dinheiro do filho, a garrafa, Dois copos, Dezinho, já está. Navegou entre os mares de suor e os amores naufragados até o canto da sala, o porto seguro, o rosto que ainda era de seus olhos, a cintura ainda de seus braços. Voltou o meu pirata dos mares? disse Rosinha e ele, Só vim buscar o tesouro que me pertence. Jogou a âncora no quarto do fundos, deitou-se depois dela, rosnando como um lobo do mar. Ela afogou o rosto entre as pernas dele, ¿onde, Andrade? e ele só fazia sentir a onda quente entre as pernas dela, foi que mergulharam no colchão, boiaram à deriva, ele dormiu depois dela, com a lua já despertando o sol, com o dia já acalentando a noite. E nova maré já chegava.

Acordou onde, Andrade? Nem sabe como desgrudou a cara do lençol, nem sabe como abriu os olhos de pedra, nem sabe como estava no quartinho da Sebastião Leão. Deitou a mão no bolso, pobre mais pobre que doce de batata doce é doce. Levantou o peito magro, seco, buco, velho, no espelho mais que na vida, foi o que pensou, caminhou, pia de lousa fria, lava a cara, olha nos olhos, mais água na cara, vergonha não se lava. E come o quê? Puxa a carteira reserva, não de dinheiro, de cigarro, fuma um Potro, coice no peito, sai baforando com a regata branca tapando o peito murcho, a calça de sarja do trabalho tapando o pau cansado, o de forquilha calçando o pé descalço. Sentou na escadinha da rua, à beira da porta que tudo esconde, ficou olhando o Julio de Castilhos ao longe, lembranças do filho e outro coice no peito. Franze a testa porque vem sua mulher, a ex, a mãe, a de sempre, mas que é de nunca caminhar, vem com passos chorosos, ¿onde, Andrade? vem se derretendo, Andrade não sabe se é o calor, mas vem em ondas, vem chegando, vem como maré alta roendo o chão, de pouco em pouco, até bater em cheio à terra à vista, que é ele, o destino e se desfaz nos braços, Que houve? Que foi? Me fala, mulher! e ela é só suco de mulher, é batida de medo de falar com pedaços de não sei como dizer. Ela nem fala, ele só olha, ela munheca, ele engasga e, Cadê o Jorge? Foi ontem, tentei te achar, onde tu tava? ¿Onde? Cadê o Jorge, que foi com o Jorge? Foi um assalto, uns riquinhos de merda armados, foi na ida pra casa do Marquinhos, ¿Onde, Andrade? e parecia que ia seguir falando, mas teve medo porque os olhos de Andrade viraram um inferno duplo, dois infernos redondos, brasinhas de medo fritando o coração de Andrade, faíscas de uma alma que é joguete de carontes, alma pra cá, pra lá, cantando joguinho da vida é joguinho da morte, joguinho de azar e joguinho de sorte, o que o de lá não quer o de cá quer todinho, com osso, com alma, com tudo inteirinho. E Andrade caiu de joelhos, doeu pouco, doeu muito pouco pensou, queria mais, queria sentir a morte do filho a brotar nas entranhas, levantou bambo, teve pena da mulher que se escondia na neblina do calor e foi se afastando, foi caminhando de costas olhando ela desmantelar o olhar, mendigar no tempo, e foi em passos de cachaça até se perder na névoa das quatro da tarde de um domingo de merda na puta esquina da Sebastião Leão com a João Pessoa. ¿Onde, Andrdade?

Passou quatro horas ouvindo a prima Martinha contar que odiava o próprio pai. Tudo porque ele amava mais aos porcos que a sua família, tanto que quando morreu pediu que suas cinzas fossem todas atiradas a lama cinza do porqueiro do sítio da família. Talvez por isso Andrade tenha vomitado tanto, talvez por isso tenha sentido a gastrite como um milhão de soldadinhos que lhe apontavam suas milhares de escopetas minúsculas e, todos ao mesmo tempo, lhe disparavam uma chumbarada na altura do ventre. Levantou a cabeça com os lábios sujos, teve vergonha, limpou-se na camisa mal pasada que lhe vestira para o velório. Saiu dançando sem par e nem guentou chegar a lugar algum, ficou em lugar nenhum, ventre pra cima e pele cor de burro quando foge. Burro quando foge. Depois fugiu, foi até a casa da mulher, tudo vazio, aproveitou e foi até o quarto do garoto, do seu garoto, até ontem estava ali, lhe emprestara vinte, lhe contara das garotas que tinha e, hoje, era só um ontem. Deu raiva, vermelhou, mas ¿vai onde, Andrade? Passou a mão na carteira, não do dinheiro, a outra, pegou também uma foto do filho que jazia na cama, saiu fumando o tempo, gaguejou o coração e o frio resfriou a alma. Espirrou medo quando pôs-se de novo debaixo do mundo, sentiu o cinza das nuvens lhe pesar na cabeça, pensou em descansar no caminho, mas não, seguiu firme, manobrou as maneiras, acostou no viaduto da Duque. Era a Borges que embaixo passava mas, visse-o quem fosse naquele momento, imaginaria que as lágrimas não tardariam em fazer cursar ali um rio. Um riachinho. Segurou a foto na mão, beijou-a com água salgada banhando o garoto que lhe disse, É assim, velho, os bons morrem cedo. Desculpa nunca ter sido um pai. Tu não teve culpa de nada. Desculpa ou não? Sim, te desculpo. Andrade escapou o olhar e virou as costas para a foto. Saiu batendo as pernas pela Duque escurecida, botou os pés sobre o mundo e pensou que desejava ser de cabeça para baixo só por hoje, só para sentir o fedor de merda que já sentia por dentro. E nem viu que morria, que evaporava e que o único que lhe amava tinha se perdido, se ido, mas pra onde, ¿pra onde, Andrade?

Dito por GABRIEL SILVEIRA em 10:54 Comentários:




3.5.06


Os Julianos - A vaca Libéria
Gabriel Silveira
Era uma rez. E, como toda rez de Osgavitz, pastava e engolia e ruminava e vivia. Lá fosse assim tão simples esta rez não teria esta história e outro personagem teria hoje sua vez. Mas não. Cá não é tão simples, tampouco acolá, brinde à literatura. Pues, possam se acomodar nestes tocos de madeira, mais não há aqui na serra de Osgavitz, onde a nossa querida rez tem moradia, comida - como já dito - e, sim, tem amores. Lá vaca tem amores? vocês irão me perguntar, e eu responderei, Não, vaca não tem amores, mas esta não é uma simples vaca, por isso a chamamos de rez, ou ¿coisa¿. E esta é uma coisa pensante. Soubessem vocês do que é capaz esta rez, diriam que foi da sua espécie que originou-se a expressão ¿cabeças de gado¿. Pois agora só resta um gado com cabeça, última da espécie, esta vaca, esta rez, Libéria. Era uma vez, ela.

Estando todos acomodados já à beira do fogo, aí, mais um toco de lenha, já está, todos arreglados para a história? Pues, saibam que Libéria nasceu em uma fazenda de julianos ao sul de Osgavitz, cerca de noventa quilômetros desta fazenda em que estamos. Parida de uma reconhecida matriz de Ortenthauz com um padreador local, Libéria foi uma ternerinha linda, veloz, disposta e sempre bem tratada. Os capatazes eram amáveis e carinhosos, como são todos os julianos. Não a criaram mocha, cresceu perto da mãe e mamava sem parar, o que, na época, lhe proporcionou o apelido de Manduk. Depois de 7 meses, já Libéria, dava gosto de ver-se correndo ao verde com o sol a lhe brilhar o rubro do pêlo.

Passou mês e mais mês, chuva e sol e mais chuva, o vento trouxe a seca e, certo dia, os julianos foram roubados. Acordaram com o mugir ao longe, com o estrondo dos arames, com o caminhão no horizonte. Lá está o touro, aqui estão as ovelhas, as galinhas estão todas, as vacas de leite ali perfeitas, e Libéria? Roubaram Libéria.

Se todos vocês curvarem um pouco, basta um pouco, já está, aquele corredor de arame que cruza longe no campo, já verão, pues, que lá está um lugar de descarregamento de gado. Foi lá que deixaram Libéria, ela e outra de outra fazenda, sozinhas no meio de ovelhas desconhecidas, cães de rosnar grave, cavalos de patas soltas. Nesta época, Libéria já pensava, Libéria já sabia e a outra morreu ao seu lado, sem nenhum destes privilégios. A primeira coisa que veio à cabeça de Libéria foi voltar pelo campo. Necas, lá estão os cachorros. Pelo corredor estão os cavalos. Libéria espantou o vento com um rabear pensativo. A outra já fedia. Libéria baixou a cabeça, ainda pensante, arrancou o pasto alto, ao menos isso. Lá na estrada o caminhão volta veloz. Pára em outro corredor, descem mais três vacas e dois cavalos. Estes não agradam aos ladrões, já estão a lhes tocar pela estrada, se de longe são, se perdem. Nem pensar pensou Libéria, nem ousar ousou Libéria, nem sorrir sorriu Libéria, ao menos para ela tudo aquilo era óbvio, um mugido dos céus, uma mamada dos deuses. Com os dentes arrancou longos fios de pasto, posicionou-os sobre o pescoço - nem sabiam vocês que uma vaca pensante pudesse ser tão ágil. Um ajuste daqui, um treino dali, já estava pronta.

Chegaram os ladrões, lá já estava Libéria do outro lado da mangueira, próxima à cerca, junto aos dois cavalos libertos que ainda estavam perdidos, na estrada. O caminhão acelerou até que ¡freia laaá! bem em frente aos três animais. Na boléia, um perguntou ao outro, Não separou os cavalos? Claro que separei. Que é aquilo ali, então? Valha-me Deus, rapaz, é uma vaca, não vê? Foi aí que Libéria, com sua crina verde e todo seu esforço intelectual, fez o impossível: relinchou. Os dois cavalos trocaram orelhas, crisparam o pelo, os homens ficaram atônitos, nem movimento nem nada. Libéria repetiu o feito. O primeiro homem tapeou o primeiro, Que vaca que, idiota? e foi até a cerca, abriu a porteira do corredor e deixou Libéria sair. Ela juntou-se aos cavalos e baixou a cabeça, satisfeita. O homem voltou ao caminho, repreendeu mais uma vez ao outro e depois tocaram-se campo à dentro, com o máximo da velocidade que poderiam alcançar.

Creiam em mim que não era a intenção de Libéria, ao forjar o penteado eqüino, e ao relinchar como um, conquistar amores fora da relação conhecida como homorracial, partindo para as ousadias do heterorracionalismo. Mas os leitores já o rememoram, sei bem, que no começo deste conto, que não tardará a acabar, que a nossa querida vaca, rez e coisa pensante tinha amores. Aqui o está, o amor: Pulineu, o cavalo.

Não que o tal acreditasse na história de que Libéria era uma égua, necas. Isto mesmo os animais não-pensantes já o sabem pelo cheiro, ainda mais o saberia Pulineu, uma exceção como Libéria, um cavalo pensante. Achou é graça, esta sensação que não tem a vulgarização do riso frouxo tampouco a melosidade da apaixonite. Achou graça, ela respondeu ao esboço de sorriso com gracinhas. Sou de leão, disse. Ele sorriu de vez - era um cavalo roubado, fosse dado e teríamos rapidamente que virar as faces para não o ver seu sorriso cheio de dentes

Saíram a galopar, ela fingindo um trote digno de poucas éguas, menos ainda às vacas, ele sorrindo com a elegância de um cavalo sangue puro - não nos escute um vampiro atento - com o pêlo tostado e uma mancha branca a lhe saltar nas frontes. Crina preta, olhos negros, corpo de cavalo - não costumam variar muito.

Foram ambos pelo horizonte - não falaremos muito cá do outro cavalo que havia sido abandonado juntamente com o nosso Pulineu, se saberá somente que nunca mais achou o caminho de volta para sua fazenda e, sem amores homorraciais - ou heterorraciais, nunca se sabe quando um cavalo vai a sair do armário - que lhe aprouvesse, acabou entrando no vício dos jogos e falindo uns quantos pelas pistas de jóquei - felizes e contentes com sua liberdade conquistada pelo jogo de cintura de Libéria. E não tardou cinco dias para que achassem o caminho até a feliz fazenda dos julianos que os receberam com todas as festas e grandes banquetes de ração e aveia.

Naquele dia, durante a tradicional contagem dos animais, estavam os touros, as galinhas, as vacas de leite, um novo e forte cavalo e, claro, a rez apaixonada e pensante que se chamava Libéria. E ela estava feliz, porque ali era só mais uma rez.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 17:56 Comentários:




18.4.06

Quebrando pau oco
Guilherme Póvoas
Acordou cedo. Se soubesse das peripécias que o dia lhe reservava, não teria levantado. Ou melhor: não teria dormido. Mas as coisas foram acontecendo a banho-maria, fogo baixo. Diferente de Kafka, já não acordou um monstro. Quando o sol nasceu ele se lembrou que não havia luz elétrica; à tarde, quando esfriou, recordou a falta de água quente; logo que anoiteceu, chegou perto da lenha em brasa e ouviu as histórias de anciãos. Onça, leão, águia. Cada personagem das histórias. E deveria prestar bem a atenção na contação: mais tarde, parte destes relatos que ficaram retidos na mente seriam sua única lembrança para esculpir os animais na madeira.

Caro amigo,
fiz uma reportagem muito legal aproveitando o Dia do Índio. Vou dar um jeito de te mandar. Visitei aldeias em mato-cerrado. Falou!
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 21:35 Comentários:




4.4.06


foto nouvelobs.com
Embarcados
Gabriel Silveira
A barca havia chegado a Melilla duas horas antes. Todos menos um resgatados. Era, o um, como todos, um negro subsaariano. Seus olhos, embaçados dos quatros dias de viagem, receberam a luz da costeira, ele saltou, jogou-se ao fundo preferindo a morte. Salvo por Deus. Boiou até a costa, chegou ao novo país já de joelhos. Não foi erguido, ergueu-se. Tudo nele queria morrer. Limpou a boca de areia, secou-se na toalha de vento e saiu caminhando pelo paraíso. Mas era o demônio quem estava alerta. Na primeira rua em que se meteu, foi metido, o mundo rebolava em seus olhos amedrontados pelo novo. Passou o dia a caminhar, olhando e sendo olhado, odiando e sendo odiado. Foi só quando também o dia se esquivava é que despertou para a necessidade. Encontrou dois iguais, my brother, foram todos a um pequeno centro de imigração, ilegalmente negros. Chegou com olhos de cão, hesitando buscar o que diziam não lhe pertencer, lhe tomaram do braço como uma criança, lhe afanaram a cabeça como um escravo e agora já não era ele, já era seu pai, já era o avô, já era o bisavô que comia a sopa vermelha na mesa da escravidão. O soldado espanhol mirava da porta o negro que enfurecia na cadeira. E ele pensou ouvir o estalar do chicote, pensou sentir o arder do lombo em chamas de sangue. Levantou sem terminar o prato, entrou no salão dos dormitórios. Ali perdia os olhos em uma imensidão sem forma que se amontoava a espera de um destino. E a lembrança lhe consumiu o ventre mais uma vez, fê-lo ajoelhar mais uma vez e só caiu no sono quando as forças se renderam à realidade cruel. A fraqueza era tanta que nem percebeu o estrondo na cozinha, o fogo que veio da rua, o desespero do lado de dentro. O pesadelo da vida não lhe contaminou o sonho, ficou iluminado em meio ao fogo, fogueira cristã, o mundo não muda, só acordou a tempo de ouvir os gritos que vinham da rua e ele sozinho do lado de dentro, todos resgatados, menos um, porque a salvação já lhe chegava.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 10:28 Comentários:




29.3.06

To lá no Germina. Bacana bem bom!
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 11:09 Comentários:




10.3.06

Entraram um no quarto sem bater, cortou a pele dela sobre a cama, rasgaram-se em dois, ficaram só atirado sobre a nórdica, pensando em como fumaria o último cigarro. Dele, já um levantou fumando e na janela cuspiu o trago, trocou os ares, em câmbio o frio. Ela lhe cheirou os ares, abraçou-o às costas e chorou o medo. Umbos.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 11:53 Comentários:




9.3.06

Terrível foi descobrir que só era poeta em português.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 18:47 Comentários:




23.2.06

Guardado e separado
Guilherme Póvoas
Eu nunca brinquei de príncipe. Mas estou louco para vestir a fantasia. Então, se é carnaval, não diga o que é, o que quer, o que se busca nestas noites de imenso regojizo da liberdade e esquecimento da dura realidade, que como um relógio tic-tac que nunca pára, sustenta o barulho dentro de nossas cabeças. E se não me guardei o suficiente, ou se não posso aproveitar tudo que a época me propõe - ou incita - basta saber que pelas ruas, os blocos e cordões continuam mantendo a vida exatamente assim: como ela não deve ser.
Como se isso tudo não bastasse, sábado, quando eu chegar da labuta, tarde da noite momesca, ligarei a televisão nem que seja apenas para ver que alguém faz as coisas por nós. Assim como nós fizemos por eles. Assim como Ele fez, e faz, por todos nós.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 22:32 Comentários:




13.2.06


Há temporais
Gabriel Silveira
Hoje sei que foi uma boa escolha termos ido passar aqueles dias na fazenda. O ar livre, o contato com a natureza, com os animais, sabia que tudo isso seria muito bom. E creio que, agora, até ela pensaria diferente, já se convenceria que foi uma boa alternativa. Vamos poder repensar tudo, ver o mundo de longe, respirar outros ares, foi isso exatamente o que eu havia dito. Depois de doze anos, imagine só, doze anos, os casais têm seus problemas, ou se toma alguma atitude ou as coisas desmoronam naturalmente, a tristeza abocanha cada pedacinho de felicidade. Ontem pela manhã, quando chegamos, eu pensava que talvez tivesse me precipitado nesta fuga. Pudera, com o escândalo que a pequena fez. A pobre Dona Rosita viu logo que algo não estava bem. Logo que chegamos, fui obrigado a levá-la até o quarto e ficar ali até que se calasse, que controlasse os ânimos. Gritava que era eu o culpado, eu o culpado. Imagine o que Dona Rosita iria pensar, que talvez eu fosse destes homens que possuem romances em cada trabalho que arrumam. Só quando ela prometeu que ficaria calada é que pude soltá-la, beijei-a na face, como gostava antigamente, e fomos conhecer a fazenda, sabia que um passeio a faria bem. Vimos juntos as ovelhas, expliquei o funcionamento da tosa, ela até aceitou segurar um borreguinho recém nascido para que eu tirasse uma foto. Almoçamos todos juntos e demos graças pela mão de cozinheira de Dona Rosita. Levamos um bocado de tempo até terminarmos com todas as guloseimas com que nos brindou. Depois, enquanto as duas lavavam as louças e organizavam a cozinha, aproveitei o momento sozinho para levar o carro até os fundos da fazenda, estacioná-lo atrás da casa, fora da vista da estrada. Notei que o céu fechava-se no horizonte e bastaram alguns minutos para que a chuva me confirmasse com um espetáculo maravilhoso. O restante do dia, ficamos os três em frente à lareira, tomando chocolate quente e nos divertindo com as histórias de Dona Rosita. O fogo fazia reluzir a beleza dela que já não chorava, já parecia a mesma de antigamente, já parecia do meu lado mais uma vez.

