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31.8.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Maria Eduarda estava no seu regime há 23 dias. Começara a evitar doces e excessos no mesmo dia em que terminou um namoro de 4 anos e meio com Carlos. Um namoro tão cheio de paixão e de amor, tão dotado de sinceridade e doação mas que acabou por acabar (se me permitem a repetição). "O amor às vezes não é tudo", dizia às amigas enquanto tomava um drinque no Bar da Castela, na esquina da Osvaldo com a José Mendes. Naquele dia pela manhã sentira vontade de ligar para ele e castigou a si mesmo deixando de comer o dia inteiro por ter sequer pensado na possibilidade de voltar a pensar nisso. Afinal "se acabou, acabou", nas palavras dela. Entretanto era ali, naquela mesa de bar, ao lado de 4 amigas, que os 23 dias de penitência, se é que podemos chamar assim, estavam fazendo efeito. Quando a conversa da noite já havia passado por todos os homens bonitos da tv e do cinema, o interesse estava tomando o rumo dos relacionamentos individuais quando Maria Eduarda simplesmente desabou no chão. Agitadas, suas amigas correram à socorrê-la e logo ela tinha tornado a levantar-se. Disse que estava tudo bem e, apoiando-se na pequena mesa cheia de garrafas, foi embora chorando e tropeçando entre obstáculos que pareciam tomar vulto do nada. Voltando para casa, não conseguia parar de pensar nas caixas de bombom que um dia comera e nas feijoadas de sua avó. A visão bêbada transformava a noite pouco iluminada em um circo desses que aparecem em qualquer cidadezinha cheios de vontade e esperança mas que não passam de um bando de palhaços mal treinados cheios de luzes para cima e para baixo rodopiando como um bando de malucos. E foi assim, cambaleando, que Maria descubriu o caminho de casa e entrou triunfante por sua porta e não tão triunfante se deslocou até a privada do banheiro onde colocou para fora o pouco que havia colocado para dentro. Coincidentemente, ou não, Carlos havia passado pelo mesmo Bar da Castela e conversado com as amigas de Maria Eduarda que lhe contaram o ocorrido. Carlos pegou o pouco dinheiro que tinha, comprou uma bela caixa de bombons e foi direto até o apartamento de sua ex-futura-namorada. Bom, o resto... o resto você já sabe. O importante é saber que o amor nem sempre é o bastante mas não há nada como uma caixa de chocolates para uma mulher triste e solitária.

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30.8.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Ele prometeu que desta vez não passava. Aquela teria sido a última noite de Alfredo e Paula. Depois de um belo jantar, onde pizza e coca-cola contextualizam o belo (caro), subindo as escadas ao apartamento de Paula, o rapaz saberia o final da noite. ¿Bom, uma vez há mais ou há menos já não faz diferença nenhuma¿, pensou ele. O habitual comentário que Alfredo sempre fazia sobre aquele programa de humor sem graça de todos sábados à noite precedia o beijo. Toque labial, que dava início ao rumo em direção ao cume da semana daquele rapaz urbanizado.
Ela, sabendo da pura e ingênua fidelidade dele, se entregava à vontade de ambos, permitindo um profundo entrelaçar de romantismo. Após o prazer, a mercantilidade machista de Paula sempre se sobrepunha diante das opiniões do jovem. Ninguém conseguiria definir a relação ultra-íntima do casal separado e híbrido. Teria-se, talvez, de inventar um novo termo para taxar aqueles pássaros, longes de pombos. Solteiro, separado, casado, ajuntado, namorados... isso não servia mais.
Eles seguiam se olhando. Um à face e a face do outro. Pensando no que estaria pré-fabricado para o futuro, em decorrência dos atos recém praticados. Prometendo que jamais se repetiria, que aquilo sim era um ponto final.
-Esta foi a derradeira?
- Eu prometo. Estou me despedindo.
Então lá se foram. Pensando para si, que lugar irão jantar no próximo sábado quando Paula estiver de folga.

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Mergulho em um profundo copo dos frutos de Bordeaux. A coloração negro-azulada me transporta em mundos transmateriais que nem mesmo em meus sonhos imaginava existir. Colorações esverdeadas, vermelhas, em um fundo caramelado que reveza com um tom de amarelo queimado de encher os olhos. Caminhos por nuvens cheias de ar e de esperança que, a cada passo que dou, desmancham-se parcialmente em lágrimas divinas azuladas que contornam iguras cintilantes no céu. Desbravo fronteiras entre céu e terra, pensamnto e matéria, moral e estética. A luz da sabedoria e da evolução machucam meus olhos e por isso é preciso estar preparado. Ter os sentidos da mente aguçados. Ah, a mente. O espírito mental com seus sentidos maravilhos. Seu tato tão sensível e perceptivo que viaja por mundos maravilhosos em segundos. Seu olfato que percebe a angústia, a desconfiança, a vergonha. Seu paladar, capaz de sentir o amor, a paixão, o medo. Sua audição, óh poderosa audição, que interpreta os sons da vida, que viaja nos campos da harmonia filosófica e nas incertezas da fé religiosa. E sua visão tão profunda, capaz de ferir profundamente com suas percepções tão imateriais e com sua força de penetrar em corações mal intencionados. Ah, meu Deus. Desenvolve meus sentdos do espírito mental para que possa atingir campos da sabedoria tão vastos como os salões de Moria ou os desertos africanos. Sei de minhas vontades e de meus medos. Mas nunca hei de conhecer meus limites pela simples razão de não permitir-me demarcá-los.

