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Leite derramado
{oLiterato on-line }

25.11.07

Para todos que já não vem por aqui, é lícito informar que ambos, eu e Guilherme, estamos em outros prados: http://guilhermepovoas.blogspot.com e http://obocatriste.wordpress.com. Saudades daqui.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 12:46 Comentários:




28.10.07

Dizem que depois de quatro anos de namoro a coisa vai. Se não casa é porque alguém está enrolando – hoje em dia, não raro é a mulher. E ainda tem a lenda da crise dos sete anos, mas aí é muito tarde para deixar de fazer alguma besteira. A ficha só cai depois. Mas a história a seguir não envereda pelas formalidades dos relacionamentos informais. Trata-se do ponto onde a insistência sobrepõe a vontade e não resta outra coisa se não acreditar. Eis o causo:

À província
Guilherme Póvoas
Eucária e Perpétuo se conheceram ainda quando ela usava saias ripongas e ele insistia contra os pais em seu cabelo comprido a andar pela noite com um vinil do Black Sabbath por debaixo do braço. À época, sonhavam juntos com o dia em que um novo Woodstock – tão real e original – fosse reinventado e o som da voz de Ozzy Osbourne e da guitarra de Tony Iommi pudesse se materializar em show na frente do casal. Enfim, o tempo se encarregou de mudar as melenas de Perpétuo e de transformar as vestes de Eucária em algo menos colorido. Passaram a freqüentar respeitáveis casas de espetáculos assistindo a shows de Maria Rita e Nei Lisboa. Muita coisa além do gosto musical mudou, mas eles continuavam juntos.
E aí que um dia Eucária resolveu perpetuar sua carreira profissional: iria para a Argentina fazer “aquele doutorado sobre o qual eu tanto falei.” Dinheiro, reconhecimento, aprendizado, dinheiro. Tudo contava muito.
– É uma grande oportunidade – comentou Perpétuo, ainda com os olhos flagrantes de espanto, abismado com a ousadia da mulher. – Mas logo na Argentina – resmungou.
– É! Cortázar, Esquivel e Borges. Estarei mais perto deles, pelo menos dos lugares de onde eles fizeram suas linhas.
– Faz sentido, faz sentido – resignou Perpétuo. Ele sempre pensou que assim que acabasse a faculdade de Letras, Eucária iria se limitar a dar aulas de espanhol “em qualquer lugar”.
A moça deixou claro: se não quiseres, eu não vou. Ah! Mas e a culpa de ter atravancado todo um potencial que ele enxergava em sua mulher?

O sol ainda buscava espaço atrás de morros no horizonte quando Perpétuo estava já com a cabeça inclinada sobre o vidro que dá visão ao pátio central do aeroporto. E assim viu aquele Airbus-A320, de detalhe azul, escrito bem grande Aerolíneas Argentinas, levar embora quatro anos de namoro. “Não é qualquer homem que perde sua mulher para Cortázar, Esquivel e Borges”, pensou Perpétuo. E enquanto fumava o primeiro cigarro do dia, numa das pequenas poltronas de couro rasgado do lado de fora do aeroporto, teve emoção suficiente para se irritar com um bando de argentinos que tiravam suas luxuosas malas da van para retornar. Como se não houvesse mais nada o que pensar e dizer, resolveu fazer os dois, ao mesmo tempo, discretamente: “Filhos da puta!” Só não arranjou confusão ali mesmo porque os hermanos ignoraram o caso. Mas Perpétuo queria descontar tudo naquele “time de pólo” que visitava o país que julgam ser uma farra. Marginalia!
O primeiro e-mail já veio com o endereço do remetente mostrando seu serviço: eucaria@uniba.com.ar. Qual outro da Universidad de Buenos Aires teria um nome como Eucária? Num texto com erros em demasia, coisa rara para Eucária, o que denunciava a pressa com que foi escrito, a mulher mandava saudações e limitava as palavras típicas de namoro a um “tudo vai dar certo”. Àquelas alturas, nem a Velhinha de Taubaté acreditava naquilo.
De qualquer forma, não havia um santo dia de semana ou um tedioso domingo em que Perpétuo não se erguesse da cama, de olhos arregalados e corpo rijo, pensando em visitar para sempre “esta brasileira que está a aprender e ensinar numa universidade castelhana”. Nunca trabalhou tanto, e nem tão mal. Com uma barba esparsa porém longa, Perpétuo voltou – seis meses, nove dias e três horas depois – ao aeroporto em que deixara ir Eucária. Era para recepciona-la. Quem dera! O guichê da Aerolíneas Argentinas estava vazio e uma atendente de cabelos e pele morena lixava as unhas. Não querendo atrapalhar ninguém, voltou ao lado de fora do aeroporto. Sentou na mesma poltrona – que agora já tinha um rasgo muito maior no couro – e fumou de novo o primeiro cigarro do dia.
– Para Buenos Aires, tá? Dia 12 de março, o horário da manhã mais barato.
A atendente foi tão objetiva quanto ele, mas sem grosserias.
– Ida e volta custam US$ 900,00, já com a taxa de embarque – respondeu ela. A morena fixou seus olhos à face de Perpétuo, esperando alguma coisa, algo do tipo puxar a carteira do bolso e pagar de uma vez. Mas ela não sabia o que se passava. Portanto:
– Só ida – disse ele, com um tom tão autoritário quanto firme na voz. Foi a deixa para a atendente perceber a afobação.
– O senhor tem que voltar.
Perpétuo guardou as passagens numa das gavetas de seu guarda-roupa. Uma gaveta que costuma exalar perfume de maçã verde, sabonete Dove e xampu Seda. Porém, há mais de seis meses estava vazia e, nos ataques noturnos de saudade não-correspondida, ele a abria e sentava em frente ao guarda-roupa. Da gaveta escancarada parecia sair milhares de pequenas Eucárias, todas elas recém vindas do banho. O passaporte e o tíquete de viagem iriam ficar perfumados.
Mesmo com as ligações esporádicas e com as trocas de correspondência eletrônica, ele sempre escondia a viagem. Aparecer de surpresa era tão brega quanto romântico e aventureiro. Como o rapaz fosse bem isso tudo, adorava fazer as coisas para Eucária no roda-pé dos pensamentos. No dia da viagem, ela tentou ligar para a casa de Perpétuo durante a tarde inteira. Queria contar como presenciara a participara de mais um tango em La Boca. Mas aquelas ligações de preço descontados nos domingos não iriam ser respondidas naquele 12 de março.
O Aeroporto Internacional de Ezeiza era desproporcional à fama de elegância da cidade. Quando Perpétuo desembarcou em Buenos Aires, não deu muita bola para alguns xingamentos que ouvira de dois jovens vestidos de azul e amarelo. “Hijo de puta”, teriam dito. Enfim, fez questão de não querer escutar, mas tudo era por causa da camiseta que na frente trazia escrito CBF abaixo de cinco estrelas. E nas costas: Ronaldinho Gaúcho.
Foi com esta camiseta que ele entrou nos portões brancos mas enferrujados da Universidade de Buenos Aires. Como tudo aquilo fosse muito mais convidativo ao estudo do que as melhores universidades do Brasil, ele resolveu resmungar para si mesmo a ausência de árvores no local – algo que demorou a perceber. Mas não tinha insistido num namoro de quatro anos, acreditado numa vida inteira que ainda nem sabia se aconteceria, para chegar a Buenos Aires e reclamar de um verde do qual nunca fizera tanta questão.
Quando ingressou no corredor que leva ao departamento de estudos de línguas latinas, o rapaz avistou um muro que servia de suporte para um imenso desenho. De barba preta e grossa, e com um charuto que deixava escapar uma fumaça pesada, Cortázar observava o local sob a forma de grafite. “Um belo desenho”, reconheceu, já se acostumando com a universidade depois de tanto ter caminhado por ela atrás do tal de departamento de estudos onde estava Eucária. Quando parou em frente à porta, de um negro envelhecido, leu por três vezes a placa: Eucária dos Santos. E, logo abaixo numa fonte bem menor, se lia: Profesora visitante. Era uma sala só dela, a princípio. Dou uma ou duas? “Duas, sou afobado mesmo”, pensou o aventureiro. Ergueu o braço direito e cerrou o punho: toc toc.
Ela poderia não estar na sala. Mas a porta se abriu mais rápido do que o nervosismo do rapaz poderia agüentar. E como quando as coisas são feitas com a insistência que só o coração permite, e com a destreza que apenas o amor proporciona, Eucária falou pelos dois quando o viu estanque naquele corredor de Cortázar com uma mochila verde e estufada nas costas:
– Perpétuo.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 03:22 Comentários:




2.10.07

Quem é?
Guilherme Póvoas
Três batidas no peito, um aperto forte no coração e duas golfadas pelo nariz. Braços abertos, estirados sobre a mesa de trabalho. Duas semanas no hospital. Corredores de paredes cinzas e roupas verdes de doutores e aventais brancos de enfermeiras. Eram as cores da melancolia.
- Infarto, só isso - noticiou e comentou o médico, sem preocupação alguma após ter salvo a vida do velho.
Livre, por ora, o velho Gregório pensou que a morte deve aparecer daquela forma – dando três fortes toc-toc próximo ao pulmão e soprando forte o coração. O resto se faz sentir por todo o corpo. Manejou com cuidado a cadeira de rodas para o lado, não queria chegar à porta do hospital sentado num carrinho de doente.
- Eu não sei dirigir, dona enfermeira - satirizou ele, com um sorriso sincero de dentes amarelos, colocando sua locomoção distante de seu leito.
Das vestimentas que usara nos 14 dias de hospital, levou apenas as desgastadas alpargatas. No mais, não queria muita coisa que lembrasse os tempos cinzentos de passarinhos verdes e brancos – bons e ruins – que avistava enquanto esteve enfermo. Antes de sair, ainda fez uma última visita na sala do doutor para últimos conselhos. Aquilo que ouviu reafirmou a vontade de se livrar das lembranças hospitalares a partir do infarto.
- Esqueça que teve este infarto. Vá viver sua vida, por assim dizer, normalmente - arrematou o médico. O resultado foi um Gregório de sorriso mais estonteante ainda. E a carteira de cigarro, mais escondida que guardada, no bolso do guarda pó do doutor, lhe dera mais vontade de fumar ainda. Já eram duas semanas sem cigarros. Ele até tinha vontade de uma vida regrada, com suco de laranja pela manhã, alface no almoço e beterraba com cenoura no jantar.
- Mas este tipo de vida só é colorida enquanto o prato está cheio - pensava Gregório, incapaz de se desfazer dos prazeres culinários mais saborosos e menos saudáveis. Quando deixou o pátio do hospital, ainda olhando os passarinhos brancos a cuidarem dos enfermos, prometeu para si mesmo que só voltaria ali para morrer de vez.
O táxi que havia deixado Gregório em frente ao seu apartamento nem havia dobrado a esquina, o velho já entrara no Bar do João. Pequeno, mas de boa comida caseira, o local dera alguns dos prazeres mais especiais para Gregório desde que ele ultrapassara os 55 anos. Já havia jogado por ali bisca, pontinho, canastra e jogo de damas. Ultimamente, as máquinas de caça-níqueis ligadas o dia inteiro – escondidas no fundo, atrás do balcão - era a nova diversão dos conhecidos de Gregório.
- Porcaria! Estes velhos agora se viciaram nesta merda eletrônica e esqueceram o que é jogo de verdade - reclamava Gregório toda vez que encontrava a mesa vazia e os conhecidos sentados em frente à enorme máquina preta que “piscava e comia o bolso destes babões”. Ao chegar aquele dia no Bar do João, o velho pediu um filé a cavalo sem arroz e, assim, tirou aquele gosto de comida de hospital que lhe obrigava a palitar os dentes depois de toda refeição.
- Gregório, não morre tão cedo. Estávamos a falar de tua pessoa, pois - exclamou um idoso português, amigo de bar do velho. Ele teve que explicar o que aconteceu, o hospital, as duas semanas. Alguns já sabiam, outros não. Enfim, para estes que estavam cientes do estado de Gregório, este reclamou:
- E nenhum de vocês foi me visitar, seus cornos!
Amigos relapsos, mas que sentiam a falta do velho para um baralho. Antes de comer tomou uma cerveja e bateu o isqueiro para acender um cigarro. Depois, tomou mais uma, e outra. Acompanhado da carteira em maço. “Três, vou embora”, exclamou Gregório, olhando para João, dono do bar, e fazendo um sinal com a mão, referência clássica ao “anota a conta”.
Quando abriu a porta de casa, o cheiro ocre de vazio e velho deixava a sala ainda mais asquerosa. O dia estava cinzento, com aparência de chuva. Talvez por isso, Gregório abriu bem as janelas e as cortinas. “Lá fora está combinando com aqui dentro”, pensou ele. Um jovem desconhecido que entrasse no apartamento diria que ninguém mora ali há anos, talvez por década. Mas havia se passado apenas duas semanas sem Gregório. Nem fantasma, nem alma, nem espírito dormira por ali. Já que se safara da morte “por um fio de cabelo de bebê louro”, como disse a enfermeira, iria agora acreditar em outras coisas além de dinheiro, solidão e em Santo Antônio “naquelas horas de desespero, sabe?”. No momento, todos os fantasmas - do Geléia ao Patrick Swayze - eram bem-vindos. “Qual deles vai descer para pegar as minhas correspondências acumuladas”, pensou, meio que falando em voz baixa e olhando para o nada.
Antes de chegar no último lance de degraus, enquanto ainda procurava a chave da caixa de correspondência, sentiu um toc único na porta do peito. Parou. Se apoiou no corrimão e deu uma forte inspirada para inflar os pulmões. Olhou para os braços, para os lados - respirava lento, de propósito - e continuou a caminhada até suas cartas. “Só não vai ser fácil subir este degraus.” O corredor era imenso, ainda cheirava a urina de cachorro que as senhoras do prédio permitiam acontecer. Eram velhas que Gregório considerava tão nojentas quanto inválidas – mas estavam sempre marcando presença no prédio, seja pelo seus berros, pelo latido de seus cachorros ou cadelas, pelas suas vontades quanto à arquitetura interna do local, ou pelo nauseante cheiro de seus perfumes, usados à exceção e que fazia aflorar um asco imenso em Gregório.
- Este é o cheiro da infelicidade - comentou uma vez com o porteiro do prédio, logo após uma destas solitárias senhoras passou pelo hall segurando um pequeno cão de pelos brancos no braço direito.
Nas correspondências, apenas propagandas e cobranças. O panfleto que mais lhe chamara a atenção foi um que conclamava os jovens ao Exército. Com 62 anos, Gregório nunca havia colocado o pé dentro de um quartel, coisa que o fazia gabar-se desde os 18 anos, quando jurou a bandeira pela primeira e derradeira vez. Além disso, o carteiro também deixou para ele a conta de água. Gregório tinha certeza de algum vazamento em seu apartamento. “Era muita água para pouca sede de vida!” Deu meia volta, rumou até as escadas. O medo de um novo infarto o fez - pela primeira vez - lamentar que o prédio não possuísse um elevador, mesmo que esse “luxo” acarretasse numa multiplicação nos números das despesas de condomínio. “E eu tenho que subir até o terceiro andar”, pensou Gregório.
Foi nas passadas feitas no jogo de escadas do segundo pavimento que Gregório sentiu um outro toc. Parou. Dois, três segundos. Não mais que isso e continuou a erguer, pé por pé, perna por perna, com as alpargatas surradas.
Arrumando com a mão direita seus cabelos grisalhos que se haviam bagunçado durante o exercício nas escadas, procurando com a mão esquerda a chave do apartamento em seu bolso. Já começava a tatear toda sua perna: em algum dos bolsos desta calça estava a chave. E, como não a encontrasse, ergueu o braço e bateu à porta.
Toc. A morte a abriu prontamente.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 22:33 Comentários:




7.8.07

Três dias de sol
Guilherme Póvoas

Quando acordou, três dias depois, continuava sem acreditar. Estava cansado, abatido ainda. Mesmo depois das 72 horas de olhos fechados. “Vai, dorme aí e não conta nada para ninguém”, sugeriu o irmão, com olhar de ordens, antes de fechar a porta do quarto. Sem desejar um pouco sequer, obedeceu de alguma forma as palavras do mais velho. Quando acordou, três dias depois, continuava sem acreditar.