Mas quando acordamos, vi no seu rosto que a noite tinha trazido lembranças ruins. Os olhos abertos, olhando para o infinito, uma cara de quem apenas viu um monstro, um fantasma ou algo assim, como se estivera decidida a gritar, mas simplesmente não pudesse acreditar em si mesmo, em que aquilo tudo fosse verdade. A beijei na face e saí do quarto sem dizer palavra, deixando a porta, por conveniência, trancada. Fui em busca de Dona Rosita que observava as angolistas no fundo da fazenda e a expliquei que não estávamos bem, que precisávamos de um tempo sozinhos, não fosse isso aborrecê-la. Ela respondeu com uma bondade que me encheu de esperança, disse que sabia como eram os casais, ela também já tivera seu casamento, essas coisas passam. E como precisava mesmo de mantimentos para nos entreter durante o temporal, que novamente se armara no céu, logo saiu para a cidade com a camionete D20, se perdendo na estrada barrenta lavada pela chuva. Esperei que sumisse no horizonte, encilhei dois cavalos e fui ver como ela estava no quarto. Parecia dormir tranquilamente. Dei-lhe um beijo no nariz, que a acordou sorridente, e puxei ela nos meus braços até que ficasse de pé, mesmo que contra sua vontade de continuar deitada. Esperei-a vestir-se e fomos até o fundo da fazenda, onde a avisei de uma surpresa. Ficou realmente fascinada quando a convidei para que saíssemos juntos a cavalo pelo campo, apesar de que Dona Rosita houvesse avisado, já ontem, que para isso esperássemos a estiagem. Fomos. Poucas vezes senti ela tão próxima a mim como nestes momentos em que descemos até a plantação de eucaliptos, rodeamos os açudes fartos de traíras, cruzamos o corredor da meia-lua e chegamos até o Penhasco do Tuma, onda ficamos pelos menos duas horas consumidos pela paisagem das montanhas ao longe, os cavalos a mastigar o pasto molhado, o cinza das pedras formando desenhos bizarros na descida do penhasco. Ela sorria embalada pelo vento, eu a acariciava inundado pela alegria. Aí, mais uma vez, o temporal voltou a se armar, o ruído dos raios fez assustarem-se os cavalos e achei melhor voltarmos para casa, Dona Rosita também haveria de chegar logo. Levantei e apertei os arreios antes de irmos, mas quando resolvi chamá-la ela já estava consumida nos pensamentos, nas memórias que nunca deveriam ser lembradas, nas idéias que nunca deveríamos ter tido. Quando ela se virou com os olhos cheios de lágrimas, decidi que o melhor era tranquilizá-la, era ajudá-la a despertar deste pesadelo maldito, desta aventura bizarra e a abracei apertando-a forte contra o meu peito que umidecia com as lágrimas do seu choro que agora era forte como a chuva também logo seria forte e já estávamos ambos encharcados, a visão dela já perdia-se entre os fios de água do temporal, o cinza já consumia o horizonte e ela era cada vez mais uma sombra, um misto de frustração e pesadelo que me tentava abraçar e eu ia ao encontro dela e senti quando meus braços a tocaram e vi quando ela caía ao som dos cavalos que fugiam relinchando e quando seu corpo já estava entregue aos ventos e às pedras e ao infinito. E ali, como eu nunca havia desejado, também haveria de cair o outro corpo que estava no porta-malas do carro, o corpo que realmente havia matado a ela naquela tempestade infindável de medo e remorso.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 07:19 Comentários:




10.2.06

Mentiras sem tempo
Gabriel Silveira
Verdade seja dita, é sempre mais quente o pão que o diabo amassou, por obviedade. Entre o céu e o inferno sempre use a razão.

Verdade seja dita, antes fumante do que estressado, antes estressado do que morto, antes morto que mal vivendo.

Verdade seja dita, sabor nobre é do que é roubado, nobre é nobre porque é ladrão, é natural pobre ser enganado.

Verdade seja dita: é melhor comer do que lavar, melhor lavar do que secar, melhor secar do que não ser convidado pra janta.

Verdade seja dita: o tu é sempre mais estranho que o eu, o nós é sempre mais importante que o eles, o vós é sempre esquecido nas prateleiras.

Verdade seja dita: a vontade comandava o ser, quando ele entrou em extinção, passou a controlar os idiotas que nada são.

Verdade seja dita: uma mentira verdadeira é sempre mais honesta que uma verdade mentirosa.

A verdade que se cale: a mentira tem razão.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 14:27 Comentários:




9.2.06


E se, sim.
Gabriel Silveira
E se o seco molhasse,
evaporasse o concreto,
brilhasse o opaco,
se o sim fosse veto,
se a faca servisse
o que cortara a colher,
se cristo fosse o diabo
se fosse deus, baudelaire,
se tudo fosse o nada
e o nada fosse um pouquinho,
se o pão não fosse partido,
se o sangue não fosse o vinho,
se fosse negro o branco
e fosse o branco o oprimido,
se nada fosse a razão,
se tudo fosse sentido,
se a história fosse piada
e a piada, mentira,
se o mundo fosse risada,
se já a tristeza partira,
se o de um fosse feio
e o de todos fosse belo,
se a terra fosse vermelha,
se o sangue fosse amarelo,
se a vaca fizesse bé,
e a ovelha fizesse mu,
ainda a gente se amava,
tu como eu como tu.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 10:51 Comentários:




7.2.06


Sua boca entreabriu-se, mas o ar não entrou, um soco no peito, dentro pra fora, era falta de ar, faltar, cotovelos abriram, dois, deitaram-se as mãos, jogaram-se os dedos, um a um, a pele escorregou pingando entre as unhas, os olhos olharam, mas logo a pálpebra caiu e a outra e cegaram, bendito eles que podem, joelhos cederam, ê peso pesado, ao pó voltaremos, já voltou, todo escorrido, feito bucatini, nem tão denso, cabelos ao vento, foi com ele o perfume, pele sem cor, peito opaco, nem ar nem tabaco nem amor nem necas de nada. Só ficaram os ouvidos, intransigentes, retumbando - Eu não te amo mais.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 12:55 Comentários:




6.2.06

Estavam dois espanhóis a conversar pela manhã em um bar, enquanto já fumavam os primeiros. Um respondia ao outro. O que mais me incomoda nestes imigrantes é que invadem nosso país em busca do nosso dinheiro. O outro, mais sábio, sorriu e contestou. Enquanto for isso, ¿no pasa nada¿. Quero ver é quando aqui entrarem em busca de vingança.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 11:05 Comentários:





Enfim
Gabriel Silveira
Não entendo por que hoje. Ainda se viesse no próximo mês, na próxima semana, que fosse, mas hoje, por quê? Na sexta, por exemplo, Virginia já teria saído de viagem, poderia instalar suas coisas no quarto ao lado. Mas assim, tão na correria e hoje, por quê? Na última vez que esteve aqui se preocupou com minha situação, notei bem como trocou palavras em silêncio com Dr. Osgavitz, com o próprio Dr. Barreto. Mas desde lá não ligara, não enviou sequer uma carta, coisa que mamãe costumava fazer mesmo quando o câncer já a consumia profundamente. Vá lá entender agora esta urgência em vir. Talvez o Dr. Osgavitz tenha esquecido de avisar-me da viagem, largou o envelope que ela enviara na mesa, depois esqueceu - são tantas as ocupações que lhe cabem -, vieram alguns papéis por cima, algumas revistas e acabou não lembrando de dizer-me. Talvez por isso é que estivesse estranho esta manhã quando pediu que Virgínia me arrumasse, avisando que ela estava por chegar. O suor avermelhado destes dias do alto verão contrastavam com sua pele branca, que ironicamente é tal qual a neve do inverno. Sempre achei sua aparência divertida. Nos primeiros dias - quando ainda conseguia sair do quarto - costumava espiar seus movimentos no escritório, sorria ao ver como seus braços pequenos esforçavam-se para trabalhar ao redor do corpo roliço. Seus óculos redondos, a armação dourada, os olhos fundos, cada coisa parecia dar sua contribuição à atmosfera estranha, misteriosa, quase bizarra. Costumava ser carinhoso comigo quando há pouco havia chegado. Depois do ocorrido com a jovem Luana, do vinte e dois, é que foi se tornando um pouco mais bruto, o sorriso como que apagando-se aos poucos. Daquele fato me lembro somente do choro no corredor, os gritos, as enfermeiras a correr. Depois vieram avisar-me que Luana tinha sido transferida para um hospital na cidade. Nem tive a oportunidade de devolver-lhe o livrinho de contos do Oscar Wilde, a fita com Fred Astaire cantando Irving Berling. Pobre Luana, foi tão importante companhia pra mim e eu talvez nunca saiba o que se passou com ela. Naquele dia todo Luana não aparecera no meu quarto porque havia recebido visita da família. Devem ter vindo para a transferência, mas tenho certeza que pra ela também foi uma surpresa, teria me avisado. Ou então achou melhor que eu não soubesse. Eu já estava triste o bastante naqueles dias, a doença não dava sinais de enfraquecimento, tratamento com coquetel vinte e cinco e aqueles dois compostos malditos. Hoje sim, tenho motivos para comemorar. Quatro horas, ela deve chegar logo. Mas por que hoje? Também já chega de me preocupar. É até bom. Posso contar-lhe como estou melhorando, que a medicação já não está tão forte. E que apesar de ainda não poder voltar a sair ao sol, Dr. Barreto já me disse que logo estarei outro, que o coquetel será substituído por um tratamento mais moderno, uns raios não-sei-o-quê, disse que será o fim dos enjôos. Talvez até ela tenha lido algo sobre este novo tratamento, talvez me traga algumas revistas para que eu saiba tudo tin tin por tin tin. Gosto de saber o que se passa no meu corpo. É só um corpo, como diria o Padre Milton, mas é meu, ora bolas. Pode ser que ela confie mais nas minhas melhorias, sei que é difícil para ela me sustentar aqui, bem sei. Pobrezinha. Depois da morte da mamãe ela se pôs cada vez mais estranha, cada vez mais distante. E agora esta visita assim, de surpresa, sem aviso prévio. Tenho certeza absoluta que Dr. Osgavitz esqueceu de avisar-me. O sentimento de culpa estava grudado em seus olhos hoje. Mas logo ela chega, conversamos, como nos velhos tempos: ela me conta dos namoros, do emprego, eu conto a ela sobre meus coquetéis, os avanços e os recuos da doença. Talvez ela desista daquela idéia louca de me levar para casa, de desistir destas do Instituto. Mas eu confio no Dr. Osgavitz. Tenho certeza que logo vamos encontrar um tratamento que acabe de vez com este demônio que me atormenta, logo poderei voltar ao sol, à vida, ao trabalho, quem sabe até arrumar uma namorada. Ah, que saudades do Parque do Silêncio, do verde entrelaçado com o azul do céu, os passarinhos a dançar. E pensar que só de imaginar tudo isso me volta a vertigem, como se fosse um alarme dizendo que ainda não estou curado, ainda falta muito. Mas o Dr. Osgavitz garantiu que vamos tentar de tudo antes de desistir. Eu confio muito nele, dizem que sabe mais do que todos os doutores da capital. Juntos. Só não consigo entender por que não me avisou antes que ela viria. Por que este tom de surpresa, de mistério?

Pelo barulho do motor reconheci que ela estava chegando. Poderia sabê-lo onde e quando fosse. Estas capacidades são um privilégio - se é que existe esta palavra em um lugar como este - de quem passa o dia em uma cama, distraindo-se a classificar os cantos dos pássaros, os verdes ao longe, o avançar das estações. E também a parte mórbida, os gemidos de cada paciente, os maltratos das enfermeiras, as discussões no andar de baixo. Sorte que Virgínia, minha enfermeira, cuida bem de mim, tenho certeza de que é uma excessão aqui dentro. Quando ela se for de viagem, na sexta, não sei quem será responsável por me carregar daqui até o banheiro, dar-me o banho, comida. Só de pensar minhas pernas tremem, sinto um vento congelante desde o calcanhar até a metade das costas, como se fosse mesmo uma mensagem ao coração. Se ali chegou, pronto, já está, já passou. Agora ela está a conversar com Dr. Osgavitz, posso ouvir suas vozes, talvez ele esteja a dizer que estou melhor, quase bom. Ela admirada lhe perguntando quando poderei voltar pra casa, já pensando em arrumar meu quarto, organizar minhas coisas, comprar-me uma coleção de revistas e a torta de ameixas da confeitaria da Arenal. Mas o tom não era de tanta felicidade quando Virgínia entrou no quarto com cara de choro, sentou-se ao meu lado sem dizer palavra. Que passa, mulher? - perguntei. Ela deu de ombros, fez uma careta com a boca e disse que estava ali para se despedir de mim, que faria sua viagem hoje mesmo, que desejava que ficasse bem enquanto ela não estivesse por perto para cuidar-me. Eu respondi somente com um sorriso, mas não acreditei na minha própria teoria de que Virgínia viajaria somente para que seu quarto ficasse livre, agora que eu tinha visita. Me perdi nestes pensamentos e só acordei depois que já havia me beijado a testa e se recolhido ao seu quarto, quiçá para arrumar suas coisas. Resolvi dormir mais um pouco para estar descansado na hora em que ela chegasse.

Somente duas horas depois do barulho do carro é que ela entrou no meu quarto, sentou-se ao meu lado. Não sei bem o que me deu, resolvi fingir que continuava dormindo, vendo entre os cílios sua face cansada, tristonha, fragmentada pelo meu olhar semicerrado. Vi que vez em vez descia-lhe uma lágrima no rosto, ela levava o lenço com a mão esquerda, engolia seco. Depois ficou uns bons minutos com os olhos na direção da minha janela, a mesma da qual eu mirava os passarinhos, os verdes, as estações. Voltou a olhar-me maternalmente, com um doçura que lembrava em tudo nossa mãe, mas depois cerrou a face, franziu a testa e levantou-se de forma brusca, pondo-se a caminhar pelo quarto, como se estivesse pensando em uma solução para um problema muito sério. Talvez só estivesse esperando que eu acordasse. Ela sempre foi assim, nervosa, decidida, a mais velha. Depois foi até a mesma janela, abriu as cortinas, pois o sol já baixara, e acendeu um cigarro. Agora eu só podia vê-la graças ao espelho do armário do outro lado do quarto, já que qualquer movimento denunciaria meu sono fingido, que nem sei por que o fazia. De sopetão, sem que eu pudesse chamá-la, saiu pela porta do quarto e ouvia descer as escadarias. Fiquei morrendo de culpa por não ter dado atenção à ela e me mordendo também de curiosidade, afinal ainda não sabia o motivo da sua visita relâmpago.

No outro dia pela manhã, quando acordei, pude ver que tinha sido medicado. Não sei a que horas nem de que forma, mas esta sensação de enjôo, esta visão embassada e, claro, a impossibilidade absoluta de falar denunciavam que recebera uma alta dose de anestésico. Não podia sequer mexer meus braços, só via o branco do teto, com as estrelinhas e planetas da Coleção Espaço que Virgínia havia me regalado no último dia de Reis. Tive a sensação que passei algumas horas assim, viajando em minha própria galáxia, até que entrassem no quarto os doutores Osgavitz e Barreto, mais duas enfermeiras que desconhecia. Todos os quatro com semblantes carregados. Eu só queria saber onde ela tinha ido, será que a visita surpresa foi assim rápida, nem sequer ficou esta noite? Mas então por que as férias adiantadas de Virgínia? Dr. Osgavitz fez um sinal com os olhos para um dos enfermeiros, que sacou um pequeno recipiente de vidro, furou-o com uma agulha, já o devolveu às mãos do Dr. Osgavitz. Confio nele tanto que nem sequer questionei o que estavam fazendo. Nem mesmo quando o Dr. solicitou que o deixassem a sós comigo, ao que até mesmo o Dr. Barreto assinalou que sim com a cabeça. Na verdade me senti até mais tranquilo, não gosto que estranhos como estas enfermeiras entrem no meu quarto, toquem meu corpo. Pensei até em dormir, mas desisti quando notei que ela já entrava devagar pela porta do quarto de Virgínia, como se não quisera que o doutor percebesse sua presença, quando vi que ela trazia algo reluzindo nas mãos, quando vi os olhos profundos assustados debaixo da armação dourada, quando senti o sangue quente espirrar no meu ventre e me parecia que era a salvação, o remédio, a cura que chegava assim, no mais, de surpresa, enfim.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 10:46 Comentários:




16.1.06

Era uma res. Morreu num espeto.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 16:28 Comentários:




16.12.05


Foi ao banco, inferno caíndo do céu. Milímetro por milímetro, não chegou a derreter um centímetro, para estar no banco bastava cruzar a calle Menendez, dobrar à Doce de Octubre, já está. Entrou no ritmo lento dos quarenta graus. Abriu a porta primeira, tocou a campainha na segunda, já abriram, já está lá dentro, acolá os caixas atendem às pessoas, aqui espero eu, já me atendem também. Assim esperou, imaginando que Deus tinha morrido, que o inferno havia tomado conta da Terra, já estava a ligar suas calefações por todo o planeta. Riu de si mesmo, passou um lenço na testa, aí já era o primeiro da fila. Usava uma camiseta azul com detalhes amarelos, da companhia, a camiseta da companhia, além disso um boné na cabeça que tirava, dois em dois, para secar o cabelo que suava mais que ele.

Já quase dava o primeiro passo em direção ao caixa. A mulher responsável por este, então, baixou a cabeça escorando o queixo no peito e levou as duas mãos ao rosto. Ele estranhou, olhou para trás, viu que o vigia tomamava a mesma atitude, sem esquecer de antes trancar a porta do banco. Olhou para as mesas de gerência, a mesma cabeça subcolocada, as mesmas mãos espalmadas no rosto. Ele era o único cliente. Único, silêncio absoluto. Ele olhou de um lado a outro, depois pensou um pouco, alucinações, passou a mão no rosto e ao erguer a cabeça convamente, paum!, abriu-se uma tampa no solo do banco silencioso, dali saíram dez guardas mascarados, formaram uma fila indiana, depois um círculo ao redor dele, 3, 2, 1 e paum!, o agarraram. Quase sem possível reação do nosso herói, o jogaram no mesmo fosso de onde vieram. Saíram pela tubulação. Ele caiu por dez segundos e foi sobre um grande colchão branco. Imediatamente, cinco homens, por decerto do mesmo grupo dos primeiros, o carregaram por um corredor. Ao fim, abriram a porta que dava a uma sala, onde a iluminação só permitia-se ver uma mesa grande com um grande e felpudo coelho. Estava posto de quatro e de costas para a porta. Deu-se os gritos, Já está aqui o homem, grande coelho! O tal virou a cabeça para trás, na parte da fantasia branca que cabia à face via-se um homem de óculos que mirou com certo desespero para o prisioneiro e gritou, Não é esse! Idiotas, tenho certeza que não é esse! Tentem outro, outro! Os guardas rapidamente puseram uma venda nos olhos do nosso herói, arrancaram-o da sala e, depois de o carregarem por alguns segundos, o jogaram em um novo fosso.

