Marob e o pássaro da honestidade
Gabriel Silveira
Todos os índios da pequena aldeia de Morab, no sul do Zaire, sabiam das dificuldades de passarem pelo duro teste da maturidade imposto aos meninos que desejavam tornarem-se guerreiros quando completassem 20 anos de idade. Entretanto, para um menino Morab, era uma vergonha quase fatal não submeter-se ao teste. A disputa consistia no seguinte: oito meninos, escolhidos especialmente entre todos da aldeia, eram levados, devidamente vendados, para um distante ponto da selva. O menino que achasse primeiramente o caminho de volta para casa, e isso poderia durar alguns dias, seria decretado o grande vencedor e gozaria dos louros de ser um grande guerreiro Morab. E isto não era pouca coisa: além de ser dispensado de qualquer atividade braçal e ser dedicado exclusivamente à defesa da aldeia (o que nestas épocas já não significava muita coisa) o guerreiro Morab ainda dispunha do privilégio de ter várias esposas (o que não era nada difícil arranjar) e o respeito gratuíto de toda a aldeia.
Durê sempre foi apaixonado pelas histórias dos antigos guerreiros e líderes de sua aldeia. Apesar de ter apenas 19 anos, Durê foi escolhido para o teste deste ano e estava ansioso para que esse dia chegasse. Entretanto sua avó Duiá não gostou nada da escolha do menino. Durê foi criado por ela após perder pai e mãe, ainda quando tinha 3 anos, em uma batalha contra os Zuicãs, do outro lado do pico Astuit. Somente a citação em voz alta do famoso teste lhe dava pânico. Sua resistência, porém, não apresentou resultados. Durê sempre fez questão de participar de todos os treinamentos, todas as expedições e tudo mais que fosse relacionado com os famosos guerreiros.
Naquele dia, Durê chegou em casa mais cedo do colégio. Trouxe consigo seu melhor amigo Masdum, um garoto magro e grande, desajeitado,escorrido como a chuva, mas que também fora escolhido para o teste no dia seguinte. Duiá preparou-lhes uma refeição mas os dois estavam tão entretidos com os preparativos que nem deram ouvidos à velha vó. Ficaram conversando durante horas até que o dia começou a despedir-se. Durê chamou-lhes atenção em relação à hora e que deveriam repousar para partirem para o desafio com fôlego total. Eles se deitaram. Naquela noite, como já é tradição em Morab, todos tiveram sonhos tão reais e vivos que era possível ouvir urros e gritos por todas as partes da Aldeia. Durê sonhou que havia vencido o grande teste. No sonho tornava-se um grande guerreiro, mais forte e astuto do que todos os outros que haviam passado por Morab. Masdum sonhou que um pássaro vinha lhe encontrar, no meio da selva, e lhe dava asas para vencer todos os inimigos. Quem olhasse Masdum deitado podia ver em sua negra face toda a felicidade e calma que aquela idéia a ele representava. Já Duiá teve um pesadelo horrível. Tão horrível que passou mais do que a metade da noite sentada às estrelas conversando com o Supremo Guerreiro Morab, como era chamado o deus da tribo. Duiá pouco lembrava do pesadelo a não ser das serpentes e cobras-cegas das quais se lembrava com precisão
Era manhã de sol em Morab e toda a Aldeia havia se reunido para ver a partida dos pequenos guerreiros Morab para o tão grandioso desafio. Cada um dos meninos recebeu um runa com um símbolo determinado, as quais deveriam ser apresentadas no dia da chegada sob pena de desclassificação. A poeira do chão batido formava redemoinhos com o vento que cruzava do leste. Os índios diziam que era um bom sinal, afinal o vento corria a mesma direção que os oito desafiantes deveriam seguir. Durê estava tranqüilo quando lhe tiraram a venda dos olhos. Era o mais forte e o mais resistente entre os oito e contava ainda com a ajuda de Masdum que tinha o melhor senso de localização dentre todos. Partiram. Ao começo engoliram com facilidade grande parte da rota. Entretanto, apenas três dias após a partida os desafiantes foram castigados por um forte vento que levou a desistência cinco dos oito que empreendiam a viagem. Os outros três, Durê, Masdum e Redô, um menino pequeno e ágil, seguiram avançando mas mesmo assim paravam muitas vezes para descansar. Apesar de terem o mesmo destino as rotas de Durê e Masdum, que continuavam juntos, e Redô eram bem diferentes. Ainda assim, podiam enxergar o outro competidor ao longe, em contraste com o grande sol que voltava a se debruçar sobre os viajantes. Somente por isso ficaram sabendo quando Redô foi pego por um grupo de Leões despertado involuntariamente pelo menino. - Não há nada que possamos fazer - disse Masdum - Durê concordou. Dois dias depois a queda de Redô, eles se aproximavam da última barreira de sua jornada: a travessia do Rio Jamuco que marcava o território dos Morab. Durê estava cada vez mais obcecado pela vitória e quase não conversava mais com Masdum, nem nas horas de descanso. Quando já visualizavam o grande rio, Durê seguiu até um lugar onde seria mais raso e que portanto poderia facilitar-lhes a travessia. Masdum jogou o longo galho e firmou-o permitindo a passagem do amigo primeiro. Quando Durê chegou ao outro lado puxou o galho e tirou-o das mãos de Masdum.
- Só um de nós poderá ser o vencedor.- disse Durê - Eu já fiz minha escolha.
Masdum não falou nada. Espremeu seus olhos espichados e cheios de lágrimas e sentou-se. Do outro lado, Durê preparava-se para partir. Então Masdum viu, ao longe, uma estrela cadente que lhe lembrou do pássaro da noite passada. - As asas - Masdum murmurou. Então partiu em direção ao lugar do rio em que sabia poderia realizar a travessia. Apesar de levar mais de 5 horas de viagem e isso comprometer completamente suas chances de lutar pela vitória, Masdum levava um sorriso estampado em seu rosto e a lembrança do pássaro do sonho. Quando terminou a travessia, Masdum imaginou que nesta hora Durê já estaria sendo saudado como grande vitorioso. Mesmo assim seguiu suas trilhas e correu na direção de Morab. Após andar duas horas, notou que havia um peso a mais em seu bolso. Tirou sua runa do bolso e para sua surpresa estava lá também a runa de Durê. - Um tolo não tolo nunca repete uma tolice - murmurou. Catou uma pequena pedra do chão e desenhou, com a ajuda de sua lança, um desenho diferente do qual estava grafado na runa do seu concorrente. Daria uma nova chance ao amigo: se agora Durê fosse fiel até o final da disputa, Masdum o entregaria a runa verdadeira. Se não, ele mesmo daria fim a runa e venceria a competição, de maneira pura e honesta. Seguiu, então, sua marcha constante em direção a sua cidade, quando finalmente visualizou Durê, sentado em uma pedra, com a cabeça baixa e o pensamento em áreas talvez mais desertas que o próprio deserto.
- Durê? - perguntou ele - o que aconteceu?
- Eu perdi minha runa Marob, Masdum. Não há mais meios para que eu alcance a vitória.
Então Masdum tirou a runa verdadeira do bolso e disse a Durê que ele lhe daria a runa, contando que voltassem a ser amigos. Durê pediu perdão e aceitou a proposta. Então Masdum, rapidamente, trocou a runa verdadeira pela runa falsa e enrolou-a em um pedaço de pano. - Assim será mais difícil perdê-la - disse ele. No momento em que Durê pegou a pedra soltou toda a força de seu braço sobre o corpo de Masdum que caiu imediatamente tamanha foi a força despejada pelo soco de Durê.
- Ainda assim - disse Durê - há de existir somente um vencedor.
Masdum lento e tranquilamente ergueu-se e continuou andando. Ao longo do trecho, jogou a runa verdadeira de Durê dentro de uma toca de serpentes enquanto repetia o ditado Marob: um tolo não tolo nunca repete uma tolice. Naquela noite, Durê foi desclassificado da competição e rechaçado pela vergonha e embaraço eternos. Masdum sagrou-se o novo guerreiro Marob por demonstrar um conjunto de força, sabedoria, perseverança e o mais importante de tudo, companheirismo. Pela manhã, alguns Marobs juravam ter visto pela noite o canto de um pássaro negro e desconhecido.
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