Joaquim despertou Marcos pelo pé. E nem teve muito trabalho: naquele frio de inverno onde nos jornais só se lia declaração de estudiosos do clima, não precisou muito para o caçula abrir os olhos e enxergar a lata do irmão, com a boca de sorriso e os olhos arremelados. “Vamos, vamos que hoje o dia vai ser divertido”, atiçou Joaquim, prometendo tudo aquilo que uma criança deseja. Típico de um início de férias de inverno. Os dois foram “enviados” à chácara do tio, no interior mais frio do Rio Grande do Sul. “É passando São Francisco de Paula, mas antes de Cambará, senhor Rodrigo”, explicou a mãe ao motorista, que levou junto uma carta de agradecimentos aos tios , que “tenham paciência, só mais esta vez”, finalizava a epistola.
Seriam dez dias a fio – descontando o dia inteiro de viagem – onde Joaquim poderia provocar Marcos, e Marcos fugir de Joaquim. Tudo à vontade. Tudo a ser apagado no final das férias. Tio Flau e tia Iê juravam não se incomodar com a visita, mesmo que a fome dos dois denuncia-se a idade: 10 e 12. “Larguem as coisas lá em cima e venham já comer, chegaram ainda na hora da janta”, avisou Iê, na noite em que os dois entraram na chácara à procura de cachorro para chutar e passarinho para assustar. Porém, como quem sempre quer por banca acaba sem cadeira para sentar, os dois moleques, que chegaram atrevidos e levados nos campos da Serra gaúcha, iriam voltar sem olhar para trás.

Marcos seguiu Joaquim até o fim da cerca “para ver onde iria dar”. E o caçula nem titubeava em fazer o que seu irmão decidia – era um Sacho Pança melhorado. Quando avistaram o fim do cercado de arame farpado, que dizia ter acabado as terras do vizinho dos tios [o Estancieiro, como era conhecido], Joaquim teve que assustar um boi de pêlo bem preto que estava entre a estrada e a estância. Para Marcos, aquilo era perigo extremo e, como conseqüência, adrenalina de fazer os olhos brilharem. Mas, diferente da razão que dava coragem a Joaquim, o boi preto não foi se afastando para o lado, voltando para as terras do Estancieiro.
Olhos brabos, tão pretos quanto os pelos. Visão pétrida, fixa. E, de repente, as ancas se voltam para cima e a cabeça começa a se aproximar do chão – as patas dianteiras enrijecem. “Ah tá! Só falta bufar agora”, gracejou Joaquim, com um sorriso que diminuía a cada secada braba do boi. “Mano, acho que este bicho vai atacar”, alertou Marcos, com a sabedoria sobrepujando a ingenuidade das crianças. Joaquim ainda chegou a exclamar um “que nada”. Logo em seguida sua vontade era dizer “o tio falou que eles são todos mansos”. Mas não deu tempo de completar. Joaquim se virou e Marcos já estava correndo. Eles, que sempre correram por alguma travessura, com graça e ironia na cara, agora fugiam apavorados, com os chinelos entre os dedos da mão. “Tira o chinelo que se corre mais, Marcos!”
Joaquim foi o primeiro a perceber. Num misto de surpresa e interesse, estancou a corrida e gritou para Marcos fazer o mesmo. O boi preto não estava mais no horizonte. Ao mesmo tempo, o sol foi encoberto por alguma nuvem muito escura, que fez uma sombra intensa sobre os dois moleques. Enquanto se olhavam, boquiabertos, Marcos foi o primeiro a notar: “E tem a forma de boi. Ou será de vaca?” Enfim, não dava para perceber se tinha chifres ou não. “Sei lá! Mas está voando”, constatou, sem acreditar, Joaquim. O caçula ainda cutucou: “E ele nem faz barulho para isso, né?” Mas seu irmão estava absorto naquele fato. Olhando, olhando, ainda boquiaberto. E, quando de apavorado Joaquim passou a maravilhado, Marcos perguntou: “Mano, isso não é estranho?” Era, de fato, mas para as crianças, aquilo tudo vale muito mais que qualquer história. nem na estância, nem na chácara, e muito menos na cidade aquele caso iria passar de lorota.

Depois de dormir três dias seguidos, Marcos descobrira que Joaquim não havia cerrado os olhos durante todo aquele tempo. “Como?”, era só isso que dizia e perguntava o primogênito. Algumas vezes acrescentava um “mas” à frase – para não parecer repetitivo. “Não faço nada há três dias senão descobrir como”, explicou ao caçula. E, para isso, se valeu da Barsa do tio Flau. Nada. Dos contos sobre bois e vacas que são falados pelos empregados da casa de baixo. Nada. Das poucas lembranças das aulas. Nada. “Ora, férias”, explicava-se. Enfim, voltaram para a casa dos pais, na cidade. E, ao descerem do carro, perceberam que o sol estava diferente. Era sol, sem nuvens, tão pouco bois preto, mas não era a mesma coisa. Joaquim e Marcos viveram, viveram, mas nunca usaram óculos de sol, boné, guarda-sol. Nem mesmo ousaram levar a mão à testa para assistir lances do jogo sentados nas ensolaradas arquibancadas do estádio. Tudo involuntariedades de um dia às voltas com a desconhecida natureza.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 01:33 Comentários:




21.7.07

Artúrio Mozefa
Gabriel Silveira
O sono é franco às noites. Mas não às tardes, quando o silêncio é o acidental, quando os brios esquentam à luz do sol navegando no ritmo das máquinas que machacam o tempo. Minguado em forma, discretíssimo em sons, mas determinado nas sensações, é o sono das tardes, uma de suas espécies menos estudadas, mas entretanto um dos que mais expõe homens e mulheres às suas artimanhas bucólicas. Não são poucas as vezes em que, à hora do almoço, o sono encrava-se à região mais elevada de nosso orifício encargado da alimentação - ironicamente denominado "céu" da boca - e põe-se, desde aí, a buscar sítio para suas canções taciturnas e ações chamadas "contra-horárias", manipulando nosso sistema nervoso que se vê implicado em ridículos desvios de conduta cronológica.

Uma das conseqüências mais comuns deste mal é o neurodistúrbio frontal dos maxilares, também conhecido como bocejo. São diversos os tipos de bocejo. Muito conhecidos são o foice-e-martelo (que dura até que a face fique totalmente enrubescida) e o caça-vampiros (decorrente da alimentação carregada com os elementos da família dos alliaceae, como alho e cebola). Mas também os menos conhecidos irrompem nos sonolentos da siesta, como o bocejo engole-besouros (que se desenvolve de forma muito singular, com a boca quase fechada e com um leve soluço no final, como se o inseto, que o dá nome, entrasse pelo pequeno orifício do gesto até chegar à garganta do sujeito) e o trem-da-meia-noite (que possui a maior abertura bucal de todo o mundo dos bocejos e, de tão silencioso, pode passar desapercebido, excluindo-se o caso de flagrante visual, que normalmente pode ser evitado com o auxílio de um simples fólio).

Outro problema comum - dos inúmeros que são conseqüência dos ataques silenciosos do sono das tardes - é o refluxo inconsciente de idéias, popularmente conhecido como o "sonhar acordado". São diversas as toxinas que o corpo produz para chegar a tal ponto, as mesmas que geram outros diversos distúrbios emocionais, como as paixonites e as depressões, mas nenhuma de ambas motiva tanto dito refluxo como o sono das tardes. São milhões os que se põe, a diário, a misturar realidade e sonho, mundos tão paralelos como distantes, enfiando seus pés em um, enquanto suas cabeças já estão em outro.

Se o sacro ministério da saúde pública houvesse decretado já um grupo de risco aos ataques do sono das tardes, certamente Artúrio Mozefa faria parte dele. Agora mesmo está atirado em sua grande cadeira equipada de rodinhas e furos de cigarro, combinando com sua camiseta das últimas eleições - pelos furos, não pelas cores, visto que o vermelho das estrelas do candidato destoa do bege manchado do estofamento. É bem verdade que nem preciso levantar-me, ir até a entrada de meu pequeno despacho, escorar-me levemente na porta até que um suficiente vão me permita a visão completa de Artúrio. Assim mesmo o faço, talvez como uma forma de passar o tempo que titubeia no relógio, talvez como uma doentia e apaixonante maneira de massagear-me o ego, tão vital ego que me rege nesta vida insossa. Não pensem que não me pergunto o porquê de deixar-me levar por tão tola ânsia. Afinal, por que um homem tão pronto para ganhar, tão desenhado para estar no topo, simplesmente deixa tudo de lado para desaguar suas atenções em um ser tão mórbido quanto patético, feito Artúrio Mozefa. Mas basta com que surja a silhueta tão desastrosamente pincelada sobre a cadeira, com que reponte sob o emaranhado graxento de seus cabelos a piriforme cabeça levemente descentrada do tronco, basta com que me assalte a visão dos gordos ombros que lutam sem sucesso por alinhar-se, para que qualquer das minhas razões abandone as tentativas de devolver-me à lucidez – afinal alguém nunca é ou está lúcido, à lucidez ou se pertence ou se é estrangeiro – e me entregue de corpo e alma ao deleite masoquista de observar a miséria humana, tão bem representada neste desprezível ser, como uma forma de contemplar a mim mesmo, atestando-me do distante que estou da escória humana.

Não fosse esta distração em meio às minhas jornadas laborais, eu certamente já estaria com um cargo e um salário muito mais convincentes do que os atuais, a mim outorgados por um concurso fajuto que fiz para este mísero posto de coordenador de projetos. Talvez a única vantagem que tal cargo me permita – e uma das únicas coisas que extraio de proveitoso desta rotina infundada – é a de ser responsável pela busca e seleção dos estagiários necessários aos projetos de minha alçada. Usualmente não passam de dois, e, por políticas da empresa, não há qualquer restrição para as contratações, que não as que eu mesmo encontre e imponha. Assim que acabo sempre por ceder à minha maior virtude, a de admirador do prazer e da liberdade, e contrato jovenzinhas que, durante as entrevistas, me pareçam mais bem estimuladas para o trabalho, no melhor sentido que a palavra poderia possuir. Não me importa que no final eu necessite tocar o projeto sozinho. O primordial, para mim, é disfrutar o possível do pouco poder que meu posto oferece.

Meu problema surgiu, vale lembrar, no dia em que pensei ter finalizado meu último processo de seleção. Eram já as doze e lembro do escritório absolutamente vazio, dividindo espaço comigo somente as fotos de alguns currículos que eu comparava atentamente, o que fazia para distrairme do calor infernal. De repente, sentí que uma aura pesada e mal cheirosa entrava pela porta, mas tão forte que até pensei ver uma sombra aplastada de vermes arrastando-se pelo chão. Imediatamente fui até a janela, mas não encontrei mais do que o sol debruçado sobre as casas e o mundo que suava feito um porco escaldado. Nunca havia visto Madrid assim. Voltei até minha cadeira, o controle remoto fez despencar a temperatura do ar-condicionado e relaxei por um segundo, libertando meus pensamentos simplesmente para saber até onde iam. Foi a primeira vez que vi Artúrio Mozefa. Levava uma camisa branca-amarelada de mangas curtas, com dois grandes círculos de suor marcando a região das axilas, o colarinho por passar e ainda identificável somente por uma gravata listrada marrom e negra, que quase o estrangulava. Como os vidros de meu escritório são espelhados, não podia ver-me desde o lado de fora, por isso grudou uma de suas mãos gordurentas na janela, tentando avisar alguém de sua inóspita e incômoda presença. O natural, para mim, seria simplesmente ignorar que aí estava, inclinar a poltrona até que me permitisse um ângulo perfeito para recostar-me as pernas, fechar os olhos em harmoniosa e condescendente sincronia, para depois, e somente depois de entregue à escuridão dos sonhos, jogar triunfalmente os braços para trás, sustentar a nuca com a palma de cada uma das mãos e acolher-me em um sono petulantemente tranquilo. Naquele dia não. Naquele dia, levantei-me da poltrona esforçando-me para transmitir um ar de desentendimento, fui até a porta e dei com a cara abatida e em decomposição de Artúrio, preso que estava aos mais de quarenta e três graus daquela tarde. O pior era a umidade, mas umidade em Madrid? Me disse que estava ali pela vaga de estagiário, bla bla bla, a vaga já está preenchida, blé blé blé, sabe-se lá por que razões infames do destino lhe abri a porta, ele entrou e, assim, nesta tarde pegajosa de fevereiro, iniciou-se uma história de devota admiração por toda a marginalidade e a conseqüente pureza que Artúrio representava. Dois dias depois, estava decidido sobre meus estagiários. Um deles, uma jovem mexicana de dezenove anos, Mariana, porque tinha a certeza de que logo estaria em minha cama. O outro, Artúrio. Por incrível que parecesse, Artúrio Mozefa.

Lembro que, nas primeiras reuniões sobre o projeto, já tomado pela curiosidade sobre sua figura, eu sempre lutava por descobrir novas maneiras de estender nossos encontros, inventava problemas, levantava questões absolutamente dispensáveis, propunha temas, exercícios, mil maneiras de encarar cada questão, até que, ao final da tarde, como último refúgio, lhes convocava a uma cerveja, todos precisamos relaxar, me acompanham? Não lhes restava outra se não acompanhar o novo chefe, vá lá que este é daqueles que por qualquer coisa se magoa, não vá lá nos chutar do emprego por não ir a um happy-hour. Íamos, os três, sentar-nos em um bar vasco da Bravo Murillo, até que algum resquício de responsabilidade me obrigava a dispensá-los.