Acordou com o inferno caindo do céu. Levantou, viu-se dentro de uma grande lixeira. Que foi que passou, que foi? Recordava os momentos no banco em pedaços. Andou ao redor, viu que estava longe, mesmo assim foi caminhando até em casa. A conta para pagar no bolso, o dinheiro no bolso, o lenço na testa. Não explicou para Jauli porque não pagara. Só disse, O calor, o calor... e foi deitar. Jauli, sem entender, ficou olhando o banco da janela e nem deu atenção aos dois homens que terminavam de fechar a tubulação.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 13:40 Comentários:





Basta estar sentado para perceber que pernas é que descem escadas, pernas é que sobem degraus, pernas é que pegam o metrô. Dentro de um vagão, minhas pernas vêem a mais de 80 pernas que caminharam até ali, decidiram por aquele caminho, sentaram-se nestes bancos. Agora sorriem, felizes de estarem cumprido seu trajeto sem sequer mais um movimento. Por isso distraem-se. E isso acontece das formas mais engraçadas: ali vai uma que recebe a massagem de uma mão carinhosa e visivelmente agradecida por estar sendo carregada - a mesma responde, nada, é tu que sempre me abres as portas; ali vai outra que às escondidas distrai-se roçando uma bunda alheia - que o permite, não estamos cá a narrar um assédio sexual neste trem; mas as pernas, em grande parte, simplesmente distraem-se jogando-se arriba de seus pares - sendo que destas umas contentam-se só com o calor proveniente da que está embaixo e assim se revezam, enquanto outras ficam em um vai e vem que bem significaria um coito, não fossem suas irmãs. Sim, porque pernas direitas e esquerdas são irmãs gêmeas univitelinas, ai de quem diga e prove o contrário, basta ver que usam a mesma roupa, medem o mesmo tamanho, possuem o mesmo tipo sangüíneo e a mesma cor de pelagem. Pois assim vai o metrô, sustentado por oitenta pernas de quarenta tipos. Essas diferenças, vez em quando, proporcionam alguns contratempos. Aparece cá uma perna que, dormindo, toma conta do espaço pertencente ao banco alheio. Cá já está uma perna em exemplo cívico a lhe empurrar de volta ao seu lugar. Às vezes a primeira não gosta da interferência e ficam a brigar por aquele espaço até que uma chame sua gêmea e vá embora. É válido saber que, quando são pernas de longa caminhada, nada é motivo para discussão, afinal todas entendem o sacrifício que é carregar o peso da vida. Ao contrário dos ônibus, onde as mãos é que decidem os paradeiros, para desconforto das pernas submissas, no metrô ninguém ousa interferir no trabalho magnânimo dos membros inferiores. Entra-se, levanta-se, sai-se a caminhar. Valhemo-nos, claro, de não esquecer os casos de excitação lascíva, principalmente no exemplo dos homens, donde vez ou outra a mão interfere para colaborar com a manutenção dos direitos de ir e vir das pernas. Já aí está a estação, já as pernas sabem de sua obrigação, já espreguiçam-se, já lá vão a sair do vagão e... ops, não se preocupem, onde uma perna cai por distração acidental, já outras dez surgem para lhe ajudar. Já vão lá, cheias de orgulho, a pisar no mundo.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 13:04 Comentários:




Olha! Conto publicado e virei correspondente acolá.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 11:43 Comentários:




14.12.05

- Papai falou que foi fazer o pré-natal.
- E desde quando homem faz pré-natal, menino mentiroso?
E o sujeito tinha ido pegar o extrato bancário na primeira quinzena de dezembro.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 08:45 Comentários:




Surpresa foi ver que, depois de um ano, acordara na lua.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 08:41 Comentários:





Oito e meia, tarde quase noite, pós-crepúsculo pelas ruas, as pessoas com ar de sono, com cheiro de cama. Guardou as pastas com relatórios dentro da mochila, se despediu dos três colegas de trabalho e desceu a escadaria da estação, já com olhar em casa, na mulher que lhe esperava, na cama. Por isso nem percebeu o caminho com as escadas rolantes, o trajeto em direção ao centro da terra, até a linha 7. Chegou junto com o trem. A porta se abriu, ele entrou, cadeira vazia, sentou. Nem bola para as estações que iam passando, as pessoas iam descendo, nada de novo. Foi adormecendo, adormecendo, até que acordou com o trem parado. Viu a porta escancarada na estação de Las Musas. A última da linha, pensou, não tinha certeza. Voltou os olhos para os mapas internos, foi aí que percebeu a multidão de velhinhos imóveis, à espera, talvez, como ele, de que o trem enfim voltasse a andar, que assim são os trens, chegam até o final do caminho demarcado e já dão meia-volta, assim também são alguns homens. E o trem necas. Las Musas era a última, confirmou. Resolveu esperar e acabou perdendo o sono, pois se tornara interessante ficar a mirar aqueles senhores e senhoras, imóveis, absolutamente imóveis, começou a crer que por demais imóveis. Olhou para o lado, um senhor mantinha um sorriso congelado enquanto lia o jornal, junto a ele uma senhora apontava alguma notícia, também sem mexer um fio de espaço. Curvou-se para a frente, olhou para o fundo do vagão, a mesma floresta de idosos, cada qual com sua espécie de copa, os senhores mais desbastados, as senhoras como os pinheiros de parque, com uma forma artificial, grosseira. Ele fechou a jaqueta, catou a mochila que estava escondida atrás dos pés e se pôs para fora do trem. Bastou sair à porta para que ela se fechasse, os idosos, todos, continuassem o curso normal do seu tempo e o trem continuasse sua rota. Mas em casa lhe esperava a mulher, o café, a cama. E ele nem percebeu que o trem seguiu para além da última estação.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 08:34 Comentários:





Sagacidade, meu filho, sagacidade é a palavra. Tem quem ache que não lembrar é a melhor forma de esquecer. Nada. Alguns acham até que raiva é que resolve. Mas essa misturinha de rancor e fraqueza só dá em papelão. E papelão só serve pra tapar buraco, não esquece. Tá, vá lá que a fraqueza é de todo ser, mas eles entenderam tudo errado, filho. Fraqueza nossa, natural, tá na cabeça, não no coração. O resto é maldade pura, ódio, ignorância, tudo, tudo fruto do quê? Da mais pura burrice. Isso é gente burra, de burra passa a metido a besta, de metido passa a orgulhoso, de orgulhoso passa a estagnado, de estagnado passa a presunto morto. Sim, porque este tipo de gente não sabe do pós-morte. Saber, sabe. Mas não acredita. Dizem que são realistas. Sei, realistas seriam se admitissem este medo de conhecer o novo. Medo, puro medo. Adoram é criticar aqui, criticar ali, mas na hora de sentar o pé na porta, de fincar a faca no mapa, aí desconversa cá, desdobra acolá, tudo vira impossível. Difícil, filho, não esquece, é ser homem de verdade, rapaz, carregar nas costas o peso da vida, sem usar carrinho de mão dos outros. E se for usar, filho, aí que sejam dois carregando juntos mesmo, nunca essa farsa que aí chamam de casamento. Tem quem case pra sair de casa, tem quem case pra montar apartamento, tem quem case pra não ficar sozinho, tem uns que simplesmente pra se livrar da fraqueza de gente que são. Mas filho, digo agora e nunca mais, vê se não esquece: casar só se for assim, que nem eu e a tua mãe, amor destes que um morre e o outro capota junto, tão um somos os dois. Não vá lá perder teu tempo com gente pobre de espírito, pobre de alma, essa gentinha que coleciona crítica pensando que isso é ter opinião. Vá sempre pelo caminho do coração, filho. Pra chegar lá, o que precisa? Isso, filho meu, sagacidade, sagacidade, esta é a palavra. Agora dorme, filho, vai, dorme acordado.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 08:05 Comentários:




9.12.05

Com amêndoas, por favor
Gabriel Silveira
Estava Méri a sair da loja de chinos, carregava nos braços uma baguete de pão, ainda uma caixa de suco, que mundo é este em que sucos vêm em caixas, uma barra de chocolate e um pote de margarina. Já passavam das dez da noite, encostou a porta sem perceber que se fechava sozinha, mas isso porque olhava aquele bando de meninos de um lado da rua, do outro estava um outro bando, ela contava uns vinte pra cada turma, a história faça justiça se a conta de Méri estiver errada. A noite caía sem segurar-se ao céu, chegava ao chão sem perceber árvores, prédios e o mundo. Foi Méri na outra direção, não vai querer ver outra briga de gangues, isso não é coisa para uma mulher da sua idade, no berço dos sonhos maternais. Cruzou a avenida, vou fazer a volta, pensou. Foi caminhando sem perceber a escuridão inundando cada folha, o vento silenciando cada pássaro, até alcançar a outra quadra. Pois não é que lá, dividindo a outra rua, estavam também dois bandos? Dali pareciam mais jovens que os outros, vai saber, mas lá foi Méri, não custa nada a ela caminhar mais uma quadra pra lá, mais duas pra cá, está contornado o problema. A outra quadra estava ainda mais escura e silenciosa, mas Méri nada percebeu. A calçada, sim, lhe pareceu mais suja, seu namorado diria que era uma neurose. Alcançou a esquina, outro bando. Mas será o pé do cabrito? Méri foi até a outra quadra, ali não havia outro bando, havia tão somente o mesmo chino em que acabara de comprar o que precisava em casa. Claro, o chocolate não era assim tão necessário, mas quem pode julgar o sacrifício diário de Méri para poder, enfim, comprar um chocolate sem prestar satisfação a leitor qualquer? Ela estava ali, sem dúvida, na quadra do mesmo chino, mas no lado de cima. Ainda olhou pra trás como duvidando de seu trajeto, depois voltou os olhos para a frente. Nada de bando. Depois deu-se conta de que, se estava lá acima, já havia vencido a barreira que antes lhe impedira, sabe-se lá onde foi aquele gente toda, enfim tudo houvera sido mais fácil, por certo se perdera em pensamentos e já lá está. Quando virou-se para seguir para casa, levou um susto, deixou cair a sacola no chão. Um caminhão cruzara o caminho de um ônibus, a batida estrondosa, estavam os dois a fechar a rua que levava à sua casa. Ela olhou para ambos os lados, silêncio absoluto. Nada de motoristas, nada de sirenes, nada de nada nos minutos que Méri ficou ali, congelada. Virou-se de lado para o novo caminho bloqueado. À direita, é por ali que vai, então. Poderia ser mentira, não fosse este um relato sincero, porque Méri encontrou uma fossa aberta no asfalto, mas tão grande e intransponível era o cinza escurecido descendo às entranhas da terra que voltou-se para o lado do chino, sem reclamar de nada, chega de maldições por hoje. Entrou na loja. Repensou o assunto? Que assunto? O que eu havia lhe dito, sobre levar esta outra barra de chocolate, com amêndoas, mais crocante, muito mais saboroso. Leni olhou o chocolate que tinha na sua sacola amassada, mirou o chinês atrás do balcão, mais um vez seu chocolate artesanal, adorava este chocolate com aquele leve gostinho de hortelã, soltou-o sobre o balcão e pagou a diferença pelo outro, o indicado. Depois foi pra casa, sem gangues, sem quadras rotativas, sem acidentes, sem buracos meteóricos, pensando em que mais, afinal, a propaganda ainda haveria de inventar.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 13:31 Comentários:




Mundo de iguais 2
Gabriel Silveira
Nenhum homem jamais o havia visto frente a frente, mas diziam que era o mais poderoso dos homens. Certa feita, ele precisou de um dentista. Dr. Liturgo foi o escolhido. Chegou na mansão, foi recebido por uma comitiva que o revistou, fez o mesmo nos aparelhos odontológicos, ele lançou mão da metade de suas coisas. Aí o deixaram à porta de um pequeno corredor. Outra porta ao fundo. Foi até lá, abriu-a, entrou. Foi até o fundo da sala, como o haviam instruído. Lá estava o homem magro, olhos fundos, sentado em uma grande poltrona. Sem palavra alguma, o primeiro soltou sua bolsa sobre a mesa, começou a retirar seus instrumentos, quieto como um rato morto. O homem poderoso recostou a poltrona, olhou o dentista e, antes de abrir a boca perguntou. Doutor, vai doer?
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 12:23 Comentários:




Mundo de iguais
Gabriel Silveira
Era uma vez uma doença que se alastrava. Ela chegou ao primeiro, depois ao segundo, depois à fonte de água, depois aos metrôs e, finalmente, tomou conta do mundo. Quando encontrou o último homem que restava não-contaminado, parou e ficou a fitá-lo, olho no olho. Ele, brando, pacífico, perguntou. Por que não vai em frente, é o que te falta, por que não me faz doença? Ela sorriu com seu fúnebre rosto e respondeu. Porque tu virás até mim. E como tens tanta certeza? Olhe ao meu redor, só resta a doença, o mundo inteiro já está contaminado. E então, ainda assim não compreendo. Os homens são todos iguais, é isso, é só isso, agora a doença é a regra. Não irei. Virás, sei que virás. Saiu mancando, podre, dobrou a esquina e foi pra casa, esperar.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 12:17 Comentários:




Conversas sem fim
Gabriel Silveira
Sentei à janela e um pássaro preto e branco, amansado pelo azul, sentou-se ao meu lado. Pedi por notícias e ele consentiu-me, voou. Preparou seu trajeto no jardim à minha frente, abrandou-se para o vento passar e depois seguiu a corrente, perdendo-se no sol. Contemplei a espera. Depois voltou, disse-me que voara no tempo, que no presente vira o Retiro em seus verdes tantos, que vira o asfalto e os carros, que vira a magia nos postes de luz apagados, como são engraçados os postes apagados, vira as calçadas como formigueiros, como são engraçadas as pessoas como formigas, e vira as formigas também, são engraçadas como pessoas. Voara até o fim e o começo ainda lhe pareceu mais belo. Depois silenciou. Perguntei do futuro, e o futuro? Ah, o futuro. Disse-me que no futuro, as pessoas são como formigas, as formigas como pessoas. Disse-me que o Retiro são como postes acesos e os postes são cada vez mais, como os carros. Sacudiu-se, bicou sob a asa, olhou-me profundo. Pensou, por certeza. Então me disse, viste que para voar entre o presente e o futuro preparei um trajeto, esperei o vento certo, me entreguei aos caminhos e depois me fui com facilidade? Sim e entendi. Por que ficou a escutar-me, então, ao invés de fazer o mesmo? Porque meu coração é lindo e puro, como o teu, mas minhas asas são de ferro, pesadas como o tempo. Ele nem escutou. Ficou ao meu lado até o entardecer sem acreditar no que havia dito. Eu não ousei dizer mais nada. Sabem como os pássaros são intolerantes com as formigas.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 11:58 Comentários:




De momento
Gabriel Silveira
Por um segundo, ela teve vontade de caminhar de costas até a cama, pegar o celular sobre o livro do Cortázar, ligar para alguém, pedir que viesse, não estava bem. Não o fez. Ficou ali, comparando-se ao rosto, ao olho, à voz. Sentia-se à vontade, quase sozinha. Pergunta-me, a outra disse. E ela nunca havia pensado nisso. Perguntar o quê? Já o sabe, está claro, que vai aparentar os anos, que é inverdade, enfim, o que dizem os cremes da Avon, isto já está estampado entre o marco da porta, a mirar seus próprios olhos. Oportunidade única, insiste a outra. Ela olha com avidez para si mesma, pensa no trabalho, não; no marido, não; nos filhos que virão, não; pensa no Brasil, também não. Franze a testa, olha desvendando os olhos, enquanto ela continua congelada, esperando pela pergunta. O frio entra lentamente pela porta e esconde-se em suas pernas. Ela apressa o pensamento. Terei outro homem na minha vida? Por que fizeste esta pergunta? Porque foi o que me veio, o que há de mal nesta pergunta? Então é isso. É isso o quê? Já tinhas esta incerteza nestes tempos. Que dizes, do que está falando? Sim, esta é a resposta à tua pergunta. Terei outro homem? Sim, terás. Mas por quê? Está aí, por esta tua incerteza. Botarei tudo a perder, é isso? (Fez sinal de afirmativo com a cabeça). Ai, mas como posso evitar? Acredite, estar aqui é, em verdade, uma tentativa de que repenses esta idéia louca que tens aí na nossa cabeça. Lá estás triste, é? Seria melhor se nunca tivesse pensado nesta bobagem. Hmm, mas que pensas que devo fazer? Sei lá, precisas tentar algo, levantar esta auto-estima, acabar com esta insegurança. Que tal voltar para a academia? Não, ele é de lá. Quem é de lá? O outro homem. Hmm, melhor não arriscar. E pra aula de piano? Com o Marcos, o Lúcio iria enlouquecer, capaz de ser pior. Não, pior não dá. Muito ruim, é? É. Tenho que dar um jeito. Temos. (Suspiro) Quer entrar um pouco? Não, tenho que ir ou perco a hora. Bom, quando puder apareça aqui, às vezes é bom relembrar o passado. Quando der, prometo. E foi saindo pelo corredor. Quando foi virar a escada, ela falou da porta. Mas foi bom? O quê? A vida, até onde sabes? Foi difícil, mas foi. E o Lúcio? Fica longe das academias. Tá, não esqueço. Também não.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 07:57 Comentários:




7.12.05

Manifesto do esgoto
Gabriel Silveira
Ou alguém desentope ou todo mundo apodrece. Tô cá, entre milhões de bactérias, sedento por ar no gás de um presunto entalado, sedento por água em meio ao barro seco, sedento por fome em um mundo de saciados. Ou alguém desentope esta literatura ou ela esgota-se, esgotou-se, bóia poluindo a costa. Se eu chegar a boiar eu comemoro, juro, fraco, sou. Porque enquanto o Marcelino nada, nada os que bóiam e fico cá eu, tentando ver algo ainda no cano, preso entre o que é verde e o que é burro fugido, entalado na merda e no que é doce, tá tudo aqui. Nem nada, Marcelino. Lá fora, vejo a luz na fim do túnel, mas não é túnel, é cano, porque boiando na costa ou ainda entalado, tudo esgotou-se, deu-se fim à nossa rima podre dos neo-nada, à trama seca dos neo-tudo.

Explico: os esgotados que estão lá fora, por verem o céu, pensam que estão no paraíso, mas não. São vômitos do mesmo esgoto que eu e tu, que também entrou pelo cano, como todos os valorosos amantes e defensores da literatura brasileira. Leiam, leiam os clássicos e enquanto Machado de Assis faz fortuna no paraíso, Marcelino vira publicitário deste inferno. Eu sou publicitário, eu como e mastigo e, quando abençoado, cuspo o pão amassado pelo demo. Valha-me Deus a afirmação. Mas cá sabemos, eu e tu e eles, que a tentação de não ser nada em um mundo em que ninguém é tudo, é puta tentação. É por isso que peço, êta pôrra, salvem o Marcelino da propaganda.

Talvez revolução seja um termo esgotal para falar no assunto, mas creiam, precisamos dar um chute no nariz desta paranóia literária, fazer sangrar esta estagnação que nasce no peito desta forma calada, desta retórica esgotada, deste requebrar contemplativo, deste mundo silencioso. Carecemos de resultados, menos somas. Carecemos de dar literatura transformadora aos poetas reflexivos, carecemos de teoremas, carecemos de sementes, menos frutos, carecemos do realmente novo que é trimassa, galera, carecemos dos esgotados, eus e tus.

Funciosa assim: organizemo-nos, os escritores publicados (boiantes), não-publicados (entupidos como eu) e leitores sem vida, juntemo-nos ao redor de uma grande fogueira de livros e oremos, oremos e oremos, com fé toda, com orgasmos múltiplos, erguendo mãos e paus e rabos ao céu, clamando por um profeta, um profetinha qualquer, unzinho mesmo, que nos indique o caminho de volta, para que possamos subir o cano, saltar do lixo, desesgotar-se, caminhar à praia e depois, com o livro do Marcelino em uma mão e del Fuego na outra, mirarmos o cano acolá embaixo e dizermos: - Ar puro, enfim. Como é que nos metemos nesta merda?

Depois choremos, choremos na miséria e contemplemos os poetas que nascerão, os jornalistas que relatarão, os novelistas que dar-nos-ão a trama de uma nova literatura.

E agora? E amanhã, José?
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 11:21 Comentários:




6.12.05

Conselho
Gabriel Silveira
De cá das fazenda antecéu,
caji tudo já foi feito
só falta contá certinho,
só falta escrevê direito.
Segui os conselho do Antônio,
dexei de lado o cerimônio,
vamo já pro dito e feito.