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26.8.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Estava sentado já há algum tempo próximo ao mar. Nada conseguiria tirar minha atenção das lindas falésias de Etretat. Estava sozinho e com fome mas não conseguia parar de imaginar como a natureza é maravilhosa e de que a Normandia é, sem dúvida, um dos lugares mais belos do mundo. Pensei então em como algumas formas naturais resistem ao tempo e às batalhas enquanto grande castelos e fortalezas caem facilmente em virtude das mesmas. Quando já estava pensando nas infinitas expressões de uma força não humana na terra e em sua história é que percebi que precisava ir embora. Quando levantei-me percebi que, pelo tempo que havia ficado sentado na areia, havia deixado a marca de meu peso. Entretanto, imediatamente após ver a marca, ela desapareceu levada pelo repuxo oceânico. Esbocei um sorriso maroto e disse, em voz alta: "As ações materiais do homem são facilmente digeridas pela natureza e se perdem no tempo, mesmo que por tempos resistam. Agora as idéias, as histórias, os pensamentos, esses resistem à eternidade e à abstração do espírito e sobrevivem em qualquer estágio da natureza universal". Limpei os pés e fui embora. Na minha viagem mental, ainda precisava comprar ostras em Trouville.

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Se Demócrito estivesse entre nós hoje, e talvez esteja, não diria que somos compostos de pequenas partículas, átomos, idênticas que se separam e se agrupam novamente para formar novas coisas. Ele, em sua imensa capacidade de pensar, jamais acreditaria que tanta coisa boa e tanta coisa ruim pudesse ser fruto da composição de uma mesma matéria prima. Tanta luz e tanta falta dela convivendo em um mesmo mundo onde a maioria de nós padece observando, ou menos do que isso, e deixando que qualquer Zé Bush controle nossos futuros. E se o romantismo alemão contaminasse apenas por um segundo nossas vidas e pudéssemos gritar, bem alto, para que alguém lá de cima do comando geral da terra, ou do universo, e dizer "- Oi, estamos aqui, vivendo, ou melhor, rastejando, ou ainda, batendo nossa cabeças umas nas outras buscando soluções para fugir desta prisão material e limitada" talvez aí conseguiríamos nos libertar. Quem sabe por um segundo, somente um segundo, consigamos abrir nossa mente, nosso espírito e libertar-nos desta extensão de matéria, estas experiências imaginadas por Deus (era Berkeley quem dizia isso?) ou por algum qualquer(que não deve ser um qualquer) que está mexendo os pauzinhos lá em cima, e gritar "- Eu penso, eu gero, eu sofro". Não que todos não saibam disso mas que talvez, e somente talvez, saber que alguém está ouvindo nosso pútrido manifesto missionário seja um impulso importante para que todos nós ergamos o corpo no próximo dia e no próximo e no próximo e, se for do gosto dele, ainda no próximo para trabalhar pela evolução racional e espiritual da humanidade.É possível?

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Saímos, eu e Fernando Lima, da sala central até o pátio conversando sobre a Ilha da Madeira e suas culturas. Ele morava ali há mais de dez anos e eu mal tinha chegado pela primeira vez ao belo arquipélago. A bela vista do funchal nos inundava em uma conversa poética sobre os poetas portugueses e ao ilustre Fernando Pessoa com sua visão tão linda sobre o mar português. Acabamos caindo na discussão sobre os conquistadores portugueses e eu questionei o fato de tantas vidas haverem sido perdidas em nome de conquistas. No que ele respondeu, "Não se trata de perder a vida em nome de conquistas quando o próprio fato de conquistar é a sua vida. A grande discussão é o questionar o que seria de nossa vida se aqueles vidas perdidas não tivessem na alma o gosto da conquista". Achei tão confuso o pensamento que não disse nada a Fernando naquele momento. Entretanto, dois meses depois quando voltei ao Brasil e vi os prédios de Porto Alegre no horizonte, percebi o que Fernando queria dizer. Nada haveria no nosso viver se tantas vidas não tivessem vivido pelas conquistas. "Deus escreve certo por linhas tortas", alguns diriam. E não é que Cabral errou o caminho para as Índias?.

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20.8.03<$BlogDateHeaderDate$>

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AS LÊIS DIVINAS, O CERTO.
Acreditar em Deus, não interessando a forma, é uma coisa muito forte. Não é a mesma coisa que acreditar em parentes ou confiar em familiares. Acreditar em Deus é aceitar que há um Criador, o Maior. Assim sendo, como podemos separar essa crença do ato de governar. Ele jamais iria deixar os humanos sem uma orientação correta em relação à sociedade.
Um Estado layco só prejudica as relações interpessoais e familiares, tornando o mundo esse caos que aí está. Sabe-se que com esses sistemas vigentes não alcançaremos nada, o comunismo falhou, logo, temos uma forte prova do califado islâmico e de seu perfeito funcionamento: os mais de 1200 anos de governo muçulmano no qual perpetuou a igualdade.
Esses anos de califado provaram para nós, muçulmanos, o quanto então é necessário um líder para mostrar a verdade à uma nação mundial encabeçando as frentes revolucionárias.
Lendo o Alcorão, podemos notar que Deus com tudo se preocupou. Nas leis vemos que tudo realmente tem de acontecer para uma satisfação social real, onde o respeito mútuo e o recatamento de ambos os sexos sejam essenciais.

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18.8.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Virtuoso Goethe.