A verdade é que, nestes tempos, eu ainda não estava consciente de minha aficção. Minhas ações e comportamentos eram regidos por uma vontade que ainda não havia brotado, como um cogumelo que jaz em vida, escondido na umidade de um porão eternamente encerrado. Fui abrir dita porta, e dar-me conta da situação, quando me flagrei pela primeira vez acocorado atrás de um vão do exaustor, pelo qual as duas salas – a minha e a dos estagiários – respiram entre si. Estava atento vendo-o manejar a copiadora – certamente xerocando para os amigos mais uma das infinitas piadas que recebia em seu email diariamente – e não me importava um pepino se iam para as cucuias os cartuchos de tinta e os estoques de papel, o único que me consumia era a maneira tosca incapaz de pressionar os delicados e singelos botões da pequena máquina, a torpeza ao mover as folhas, esmagando-as com seus grossos e sudorentos dedos, a inquestionável ausência de escrúpulos – chula palavra, escrúpulos! – de sua genética, que o imprimia um caminhar quase enigmático entre o ar que caía morto ao seu lado, incongruentes que eram.
Qualquer outro, que também conheça a Artúrio Mozefa, bem poderia gastar-se aqui, defendendo-o de tamanhas acusações e infâmias (elogios?). E talvez falasse com muito mais razão e autoridade com as quais eu o faço. Também admito que Artúrio não está entre os mais repelentes seres deste mundo, mas é um exemplar admirável de tão dispersa e variada espécie. E também foi o único que adentrou minha porta. Fatalidade do destino? E mais: o admirador, que de certa forma o sou, constrói o mito de acordo com a visão sonhadora que tem do homem. E esta, muitas vezes, ultrapassa a realidade com uma leveza cor-de-caramelo que só as fantasias podem ter.

A verdade é que, passados alguns meses, eu estava feliz. Artúrio me fazia feliz, a sua maneira. Eu utilizava as primeiras horas do dia, além de grande parte das noites, para adiantar o trabalho diário, o mínimo essencial para o bom encaminhamento do projeto. Depois deslizava minha cadeira até a porta da sala, abrindo um vão na exata medida para que pudesse analisar os movimentos da sala contígua. Passava tanto tempo aí, absolutamente imóvel, que muitas vezes cochilava, exausto, sobre o trinco da porta.

Foi numa destas oportunidades, nas quais entregava-me ao sono depois de alongada vigília, que Mariana deu-me com a porta na cabeça, ao vir pedir-me que assinara uma folha de cheque, e caí estatelado abraçando-me ao chão. A desculpa que dei me caiu do céu. Lhe disse que espiava a ela, que já me tinha consumido pela forma que roçava uma perna na outra, que ficava horas a imaginar o calor quente que escondia-se sob os saiotes justos que sempre levava e que naquele dia, sem falta, necessitava que ficasse até mais tarde, revisando alguns documentos comigo. Então pôs uma cara assustada e esboçou um choro quieto.
- É uma piada – lhe disse.
Ela respirou fundo, sem desmanchar a expressão de susto e ficou em silêncio.
- Menos a parte de ficar hoje pela noite. É realmente indispensável para o projeto. Sabes que estamos na reta final.
- Sim, senhor, respondeu disfarçando um sorriso. Aí virou, forçou a porta que eu mantinha escorada e voltou ao escritório.

Às seis, Artúrio se foi. Mariana veio bater em minha porta por volta das seis e quinze, carregando uma pasta cheia de documentos e uma lapiseira encaixada entre os dedos.
- Um segundo, - lhe disse - sente-se enquanto termino um e-mail.
Pôs-se na cadeira em frente à minha mesa, mas não me dirigiu o olhar, que manteve na janela de vidros espelhados.
- Já podemos começar. Lembra do que conversamos antes?
- Dos documentos do projeto, claro, estão todos aqui. Jorge Motta me ligou hoje e confirmou que a numeração do exped...
- O outro tema.
- As faturas?
- Outro.
Ela respondeu pondo a mesma expressão assustada da tarde, comprimiu as mãos e se reajustou na cadeira.
- Que outro? – perguntou, visivelmente conturbada.
Então levantei de minha poltrona, contornei a mesa e sentei-me na cadeira ao seu lado.
- O tema que realmente me interessa – disse e levei as mãos às suas coxas, levantando sua saia até ver suas justas calcinhas. Algodão, quem diria, algodão! Ela tentou levantar-se e eu a segurei, apertando com força minhas mãos contra suas pernas.
- Mariana, é um tema indispensável de trabalho. Está tudo incluído no seu salário – afirmei, levando os dedos até suas nádegas – Não está?
- Por favor, por favor...
Mas eu já lhe erguia com as duas mãos, já lhe traía erguida até meu colo, já lhe beijava o pescoço e, de cada lágrima que lhe brotava, mais me contaminava a vontade de penetrá-la com força, deslizar por entre suas coxas douradas que já a mantinham de quatro, respingando do suor que exalava. Virei-a de barriga pra baixo e penetrei-a suavemente, forçando com os dedos a calcinha até quase arrebentá-la. E vendo como sua pele dançava ao ritmo do seu suor, sabia que me tinha asco, que me tinha nojo. E meu gozo, por isso, era maior.

No outro dia pela manhã, quando cheguei, Mariana não estava. Artúrio estava em sua mesa, fingindo trabalhar, e me cumprimentou com certa aspereza.
- Mariana ligou. Se sente mal, não virá pela manhã.
- Okay.
- Quando saiu daqui, ontem à noite, ela estava bem? – me perguntou, de uma forma que não pude deixar de interpretar como uma espécie de desafío, como se ele soubesse de tudo que havia passado.
- Claro, parecia bem. Ligaste o ar condicionado?
- Não.
- Melhor. Precisamos guardar energía para quando chegue a tarde. Dentro de um mês teremos que prestar contas.

Entrei direto em meu escritório e, como sempre ocorría, me martirizei pelo que havia passado, fiquei imaginando em todos os problemas que poderia acarretar-me. Depois terminei dois relatórios que tinha pendentes, recostei outra vez na poltrona e passei o resto do dia tranquilizando-me, afinal já era um fato tão banal, uma espécie de costume destes horríveis que se herda da família ou do grupo de amigos e que, exatamente por isso, nos parece tão natural e legítimo, incontestáveis, digam o que digam.

Por isso voltei a fazê-lo. Passaram-se dois meses e, ao menos uma vez por semana, dizia a Mariana que ficasse, às vezes hesitava, implorava para que eu não o fizesse, mas quando lhe tocava com os dedos entre suas pernas, sentindo o caldo quente e cheiroso que lhe empapava a calcinha, quando lhe roçava a língua nos mamilos alertas e aveludados, não fazia mais que silenciar e aceitar sua posição. Talvez por isso tenha me cansado de Mariana. Não dela, em si, mas do jogo que jogávamos, do movimento das peças, do mesmo tabuleiro. E também porque comecei a ver que Artúrio desenvolvia uma espécie de carinho protecionista por ela, podia ver em seus olhares, nas palavras que escolhia. Não sei bem se por uma espécie de ciúme - não por Mariana, mas por Artúrio - e de não ser mais o único gestor de tão nobre e altruísta sentimento que significava apreciá-lo, comecei uma vigília implacável sobre ambos. Instalei câmeras no escritório e todos os dias, ao final da tarde, fazia questão de segui-los na saída do trabalho. Criava desculpas para manter a porta de minha sala aberta, os obriguei a mudar suas mesas de posição dentro do escritório para manter um campo de visão completo e até criei horários alternativos para que saíssem a almoçar por separado. Depois de algumas semanas, me vi obrigado a dividir tarefas específicas para cada um deles e deixei de ir às reuniões para gerentes de projeto nas sextas-feiras, com o único intuito de não deixá-los a sós.

Faltava apenas uma semana para a entrega do projeto e meu estado de nervos me impedia qualquer tipo de concentração no trabalho. Tinha a certeza de que Artúrio e Mariana estavam juntos, ainda que não encontrasse prova alguma disso. Mas também já considerava a possibilidade de que tudo não pasasse de efeitos colaterais de minha obsessão por Artúrio. Pela quarta vez naquela semana, pedi a Mariana que ficasse até mais tarde. Artúrio se foi a casa com um rosto feliz, com uma expressão de tranquilidade estampada no peito. Estava especialmente pitoresco naquele dia: vestia uma calça de abrigo azul, os cordões dependurados na região do largo ventre, a regata desenhando o formato da barriga até o largo vale que a separava dos peitos, as grandes tetas femininas que lhe desfiguravam o corpo, os ombros salpicados talvez por um potencial câncer de pele, a barba empapada roçando o peito. Quando passou pelas janelas de minha sala, já do lado de fora da empresa, pude ver como me encarava com seu sorriso amarelado, sabia que eu estava ali, atrás dos espelhos, e me desafiava, aumentando minha tensão. Mariana entrou sorrindo em meu escritório, perguntou-me em tom de deboche qual o trabalho que estava pendente para aquela noite. Eu, com os pelos eriçados, me deixei cair de joelhos no carpete, abraçando-lhe o ventre. Enquanto ela, assustada, tentava evitar-me, eu lhe implorava que me amasse, lhe pedia, inundado em terror que estava, que me protegesse, que me perdoasse, que me salvasse. Então ela respirou fundo, ergueu-me por debaixo das axilas e falou secamente, olhando dentro de meus olhos:
- Te levo à minha casa.

O outono já chegava em Madrid e, como todos os outonos madrileños, trazia um ar de alívio e esperança. No céu, um avermelhado rubi escorria detrás da Catedral de la Almudena e do bairro de La Latina. Já o dia escorregava detrás do horizonte quando chegamos a sua casa. Estávamos em Aluche e eu cochilava no banco do caroneiro. Ela desligou o motor, passou a mão carinhosa sobre meu cabelo e me convidou para entrar.
- Não tens do que desculpar-te. Vem comigo, vou cuidar de ti.

Era um casa pequena e humilde, mas o local me pareceu muito reservado. Me levou até seu quarto e me disse que esperara na cama.
- Vou buscar algumas coisas, mas volto já. Deita, relaxa e não se preocupe com mais nada.

Não sei exatamente em qual momento comecei a perder a noção do tempo. Creio que a espera por Mariana, que nunca voltava, me levou a mergulhar em um mundo de pensamentos, me induziu a refletir. O teto era de uma madeira acizentada e todo o quarto seguia a mesma aura incolor. Da grande janela que dava ao pátio, entrava uma forte luz amarelada, que me impedia distinguir o movimento das árvores no horizonte negro. Lembro de movimentar meus dedos contra a luz e pensar que seria divertido que Mariana nunca mais voltasse. E de notar que os lençóis dançavam sobre o meu corpo, fazendo-me girar no ar até encostar a ponta de meu nariz no teto cinza e novamente voltar à cama para recomeçar o percurso. Sabia que algo havia mudado, alguma regra enfim havia sido quebrada e até imaginei que a sensação que me invadia poderia ser chamada de liberdade. Então percebi que já não estava na cama, mas na sala e que Mariana estava a meu lado. Eu andava lentamente, em silêncio, com a mão direita segurando uma faca e o outro braço jogado sobre seus ombros. Vi que me sorria, me olhava aliviada e tranquila e que me dava um beijo desejando-me boa sorte. Então visualizei a porta de seu quarto. Retirei a chave do bolso, destranquei-a e vi a mim mesmo deitado na cama, remexendo-me como se lutasse contra os lençóis. Cubri os olhos rapidamente, assustado, e uma secura desceu por minha garganta até a altura do estômago. Quando abri os olhos, já estava deitado novamente, agora tentando recompor-me para olhar o homem que entrava no quarto, tentando entender por que Artúrio Mozefa estava ali, olhando-me com satisfação, abraçado a Mariana, com uma alegria e um sorriso que pintavam de dourado seus contornos despoporcionais e anti-estéticos, sua boca asquerosa e seu fedor estúpido. E enquanto Artúrio sorria com a faca na mão, ainda que assustado, eu me sentia liberto, perdoado e lhe admirava mais do que nunca. Era Artúrio Mozefa, meu salvador, e lhe devolvia o sorriso até que um sono profundo invadiu-me o corpo, um sono realmente franco, como somente o sono das noites pode ser.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 21:33 Comentários:




15.7.07

Gráfica Chrislane
Gabriel Silveira
Foi de meu pai que herdei a gráfica. O maquinário, ao menos, a linotype, a tipográfica manual, o velho gaveteiro de tipos. O nome não. O nome coloquei em homenagem à Chrislane, minha mulher. Sempre fui muito creativo para estas coisas, criar nomes, motivos, letreiros. Quando meu pai morreu, trouxe Chrislane para cá e lhe disse: - De agora em diante, é aqui tua casa. Vamos viver como devem um marido e uma mulher. Aí chamei o rapaz da serigrafia e lhe disse para retirar o pequeno letreiro Impresos Márquez e substituir-lo por Gráfica Chrislane, assim lhe disse: - Chrislane, porque é o nome da minha mulher. Estava feliz por estar casado, por assumir sozinho os negócios, me sentia pela primeira vez um homem completo. Acabei tão seduzido por essa oportunidade de ser independente que a morte de meu pai não me abalou. Sentia como estivesse finalmente livre. Minha mãe, que Deus a tenha, já se tinha ido, pra mim era crescer ou crescer. E olha que custou. Naqueles tempos já completava meus trinta e oito anos e até ali não sabia o que era sentir-me como um homem de verdade. Ah, e isso Chrislane sabia fazer como ninguém. Toda manhã, quando bebia o café que preparava Chrislane, ali, ao lado dela, eu voltava a sentir o que era ser um homem. Claro, naquela época não era este café amargo que bebo hoje, nem esta broa de milho, pálida como um morto, que tenho estocada desde o inverno passado. Naquele tempo era bolo quente feito na hora, era café passado no ponto, leite morno e pão quentinho, destes que parecem recheados de vida, de calor. Aí era fácil olhar os empregados como se deve, impôr-me na labuta, nas obrigações. Era fácil ser um homem de braço firme. Era fácil porque tinha Chrislane. Mas Chrislane morreu há sete anos. Só Deus nosso protetor sabe que foi que passei, que é que ainda passo. Neste tempo, o país desenvolveu muito, todo mundo fala em oportunidades, em melhor padrão de vida, de educação, mas aqui nada disso chegou. A gráfica continua a mesma, a tinta é a mesma, os tipos são os mesmos, as resmas, a guilhotina, o chumbo, o benzeno. Pra mim esta conversa de desenvolvimento é pura invenção da televisão e dos políticos. Essa gente endinheirada querendo que o povo trabalhe calado. O político pede pra televisão falar que tudo está bem, que o povo tem poder de compra, que a economia está crescendo, que a classe média aumenta, aí o povo acredita, começa a comprar, o rei mandou, gasta tudo o que tem, se endivida, os comerciantes ganham mais, a indústria ganha mais, o político recebe voto. Só o trabalhador é que come pó nesta história toda, fica dependurado na corda, sem dinheiro e sem paz, só com a esperança de que alguém venha de lá, lhe extenda a mão, lhe puxe pra cima, lhe convide para jantar. Chrislane é que virava cuca com esta falta de condições do povo. Nunca se conformava com o pouco que tínhamos. As poucas, as raras vezes que discutimos foram por essa razão. Quando notava que estava demorando demais no banho, já sabia, andava pensando, tendo idéias, aí vem bronca. Dito e feito. Saía discursando sobre tudo, desde o preço da batata até nossa impossibilidade de viajar, de conhecer outros lugares. Que o quê? Lhe respondia. Daí pegava do seu braço, levava ela até a rua, fizesse chuva ou noite fresca, e a obrigava a olhar para o letreiro com seu nome, bem no alto, iluminado, Chrislane lá no alto, Chrislane minha luz, minha estrela, meu céu, lhe dizia. E nestes momentos ela era mais linda do que nunca, de camisola e roupão sob a confusão das luzes da lua e do letreiro. Voltávamos pra cama, nos enrolávamos e dormíamos tranquilos. Depois Chrislane morreu, nem me passou pela cabeça a possibilidade de tirar seu nome dalí, trocar o nome do letreiro. Isso sim, deixei de acender a luz pelas noites, vá saber se o fantasma de Chrislane não se incomodaria. É bem verdade, também, que há uns seis meses tentei acendê-lo de novo, mas a lâmpada estourou. Nao saí para comprar outra. Já quase não saio para comprar nada. Passo todo tempo encerrado aqui, sozinho, tocando os pocos pedidos que me restam. E pela noite fico recordando aqueles tempos, bons tempos aqueles em que passávamos as noites despertos, conversando sobre os filhos que teríamos, sobre as viagens que nos esperavam. Chrislane sorria, sorria muito. Isso é o que mais sinto falta. Daquele tempo ficou só esta mania de passar as noites em claro. Horas e horas como um soldadinho em frente a boneca chique de porcelana, sua pele de pedaço de nuvem. Hoje ainda faço o mesmo, mas no quarto dos fundos, afasto com dificuldade o armário da parede, retiro as tábuas que cobrem o buraco no chão e fico observando Chrislane com amor, com mais amor e dedicação do que nunca, sou seu marido, seu marido dedicado e fiel, seu homem. Mas agora Chislane já não tem mais o rosto tranquilo, a tez rosada, infantil, os cílios adormecidos como um campo de trigo. Agora já não reclama mais do futuro, já não perde a cabeça pelos temas pequenos do dia-a-dia, pelos pequenos vícios do homem. Agora só resta sua paz naquele buraco, um amontoado de podridão, osso, carne e a imaginação, esta minha imaginação sempre tão incrível, esta imaginaçao que ainda me permite ver aquele sorriso, o sorriso daqueles dias sob a lua, sob o letreiro, tudo aqui, tudo em minha mente. Sempre tive imaginação pra estes tipos de coisas. É só lembrar de quando chamei o rapaz da serigrafia e lhe disse: - Aqui vai escrito Gráfica Chrislane, porque Chrislane é o nome da minha mulher.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 14:46 Comentários:




7.7.07

Do sobrado
Guilherme Póvoas
Saiu do sobrado a pé
saltou de sua boca
sílabas altas – gritava
Sombrio, satírico,
sentimento de consumo
sarcástico – como sempre
Seriam sérias suas palavras?
sem mais a dizer
sustentou a resposta – sim
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 00:32 Comentários:




6.6.07

Pobre poeta: foi querer sentir o mundo e morreu do coração.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 17:22 Comentários:




5.6.07

Nostalgias não bastam para o perdão.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 12:08 Comentários:




2.6.07

Publico, aqui, o seguinte texto do Bourdoukan, porque o tema é sério e estou enlouquecendo com a falta de coerência das pessoas na análise de tal situação. O mundo mais uma vez está sendo enganado e quem vai pagar a conta é a América Latina. Deixo uma pergunta: se a Antena 3, rede televisiva espanhola, houvesse patrocinado um golpe de estado do ETA, ou se a Rede Globo houvesse respaldado publicamente um golpe contra Lula (um presidente eleito democraticamente assim como Chávez), a concessão pública (ou seja, do estado vigente, em poder do povo) deveria ser renovada?


Chávez que se cuide
Georges Bourdoukan

Estão querendo transformar o presidente Hugo Chávez em pária.O pretexto é a não renovação da concessão de uma estação de TV. Os Estados Unidos, como sempre, puxam o coro e os papagaios repercutem. Acusam Chávez de atentar contra a liberdade de imprensa. Bobagem. Logo eles. O verdadeiro motivo dessa campanha liderada pelos Estados Unidos chama-se petróleo.E exemplos não faltam.

Invadiram o Afeganistão porque segundo eles, era um abrigo para terroristas. Depuseram um governo legitimamente eleito, não encontraram os terroristas, mas aproveitaram para construir um oleoduto que lhes permite controlar todo o petróleo que vem dos países da antiga União Soviética.

Invadiram o Iraque porque, segundo eles, o país produzia armas de destruição em massa. Sabe-se agora, e sabia-se antes, que era tudo mentira. Estavam de óleo no petróleo, que agora controlam, não antes de destruir um país e assassinar 800 mil seres humanos.

E agora tentam encurralar o presidente Chávez em nome da liberdade de Imprensa. Logo eles que dominam a indústria de informação e de entretenimento. O dramático é que muita gente, inclusive pessoas bem intencionadas, acreditam em tais disparates.

Se a memória dos congressistas brasileiros não fosse tão curta não esqueceriam do pedido de Bush para se encontrar com Lula a sós na Alemanha. O propósito é um só. Neutralizar o governo brasileiro sobre um possível golpe de Estado na Venezuela. E exemplos não faltam.

Já não tentaram depor o mesmo Chávez? E quem armou tudo? Foi a tal RCTV, que nunca deixou de conspirar contra o presidente eleito. E Chávez jamais cogitou em tomar qualquer medida fora da lei contra essa estação. O que ele fez, e a Constituição de seus país lhe permite, foi não renovar sua concessão. Tudo dentro da lei. E esperou cinco anos para fazê-lo.
Esse presidente legitimamente eleito, que age de acordo com a lei, a mídia chama de ditador.
Chávez que se cuide!

Bush, que constrói muros segregacionistas, que aprova leis ditatoriais para maltratar seu próprio povo, um bucaneiro que invade e destrói nações para apossar-se de suas riquezas, que assassina centenas de milhares de seres humanos, que é contra o Tribunal Penal Internacional, que é contra os protocolos de Kioto e que está destruindo o planeta; a esse criminoso planetário, a mídia chama de presidente.

Não se enganem, somos todos reféns!
E há ainda aqueles que acreditam na existência da tal liberdade de imprensa...
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 10:40 Comentários:




27.5.07

Quero ela viva
Guilherme Póvoas
Acendeu três velas. Para Deus, para o diabo e mais uma para garantir - era o retrato do desespero. Mandou e-mail, mensagens por celular, carta, fax e... ah! mandou recados por amigos em comum. Olha, ainda acho que aquela terceira vela era para o Negrinho do Pastoreio, dizem que ele ajuda a achar - além de objetos - também pessoas, inclusive as mais amadas. Querida, desapareceu na noite fria e não voltou mais com os cigarros e o vinho argentino barato de rubrar lábios, dentes e línguas. Barato mas argentino, por supuesto. Para quem ela está olhando, ou para que belezas naturais fugiu os seus olhos. Agora, ele fica sozinho com seu estômago vazio e a cabeça cheia, respondendo às reclamações do estômago. Sem forças mais, mas em seus primeiros sinais de fraqueza. Quedou-se diante da porta, ela deve abrir. Não volta mais mesmo. E quê? Powe on. Play. Já é Simone e Sartre, não precisa mais de mim. Mas antes de andar por campos elísios ou minados de grandes morangos, ela suspirou devagar em seu ouvido: "Acredite em mim." Pelo menos foi isso que falou a amada. Agora, ela tem um imenso e veloz cavalo negro montado por um ágil negrinho a lhe procurar. Seja onde for.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 01:44 Comentários:




15.5.07

À mãe distante
Gabriel Silveira
Busquei um verso longo,
de milhares de kilômetros,
que fosse uma imensa ponte,
destas pontes disfarçadas
de árvore natalinas e que,
como todas as pontes,
ligaria lugares demasiado próximos
para estarem distantes.

Mas era trabalho para um Eiffel e cansei.

Busquei um verso lindo,
inundo de imágens e metáforas,
que fosse um reflexo dourado
deste sentimento-obra-prima
de cores alaranjadas e que,
como qualquer obra-prima,
concentraria sensações
para a eternidade.

Mas era trabalho para um Goya e enlouqueci.

Busquei um verso curto,
com mais sentidos do que palavras,
que tomasse o caminho mais breve,
belo e barato em direção aos salões
do materno coração e que,
como qualquer verso curto,
falaria com a mesma intensidade
da intensidade de um pensamento.

Mas era trabalho para um Leminsky e fui curto.

Busquei um verso cinematográfico,
com gente feito personagem,
vinte e quatro emoções por segundo
e uma hora e meia de aventuras,
perseguições amorosas e que,
como qualquer bom filme de amor,
teria final feliz
e reencontro emocionado.

Mas era trabalho para um Zefireli e fui mudo.

Busquei, busquei e busquei
um verso que fosse completo,
com perguntas e respostas,
talvez até um pouquinho de certezas.
Mas vi que nada era tudo e que
nada rima com a verdade.
E dizem que verso que é verso
da verdade não se orgulha.

Mas era trabalho para mim e fui persistente.

E não sendo Eiffel ou Goya,
Leminsky ou Zefireli,
acabei rimando assim, foi o que pude:
Saudades de ti, mãe do filho.
O filho da mãe te ama.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 09:47 Comentários:




Hay que escribir por escribir. Luego, al encontrar la entrada de la habitación maldita, hay que deslizarse serenamente por debajo de la puerta, tranquilamente buscar el interruptor y luego prender la luz que iluminará los caminos que uno anda buscando, ya tanto tiempo hace. Después de todo eso, basta con fijarse bien en cada detalle de los carteles mal pegados en la pared, estudiar el suelo cambiante que del césped va al parquet y de ese al ladrillo, mirar con esmero cada una de las rayas coloridas que dan a la pieza este aspecto tan infantil y, cuando uno completa dichos primarios movimientos, ya es hora de que sepa exactamente qué es lo que pasa en dicha habitación, que compreenda las reglas y leyes a que uno se submete estando en tal lugar y que tome la decisión de seguir adelante o volver atrás. Y eso significa volver al mismo salón donde la vida seca y incolor está encerrada. Uno ríe de si mismo al piensar en tal posibilidad, señal clarísimo de que ya ha recordado de todo lo que ha venido hacer. Pero las mentes también suelen engañarse y aún más que los corazones. Sobretodo cuando ya se sabe de dichas reglas, cuando ya se tiene consciencia de que la gravedad, aquí, no es la misma gravedad; de que la noción de bueno y malo, aquí, tiene sus conceptos multiplicados de tal forma, que es imposible llevar a cabo cualquier tipo de condenación o, y sobretodo, de absolución; de que a este sítio no se pertenece, no se es, no se compra, pero se vive y solamente si compreendemos de un todo este mundo increíblemente cruel y bonito, al cual los pringados seres humanos lo decimos fantasioso.

Por eso uno tiene que escribir por escribir, porque al no encontrar un rincón - aunque lo busque intensamente - que le pertenezca aquí, en el lado colorido del mundo, uno puede divertirse viniendo así, no más, cuándo le viene bien, o quizás venga cuando lo decidan estos, los que ya han dominado la suprema forma de ser todo sin tener nada.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 08:44 Comentários:




6.5.07

Alface cru
Guilherme Póvoas
Eu cansei de bater cabeça. Mas, dizem, a esperança é a última que morre. E eu continuo carregando um resto de "vai dar certo". Que errou fui eu, como um desvio padrão esperado. Mas vou passar o resto da vida com o peso de sete chagas sobre o meu corpo. Por isso, tenho esperança. Em cada lágrima, cai esperança.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 12:47 Comentários:




16.3.07

Vá saber de que cor é o mundo ou que dizem os versos sob o tapete. Vá saber de que falaz os rapazes da copa ou que cheiro tem o verde musgo de tua blusa. Qual a fonte natural de seis segundos ou quantos seres são sérios como sou sério. E quem é o azul que corrompeu a neve este ano, alguém sabe? Tantos quantos sabem como fazer o doce de goiaba doce. Chorar um canto em dúvidas é aprender mil melodías em tom menor.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 20:43 Comentários:




13.2.07

Dois erros, um destino
Guilherme Póvoas
- Não! Não. Eu já falei que não serão duas ou três cervejas que resolverão os nossos problemas.
- Marijuana?
- Não.
- Merry Blues.
- Não! Não. Pára de insistir.
Mas ele insistia. Como se não tivesse outra coisa a fazer. Na verdade, ele não conseguia resolver seu próprio problema sem dar transtorno aos outros. Três horas de conversa. Cerveja derramada ao chão. Garçom moreno [como é mesmo o nome dele, Wanderley, sei lá], limpando a laje. Que lata! Tanto tempo, porém não chegam a uma conclusão.
- Tu não sabes o que quer.
E, de fato. É daquele tipo de palavra cruzada que se começa fazendo e, depois de ler cinco ou seis questões, não se consegue completar um quadro sequer. Um labirinto sem saída. Que lama!
- Tenho que ir embora.
Desta vez ele sentiu firmeza. Ela tinha que ir mesmo. O rapaz já havia a chateado muito. Era melhor não insistir mais - não, pelo menos, pessoalmente. Não, pelo menos, mais naquela noite.
- Que horas são, meu...? - ela brecou na hora certa. Iria falar. Ele sentiu. E se tivesse se referido a ele como [coração]... seria um indicativo. Mas, como não falou. Saiu derrotado.
- Me liga quando chegar em casa?
- Para quê?
- Só para saber se chegou bem - mentiu ele.
Faltou coragem. E o problema persiste, ele insiste. Mas não completou um quadro apenas. Nem a terra de Abraão.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 00:30 Comentários:




7.2.07

Despierto - 2
Gabriel Silveira
El sol todavía no está despierto, Cervantes todavía duerme como una piedra sob los aires de la Plaza de España, en San Blas las viejitas apenas piensan en levantarse buscando las panaderías y los inmigrantes latinos que vienen de Leganés no hacen más que llenar un único vagón de la renfe. Así mismo, aquí dos puchos ya han quemado en el tiempo y me voy cebando el segundo mate, sin otra prisa que la de mi pensamiento. Eso porque me los llevo, recostados - pero no perdidos - en un rincón del pecho, un Buordoukan irreversible y un Voltaire pegajoso, ambos míos, ambos dueños de mí. Canso de pensar en el día que vendrá, hay que vivírselo, hay que pensárselo. El madroño no parece importarse con el viento que hace afuera y otra vez más pienso en las viejitas de San Blas, porque son como los madroños, perdidas en un mundo que, en realidad, desconocen, estas mismas viejitas que cierta vez apenas podrían comer el chorizo o la mantequilla y que ahora, involucradas en esta neo-España, en este mundo neocom que han visto salir de la oscuridad, parecen sobrevivir - o sobremorir - como fantasmas del pasado. Les toca las pensiones y los carritos de mercado. Y no piense usted que son pocas. Hay veces en que uno cree realmente haber llegado al cielo (sic), por ejemplo al entrar en cualquier autobús por la mañana, y se pone desperado a buscar el conductor para que le confirme el trayecto, no va uno a tomar el bus al umbral cuando quiere ir a Carabanchel, vaya ironía. Pero lo que realmente importa es que ahora ya empieza a salir el día, el sol viene un poquito templado, como la leche, y ahí ocurre lo más increíble: y es que todo el mundo (sic) despierta como si el mundo, en si, no existiera. El mundo todavía duerme para el mundo. Las viejitas no saben del chaval somalí que ya sale por el agua, y la madre de este, fastidiada, también no imagina que las viejitas españolas hagan sus compras llevándose siempre un carrito como perros-guía, que les sirve para aliviar el peso y la soledad. Tampoco saben los bouquinistes de Paris que, un poco más abajo (o arriba) del Sena - si pasas el dedo sobre el mapa - una docena de chicos llevan puesto kalashnikovs y miedos mil, los mismos que cita Kaputscinsky en uno de sus tantos libros que ahora están expuestos a la orilla derecha del río, cerca de la Ile-de-la-Cité y todavía iluminados por uno de los postes en octavo de la ciudad. No sabría yo, si no fuera por Bourdoukan, que Fátima An-Najar, una viejita palestina, de sus 67 años, explotó su propio cuerpo en protesta por las agresiones israelíes. Ya les habían matado a su marido y sus dos hijos, pero lo que le quitó la paciencia fue la muerte de un nieto. Después de eso, le bastó un día. Si estuviera aquí, ¿no estaría también Fátima a comprar el pescado del almuerzo, a escoger, en el pasillo de los dulces, un regalito para su nieto? ¿En el carrito llevaría sus compras o una bomba? Piense usted, che, en cómo rutinas tan distintas pueden estar tan conectadas. ¡Qué mundo más desparejo! ¡Salve Yupanqui! Al mismo tiempo en que Doña Fátima se va por los aires, están las viejitas españolas a pasear por el súper, discutiendo la inseguridad, <<¡vaya árabes!>>, <<¡en el tiempo de Franco no era así!>>, <<¡vaya inmigrantes!>>. Al escuchar eso, ya es hora de que uno vuelva a apagar otro pucho en el tiempo que se va, hora de que la renfe esté tan llena que ya mal se mueva con tantos inmigrantes, hora pasada para que el circo del mundo parezca completo. ¡Hay feria! Y el único que todavía queda dormido es Cervantes, hecho piedra, eco de un quijote que, si está despierto, lo estará en cualquier otro mundo, que no el nuestro, que no este que se despeja en la ventana y que insiste en no despertar para la realidad.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 10:02 Comentários:




1.2.07

Números do cotidiano
Guilherme Póvoas
Três ovos caíram no chão. Ao mesmo tempo? Não se sabe. Também não importa. Três ovos menos. Duas horas até chegar ao supermercado. Três horas para voltar. Dois ônibus. Mais sete quadras caminhadas com sacolas em mãos, escancarando duas veias do braço esquerdo além de três do direito. Uma parada. Sacolas no chão. Duas baratas correndo, ao longe, para o bueiro. Cinco minutos, voltam os passos, com as duas pernas, dois braços riscados pelas veias e as sacolas. Um quarto de hora depois, frente ao prédio. Dois olhos voltados para cima: doze andares, vinte e quatro lances de escada. Não tem nenhuma outra alternativa. Trinta e dois graus à sombra - para quem a encontrasse. Foram-se dezesseis minutos com apenas mais uma parada, lá no sétimo andar, sentado no segundo degrau daquele lance de escada. Uma sacola de cada lado. Três puxadas bem fundas de ar, apenas duas para respiração. Enfim, a única porta do apartamento. Três chaves. Escolheu a uma. Entrou no lar e viu os dois pratos sob a mesa. Pensou que pudesse jantar com alguém apenas neste único dia. Um sonho. Um movimento para bater a porta. As três chaves no chão. O molho de chaves no chão. Antes de pensar em colocar as sacolas na mesa. Três ovos estralados no velho assoalho. Três ovos menos. Acidente. Comida menos. Sem comida. Nas sacolas, o peso do trabalho. E o peso da solidão.

Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 22:20 Comentários:




30.1.07

Me disseram mais de uma vez: «há dois caminhos para tornar-se um escritor: nascendo em berço de ouro ou passando fome mesmo». Já encontrei uma forma bacana de justificar minha gastrite.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 14:36 Comentários:




28.1.07

Despierto
Gabriel Silveira
Hay veces en que uno piensa que, para empezar a escribir, basta con sentarse de la forma que más le guste en su propia silla, sorberse un poco del té que mejor le valga para tranquilizarse, echar en el cenicero el pucho del cigarro que acaba de fumar, para que luego, como si un dios despejara el cielo y saliera el sol, o como si, al revés, le asaltara un viento que comandara una tormenta, arrastrando fuerzas y pensamientos, las palabras simplemente empezasen a saltar, como ranas contentas en el día que amanece lleno de humedad, desde un mundo lejano - o, si no lejano, al meno oscuro y aparentemente inaccesible - describiendo acciones, es decir historias, es decir dramas - que, al fin y al cabo, todas historias lo son - hasta que no quede nada más que espacios carcomidos por personajes y tramas sin más ley que las que uno crea; sin más vida que las que uno inventa; sin más poesía que las que uno posee. Y es ahí, al releer lo que se ha escrito en este breve período, que uno se entera de la fragilidad de la escritura que nace del escritor y no del personaje; de la infantilidad de las palabras que brotan de una mente y no de una boca; de la incapacidad de otorgar vida a nombres y mentes falsas, cuando las verdaderas ya están a su lado, en el mundo más que real del más allá, que es este mundo tan dulce y sereno al cual llamamos, con el cariño y el cuidado que sólo a él podríamos tener, de mundo de la fantasía.

Entonces, al debatirse con dicha imposición, uno es obligado a retroceder, caminar en pensamientos buscando Cortázar por el boulevard St. Michel o F. Pessoa en el alto Chiado, o quizás por las callecitas floridas de Etretat, buscando la posibilidad - si es que es posible buscarlas en algún mundo - de darse con Guy de Maupassant o Proust, hasta que uno de ellos le indique el camino al mundo de la idea humana, donde uno puede reconocer el verdadero mundo de la fantasía real, la noche de nuestro día, la muerte de nuestra vida, la ceguera opuesta a todo lo que vemos. Es ahí donde uno, tan sabiamente convicto de su papel de creador y criatura, quita toda la veste que lleva encima, corta el pelo de forma a que apenas quede algo de su antigua apariencia humana, y se pone a modelar sus personajes, dibujando lo que ya está dibujado, escribiendo diálogos que ya han sido dichos, relatando sentimientos que ya están plasmados en el ancho y largo agujero de la conciencia humana, sus sufrimientos y angustias, sus incapacidades y perezas, sus miedos y aflicciones, sus victorias y secretos.

Son más de la una de la mañana cuando uno despierta sentado en la silla - que todavía le gusta - y ve sobre la mesa el té, así como el cigarro, ambos consumidos por el frío y por el tiempo. Encontrarse devuelto a una realidad enferma, identificar las señales que así lo testifican y comprueban, estornudar una o dos veces por la alergia que siempre tuvo a dicha realidad, todos esos motivos son más que suficientes para que uno guarde parsimoniosamente el archivo al que estuvo añadiendo historias en este pequeño rato metafísico, mire otra vez más a la luz que brilla sobre la puerta de la habitación donde duerme y espera la mujer de uno, y empiece a echar otro cigarrillo - qué daría, che, por otro té ahora -, esperando que otra vez más las palabras turbias le salgan y se vea obligado a buscar a ver si encuentra un Cortázar, un Borges, un Márquez, un Chejóv a indicar caminos por ahí afuera. Ahí, una vez más, podrá salir del mundo de la realidad fantástica para adentrar la fantástica realidad, tan buena y sabrosa que siempre podría haber sido.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 22:07 Comentários:




Casa
Guilherme Póvoas
Olha vivente, não te conto mais nada depois daquela vez que tu foste fofocar lá pra Dona Branca. E a história nem era verdadeira. É, não era. Mas deu um problemão daqueles. Senta aqui, desta tu vais gostar. E pode ter certeza: é tudo acontecido mesmo.
Eu estava esperando o Zé Destino chegar com sua rural na frente da porteira da fazenda. Ali ó, vê? Eu estava bem ali. Era bem de manhã cedo, ninguém passava. Ainda bem, se não comeria poeira a manhã inteira. Acontece que fiquei a esperar por três horas. Acabou até as palhas para o meu cigarro - e me vi arrancando um sabugo do milharal para ver se inventava alguma coisa. Mas não adianta, tem que ser a palha que tem na venda mesmo. Então compadre, compadece de mim, que estou cansado mas vou longe para te contar este causo. Que é verdade! Ocorreu que, enquanto esperava o Zé Destino não vir - sem saber que ele não viria mesmo - me dei conta dumas cousas estranhas que estavam acontecendo do outro lado da estrada. Ali ó, do outro lado da estrada, na casa do Bastião. Umas cousas muito das estranhas por demais. E eu vi tudo. E foi por isso que as três horas em que eu fiquei esperando o Zé Destino chegar com sua camioneta me passaram tão depressa. Vê se presta a atenção, para depois, quando fores fofocar, fazer o troço direito.
Tu podes ver daqui que o casebre do Bastião é dum vermelho bem velho. Numas épocas passadas, bem atrás, deveria ser de um vermelho tal qual lenço colorado de guri com pilcha nova. Bom, agora não é mais. Até as roupas de baixo de minha falecida mãe são de cor mais viva do que aquilo ali que é a fachada do lar do Bastião. E eu tava lá já fazia uns quatro cigarros, minha palha acabando, olhava para tudo isso que costumo enxergar todos dias. Foi depois que peguei a carapuça de milho para tentar usar de palha: a casa do velho Bastião começou a piscar. Assim ó... Sabe daqueles vaga-lumes em dia de calor sufocado? Pois é, tal qual. E bem rápido. Piscava e piscava. De luz bem forte, porque era já de dia e eu enxergava aquele piscarel. Olha, vou te contar!
A luz vermelha vinha da parede de fora. Era mais estridente que a sinaleira que tem lá na cidade, na frente do colégio das crianças. Piscava e piscava. E dentro da casa, era a mesma cousa. Só que aí era tudo amarelo. Tanto que até olhei pro céu para ver se o sol não tinha caído dentro da casa do Bastião. Mas não era o caso. Compadre, demorei a acreditar no que minhas vistas haviam de avistar. O telhado também trocava de cor. Trocava, assustava e não parava. Vermelho piscante da fachada, amarelo sol de dentro da casa e verde limo de pedra de cachoeira vindo do telhado. Pensei, e me perguntei: o que será que o coitado do Bastião está passando? Será que precisa de ajuda? Se precisa, problema é dele. Por aqui a gente não se mete muito na vida dos outros, não é? Eu nunca me meti na vida de ninguém. E não iria fazer isso agora, colocando a minha própria vida em risco. Sei lá o que eram aquelas luzes a piscar.
Fiquei mais atucanado quando me lembrei que o Zé Destino estava pra chegar. Ih, o que aquele velho carrancudo iria pensar de tudo aquilo. Eu já estava vendo: o Zé dando ré naquele trambolho velho, engatando uma primeirona e depois entrando com tudo, portão a dentro, na casa do Bastião. Mas antes ele iria pegar a espingarda que fica atrás do banco da camioneta - não conta isso pra ninguém. É, da espingarda. Ninguém sabe. Enquanto estava sentado, ali na frente da porteira, cheguei a me ajeitar melhor na pedra para pensar em alguma coisa para fazer. Mas não me passou nada pela cabeça, compadre. E também não queria alarmar ninguém. Mas aí, antes de eu pensar em desistir em aguardar o Zé Destino, o negócio no lar ali na frente começou a mudar.
Pelos telhados, começaram a se arrestejar um bando de bicho estranho. Era tipo um jacaré do filme do crocodilo, mas bem pequeno. Pequeno assim, um pouco maior talvez. E tinham uma coisa na cabeça que parecia cabelo duro coberto por escama. A língua eu conhecia, era língua de cobra. De cobra, não vai se confundir. Mas não eram cobras, estavam mais pra lagartão. E, compadre, tu sabes: já andei por toda extensão destes pagos. Mas nunca tinha visto bicho daqueles. O que ocorreu foi que aqueles jacarés miúdos começaram a sair do telhado, desceram pelas paredes que ainda piscavam, e se desaparecem mato a fora. Até pensei que o Bastião fosse perder a vaca leiteira com uma dentada daqueles bichos. Mas ela está lá ainda. E os animais foram embora, o telhado parou de se fresquear. Voltou a sua cor normal, cor de telhado, tu conheces, é só olhar pra minha casa, pra tua, tudo cor de telhado. Logo me deu uma aliviada, compadre. Um pouco porque pelo menos o telhado não piscava mais, e muito porque aqueles lagartão não vieram se meter a besta perto de mim - foram bem na direção contrária. Te mete!
Vivente, mas aí logo que parou o telhado, foi a vez da fachada rubra. Parece que aquela tinta fraca das paredes de fora da casa do Bastião começara a descascar e foi caindo como se fosse peça de um quebra-cabeça sem desenho. Tinha pedaço de tinta por todo pátio do velho. Só que aí, uma que outra lasca de tinta, dura e velha também, começou a pipocar. É, estou te falando. Isso, saltitar. Sabe quando tua mulher faz pipoca, né? Então, tal qual. Só que não faziam barulho. Mas tinham cheiro, isso logo eu senti. Mas não era de tinta, não. Era doce, compadre. É, tu vê. Eu senti. Um cheiro doce que parecia aquela maçã melada que eu comi com a Dona Branca quando levei ela no parque que visitou a cidade no ano retrasado. O cheiro daquilo nunca vou esquecer, e nem das cascas de tinta da casa do Bastião. Elas começaram a saltitar cada vez mais alto. Pra cima, e chão. Pra cima, e chão de novo. E nisso ficou um tempo, vivente. Ah, não sei quanto, mas o sol deve ter se movimentado bastante. Mais alto, mais alto. E cada vez mais. Mais cascas. Quando todas pararam e permaneceram no chão, o Bastião parecia rei: à entrada de sua casa, estava estendido um longo tapete vermelho. Mas, alegria de pobre dura pouco. Rápido, rápido vi que aquilo já não eram mais cascas de tinta velha. Borboletas vermelhas começaram a voar. Se me fiquei um pouco assustado com os lagartos, aqueles passarinhos de papel me deixaram de boca aberta. Mas era um mundo de borboleta, tudo vermelha. Demoraram, custaram, era muito compadre, mas foram embora. Seguiram o mesmo caminho dos miúdos jacarés, mas foram pelo ar. É, cada animal tem seu jeito - e direito - de ir para onde quer. As borboletas foram voando. Aí me deu duas pontadas de dor no coração: uma porque eu achei aquele retrato todo muito bonito, mas as borboletas haviam ido embora; outra porque aquela velha e enjoada cor voltou à fachada da casa do Bastião. Depois das borboletas, aquele vermelho não passava nem por rosa. É, ri, mas é verdade, nem por rosa de mulher.
Aí, compadre, tal qual se foram os piscos do teto e das paredes, eu fiquei esperando ir embora as luzes amarelas de dentro da casa. E o Zé Destino que não inventasse de aparecer agora - eu já tinha perdido o medo e estava já gostando daquela cena toda. Mas o que ocorreu foi que o amarelo luminoso demorou mais para se ir. Porém, compadre, quando se foi...
Primeiro começou a ventar bem forte. Vinha reto na minha cara, mas, não sei como, deixava de levantar poeira. Era um vento reto. Custei a perceber, vivente: aquela ventania vinha de dentro da casa do Bastião. E olha que o casebre do velho só tem duas janelas bem picurruchas. Mas vinha de lá. Cada vez mais pesado. Vento, vento, ventania, vendaval, e eu comecei a achar que aquilo iria acabar tal qual o filme de furacão e tornado que vi no cinema lá na capital com a Dona Branca. Aí voltei a me assustar. Não, vivente, não sou homem disso. Mas tu sabes que estas coisas deixam qualquer um de calças na mão. É ou não é? A luz amarela começou a ficar cada vez mais potente. O vento também e também. E quando eu pensei que a casa estava a ponto de explodir com o Bastião e sua mulher lá dentro, aquelas duas janelas pequeninas começaram a vomitar um exagero de passarinhos de fogo. Um monte. Parecia a colheitadeira de trigo colocando pra dentro do caminhão aquelas intermináveis toneladas de semente. Saia, saia, tudo passarinho de fogo. No ato, compadre, na mesma hora eu senti que a temperatura havia subido uns quinze graus. Assim, pá-pum, dum tempo pro outro. E, também, nesta hora, tive que colocar o meu chapéu na frente das vistas, se não ficava cego. Mas a luz que vinha daquelas aves era bem mais forte que o sol. Muito mais. Quando aquele amarelo começou a fraquejar, eu tirei o chapéu da cara e ainda consegui avistar um que outro passarinho de fogo atrasado. Mas fiquei olhando aquela caralhada de aves batendo suas longas asas que já estava bem distante - e olha como estes bichos voam rápido. E estava na cara, vivente: eles não seguiram o rumo dos miúdos jacarés ou das rubras borboletas, foram diretos para cima. Eu acho que era para o sol. Aves.
Não sei bem direito. Mas o Bastião eu ainda vi ele depois, estava comprando palha na venda. Mas, olha, a Alemoa, a mulher dele, essa, depois da manhã que eu vi tudo isto que acabei de te contar, nunca mais avistei. E o Bastião não é de fazer cousa estranha, é velho certo, não ia largar duma mulher prendada feito a Alemoa, com aqueles cabelos cor de fogo de nó de pinho. Mas o que ocorre é que nunca mais a vi. Nem ela, nem o Zé Destino, por quem espero até hoje.

Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 02:50 Comentários:




25.1.07

Às voltas com o tempo
Guilherme Póvoas
Si vis pacem, para bellum. Três horas diante da mesma mulher. Ali, cara a cara, mas com olhares desviados. Era o medo. E foi um inferno. Não é fácil achincalhar tudo falando a verdade para alguém que merece ouvir mentira. Porém, se lembrou que as coisas boas vêm com sacrifício e as ruins vêm com a mesma intensidade e semelhante esforço: o sacrifício daquele que pensa estar certo. E até agora ele não sabe. Certo ou errado? Três horas de uma batalha onde as palavras só feriam - nunca matavam. O ditado em latim vale: Se queres paz, prepara-te para a guerra. Durante os 180 minutos, lutou como bravo guerreiro: caiu, levantou, chorou. E, por fim, amou como se o único amor impossível fosse a paz que sucede a guerra.

Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 22:43 Comentários:




Horizontes
Gabriel Silveira
Calavera no llora. Morre Kapuscinsky e Bush, chaval, envia mais soldados ao Iraque, hey ho lets go. Ainda os curdos (minoría?), ainda os palestinos, ainda Darfur. Vengo a ofrecer mi corazón, mas o pequeno laberinto de merda e suor sem sangue vai escoando as virtudes do mundo para um riachinho qualquer, um eco do mundo que, como tantos outros, logo secará. Pero calavera no llora, ya lo sabía Posada. Água fervendo sobre o mundo, vem abaixo a goma-laca, vem abaixo o delicioso mundo Daniel Auteuil, fica só a fumaça do petróleo-putrefacto, fica só o espelho da ação sem o manto do verbo, fica só o esqueleto de um pobre-podre-mundo. Êta tristeza, pero calavera no llora. ¿Pero qué más da? ¿Qué más da si la bomba viene de los israelís o iranís; de los norte-americanos o de los alemanes? Que importa se, no final, todas levam a mesma etiqueta "made in..."? Baixa a voz e respira fundo, baixa o sangue e respira a vida, mas para que pensar se não há mais o que pensar? Enxaqueca de chá de mundo, pur eh de mundo, deste mundo de Bush e Aznar e tantos, Hitler e Mussolini e outros, farinha do mesmo, mais do mesmo, mais farinha ao lixo. E a luta ideológica da vez é saber quem cai antes, Fidel ou Guantánamo, je ne sais pas, et alor?. Entre técnicas de humilhação coletiva, inundados no fenômeno da mentira verdadeira, resta engolir seco, engolir ao léu a lágrima que nem vem, de um olho que não mais vê, uma pontinha de nostalgia de almas que já não são, das quais só ficou o alicerce, não ficou nem gota d'água, só ficou a calavera. Alguém se anima a chorar?
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 15:00 Comentários:




19.1.07

¡pal carajo con guantánamo!
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 13:34 Comentários:




18.1.07

E esta fragata que navega preguiçosa.... ousando sentir o cheiro azul do mar, interpelando sonhos pelos ventos; corta pensamentos, ousa reencontros e continua lá, ao léu. E é lá, sobre as virtudes do mar, cortando o canto dos pássaros marinhos que lutam pela vida com os peixes, que está a saudosa folhinha verde da sabedoria (no meio do mar??? Sim, ela está em todos os lugares), pairando sobre corações que ousam ser pacientes e aguardam pelas oportunidades verdes da vida. E eu aqui, no deserto de sentimentos do mundo, inundado de maresia.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 19:24 Comentários:




15.1.07

Me ajuda?
Guilherme Póvoas
Quando caiu na desgraça da dúvida - daquelas que procura sempre um momento de fraqueza para tomar mais força - seu fiel escudeiro disse: "Vai." E falou isso assim mesmo, acompanhado de um ponto final, sem vírgulas ou espaço para uma conjunção adversativa. Se era certo ou errado, não interessava para seu coração. Mas era o conselho que desejava ouvir. A dúvida era: qual a dor mais forte? De largar ou de se largar. De interromper ou ser interrompido. Pois o amor - prosseguiu o amigo - não toma conhecimento do egoísta, do solícito ou da felicidade. Mas é amor? Não sei - respondeu, aflito - mas prefiro acreditar que sim. É nestas horas em que a palavra acreditar toma força e acaba, enfim, sobrepujando a dúvida. "Vai." Ficou olhando para o conselheiro, esperando um mas, um porém. Nada. Assim, se foi. Desfez e começou tudo de novo, em outro lugar.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 22:21 Comentários:




Céu e inferno
Gabriel Silveira
Era uma voz que falava duro, nada desta voz furada dos humanos, feito panela de barro. Comparando assim, era mais uma panela de cobre, porque deu eco. E ela falava o que era, nada do que foi nem do que será, claro está que era a voz de um adulto. E foi isso que o assustou, tal como se uma bola de gude rebentasse em sua cabeça de latão, tirando em casquinhas o pouco de brilho que lhe restava. Restou contar os segundos até cair em si, virar o rosto, arredio, e dar de cara com um fígado, pequeno era ele, acima da média o outro. Resetou a expressão do rosto, pendurou-se no fio da vida e devolveu com meias palavras tristes, mas honestas:
- Me matarás de novo?
- Sei quem eres.
- Te perguntei se me matarás de novo.
- Nunca te matei antes.
- Dar a vida é matar.
- Quer dizer que te salvei a vida?
- Quero dizer que eres meu pai.
- Pai?
- Sim, pai.
- Queres dizer que fui teu pai.
- Isso.
- Pois saiba que aqui ninguém morre, ninguém vive. Neste limbo, para jovens como tu, só resta divertir-se por aí.
- Não sou divertido.
- Não puxastes a mim?
- Não me lembro de que, alguma vez, estiveras ao meu alcance para que te puxaras. Que sei eu de ti?
- Que és sangue do meu sangue.
- Se te matasse agora, que aconteceria?
- Eu seguiria vivo, dentro de ti.
- Então é a mim que deveria matar?
- Aos dois.
- Já não importa, aqui não há mais mortes.
- Há mortos.
- Meu corpo está gelado.
- Aí algo que puxaste a mim.
- Já te disse, nunca pude puxar-te. Aliás, por que tens raízes nos pés?
- Não sei. Uma vez apareceram juízes por aqui, me disseram que era por tua causa e que sería o melhor para mim.
- Minha causa?
- Isso, minha culpa, tua causa.
- Quer dizer que estás pagando o preço por matar-me?
- Nunca te matei, mas pode ser que tenhas razão.
- E se te digo que fui eu quem te matei?
- Nunca tiveste la oportunidade, mentes descaradamente.
- 27 de fevereiro, estava escuro mas me lembro que vestias um sobretudo negro.
- Ainda estou com ele.
- É verdade, não o havia notado. Pois aí ainda está também a marca da bala. Uma única e certeira bala.
- Então foste tu.
- Sim, sim, por isso é que também tenho raízes nas pernas.
- Outra coisa que puxaste a teu pai.
- É verdade.
- É verdade.
- E ficaremos pra sempre assim, nunca nos moveremos?
- Bom, já estou aqui tanto tempo... não há nada que não possamos nos acostumar. Até que venha o próprio Deus e nos libere de nossos juízos.
- E isso é quando?
- Quando ele quiser.
- Então devemos esperar.
- Esperar e esperar.
- Como a Godot.
- Dizem que ele era Deus.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 15:37 Comentários:




13.1.07

Gente Grande Miúda
Guilherme Póvoas
- Sobre o que fala esse livro que está lendo?
Uma menina que parece andar pela inocência dos 12 anos não costuma perguntar isso para um alguém dentro de um ônibus que sacolejava aquele povo cheio de sacolas de compras do Centro da cidade.
- Fala de uma enorme família cheia de gente diferente. Fala sobre magia, música e também bastante de amor.
A menina, morena e ainda com a pele surrada pelo sol, apenas abria mais os olhos. Isso demonstrava atenção, mas era seu único gesto. Depois que o rapaz falou, ela voltou à cabeça para a capa do livro. Nas mãos do jovem, o dedo indicador marcava a página. Ele recém havia começado a ler a obra. Pela terceira vez.
- Tem mágica, é?
O rapaz não falou a língua da inocência. Era magia, não mágica. Mas, se ela assim entendeu, assim o é.
- Sim, tem bastante. Chove por décadas nesta cidade - respondeu o homem, abrindo os braços para mostrar o quanto significativo é chover tanto assim.
- Nossa! Lá onde moro, se chove dois dias quem está na rua não entra em casa, e quem está dentro do lar não pode sair.
A face do jovem rubreceu. Talvez a moça entendesse mais daquele livro do que ele mesmo, soubesse mais daquela realidade do que todos os seus estudos em cima daquelas linhas.
- Pois é. E nessa cidade faz muito calor também. Ela fica no Caribe colombiano - explicou o rapaz, tentando mostrar que alguma coisa, que não era do conhecimento daquela pequena cabeça adornada por longos cabelos escuros, ele sabia.
- Nossa! E esta cidade então fica bem longe, né?
- Sim. Macondo fica muito longe. Mas você pode ir até lá. Quer? - e o rapaz fez a pergunta estendendo o braço e oferecendo o livro à menina.

Cara, em 2007 Cem Anos de Solidão completa 40 anos de existência. Fica aqui, registrada modestamente, a nossa homenagem (quase póstuma) a um daqueles que fez tudo isso acontecer. Tudo tu por aí, tudo eu por aqui.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 01:29 Comentários:




8.1.07


Lágrimas do mundo
Gabriel Silveira
Sim, bem fundo olhei nos olhos
daqueles meninos de Guantánamo,
e me tomou o medo ou a certeza
de que os olhos eram teus,
companheiro, como se o destino, de um,
sempre fosse o destino de todos.
E foste tu o que vi na terra seca,
no rosto sentindo o passado a soprar,
olhando o longe de perto.
Era tua a busca e, tua também,
a ânsia daqueles meninos de Guantánamo.
Vi tua dor na dor deles
e vi também todos teus medos.
E que humilde orgulho senti quando vi
que era tu o que rezava nas mesquitas,
em meio à guerra buscando a paz.
Pedi ao meu e ao teu Deus, que são um só,
a explicação de ver-te, perdido,
de Mazar-e Sharif a Kandahar,
caminhos de um só mundo feito muitos,
vendo-te pelo homem aprisionado e,
do teu destino de homem, privado.
E ao ver-te rodeado dos teus, tive medo,
sem saber, ou esquecido, de que o demônio,
tão conhecido, vivia em minha casa.
E que pavor quando vi tuas negras sobrancelhas
a tremer frente à mão executora,
assim como o sol que, eterno,
vibra sob as passageiras gotas de chuva;
ou quando ouvi teu grito de horror
saindo do peito de cada um daqueles meninos,
em cada instante de tortura,
em cada segundo de injustiça,
em cada amanhecer proibido.
Era tua a mão que segurava o Corão,
teus os joelhos que caíam sob o sol,
tão ilustre e maculado sol do Caribe.
E mesmo com um saco negro a tapar-te o rosto,
sabia que era o tu o que ali sucumbia,
com a única esperança de inspirar uma vez mais.
Ai que dor, companheiro, pois vi tua barba,
tua pele e teu futuro sendo destroçados
pelo enemigo, que só sabia mentir-te.
E vi teus olhos, e os meus,
bem no fundo dos olhos daqueles meninos.
Nos olhos dos meninos de Guantánamo,
neles eu vi as lágrimas do mundo.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 13:33 Comentários:




7.1.07

Na palma da mão
Guilherme Póvoas
Três horas de cavalgada lenta para longe da sesmaria de seu pai, sem visão do lago dos peixes azuis, descampado enorme e os urubus a voar. Mesmo assim, só veio a perceber que estava perdido quando acabou o cantil de água. E uma criança de 11 anos bebe isso bastante. No seu caso, bebe outras coisas também. O pequeno não era Dom Quixote, e também o animal que o acompanha não prestava para Rocinante. Mesmo assim, titubeou antes de tentar voltar às terras do senhor seu pai. Nada. Moleque de bombachas grandes tinha se perdido só para ir atrás de chuva - se molhar um pouco. E nem isto encontrou. Se fosse pela máquina de Erico Verissimo, estaria numa emboscada sem índia velha para proteger seus finos braços loiros. Se fosse pela pena de Josué Guimarães, esperava seu coração parar enquanto conversaria com uma senhora gorda, sentada à beira do barranco de diferentes cores verdes. Mas, como não era nenhum Dom Quixote, nem Mortágua, tão pouco um Cambará, pôs-se a chorar. Mais e mais. O cavalo comia o pasto molhado pelas lágrimas do guri que fazia o trabalho da chuva. Uma solidão de cem anos baixou naquele momento, os raios de sol diziam adeus, e o frio recebia as boas-vindas da noite.
As buscas pelos capatazes não duraram mais que trinta minutos. Três tropeiros acharam o guri, rápido. Se ele foi atrás de chuva, deve estar perto do barranco das árvores verdes coloridas, raciocinaram. E como a inteligência da palma da mão não falha, chegaram ao encontro da criança antes que a velha índia pudesse lhe ensinar como voltar ali, de novo, à hora que quisesse.

Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 22:59 Comentários:




4.1.07

Na rua, na frente de casa
Guilherme Póvoas
Olha, não te acordei por pouco. Foi um estrondo daqueles! Feito carro velho batendo - Fusca contra Variante - dá mais barulho que estrago pois não há mais nada para estragar. Eu estava deitado de rádio ligado, hora do tango, quando aquele troço caiu em frente a minha rua. Scarabum! E vários outros buns que não sei descrever. Também não sei se deu rajadas de luz porque eu estava de olhos fechados virados para parede - com o nariz tão perto daquele muro frio, cor gelo, que a gripe persiste até agora. E como incomoda! Antes de me levantar, esperei para ouvir a reação dos bêbados e desocupados que adentravam a madrugada nos bares da frente daqui de casa. Nem um bah! Nem um mas ah! Nem um mas o que é isso? Aí, só depois disso, depois do nada a acontecer, comecei a me preocupar - o que causou tanto barulho lá fora? Para me levantar não custava nada. Eu estava acordado, mas, como disse, não te acordei por pouco. E por muito menos, nem virei para o lado. Quando se está com sono, a distância da cama até a janela é tão grande, tipo aquele guri novo que vimos tentando subir a escada-rolante que descia. A cara de "não estou entendendo nada" que ele fez dizia tudo. Já perto da janela, senti uma dor no peito. Não era bem dor, mas alguma coisa estava faltando. Olhei para janela, vi, espatifado lá fora, o meu coração. Retornei à cama, olhei para ti, já não te amava mais.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 22:57 Comentários:




Começar o processo da escritura é tão complicado quanto dar-le um fim. Enquanto ao primeiro tudo parece um deserto que precede um maremoto, o outro é um oceano inteiro de idéias e conceitos de tamanho tal que às vezes é quase impossível conceber que em algum momento chegarão a cessar, a estancar, a secar por completo deixando somente o perfume da criação a envolver o ambiente. São como crepúsculos do desenvolvimento intelectual - e talvez uma das únicas situações que possam honrar o uso de tão perfeita palavra: crepúsculo. Já verão que se trata de uma saudável analogia. Começar o processo da escritura é como desvendar, por entre a escuridão da madrugada, os primeros reflexos rosados no horizonte; é encontrar as primeiras variações de nuances no verde das imensas árvores de um bosque; é sentir os primeiros golpes de calor de um sol que ainda não nasceu, de um dia que ainda não é, mas que já ousa compor seu habitat como seguro de que seu esplendor chegará. Até que, então, de um só golpe, nascem as idéias como um imenso sol que domina o universo, imperialista em sua posição soberana e infindável, líder supremo do teto do mundo, renovando as almas e empurrando a história adiante, até que o anoitecer venha escurecer o poder da criação. Também é verdade que, muitas vezes, o dito crepúsculo dá-se de fuça contra um nada, um cinza de nuvens emboloradas a cubrir o dia que não vem. Como agora, que nada chega, que nada é. E acabo, como sempre, escrevendo por escrever: cantando nada, mas cantando algo.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 21:50 Comentários:




2.1.07


Aurora lisboeta
Gabriel Silveira
Amanhece em Lisboa, não tarda,
desagüando ouro trás-os-montes,
e sinto-te próxima, mãe-pátria amada,
nascendo colônia em original horizonte.
E de irmãos o brado, calado na fonte,
cantando em vingança tua liturgia,
só faz mais intenso o defronte
entre teu carinho e minha agonia.
Com amor de mãe, em tua vilania,
e ingratidão de filho, em verso fatal,
nosso dia amanhece em umbilical tirania.
Teu raiar me seduz, cativo natural,
e me entrego em teu colo, vil ironia,
escravo outra vez, sob o sol de Portugal.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 20:26 Comentários:




27.12.06


À noite, onde o frio é dançarino uivante,
com passos de orgías pagãs feitas de vento,
não há mortal sequer, ainda que amante,
que não encontre, na sombra, medo e tormento.
Os gemidos, quase sussurros, do parque maldito,
levam falsos consolos de esperanças finitas,
que escritos com verso e verbo proscritos,
errantes passeiam por mentes aflitas.
A mim, tal o de Mântua em caminho tenebroso,
tal filho de Anquises em busca eternal,
me resta rezar, réu sob véu tão assombroso.
E faz-se meu único guia, como Virgílio desigual,
a lembrança de teu olhar, presente do Divino Generoso,
lanterna e alívio em meu martírio moral.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 17:12 Comentários:




23.12.06

Diante do presépio
Guilherme Póvoas
Saiu e ficou em casa para começar, adivinhar, advir e copiar o que lhe havia parecido até então tudo aquilo que lhe pareceu vida. Sem saber tentou se posicionar, tecer, fazer críticas, ou fazer acontecer, até para não cair em desgraça. Não era a última noite, ainda, em que a lua nua iria iluminar a rua sem que tão sua ela fosse. E foi. Já não é mais, não foi atrás por tantos "capaz". Oh, meu rapaz, agora não adianta se tornar um brabo assaz. Não tem efeito. Acorda e vai ver: é Natal. Não faz diferença para ti, mas, por aqui, muita gente está contente.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 23:06 Comentários:




17.12.06

Atrás dele
Guilherme Póvoas
Uma multidão correu atrás do homem de cabelos grisalhos. As calçadas do bairro onde moravam foram tomadas. E não tinha hidrante, cachorro apertado ou poste de iluminação em conserto que impedisse a caça. O velho até já tinha guardado seus óculos no bolso de dentro do paletó e jogado fora o pente de plástico que ficava guardado na calça bege. Tudo aquilo estava lhe atrapalhando. Sapato de sola dura. "Eu jamais imaginei que iria desejar um Nike", pensou, enquanto o povo inteiro se aproximava. Cada passada que o velho dava a multidão avançava cinco. Se tivesse optado pelas exatas, faria uma rápida conta, de cabeça mesmo, para calcular onde e quando a massa o alcançaria. Enfim, não demoraria muito. Coisa de mais três quadras. Mas três quadras se não tivesse um muro no meio do caminho. "Se fosse uma pedra, ajudaria." Parou, tentou pular a parede. Upa! Mas nada. Ficou ofego, cansado até mesmo para se virar e encarar a multidão que chegava perto. Ou será que era medo? E o povaréu enxergava um homem com as mãos nos joelhos que tremiam. Dava para sentir seu coração pulsando e seus pulmões inflando rápido. Diante de um muro escuro e sujo, havia um homem de cabeça limpa. E branca. Alguém vai respeitar?
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 15:24 Comentários:




8.12.06

Lição mal passada
Guilherme Póvoas
Quando acordou, lembrou que já não era mais hora de deixar o diabo do sono prega-lo na cama. Até porque estava sozinho. Nem pregos, nem mãos, nem braços. Tão pouco o frio, que deixava o vidro da janela embaçado. Colocou as calças, tomou às pressas um ovomaltino batido e desceu as escadas sentindo remexer a língua por toda boca. Talvez estivesse sentindo falta de ter escovado os dentes. Mas ele sabia: quando o dia começa assim, tal qual o roteiro dirigido pelo cotidiano, as coisas prosseguiriam ao bel-prazer da esperança - até que, ao final, iria se criar uma enorme vontade de voltar para o quarto, para o leito, sob as cobertas, e esperar uma mão, um braço para apregoa-lo junto à cama.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 10:32 Comentários:




3.12.06

Aguarde!
Guilherme Póvoas
Cansou de desistir. Cansou porque sabia: desta vez não iria ser diferente. E, ao invés de deixar as coisas passarem com o vento dos entusiastas, se atirou na primeira brisa do sopro quente de verão. E não deu outra. Deu tudo errado. Que estafa! Sempre acabava tendo que pernoitar sozinho enquanto nada acontecia. Nada acontecia fora de seus pensamentos. "Será que está isso tudo dentro da minha cabeça está em algum lugar?" A resposta estava já na pergunta. Mas não era o suficiente. Não era o suficiente pois sabia: lá no fim, quando o vento pós-primavera acaba, é onde ficam guardadas todas as coisas boas. Até aquele cigarro de chocolate derretido que costumava tirar da mochila na hora da merenda. Que sina! Enquanto isto tudo se eternizava na curva da brisa de verão, elas desapareciam de sua cabeça. Desapareciam porque sonhava de graça, sonhava em vão. E foi por isso que cansou. Cansou por desistir em demasia. Que lástima! Chegou um momento em que sua idade se contrapunha à sua vontade. Matutava idéias, tão distantes com o passar dos anos que mesmo cem deles não dariam conta. E olha que já deram uma vez, em algum livro. Que figura! Em segredo, o que desejava era ser desejado. Desejado por alguém e até por ele mesmo - que não almejava ser quem era. Mas como cansou de desistir, começa agora a tentar ser desejado num vagão junto à janela, para acompanhar aquele vento quente de verão, dos entusiastas, das coisas eternas e das coisas boas. Sem saber que este vagão é, por si só, ele mesmo.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 00:39 Comentários:




1.12.06

Novas vidas secas
Gabriel Silveira
Nem deu tempo de chover e molhar, a água secou, o gato comeu e o vento levou. Foram eles, a velha com o bebê no colo, o vento e o gato farto pela terra batida. Crescer, ali, nem fome mais crescia. E ainda assim o céu padecia de tristeza, traía o astral do mundo e levava as nuvens lavradas pelo azul. A velha, que nem suava tamanha era a sede, ia olhando pra frente, nunca pra dentro, tinha era vergonha de olhar o sentimento, lhe arrepiava toda tocar o medo com os dedos. E nem a menina ousava sorrir, levava a boca aberta como se fosse falar, mesmo sem nunca ter falado, e vez em vez parecia que fechava os olhos para meditar sobre algum tema. Cruzaram seca e seca, o sol também cruzou e acabaram chegando até a beira de um precipício, donde tudo que caía era nada. Como ninguém lá embaixo alguma vez havia chegado sem saltar da vida, tampoco sabia-se de alguém que ali tivesse subido. Aí é que a velha pela primeira vez olha para baixo, vê o rosto solene da menina e dói como melado fervendo fritando a pele do antebraço. Então olha para o gato, lhe dá uma raiva do pobre gato, safado que mais vida tem, que mais esperto é, raiva do gato só porque ele hoje comeu. Mas alguém viu? Ela sabe que ele comeu, viu mastigar, viu roçar o focinho com as patas, viu que não gemeu como nos últimos quinze dias. Era fato, o gato comeu, o gato é culpado, o gato que faça a vez. Aí a velha disfarçou-se de sombra, sacou o pano - um dia branco - que levava na cabeça, atou a menina na ponta de cá, o gato na ponta de lá e jogou o bichano, deixando que ele é que levasse a menina. Aí deixou que o vento - também presente - fizesse o resto e ficou na beira do mundo, vendo a leveza da vida, a fraqueza do corpo e a velocidade do vento, que lhe soprava a tristeza.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 13:46 Comentários:




20.11.06

Vou te contar
Guilherme Póvoas
É, quando eu falo, ninguém acredita. Mas depois, não dá outra: todo mundo cita. Mas o causo é o seguinte, e aconteceu prá baixo das bandas de Santo Antônio da Patrulha, descendo o Rio dos Sinos, mais perto ainda das bandas de Sapucaia do Sul e São Leopoldo. Passava das 80 toneladas de peixes mortos, vivente! É. Viu? Essa tua cara, bem que eu sabia que não irias acreditar. Mas era. É que uma empresa, mejera, andou largando uns densos caldos, daqueles que não se organiza com água de rio. É peixe por peixe, seu! O rio estava que era um tapete de escamas ¿ com um cheiro de fazer qualquer pescador enjoar. Deixa estar, pois ninguém mexeu muito em coisa de punição. Logo acontece de novo. E nem é acontece, é ocorre ¿ porque a gente sabe que vai acontecer. Tal qual uma tragédia anunciada, falada, discursada. Ah, é aí. No discurso que acaba tudo. O cardume, olha, subia à superfície, tentando respirar... Nada, vivente! Teve até um, experiente, desses que já viu de tudo no Amazonas, chegou ali e falou: "Nunca passei por coisa igual." É, aí a vergonha fica maior. Mas é que era muito peixe. É, de retroescavadeira e tudo que é técnico tirava eles de lá. E, por aqui, se inventou coisa nova: cemitério de cardume. Não, não foi esse nome que deram pro lugar. É, não foi. Fizeram um aterro em Sapucaia mesmo e largaram os coitados dos bichos por lá. E vou te avisar: tinha de tudo quanto era tipo. Dourado, pintado... peixe fraco aos montes e peixe forte a dar com pau. E eram robustos, davam um bom assado. Engraçado é que nem se pescar podia lá ¿ a água, de tão podre, não deixa comer os peixes. É, podre mesmo.
Mas isso tudo faz um tempo já. É coisa de dois meses. É sim, mas nada mudou. Só que o causo fecha no seguinte, vivente, e vê se nisso tu acreditas: o verão está se avizinhando. A água vai baixar e a coisa vai piorar. E aí, tu podes até não estar aqui para ver, mas eu vou viver isso de novo e, infelizmente, terei que te contar. E é.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 00:49 Comentários:




14.11.06


O trem e a caça
Gabriel Silveira
Se torcia de tanta lágrima ao ver o caixão descendo sem dó ao pó. E assim gritava:
- Èta, pôrra! Êta, pôrra! Hai hai, Deus-pai. Pra donde leva meu véio?
Ao lado dela, só um coveiro amigo da morte e as carpideiras que já se iam. E ela, mais incompreensível do que incompreendida, seguia:
- Êta, porra! Pra donde leva meu véio? Tirou logo de mim, que podia dar por não perder?
E o coveiro já lhe cobria de um todo, e a velha já era só uma sombra sozinha, e o sol já parecia acostar-se, mas a mulher insistiu:
- Tirou logo de mim, que podia dar por não perder?
E falar isso é como dar queijo pra cabra, é farelo de pão no trigo, é entrecote no espeto para desaiúno de vaca de abate. Era o corpo à morte. E era ela, a morte, quem já preparava suas maletas para a próxima cidade, quando a dita velha disse tal dizer. Por baixo do grande sombrero negro, escondida com suas longas tranças também noturnas, quase fez careta de preguiça, quase negou o instinto, mas acabou por soltar as maletas e decidir ficar. Ainda olhou um instante para o horizonte, não pensem que divagava sobre quão bonito estava ou sobre como o silvar das catorritas é bonito ao crepúsculo, não, só se divertia vendo o vermelho sangrento que tomava conta do céu e sentiu-se totalmente inserida no grande circo da criação. Ficava, afinal era o destino do mundo que tinha que ser cumprido.
Caminhou sob o entardecer, pensando se alcançaria descobrir o endereço da encomendada já para a noite, sempre ideal para as idas. Passou com seu longo sombrero negro em frente aos bares nos quais as gentes começavam a apuleirar-se e não um nem dois, mas nenhum dos que ali pereciam pelo cigarro ou pelo álcool, vendo-a, pensaram no destino mortal que lhes aguardava. Foi aí que viu a prometida já cruzando ao longe e apertou o passo, pensando em pegá-la de surpresa na chegada à casa. O lusco-fusco, no entanto, lhe confundia as vistas e só voltou a ver-la quando já cerrava a porta do barraco donde vivia.
A morte, então, soube que sería obrigada a encontrar outro plano para dar o que não se diz à dita velha. Pôs-se a observar desde a janela e inconformada ficou - ai e como - quando notou que a prometida, a mesma que agora mesma se esbugalhava em água e sal, estava abraçada em outro homem, mais jovem e gordo que o último - que eu o tenha! -, com a saia já levantada, esfregando as partes donde as outras partes hão de caber.
Mais raiva não lhe deu por estar gozando da vida. Isso bem lhe apetecia. O que lhe indignava é que estivera gozando da morte, ou seja, era bem mentira o que ela mesminha havia ouvido agora há poucos minutos de cá, a mesma mentira que lhe havia tirado as malas da mão e a viagem dos pés. E lhe subiu um sangue colorado entre as crinas negras, lhe explodiu um ser que há muito não tinha voz, e sem que percebera abriu a maleta extendida no chão, passou a mão na foice mais afiada que levava e abriu a janela jogando as longas tranças para o lado de dentro.
- Boas noites - ordenou.
A mulher saltou de cima do homem, gritando muito assustada, mas a morte, com um simples movimento de braços, impediu que ela fugisse até a cozinha. Ficaram os dois nus, o homem totalmente em silêncio e a velha em transe, até que a morte sorriu como se fosse começar a falar e realmente o fez:
- Não havias dito que daria tua vida pelo outro defunto que já foi?
- Disse? Será?
- Sim, disse. É por isso que estou aqui.
- Tens bem certeza disso? Olha que não...
- Juro pela minha vida. - respondeu a morte.
Ficaram alguns segundos em silêncio a pensar se tal dizer cabia na boca e contexto.
- A proposta está ou não está de pé? - repetiu a fúnebre.
- Não, não está - irrompeu o homem, com tom desafiante.
- Entendo - disse a morte virando o rosto para baixo por um segundo - então darte-ei outra opção para que puedas escolher..
Pensou um momento e enquanto o fazia começou a arrastar o cabo da foice na altura do ventre, volteando-o na palma da mão.
- Deixo que te esqueças de mim - coçou o lóbulo da orelha esquerda com a mão direita como se lembrasse de umas palavras e seguiu - mas para que fiques com teu novo maridinho, terás que casar-te com ele. E agora mesmo! Sem mais rolos que suas vidas estão por um fio!
Então a mulher olhou para a foice, virou para o homem que já protestava, não, não, isso não, e ele começava já a vestir-se para largar-se, mas a morte lhe ordenou que parasse ali mesmo e virou-se, esperando a resposta da mulher:
- Eu caso. - respondeu a velha firmemente.
E o homem tentava correr, no desespero que estava, e gritava que já tinha outra esposa e, assim sendo, uma mais não lhe cabia, mas a morte lhe disse que a ela não lhe vinham bem estas frescuras de fidelidade - principalmente à vida - e começou a disparar cânticos sem alma e idade, acendendo incensos por toda a casa. Quinze minutos e a cerimônia já tinha ido - não fizera jus ao nome.
- Pode beijar a noiva - disse a morte.
E a velha sapecou um beijo ao homem que se via preso por uma espécie de encanto ou mágica ou sabe-se lá que coisas. Mas logo beijou-a calado porque com a morte mais vale estar de bem do que estar com ela. Aí a morte pôs o sombrero negro arriba das tranças e quase sorriu, tanta graça que foi findar a função com frase e foice:
- Lhes declaro marido e mulher, até que a morte lhes separe.

Olhou para o relógio, pensou que o último trem ainda não saíra, passou a mão na maleta e foi indo pela porta, com as duas sombras negras que lhe seguiam.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 09:27 Comentários:




12.11.06

Hora
Guilherme Póvoas
Ninguém compareceu ao seu enterro. Mas tudo ocorria normalmente. O caixão, a cabeça sempre baixa do coveiro. Tudo nos conformes. Estava só, ali, inconformado. Do amigo de bar, do companheiro de cervejas e de mulheres, nada. Do filho, que mesmo desgarrado recebia dinheiro pelo correio, nada. Da faxineira da casa, para quem tanto carinho depreendeu durante décadas, nem um fio de cabelo. Nada durante o enterro. Apenas o padre a rezar em vão um pai nosso com fé. Dois olhos negros observavam distante o funeral, mas não. Não era alguém. Mas um ninguém a roubar flores de outros jazigos. Até aquela vizinha, cuja qual devia-lhe algum dinheiro, não compareceu. E olha que ela havia prometido. "Não morra sem eu lhe pagar." Agora, dívida quitada. Paga com um cheque assinado pela morte. Pois nem guarda-chuva preto, aberto sob a chuva, estava lá. Aliás, nem a chuva apareceu. Sem saber o que acontecia, o morto deu por si. Deu conta, de que estava vivo. Ainda não era a hora. Ele que se ausentara tanto de sua própria vida.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 03:04 Comentários:




31.10.06

46 músculos
Gabriel Silveira
Parece incrível que, onde eu vejo equilíbrio, os outros vejam o contrário. Nunca foi uma questão opinativa. É como se, simplesmente, eu tivesse um extra sentido, um dispositivo a mais - ou a menos, insistem alguns - que me permite saborear ao máximo a estabilidade e o comportamento civilizado nas pessoas. Sei bem, ninguém precisa repeti-lo aos ventos, que cada qual tem suas maneiras e seus pontos-de-vista, sería uma ofensa de minha parte conceber a liberdade individual de uma forma distinta a de meus contemporâneos. E, para a surpresa de alguns, é exatamente neste ponto - nas bases do sagrado liberalismo! - que esteio meus principais argumentos em meu favor. A questão é que, fruto de minha paixão quase orgânica pela estabilidade material e pela manutenção da harmonia moral, brotou-me uma verdadeira rejeição a um ato que parece totalmente natural no restante das pessoas: o gargalhar.

E não se trata, como alguns poderiam de antemão supôr, de uma inquietude despertada pelo som que emitem. Isso, apesar de que em algo realmente me incomode, não chega a ser de todo um distúrbio grave em meu discorrer diário. Talvez seja tamanha a ¿oferta¿ de barulhos em nossa sociedade, que minha concepção de mundo já venha auto-programada para recebê-los sem maiores problemas. O que, sim, me quita a paciência por completo e atua em meu cérebro como se lhe enfiasse milhões de mínimas e pontiaguas agulhas cirúrgicas, é o lento contorcer que precede a abertura repentina da boca, o balançar impaciente das cadeiras sobre as pernas e, finalmente, o dobrar oblíquo dos joelhos, deixando o corpo cair para trás e os ombros dançando sempre no sentido inverso das costelas. Desequilíbrio! Todos os meus sentidos me dirigem a esta verdade. Parece realmente - somente se percebe estando atento aos sentidos! Aos sentidos! - que são quase como macacos buscando voltar à caminhar sobre quatro patas, ou restos de uma raça bizarra e agonizante que agacha-se para se aproximar ao pó que lhe gerou um dia. O que tenho certeza é que, somente o citar de tal ato, choca a cada milímetro nervoso do meu corpo, deixando-me totalmente extasiado. Já me instruiram: nestes momentos é preciso respirar fundo, contrair e estirar cada um dos dedos da mão e contar lentamente até 100 (este exercício me ensinou o velho Dani, que se burlava dizendo que só funcionaría se eu fizesse esta contagem em números romanos).

Enquanto exercía um cargo absolutamente acadêmico, esta espécie de sexto sentido nunca me foi prejudicial. Está claro que o mundo intelectual em que convivia não era lá muito chegado a dito mal e eu podia estar sempre confortável - e seguro - enquanto estava no Campus da Universidade. Meu medo restringia-se às grandes reuniões docentes ou às festas de final de ano, em que sempre precisava construir argumentos que me liberassem de tais eventos. Apesar de que, desde muito jovem, eu tenha perdido contato com qualquer tipo de família - morreram meus pais e avós meses antes de completar 12 anos e, portanto, sempre quando me refiro a eles visualizo o representante da seguradora que me tornou um homem rico alguns dias depois - é deles que me utilizo para minhas escapadas. Assim, uma nobre avó que sofre de uma síndrome qualquer me evita o confronto com uma turma de estudantes juvenis e um solitário pai na noite de ano-novo me poupa da abertura de vinte e cinco garrafas de champagne em sequência pelos diretores de cátedra.

No final, foi a própria falta de entrosamento com os tais diretores que acabaram por desgastar minha imagem interna na Universidade. Depois das duras críticas que recibi pelos artigos em que defendia uma fundamentação schopenhauriana a Joyce - o preço que se paga por não seguir as modas! - fui primeiro obrigado a estabelecer minha posição ética frente a meus colegas e finalmente, como única e última forma de evitar um confronto que quebraría qualquer tipo de harmonia que ainda mantinhamos, deixar o corpo acadêmico, abandonar o colegiado de desenvolvimento intelectual que ajudei a fundar e ausentar-me de meu retiro de tranquilidade.

Nunca pude ver com clareza aquele vácuo em que simplesmente deixei de existir para o mundo. Lembro de sentar-me na janela do décimo sétimo andar em que fica meu apartamento, com um único e solitário cigarro ao lado. Prometia a mim mesmo, como prova de disciplina, fazer com que durara por toda a noite e, assim, o acendia, tragava e logo o apagava, e via-me obrigado a gastar todo o tempo que me esperava até a próxima tragada com o único entretenimento que me restava: pensar.

Levei algumas semanas para organizar meu currículo e revisar todas minhas publicações, então o enviei a diversos contatos que haia construído no mundo editorial. Confesso que esperava um trabalho como uma espécie de correspondente ou articulista, mas me vi obrigado a aceitar o cargo de especialista técnico em uma revista científica. O grande problema é que tinha que estar na redação diariamente, o que nunca imaginei que pudesse tornar-se tamanho suplício.

Só trabalhando seis horas diárias com esta raça para saber do que se trata. Jornalistas! Jornalistas! Menos deles e teríamos um mundo parcialmente melhor. São dispersos, disconectos, momentáneos e supérfluos. Menos de cinco dias levei para constatar a impossibilidade de dividir meu espaço vital com esta espécie intolerável. Não pensem que sou eu o intolerante, não me encaixo para nada ao estereótipo sensível que preenchem os intelectuais à moda antiga. Até as nove da manhã, enquanto estes corvos certamente ainda dormiam baixo seus ninhos preguiçosos, eu conseguia desenvolver todo o trabalho que me encargavam, com o silêncio da manhã balançando suavemente a palmeira que terminava à janela da editorial. Mas logo antes das dez já começavam a soar os telefones, o abrir e fechar dos elevadores e os jornalistas se amontoavam nas pequenas salas fumando seus cigarros baratos, enchendo de gritos o ambiente e, o que é pior, gargalhando sem parar, como se, a cada frase, lhe descargassem correntes de altas tensão que lhes fizessem abrir as grandes bocas cheias de sorriso e gargalhar, gargalhar, efusivamente gargalhar.

Na segunda-feira seguinte à minha admissão, solicitei uma sala em que pudesse ficar em meu ambiente reservado. Frente à negativa - mais que previsível - da diretora que me havia contratado, propus um horário alternativo em que pudesse trabalhar em paz. Em princípio parecia uma loucura, mas certamente pude estar mais tranquilo, ao menos nos primeiros dias. Começava meu labor diário às seis da manhã e, até as nove horas, organizava meu artigo diário. Saía antes da chegada da manada de gargalhantes, e voltava a meu apartamento, onde passava grande parte do dia. Às cinco e meia, então, voltava à editorial, que já estava de volta à normalidade, para terminar o artigo com as idéias e conceitos que estavam totalmente maduros em minha cabeça. Trabalhava com muito mais facilidade a este horário e por algum tempo pensei que, ali, havia finalmente encontrado meu verdadeiro modelo de trabalho. O primeiro incidente que tive foi em um destes dias em que meu trabalho havia fluído com total naturalidade. Desci da editora por volta das dez da noite e voltei passeando pela cidade silenciosa, como sempre fazia questão. A melhor amiga do homem é a noite - ao menos sempre que esteja em silêncio. Tão somente saí do edifício e cruzei a rua, notei que um grupo de pessoas conversavam alegremente na esquina com a avenida que me leva a casa. Respirei fundo e segui adiante, sem mudar o caminho. Quanto mais me aproximava, entretanto, mais baixo tornava-se o volúme de suas vozes. Isso me ajudou a relaxar tanto, o que só piorou o momento em que finalmente passei ao lado dos dois casais, que soltaram uma imensa e aparentemente infinita gargalhada ao meu lado. Meu susto foi tamanho que, automaticamente, fui jogado no gramado que costeava a esquina. Os quatro me olharam com olhos mais do que assustados, ameaçadores, como se fosse eu um demente ou algo assim. Só tive tempo de levantar-me e correr pela avenida afora, até chegar a meu apartamento, onde o décimo sétimo andar finalmente me deu um pouco de tranquilidade.

No outro dia, estendi-me um pouco mais no trabalho, prevenindo-me de um novo encontro com os mesmos casais. Inclusive fiz um caminho alternativo, saindo dos fundos do edifício e obrigando-me a contornar toda uma quadra a mais para sair do outro lado da avenida. Entretanto, quando já a tranquilidade invadia-me, no segundo semáforo depois do cruzamento, três jovens, como verdadeiras aparições, como vultos fantasmagóricos de uma nostalgia, saltaram desde um poste de luz, cortando-me o caminho bruscamente, e soltaram verdadeiras ¿carcajadas¿ com tal manobra, despejando-se pela calçada como se fossem bebês famintos a chorar. Me protegi daquela agressão violenta, disparei entre os carros que cruzavam o sinal verde e, por muito pouco, não me atropela um ônibus metropolitano que vinha contra minha direção. Utilizei os buzinaços como uma espécie de cobertura para minha fuga e me perdi na escuridão dos cedros do parque municipal.

Semelhantes ataques ocorreram nos dias que se seguiram. Na quinta-feira à noite, cheguei em casa perdido