Prá conta essa prosinha
que é estória da nossa história
saibam todos que essa rima
to escrevendo de memória
se mudar porque esqueci
vou fazer como os dali:
vou aumentar a nossa glória.

Os dali que lá reinavam
contaram tudo invertido
botaram o filho de pai,
a esposa de marido.
E fizeram deste santo,
armado de fé e manto,
o senhor dos pervertido.

Era um homi de missão,
feito Zumbi ou Sepé,
que saiu a pregar a verdade
levado na sola do pé.
Quem via o mendigo imundo
cabra velho e moribundo
não levava muita fé.

Mas a força do divino
deu palha pro nosso palheiro.
Criou fama e freguesia
não tardou nem ano inteiro.
O povo inteiro rezava,
chorando se ajoelhava
para o velho conselheiro.

Foi que ergueram cidade
bem no peito do sertão
tiraram seu grito da terra
tiraram comida do chão.
Era tanta fartura e beleza
êta vida, que beleza
a Bello Monte é a salvação.

Mas pra coronel ficar fulo
basta sorrir o pobre.
De arapuca em arapuca
transformaram ouro em cobre.
A pátria armada chegou
a força unida engatilhou
contra causa, Deus, tão nobre.

A resistência foi tamanha,
do tamanho da opressão.
Qualquer pedra era arma santa
contra a força do canhão.
Pracinha voava aos montes
não dúvide, lá neste fronte
caíram mais de um milhão.

Mas Deus olhando aquilo
achou que não carecia.
Deixou os diabo aqui embaixo
levou pro céu o que ainda havia.
Bello Monte virou paraíso
e pra gente aqui criá juízo
é só imitá essa cabraria.

Todos no céu dos beato,
que do nosso mundo é lindeiro.
Lá onde exército não tem,
lá onde o último é primeiro.
Se quiser achar o caminho,
sussure bem devagarinho:
viva Antônio Conselheiro.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 15:06 Comentários:




5.12.05

Meu Tejo
Gabriel Silveira
Quando me olhas, me atravessas
sem cadenciar tua correnteza.
Solto-me das cabeceiras e
deixo-as, minhas certezas.
Lá vou eu, permita-me a paz,
me regozijam as tuas cores.
Vá-te, segue teu rumo,
em ti pairo, donde fores.
Ai, mas se soubesses...
lindo é tua água a correr.
Deus deu-te um espelho,
é o céu, se parasses para ver...
Já cruzamos vales e mundos,
cá chegamos sem um dano,
prepara-te, fluxo de beleza,
desagüaremos no oceano.
Meu amor, meu grande amor,
correnteza múltipla, torvelinho,
ainda estou cá a boiar,
ainda está tu a caminho?
Desbrava o mar,
apaixonas a brisa vã,
deixas em cada onda fugaz
teu aroma de hortelã.
Mais um venceste, o oceano,
depois das florestas, os montes.
Que mais falta para ti,
torna-te-ás o horizonte?!
E eu cá, boiando lento,
escrevendo-te o que vejo
Teu confidente mais fiel,
desde que ganhaste o Tejo.
Agora vem, banha-me,
quero sentir-te em meu labor.
Inspira-me a poetisar,
deixa espantar-te o dissabor.
Ahhh... refrescam-me tuas águas,
donas de ar, terra e céu,
fico a boiar meu corpo-letra,
inventando versos sem papel,
E sinto chegar-te, serena,
à cabeceira do paraíso,
tua ondas a encobrir-me,
"favor fotografem este sorriso".
Fiquemos os dois aqui,
ahh... deixa o mundo pra lá.
Aproveita, recosta-te em mim,
agora é tua vez de boiar.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 22:01 Comentários:




Metro: Av. de la Paz
Gabriel Silveira
Puxou as duas mangas até ficarem lindeiras com as mãos. El tren efectuará su entrada en la estación. Sorriu profundo, quedou sério. Terno cinza, repousando sobre o largo corpo, sapatos pretos espelhando seu rosto de barba espessa e cabelos longos, úmidos e lisos, que tocavam os ombros indiferentes. Na mão cansada, um livro. No bolso vazio, um lenço. Nos pés, o movimento, o trem já chegara, já apitara, já entrara, ele. Nas suas costas a porta, na sua frente 39 pessoas silenciosas, olhando o tempo ir-se. Segurou-se até o trem partir, cinco minutos até a próxima parada, abriu o livro na página 28. Leu por uns segundos em voz baixa, depois voltou o rosto para cima, fez seus olhos brilharem com a verdade, levantou a mão trêmula contorcendo os dedos abertos e começou o discurso em tom fúnebre. Ustedes que son corderos de una mentira; ustedes que son ovejitas de un cielo que está inmerso en sangre; ustedes que no desean quedarse para siempre como un lapso de oscuridad, porque pueden tener la virtud de la eternidad (neste momento trocou a página do livro e subiu a entonação da voz); ustedes que no están aquí para morir solos, que desean abrir fuego contra un Dios que nunca habrá de salvarlos; aquí, ahora, pueden tener un nuevo Dios, un misericordioso Dios y que guiará todos para la súper vida eterna de Catón. (Voltou a subir a entonação da voz, dando sua ordem final) ¡Para Catón!, vengan todos conmigo. Nisso deu as costas para as ovelinhas, o trem parou, ele desceu e, sem abrir os olhos, ergueu a cabeça para os céus. Gracias, mi señor Catón, ahora nuestra comunidad está pronta para hacer la última viaje. Abriu os olhos para contar quantos estavam ao seu lado. Nenhum, estação com eco. Ele baixou os braços que quase tocavam o céu, puxou as duas mangas até ficarem lindeiras com as mãos, passou rapidamente a mão cansada sobre o cabelo ainda úmido, fechou o livro e pôs-se a esperar. El próximo tren llegara en três minutos. Sorriu profundo.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 15:38 Comentários:




1.12.05

Eu tive um pesadelo agora
Gabriel Silveira
Acordou suando coito. Donde estou? Que fizeste, José? Donde andas? Nu, estava, mas fez questão de rapidamente mergulhar nas calças, meter a camisa, pisar o sapato. Foi com as mãos ao bolso, nem dinheiro, nem chaves, nem nada. Donde estou? Passou a mão sob a água do banheiro azulejado, a mão no rosto, ainda foi até a janela ver de que lugar e de que altura olhava. Segundo. Teve cuidado pra não fazer barulho. Podia ouvir alguém conversar na cozinha, era o que parecia. Que fizeste, José? Suspirou, abriu a janela e se pôs a descer, segurando-se ao cano que também descia, depois ao muro de cacos de vidro, depois à rua. Donde andas? Pelo sol, deu crédito de horas ao meio-dia. Ajudou-lhe o olfato de comida, zona residencial. Donde estou? O sol da Porto Alegre de janeiro evaporava seu fedor de sexo. Que fizeste José? Foi cruzando as ruas, até encontrar uma parada de ônibus, observar um a um, já sei por onde andas, José. Fez sinal ao primeiro, correu pressionado pela calça de escritório, a camisa de escritório, o fedor do sexo de escritório, e entrou sem cumprimentar o motorista. Faça a fé, seu moço, tô sem grana, me assaltaram. O cobrador olhou para o sujeito de escritório, desconfiou do bigode sem barba, fez cara feia para o cheiro e tudo bem. Senta aí. Ele sentou, ficou vendo o sol cair do céu, a panela de água quente que descia de lá virando fumaça em segundos. Limpou a testa com a mão, a mão na calça, a calça no banco. Uns quinze minutos e levantou, agradeceu ao cobrador, desceu na Protásio. O cabelo preto lhe enrolava o suor, aquecendo a cabeça, o bigode aparava o suor que a sobrancelha aparava que ia escorrer pelo pescoço e lhe molhar a camisa. Desabotou o primeiro botão, via-lhe a regata branca. Entrou no primeiro bar. Uma bem gelada, seu Antunes. O tal olhou desconfiado, foi até a geladeira, serviu a tal, o outro bebeu. Bota na pendura que hoje a coisa tá ruim. Pendura, só pra conhecidos. Sorte a minha. Paga a cerveja pra não se incomodar rapaz, disse um outro da mesa. José olhou para o lado, voltou a olhar o velho Antunes, sabe lá que pensa José. Tô sem nada, tô duro, seu Antunes, vai me deixar numa dessas? O relógio, respondeu de trás do bar, deixa o relógio. José botou o relógio na mesa, saiu puto. Velho filha da puta, como se não me bastasse acordar na pôrra do fim do mundo, este velho puto ainda me faz desta. Explica isso pra Rosinha, explica? Sem chave, sem dinheiro, sem documento, sem a pôrra do relógio. Entrou no portão de casa, cheiro de comida, ainda sol do meio-dia. Três batidas na porta, um grito. Rosinha! Três vezes o tamanho de José, abre a porta um homem alto, barba fechada, cara feia. Quer o que com ela? Como, quer o quê, é minha mulher, pôrra! Tua mulher o cacete, Rosinha! Chega esta. Quem é, amor? Um safado dizendo que é teu marido. Tu conhece? Nunca vi mais louco, nem mais fedorento, e saiu a dar risada, levando uma menina pequeno com ela. Peraí, quem é essa menina, perguntou José, quem é? Minha filha e isso não é da tua conta, tarado. Bastou o ¿filha¿ para que José perdesse a força dos braços, se deixasse jogar para trás pela força que o outro exercia na porta e blam, tá lá porta fechada, homem lá dentro, José lá fora. Que fizeste, José? Tomaste uma bomba, José? Levantou, ficou olhando a casa, da janela o homem ainda olhava com raiva. Nem engolira e já vomitara José. Dos fundos, vem o cão a latir, vade retro, José levanta apressado, junta a si mesmo, se toca até a rua, bate o portãozinho de ferro, olha mais uma vez para o marido de sua mulher. Vai embora, José. A mesma água quente dançando no ar, deve ter queimado o vento. Para em frente à casa da vizinha, pergunta as horas, ela responde. Quinze pra uma, moço. Moço, quer dizer que nem tu me reconheces, Joana, pôrra? Desculpa, moço, se conheço o senhor e não tô lembrada, mas nem sua cara nem seu tom de voz me parecem comuns. E vai lá pra dentro a Joana, a moça brava, vai cozinhar e lavar para o marido, vai ler revistas e costurar camisas e deixa José na rua. Mais uma vez a mão na testa e sai a caminhar, pega uma sombra, caminha tantas quantas quadras forem possíveis, não são muitas. Ainda o cheiro de almoço subindo das casas, ainda o cheiro de sexo subindo do corpo. Pára em uma ruela, olha uma casa, família almoçando nos fundos com os amigos, a porta da frente aberta, bons tempos de fé nos homens, a carteira sobre a cristaleira, ali ele entra de mansinho, de malandro, pega a carteira, da sala uns olhos o encaram, um menino não mais que seis, não mais que sete. Teu pai pediu que eu pegasse a carteira dele aqui. Meu pai não tá aqui. E onde é que tá? Meu pai tá na vó. Pois, guri, também eu tava lá agora, vim cá só pra buscar a carteira pra ele, mas ó, não conta pra ninguém, bico fechado, viu? Não entendeu se foi o cheiro ou foi o tom de voz, só viu que o piá se botou a chorar, engoliu o ar do mundo a chorar, vieram todos a escutar e ver o choro, que era choro lindo de se ver, e José já era só vento em meio ao mormaço. Desapareceu. Quando o menino engoliu as lágrimas, já estava quilômetros dali. Três cervejas, aqui não dá mais que três cervejas, pensou José olhando a carteira, que pôrra que eu vou fazer? Pegou a Venâncio ensolarada e foi até a João Alfredo, vou falar com o Marquinhos, quem sabe passo lá a noite, quem sabe ele me empresta uma grana, quem diria o Marquinhos ter que me emprestar uma grana. Chegou até a entrada do prédio, era só ele e o sol que estavam ali. 112. Sim? Marquinhos, é o José, preciso de uma grana, cara. Peraí, vou descer já. Graças a Deus, José, Deus não esquecera dele, se o Marquinhos também não. Nem três minutos levou, apareceu uma sombra no fundo do vidro, a luz do elevador, o homem vem até a entrada, mal abre a porta. Já falei que vou pagar, pôrra. Que pagar, quero uma grana, Marcos. Mas o outro nem ouvia José. Sai daqui, minha mulher não sabe de nada, vou pagar até terça, prometo, agora sai daqui. Tá falando do quê, pôrra. Sai daqui, some daqui, eu vou lá e pago tudo, já falei. Não me empurra, pôrra. Sai daqui, some daqui. E fecha a porta o homem, o Marquinhos. José dá com a mão na porta, puto, puto, que merda de sol, que merda. Que fizeste, José? Donde andas? Sai dali, sem opção, que fazer, sai dali e vai pela João Alfredo, pega a Sebastião Leão, um bar na João Pessoa, o refúgio é um bar na João Pessoa. Senta, pede uma cerveja. Fica sem ver o mundo, mas o mundo cai lá fora, vai deixando o sol se ir, vem o jogo na TV, o Inter ainda tem o mesmo time, José nem vê, mas o seu time ainda é o mesmo, nem vê quanto paga ao velho do bar. Obrigado, moço. E ele responde. Meu nome é José. Mas que fizeste? Sai da João Pessoa e resolve voltar em casa, já está suando a camisa que é do corpo, a calça que é do corpo, a lembrança que é da alma. A cara ainda é de escritório, o bigode é de escritório. Chega na ruela da Protásio, senta do outro lado da calçada, escondido atrás da Sibipiruna. Espera, espera, uma hora saem, é domingo, Rosinha sempre sai no domingo. Ele cochila na sombra, o sol nem se lembra mais dele quando os três, a família, a sua que é de outro, saem cruzando as mãos, fecham o portão, deixam a casa. José já acordou, já viu, já pulou o portão, já fugiu do cachorro, o trancou no pátio da frente, já está forcejando a janela dos fundos. Já entrou. É o seu quarto, abre o armário mas não são suas roupas, escolhe camisa e calça ao seu gosto, mas não é o seu gosto. Abre a gaveta ao lado da cama, não é seu radinho, não é sua foto sobre a cômoda, é a foto da sogra abraçando o homem, o homem beijando Rosinha, Rosinha beijando o homem, o homem abraçando a sogra. Quanta raiva é não ser quem se pensa que é. Pula até o banheiro, nem há lâmina de barbear, nem há escova de dentes sua, só a deles, abraçadas uma com a outra, dançando a rotina uma ao lado da outra, dividindo as horas uma ao lado da outra, sendo casal uma ao lado da outra. Ele ao lado, sério. Tira sua roupa fedendo a tudo, entra no box, hesita alguns segundos antes de passar o sabonete no corpo, vai, azar, que merda, que merda, lava-se do cheiro, limpa-se de si, despido de identidade, nu de história. Do chuveiro cai um pranto esquecido. Já saiu do box, já colocou a camisa que sobra, a calça que sobra, o sapato é o mesmo. Joga a toalha sobre a cama, deixa ali também o cheiro do escritório. Abrem a porta, não é ele, é o outro, com Rosinha, com a filha que seria dele, ele pula a janela, agora do avesso, o puto do cachorro está a latir, já houve o homem, já corre o homem, já está na janela dos fundos a gritar. É aquele filho da puta, é aquele filho da puta! José chuta o cachorro do outro, corre até o portão, correu até a rua, corre até a esquina, correu atrás de si, o outro também vinha correndo, cansou, desistiu. Quiçás com medo de encontrar um amante da sua esposa, vá lá saber. José não era amante da sua esposa. Era marido. O ar seco entra no peito feito cinza de cigarro, ele descansa, estrala o pescoço, se joga na parada de ônibus. O mesmo que o trouxe pela manhã já chega. Já chega. Ele chama, entra, desta vez paga com o dinheiro do pobre coitado que estava a visitar a própria mãe, o pai do menino traumatizado com o tarado que uma vez lhe aparecera na porta de casa. José desce do ônibus. Pára na rua. Donde estou? Que fizeste, José? Sobe pelas casas com cheiro de janta, anda em torno do muro com vidros, não vai pular a janela. Bate à porta da casa. Uma menina olha da janela, grita. Mãe, é o pai. Nem se surpreende. Uma esposa abre a porta, olha as roupas do marido. Donde estava? Por aí, responde José. Ontem foi tão bom, tudo tão perfeito, pensei que irias passar o domingo em casa. Cá estou. Bom, sempre é tempo de recomeçar. Recomecemos o domingo, então. Vem pra dentro de casa. Já foi.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 13:49 Comentários:




Olha que delícia: continuo em mi, mas estou em lá.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 08:01 Comentários:




28.11.05

Morte encomendada
Gabriel Silveira
Uma pausa para escrever, escrever sempre é uma pausa. Lá vem à cabeça uma história do menino que corria de um lado para o outro, enquanto a mãe lhe dizia, não vai pra lá, não vai pra cá. Lá vem à cuca uma história do rapaz que corria de um lado para o outro, enquanto a mãe lhe dizia, não vai pra lá, não vai pra cá. Lá vem à cepa uma história do homem que corria de um lado para o outro, enquanto a mãe lhe dizia, não vai pra lá, tampouco acolá. Lá vem à fuça o cheiro de um velho morto que nunca correu, enquanto a mãe lhe dizia, vem pra cá, vem pra cá. Pausa para chorar, nunca em tempo.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 12:49 Comentários:




27.11.05

Perdão
Guilherme Póvoas
Era para ser um perdão, não fossem os erros cometidos por mais trezentas vezes. Chegou um momento em que o baú dos perdões, sustentados à base do amor, minguou. Não fossem minhas palavras, sempre tardias, deixaria de tentar reacender, com águas frias, o fogo de paixão que está para lá de escondido - no meio do mato erguido. E se fossem, como não fossem, apenas perdões, eu desistiria. Mas sei que a cada renovação concedida, passo a acreditar no tudo, de novo. E vejo o baú de perdões mais distante, bem longe, como se não fosse, como se fosse, usar ele jamais.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 14:48 Comentários:




24.11.05

Poucas coisas são divertidas tanto quanto ricochetear no destino. Ele vem de lá, vais tu contra ele, mas com força toda, mas com vontade exemplar, daí gozarás o sentir da emoção nobre de ser lançado ao passado.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 11:12 Comentários:




Quem com ferro fere vai preso.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 10:51 Comentários:




O tu é sempre mais estranho que o eu.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 10:50 Comentários:




Harmonias em si não são nada. Tenha dó!
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 10:44 Comentários:




Troco em recados
Do além-mar, fala o que vos ama, fala um que vos quer, porque vos é igual. Mas além-mar, cá estou, do lado de ancá do outrem que é o tudo, que pensam ser nada, que é o oceano (como quem cá está, nada sabe daí, quem aí está, quer saber de cá, onde nada de diferente há, senão amor que sim, já, há a toda), tá-estar-estando só me resta falar de alhures, porque a de cá língua não cala e eu me calo. Mas cacaca é fazer merda onde já a há. Vá lá com cuidado no que dizes. Eu só os aviso que ganhei um coração em sítio, já não preciso das lágrimas que havia encomendado de acolá, em fora. Me despeço de aí, hão muitos de cá com saudades de si mesmos. Lá, que não cá nem aí, tem também. Fico cá, calado às vezes, lha amando sempre, que minha está, como amo a vós que aí cantam em mi. Beijos de lá para ali.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 10:44 Comentários:




18.11.05

Ensaio sobre a riqueza
Gabriel Silveira
Ela tinha uma gata que se chamava Amelie, como não poderia deixar de ser. E para ela os gramados eram sempre verdes, como não poderiam deixar de ser. O vento era frio, ou quente, sempre perfeito para a hora que viesse a bater. As flores eram sempre rosas, como não poderiam deixar de ser. A verdade era sempre inteira, como sempre previra ser. Ninguém era nem tão errado nem tão certo que uma conversa não pudesse ter. E tudo que tinha era dela, como o fizera ser. Sua casa era linda, e clara, e de ar refrescante, uma casa exatamente como ela sonhava ter. E amava muito, e todos os amores eram sinceros, como somente um amor pode ser. E quando morreu, pôde levar tudo que conquistara. Até a pequena Amelie, porque a amava.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 13:42 Comentários:




Fluxo vital
Gabriel Silveira
Me consumo, me consumo, me consumo, me consumo e de tanto me vomito.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 12:04 Comentários:




Teorema da sobrevivência
Gabriel Silveira
Se correr eu pego o bicho. Se ficar, eu passo fome.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 09:25 Comentários:




Em Madrid, silêncio.
Gabriel Silveira
Corre um silêncio que desemboca em qualquer ruazinha. Mas não é o mundo, sou eu. Não é que eu não fale o castelhano. Falo. Difícil mesmo é entender o que estou dizendo. Nem sequer os passarinhos entendem. E só de pensar que Deus por aqui talvez também não me entenda, é de gelar os ossos, é de rebentar os tímpanos de tanto grito. Só o silêncio permanece. Como o amor. Já percebi que ele é o escravo, não eu. Mas não que eu não fale. Falo. O difícil é pensar o que falar. Nisso os passarinhos me entendem.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 09:22 Comentários:




Amor por Loa ¿ Paraíso
Inferno ou purgatório
não tiraram meu juízo.
Como é que essa anjinha
o fez aqui no paraíso?