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O teste de Manolo
Gabriel Silveira

Manolo passava horas sentado na pequena cadeira de palha à frente de sua casa. Olhando a pequena morada, uma das últimas resistentes ao esquecimento do deserto, ainda sentia a mesma emoção que o fizera largar o trabalho de caixeiro-viajante e fixar morada ali, há mais de 39 anos. Neste momento, Manolo estava com os olhos fixos no vento do deserto que abraçava a areia carregando-a em pulsos e formando pequenas nuvens alaranjadas que competiam com o azul pacífico que o céu ostentava no outro extremo. Entretanto seus ouvidos estavam ligados na conversa de sua mulher, Lorena, com sua vizinha Mercedes. "...a Maria é que está bem. Arranjou-se com um jovem da cidade,viste?". E Mercedes, "jovem e lindo". Manolo não se preocupou muito com os elogios ao novo "garanhão" da cidade. Mas começou a pensar naquelas palavras de tal modo que não as havia esquecido no momento que suas duas jovens filhas, 16 e 17 anos, entraram em casa vindas da escola. Não haviam notado que Manolo estava sentado pois entraram pelo porta lateral que dá de frente à casa de Mercedes. Quando começaram a conversar, Manolo, que ainda observava a dança da areia com o vento, esticou seus ouvidos: "Viste que a Maria se arrumou? Está com jovem da cidade" e a outra continuou, "Além de jovem, é lindo". Neste momento é que Manolo recebeu, enfim, a mensagem que os ventos traziam junto com a areia. Não que aquele jovem era verdadeiramente lindo e que vinha da cidade. Não foi isto que Manolo perceubeu. Foi naquele momento que Manolo percebeu o impacto que uma simples novidade causa no dia a dia dos moradores daquela mínima vila no sudoeste do Chile. E percebeu também que a primeira pessoa que viu o jovem, que na verdade nem era tão jovem assim e que tinha uma beleza que não passava de um belo simples, um comum acerto de simetria, é que tinha decidido como todas as pessoas do vilarejo, ou pelo menos grande parte delas, se refeiria ao modesto homem que chegara na cidade sem eira nem beira e que, por sorte, encontrara um amor desesperado e um casamento oportunista. Pensou, então, em testar sua teoria: levantou-se pela primeira vez de sua cadeira desde o começo da manhã, dirigiu-se até o pátio do lado e disse:

- Mercedes, viste como a areia nesta primavera está mais escura do que o normal?

Mercedes ergueu a cabeça e olhou para o deserto como se fosse a primeira vez que notava que havia algo ali e, sem notar coisa alguma, respondeu-lhe:

- É. Não havia notado nada disso.

Então Manolo virou-se e voltou para casa, abrindo um sorriso maroto como o do menino que pela primeira vez espiou uma mulher trocando-se no banheiro. Tinha certeza que a mesma informação voltaria a encontrar-lhe. "Tudo que sobe tem que descer", pensou ainda sorrindo. Entretanto, naquele dia, Manolo já havia daquela história toda. No outro dia já havia esquecido inclusive do teste que havia iniciado. E assim passaram-se os dias, as semanas, os meses, as areias dançantes e as estações. Um ano depois, Manolo estava no mesmo lugar que gerara todos aqueles pensamentos. Mas agora não olhava o deserto. Estava focado na imensidão do céu e como algum escritor havia dito um dia que na verdade o céu era um gigantesco espelho do oceano. Um barulho ao seu lado interrompe-lhe os pensamentos. Lorena havia pego o pequeno banco de madeira feito há dois meses por Manolo. Sentou ao seu lado sem fazer qualquer menção de dizer alguma coisa como se estivesse apenas querendo usufruir dos pensamentos de seu marido. E ficou assim, por algumas horas, observando o deserto enquanto Manolo tentava achar onde estava a outra parte de seus pensamentos que o barulho do banco de madeira havia espantado. Foi quando,subitamente, Lorena disparou:

- Manolo, viste como a areia nesta primavera está mais escura do que o normal?

Manolo lembrou-se imediatamente de seus pensamentos que há um ano haviam levado-lhe a fazer um teste mas manteve-se enconstado no recosto da cadeira. Então, abrindo um sorriso de satisfação como o do navegador que descobre novos horizontes, disse:

- É. Não havia notado nada disso.

Pensou, então, que eram grandes as possibilidades de que sua experiência, enfim, houvesse funcionado. E passou o resto dos seus dias com a certeza de que o verdadeiro poder estava na mão de quem sabia o que dizer e em que momento dizer. E que os verdadeiros donos do mundo eram aqueles que detinham o poder de atingir milhões de pessoas com a notícia, a história ou a mentira que quisessem.

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Terminei ontem de ler meu Gothe. Quase chorei no livro de tão espetacular. Na verdade me identifiquei com o jovem Werther. Tanto amor à intelectualidade e às pessoas e tamanha doação ao amor muitas vezes esquecendo de tudo que há ao redor deste. A sua morte é a libertação da dor que ele mesmo provocou. O fim do seu martírio. Deixa a dor a quem tanto amava. Deixa a solidão da sua caridade às pessoas que dela desfrutavam. Tão sábio e tão ignorante. Tão forte e tão fraco. Tão falho de suas próprias certezas.

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15.8.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Escrito há quase dois anos.

Cabo do Medo
Guilherme L. Póvoas

O soldado solitário andarilho passava para uma frente derradeira de sua vida. Algo mais grave estava para acontecer na tênue linha de seu tempo-história e de todas suas estações. O cabo Alberto havia chegado em sua agora, antiga casa no interior do Estado, longe de qualquer coisa que por um descuido poderia lembra-lo daquela horrenda guerra. Ele sem contar com mais ninguém, não só naquele lugar isolado, mas também em sua vida, começou sua autodestruição.
Sentido o peso do pecado, magoado pela falsa causa em que matara homens mulheres e crianças, olhou para suas feridas ainda sujas. O sangue já endurecido e o braço de cor roxa, não lhe causavam mais repudia, visto que assassinara e fizera muito pior com os outros. De um soldado e cabo imensamente bravo, forte com sua Uzi e AR-15, terá-se agora como um ¿homem¿, que no beirar dos 35 anos, estava no final de sua vida.
Lembrou-se dos tempos em que ali passara com sua avó e sua tia. Longe de seu irmão e mãe, aprendeu desde cedo à não ter, e não sentir medo da saudade. Vira só agora, o tempo que perdeu nos bares e em festas. Absorvia só agora o gasto desenfreado de tempo e dinheiro na noite. Seguia o estereótipo do soldado, e não pretendia fugir dele. Mas atualmente não via mais motivos para continuar com aquele orgulho mesquinho e preconceituoso que o ajudara a empurrar para o abismo. ¿Coitado de mim!- exclamou para si mesmo, Alberto, o cabo que ajudou as forças combatentes aliadas a derrotar o fiel inimigo.
Cada vez que a chuva caia, ele recordava da entrada se sua tropa em terras do oponente. Em sua mente passava aquele filme real em que, no seu primeiro dia de guerra, ajudara a matar e aniquilar famílias com o consentimento do resto do mundo. Seu dedo direito balançava logo quando a chuva começava a cair, e só parava ao final do pingar, já com a bonança ajudando-o a travar aquele dedo acostumado e traumatizado pelo gatilho.
Alberto foi-se acostumando a pisotear a grama molhada do jardim de sua casa e a cozinhar com os utensílios que tinha, sem precisar recorrer. Numa solidão sem fim, o ex-pequeno-falso-gigante, cabo Alberto, encontrou-se singrando pela casa, fazendo sujeira para depois limpar, e deixando propositalmente os papéis das cartas em cima da mesa da sacada, para o vento levar, e ele depois ajuntar. Não pensou nas voltas que a vida dá, mas sim nos tempos diferentes em que vivera, muitos, sem a menor graça ou valor. Em um ponto de sua solidão, conformou-se em ter o que tinha, e ser o que era. Sabia que daquilo não sairá nunca mais.

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Mandei um e-mail para o mestre Sergio Schaefer. Espero que o sábio nos visite.

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14.8.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Faltavam poucos dias para o final da colheita quando Aldgreb agachou-se e pediu a Deus que abençoasse seu próximo plantio. Depois levantou-se e dirigiu-se até o alto de uma colina e, soltando um punhado de terra ao vento, disse: - Que a tua benção ilumine nossa terra, este teu tão ilustre presente. Apesar de prestar o maior respeito a Aldgreb, estranhei o ato pois nunca acreditei muito nestas manifestações simbólicas. Meses depois, ao falar com Cizinha, filha de Aldgreb, ela me contou que o novo plantio havia sido um sucesso. Só então me dei conta de que a fé é muito maior do que os homens e talvez seja isto, enfim, o que chamamos de Deus.

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Um dia um anjo me contou uma história sobre a terra do amor, onde todos os corações apaixonados viviam. Ao final de sua história ele disse, vendo a excitação de meus pensamentos em torno daquela aura de felicidade: - O amor glorifica os pacíficos, fiéis e principalmente, os tolerantes do coração. Mas tem uma queda profunda pelos que entregam-se de corpo e mente à chama da paixão e sangram na alma os breves momentos e as dores de um grande amor.

Então, quando o anjo se retirou, eu chorei.

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A função do saber não é apenas satisfazer um ego imbecil, este do qual quase todos nós somos portadores. Não o é, porque a função do saber, mesmo este saber do romance, das culturas e das variâncias da vida, mesmo este saber de tempos e sem destino, mesmo este saber companheiro e ilusório, ou mesmo aquele outro saber de intrigas e de decepções, é, em si, a própria vida. Esta busca a qual nos projetamos de descobrir, de redescobrir e debruçarmo-nos em volta desta descoberta, não deixa de ser a própria busca do viver e do vislumbrar o crescimento do próprio espírito. O saber é muio mais do que ego ou de que um instrumento de articulação social. É a pura busca do viver, do pulsar, do dividir, do compartilhar. Viver é buscar o saber. Saber é buscar a plenitude deste viver.

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Por favor, quebrem a cristaleira! Derrubem a estátua! Saiam de casa pelas janelas! Entrem nos supermercados sem camisa! O mundo precisa de força para que siga a movimentar-se. Um viva aos fortes! Quebrem tudo, mas o façam, pq a história é feita por pessoas que despertam!

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Alguém cantando longe sobre a água turva de meu próprio rio. Alguém cantando longe daqui. Eu escuto, silencio. E através das paredes e das entranhas materiais da sociedade eu sinto a vibração da vida, a sintonia do bem. Sinto ecoar o que pensei. E assim torno-me mais seguro como se tudo isso, enfim, fizesse algum sentido. Ser feliz não é ter comodidade. Ser feliz é ter medo, sofreguidão, saudade, amor. Ser feliz é ser o que não é, ter o que não há. E eu ainda consigo ouvir a melodia daqui, sem interrupções, somente a doce e tranqüila música.

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Ouvir Mercedes Sosa neste momento provoca-me um misto de tristeza e adrenalina que só a incerteza e o medo podem causar. Meus devaneios nostálgicos, minhas instrospecções silenciosas e reconstrutivas agora são as fugas. Escondido atrás de alguma literatura nobre ou de algum sonho infundado eu caminho. No frio das sombras metafísicas ou no calor da incompreensão intelectual eu tropeço. Mas as estrelas tomaram o céu ontem à noite e acredito que amanhã ele estará inspirado espelhando a imensidão do oceano. Sei o que se passa em minha mente, apenas não sei o que se passa na mente do mundo, na mente do todo, de todos.

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...E depois da morte do homem...

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Ouvi alguém dizer que nunca me deixou. Que tentou me deixar, mas nunca conseguiu.
Que discutiu com seu interior, discutiu. E, mesmo em uma crise, não melhorou seus problemas. Nunca mais, até quando, outra vez? Que mesmo com uma idéia consistente, como uma pedra que nunca fura a agua mais dura, se convencia da legitimidade de um caso. Que agora, digo a todos, cometendo o mesmo erro que me afundara algumas vezes. Esperando que este erro não calhe e se cale.

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Acredito na idéia.Na idéia de que existe apenas um Deus.

De que forma, temos de tentar divulgar nossos ideais. A luta, a sabedoria, a vergonha e também a raiva criam problemas para que, junto com a necessidade do adversário, seja impossível trasnparecer a verdade das mensagens reais. Essas, destinadas a bons atos.
Já que o colega esta se debruçando sobre Goethe , é pertinente que eu venha coloque todo o comprometimento que o
alemão empenhou em entender o islamismo. De forma que a dawah (ato de espalhar a religião de Deus) feita pelos muçulmanos, é meritoria também a este intelectual verdadeiro, mesmo não crendo na verdade admitida.

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12.8.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Estou lendo Goethe. É uma revolução este cara.

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11.8.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Ontem acabei de ler "O Dia do Curinga" do Jostein Gaardner, o mesmo do Mundo de Sofia. Simpesmente sensacional!!!! Um enredo super complexo (estruturalmente falando). Loucura. Achei muito bom. Hoje vou colocar outro conto aqui.

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8.8.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Defunto

Sou morto por saber
que sou só carne, enfim.
Saber que sou só o fim
de meus próprios almejos
e decepções.

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Entrado nessa cibernetia. Que modo? A distanca que separa o homem da verdade, nesse infinito inexistente entre a via real e a realidade virtual. Neofiton chego aqui tentando aprender.

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6.8.03<$BlogDateHeaderDate$>

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O silêncio interior. Este é o maior amigo do homem. Essa história de que é o cachorro é pura lorota. Mas falo homem no sentido machista da palavra, apenas para utilizar o chavão. Digo homem me referindo a qualquer indivíduo. Voltando ao silêncio interno, só quem o tem é que percebe sua importância. Alguns, por um medo terrível do auto-conhecimento, não conseguem silenciar seus pensamentos, organizar suas idéias. Na verdade o silêncio interno do qual eu falo nada tem daquele outro silêncio sonoro (se é que isso não é uma contradição). Possuir a capacidade de silenciar-se é ter a capacidade de dar paciência à impaciência; dar calma ao nervosismo; dar esquecimento à preocupação; dar colher de chá ao radicalismo. O silêncio interno é, sim, o melhor amigo do indivíduo (agora sim mulheres!!!). Saber tocar a corda que vibra no violâo para pausá-la. Escutar a si mesmo para conseguir escutar os outros. Ver as próprias entranhas, com suas podridões e suas belezas. Saber ver o que você sempre vê nos outros. Saber silenciar: a grande sabedoria, o verdadeiro tesouro.

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Saber falar bem é uma qualidade que poucos tem. Escrever bem também. Aliás as duas coisas trabalham juntas. Na verdade, quem sabe organizar seus pensamentos, buscar argumentos, gerar formatações lingüísticas, enfim, pensar com coerência, também fala e escreve com coerência. Claro, a escrita literária nada tem a ver com tudo isso. O texto literário precisa ter o seu próprio estilo, suas próprias inovações e formatos sem perder a obrigatória coerência textual. Alguns chegam a tamanha demonstração de inovação literário que estacionam entre a maravilhosa fronteira entre coerência inovadora e loucura total.

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Pensava que não gostava de pensar. Mas pensando deste lado, pensar nem é tão ruim assim. O problema de pensar é ver como é díficil ver que a maioria dos outros não pensam. Eu penso assim. Pelo menos penso que penso. Talvez, pensando desta forma, por esse motivo, ser difícil ver que a maioria dos outros não pensam, é que ninguém pense. Penso que existe uma cadeia de pensamentos, pela qual pensadores começam a pensar na cruel realidade de que a maioria não consegue pensar, levando-os a pensar na dura possibilidade de parar de pensar. O que vcs pensam disso? Não pensem demais ou poderão começar a pensar que eu não penso em nada.

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Mentira, la mentira!

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Mais um dia, mais uma corrente de frio. Mais uma caminhada, mais um assobio. Mais um pássaro canta e outro cala. Mais um cachorro a latir e um senhor a se assustar. Mais uma menina a passar e logo atrás mais um menino. Mais uma estrela a brilhar após o sol mais uma vez se deitar. Mais escravos a eajoelhar. Mais um ser humano esperar. Mais um café na manhã ou um clube social à tarde. Mais de tudo, mais do mesmo. Mais do que sempre ou do que ontem, sempre mais.

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5.8.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Pessoal peço que não levem em consideração alguns erros de digitação. Ainda não tive tempo suficiente para corrigir e revisar os textos. São somente suas idéias centrais, seus cernes.

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As vacas de Iago
Gabriel Silveira

Iago de Otero era um humilde camponês espanhol de San Miguel de Corrella da região da Mancha. Era um homem mais do que normal. Tinha uma mulher chamada Dionísia e dois filhos que não faria-nos falta se soubéssemos ou não seus nomes. Entretanto aqui vão, Maria e José. Tinha uma pequena casa pintada de marrom e branco com dois quartos, um banheiro, uma cozinha e uma pequena sala. Aos fundos tinha um modesto galinheiro, uma horta bem armada e duas vacas presas em um cercado de arame. Estas duas vacas, aliás, Iago nem sabia de onde haviam aparecido. Não porque tinham surgido como um toque de mágica mas, devido a grande quantidade de negócios e trocas que Iago fazia com seus animais, ele nem mais se lembrava da origem das duas magras vacas que davam um pouco de vida ao pátio de Iago. Dionísia era uma mulher forte. Apesar de ser uma profunda admiradora de seu marido, ela teria utilizado mais de sua esperteza nos negócios da família se lhe fosse dada a devida atenção. Mas com Iago não. Ele era a imagem perfeita do homem tradicional. Em sua casa quem mandava era o homem. Apesar disso nunca fora violento nem com Dionísia e muito menos com seus filhos. Ele decidia o que era melhor para toda a família. E sempre com seu tom de honestidade irreparável. Certo dia, Iago viajou para a cidade, em busca de um novo tipo de ração para suas galinhas. Não cabe a nós bisbilhotar as viagens do pobre Iago por isso tudo que precisamos saber é que Iago passou aproximadamente uma semana fora de casa, tempo bastante para que Dionísia tomasse as rédeas das negociações correntes.

¿Galinha de bico torto não quero!¿ ¿ gritava no mercado. ¿O quê? 20 pesetas? Mas esta vaca dá leite de cabra?¿. Sua aspereza já trazia saudades do calmo Iago aos habitantes da cidade e aos negociadores do mercado. Dionísia, apesar de não ter muita voz nas decisões financeiras da família, sempre esteve por dentro de tudo que Iago tratava e das dívidas que restavam pagar-lhe. Sim, porque não havia nenhuma dívida de Iago que não estivesse em dia, então somente o que poderia ocorrer era o contrário. E ocorria. Diversas vezes Iago havia sido passado para trás, enganado e tudo mais. ¿Entretanto ¿ dizia ele ¿ é melhor seguir no caminho da estrada sem os coelhos do que adentrar o bosque escuro para procurá-los¿. E Dionísia concordava. Três dias antes do retorno de Iago à pequena vila de San Miguel de Corrella, um antigo devedor de Iago apareceu carregando duas vacas. Disse à Dionísia o seguinte:

- Senhora Dionísia de Otero, deixo-lhe estas duas vacas em nome de meu patrão, Dom Rolando Cacherro, como pagamento de uma antiga dívida que este tinha com seu honesto esposo Sr. Iago de Otero.

Dionísia, espantado, agradeceu-lhe e guiou as vacas até o fundo de sua morada. Nas próximas horas, Dionísia se pôs a pensar. ¿Há tempos não jogo um bom carteado. Nenhuma dama pode viver muito tempo sem um bom carteado. Apesar de que, neste fim de mundo onde me meti pouco carteado há.¿ Dionísia não mentia. Há 36 anos atrás, quando Iago a conheceu, Dionísia era uma jogadora aventureira do oeste da Cataluña. Apaixonada, porém, abandonou tudo e fugiu com o novo esposo para a região da Mancha para viver e ter filhos. ¿Pois hoje jogo¿ ¿ pensou Dionísia.

Se pôs a caminhar em direção à casa de Dom Torelli, um canalha de primeira linha, o único lugar àquela hora do dia no qual a Senhora Dionísia de Otero poderia achar um carteado. Pois entrou, dispensou brincadeiras e sentou-se à mesa. ¿ Vim jogar. E aposto esta vaca aqui como nenhum de vocês me ganha ¿ disse autoritária. ¿ Pois que seja ¿ disse Dom Torelli. Sentaram-se todos e o final, por mais que seja óbvio, fica aqui registrado em memória ao nosso querido Iago de Otero. A Senhora Dionísia perdeu a vaca que apostara, dinheiro este que era tão bem vindo neste momento e que poderia sustentar a casa por uns bons meses, diria Iago.

Mas, enfim, ele ainda não havia chegado e bastaria dizer-lhe que havia recebido uma vaca de pagamento de não-sei-de-quem vindo não-sei-de-onde. Enfim, ele nem sabia de vaca nenhuma e não haveria de desconfiar de nada.

Chega Iago. Com um trote macio e suave, costas bem eretas em tom de elegância orgulhosa de quem chega da cidade grande, desce de seu cavalo e suas primeiras palavras após ¿Olá minha querida Dionísia¿ são ¿recebeste minhas duas vacas que vinham de Dom Rolando Cacherro?¿ Nesse momento Dionísia quase desmaiou. E se não o fez por questões de saúde física, o fez por questões de saúde psicológica. Encenou um belo desmaio para ganhar tempo e pensar em algo a fazer. O que diria-lhe? Qual seria sua reação? Ele a mataria? Onde ficariam meus filhos? Pensava preocupada quando Iago entrou no quarto em que repousava e lhe perguntou:

- De quem é aquela terceira vaca comendo do nosso milho?
- Nossa, ué - respondeu instantaneamente ela.
¿ Como nossa?
¿ Nossa, assim como tu deixaste, nossas três vacas.
- Eu lhe deixei duas vacas das quais me lembro até o diâmetro de suas manchas, Dionísia. De quem é aquela terceira vaca?

Dionísia havia enrolado-se tanto que resolveu contar toda a verdade a Iago que a escutou com olhos atentos e sérios que gelaram o espírito da coitada mulher.

- Pois hoje à noite resolvo isso com Dom Torelli. ¿ disse ele.

Trancou-a no quarto e ficou pensativo na sala. Dionísia tinha certeza que iria matá-lo mas que "não era culpa do homem, afinal, ela que tinha ido atrás do jogo e agora nada poderia fazer. Preocupar-me agora seria inútil, ele já é um homem morto".

Dionísia enganara-se profundamente. Quando o relógio bateu nove horas, Iago abriu a porta do quarto, pegou Dionísia do braço e arrastou-a como estava até a casa de Dom Torelli. Quando entrou pela porta arrastando a mulher todos assutaram-se.

- Não admitimos violência aqui ¿ disse Dom Torelli.
- Pois eu vim jogar ¿ disse Iago ¿ e aposto esta vaca aqui.

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Marob e o pássaro da honestidade
Gabriel Silveira

Todos os índios da pequena aldeia de Morab, no sul do Zaire, sabiam das dificuldades de passarem pelo duro teste da maturidade imposto aos meninos que desejavam tornarem-se guerreiros quando completassem 20 anos de idade. Entretanto, para um menino Morab, era uma vergonha quase fatal não submeter-se ao teste. A disputa consistia no seguinte: oito meninos, escolhidos especialmente entre todos da aldeia, eram levados, devidamente vendados, para um distante ponto da selva. O menino que achasse primeiramente o caminho de volta para casa, e isso poderia durar alguns dias, seria decretado o grande vencedor e gozaria dos louros de ser um grande guerreiro Morab. E isto não era pouca coisa: além de ser dispensado de qualquer atividade braçal e ser dedicado exclusivamente à defesa da aldeia (o que nestas épocas já não significava muita coisa) o guerreiro Morab ainda dispunha do privilégio de ter várias esposas (o que não era nada difícil arranjar) e o respeito gratuíto de toda a aldeia.

Durê sempre foi apaixonado pelas histórias dos antigos guerreiros e líderes de sua aldeia. Apesar de ter apenas 19 anos, Durê foi escolhido para o teste deste ano e estava ansioso para que esse dia chegasse. Entretanto sua avó Duiá não gostou nada da escolha do menino. Durê foi criado por ela após perder pai e mãe, ainda quando tinha 3 anos, em uma batalha contra os Zuicãs, do outro lado do pico Astuit. Somente a citação em voz alta do famoso teste lhe dava pânico. Sua resistência, porém, não apresentou resultados. Durê sempre fez questão de participar de todos os treinamentos, todas as expedições e tudo mais que fosse relacionado com os famosos guerreiros.

Naquele dia, Durê chegou em casa mais cedo do colégio. Trouxe consigo seu melhor amigo Masdum, um garoto magro e grande, desajeitado,escorrido como a chuva, mas que também fora escolhido para o teste no dia seguinte. Duiá preparou-lhes uma refeição mas os dois estavam tão entretidos com os preparativos que nem deram ouvidos à velha vó. Ficaram conversando durante horas até que o dia começou a despedir-se. Durê chamou-lhes atenção em relação à hora e que deveriam repousar para partirem para o desafio com fôlego total. Eles se deitaram. Naquela noite, como já é tradição em Morab, todos tiveram sonhos tão reais e vivos que era possível ouvir urros e gritos por todas as partes da Aldeia. Durê sonhou que havia vencido o grande teste. No sonho tornava-se um grande guerreiro, mais forte e astuto do que todos os outros que haviam passado por Morab. Masdum sonhou que um pássaro vinha lhe encontrar, no meio da selva, e lhe dava asas para vencer todos os inimigos. Quem olhasse Masdum deitado podia ver em sua negra face toda a felicidade e calma que aquela idéia a ele representava. Já Duiá teve um pesadelo horrível. Tão horrível que passou mais do que a metade da noite sentada às estrelas conversando com o Supremo Guerreiro Morab, como era chamado o deus da tribo. Duiá pouco lembrava do pesadelo a não ser das serpentes e cobras-cegas das quais se lembrava com precisão
Era manhã de sol em Morab e toda a Aldeia havia se reunido para ver a partida dos pequenos guerreiros Morab para o tão grandioso desafio. Cada um dos meninos recebeu um runa com um símbolo determinado, as quais deveriam ser apresentadas no dia da chegada sob pena de desclassificação. A poeira do chão batido formava redemoinhos com o vento que cruzava do leste. Os índios diziam que era um bom sinal, afinal o vento corria a mesma direção que os oito desafiantes deveriam seguir. Durê estava tranqüilo quando lhe tiraram a venda dos olhos. Era o mais forte e o mais resistente entre os oito e contava ainda com a ajuda de Masdum que tinha o melhor senso de localização dentre todos. Partiram. Ao começo engoliram com facilidade grande parte da rota. Entretanto, apenas três dias após a partida os desafiantes foram castigados por um forte vento que levou a desistência cinco dos oito que empreendiam a viagem. Os outros três, Durê, Masdum e Redô, um menino pequeno e ágil, seguiram avançando mas mesmo assim paravam muitas vezes para descansar. Apesar de terem o mesmo destino as rotas de Durê e Masdum, que continuavam juntos, e Redô eram bem diferentes. Ainda assim, podiam enxergar o outro competidor ao longe, em contraste com o grande sol que voltava a se debruçar sobre os viajantes. Somente por isso ficaram sabendo quando Redô foi pego por um grupo de Leões despertado involuntariamente pelo menino. - Não há nada que possamos fazer - disse Masdum - Durê concordou. Dois dias depois a queda de Redô, eles se aproximavam da última barreira de sua jornada: a travessia do Rio Jamuco que marcava o território dos Morab. Durê estava cada vez mais obcecado pela vitória e quase não conversava mais com Masdum, nem nas horas de descanso. Quando já visualizavam o grande rio, Durê seguiu até um lugar onde seria mais raso e que portanto poderia facilitar-lhes a travessia. Masdum jogou o longo galho e firmou-o permitindo a passagem do amigo primeiro. Quando Durê chegou ao outro lado puxou o galho e tirou-o das mãos de Masdum.

- Só um de nós poderá ser o vencedor.- disse Durê - Eu já fiz minha escolha.

Masdum não falou nada. Espremeu seus olhos espichados e cheios de lágrimas e sentou-se. Do outro lado, Durê preparava-se para partir. Então Masdum viu, ao longe, uma estrela cadente que lhe lembrou do pássaro da noite passada. - As asas - Masdum murmurou. Então partiu em direção ao lugar do rio em que sabia poderia realizar a travessia. Apesar de levar mais de 5 horas de viagem e isso comprometer completamente suas chances de lutar pela vitória, Masdum levava um sorriso estampado em seu rosto e a lembrança do pássaro do sonho. Quando terminou a travessia, Masdum imaginou que nesta hora Durê já estaria sendo saudado como grande vitorioso. Mesmo assim seguiu suas trilhas e correu na direção de Morab. Após andar duas horas, notou que havia um peso a mais em seu bolso. Tirou sua runa do bolso e para sua surpresa estava lá também a runa de Durê. - Um tolo não tolo nunca repete uma tolice - murmurou. Catou uma pequena pedra do chão e desenhou, com a ajuda de sua lança, um desenho diferente do qual estava grafado na runa do seu concorrente. Daria uma nova chance ao amigo: se agora Durê fosse fiel até o final da disputa, Masdum o entregaria a runa verdadeira. Se não, ele mesmo daria fim a runa e venceria a competição, de maneira pura e honesta. Seguiu, então, sua marcha constante em direção a sua cidade, quando finalmente visualizou Durê, sentado em uma pedra, com a cabeça baixa e o pensamento em áreas talvez mais desertas que o próprio deserto.

- Durê? - perguntou ele - o que aconteceu?
- Eu perdi minha runa Marob, Masdum. Não há mais meios para que eu alcance a vitória.

Então Masdum tirou a runa verdadeira do bolso e disse a Durê que ele lhe daria a runa, contando que voltassem a ser amigos. Durê pediu perdão e aceitou a proposta. Então Masdum, rapidamente, trocou a runa verdadeira pela runa falsa e enrolou-a em um pedaço de pano. - Assim será mais difícil perdê-la - disse ele. No momento em que Durê pegou a pedra soltou toda a força de seu braço sobre o corpo de Masdum que caiu imediatamente tamanha foi a força despejada pelo soco de Durê.

- Ainda assim - disse Durê - há de existir somente um vencedor.

Masdum lento e tranquilamente ergueu-se e continuou andando. Ao longo do trecho, jogou a runa verdadeira de Durê dentro de uma toca de serpentes enquanto repetia o ditado Marob: um tolo não tolo nunca repete uma tolice. Naquela noite, Durê foi desclassificado da competição e rechaçado pela vergonha e embaraço eternos. Masdum sagrou-se o novo guerreiro Marob por demonstrar um conjunto de força, sabedoria, perseverança e o mais importante de tudo, companheirismo. Pela manhã, alguns Marobs juravam ter visto pela noite o canto de um pássaro negro e desconhecido.

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Desde os tempos escuros, onde a vida era limpa e os mares eram libertos, o amor era o maior dos desafios do homem. Nas mais profundas indagações filosóficas do homem grego e da cultura helênica, o homem sofria vertiginosas e eternas dores e perdas, pelo encanto do amor. Os cavaleiros da Idade Média, dotados da coragem e da maior expressão de raiva e ódio que o mundo já sentiu, ainda caiam de joelhos diante do sentimento mais avassalador e inerente ao homem que existe. Pois nós, frutos pseudo-intelectuais deste novo mundo, tão dotados de sentimentos e de sensibilidade, tão dotados de percepção e criatividade, tão dotados da mais profunda tolerância e consciência, ainda sofremos, ainda caímos, ainda desistimos e choramos por amor. De tudo ao todo. De nenhum ao nada. Somos todos iguais, monstros errantes, engenhocas redundantes, servo eternos da paixão

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É pessoal. Estou começando este novo blog para falar um pouco sobre literatura, testar meus dotes literários e desenvolver minha capacidade crítica. Peço a ajuda e a constante manifestação de todos vcs.

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