Amor por Loa ¿ Margaridas
Me entendem tu e as margaridas
quando me perco por amor:
tu, o jardim cheio de flores,
eu, o atordoado beija-flor.

Amor por Loa ¿ SMS
¿Com¿ antes do ¿amo¿?
Até entendo o celular.
Somente estando contigo
é completo o meu amar.

Amor por Loa ¿ Eletrônico
De esperas é este amor.
Com quantos prazos me entope!?
Mil e uma horas a te esperar
com o reloginho do laptop.

Amor por Loa ¿ Té
Vem sempre com cafeína
minha filosofia, que não é vã.
Tivesse eu tua energia
e te bebia com hortelã.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 05:41 Comentários:




Em construção
Nem poesia abstrata, tampouco concreta. Longe disso. Sou uma prosa difusa, inalâmbrica, fugaz em cada das milhões de partículas que dançam, formando meu ser. Ser e estar pleno de espírito, fuso confuso de convicções que nada são, nem eram. As convicções vão a destruir-se, produzindo um viver em fagulhas que vai formando um ser ainda sem estar, ainda sem berço, ainda fugidio. Uma a uma se interlaçam. Mergulham no vinho dividido entre o natural e o químico, entre o rubro e o negro, entre a música e o silêncio. Nem poesia abstrata, tampouco concreta. Que a predileta seja a prosa. E predileções vão a esvair-se nos horizontes que pintam cheiros de um ser novo, um ser estar que já quase é. Dos doze, sobraram um para contar a história. O que vos fala. Nem poesia abstrata, tão pouco concreta, faz a rosa, em prosa cheirosa, no papel de vilão que não se entrega ou no papel de mocinho que não se cala. Que não se desarma. Do abstrato, sobram as flores. Do concreto, sobram os medos. Fico sem os dois, minha prosa doce deste tão impensado ser, inundo em amar. Ser e estar sem ser, sem estar. Nenhum dos abismos é caminho. Salvo a mim, destruo a eles, remonto, planejo, contesto, inverto sem pensar, sem estar em meu pensamento. Sou folha de outono na primavera doce que conduz ao ser, viajando lento na velocidade dis abismos. Anoitece a aurora, amanhece já noite. E o tempo me ensina com sua força: - Voar sem rumo nunca me fez calar.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 05:39 Comentários:




3.11.05

Amor por Loa ¿ Apetite
Gabriel Silveira
Cheguei e o que é?
Amor cheio de fome.
Me abre o apetite
cada vez que ela me come.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 08:15 Comentários:




Rebento do tempo
Gabriel Silveira
Escrever sobre escrever é a melhor maneira para voltar a escrever depois de um bom tempo de silêncio. Silêncio aí, no fora, no vácuo buco do não-amor. Aqui dentro, onde tudo se escrevia, onde despertavam as harmonias da magnificicência astral e donde brotavam crasculáceas da paixão sobrehumana, aqui dentro não havia silêncio algum. Mas, como já diria um maestro ao atingir a desencantal perfeição, a música só é perfeita quando acaba. Bueno, por isso começo, por isso recomeço, porque escrever sobre escrever é não escrever sobre não escrever. E uma orelha faltando bem pode significar uma inocência. Mas onde chegar? Para que lado ir? Qual o ponto de partida e a estação de chegada? Quem dirá onde e quando e para quê? O triunfo do poeta é ser eternamente triste. Pois morreu, sei bem que morreu. Hoje, em nossa escola do pensamento, vamos a ver como desenvolver uma nova idéia. Comecemos construindo uma típica cena, nem mais interessante nem menos que a realidade, somente uma cena, pincelando alguns triunfos da natureza como belas árvores no background oleoso do ar úmido que contorna nosso universo. Veremos como se sai nesta mesma cena, com árvores ao fundo, melhor, com uma grande floresta ao fundo, folha secas ao chão de terra batida, ainda o ar oleoso, agora incrementando-se a este o ar umidecido, as folhas de hortelã que divertem-se espalhadas pelo caminho e o nosso personagem, sim, o temos, aquí o está, já o narraremos, veremos como se sai em nossa cena o nosso herói que deverá ter, pois assim devem o construir vocês que agora lêem este jovem autor, pois bem, lho construam, em seus grandes salões da imaginação, com um terno cinza claro, camisa branca, e a gravata como bem quiserem, um chapéu da cor mesma do terno sobre a cabeça, levemente erguido na frente, como o faria kevin costner, pois bem, podem o imaginar com a mesma expressão de Kevin Costner vestido de terno cinza, não o esqueçam, e a tal gravata que todos já devem, a estas alturas de enrolação para vestir o tal homem, tê-la personalizado ao gosto e à sensibilidade ao mundo das vestimentas que cabe a cada um. No meu caso, não me cabe nenhuma capacidade destas e é por isso, somente por isso, que não o coloco nenhuma gravata, deixo-o sem, os que não conseguirem pensar uma cor de gravata que lhes apeteça podem seguir o meu exemplo e arrancá-la fora, se é que já haviam vestido nosso querido personagem com alguma. Pois bem, lá está nosso Kevin Costner, bem vestido com um terno e o chapéu sobre a cabeça, levemente erguido na frente e com a camisa desabotoada em cima, onde não há gravata nenhuma (adaptem tudo o que se mostrar necessário às suas imaginações, não o encarem como intromissões). Pois bem, ele vai a caminhar na tal floresta, pisando com seus sapatos nas folhas secas que se distribuem banhando o chão de outono. Ele pisa firme, não o pensem que é um maricas qualquer este nosso personagem. Não, o é firme, está decidido a fazer algo, pelo modo a que vai a pisar e pela velocidade a que caminha. Um pouco menos de velocidade, aliás, e teria notado os lindos passarinhos que cantam ao pé de um lindo bouganville. Pois bem, mas nossa história não fala de pássaros, tampouco de flores, fala, em verdade, do contrário de tudo isto, e não fossem, os ítens citados, tão importantes em qualquer texto que se proponha humildemente a transformar-se em literatura, não estariam na boca do que vos fala através de voz escrita. Pois bem, Kev está a dar tamanhas passadas que, ao nosso simples discorrer sobre a importância das ingeniosas construções da mãe natureza na literatura, já o atravessou a floresta inteira, ao passo (largo) que podemos ver, agora, tratar-se de um jardim particular, acreditem, pois estou a ver, ali vai o nosso prezado Kev, se assim posso a ele dirigir-me, Sim, obrigado Kev, ali o indo posso perceber tratar-se de um jardim particular que dá nos fundos de um tenebroso castelo, que daria arrepios às jovens mulheres que, à noite, possuem medo de fantasmas. Mas creio que as mulheres já espantaram suas sombras há tempos. Nós, os homens, é que ainda vivemos com nossas assombrações. Pois bem, Kev acaba de entrar no tal tenebroso castelo e ser atendido por um homem alto e magro, olhos fundos e terno escuro e sombrio. O tal parecia conhecê-lo, dado que o cumprimentou e ofereceu que entrasse no castelo. Agora só nos resta esperar alguns momentos aquí fora, enquanto nosso querido herói resolve os assuntos que, se a ele dizem respeito diretamente, o que tudo mostra a crer, a nós também nos parece muito interessante, mas creio que não poderemos narrar o que se está a passar lá dentro, ao menos agora, já que nossa história trata-se somente de um exercício literário e nosso querido amigo Kev, que nos serve de herói, personagem principal e modelo de moda, tenho certeza não deseja ter seus assuntos pessoais envolvidos em um simples exercício literário, talvez nem tão simples e talvez nem tão literário. Mas, finemos o papo furado que lá vem nosso querido amigo. Sai do castelo, não sem se despedir e receber do mesmo homem alto, que como imaginam vocês, tenho certeza, pois assim também o imagino, deverá tratar-se de um mordomo, uma pasta que creio deve conter, sim, perdoe-me Kev, vamos a frente, sim, desenrole seu dia que prometemos, eu e meus queridos leitores não mais intrometeremo-nos nas peripécias pessoais que se destacam de sua capacidade humana. Por mais que eu não aconselhasse tal fato, Kev acaba de puxar uma carteira de cigarros do bolso, tirou-a com uma mão, sem tirar a outra da tal pasta secreta, sim, secreta porque não o sabemos seu conteúdo, apenas literatura Kev, apenas literatura. Pois bem, nosso prezado personagem acaba de mostrar-se muito habilidoso, pois, tendo uma mão ocupada com a pasta do segredo, puxou a carteira de cigarros com uma mão, sacou um deles com a boca, depois com o dedo polegar, também conhecido pelo codinome de dedão, levantou o isqueiro de dentro da mesma carteira que, com o apoio da mão, se fez aceso, assim como se fez o cigarro. Guardou carteira e isqueiro no bolso e voltou-se ao prazer do cigarro que, aparentemente, deixa Kev um pouco mais à vontade por nossa presença aquí. Não? Pois bem, assim são os ingratos personagens, frutos de nossa própria imaginação que depois vem a buscar regalias de intelectuais quando estão dentro de nossas próprias cabeças. Ingratos, isso o que são. Pois bem, chega de raiva por agora, Kev terá o que merece, pois assim o posso fazer. Claro que Kev está um pouco mais nervoso com as minhas intenções agora demonstradas, mas bom é para que aprenda a respeitar criador quando não basta de uma infame, porém interessante, criatura. Kev mantém, ainda, queridos leitores, o passo apressado de antes. Carrega a pasta firmemente na mão, e seu chapéu ainda levemente erguido, mantém sua visão dominando os 180 graus que lhe competem necessária atenção para que vá adiante. Já saiu dos portões do castelo e parece dirigir-se a uma pequena taberna. Vai rápido, com pressa de personagem que busca o fim de um livro, e eu o consigo seguir somente pela fumaça do seu cigarro, ainda aceso, que vai cuspindo cinza no azul claro do úmido pós chuva que sobrecai do crepúsculo noturno de nosso ambiente de atmosfera lúdica e medieval. Se meus prezados leitores não tiverem gostado desta última sentença, talvez por demais poética, prestem-me o favor do entendimento, pois havia perdido de vista nosso querido Kev que, agora o vejo, está para entrar na taberna Verde e não na taberna vermelha, como, acreditava, iria entrar. Sim, claro Kev, ficaremos aquí fora. Não, não me esqueci que seus assuntos pessoais não devem estar expostos neste exercício literário. Claro que lembro que me pediste um livro dedicado a tais experiências. Com certeza. Boa cerveja, Kev. Lá vai ele. Entrou decidido na taberma. Kev, Kev. Teimo em criar personagens de personalidade forte, aí está o resultado. Dezenas de passarinhos a voar e nenhum a bicar-me a palma. Pois vou o mostrar. Antes de disso faremos um combinado, eu e vossas senhorias, os leitores, que me acompanham até este ponto desta tão descabida e absurda aventura. Pois lhos explico: o que faremos é entrar na taberna verde, na qual Kev está a tomar algumas cervejas, e expiaremos tudo o que se passa no mundo desproporcionalmente irreal de um personagem que não existe, utilizando o termo, claro, em sua forma mais materialista, ou seja, não existe como matéria real, carneosso ou folha verde. O existe como letras que se configuram em almas. Com sorte, tão somente isso. Sei bem que, a partir deste ponto de interpretação, poderíamos também dizer que o amor não o existe, é também um reflexo de algo não bicável que toca as almas, mas façam como quiserem, interprentando do ponto de vista que lhes caiba mais à retina, vamos a dar uma expiadinha que, estando a decorrer o tempo, nós, escritor e leitores, estamos a perder, por suposição, tudo o que se passa dentro da tal taberna. Pois bem, tudo o que preciso para que nossa aventura seja um sucesso é falar deverasmente baixo, escutem bem, portanto, porque vou a sussurrar a partir de tal frase. Estão a me escutar ainda? Pois bem, lá o vamos construir o interior da taberna, pintamos aquí um belo balcão de madeira de lei, alguns nós para dar-lhe um ar mais realístico, um velho gordo, de barba e sem cabelos atendendo atrás do mesmo, diversas garrafas de todos os tipos que nossos queridos leitores, que agoram esforçam-se para escutar os sussurros, poderão imaginar de acordo com seu gosto, respeitando, é claro, a formatação rústica de todo o nosso ambiente, contrastando somente, creio que já o perceberam, com o terno cinza de nosso querido personagem que, em verdade, lhos abro o jogo, vem diretamente do futuro, de um canto qualquer do futuro, que para algo se tornar um futuro basta ser improvável e não merecer ser pensado agora. Pois bem, nosso personagem do futuro está em algum canto desta taberna rústica, medieval, mas agora não o encontro. Nem nas mesas da frente, onde meia dúzia de orcs põe-se a falar, ou a rugir, como manda o estatuto dos orcs literários, nem nas mesas do fundo, onde a taberna já está deserta. Deve estar perdido entre os outros condenados e desvalidos que se põe a beber mesmo de pé, sem mesmo assentar as bundas tolas em algo que lhes dê algum descanso pois, bem o sabem, os vagabundos nem mesmo tem do que descansar. Pois lá está o nosso querido Kev, falemos ainda baixo, aos sussurros, não esqueçamos. Se algum de vocês, leitores, resolver falar-me ou atentar-me de algo nos próximos segundos, por favor o façam em voz extremamente baixa (Kev reconhece a voz de um leitor dos seus em segundos) ou então ponha-se, mesmo, a puxar-me a camisa que já o poderei atender. Lá está Kev, quase que o perco. Retirou o terno, talvez pelo calor, o chapéu continua na cabeça e o cigarro, que creio ser outro, está na boca, mas ainda conversa. Da pasta secreta tirou um roteiro, que roteiro? Não, não posso acreditar. Está a conversar com, não creio, é ele, o Escritor, já sei o que se passa, bem o sei, são traidores, bem o sei, são traidores, crápulas, pensaram que me enganariam, crápulas, imagine só, um dos meus personagens me traindo com o Escritor que, embasbaquem-se, também é meu personagem. Pois se queres ser da imaginação de outro, aquí está, terá o máximo que minha imaginação pode lhe dar. Não, leitores, não mais é preciso sussurrar, gritem, sim, vocês conhecem o tal Escritor, sim, meu personagem fatídico e sem idéias. Ingênuos, pensaram que poderiam me enganar? Dê-me cá este roteiro que, como tudo o que aquí se pinça é de minha cabeça. Aquí está, para o meu personagem Escritor, que nem nome tem o condenado, aquí vai o fim, o fim de todo o Escritor, uma descrição me basta para destruí-lo, aquí está, era uma vez um escritor que não tinha idéias, um escritor que não tinha coração e nem mesmo tinha um cérebro. Este escritor foi morto, simplesmente morto, um presunto mal-cheiroso e dedicado ao lixo, como todo papel que não tem o que contar. Satisfeito? Quanto a você, meu querido e tão querido mas tão querido Kev, sobra-me dar-te um fim neste mesmo conto em que tudo começou, tão súbito e breve quanto o momento em que te dei tal nome. Fim.

Coda: Aos leitores, únicos sobreviventes deste conto que envolve traição e quebra de valores, deixo meu coração estendido em vermelho, para que voltem sempre à escola da imaginação literária.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 08:14 Comentários:




27.10.05

A verdade dói, o amor lubrifica.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 16:07 Comentários:




9.10.05

Um boêmio me disse, mas sei, sei que a lua abandona os amanhecidos, sei que o tempo é mãe que desmama os atrasados. Sei, bem sei que o sol faz tremer o coração boêmio sem sono, o sorriso amarelo sem brilho, o olhar achatado e curto. Sei, e como não saber da verdade da vida, refugiados que são os medos em mim? Dos outros, são dourados e intermináveis os momentos de sonhos, desatinos ondulados, vagantes ou errantes, indispertos. Ah, mas o boêmio vive na escuridão alegremente sombria! Na meação dos destinos, fica com a noite que canta vida e não dorme sonhos. Um boêmio me disse e repito. Ah, vida mal dormida! Ah, baluarte dos despertos! Ah, grotesca poesia!
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 13:13 Comentários:




Por la noche sin Loa
Gabriel Silveira
Sin las colores de Orozco,
sin la muerte de Posada,
solamente la nostalgia y yo.
Una calavera se puso alerta
al otro lado del cuarto.
Hija de otros mundos, mira mis
ojos claros sin prisa, sola
en el tiempo, en el vacío,
con la misma expresión hueca
del demonio que hay olvidado
su naturaleza divina.
Yo, sereno, mato la dolor
com la lembrancia, cerro
mis oídos con la fe y sangro,
sangro mi amor por ti.
Seremos esta noche todo el día?
Seremos esta noche la vida entera?
Seremos?
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 12:20 Comentários:




2.10.05

Coisas acontecerão
Guilherme Póvoas
Tenho medo de saber o futuro, mas não consigo deixar as coisas acontecerem.
Tenho medo de saber o futuro e, por isso, não consigo deixar as coisas acontecerem.
Tenho medo de saber o futuro das coisas acontecerem.
Tenho medo de saber o futuro antes das coisas acontecerem num acabou.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 21:39 Comentários:




26.9.05

O mesmo banco, a mesma praça, mas não sou mais a estátua.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 14:30 Comentários:




13.9.05

Perco a paciência com os impacientes.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 16:06 Comentários:




1.9.05

É fé em Deus, café e deu.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 17:43 Comentários:




31.8.05

Mire donde mire
Gabriel Silveira
Seria uma flor, não fosse de plástico; não fosse preto; não tivesse botões e números; não fosse de desenho duro no plástico áspero, seco, textura do moderno; não fosse programado; não tivesse fios e mais milhões de fios e chumbadinhas mil a prender aqueles mesmos fios em placas verdes que parecem ruas de uma mini cidadezinha de um outro mundo; não fosse móvel; não pudesse ser trocado e jogado e atirado; não fosse comprado; não fosse um que é só um de tantos; não tivesse número de data, barra, produção, aduana; não tivesse número seu; não fosse só pedra feia no horizonte laboral; não fosse imortal. Ah, se não fosse tudo isso, o telefone seria uma flor.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 14:13 Comentários:





Crepúsculo
Gabriel Silveira
- Será tarde para um café? Nem bola e senta o menino à beira da janela, observa o todo, depois chora, chora uma lágrima por ser, destas lágrimas que vem como a tristeza do Cruz, que entretem como o gotejar da chuva, que é solitária como o crespo sol do outono. Crespo cinza. Cinza como a chuva na escola de Friederich. O menino, menos disciplinado, rasga a janela e vê o céu aberto ao mundo. Salta da casa e entra no todo. Sorri nas brincas sem mostrar os dentes. Riorriso de dia sem escola. Leva a mão ao queixo. Face cordorrir. Negriazul sopra entre seus olhos. Noite com N. O vento é lento. Ele cerra e ahhh. Desperta para o mundo do sonhar ser. - Queres um? Acho que ainda dá tempo para um café - diz a mãe do menino de costas para o universo.

Acima, faceta de Van Gogh.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 02:20 Comentários:




26.8.05

Observa
Gabriel Silveira
Era um mendigo e um cãozinho. As pessoas, que nem latiam, só falaram com o segundo.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 19:15 Comentários:




Confórmico
Gabriel Silveira
Que cadeira, quê? Quê? Não deu pro café, vai dá pra esperar sentado? Espero aqui, não dá? Dá, sim, tem que dar, tenho minha ficha, quando chamarem eu vou. Quê? Aqui ó que eu vou ficar esperando sentado. Me sinto tosco, tolo, tonto, tomei a decisão, espero de pé. Vai que eles me atendem mais rápido. Certeza que botaram cadeira aqui pra isso, pra que eles não fiquem estressados vendo uma puta fila até a porta. Quê? Aqui pro povo, que querem saber do povo? Ovo preles. Espero de pé. Se eu não chegar até as onzz, quê? Não, obrigado, fico de pé. Ou até as onze ou ela me mata. Devia ter trazido um pedacinho daquele bolo. Teria o que fazer aqui, de pé. Ê, Maria. Bom o bolo da Maria. Será que eles chamam ou aquela porrinha tá funcionando? Espero de pé, claro. Ah, sim, tá funcionando. Só esperar, logo, logo. Bom exemplo, sim, a moda que pegou foi a do mau exemplo. Não sei como os caras não tiram isso do rádio. Este rádio é outro jeito de deixar todo mundo calmo nesta demora do inferno. Putz, este velho vai custar a sair. Cinco minutos só pra lembrar o que veio fazer aqui, mais dez pra lembrar a senha. Tô até vendo, vai custar. Todo mundo que tá sentado deve tá pensando a mesma coisa. Só ver a casa de tristeza, quê? Ali, pega ficha ali. Não, só senta se quiser. Prefiro ficar aqui do que me acomodar. É isso, acomodar, essa é a palavra, acomodar. Quem se acomoda, já era. Quem não reage, rasteja. Aquele bolinho agora era tudo que eu precisava. Que mamata este empreguinho. Decorar meia dúzia de números, ficar sentado nesse balcãozinho o dia todo, depois é só pegar a graninha no final do mês. No próprio trabalho, diga-se de passagem. Com um empreguinho desses ela me largava do pé. Melhor, até voltava a ser aquela maravilha que eu conheci. Dois meses, já vão dois meses sem trepar. Que custa? Um carinho, tira a roupa, senta no colo, ah, não posso pensar nisso agora, se não, aí sim, vou ter que sentar nessa cadeirinha do conformismo. Joãozinho? Que canalha, garanto que tá vindo depositar a grana preta que anda ganhando. Podia ter me arranjado aquela boquinha. Não, não dá, quem sabe outra vez, Maneco. Maneco o cacete. Ali, pega ficha ali. Nada. Não, só senta se quiser, a fila é pelo número. Ok. Ei, ei, morena dos sonhos. Se ficar de pé eu já ganhei meu dia. Ah. Bom, todo mundo senta nesta porcaria desta cadeira, não sei por que tenho esperança. Sou um mártir da resistência. A revolução vive neste banco. Fico de pé, sim, que tem? Podia ler de novo aquela biografia, putz, bons tempos. Se der troco, compro um cigarro. Pim, beleza, vai, vai, pim, mais um desses e sou eu. Se foi o oitenta. Pelo jeito dessa menina é rapidinho. Pô, onde escondeu este envelope? Não me diz, ahhhh, pôrra? Que menina é essa? Com essa idade e tanta conta? Tá, sempre me fodo, não é por isso que me sento. Ainda chuto uma cadeira dessa. Ali. Nos tempos de fila ficava com medo que me chamassem e eu trancasse toda a fila. Agora, não. Bom, isso pelo menos é bom. Dá, sim, fico de pé. Se eu tivesse mastigando o bolo não ia conseguir falar com a caixa. Bom o bolo da Maria. Facilita, sobra. Pim. Eeeeeu. Oi, sim, tudo, quero pagar tudo. As quatro, isso. Tá aqui, já calculei esse juros do inferno. Lula do inferno. Vermelho do inferno. Bonitinha essa mulher do caixa, se conseguisse esse empreguinho, substituia a minha de casa por ela. Beleza. Agora vai. Meu sonho é roubar uma dessas canetas, isso é um desafio eterno de todo homem que entrou no banco desde menino. Os sonhos nascem lá, na infância. Os pesadelos também. Já? Rapidinho, obrigado, lá vem a morena. Lá vou eu. Joãozinho, safado. Dez, trinta e cinco, oitenta e cinca, beleza: compro um cigarro, depois como um bolo. Será que o Lula cai? Espero de pé.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 12:04 Comentários:




24.8.05

Sonhos
Gabriel Silveira
Já era o terceiro dia de reclusão. Sua irmã perguntara por ele nos últimos dois dias. Como de costume, não respondeu. Não visitou o banho e só serviu de alimento a comida que ela deixava na porta. Estava tudo planejado, tudo planejado, quem duvidava? ninguém, era tudo certo, já sabia de tudo, era seguir o plano e tudo estaria correto, consumado, feito, ele seria um homem famoso, um herói. Era isso que tinha em mente quando levantou ainda de madrugada, sim, poderia tê-lo levantado mais tarde, mas o momento assim exigia, era mister o sacrifício para o êxito total, como não? Teve dificuldade para vestir-se. Foi até a porta, retirou do bolso uma chave amarrada a um pequeno cordão e tentou destrancar a porta. Estava aberta. Chateou-se com sua irmã, ela sabe que eu gosto da porta fechada, sabe bem. Empurrou a porta sem jeito, ainda com a chave na mão. Foi deslizando sobre o chão com os chinelos postos sobre a meia. Suas mãos cuidavam o despertar de alguém enquanto os ouvidos eram guia no escuro. Cruzou o longo corredor até a cozinha. Retirou com a mão esquerda o pano que estava sobre o bolo. Com a mesma mão arrancou um pedaço que levou a boca e ficou a mastigar, resmungando um sorriso e, a cobertura, sim, gosto de cobertura, sim, é bom, é chocolate, sim, mas a irmã sabe, sim, sabe sim que gosto de cobertura de morango, como não? Recobrou o tom sério. Foi até a porta da rua, ao lado encontrou as chaves da casa, colocadas uma a uma, em seus respectivos lugares. Pegou a vermelha, sim, a chave vermelha é a do quartinho do Paulinho, sei bem, como não? Na rua, o frio obrigou-o a abraçar a si mesmo. Largou a chave que ficou roçando no chão, dependurada no seu bolso pelo cordão. Saiu no jardim e pelo corredor lateral foi até o pátio nos fundos, pondo-se de frente para uma pequena construção de alvenaria podre, umedecida pelo serenar da noite. Pegou a chave vermelha no bolso, Paulinho é esperto, sim, não? Entrou no quarto e acendeu a luz. Sorriu de sua esperteza. Buscou, sob vários desenhos, uma caixa de sapatos lacrada com uma fita crepe que ele logo fez partir-se. Abriu e ficou maravilhado com sua própria construção, uma bomba, sim, uma grande bomba que eu fiz, grande bomba de buummmmmm, uma bomba que faz buummmmm, resmungando o eme até faltar-lhe ar. Um barulho na rua fez com que se alertasse. Fechou a caixa, enfiou-a com cuidado em um pequeno bornal de desenhos, que jogou ao tira-colo, e saiu em disparada até a frente da casa. Olhou para ambos os lados, guiado por algum papel que tinha em mãos e correu para a direita.

Teu irmão acordou, Marisa. Que? Como sabes? Acordou, vejo daqui o reflexo da luz do quartinho, deve estar lá novamente com seus desenhos. Pobrezinho, deixa ele. Pobrezinho? Um homem deste tamanho? É louco por falta de vergonha na cara, falta de coragem de enfrentar o mundo, este encosto maldito. Que falas? É meu irmão, esqueceste? Teu irmão e uma boca a mais que sustento, esqueceste também? Se pelo menos ele voltasse a trabalhar, eles adoravam ele por lá, não adoravam? Estava no perfil, brincava com as pessoas, as pessoas brincavam com ele, não é? Ele disse que bateram nele, lembra? Ah, e tu acreditastes? O que bateu nele foi preguiça, este instinto tosco de ser encosto, de viver da carne que outro caçou, qual homem não quer isso? Retardado sou eu que sustento este sem-vergonha. Marisa começou a chorar, o marido saturou-se, virou para o lado e dormiu. Ela fingiu que fez o mesmo.

Quem pensa que não sei? Quem pensa? Cadê a chave vermelha? Meu quartel-general, sim, sim, sou um general, todo quartel-general precisa de um general, não? Meus soldadinhos, quem são meus soldadinhos, onde estão? Um general não precisa de um exército? Sei bem que sim, como não? Depois desse dia terei meu exército, terei sim, terei sim. Eram seis e meia da manhã quando ele chegou à loja, ainda fechada. Agachou-se em frente à porta de metal, retirou a caixa do bornal, que pôs no chão, e ficou alguns minutos ali, olhando para os lados, reparando no movimento das folhas, do sol que chegava para iluminar infratores, mas não era um, era um herói, um homem que fazia a justiça e que por isso seria rico, reconhecido, nunca mais um retardado, nunca mais. Deixou a caixa ali e saiu correndo. Foi até a praça no outro lado da rua, sentou-se de cócoras atrás de um dos bancos brancos que seguiam a linha da rua, até a banca da esquina. Ficou a sorrir, sim, é jájá, sei que vai, planejei tudo certinho, é buuummm, sei que vai, tenho que ver, preciso ver, é mister para uma completa vingança, preciso planejar, executar, lambuzar-me com a vitória, sim, lambuzar-me como com o bolo, gosto de cobertura de morango, bolo de baunilha e cobertura de morango, sim, que tem? Com refrigerante, minha irmã prepara muitas surpresas para meus aniversários, sim, mas por que chocolate? Brigadeiros já bastavam de chocolate, queria morango, morango, sempre morango, irmã com morango e pensou no marido da sua irmã, malvado não gosto, muito malvado, sei bem, como não? Não cansa nunca de bater-me, sei bem, sim, mas gosto de irmã, ela prepara surpresas no aniversário, gosto, gosto sim, bolo de baunilha, ainda que com chocolate na cobertura. Sete horas e a bomba não explodiu. Oito e nada. Sei que vai, agora vai. As pessoas chegaram à loja, abriram a porta de metal e não perceberam a pequena caixa de sapatos em uma de suas extremidades. Ele começou a chorar, chorar? Generais não choram, não choro, não estou a chorar, é o calor, sim, como não? O calor, suor, só calor, no máximo nervosismo, no máximo isso. Já passava o meio-dia quando alguém bateu nas costas de Paulinho, inundado no próprio choro. Buuummm, resmungava, buuummm, atirado atrás do banco, com as mãos a arrancar as gramas do canteiro. Que fazes, homem? Perguntava o taxista do ponto da 7, conturbado com a cena que via. Paulinho, murmurava, bummm, general, bummm, depois saiu correndo, cruzando a rua cheia de carros, chegou até a porta da loja, pegou a caixa e saiu correndo, aos berros.

Que houve, Marisa? Não sei, doutora, não sei. Só vi que ele não estava aqui às 9 da manhá quando levantei para ir ao mercado. Seu marido? Já tinha saído para o trabalho, ele não dá muita atenção ao Paulinho, sabe? Sei, sei como é, Marisa. Bom, falei com ele, dei uma medicação que vai acalmá-lo. Se descobrir alguma coisa do que pode ter motivado ele a fazer isso, me liga, ok? Claro, doutora, e obrigado novamente. Sempre que quiseres e, Marisa? Sim? O convite ainda está de pé, é só dizer sim. A doutora sorriu e virou as costas, indo até o carro. Marisa sorriu, ficou alguns segundos olhando o carro ir embora e entrou em casa. Na mesa da cozinha, achou o cartão da psicóloga, as roupas que Paulinho usava e uma caixa com coisas dele. Botou as pilhas fora e guardou o desenho. Que lindo, acho que é uma fogueira.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 13:57 Comentários:




22.8.05

Amor aguado
Guilherme Póvoas
Bebeu para lubrificar a garganta que ainda tinha de expelir mais e mais palavras ásperas, rudes e escusas. Em frente a dois olhos esperançosos, atreveu-se a falar muito, esganiçar a verdade e reter em consciência a realidade que a tornara inconsciente. E como a água não apagava a ira da consorte, ele, num ato infantil de adulto, jogou o copo meio-cheio meio-vazio, meio-quente e meio-frio ao chão. E, de repente, pensou que era este chão quem abastecia o fogo raivoso dela. Afinal, mal o vidro espatifara-se no assoalho, ela correu pingando lágrimas limpas junto à água suja esparramada no chão.

Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 19:32 Comentários:




E tu?
Gabriel Silveira
Escorou a cabeça na janela do ônibus e viu sua sombra percorrer o asfalto ensolarado. Às três estaria em casa, pensou. O telefonema, o silêncio, o ônibus, o silêncio, a casa, o silêncio, o flagrante e depois, depois o destino criaria seu próprio desfecho. Ele mesmo havia criado a armadilha, ele mesmo que desse um jeito de dar fim a ela. O ônibus dobrou, irônico, na Rua dos Pares. Uma lágrima escorreu do seu olho e deslizou pela janela até deitar-se na borracha do vidro. Ele rangeu os dentes e olhou o relógio. Depois levantou-se de susto, fez sinal que desceria e, até o fazer, deu cinco passos em direção ao fundo do ônibus, mirando as árvores do parque, que ainda era na janela. Depois desceu decidido. O sapato negro tocou a pedra aquecida da alta tarde. Ele pôs-se em passos rápidos até a esquina, esperou o verde homem aparecer para cruzar a rua, cerrar os olhos nos passos ao lado do parque, distribuir alguns cumprimentos pelo mercadinho da Sé e só depois, só depois de alguns segundos a pensar na frente da porta da própria casa, é que tirou a chave do bolso e já viu-se na cozinha, sem perceber os segundos que perdera titubeando em relação à chave, tentando encaixá-la na porta, largando o casaco atrás da mesma, nada, nada, simplesmente viu-se parado na cozinha, de costas para a mesa, olhando fixamente a geladeira que parecia cochilar roncando sob a aura da tarde morta. No mais, silêncio, como previra. Foi até a gaveta, tirou a primeira faca que encontrou escondida sob as colheres, depois roeu a ponta do próprio indicador esquerdo. Medo? Respondeu subindo a escada sem perceber a blusa atirada sobre a mesa, sem ver dois telefones na escrivaninha da sala, que mal entrara. Sobre a escada, não adivinhara. Ali, o silêncio havia se esvaído no tempo, dando lugar ao óbvio, ao esperado, ao não-esperado, ao anunciado pelo telefonema, assim como por tantas cartas, era óbvio, afinal. A cada gemido envelhecia um ano. Chegou maduro à porta do quarto. Mordeu ambos os lábios, depois de escorar a cabeça em lágrimas na porta de madeira, depois de refletir se teria ou não medo de ir até o fim, somente depois de ter ouvido por alguns segundos os gemidos estridentes dos filhos da puta, pensou, filhos da puta, que fiz eu? e que fiz eu? vida de merda, de merda, e veio o choro, veio a cabeça escorada na porta, veio a mordida dos lábios e um golpe seco do golpe da faca fez arrebatar-se a porta que se perdeu no tempo entre os gritos do casal nu, ele por cima dela, ela de costas, barriga pra baixo, mãos segurando a borda da cama, os olhos virados pra porta, os peitos a esfregar no suor do lençol, enquanto ele segurava seus cabelos, genuflexo sobre a cama, sobre ela, sobre o destino, exalando por todo o quarto o cheiro do lascivo, da cópula animalesca, do fausto eterno que levavam a cabo no pequeno quarto, dando razão ao que tinha razão, e ele, cheio dela, levantou a faca até a altura que ultrapassava o armário do pequeno quarto, montado com tanto carinho, ainda pensou, depois desceu de um só golpe, levando ao desfalecimento imediato o homem, que não teve tempo algum para fugir da posição do coito, sobre a mulher que, aos berros, pedia não, não, não faça isso, mas que antes, pouco antes, segundos antes, estava a gemer com a penetração prazerosa, com o distribuir harmonioso de arrepios pelo corpo, com o deslizar sereno dos seus peitos no cochão, com o umedecer contínuo dos lábios e mais e mais, mas agora só chorava e chorava, pedindo por não, pedindo por paciência, por perdão, por cristo, por dias. O homem da faca silenciou. O outro também, morto. O primeiro se aproximou deste, olhou-o nos olhos fechados, beijou-o na boca e chorou por alguns segundos. Depois virou a cabeça para a mulher paralisada pelo medo e perguntou, E tu, quem és?
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 13:50 Comentários:




17.8.05

Prosa do prazo
Gabriel Silveira
Já chega de espera.
Já chega do que desespera.
Já chego eu.
Saciemos a vontade do ser.
Saciemos a vontade do que vai ser.
Saciemos, à vontade.
Já dispensei os passatempos
Já dispensei os "passa, tempo".
Já disse e pensei.
Sei que já chega de espera.
Sei que já chega, nem desespera.
Sei que já chego.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 19:29 Comentários:




Sobre poesias e verdades
Gabriel Silveira
Ela possuía cachinhos. Com os dedos, reforçava a ondulação já natural aos mesmos, enquanto ele explicava:
- Exótica, sim, pois os olhos teus arrancam-te da normalidade, expurgam-te do mundo do comum, do sobrepujo griz do homogêneo. Exótica, sim, pois foste expulsa das planícies do igual e pungida à escalada da cordilheira do novo.
Exótica, pois fala e rala e exala sob o véu desta beleza inconformada, beleza do ocaso, do disparate e da impietude, carma da nobreza de espírito. Exótica, pois me ama e eu te amo.
Ela largou o cachinho e sorriu de uma forma desconhecida.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 17:05 Comentários:




15.8.05

Amor por Loa - Biológico
Gabriel Silveira
Pra "guentar" esta espera
de check-in e desembarque,
Oxalá nosso relógio:
tu é o tic, eu sou o tac.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 14:02 Comentários:




10.8.05

Amor por Loa - Fôlego
Gabriel Silveira
Quem nada na maré baixa
e na maré que não dá pé,
quando avista seu amor,
dá o bote.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 15:19 Comentários:




29.7.05

Amor por Loa - Calendário
Gabriel Silveira
Se já passam 13 sextas-feiras
mais aquela que é a primeira,
então já se vão 14 sextas-feiras
sem chegar nosso fim de semana.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 18:23 Comentários:




Saber fazer valer
Guilherme L. Póvoas
Foi quando ela percebeu: todo esmero era recompensado.
Fazia tarde a madrugada. Havia chegado tarde também, pois se estivesse ali antes, teriam ficado com sono, ido à cama e não brigariam. Mas há situações onde todo acontecido não escolhe motivo. E o último embate do casal não seria diferente. Sem motivo. Esse também era o motivo dele amar ela: por não ter motivo. Para ele, isto era o maior elogio de um homem a uma mulher. "Como não entendes?", questionava. As brigas começavam a assumir um papel fundamental no relacionamento, pois ditavam as curvas: como eram feitas, se sinuosas de mais, se de menos. Havia momentos em que tudo estava tão difícil de guiar, devagar, onde os dois não conseguiam andar juntos lado-a-lado nesta estrada. Porém, à bonança, um belo horizonte de flores holandesas banhadas por um leve e marcante sol, esperava-os. Mas toda esta construção da imagem de satisfação e gozo de nada adiantaria se fosse, realmente, ilusão. À frente teriam mais curvas. Mas continuavam. Ela, depois dele, percebeu que todo esmero era recompensado àqueles que sabem fazer valer.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 00:52 Comentários:




18.7.05

Amor por Loa - Acupuntura
Gabriel Silveira
Sofro milhões de dorzinhas
nesta espera afiada.
Cada segundo que passa
é uma agulha retirada.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 13:09 Comentários:




Amor por Loa - Passarinho
Gabriel Silveira
Quem no ninho fica,
não tomba e algo bica.
Eu tombo faminto,
mas morro de amor.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 01:26 Comentários:




12.7.05

Juan María Posada - Ato II: a deserta Conejo Blanco
Gabriel Silveira
O quarto ainda estava perdido na atmosfera grafite que entrava pela janela. Nos instantes que se seguiram ao choque do espelho, à experiência terrível (poderia até ser utilizado aqui o termo fatal, mas com o risco de que se confundissem as intenções deste autor) e fúnebre (ainda com o perigo da confusão) na qual nosso personagem, Juan María Posada, havia se descoberto uma grande e esquelética caveira, um ser sem carne, sem músculo, sem nervos nem sequer algum tipo de tecido senão ósseo, duro, buco, seco, pois bem, após esta experiência dramática, como relatamos, nosso personagem pôs-se absolutamente atordoado a tocar e arranhar a si mesmo, como se não bastasse o que os olhos, que já não eram olhos, mas buracos, o mostravam ali, sim, pois o que via no espelho era esqueleto, caveira, osso e nada mais. E tocava-se, tentando talvez arrancar dos ossos algum tipo de material gorduroso, algum líquido que pudesse vir a tornar-se sangue, algum sinal de que ainda era um homem, por Deus. Mas se os olhos também já não o habitavam, se somente via dois buracos negros como duas ostras no fundo do mar sem o brilho de suas pérolas, e ainda assim continuava a ver, talvez tudo não passasse de uma demência qualquer, um tipo de loucura, um acesso atormentador destes que vêm como gripe e do tipo que muito se propagou nas cidades do interior nos últimos séculos, sim, não passava de uma loucura passageira e qualquer um poderia provar isso ao olhar, simplesmente olhar para seu corpo e, não notando diferença alguma, afirmar, Como vai, Juan? Sim, estás bem melhor desde a última vez que te vi, ou, melhor ainda, perguntá-lo sobre o preço do pão ou da batata sem nem mesmo fazer consideração alguma sobre sua forma física, visto que ela, em verdade, e longe das ludibriações de sua mente, não havia em nada se alterado. Tirou os olhos de si mesmo, foi até o cabideiro capenga de madeira cinza e opaca, que estava escorado na parede, e puxou uma enorme capa preta que jogou por cima dos ombros cheios de curvas ósseas. Caveira. Decidido a apresentar-se a algum conhecido para dar como solucionado, desta forma, o seu problema, saiu sem refletir mais nenhum segundo sobre as causas desta demência e pôs-se para fora da pequena casa cinza de um só cômodo, construída sobre o chão batido e disforme destas cidades que se acumulam no interior, sem nunca serem vistas umas pelas outras. O cinza triste corrompia cada um dos bilhões de germes que voavam no grafitado ar, fazendo do mundo visível e invisível uma massa enferma e heterogênea de cinzas. Ao tocar com o osso gélido a terra úmida, água certamente proveniente de uma chuva torrente durante a noite, correu em seus ossos um calafrio generoso. O cinza pelo ar e pelo mundo continuava. Vislumbrou o pasto cinza a morrer. Comprimiu as mãos esqueléticas uma contra a outra, mas não sentiu a dor nos ossos, posto que estava muito ocupado com suas estratégias em comprovar sua teoria sobre a demência temporária, sobre sua loucura, sim, gostaria de afirmar e gritar aos sete ventos que estava louco, que não era, enfim, uma caveira, era somente um louco, um homem que via demais onde havia de menos, ou melhor que via de menos onde, por Deus, teria que haver de mais. Era um Dom Quixote, poder-se-ia dizer, mas que, se tivesse um bom tratamento e um cuidado especial, certamente estaria novamente a colaborar com sua pátria e seus concidadãos em menos de um mês. Estaria de volta à ativa, como dizem os mais velhos. O vento cinza lhe cruzou o crânio. Fez brotar das entranhas que não tinha um medo imenso. A visão da longa rua de barro que se estendia até o centro da pequena cidade de Conejo Blanco, com casinhas eventuais a lhe prestar alguma idéia de vida, não lhe animou muito. Estava vazia. E a declarou desta forma, vazia, para não utilizar expressões mais cruéis e decisivas como "estava deserta" ou mesmo "sem sequer uma alma viva", o que soaria em um tom levemente irônico, e que no momento não era, certamente, o mais adequado. Mas não haveria de desistir, é claro. Pôs-se então a correr. Imagine, caro leitor, o nível da comicidade de tal cena: uma grande e desajeitada caveira, certamente prejudicada pela falta de domínio de sua nova natureza, vestida com uma longa capa preta amarrada na cintura, a correr pela terra molhada, barro puro, jogando por entre os ossos de cada dedo uma porção de terra adelá e adelante, acumulando entre as juntas pequenas crostas de argila a lhe dificultarem o movimento, sendo que ainda vestia em seu rosto aquele sorriso asqueroso do qual não poderia nunca se despir, aquele sorriso que lhe mentia os humores, que lhe corrompia o sentimento, pois o que queria, passo após passo era se derramar em prantos, fechar os olhos, por Deus, era somente isso que pedia, e assim correu neste desespero insolícito, até alcançar quase o centro da cidade, quando tocou o pilar da prefeitura, no qual estendia-se uma velha bandeira rasgada da associação dos coronéis da revolução. Respirou cansado. Não tinha mais pulmão sobre pulmão. A falta de ar que sentia era falsa. Não seria também sua alma, seu pensamento, somente uma impressão como a falta de ar? Não seria sua alma um lapso que vivia na inércia e que, a qualquer instante, deixaria de ser ao admitir sua nova forma de vida? Estendeu, assim mesmo, o longo braço seco e cinza até o pilar e descansou. Quando ergueu novamente o crânio, sentiu, pelo frio nas costelas, a presença de um outro ser vivo, que também poderia ser um morto, pois já havia fatos suficientemente fantásticos que lhe comprovavam a possibilidade de uma realidade também fantástica, ainda que terrível. Logo do outro lado da rua, um cachorro meio preto, meio cinza, o mirava. Via, através da acinzentada nuvem que tomava as ruas, um ser vivo, sim, um complexo de pele, osso, pêlos e tudo o mais. Seu primeiro impulso foi de chamá-lo. Seria bom tocar um outro, sentir o tato da carne, visto que já estava que o cachorro não era também um esqueleto (sem considerarmos aqui, certamente, a precária condição de alimentação que estava o animal, até porque, neste sentido, a utilização do termo esqueleto seria somente figurativa e não no sentido mais realista e cruel, como no caso de nosso já amigo e infeliz personagem Juan María Posada). Depois de refletir por alguns segundos sob a chuva que caía regrada contando tempo, cansando o pouco de raciocínio que ainda lhe restava na sua embriaguez, Juan mudou de opinião quanto à idéia de que o cão lhe seria um bom companheiro neste momento. Opinião que ganhou razão quando o cão mostrou seus longos dentes caninos, como se afirmasse, Sim, aqui vale a lei do mais forte, aqui terás o que um bom punhado de ossos merece. Pois foi tamanha a compreensão de todas estas intenções por parte de nosso herói que ele, de um só súbito impulso, virou-se para o lado contrário ao do canino, que não era o lado de volta pra casa, mas o lado que apontava para a prefeitura, e pôs-se a correr daquela forma destrambelhada a qual já visualizamos, alcançando os degraus da lateral do pequeno prédio, ganhando um por um até chegar ao piso, onde quase quebrou dois de seus dedos que, sim, eram reais, sim, eram osso, sim, osso e quebrável, osso e mordível, osso e puro osso, osso e não mais do que osso. Seguiu a correr debatendo-se pelos corredores que não conhecia, até alcançar os fundos e os depósitos da prefeitura, totalmente mortos e desertos, onde encontrou, poucos segundos antes do animal, um pequeno armário de latão preto e ar cinza escuro, no qual enfiou-se e ficou a tremer, ouvindo os grunhidos do cachorro maldito por mais três horas em sua procura. Chorou seco. Até que dormiu.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 12:59 Comentários:




4.7.05

Silvou o navio, partiu meu coração.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 15:42 Comentários:




1.7.05

El conejo ha de salir.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 22:46 Comentários:




Conta-gotas
Gabriel Silveira
Parado sob o gotejar,
só passa vento a sorrir.
Choro ao respirar,
na clepsidra do meu ir.
Parado sob o gotejar,
só passatempo sem sorrir.
Choro o não gotejar
da clepsidra do meu ir.
Parado sob o gotejar,
o vento é tempo a distrair.
Choro ao devagar.
Parado sob o gotejir,
ao tempo choro sem cessar
na clepsidra do sorrir.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 19:17 Comentários:




O branco
Gabriel Silveira
O branco das nuvens fez brilhar o cinza.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 18:05 Comentários:




28.6.05

Lotah e as formigas, uma boa noite para minha princesa
Guilherme Póvoas
Enquanto o sol castigava vagarosamente Lotah, o mar carioca rugia batidas cristalinas diante da janela do quarto desta menina, que jamais gostou de verão. Quando o calor apertava, ela esperava a única pessoa da família: seu pai. Ele sempre chegava com o paletó empapado e as costas molhadas. A única saída que eles tinham era o mar, logo em frente à casa.
A filha estava angustiada. O pai havia-lhe informado de uma mudança. O Rio Grande do Sul seria o destino: iriam de uma nuvem de verão ao um sol de inverno. Pensando assim, Lotah jurava que esta viagem, para sempre, seria crepúsculo à sua vida. A promessa que fizeram ao pai era de uma fazenda, no interior gaúcho, para plantar café e "o que mais a experiência de agricultor lhe permitia". Aos 5 anos de idade, quando perdera a mãe para a tifo, Lotah só conhecera, só conversara com mais duas mulheres, suas amigas desde a infância. Agora, aos 16, era hora do adeus a estas moças. Tal coisa o conservadorismo do pai não percebia: os únicos amigos que ele tinha eram as ações do café.
No sul, a fazenda em que moraram era enorme, coisa de perder-se a si mesmo encontrando a natureza. Uma casa de três quartos, o mais belo para Lotah. Um imenso campo verde com árvores. Noutro extremo dois cavalos bem cuidados, e meia dúzia de rês. A temperatura atingira a menina de repente: nem mesmo seus cabelos, tão belos e bem cuidados em época carioca, eram lavados mais. O frio, que ela muito gostava, fez o banhar tornar-se algo raro. A sujeira a protegia do fio.

De como Lotah conseguiu amigas
Era uma solidão sem fim para Lotah. Passava o dia inteiro a andar pela casa, vez em quando saia ao campo (ela insistia em chamar de jardim) e perto da noite, esperava seu pai chegar das plantações. Numa tarde de um sol exibicionista a moça saiu a caminhar pela imensidão verde que rodeava a casa. Sentou-se perto de uma árvore. E, no mais alto id do imposto isolamento social, viu formigas, ouviu formigas. Suas novas amigas. Lotah, ali na grama seca, conversava com as formigas.
Foi uma tarde inteira com suas novas companheiras. Conversou sobre tudo: amor, obrigações, amizade e, o que mais incomodava a menina nos primeiros meses de Sul: o frio. As formigas eram azul, amarelas, vermelhas, roxas. Até mesmo verdes, difíceis de achar na grama. Lotah, sentindo o sol descer ao crepúsculo, despediu-se de suas novas amigas e voltou à casa, normal, tranqüila. Porém mágica, como sempre foi. Deste jeito, passaram-se inúmeros dias, com a pequenina parceria das formigas, distintas, fiéis. Ela via, nos coloridos bichos, um pedaço de si nas várias cores que representavam sua heterogeneidade.
Domingo. O pai, como o costume sulista o imporá, colocou água para aquecer. Enquanto preparava o chimarrão ele observará algo corrente nas últimas semanas: Lotah, olhando a grama, e falando com alguém. Era hora de tirar esta pulga da orelha:
- Filha minha, que fazia sentada no verde?
- Conversando, papai - respondeu ela, com a obviedade da inocência.
- Mas estava falando com quem?
- Com minhas primeiras novas amigas. As formigas.
- Querida - o pai se ajoelhou - sei que nem bem completou 18 anos. Está sozinha, sem mãe nem companhia...
- Papai - interrompeu ela - agora não precisa mais se preocupar com isso. Agora não mais.
Os dois foram juntos procurar estas "primeiras novas amigas" . Lotah apontou ao pai. "Olhe elas ali". Pela mão, ele levou a moça para perto da árvore.
- Viu, pai? Viu?
- Boba! - exclamou o pai sob seu grande sorriso e gargalhadas.
Assim, sem pulgas pelas orelhas voltaram os dois à casa. Um pensando ter esclarecido problemas que não apagamos depois da infância; o outro, tranqüilo: era, porque costuma ser.

De como Lotah passou a odiar o inverno
Numa tardinha, o pai voltou com o cocheiro, trazendo um grande baú. Lotah logo pensou ser mais um presente infantil. Livros para crianças, revistas ou bonecas. Desta vez, eram roupas. Mas do tipo que ela jamais vira antes: grossas, pesadas e estampadas.
- Trouxe para você, filha minha. Dizem por aqui que a palavra clemência não existirá no vocabulário do inverno deste ano - disse o pai, dando algumas sacolas de vestimentas à moça.
Animada, ela foi correndo ao quarto experimentar. Sempre se achou mais esbelta com várias roupas. "Elegância, para mim, vem com o frio". Lotah insistia em se arrumar para o nada, senão formigas.
Era estranho: as amigas coloridas estavam cada vez mais ausentes, cada vez mais com pressa. E, no primeiro dia em que a temperatura exigiu as roupas pesadas e grossas, Lotah percebeu de que nada fora avisada. Lembrou-se das aulas de ciências e do que as formigas faziam durante o inverno.
- Inverno? Eu, agora, o odeio.

A solução
Todas manhãs Lotah se arrumava à mais bela sensação para, só no campo verde do lado de fora, perceber que se ajeitava para nada. O frio tinha efeito inverso das formigas, pois a menina queria sair, ver o verde molhado, congelado. Nas horas de desespero, ela procurava o motivo da crueldade divina. "Por que as coisas são?"
Não se sabe, mas pode ter sido uma resposta de Deus. Numa tarde, depois da grama ter secado por completo, Lotah sentou-se no mesmo local onde costumava conversar com a formiga azul. Olhou para aquele imenso verde-vazio. Vira a mesma figura oca das últimas três semanas. Porém, suas pernas que pela primeira vez estavam cruzadas, acusaram: não via, mas sentia as formigas. Estavam formigando.

Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 17:00 Comentários:




Juan María Posada - Ato I: a descoberta
Gabriel Silveira
Só uma massa cinza encobriria seus olhos, se os tivesse. No quarto grafitado pela escuridão, dois buracos negros, antes olhos, procuravam no negro a vida que já não mais havia. Ainda deitado na cama, Juan María pensou na noite passada. Só aí lembrou de virar a cabeça para o lado, procurar Rebeca. Nada. Já havia se ido, ou ele havia. No pouco de cinza claro que vagava no cinza escuro da atmosfera engasgada e ofegante que assombrava o quarto, Juan conseguiu ver o L reluzente que atravessava as lacunas da porta. Teve a idéia de abrir a janela. Mas não era luz, não era sol, era só cinza claro. Mesmo assim decidiu abri-la. Doeram-lhe as juntas quando forcejou para abrir as venezianas. Sem sucesso, a dor fê-lo cessar por um segundo. Depois, de surto, como se tentasse enganar sua própria agonia, forcejou mais uma vez abrindo caminhos para o cinza claro que irrompeu da rua, iluminando-lhe as costelas e o crânio. Por um segundo, pensou ter aberto um sorriso quando banhou-lhe o frescor da rua. E ainda levou um minuto inteiro até dar-se conta de que o frescor não existia. De que o cinza claro era sinal de não-sol e de que o ar, apesar de mostrar-se presente no vento que desbancava as folhas cinzas no campo morto, não lhe impregnava as narinas, não entrava-lhe peito a dentro, não lhe alimentava de vida. Não pôde fechar os olhos. Muito menos desfazer o sorriso. Então mirou suas mãos que seguravam o marco de madeira podre da janela. Mas não eram suas mãos. Eram, sim, duas composições complexas, como fossem longas garras, dotadas de rigorosos encaixes que sustentavam longas falanges prostradas sobre os metacarpos. Ficou a observar osso por osso, engolindo-os com o tempo como se tivesse fome de uma maturação maior para todos aqueles pensamentos. Afinal, seus sentidos insistiam em lhe dizer, sim, não mais havia carne sobre seus ossos da mão, tampouco músculos, nervos, tendões e tudo o mais que nem imagino deve haver em uma mão para que funcione, se articule e cumpra com suas funções que assim são as mãos, predestinadas a servirem a seus mandantes e comandantes corporais, homens feitos de carne e osso. Gelou. Homens feitos de carne e osso? Em um só pensamento, refletiu sobre sua própria natureza. Refletiu que, se suas mãos haviam deixado de apresentar-se como desde que veio ao mundo apresentaram-se, por que não o restante do corpo não haveria, também, sofrido mutações, deformações, ou melhor, subtrações, dado que teria perdido material a ele inato, por que não? Lap-so. Virou-se novamente para o quarto. O cinza claro que descia da janela, frio e assustador como um acalanto gótico, fazia resplandecer o espelho posicionado no lado contrário da peça. Juan Maria era uma sombra negra. Deu um passo. Dois passos. Aos poucos, o cinza claro vindo da rua foi sendo barrado por seus ossos, criando a luz necessária para que seu reflexo fosse visto. Mas o cinza claro ainda cruzava-lhe o corpo. O sorriso não poderia ser desfeito. Muito menos desceriam dos seus olhos pálpebras: não as tinha. Suas juntas, sem nervos, tendões, cartilagens, gritavam dor por toda sua alma. Ele aproximou-se. E mais. E mais. Até que, de um só berro, definindo a dor de uma existência em um único e sincero momento, confessou aos ventos: CAVEIRA!
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 14:09 Comentários:




Direi-te algo
Guilherme Póvoas
Estranho foi quando me acordaram na madrugada, eu já num sono oceânico de águas profundas, para dizer que alguém me amava. Foi difícil entender pois estava sem vontade de fazer qualquer coisa senão dormir. Mas falaram umas duas ou três vezes. E, para confirmar, testando meu poder de compreensão enquanto estava adormecido, queriam confirmação com aquela popular palavrinha quebrada no fim da frase: "Tá?" Espera! Alguém me ama e devo saber disso durante meu sono na madrugada, no momento em que sonho com superficialidades como tempos melhores para o meu time? Demorei a perceber que era algo importante e que, de tão importante, deveria ser dito ali, naquela hora - para isso alguém veio despertar-me.
O amor consegue, no imenso oceano do sono profundo, pescar um pequeno peixe que, de repente, me deixa consciente. Compreendo tudo:
- Te amo, tá? - disse ela. E eu, agarrado no peixe da consciência, apenas precisei responder com a verdade sonâmbula:
- Eu também.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 00:04 Comentários:




17.6.05

Para o futuro próximo
Gabriel Silveira
Para alcançar a felicidade, é essencial que o homem aprenda a amar a rotina. E de tal forma que tenha prazer em inventar uma nova a cada dia.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 19:49 Comentários:




Sonho e dor
Gabriel Silveira
zzzzzzzzzzz os dias agora choram Agora choram os dias padecendo no etéreo Etéreo mudo, seco em um mundo sem dono
Dono de cantos do divino cemitério zzzzzzzzzzz mas tem piedade de nós Nós piedosos que vivemos na injúria Injúria tosca que motiva os invejosos A invejar-nos em fracos cantos de lamúria zzzzzzzzzzz divertem-se os demônios Demônios duos que vacilam em contrapontos Contra os pontos que alegrariam-me a vida Vida de espera como a dos deuses que são tontos zzzzzzzzzzz cheiram a parideira Parideiras banhadas por rebento de outras putas Putas rebentos de dorsos mal cheirosos Buscam encontrá-lo novamente na labuta zzzzzzzzzzz escorrem as pálpebras Pálpebras onde alegria e fé não moram moram lamentos febris do que nunca vem E secam ao saber: os dias agora choram.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 19:48 Comentários:




16.6.05

A nascer
Gabriel Silveira
No ventre do destino, chora uma criança. Contorce os membros procurando tê-los, cega-se buscando ver, bebe buscando o ar. Mas neste ventre não há conforto. Só há um terrível e interminável sentimento de ausência, há um brusco e constante sentimento de não vida. Então ela chuta. Chuta em busca de um resposta, põe-se a exclamar o silêncio com raiva. Seu coração já é. Seu coração já pula feroz, bate em repentes disformes da ingenuidade doce e pura. Seu peito encarnado estica-se jogando o projeto de crânio para trás, força impetuosa de uma criança com medo de perecer no ventre, sem ver a luz, sem sentir o sol, o sol que ela sabe, sim, que a espera, quase ali, quase quente. Esgota suas forças. Então o calor vem de longe. Talvez de uma mão a acaricia-la, um afeto, talvez de um nobre coração a pulsar em compaixão. Deram-lhe atenção. Então a criança medrosa celebra seu pequeno feito e controla a ansiedade. Depois chora, como se pudesse. E aprende a paciência. Aprende o tempo. Aprende a escuridão. Terá fome?

Agradecimentos ao Jornal O Pioneiro e à amiga Fernanda Obregon pela citação de oLiterato em reportagem sobre blogs de literatura.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 19:08 Comentários:




23.5.05

O pateta e a empáfia do pateta
Gabriel Silveira
Esconjurado eu, o pateta dos patetas. Jogado ao léu pelo vento, choram de rir os demônios do monte leste, gargalhando a empáfia do pateta. Depois torcem o nariz, dançam cercando-se de utopia e voltam a gargalhar, apontando-me a falsa alegria. Eu giro o corpo caído de cabeça para a terra, ergo-me sobre as mãos esfoladas e miro o chão a chorar. Das lágrimas faz-se broto e me alimento. Depois giro para os demônios que esfolam-se uns aos outros em bacanal de vitória e grito: - Morcegos do submundo, deixem-me sonhar! Deixem-me sonhar! Não vêem que aqui desmorona um coração?
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 21:44 Comentários:




21.5.05

Arriesgando
Gabriel Silveira, para ela
Gérberas sem mim é só.
Porque mim, sem ela, sou um.
Elas, sem um, é ela.
Nós, em um, somos gérberas.

Pétalas são dor e riso.
Sem riso, é triste a dor.
Riso é dor tão triste,
quando vai, voando em pétalas.

Aroma de eu-ca-lip-to.
Lips sabor de tu.
Your lips in my lips,
eu cap-to o aroma.

Sabia que eu sabia?
Até iria, mas não disse.
Hoje, sabia que eu,
se te tivesse, te sabia?
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 02:33 Comentários:




17.5.05

O conselho
Gabriel Silveira
Certa feita, em uma das esquinas do labirinto da vida, encontrei Deus, à beira do mar. Ele sabia de tudo que eu havia enfrentado, como era de se esperar, e ordenou que eu fosse até o mar e provasse da água do destino. Eu obedeci e fui até a margem, represando a água entre minhas duas mãos. No mesmo instante, fiquei fascinado pelas inúmeras nuâncias de colorações, escondendo os brilhantes que navegavam por entre as veias do suco azul segurado em minha mão. Era mesmo como se tivesse, em meu poder, um pequeno pedaço do paraíso. Rapidamente, levei o suco até a boca e provei do destino. Quando voltei a abrir os olhos, poucas gotas ainda sobravam, enquanto o restante esvaia-se por entre meus dedos. Desesperado pela perda de tamanha doçura, pus-me a chorar, o que só fazia aumentar a velocidade com que a felicidade se atirava ao mar. Em lágrimas, voltei o rosto, mirei a Deus e perguntei: - Mas como? Pediste-me para provar do amor, mesmo sabendo que eu não conseguiria contê-lo? Ele sorriu, mostrou os dentes amarelados e respondeu-me: - Então não vês o infinito de beleza em tua frente? Vai, filho, mergulha!
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 02:05 Comentários:




1 d.J.
Gabriel Silveira
O silêncio, hoje, gritou a tua falta.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 02:05 Comentários:




15.5.05

A menina do lago
Gabriel Silveira
Sou menor do que pareço. Chego caminhando sozinho, metade de mim, em passos menores do que minha menor perna permite. A casa é toda cercada de vida verde. Coloco os olhos no grande portão e não são precisos mais do que alguns segundos para que uma mulher alta, com um longo cabelo a lhe escorrer da cabeça, venha me atender. Sem observar-me, abre-o, estende-me a mão e depois volta a fechá-lo. Eu, menor do que pareço. Ela volta a se virar para o lado de dentro do jardim, que agora se prostra sobre meus olhos medrosos. Minha pequena cabeça procura o céu, encontra. A mulher da mão que me guia é carinhosa, mas vai me condenando ao destino a cada passo que procura com seus pés leves. Contornamos a casa e vamos caminhando pela grama verde, pulverizada de borboletas e pássaros de todas as cores. Meus olhos buscam algo que não conheço. Sou menor do que pareço. Aqui, o verde parece ter absorvido o mundo. Tudo é tão verde que somente os animais e o ar, de tão leve, parecem livres dele. Minhas pernas tremem, não compreendo. Paramos. A uns poucos metros de mim, há um pequeno lago. Verde. Envolto pela vegetação, parece respirar absorto pela natureza. Possui uma beleza modesta como a dos humildes. De costas pra nós, virada para o lago, uma menina de cabelos negros que lhe brotam uniformes, vestindo apenas uma túnica branca, procura diversão em jogar pequenas folhinhas no lago, que as consome lentamente. Ela está sentada, o pescoço levemente inclinado para a direita, como se estivesse à espera de algo. Serei eu? A mulher coloca a mão em minha nuca e pela primeira vez escuto sua voz, disfarçada de sussurro: - Vai, filho. Não reflito. Uma energia estranha doura levemente meu sorriso. Obedeço à mulher e em passos pequenos me aproximo da menina. Ela ainda não me viu. Sigo os passos, até que falte apenas um para chegar até ela. Então ela se vira, talvez sentindo a mesma energia que eu, e conforta-me: - Oi! Sou menor do que pareço. Somos, agora, duas pequenas crianças, tomadas pela magia do verde e pela ingenuidade de nossos sonhos. Somos duas pequenas crianças, sentadas à beira do lago verde do destino. Digo-lhe que parece ser mais velha do que eu. Ela me olha com a profundidade de um desejo e responde-me apenas com um sorriso deslumbrante em alegria. Depois fala: - Sabia que estamos juntos aqui porque seremos marido e mulher? Recebo a notícia assustado e, só depois de olhar e constatar que a mulher já não está a nos observar, volto meu pequeno rosto para a menina e: - Mas não somos muito jovens? Ela se desfaz em sorrisos, tão graciosos que me convencem a fazer o mesmo. Depois me mira com a mesma doçura de antes e me explica que não, agora somos jovens, mas quando a hora chegar em nossas vidas o destino nos unirá em uma única aura de amor e felicidade. Eu apenas sorrio. Ainda sou menor do que pareço. Então me apoio nos pequenos braços para me esticar até seu rosto e beijá-la na face. - Meu nome é Juli, ela diz. Olho feliz pra ela e respondo, arteiro: - O meu é Romeu.

Dito por GABRIEL SILVEIRA em 18:10 Comentários:




Prometo que já vou
Gabriel Silveira, a minha Juliana Julieta
Por que já vai, se mal chegou?
O que, afinal, há no teu destino?
Que força move tuas doces pernas
se não as do carinho com que minhas
mãos as confortam?
Por que já vai, se mal chegou?
Tocou-me a boca em segundos,
pra logo disparar contra o mundo
em tua ânsia de liberdade;
disparar contra um mundo que
não te ama como eu.
Por que já vai, se mal chegou?
Se teus olhos já criaram
nos meus o retiro da paixão,
se meu peito já é porto aberto
pra tuas esperanças?
Por que já vai, se mal chegou?
Por que não morde-me mais uma vez
o peito? Por que não arde-me mais
uma vez o ventre? Por que não
enxagua, uma última vez, meus olhos?
Por que já vai, se mal chegou?
Já vai, se tão bem chegou?
Por que já vai?
Por que não vou?
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 15:10 Comentários:




14.5.05

Tornado Corbellini
Gabriel Silveira
Como vim parar em meu destino? Pergunto antes de escorar ambos os braços sobre os joelhos. Conforto o queixo sobre as mãos e fico a observar, just looking for. O horizonte brinca com a brisa boba a lhe bordar borboletas e eu aqui, desenhando versos mudos de um amor sozinho. Eu-ca-lip-to. Minha boca chora verde doce. Passo os dois dedos da mão esquerda na testa, seco a melancolia. Hoje o céu caiu mais cedo. Lá no fim do mundo, um uivo parece imitar-me o choro. E o pôr-do-sol enrubesceu demais antes de dar lugar ao negro. Voam alguns segundos que são minutos. O mundo é preto. Ou peças pregadas ou devaneios de luz, surgem coriscos de alma a brilhar no horizonte. Vêm cortando o olhar, indiferentes como uma quarta-feira. Eu-ca-lip-to. Uma brisa, disfarçada de vento, vem jogar-me o sabor cheiroso das folhas do campo. E os poucos coriscos viram centenas. E as centenas viram milhares. E os milhares viram todos. Rebento da natureza, vem ao longe o dançar feroz de um tornado. Tornado. Meu rosto é vítima. Sorrio. Ele, ao longe, a devorar os caminhos, refazer os destinos, repicar lamentos da existência. Potência latente de luz, fomento divino de energia, encerra o tempo em segundos, e a terra ajoelha-se em sua presença. Um mar de terra e vento, deserto de um tormento fazendo do espaço terra firme, da terra firme espaço. A emoção chora-me. Eu-ca-lip-to. A voar nos céus, o mundo. E o torvelinho onipresente negando-me o ar, dispensando-me o peito. Eu, seguro apenas em mim, com os pés a voar. O resto já não há. Ele beija-me a face por um, dois, três, antes de me jogar ao centro, fazer de mim bola de fogo, orgasmo múltiplo, joguete do amor. Primeiro o desejo, depois o amor, o silêncio, o fim. Acordo ao léu. Não há mundo. Só brisa muda. Só tempo seco. Abro os olhos e murmuro em lágrimas: o vento levou o meu destino.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 19:19 Comentários:




13.5.05

Vozes
Guilherme L. Póvoas
Começou a falar, a gritar e a expurgar diante dela. Falou, gritou e expurgou. Tudo! Até demais. E, então, sofreu as conseqüências. Ouviu tudo de toda ela. E por ela. Enquanto escutava, coisas novas e velhas, refletiu senão teria sido mais sábio ficar calado - pelo menos em relação aos gritos. Mas era, já, deveras tarde. A moçoila continuava, impávida e com seu orgulho ferido, os disparates contra ele, falando verdades também, claro. Porém, com o coração inverossímil. O rapaz, do outro lado, agora na defensiva, atrapalhava-se, dizia-se e contradizia-se. Talvez fosse o vinho, desta vez chileno, mas não o era. Não desta vez. Deitado, com a cabeça encostada no travesseiro, ele continuava a ouvir detalhes sobre a sua pessoa. E por mais que tentasse, não, "ela não conseguirá arrancar o amor de dentro do meu coração. Não, pelo menos, pelo ouvido".
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 09:19 Comentários:




9.5.05

Outro sonhador
Gabriel Silveira
Torceu o pescoço para ver quem o seguia. Sua pele enrugou-se na nuca. Os olhos vermelhos, cansados do navegar sereno por todas as direções, agora se dedicavam a somente um ponto: o cabelo cinza e negro, os fios grossos e texturizados que escorriam daquele ser sem mente, forma sem alma, dor corporificada na sombra e no pó. Seus olhos amedrontaram-se mais. Tentou acordar. Depois pressionou uma mão contra a outra, forçando-as até que se estralaram entre si, não os dedos mas as próprias mãos, seus ossos a estralar, quebrando-se em movimento ritmado. Depois virou o restante do corpo, mantendo a cabeça onde estava, e pousou as mãos banhadas em sangue sobre os ombros, utilizando-se, para isso, da força dos braços já que as mesmas já haviam perdido totalmente o movimento que lhes são próprias. Ficou ali, em posição inócua e por certa inconstante, até que o outro que ainda lhe mirava começou em passos lentos a se aproximar, dando ares de que propunha em olhares o fim, propunha em som o escrutínio do dia final. Enquanto o verme se aproximava de cabelos longos escorridos, vestes brancas escorrendo-lhe pelo corpo, as mãos quebradas prostradas pelo ombro não deixavam de sangrar. Pelo contrário, em hemorragia intocável elas começavam a jorrar o sabor da vida e da morte, o sabor da vida morte, até transformar o ombro em uma única e uniforme massa rubra cheia de bolotas grossas de consistência farinhenta que, certamente, lhe brotavam junto das veias sujas cheias de dor e podridão, frutos corruptos da vida que levava. Aos poucos, mãos e ombros começaram a fundir-se, consumindo-se em um único grande bloco de pelo, osso e sangue, vida morte. O demônio, já colocado de quatro aos pés do primeiro, lambendo-lhes os pés cheios de sangue, lambendo-lhe as entranhas, as pernas sujas, a coxa crespa de pele, saboreava o espetáculo, tirando-lhe a vida em doses pequenas, em parcelas intermináveis de sofreguidão. O escárnio dos céus pousou no centro da terra. Seus cotovelos ergueram-se, as mãos grudadas sobre os ombros voltaram a ter seus ossos quebrados e, enquanto berrava a da dor que sentia arrancando-lhe a alma, seus braços começavam a abrir-se ainda mais, esticando-se e esticando-se até começarem a criar grandes penas que lhe brotaram de todos os lados do braço e foram pousando verticalmente, formando uma camada uniforme, uma verdadeira asa que lhe fez, de vítima, um anjo. Que lhe fez, de réu, um juíz. Soltou mais um grande berro, este acompanhado de uma enorme luz que brotou do céu e caiu como uma onda de lucidez e frescor, lho enxurrando de divina luz. O verme secou, soltou o verbo do medo covarde, esbugalhou os olhos negros e fugiu como um rato, desviando da luz que o céu disparava. O outro, o anjo, abriu os olhos depois da dor, apresentando duas grandes esferas azuis, contemplou-se a si mesmo no reflexo do sangue que ainda lavava o chão e acordou.

Jorge levantou da cama ao escutar um barulho. Correu até a porta do filho e, vendo-o sentado na cama, disse-lhe, "foi só um pesadelo, filho, só um pesadelo". O menino cessou o choro, olhou-o firmemente com os mesmos olhos azuis e afirmou-lhe, "papai, virei um anjo".
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 23:52 Comentários:




4.5.05

Eco do último círculo na Terra
Gabriel Silveira
Rebento das trevas, correu com o braço manco como era manco seu pensamento. Com a pele mordiscada pela miséria, poço fedorento de álcool, torceu o olho manco em direção ao manco tempo antes de precipitar-se ao chão, fazendo do sangue chão e do chão textura óssea, cortando em verbo seco sua dor agonizante. Passasse um ou outro seria chutado. Mas só lhe chutava, das entranhas, a agonia da última noite, da última das últimas noites, querendo bufar em vômito. Escorou a mão boa na pedra gelada e o olho saltou a capturar quem vinha. E vinha freira preta e branca, ícone do falso, que, como todo dominó equilibrado no falso, vem a quedar ao passar do tempo. Apareceu-lhe como que para salvá-lo. A boca em catequese chamou-lhe ao perdão. ¿O que tens, filho?¿, perguntou a endeusada. Sem ter consciência do pus de inferno que era, sem ter na vista o véu do crepúsculo matutino que sempre há, levantou a cabeça e traduziu à mulher, em uma única fala manca, a melancolia que lhe doía no corpo: ¿Me ajuda, moça. Acho que me arrancaram o coração¿.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 20:07 Comentários:




1.5.05

Soberano de mim
Gabriel Silveira
Qualquer que seja este lugar em que agora chego, chego eu. Abaixo do pé, ainda a terra batida que sempre me acompanhou, lembrando-me do sujeito homem que sou. As pernas em sangue sem cor definida e o cheiro de queijo podre das feridas estampando a derrota de tanto e a vitória do tudo. À frente, o infinito. Vejo o mesmo em ambos os pólos do horizonte, de leste a oeste. Meu olhar é firme. Seco. A cada piscar de olhos, tua imagem me visita, provoca-me o passado. Serve-me para esboçar a esperança, lavar de terra o rosto em lágrimas e engolir seco o medo do porvenir. Um, dois, três passos. Sobre meus olhos, um véu úmido de lembrança lacrimeja serenando minha visão. Corto o tempo e recobro teu sabor vermelho de morango. Morango. Desperto e caminho ainda mais. O passado alimenta o futuro como o amor alimenta a vida: com a fome. Vou até o centro de minha encruzilhada. Cruz. Os dedos do pé se comprimem, apertam as feridas contra a terra empedrecida. O medo. Volto a ser o menino sério, com lágrimas estancadas pela vergonha, sentado à beira do futuro, com medo de ousar falar, de ousar sonhar demais. Ainda o mesmo medo. Ainda o mesmo silêncio. Uiva. O vento uiva. Uiva a vida. Quebra-me a face, congela-me cada broto de cada veia de sonho. Depois me suga o peito, arranca-me o egoísmo e vai embora, jogando meus pensamentos ao léu, doando minhas virtudes a cada menino que encontra sem mão alheia. E agora? São quatro caminhos de um mesmo caminho. Quatro caminhos com uma mesma nascente e um mesmo fim. Respiro contra o tempo, desengano meus passos e ouso olhar para cima. E por que não para cima? Por que não para a liberdade? Um fausto observa sorridente minha descoberta. Miro-o sem dó e com minhas próprias mãos sujas de terra, faço pedaços do cordão de vida, umbilical, que me prende aqui, à matéria. Olho minhas mãos em sangue, ranhuradas pela força e só então me sinto leve. Com um leve impulso, já sou só eu, sobrevoando meu destino. Olho para baixo e tristonho observo os meus, os que ficaram. Endureço, cesso o som e sigo soberano, pássaro imperial da eternidade.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 22:06 Comentários: