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Pensamentos vagalumes
Gabriel Silveira
As estrelas agora o reconfortam. Depois do sucedido, era tudo que precisava: uma esperança. Levantou-se do pequeno banco de palha trançada, herdado das mãos de seu avô, e foi caminhando em direção às milhares de luzes verdes que reluziam das danças despreocupadas dos vaga-lumes. Quanto mais perdia-se na escuridão texturizada por redes iluminadas dos insetos, mais ele lembrava daquela cena. Ele encostado na pequena mesa de bar, seus amigos o rodeando e ela ali, nos braços de outro, abraçada por inimiga ternura, protegida por adversárias fortalezas de pedra sem sentimento. Ele em lágrimas, oceano. Imaginando o que seria de Sartre sem Simone. "E como ele, eu até negaria um Nobel" - pensou. Seguiu adentrando a escuridão. Então abriu os olhos para as maravilhas destes universos paralelos somente conhecidos pelos espíritos livres dos quais falava Nietszche. Levantou seus braços, deixando a manga correr à altura do cotovelo, e sentiu os ventos vibrantes que os vagalumes geravam com suas pequeninas mas impressionantes formas de ser. Então viu o rosto dela ali, entre cores iguais, mas multicolorida. Abstraiu-se em luzes, em sentimentos, em paixão. Em catarses múltiplas gritou inconformado. Ajoelhou-se na grama desconsolado. A umidade lembrou-lhe dos amargos de café de outro dia, e da cerveja gelada daquela noite. O seu rosto entre suas mãos calejadas de paixão e, logo depois, ali, entregue, perdida à guerra. Levantou-se da grama e foi-se deitar. Não há nada que a noite não cure. Acostumar-se-á com a dor, mas nunca haverá de esquecê-la. Nunca.

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29.9.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Cuca sonhador
Guilherme L. Póvoas - Jihad

Um imenso pesadelo o acordará naquela tarde. A chuva gritava à sua janela. Num imenso susto e pulo, ele sentirá seu cérebro "e tudo mais o que tem dentro da cabeça" balançar e embaralhar. Já era 2h, uma hora antes do que o previsto para levantar. O jovem iria tentar dormir de novo. Mas não! Estava fadado a passar toda tarde deitado naquela cama raciocinando, com o seu cérebro ainda doendo e sacudindo, sobre o seu terrível sonho.
Era um imenso pântano, porém diferente. Com cores, luzes, ar fresco, vida! Num pequeno lago que se mostrava tão claro quanto a mais púrpura rosa branca, ele enfiara o pé esquerdo. A fofa e firme areia espumosa do fundo lhe enchera de alegria, logo colocou mais um pé, para facilitar sua sensação de prazer infantil. Do nada, algo parecido com sanguessugas gigantes vieram em sua direção. Como serpentes natas àquele lugar, cercaram-no e, aquele lago inofensivo, começava a lhe tragar.
O rapaz se lembrava exatamente de tudo o que aconteceu em sua desorientada cabeça enquanto dormia. Sua dificuldade, porém, doravante, era interpretar o seu devaneio, e encaixa-lo naquela rústica e apaixonada mente, que de sonhos vivia.

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Amor e Liberdade
Gabriel Silveira
É impossível falar de uma coisa sem falar na outra. Amor e liberdade, liberdade e amor. Totalmente interligadas. Quando vejo o céu azul, a liberdade de formas das nuvens, você me vem à cabeça. Teus olhos, rodeando meus pensamentos como luas iluminadas de inspiração e saudade. Amor e liberdade, liberdade e amor. Conheço caminhos diferentes com minha dor, visito universos da maldade e, quando vem tua imagem, volto à vales verdes floridos de felicidade. Cores infinitas em galhos vivos de paixão, erguendo estruturas da magia e da doçura. Ah e estes pequenos frutinhos de virtude.. como eu amo eles. Amor e liberdade, liberdade e amor. E então, por algum momento, silencio. Vejo tudo escuro, nada em frente, nenhuma ínfima luz. Os sons pararam, as estrelas de minh'alma se foram. Respiro. Penso em ti. E lá está, derramam-se luzes divinas e reflexos onipresentes de cânticos esquecidos em algum ponto maravilhoso da encantadora história do mundo. Amor e liberdade, liberdade e amor.

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Acordando os despertos
Gabriel Silveira
Um dia um homem, enlouquecido e desapontado com suas aventuras do coração correu desesperado até o meio da praça mais movimentada de sua cidade e gritou: - Eu sou lindo, inteligente, romântico, sincero, tenho o maior salário da cidade, sou um homem influente e poderoso, além de ser conhecido como um verdadeiro expert na arte de dar prazer. Afinal, o que mais vocês querem de mim, mulheres???? - Lá do fundo, uma mulher mais consciente do que todas no mundo respondeu-lhe o questionamento sem nem mesmo levantar-se: - Humildade!

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27.9.03<$BlogDateHeaderDate$>

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1/4 das viagens sobrenaturais de um homem errante sobre os campos céticos e frios do nosso mundo falso e irreal
Gabriel Silveira, o errante

Estou sentado em um pequeno banco da primeira praça florida que encontrei nos últimos caminhos esquecidos da minha mente. O céu azul negro, iluminado pela escuridão, texturizado de almas luminosas que encantam os confins do universo, me absorve em alma. Lá vou eu com mais uma de minhas viagens. Volto meus olhos para o parque, flutuo. Enquanto as violetas cantigam versos de amor, as orquídeas contam-me do sacrifício de depender de outros para viver. Sei como é isso. As folhas verdes lacrimejam gotas de tristezas extraídas de alguma raiz negra abaixo da terra. Continuo flutuando até perder de vista o pequeno banco. Estou entre abraços de árvores com folhas de poesia e pássaros da noite que deixm no vento seus poemas vinicianos. Sabores de vinhos e de noites, lembranças de hoje e de ontem, remorsos do amanhã(é possível?) e de sempre. A noite me recebe. Fecho meus olhos. Lindos cometas flamejantes despejam laranja sobre os ares desenhando auroras boreais em climas de minha'lma. Ah, a Lua... ela me traz à cabeça imagens de mundos mágicos cheios de almas lindas e encantadoras. Cá estou agora, sobre as nuvens, desenhando nas paredes do universo. Nessas paredes desenhamos com sentimento, as formas são os desejos e as cores, a esperança. Lá estão fadas, elfos, deuses e ela. Lá está ela, rabiscada de sentimentos, formatada por meus desejos e toda pintada de esperança. Um sorriso invade-me o rosto. Mas ela não devolve-me o sorriso, acho que está sem vida, com medo. Afinal se o medo de ousar nos impede de fazê-lo, o medo de viver faz o mesmo com este. Mas estava preparado para isso. Tiro do bolso uma pequena bolsinha verde. Dentro dela, trago um presente que ganhei de seis anjos coloridos (já falei suas cores, não?) que distribuem amor aos corações solitários. Jogo ao vento um porção daquele pó mágico (amar é um tipo de mágica, não é?). Meus olhos enchem-se de esperança ao ver que suas formas começam a tomar vida. Seria um pingo de desejo? Uma vontade de viver? Uma resposta heróica ao medo? Estou aqui, observando esperançoso, paciente. Espero que ela viva, comigo. Espero que seu lindo coração pulse ritmos de alegria e tristeza, mas que pulse. Espero que sua alma exale auras de paixão e ódio, mas que exale. Espero que ela dê-me beijos de amor e de despedida, mas que beije-me. Que beije-me.

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Mundo estranho - Ato I
Gabriel Silveira
Todos nós sentimos as garras do conformismo e da acomodação em nossas vidas, alguns mais outros menos. Porém, devido à total banalização da vida perante o dinheiro e da desvalorização do homem como ser transfomador, estes sentimentos já extrapolam as barreiras do aceitável dominando por completo vidas e corações.Um grande exemplo desta derrota moral da vida em relação ao dinheiro é a história de um conhecido de um amigo de um conhecido meu. Josecleiton Silva era um homem trabalhador. Levantava às seis da manhã, almoçava no refeitório da empresa em que era marceneiro, chegava no ônibus das oito e meia da noite direto para a sua pequena cama de lençóis rasgados e molhados da umidade da pequena casa (de alvenaria) em que morava desde os 17 anos. Gisleide, mulher de Josecleiton, era a perfeita dona de casa esquecida e ignorante: submissa, ausente e esquecida como a vida em dispensas fartas de dinheiro. Os dois quase nunca se viam. Com o árduo trabalho semanal (sábado incluso) engolindo belezas de suas vidas, sobrava-lhes os domingos para trocarem seus risos e lágrimas. Ironicamente (mas não coincidentemente) foi no próprio domingo que o destino desabou suas lágrimas sobre eles. Nove da manhã, Josecleiton acorda, a mulher ainda dorme. Ele pensa em preparar um café para "Leide", como ele dizia. Ao chegar na cozinha, entretanto, depara-se com a falta de açúcar e margarina."Garanto que andou fazendo doces e conversando com as amigas a tarde inteira. Também, não faz mais nada na vida". Essa foi a primeira derrota, a disposição de Josecleiton foi escoada para sua raiva. Foi até a sala, sentou-se em um pequeno banco de madeira e emburrou-se (como 'bocas-de-leão" em dias chuvosos).

Onze e meia, Gisleide levanta-se pensando em preparar uma comida especial para Josecleiton. Ela havia conseguido um emprego no qual venderia os doces que preparava em casa para uma empresa que organizava festas e eventos. Tinha começado o trabalho um dia antes mas queria fazer uma surpresa especial para contar a novidade para seu marido. Revirava a casa atrás do marido quando achou um bilhete dizendo um raivoso "Fui na feijoada do Joca. Tchau". Leide enlouqueceu. Então era assim que ele lhe agradecia? Passara a semana inteira esperando para contar-lhe e agora teria de repetir às paredes o que já haviam ouvido em desabafos por sete dias?

Josecleiton chegou em casa lá pelas três da tarde. Espirrava feijoada pelas ventas furiosas. Estava, entretanto, sentido-se culpado. Afinal, não havia nada de comida em casa e por isso trouxe para Leide um pequeno pote cheio de feijoada. Claro que Leide adoraria se ela estivesse ali, mas não estava. Quando descobriu, Josecleiton esqueceu seu sentimento de culpa. Jogou a feijoada sobre o pequeno tapete na entrada da sala (único presente da mãe de Leide para a casa) e foi preparar-se para assistir o jogo na televisão que começaria em minutos. O jogo de domingo era sagrado para Josecleiton e hoje... ah, hoje tinha a grande semifinal, literalmente imperdível. Sentou-se novamente no banco da cozinha e até esqueceu, por um momento, de sua briga com Leide.

Ela chegou furiosa em casa. Entrou pela porta e, quando vi o marido sentado, tomando uma cerveja, gritou-lhe como um desabafo de vida desses que ficam até a morte: - Comeu que chega seu filho da puta? Josecleiton tranformou-se em um monstro. Levantou-se da cadeira, ergueu seus largos ombros sobre Leide e devolveu-lhe, mentindo como fazem os covardes ou anjos conscientes: - Comi até quem não devia, piranha! Leide desabou em lágrimas. Então era isso que ele andava fazendo? E o trabalho, seria uma farsa também? Ela sempre desconfiara dos horários exagerados, das contínuas horas extras... Era isso que este filho da puta andava fazendo.. ela ali, trabalhando dia após dia para cuidar da casa. Ergueu-se em um sprint final e deu um potapé na pequena tv que mostrava o jogo. Tv e cacos no chão. O barulho do vidro fez os dois silenciarem, "um minuto de silêncio". Josecleiton pensou na semifinal do campeonato, na possibilidade de não assisti-la e talvez, "talvez nem assistir a final", pensou. Escorreu uma lágrima do olho de Josecleiton. Leide ficou sentida e abraçou-lhe. Ele ali, paralisado, com os mãos levadas à cabeça como um atacante que perde o gol no último segundo da decisão. Choraram ali, os dois juntos, por mais de duas horas. Dormiram. No outro dia Josecleiton foi trabalhar. E nos próximos seis dias também. Leide amenizou sua dor com o trabalho durante a semana. Não há vento que remova o que a terra soterrou. Nem uma catástrofe que separe dois conformados. Não era amor, era conformismo, era facilidade, era temor da vida, medo da felicidade.

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Soberba
Guilherme L. Póvoas

Prendeu-se à cadeira. E de lá, jurou a todos que nunca mais iria sair. Cada contexto em que sua vida entrara, cada passo errado, cada palavra mal compreendida, acabava por desfazer sua planejada existência. Iludiu-se! Acabou desistindo. Quando olhou para aquela cadeira de madeira, que sempre esteve ao lado da estante de livros e em frente à televisão, não pensou duas vezes - é aqui mesmo - disse.
E sua vida no marasmo da saudade, omitindo as sensações que Deus lhe propôs, foi bucólica, calma e triste, como uma linda pétala de rosa branca que, murcha, cai do alto parapeito de um prédio. Dominada pela velhice precoce, que avançava junto à poeira dos livros, ela exclamou a todos, com ares de vaso quebrado que suportara por muito tempo belos buquês de flores: "Minha beleza transcendental já não conquista mais. Meus órgãos não respondem. Quero pelo menos um fim à exclusão, que permita fazer algo que nunca fiz, amar a mim mesmo".

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Guilherme
Guilherme L. Póvoas

Sabia da inconseqüência! Eu, firme, aguerrido e vexado, desviava meus olhos daquele imenso escuro verde, que como dois sinais alienígenas, me cuidavam com um sorriso atraente. E piscavam. Sim, aqueles olhos piscavam involuntariamente em minha direção. Minha tendência era negá-los. Por mais intitulado que fosse aquele olhar, eu tangenciava com medo. Ali, no meio da multidão, a mensagem estava no ar, cabia a mim decifra-la. A possuidora de tão forte janela da alma me puxara. Com braços leves e decididos, me falou: "Não há mais recíproca em nossas saudações?" Eu respondi a ela. Falei, embebido por todo aquele feitiço encantador que me propus a ficar exposto, a verdade. Dando-a um abraço, cujo qual os pilares mais garbosos não conseguiriam suportar, disse em seu ouvido: "Tinha medo de lhe cumprimentar, pois teria que te dizer (como digo agora) que estou tomado por saudades".

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Em cantos, encantado
Gabriel Silveira

"Se a vida fosse fácil não levava a vida inteira", pacientei-me. Ontem um telefone transformou minha aura. Como pode? Um simples telefonema? Naquela conversa, entre palavras medrosas e passeios atentos em caminhos verdes, evoluimos. "Tudo tem seu tempo" regendo-nos. Levantei-me em nuvens, abstrato, colorido e atravessei concretos. Lá no alto, encontrei velhas amigas. Apesar de estarem escondidas entre bolhas de vento e formas ausentes, eu sabia que estavam lá. Conseguia escutar, lá no fundo, suas histórias sobre deuses de mundos feitos de doces e chocolates; dos mundos feitos de versos e prosas; das completas galáxias de paródias e canções. Sentei-me ao léu, deitei-me em devaneios, corri por pensamentos. Imaginei visitar estes mundos: correr em pontes de mousses, deitar-me em sonetos e comer contos magníficos. Foi quando meia dúzia de anjinhos multicoloridos (o grande azul-mar, o misterioso cinza-vento, a linda vermelho-lábio, a pequena violeta-tímida, a animada marrom-sorvete e o sincero amarelo-aurora) vieram rodear-me a cantar: "No ar, no ar, estamos a dançar / eternamente, eternamente, durará esta canção / em cores, encantos, vamos a levar / a todos, a todos, amor pro coração". Pronto. Enchi-me de ventos prateados, destes que ousam arrepiar-nos. Eles ali, cantando e trazendo-me o "amor ao coração" do qual tanto falavam. Então cochilei aos cantos, encantos, com cantos tão lindos. Ah estes anjos... E agora estou aqui tão distante do céu, tão grudado à matéria, tão inabstrato. Mas ontem não. Ontem os telefones trouxeram estrelas que contam histórias e anjinhos multicoloridos que cantam encantos. Haverá vales eternos deste verde musicado? Não sei. Só sei que nada sei. Resta-me pacientar-me, convencer-me de esperar... Se a vida fosse fácil não levava a vida inteira.

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26.9.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Oração caudilla do sofredor
Gabriel Silveira
Estou aqui, só em meu mundo que já preparava para dois. Estou aqui, só em um canto escuro sem luz do meu mundo. Não ouso rever o que há de bonito no resto deste mundo com tanto carinho construído. Posso ver coisas que me levem mais prá baixo, onde nem os pensamentos sobrevivem. Sim, acreditem! Todos temos nossos infernos astrais. E eu tenho medo deles. Por isso escrevo, mantenho-me na escuridão do pensamento mas que jorra atividade intelectual de suas entranhas.Estou assustando-me, pareço estar silenciando cada vez mais. E o destinoé cruel com estes. E, repito, tenho medo daquele tal de inferno astral. Puxo um livreto sem capa, velho batido, herdado do campo, da terra, da histórria de caudillos mal contadas, e leio, pacientemente, esperançosamente: Dios te salve María llena eres de Gracia, el Señor es contigo.
Bendita eres entre todas las mujeres y bendito es el fruto de tu vientre Jesús. Santa María, Madre de Dios, ruega por nosotros los pecadores ahora y en la hora de nuestra muerte. E vivo. A luz continua a mesma. Mas as pessoas ao meu redor são outras. Não os conheço mas parecem estar felizes. Recolho minhas pernas. Vou ficar aqui, quieto, esperandoe esta luz passar. Ela amedronta a mim e a meus pensamentos.

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Post do roubado esquecido
Gabriel Silveira
Ei, tu, que me roubaste o coração com estas garras da sabedoria! Não sabeis que corações conquistados são como prêmios, como honras da divina onipresença? Não sabeis que tens em mãos o destino e o princípio? A forma e a função? Ei, tu, que apresentaste tuas armas cheias de encantos e belezas; tu que mostraste as mágicas dos céus; tu que fugiste desse mundo e ousaste transformar-te em anjos! Volta! Volta! Ei! Onde vais com meu coração? Onde vais com meu sangue, meu rubro encanto? Onde vais com meus defeitos, minhas crendices, minhas idéias? Volta! Conta-me que valor tem este coração para ti? Se não o queres deixa-o. Se o queres espera-me que irei junto contigo. Irei, roubado, mas irei. Mas espera-me! Ei! De nada te adiantará este coração sem mim, sem minha presença. Deixa-me ir contigo! Espera-me Ladrão!

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A última tentação
Gabriel Silveira
33 dias levei para cruzar o infinito. 33 dias de morte falecido em tumbas no deserto. 33 dias esperando pela vida nos embarques do mundo. 33 dias obserando estrelas calejarem as escuridões da noite. 33 dias apreciando vinhos europeus entre amigos desconfiados. 33 dias e algumas noites pensando em saídas, em fontes, em maneiras. 33 dias escutando sons de outros lados mundo. 33 dias ousando me conhecer. 33 dias de morte sem vida, de vida na morte. 33 dias e algumas tardes tomando cafés e experimentando chantillys mal despejados na escuridão do mar negro. 33 dias e 33 anos traduzindo do grego as fanáticas palavras daquele do barril. 33 vezes, 33 dias, 33 anos. E agora morro na cruz, no leito divino, tendo em minha face o amor.

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Poesia do romântico aos que vem
Gabriel Silveira
Escutem vós que nasceram há pouco ou hão de nascer neste mundo de pedras: não ousem labirintarem-se pelo romantismo. Endureçam seus pequenos corações! Virem homem secos, rígidos, sem sentimentos! Nós românticos da vida, poetas do coração, construímos nossas vidas sobre nosso próprio sofrimento. Dores que viram palavras. Palavras que viram dores. Não venham com esta conversa de que amam! Esqueçam a palavra doação! Esqueçam de toques cheios de sabor e virtude! O mundo não está preparado para todas estas malditas virtudes. Quebrem pedras, destruam casas, ponham fogo no mundo, mas não entreguem-se aos desafetos deste traidor que chamam de coração. Falo isso porque já me entreguei a ele, já ousei, e não consigo mais me afastar. Sou, sim, um romântico! Sou, sim, poeta! E nunca hei de transformar-me porque acredito nos vales verdes cheios de flores amarelas e pássaros cantores. (último suspiro) Vocês que vem ao mundo: não amem!

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(in)Paciência Final
Gabriel Silveira
Sou e por isso não sou. Ô impaciência. Só posso estar dentro de um livro. Tanta magia, tanta virtude, tantas poesias, afetos/desafetos. Extremos, lá e cá, histórias mal contadas, inacabas, pessoas reconquisadas, não esquecidas. Tudo isso e nada daquilo. Sabia sem saber. E ousei, de novo. Novamente meu coração sofre por minha impaciência. Sou um fanático do coração, da aventura, da vida, da paixão. Sou e por isso não sou. Acho que o sol não bate em janelas que estão sempre abertas. Acho que ali entram vento, noites, luas, almas, destinos, mas o sol... ele passa sem olhar para o lado, como se necessitasse do desafio proposto para fazer valer sua força. Sou e por isso não sou. Estou dentro de feridas, imagino curativos. Estou dentro de mares, imagino barcos. Estou dentro de vulcões imagino icebergs. Esta cabeça que não me larga. Não me deixa esquecer. Abstraio mas o céu mostra-a mais do que a terra. Pois é lá que os anjos vivem e semeiam o amor. Sou impaciente e por isso não sou. Hoje não sou, orando ser.

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Confesso
Gabriel Silveira
Construa a cena: uma criança, doente, moribunda sobre o leito, ingênua e impotente sobre o mal que a ataca sem hesitar. Sua família, espalhada pelo quarto mal cheiroso carregado de almas da morte e da escuridão, tenta consolar a criança que, desesperada, se vê perdida em desafio existencial e fadada a um destino incerto. Talvez esta cena, a da realidade sobrepujando a esperança, seja umas das mais cruéis e aterrorizantes do nosso universo. E quando os homens trocam as paredes vivas do universo por concreto cinza e frio; quando trocam as estrelas mágicas dos infinitos por bolas espelhadas de amargura e incerteza; quando trocam os sons da natureza, este som pacífico e calmo, por ruídos repetitivos e falsamente contagiantes; aí o risco de nos tornarmos crianças impotentes defronte a doença é deveras amedrontador. E assim deve ser, e é, e sou. Sou escravo de minha mente e de meu coração, confesso. Sou escravo de minhas ânsias e paixões, confesso. Sou escravo de fontes de sabedoria e virtude, confesso. Talvez um dia eu endureça meu coração e resista sem piedade. Só sei que agora sou Werther. E quando estou assim nada na vida conforta, só o anúncio da morte. O que importa é que hoje sou triste, sou só, sou decepção. Talvez os ares da próxima primavera não estejam tão outono como hoje. Porque hoje estão, estou.

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25.9.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Onde está a resposta? Onde? Este era o rapaz que admirava e gostava do medo, odiava sentir dor, mas via nas coisas mais tristes da vida a pureza da poesia. Muito antes de saber qual era, e é, a pergunta, ele já queria uma resposta convincente, que ao menos o iludisse. Pois fora criado assim, ao agora! À constância. E para mudar suas atitudes que lhe precaviam de rotineiras inseguranças, ele teria de mudar toda uma visão de mundo.
Em verdade, o que mais agradava o rapaz era que sabia o que fazer e em quem se espelhar. No meio de tantas indecisões colossais e muralhas vermelhas, ele confiante, sem gaguejar, dizia:
- Hora dessas mudarei a Sócrates! O homem que, antes de mais nada, sabia perguntar.

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Nuvens de transição
Gabriel Silveira
O céu está cinza, esfumaçado, grafite. Quando as paredes estão assim, fumantes, fico na espera. Sei que estes climas preparam mudanças. Assim como universos paralelos, dias contados em idades, formas traduzidas em funções, os dias chuvosos são indecisos, informes. Eu no céu diante de nuvens de temporais sabidos, ressacados em dias alegres mas cheios de lágrimas. Do outro lado, porém, nuvens que pairam no desconhecido mas ainda assim feliz e confortável. Estico-me em idéias, esforço-me em palavras para alcançar estes céus de anil, de virtude saborosa. Corro em círculos, arranco cabelos, acabo com minhas unhas. Só depois é que percebo que o tempo traz à vida felicidades inesperadas. Tarda, mas traz. O importante é estarmos ali, presentes, atentos, insistentes e, ainda, impreterivelmente, pacientes. Mas um certo dia um anjo me falou. Contou-me dos caminhos mágicos do futuro. De vales verdes floridos com direito a degustações de cores e amores. De animais em paz e de natureza intocadas. É neste futuro que aposto. É neste futuro que conforto minhas ânsias (e esta angústia que me é inerente). É por estes vales maravilhosos que permito-me a tristeza. É para degustar as cores e os amores que sangro meu ventre de dores e solidões. Mas este cinza no teto do céu, como diria a Diana, prevê mudanças, entre nuvens de cá e lá, e eu no ponto, esperando que alguma corrente de vento me carregue para estes futuros pelos quais tanto choro nos cantos, no silêncio, poetisando.

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Mais dia, menos tempo
Guilherme L. Póvoas

- Vamos ver no que vai dar! - E ele já estava cansado da espera, da indefinição. Algo dentro daquela cabeça morena lhe dizia que estava na hora de, pelo menos uma vez, assumir o que ocorrera e deixar realmente para "ver no que vai dar". A alta hora que a madrugada atingira não o permitia pensar direito. E aquela macarrão vermelho de ontem, já não alimentava o amor daquele momento.
A doce garota que lhe lançava palavras e olhares, percebera o constrangimento, e pior, percebera a decepção na face jovial daquele estudante. Oito ou oitenta? Ah, esses dois números o perseguiam tanto. Não definiam seu peso, tão pouco sua altura, porém são (e muito) a sua personalidade.
Vamos então! E que essa hora, passada em pé, logo ali, próximo ao sétimo paralelepípedo da décima quarta rua no vigésimo primeiro caminho, nos ajudem nas próximas caminhadas.

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Devaneios de memórias curtas
Gabriel Silveira

No sétimo paralelepípedo da décima quarta rua no vigésimo primeiro caminho que seguia, encontrei a verdade. "O homem inventou o avião a jato quando a beleza está na pequena pluma que paira no ar sem pressa, solta, livre, abstrata", pensei alto. A noite alta já se ia e as paredes úmidas do mundo choravam lágrimas de alegria. Pela madrugada, círculos azuis e vermelhos apareciam no céu, mandando mensagens divinas ao meu coração, tão impressionado. "O mesmo céu que Sócrates viu" lá no alto a me observar, analisando minhas frases, meus devaneios, meus olhares sinceros. "A beleza dos elfos está na sabedoria", diziam os ventos. E eu, ali, paciente (mais do que nunca), esperando a oportunidade que o destino reserva aos sortudos de chão e céu, de corpo e alma. O meu universo estava ali e eu satélite, exterior, observando. Estou aqui, no sétimo pensamento do décimo quarto devaneio no vigésimo primeiro suspiro nervoso desta manhã. E esta mania de escrever números que me apareceu? Talvez tenha vindo com esta mania de achar beleza onde há vida como o Pessoa, como qualquer pessoa.

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23.9.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Um dia desses estava caminhando por uma rua sem pavimento, cercado de pessoas sem saneamento, vítimas destes políticos sem nenhum "cabimento". Foi nesse dia que vi, pela primeira vez, o destino. Ele tinha olhos azuis (não este azul normal, sem sal, sem vida. Um azul céu, rodeado de nuvens e de universos; nebulosas e infinitos), mãs calejadas pela sua dor inerente, a face medrosa e enrugada, cabelos brancos cansados e envelhecidos. Passei por ele com olhar severo, confiante. Minha mãe já dizia que precisamos encarar o destino com coragem ou somos vencidos por suas infinitas armas. Ergui meus olhos a seu chapéu de couro batido, sujo, como quem despreza as fronteiras pré-estabelecidas do mundo. Desprezar o destino, encará-lo como homem que sou. Era somente isso que conseguia pensar naquele momento. Ele ali, sério, intocável, fincado ao chão, quase morto. Comecei a me afastar dele mas sem tirar os meus de seus olhos macabros e desafiadores. Então, no momento em que preparava-me para virar-lhe as costas abriu-me um sorriso feliz e sincero. O destino respeita quem o desafia. Devolvi-lhe o sorriso. Minha mãe também dizia que, assim como temos que encarar as dificuldades do destino de face e peito erguidos, devemos abraçar seus presentes e compensações que aparecem, raramente, mas aparecem. Virei o rosto em frente e segui caminhando. Voltei para casa sem olhar para trás novamente. De uma coisa eu tinha absoluta certeza: ele estava ali, seguindo cada um dos meus passos, abençoando cada um de meus caminhos.

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Destino, destino. Oh! Quem será esse? Aquele que aproxima e que distancia. Aquele que mostra e que esconde. Na ansiedade de desvendar o destino, acabo ainda mais perdido, por não saber o que ele faz, vai fazer. Minhas idéias barram nesta imensa muralha metafísica de braços materiais e pernas fantasmagóricas. Talvez, destino, possas me revelar quem tu és? Ou pelo menos revelar quem tu trazes ou quem tu levas.

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Pequenino, pequenino... onde vais com tanta pressa? Pulando, saltitando como um coelho ingênuo de seus riscos. Sorrindo sempre contente como um sol que nunca se põe. Instiga-me os olhos a chorar. Ah, tua felicidade é tão importante... E o tamanho de tua alegria, pequenino, é gigantesca perto de mim e dos outros, os grandes. Corre como um pequeno puma sem fronteiras. Sacia esta tua vontade divina de conhecer-te e ao mundo. Conforta esta tua gana de interagir com a natureza e com a vida. Mas vá rápido pequenino. Some-te na direção do horizonte que é infinito. Porque o monstro da vida fútil, triste e decepcionante está vindo aí, louco para agarrar os lentos, os conformados e os como eu.

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Pessoal, assunto sério: existe uma entidade chamada Lar da Criança Estrela do Amanhã, a qual ajudo a um bom tempo e acompanho os trabalhos. Há algum tempo a entidade (que depende de pessoas que doam suas vidas pelas crianças carentes) começou a reciclar papel, plástico, etc para arrecadar mais dinheiro para comida e reformas. Até semana passada eles utilizavam uma Kombi para levar as crianças (todas da zona rural) até a entidade e tb (principalmente) para levar o produto reciclável até sua sede. Esta Kombi, que era muito antiga, pegou fogo devido a uma pane elétrica e sofreu perda total. Ainda há R$ 1500 a serem pagos pela Kombi que pegou fogo. O trabalho está ameaçado de acabar. Não há mais dinheiro. Estamos desenvolvendo várias idéias para colaborar como pedágios, divulgação na tv, etc, mas precisamos de ajuda para tudo isso. Quem puder colaborar, na forma de dinheiro para a entrada de uma nova Kombi, ou doando seu esforço físico para trabalhar nas ações em prol do Lar da Criança pode falar comigo mesmo ou, no caso de doações, ligar para o celular 9803-2058 com Jorge Luiz, presidente da entidade. Por favor, pensem nas crianças que ficarão sem educação e comida, caindo na ignorância nas drogas e na prostituição como milhares já cairam. Brigadão e granda abraço!

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"Me ajudas a sonhar / te salvo de dragões". Hoje acordei pensando nos relógios de sol, nos punhados de azul. Me perdi em Nei e chorei Lisboa. E mais do que nunca acredito. "Me inventas um troféu / eu trato de vencer". Estou límpido em falas, angustiado em cafés, perdido em pensamentos. Sou joguete do destino como Romeu e apaixonado como Werther. Me dizes que será / eu faço o que puder. Em relógios de sol eu marco este meu dia, estes versos mal cantados por não cantá-los. Hoje sou campo astral, abstrato, volátil, pensador.

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21.9.03<$BlogDateHeaderDate$>

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O mundo paralelo dos Incas
Gabriel Silveira



Chegamos ao sopé da montanha. Eu, Marcos e Rochele. Dali nada víamos, só sentíamos. Já estávamos avisados que só veríamos algo da cidade após atingirmos metade da escalada pela montanha. Eu, observador, ia sentido a energia que Machupichu exala à grandes distâncias. Chamou-me atenção, entre arbustos e lhamas, um homem por sua altura. Carregava um pequeno cesto com frutas e tinha uma estatura deveras avantajada, quase um gigante, tentando esconder-se de mim. Cobria a cabeça com um pano escuro e esgueirava-se rapidamente a toda vez que lhe focava os olhos. Senti, talvez por meu sangue espanhol, como o invasor europeu, o demônio dos céus. Como Machupichu nunca foi descoberta pelos invasores, eu me sentia, observando aquele semi-gigante, um próprio capitão ibérico sanguinário. De repente, ouvi um forte grunhido que me fez virar para trás rapidamente. Um belo Condor, esbanjando autoridade, pairava como Deus absoluto (e não é?) sobre o céu da montanha. Ensaiei um sorriso mas, quando virei novamente para o percurso percebi que tudo estava diferente. Marcos e Rochele haviam sumido. Meu Deus! Todos sumiram! - esbravejei. Só não pude me preocupar mais com meus amigos porque percebi uma forte marcha descendo o pico de Warmiwañusca. Então notei, a 300m de onde estava, um pequeno casebre, talvez abandonado. Enchi-me de coragem e corri até lá, quase sendo visto pelo forte exército (será que eram os incas???) que descia a montanha. Atirei-me dentro da casa e bati a pequena porta com mais frestas do que madeira realmente. Foi quando percebi que não estava sozinho. Ali estava um homem com uma cesta de frutas semelhante à do gigante que vira antes. Eu fiquei paralisado, esperando que ele tomasse a primeira atitude. Coma uma - disse ele oferecendo-me a pequena fruta alaranjada. Eu a peguei em minhas mãos e, antes de ousar prová-la perguntei quem ele era.

- Hiram Bingham, disse ele.
- Ha ha, e eu sou um chefe Inca, ironizei.

Hiram, para quem não sabe, foi um professor de História estadunidense que descobriu Machupichu em 1911, após seguir um agricultor de Cuzco (agricultor este de estatura gigantesca, em suas palavras).

- Em 1911 - disse pausadamente - cheguei ao sopé desta montanha e, seguindo um agricultor, na verdade um vigia inca, descobri a cidade de Machipichu. Mas isso não era nada ainda - continuou - após chegar lá, comecei a estudar suas culturas e descobri que eles eram muito mais evoluídos do que poderíamos imaginar.

- Já sei de tudo isso - interrompi, tentando participar do que já parecia um monólogo.

- Você ainda não sabe de nada. - respondeu - Ninguém imaginaria que os Incas, para livrarem-se eternamente das ameaças deste povo destruídor e guerreiro que somos nós homens, construiram um mundo paralelo, em outra dimensão. Mundo este que conheci porque, após realizar diversos rituais em Machupichu, descobri esta fruta que agora está na sua mão, na verdade uma senha de passagem para outras dimensões. Caí para trás. Seria possível que meus amigos ainda estivessem lá, em sua expedição, enquanto eu havia me perdido em outras dimensões? Seria uma excelente explicação para todas aquelas maluquices e para o aparecimento daquele doido dizendo que era Hiram Binghan. Mas por que eu?

- E tudo isso porque hoje completam cem anos desde que entre neste mundo.

É mesmo, pensei enquanto comia a fruta, 24 de julho de 2011. 100 anos. Havia estudado ainda hoje todas estas histórias e cheguei a comentar com alguém o acontecimento do centenário mas não me foi dada a devida atenção.

- Você tem, hoje, a oportunidade de conhecer o povo Inca e, se assim desejar, fazer parte de nosso mundo.

Mal ele terminou sua frase fui transportado para uma espécie de cinema virtual. Eu parecia estar flutuando sobre Machupichu (muito diferente das fotos). Olhei para o lado e vi Hiram e o gigante (provavelmente o agricultor) que apontavam para as coisas dizendo-me seus nomes e utilidades. O povo era alto e comprido, mas com uma beleza indescritível. Por algum motivo lembrei dos Elfos de Tolkien. Talvez por encontrar ali a mesma valorização da natureza. Minha visão ficava cada vez mais turva enquanto observara aqueles milhões de trabalhadores, alguns sacerdotes, lindas Lhamas, todos para lá e para cá, carregando coisas, fazendo mágicas, escrevendo nas nuvens... Ouvi Hiram dizer alguma coisa, mas não conseguia identificar o que era. Sua voz foi sumindo e eu via sua face lá longe...

- Fred! Fred!
- Hiram? - perguntei
- Sou eu, Marcos, cara!
- Marcos? E os incas?
- Ainda estão nos esperando cara, acho que nossa visita a Machupichu vai ficar para amanhã devido a sua tontura. O médico disse que foi falta de oxigênio devido a altitude.
- Oxigênio? Tontura? Huauhauha - caí na gargalhada. Sobre o corpo de Marcos ainda pude ver uma placa escrita "Hospital Regional de Cuzco" antes de apagar.

Mais tarde, recuperado, contei toda minha viagem ao universo paralelo dos Incas, ao som de infinitas gargalhadas de meus dois companheiros. Fomos dormir decididos a visitar a Cidade no outro dia. E fomos. E tudo correu bem. Quando estávamos descendo, entretanto, notei que ao sopé da montanha o chão estava mais escuro e aberto na mata. Lá longe, atrás de arbustos verdes, corria um gigante apressado com uma cesta de frutas na mão, sobre o qual nunca falei nada a ninguém.

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Jones (BlergBlog), Mingo e Jihad(oLiterato), batendo um papo no final da tarde, brincando de pensar, como manda o esquema filosofal.

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Cáusticos pensamentos
Gabriel Silveira
Os coriscos flamejantes douram o céu soturno e escurecido de tristeza. Sou todo observador. Quieto, absorto, espectador. Lá das ribanceiras do mundo, esbravejam exércitos de energia, cavalhadas de tropeiros do além, que despertam as almas esquecidas do mundo. No horizonte, a imagem destes guerreiros já confunde-se com pequenos pingos de chuva metediços que ousam fazer parte do espetáculo natural da madrugada. A água da chuva, erguida em ventos por filhos de Netuno, mistura sangue e pensamento transformando a escuridão em luz: trovoadas tão fortes como poderosas tal como suas iluminadas reflexões visuais que impõe poder sobre a terra. Lá do alto, ao comando, o Sr. do Mundo observa seu espetáculo catastrófico. E com um paroxismo orgasmático banha o mundo com a chuva dos deuses: cáustica para os incultos, confessionária para os culpados, misteriosa para os pensadores, como estou. E seus ventos, nadando em temporais como piaparas e traíras, formam formas e fundam firmes entre esferas universais de água, cantos tão esquecidos do mundo.

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20.9.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Coquetel II - A revanche moura
Guilherme L. Póvoas

Divite et reinare. Dividir para reinar! Foi assim o método usado pelos cruzados depois de 1099 para reger sobre os muçulmanos na Terra Santa. Após uma sangrenta batalha na cidade de Jerusalém, os europeus consolidaram-se no coração sagrado religioso. Edessa, encabeçada por Balduino, formou o Reino Latino. Porém, este império sacro-papal que mandava no Oriente Médio descambaria como arranha-céu em manhã ensolarada.

Bilal era o Amir da mesquita de sua pequena cidade. Conversava com os jovens e os ensinava a lidar com a difícil situação vivida por eles, muçulmanos, na sétima década do século XII. Durante os sermões, cujo qual ele fazia ecoar naquele humilde templo, tentava fisgar um líder nato. Acha-lo no meio daquela multidão de fiéis, que mais pareciam uma faminta matilha humilhada. Bilal beirava os 67 anos, forte e inteiro, sempre acompanhado de sua narguilha, era o norteador da fé, que estava quase desaparecida na nação islâmica.
Numa manhã de sexta-feira, o Amir ouvira falar de um homem curdo, de meia idade que era sobrinho de um antigo califa. Surgido com muita fé, este novo homem liderou um golpe que derrubara o decepcionante califado fatímida, inoperante na época. "Será ele? Será este moço que conseguirá nos livrar dos franjs invasores?", perguntava aos irmãos. Bilal sabia da difícil tarefa que seria para qualquer um enfrentar os cruzados, pois a cada tentativa de insurreição, os europeus traziam mais exército vindo da bota.
Chegou a boa nova a Bilal. Um poderoso e bravo exército está sendo formado por aquele neófito desconhecido curdo. ¿É ele, só pode ser¿, afirmava o ancião. Nas constantes conversas com seu povo, o Amir os conclamava para a guerra:
- Está chegando a hora. Não podemos fugir. Querem arriscar desposar suas mulheres e morrer por Deus ou viver indiretamente omitindo o Criador?
Cerca de 120 jovens, liderados por Bilal, montaram seus cavalos e rumaram para o front: algum lugar próximo a Jerusalém. No local, milhares de soldados intelectuais se preparavam para uma batalha anunciada. O exército era enorme, e mais ainda organizado. Logo foram orientados por um dos generais. Os olhos do velho Amir lacrimejavam. Allah´u Akbar, era o que gritavam os guerreiros. De repente, quebrando aquela imensidão de ansiedade, o exército escuta cavalos vindo ao leste. Algo perto de 14 cavaleiros despontavam em direção a eles. Na frente, liderando-os, estava um rapaz, com barba penteada, e com uma espada invejável. Este homem parou na frente dos guerreiros enquanto seus acompanhantes se juntavam ao exército, e falou:
- Deus é o maior! A hora é agora. Em nome de Deus combateremos os invasores franjs. Irmãos, está é a batalha de Hattin. E ela começa agora.
Num grito estridente toda aquela legião respondeu:
- Em nome de Deus. Obedecemos-te e estamos contigo, Sr. Saladin!
Assim, aquela armada combateu os cruzados com uma vontade insaciável. Venceu a batalha e Yusuf Saladin foi o primeiro muçulmano a lavar e expurgar a cidade de Jerusalém depois das cruzadas. Ele resumiu os cruzados às cidades litorâneas. Bilal dizia que o líder estava sendo tolerante demais com os incrédulos.
Dois séculos depois, os mamelucos muçulmanos varreriam de vez a Terra Santa e terminariam o trabalho iniciado pelo Sultão Saladin em 1174.

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19.9.03<$BlogDateHeaderDate$>

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No azul do céu
Gabriel Silveira
Clebinho, Cléber Moura, era um dos melhores alunos da classe. Não que isso significasse aplicação nos estudos. Clebinho simplesmente tinha uma facilidade imensa quando o assunto era a escola. Era um tanto quieto, apesar de não seguir o estereótipo de CDF, e tinha sempre estampado no rosto aquele sorriso maroto que confunde-se com o de filósofos eternamente surpreendidos com a maravilha da natureza e das cousas do mundo. Tinha uma família boa, uma irmã mais velha, e, mesmo tendo apenas 9 anos, trabalhava em um pequeno mercado na esquina de sua casa. "Um garoto de ouro", dizia Alcides, dono do armazém. A mãe de Clebinho, entretanto, sofria de câncer há três anos. Há um Clebinho entedia o que isso significava. Certo dia, uma quarta-feira, não conseguiu acordar para ir à escola. Sonhou que via sua mãe, agora transformada em um anjo dos céus, rodeada de nuâncias multicoloridas tão maravilhosas que cegavam-lhe o olho focado. Naquele dia acordou chorando e foi direto até o quarto dela, que se arrumava para ir ao trabalho. Não foi para a escola filho? - perguntou asustada. Clebinho agarrou-se nas pernas de sua mãe dizendo-lhe - Não vai trabalhar hoje mamãe, fica comigo, não vai. - Mas filho, eu vou estar de volta daqui a pouco, na hora do almoço. Alguma vez te prometi que voltaria e não voltei? Clebinho aliviou a força que dispendia com os braços, e com o olhar sério despediu-se de sua mãe. Naquele dia ela morrera no trabalho. Naquele dia Clebinho conheceu a dor da decepção. Nunca deixou de esperar por sua mãe. E ainda hoje, com 33 anos, quando lhe perguntam por que fica tanto tempo mirando o céu, as nuvens e os ventos, Cléber Moura responde: - Estou procurando um anjo que prometeu que voltaria um dia. E anjos não mentem.

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...e mesmo com as desavenças,
que tanto lhe atrapalham,
seguiu firme.
Firme feito uma árvore sequóia,
que com sua base de tronco forte,
apenas balança suas folhas no topo.

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Dialética salgada
Guilherme L. Póvoas

Abrindo um pacote de salgadinho. Foi assim, neste gesto bucólico, que Márcio percebera Valeska pela primeira vez. Aqueles olhos verdes, aqueles lábios carnudos e as mãos delicadas de unhas grandes sempre passaram desapercebidos por ele. Até o momento em que ela abriu aquele pacote.
Sentado no ônibus, o rapaz a via todos dias. Na ida e na volta daquelas incessantes viagens à universidade para a conclusão de mestrado, onde percorriam 140km três vezes por semana: "tudo isso para apenas mais um diploma", era o que Valeska dizia várias vezes a um motorista.
Mas já passados três meses, Márcio ainda não a vira com aqueles olhos de cão noturno. Ele se perguntava porque aquele salgadinho, através de um barulho cutucante de plástico, havia chamado sua atenção para a moça. Só aí, é que percebera toda a beleza que ela carregava. Linda morena! E durante a viagem que os voltava para o interior, Márcio foi se sentar ao lado dela logo ao ouvir os salgadinhos estralarem dentro da boca de Valeska através de ruídos crocantes, e passou durante os 70 km de estrada falando de si para ela. Constantemente com a boca cheia, a moça ouvia e concordava com uma dialética pré-fabricada do advogado "eu sempre concordei que Kant merecia ser reconhecido como a base do marxismo... a vontade que eu tenho é de ressuscitar aquele barbudo comunista e fazer ele explicar esta história direito".
Mastigando, mastigando e mastigando. Valeska concordava, balançando a cabeça, com tudo que ouvia, muito mais por impaciência do que por afinidade ideológica. Num curto momento em que ela havia parado de comer, a viajante introduzia uma nova pauta para que pudesse continuar sendo o centro das atenções de alguém por ali:
- Marx! Ele é ele por si mesmo. Já é a priori de uma retórica nata, entendeste? Aliás, qual é o seu nome?
- Márcio Gerinal, minha dama de paus.
- Ótimo saber o nome de alguém neste ônibus. O meu não passa de Val.
- Bom, tenho prazer em conhece-la, Val. Val? É isso mesmo?
- Sim, dei a ti meu nome superficial pois é descartável. Descartável como esta nossa conversa, pois não passara dessa uma hora de viagem. Descartável, também, como essas amizades que fazemos em vão, sem dar prosseguimento, feito vontade de jovem. Até, tão descartável quanto este salgadinho, cujo qual comi metade do pacote, me sinto cheia, mas ainda com fome.

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Na direção do vento
Gabriel SIlveira
"Isso só pode ser um sonho", foi o que eu disse após a música cubana absorver-me vindo de algum canto mágico do mundo. Levantei meus braços, fechei meus olhos e entrei em mundos tão desconhecidos como inexistentes. Sentidos saborosos como em Gaarder, de vermelhos adocicados na ponta dos dedos até abacaxis encorpados nos ombros e no pescoço. A profundidade da música dobrou-me de tamanho, como já diria a música de Noel, quando canto uma milonga cresço três palmo...(alguma coisa assim), cresci em universos de estrelas de algodão doce e ventos de baunilha. Então abri meus olhos. O sonho estava ali, mais presente do que nunca. O frio no ventre, o rubor na pele, a solidão na espinha... ah as sensações do sonho. Então olhei a janela, sorri para meus amigos e corri em direção a janela, escancarada, apresentando como show principal aquele azul netuno encantador do céu (e pintado com as mesmas estrelas de algodão doce). Larguei o copo de plástico sobre a mesa, ainda deu tempo de me despedir de quem vlia a pena, e corri em direção a janela, corri, levantei uma das pernas sobre o frouxo marco e saltei do 2º andar. Saltei em direção à vida, aos amores e sai a voar por onde nos é permitido: na vida.

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Vale a indicação:


Resenha (site da UNISC)

...Quando Macu se viu no chão estava no meio de um jardim gramado, salpicado quícola de canteiros floridos, e na frente de uma loira de matá o véio. Nome dela era Brunilde...

...Naquele justo, a loirosa saía do banho e vinha com o cabelo enrolado numa toalha amarela e o corpo numa azul-celeste. Ao dar com os olhos no herói a moça hirtou, quis olhar mas o oh grudou na garganta...

... Brunilde abraço bem bulinante seu tão bom paixãozão. - "Desgruda, mani, que senão...", ele xingou. - " Que senão o quê, meu gatão?", ela se fazia de tonta, mesmo sabendo do que se tratava, pois conjuntura lá por baixo da tanga de penas de carcará já começava aborbulhar, sabem. Nosso herói teve que ser duro: - "Agora não, minha pititinga macia."...

...Depois, num outro dia, queria que a aranha peluda o deixasse nas bandas do Rio Grande do Norte. Ali, nas praias de Natal, ele aguava na boca vendo os bumbuns das fêmeas se rebolando redondonhos bundudos quase rente ao seu nariz, se oferecendo quem-qué, quem-qué...

Comentário (oLiterato)

Com uma linguagem coloquial e divertida, Sérgio Schaefer dá outras contextualizações ao ilustre Macunaíma. E não é que o cabra vem cair por aqui, nas bandas da colônia alemã? Rutz é ver este mesmo Macu entre barreiras culturais daqui para conquistar amores. Do mestre hein... Leiam que é qualidade na certa!

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Poeminha a la Vinícius
Gabriel Silveira

Uma anjinha cor de anil
veio a mim e deu-me a mão
não me deu beijo na boca
mas me deu no coração.

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Algo sugerido pelo mestre Schaefer não podia mesmo ser inútil. Lá vai algo que me bateu na cara logo ao começar a ler algumas passagens do livro:

Esthetica do Desalento
Já que não podemos extrahir belleza da vida, busquemos ao menos extrahir belleza de não poder extrahir belleza da vida. Façamos da nossa fallencia uma victoria, uma cousa positiva e erguida, com columnas, magestade e aquiescencia espiritual.

Se a vida [não] nos deu mais do que uma cella de reclusão, façamos por ornamental'-a, ainda que mais não seja, com as sombras de nossos sonhos, desenhos e côres/mixtas/esculpindo o nosso esquecimento sob a parada exterioridade dos muros.
Como todo o sonhador, senti sempre que o meu mistér era crear. Como nunca soube fazer um esforço ou activar uma intenção, crear coincidiu-me sempre com sonhar, querer ou desejar, e fazer gestos com sonhar os gestos que desejaria poder fazer.(pag. 264)

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Um anjo me despertou um sonho
Sonho, mas quem não sonha? Nada é mais respeitável que a honestidade, a integridade. E quando isso vem acompanhado de uma dose magistral de beleza, sabedoria, sensualidade e elegância, aí sim, acreditem, estes atributos tornam-se irresistíveis. Ainda sinto o toque mágico das pequenas mãos ingênuas demais para as minhas; de olhos profundos demais para minha ignorância; de lábios doces demais para minha amargura. Ouso, mas quem não ousa? Continuo a absorver em minha alma, que hoje exala colorações azuis claras, todo o sentimento e a pureza de momentos inesquecíveis para mim, tão fúteis e passageiros para outros. Sigo caminhando, andarilho, entre almas moribundas alaranjadas que atravessam meu caminho e anjos azuis claros que insistem em me ajudar. Será que algum dia conseguirei alcançá-los? Já senti sua energia cósmica a tocar minha pele, queimando-me como ferro em fogo, como amor em crise, como o choro de uma criança. Sigo esperançoso. E um tanto confiante, afinal, eu sonho; mas quem não sonha?

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17.9.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Hoje chorei após ver (e ler, e sentir) este site. Por favor, vejam e reflitam.
Entrem aqui

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Ah.. hoje acordei nos braços de uma guajira, nos olhos de "Bumpin Montgomery", no corpo de um West Coast Blues. E assim vou, tentando achar espaço onde não há espaço, tempo onde não há tempo, vida onde só há solidão. Ao som de algo, nas cores de alguns tantos pássaros que voam felizes com a satisfação de apenas ser. Ah, como é bonito este teu guarda-chuvinha. Girando, girando. Serve-te de consolo em dias de chuva. E como é límpido pelo próprio ofício (alguns ofícios só nos deixam sujos e infelizes). Abre este guarda-chuvinha e guarda com ele meu amor. E aquela criança, sorridente por ter algo nas mãos sem mostrar para ninguém. Repito: a felicidade está nas pequenas coisas. O problema é como esquecer das grandes.

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16.9.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Coquetel - Parte I
Guilherme L. Póvoas (Jihad)

Sete de julho. Ano: 1099. Alguém gritara "chega o meio do dia!". Esta é a história do exército de poetas, matemáticos, escritores e soldados; contra um montarão de supersticiosos fardados e blindados até os dentes. Omar olhava de cima do forte, cercado por tochas e arcos amigos. Em sua frente, uma legião vinda da Europa que estava decidida a dizimar a sua nação. Eles gritavam, faziam rituais em volta da cidade guardada pelos mouros. Ao lado de Omar, o fiel soldado exclamara "é ao maghrib! Eles nos atacarão no pôr-do-sol". O chefe pedia calma. Tudo estava feito, agora, restara esperar o inimigo. "Que venham! Fiéis, protejam essa terra com as suas vidas, pois Deus lhe reserva o paraíso! Irmãos, Jerusalém é nossa e não deles!".
Pedro Eremita trazia madeira conseguida com embarcações genovesas. "Aqui faremos tocaias, catapultas e outras armas... não nos resta mais nada, a vitória é eminente". Assim, os cruzados montaram um aparato militar diante os olhos muçulmanos que, destemidos, esperavam o ataque, para poder matar. Em cima dos cavalos, em nome do rei, os europeus cruzaram o campo arenoso e iniciaram a destruição e tomada da cidade tri-sagrada. A qualidade das armas fabricadas espantou os seguidores do profeta Mohammad. Com alta cavalaria, entraram pelos portões de uma Jerusalém em que toda mística estava por acabar, caindo junto com os soldados islâmicos.
Os generais mouros recuaram. "A causa é de Deus. Lutem, o nosso caminho ao paraíso está na ponta daquelas lanças incrédulas". Omar, entrincheirado, usava seu arco e derrubava aqueles homens de cabelos penteados enfeitados com flâmulas e armaduras. Em certo ponto, o combatente mouro reconhecera e via tudo que acreditava. Tudo aquilo que os seus pais falavam, ensinavam e questionavam, estava provado naquele momento: a morte estava ao seu lado e o paraíso, mais perto ainda. Vendo seus irmãos caírem às areias sagradas, levantou-se da trincheira e, com a espada que herdara do avô, abatia um a um. Porém, os inimigos eram muitos, e entre seus gritos de "Allah' uAkbar", ouviu o uivo do vento de uma lança. Certeira. E derradeira. Era o seu fim nesta vida. O coração de Omar sangrara.
Agora, totalmente tomada por cruzados, Jerusalém assistia o maior massacre daquela época. No pátio da mesquita de Al-Aqsa, muçulmanos foram assassinados sob patatadas dos cavalos cruzados. Aos judeus, trancafiados dentro do Templo de Salomão, restou-lhes uma prévia do que viria depois: o fogo, que os queimou em minutos.
A tamanha covardia imposta nesta batalha escondeu os dados. Seis mil, vinte mil, quarenta mil mortos? Não se sabe. Porém, anos depois, na seqüência, algo iria mudar. A raça da mudança? Não é árabe, e sim curda. O nome? Digo-lhes: Yussuf Salahdeen, o Saladin.

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Meus olhos vazam. É sempre assim quando penso em mim, em meus desejos, ambições. É sempre assim quando penso no mundo ao meu redor. Meu rubro coração pulsa ritmos latinos que embalam canções de vida e de morte. Abro meus olhos que novamente prestam respeito à minha dor. Viro minhas mãos e vejo palmas calejadas de amores, de trabalhos, de força bruta, material. Puxo de minhas entranhas cores vermelhas, argilas criadoras, idéias de onde ou de quando. Sobre a mesa da vida, cada vez mais suja, cada vez mais velha, jogo meus condimentos geradores. Faço vida, crio mortes, ouso erros. Então do céu descem estrelas brilhantes, e leves como plumas, que trazem consigo o direito divino de dar vida ao que idealizei. Onipresença. Tiro as mãos assustadas de cima de minha criação e lá estou eu, este homem, este criador, este esforço em vida tão pobre de coragem, tão medroso de amores, tão perdido de direções. Lá estou eu, minha própria criação. Lá estou eu, vida criada por minha vida.

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15.9.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Pessoal, dei uma alterada no template para pode citar a grande ajuda de vcs que vem comentando, dia a dia, nossas experimentações literários. Obrigado a todos.

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Ouvi dizer, à boca solta, que, talvez, o mestre admirado Sergio Schaefer está lendo os nossos humildes escritos.
Outra pessoa, que merece distinção, também está lendo os nossos contos: Janaína Kalsing.

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14.9.03<$BlogDateHeaderDate$>

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PAIXÃO DOIDA - PARTE I
Gabriel Silveira

MICHELE

"Michele". Foi o que disse ao porteiro do Bar enquanto ele preenchia a comanda. Sempre quando digo meu nome em voz alta, sinto-me forte, viva, completa. E foi assim, firme, que dei o primeiro passo sobre o piso de madeira, velho e ruidoso, assim como a gente costuma encontrar na casa de algum avô ou avó. Observei os quadros na parede, a pintura fraca e desgastada pelo tempo e pelos amores que ali passaram, e segui entrando predestinada a encontrar um amor. Mas não pensei nisso naquele momento. Talvez por ter perdido um pouco aquela esperança de encontrar um príncipe, talvez por estar satisfeita com uma forma mais fácil de entreter a vida: divertir-se. Segui meus instintos e comecei a dançar, ainda um pouco inibida talvez pela pouca quantidade de pessoas que até ali haviam chegado para a festa, mas ainda cheia de confiança. Entretanto, sabia que a noite não seria nada mais que uma repetição do que foram as outras noites, a não ser por um importante detalhe.

MANOLO

"Hoje não tem erro, a noite promete". Era só o que eles diziam. Eu, entretanto, estava mais concentrado em meus pensamentos, meus devaneios filosóficos e no livro que havia deixado incompleto em casa. "Pega um cerveja", disse Carlos puxando-me de volta à realidade. Fui até o bar, cruzei duas dúzias de pessoas (uma mais bem fantasiada que as outras) e voltei, devidamente armado com um copo de cerveja, na direção dos meus amigos que aguardavam impacientes. Quando voltava, uma luz iluminou olhos distantes. Olhos coloridos de sentimentos e ingenuidade, cabelos enlaçavam virtudes esbanjadas em sorrisos estonteantes e verdadeiros. Foi a cerveja, que derrubei, molhando meus pés que despertou-me da hipnose. Voltei rapidamente até meus amigos, não antes de comprar outra cerveja, missão da qual havia sido incumbido. Cheguei com a cerveja de volta, entreguei-a a qualquer um que estivesse disposto a segurá-la (todos eles), e voltei minha atenção àquele anjo que pairava sua virtude e sua beleza sobre meus olhos.

CARLOS

Um babaca, isso era o que ele era. Não bastasse usar minha comanda para comprar uma cerveja ainda perdeu outra no meio do caminho. E agora estava aí, todo meloso atrás de uma guriazinha qualquer. Quer dizer, ela é até bonitinha mas... não era prá ele. Devia ficar quieto e curtir a noite como manda o figurino: cerveja na altura do peito e olhos vidrando qualquer gatinha que passar e, por um acaso, virar os olhos em nossa direção. Mas ele estava cego. Subiu no pequeno palco e foi em direção da menina. Ação inesperada, admito eu. Não pensei que ele fosse assim, tão desinibido. Mas foi lá. Dali onde eu estava não conseguia escutar o que conversaram, mas ela riu à beça. "Pior de tudo, vai ganhar ela e sair cantando de galo, dizendo que é o maioral" pensei eu. Mas não. Elas saíram e ele voltou, meio tristonho, meio alegre.

MICHELE

Adorei as coisas que ele disse. Na verdade nem tanto as coisas, mas "como" ele as disse. Tão educado, preocupado. Bom, mas meu namorado já devia estar chegando e não posso fazer algo que eu me arrependa depois. Mas é que há tempos eu não sentia o que senti naquele momento quando ele me falou: seu olhar sério, sua fala pausada, harmônica. Tentei esquecer tudo aquilo e cai na festa, já com meu namorado. Logo depois fomos para um local mais reservado e ali ficamos escondidos, em nosso mundo reservado mas tão "bege".

MANOLO

Não vi mais ela desde que lhe perguntei o nome. Aliás, na breve conversa que tivemos, só o que consegui tirar-lhe foi o nome e ainda assim com muito esforço. Entretanto sua beleza havia preenchido um pedaço do meu coração que andava esquecido e eu estava, estranhamente, satisfeito com o lindo sorriso que ela me deu. Fiquei rodando pelos ambientes daquele Bar/Boate até sentar-me em uma cadeira destas de plástico que lembram a praia.

MICHELE

Voltamos para a festa só para buscarmos minha irmã que estava perdida entre pessoas e amores. Ela pediu que eu lhe esperasse um pouco mais para ir embora, pois tinha uns "assuntos" (imagino eu bem quentes) para tratar lá dentro. Eu e meu namorado, então, resolvemos tomar um pouco de ar e esperarmos lá fora. Quando chegamos lá é que vi aquele rosto que já tinha me encantado antes. Era ele, sentado em uma cadeira, rodeado de amigos, e viu-me logo que sai da casa em direção à área descoberta. Tentei puxar meu namorado de volta para dentro mas ele insistiu que ficássemos ali. Sentei, então, de frente para ele (o outro, imaginem nem sei o nome dele!!!) e meu namorado de costas, olhando para mim. Ele me olhava com tamanha vibração que eu também não conseguia tirar os olhos dele, mesmo quando meu namorado me abraçava ou me beijava. Fiquei tão entristecida em saber que talvez já sentisse algo mais forte por alguém que nem conhecia enquanto em meu namorado só conseguia sentir aquela vibração morna, entediante. Logo ele(o outro) levantou e foi embora. Eu fiquei ali até que minha irmã voltasse e depois também fui, pensativa: "será que seria possível apaixonar-se por alguém que ainda nem conhecemos?". Aquele pensamento martelou-me e martelou-me até que o esqueci, alguns dias depois.

MANOLO

Um misto de tristeza e consolo. Tristeza por não estar nos braços dela e consolo por ver que ela me olhava por trás do ombro do namorado (ou ficante) cheia de sentimentos. Eu que sou o idiota querendo me apaixonar por alguém que nem conheço. Todo mundo sabe que isso não é possível. Naquele dia fui embora assim, quente, mas tentando esquecer o ocorrido. Mas nos próximos dias não me abandonava a imagem daquele rosto, "daquele anjo que pairava sobre meus olhos".

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13.9.03<$BlogDateHeaderDate$>

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O Troco
McGwier é um jogador de beisebol profissional. Atua na equipe americana dos Falcons. Em todos os jogos, e em inúmeras vezes, taca a bola para fora do estádio, fazendo a torcida urrar "home-run, home-run". Dono de uma força descomunal, é um dos mais temidos rebatedores do país yankee. E por mais potente que seja o lançamento do arremessador, McGwire rebate, com precisão e inteligência.

Era aniversário de 14 anos de Santiago. Festa! Às 19 horas todos familiares, colegas de aula e amigos do condomínio já estavam sentados em torno da mesa. Alguns, em pé, se divertiam com as piadas contadas pelos "tios". O festejo estava armado. E, como não poderia deixar de ter, os parentes bêbados do aniversariante já estavam fazendo seu show aparte.
Adalberto era um dos padrinhos de Santiago. Comemorações, as mais fúteis que fossem, sempre contavam com a embriaguez do quarentão. Solteiro, morava sozinho duas quadras longe da casa dos pais do aniversariante. No convite que recebera, estava em negrito o horário: 18h. Antes das 16h Adalberto já esquecia os salgadinhos, como esquecera do presente, e estava acabando com os engradados de cerveja que o pai de Santiago havia comprado. A relação Santi e Beto era alegre e brincalhona. O padrinho nunca se preocupara em dar lições de moral ou xingar o guri. A primeira chuteira de futebol que o púbere ganhou foi ele quem deu. Porém, algo nesta relação iria mudar naquela noite de janeiro.
Inocente e organizado, Santiago escolhia a dedo a organização da mesa do aniversário, quem iria ficar ao seu lado, aquele que iria tirar a foto e a música que tocaria no cassete. As luzes se apagam. A vela é acesa e a mãe do aniversariante traz o bolo. Que belo! Parecia uma explosão de luz, um reveillon em cima de chocolate. Aquela enorme torta passa pelo dindo Beto. O bêbado tenta soprar as velinhas... estava aí a primeira insatisfação de Santi com o quarentão. Fora às brincadeiras, o guri não admitia que invadissem seu território. Enquanto o parabéns a você era cantado e aplaudido, o padrinho, em meio a risadas, continuava com suas fanfarrices de mal gosto aos convidados da festa. Em especial, às coleguinhas de Santiago.
O detalhe era que os freqüentes atos vexaminosos de Adalberto jamais haviam ultrapassado o espaço do parabenizado. Ao ver todas aquelas cenas, entediantes e humilhantes, o guri exclamara para si "não, depois de 7 anos sem uma festa de aniversário, não admitirei algo assim". Com as velinhas ainda acesas, incendiando a festa, Santiago arremessou o bolo em seu padrinho. Num certeiro, exato, preciso e forte, muito forte arremesso de caldas e camadas de chocolate. O bolo(a) voara, com as velas queimando, acertando em cheio a face do embriagado, que mesmo assim, continuava com aquele sorriso, cínico e fatídico. Se fosse uma bola de beisebol aquele bolo pirotécnico, nem McGwire rebateria.

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12.9.03<$BlogDateHeaderDate$>

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O aprendiz caminha. Cai. Ousa, cai. Cria, cai. Busca, cai. Aceito minha natureza de aprendiz neste mundo perplexo de si mesmo cheio de caminhos peregrinos e solitários. A areia batida, úmida da recente chuva marca meus passos solitários e confusos que, em idas e vindas, aprende um bocado, ensina um bocado, erra o restante. Amores sem passado e sem futuro, paixóes lotadas de medos invencíveis e, em todo o canto encontro medo, insegurança, covardia, decepção. Construo minha fortaleza com pedras pesadas e eternas mas "...é tudo tão devagar". Sigo, andarilho, viajante, peregrino, batendo de porta em porta, coração em coração, para tentar encontrar alguém que veja além da matéria, além do horizonte (ou pelo menos olhe para este). Meu querido ateniense ousaria um "só-sei-de-que-nada-sei" cheio de humildade e feeling literário, mas eu vou ficar com o ilustre Gabriel e seu título tão misterioso: "OLHOS DE CÃO AZUL". Bom dia.

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11.9.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Caminho em palavras em uma manhã branco-azulada como ventos de primavera. As pirâmides cor-de-terra, mas sobre ela, dividem espaços e atenções dos anjos que cruzam o espaço buscando aflitos. Aflitos como eu. Perdidos como eu. Tão indecisos e necessitados como eu. Mas meu caminho parece estar aui, nas palavras, em minhas entrelinhas vulgares escondidas entre ids e superegos, montanhas e serras infinitas. Meu caminho está em não haver caminho. Está em "Ah, se eu fosse marinheiro". Ei de entregar-me a minha própria imensidão. Uma imensidão desperta e que talvez seja uma tão ínfima partícula de um mundo tão cheio de gigantes, que ninguém a note. Mas eu preciso notá-la. "Leste, Oeste, Norte, Sul". Ei de situar-me em minhas próprias palavras e meus caminhos letrados de felicidades e apertos no coração.

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10.9.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Gostaria de agradecer os comentários e as visitas rotineiras. Obrigado!

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Vila verde
Olhos verdes. Tudo o que era perene em sua cabeça eram olhos verdes
Aquela morena-ruiva de (com certeza) olhos verdes
Com um fone de ouvido, de ruídos tediante, mas com a janela da alma...
verde. Verde como a mais clara folha de araucária.
Que neófita, brota à primavera veranil.

Que matiz era aquela?
Uma água púrpura, do litoral mágico
Líquido que banha uma ilha caribenha
Ou que chega às areias, derramando fé e
esperança sobre elas.

Aquele verde-oliva, incolor, e listrado
Que, como um programa alegre de televisão,
Convida a entrar para um mundo, para o seu mundo.
o mundo dela.

Agora, difícil entender, a razão, os motivos,
da insistência dela
em usar aqueles óculos escuros.

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No ar
Gabriel Silveira

"A felicidade está nas pequenas coisas, ô sabedoria". Foi o que disse Raquel antes de deitar-se na areia gelada de tranquilidade do mar. Ousou falar alto com si mesma enquanto seus amigos erguiam barracas há cerca de 500m dali. Seus pais haviam morrido há um mês e seus amigos, aconselhados pela família, a levaram para um fim de semana no litoral. No céu azul que competia em sabor e orgulho com o mar profundo, Raquel encontrou a verdade. Estava ali, entre nuvens formadas de açúcar ou algodão (ou os dois): a verdade brincava, desfilando em caminhos distantes mas nem tão confusos. Ali Raquel encontrou a liberdade, esta que só se conquista quando se está sozinho, em silêncio por fora e em urros de alegria por dentro. Esta liberdade que vai e vem, movendo-se e que nunca é eterna. Quando a água, voltando inconformada com a força do repuxo, impondo-se por sobre a praia, tocou-lhe os pés sujos de areia, Raquel perdeu-se em sentimentos, edificou estruturas de paixão, e morreu em alma e choro, repetindo, "A felicidade está nas pequenas coisas". Levantou-se mais jovem vinte anos e sentiu o cabelo molhado tocar-lhe as costas. Correu em direção aos seus amigos e deixou a natureza só, com sua imensidão, vendo seu caminho trilhado por pés na areia e sentimentos no ar.

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Passo em todos os cantos. E todos cantos são como os cantos geométricos, quebrados, divididos, separados. Meus cantos outrora eram mais doces mas sempre com este ar de inconformidade. São, talvez, os cantos divinos (não tão quadrados e nem tão quebrados) que motivam o céu a erguer-se no infinito e empreender uma batalha matinal contra nuvens cinzas e almas chuvosas(eu coloquei isso em algum blog) que imperam há alguns dias(coloquei isso tb). Bom, meus ares são de um admirador, que observa, calado em voz e ativo em letras, esta batalha dos céus de tão silenciosa e tão deliciosa que se faz. E eu em meu canto de homem, de nada, de alma ou de corpo, de ser, enfim.

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O cansaço corrói minha mente, desfaz minhas letras e eu caio na rotina infinita de arrogâncias e atitudes estúpidas que constróem o mundo moderno.

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9.9.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Fight fire with fire

Os arquivos pegavam fogo. A prateleira estava completamente desfigurada pelas chamas. Livros, materiais daquele escritório. Tudo, queimado.

Ao sair de casa naquele 9 de novembro Ataíde beijara sua mulher e deixara dinheiro sobre a mesa do café, ao lado de sua xícara, para as compras de supermercado daquele início de mês. Margarida, que penhorou todas suas jóias para morar com o marido em Nova Iorque, abandonando a terra salazariana, sempre tomava banho após a saída de seu cônjuge. Porém, a preguiça ainda notívaga fez com que ela esquece-se a sua higiene sacristã de todas as alvoradas para ir ao mercado com mais rapidez. Assim, sem saber o por quê.
Ataíde já enxergava tudo vermelho, que precedia aquela massa fumaceada cinza. Ao entrar em seu escritório, num novembro ensolarado, o brazuca americano virá todos seus documentos, folhas, processos e petições virarem cheiro de cor preta. Um fogaréu, que consumia unicamente a sua sala, iria colocar seus planos por água a baixo, fazer com que retornasse para algum lugar diferente, no qual jamais tivesse estado.
Margarida, com um vestidinho vermelho, olhara para um prédio frente ao supermercado onde recém havia pego pães quentes (raridade). Tal prédio, que aparentemente tinha 4 andares, urgia fumaça por uma de suas janelas. "Eu havia lhe dito, aquela cigarro acabaria com ele algum dia".

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Alguns não suportam a chuva. Ela é caluniada de chata, incômoda, caótica, cinza... imagine só... a chuva, esta chuva doce, crespa por natureza mas ainda assim doce, que percorre seus períodos cíclicos de ascensão e queda, esta chuva que nunca houve porque sempre foi. Esta chuva é incômoda? Não. Nós somos o incômodo, os invasores, com nossos experimentos, nossas manipulações do clima e do solo. Nós é que interfirimos em seu período por tantos bilhões de anos determinado pela natureza. E alguns esbravejam, E esta chuva que não pára, ou ainda, Aiii, meu cabelo vai ficar não sei o quê. Pois para mim a Chuva(se vocês me permitem a maiúscula) é um banho divino. Vem com sua face límpida e clara tirar de nosso ventre pútrido toda a maldade e rancor que criamos; todo ódio que em nossas entranhas encrustou-se. Se permitisse-mos a nós mesmos um segundo embaixo das águas deste poderoso revitalizador, ah, aí sim sentiríamos o lavar do corpo, e o fim das culpas que outrora sentimos mordiscando nossos corações como vermes que atacam o corpo desfacelando-se abaixo da terra. Dá-nos a chuva imperiosa, divina e, se preciso, lava de vez este mundo ignorante para que possamos(todos) sentir a vibração máxima da beleza do ser humano e do amor em si.

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Os caminhos são tão medrosos quando não se pode vê-los. os caminhos da rua são escuros. O cinza cobre o céu e a escuridão minha mente. Por um momento me encontro cinza, profundo, quieto, abstrato(talvez) e, assim, tudo o que vejo não é, apenas vejo. Hoje não vou correr porque algo foi mais forte que minha disposição. Hoje não vou ler porque algo foi mais forte que minha curiosidade. Hoje não vou comer porque algo foi mais forte que minha fome. Hoje não vou chorar porque algo me aperta, me esgana, me seca. A isso não chamamos de tristeza mas não chamamos de alegria. Não chamamos de arrogância "tampouco" de simpatia. Não estou. E é esta indiferença que traz sentimentos medrosos, atitudes ocas, cores opacas e gritos mudos de esperança e tensão. Hoje é dia de refletir mas não no ontem, no amanhã.

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7.9.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Vou dar uma de Narciso e postar uma foto minha e uma do Jihad. Abraço.



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5.9.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Visitas na madrugada
Gabriel Silveira
Eu sentado no campo. Ao lado o cusco. Além de meus olhos tudo é negro, ou quase isso. A noite é escura como os caminhos do sul e o azul Netuno que ilumina a Lua não ousa tocar o peso triste do chão. Nesses momentos abstraímos da matéria. Nesses momentos as almas vagueiam ousando falar e até o cusco se esconde com medo de algo. Mas eu não estou mais ali. Estou em um ambiente onde as cores são fluxo astral. Onde o preto racha em cacos brancos reluzentes. Milhões de estrelas mostram-me o caminho de volta para casa. E eu volto. E aqui estou. O cusco fugiu. As vozes cessaram. Acho que vou aproveitar para dormir.

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Essa vai em homenagem à minha infância e ao amor que eu tenho pela terra em que cresci e pelo jovem tropeiro que fui.

Retorno prás casa
Gabriel Silveira

Eu, solito, tropeiro urbano,
cevo o mate, anseio um reponte
do tobiano velho, lá no horizonte
trazendo na sela dias que esqueci.

Eu, solito, um neo-paisano,
redomão freado em fronteiras modernas
atado à vela de dispostas galeras
e mastaréus que almejam o futuro.

Eu, solito, dono de mim,
índio esquecido nas sesmarias
que, maneando da vida ironias,
descobre no fim de nada ser dono.

Eu solito, formando ilusões
de campos ritmados por cantos barreiros,
relembro estâncias, vozes, campeiros,
que marcam a alma mas somem no chão.

E sempre assim, sempre solito
me perco nas trapaças da nostalgia
e anseio a Deus que, quando chegar meu dia,
retorne "prás" casa, soluto em galpão.

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O destino de Gork
Gabriel Silveira

Dirium Gork morou sua vida inteira em Tribusk, em algum ponto esquecido da velha e congelante Sibéria. Perdeu seus pais ainda menino e nunca tivera irmãos. Não foi nada fácil para uma criança de 13 anos construir seus próprios caminhos em um vilarejo tão desconhecido quanto inabitado (não mais do que 34 pessoas viviam ali) cercado de gelo e dificuldades por todos os lados. Mesmo assim, Gork sobreviveu. Agora com 21 anos, já era um lenhador experiente e trabalhava, como quase todos os outros homens do vilarejo, para Aslan Kadyrov, o único que tinha dinheiro o bastante para levar grande parte da lenha para as outras pequenas cidades da região. Entretanto, o senhor Kadyrov não era lá uma daquelas abelhas da qual desfruta-se mel com alguma facilidade. Era conhecido por impor seu poder através de condenações injustas e torturas cruéis. Para o pequeno grupo de trabalhadores, entretanto, não havia outra saída: ou ocupavam suas fileiras ou morriam de fome e congelados.

Dirium nunca foi submisso. Não fosse por seu impressionante desempenho com um machado, talvez já estivesse unido aos muitos que pagaram pela insurreição. Não agüentava mais aquela eterna dependência e naquela tarde, quando chegou em sua pequena tapera, estava mais furioso do que nunca. Empurrou a velha porta de tábuas largas e frestas que, só de enxergá-las, congelava seus ossos lembrando-o do frio da noite. Após aquecer-se com uma mistura de folhas e vodka, criada por ele mesmo, deitou-se e ficou observando a neve que caia castigando os corajosos que atreviam desafiá-la à noite. Dormiu.

Acordou de sobressalto, algumas horas depois. O frio estava congelante e seu estoque de lenha, por mais contraditório que isto pareça, estava a ponto de terminar. Apesar da crueldade da tempestade do lado de fora, Dirium ergueu o gigantesco machado até as costas, armou-se de todos os casacos que achou e pôs-se à rua desafiando a raivosa neve. Com um caminhar lento e pesado, andou cerca de 300 metros ao fundo de sua casa, onde ainda restavam algumas árvores recém cortadas, que necessitavam apenas de um ou dois talhos. Notou que, apesar da neve forte, o céu parecia tomar um colorido estranho, chegando a criar um contraste entre suas fortes cores azuladas e o branco que a neve ostentava em meios as árvores. Quando voltava do corte, notou que a forte neve começara a apertar. Continuou até que uma árvore tombou em sua frente tamanha a força que a neve começava a exercer sobre a floresta. Procurou, então, algum lugar para proteger-se até que a tempestade diminuísse. Jogou-se na direção de uma pequena caverna há cerca de 200 metros de sua casa, onde ergueu uma pequena barricada, com a lenha cortada, para que a neve não invadisse sua entrada. Quando por um instante sentiu-se seguro, deu-se conta de que nunca havia visto aquele lugar. Alertou-se com a preocupação de que ali poderia viver algum animal e começou a entrar mais para o fundo da pequena caverna. Com o machado em riste começou a notar que o lugar era maior do que imaginava e que, a medida que caminhava, parecia crescer cada vez mais. Pouco a pouco começou a enxergar uma luz azulada no fundo da caverna. Só agora conseguia ver, com a luz irradiada daquele ponto, as fortes paredes e como era impressionante que nunca tivesse visto tamanho buraco quase no pátio de sua própria casa. Ao passo que aproximava-se, a luz tornava-se mais forte a ponto de que não conseguiu mais segurar seu pesado machado e levou as mãos aos olhos para protegê-los de tamanha dor. Foi, então, a primeira vez que viu aqueles traços dos quais nunca mais esqueceria. Não sabia o que ela era, talvez uma fada ou algum tipo de anjo, só sabia que sua beleza era estonteante. Seu rosto, irradiando luz, transmitia pureza, sabedoria e tamanha tranqülidade, que fez com que Dirium se ajoelhasse a contemplá-la. Ele nunca havia sentido tamanha demonstração de seus sentidos. Sentia um perfume reconfortante e mágico como se fosse uma mistura de todos os perfumes e cores do mundo. A luz tocava sua face deixando-lhe cada vez mais maravilhado com aquela experiência. Foi então que ela lhe disse:

- Sou apenas um instrumento, mas trago-lhe um presente do qual farás bom uso sendo bom homem que és.

Dirium estava cheio de perguntas a fazê-la como ¿quem és?¿, ¿o que és? Ou ¿que presente?¿ mas estava tão vibrante que não ousou falar nem uma palavra. Então ela, sentindo suas dúvidas, disse-lhe:

- Tudo que precisas saber é que me chamo Dnork e que trago-lhe um presente de meus deuses. ¿ estendeu-lhe a mão e entregou a Dirium um pequeno cordão de couro com uma pedra azulada em sua ponta e disse-lhe ¿ Sê justo, trabalha com dignidade e terás tudo que um homem pode ter e ainda tudo com o qual possas sonhar, mas não te esqueces: tudo que traz o poder pode trazer a ruína ¿ e disse ainda ¿ A mágica nada mais é que a realização da fé. Portanto crê de coração em ti mesmo e serás recompensado pelos deuses.

Nesse instante, sem que Gork tivesse pronunciado nenhuma palavra, ela desapareceu. A luz que irradiava de seu amuleto iluminou seu caminho até a saída da caverna. A neve havia parado e o céu estava multicolorido, como se a tempestade fosse apenas um artifício para que Dirium encontrasse a pequena elfa. Correu até a porta de sua casa segurando com firmeza o amuleto e não atreveu-se a pensar em nada. Havia esquecido até mesmo sua lenha na rua mas o frio não mais o incomodava, não mais. No outro dia pela manhã, Gork levantou como se nada tivesse acontecido. Preparou um café e disse-lhe em voz alta com tom de convencimento:

- Que sonho mais estranho. Tenho de parar com estas bobagens.

Sentou em sua cadeira de palha trançada e começou a tomar seu café quando olhou, em cima da mesa, o amuleto. Silenciou-se. Assim ficou cerca de cinco minutos. ¿Então nada daquilo era um sonho¿ ¿ disse a si mesmo. Lembrou do ocorrido, o que pensava até o momento que era apenas um sonho, e colocou o amuleto de lado, escondendo-o sob um livro. ¿A fé¿, disse, ainda incrédulo, rememorando as palavras daquela mulher. Levantou-se e foi lentamente até o lado oeste de sua casa, onde ficavam suas duas vacas. Saiu pela frente chutando o acúmulo de neve de suas botas e ao mesmo tempo olhando longe seus colegas dirigindo-se para o trabalho e lembrou-se que estava atrasado. Quando chegou no seu pequeno cercado teve um surpresa: além das suas duas vacas estavam ali mais cinco outras das quais ele nem imaginava de onde haviam surgido. Silenciou novamente por alguns minutos até que virou-se e voltou correndo até dentro de sua casa. Olhou para cima de sua mesa, levantou o livro e lá estava ele, o amuleto mágico. ¿Bobagem, pura bobagem¿ ¿ pensou. Ergueu seu machado e dirigiu-se ao trabalho. Naquele dia, enquanto cortava madeira, não conseguia parar de pensar no amuleto e nas cinco vacas que haviam aparecido do nada. ¿Certamente alguém quer me pregar uma peça¿, pensou. Ao final de uma semana ninguém havia dito nada apesar de alguns estranharem a quantidade de vacas em seu cercado. Decidiu-se por esperar até o segundo final de semana para depois voltar a pensar sobre o amuleto. E assim foi: um, dois, três, quatro finais de semana até que voltou a sentar-se naquela mesma mesa de café, com a mesma xícara e o mesmo livro à sua frente, focando seu olhares no mesmo amuleto mágico. Gork fingia não notar mas naquelas últimas semanas haviam surgido mais duas vacas e uma tamanha quantidade de galinhas que ficou difícil explicar aos colegas de onde haviam surgido. Levantou o amuleto até a altura dos olhos e repetiu as palavras da misteriosa mulher: ¿Crê de coração em ti mesmo e serás recompensado pelos deuses¿. Em um ato ríspido colocou o amuleto em seu pescoço e, na mesma hora, sentiu-se diferente. O sangue corria mais rápido em suas veias, pulsava-lhe o coração com tanta força que sentiu medo e tremeu. Tirou-o. Voltou a colocá-lo logo após e aos poucos acostumou-se com aquela estranha sensação.

Agora acreditava no poder do amuleto que, em pouco tempo, já fazia parte do seu corpo. Não tirava-o nunca, nem mesmo para dormir, e sua constante sorte o surpreendia com novas façanhas. Nos próximos 25 anos Dirium gozaria dos máximos prazeres da vida, construiria mansões, vingaria-se do terror de Kadyrov e ajudaria todos ao seu redor na comunidade. Entretanto, aos poucos, Dirium começou a perder sua humildade e esquecera que devia toda sua riqueza ao seu precioso amuleto. Há alguns anos, quando a tempestade de neve quase impedia os trabalhadores de cortarem as árvores, Dirium, regido pela ambição, obrigou-os a enfrentar a neve, levando à morte dezenas de pessoas de Tribusk, que apesar disso crescera muito devido aos grande investimentos feitos por ele na região. Aos poucos havia tornado-se tudo o que mais odiava: um homem rico, autoritário, impiedoso e cruel, muito semelhante ao já esquecido Aslan Kadyrov.

Saiu do Café Slavianka em São Petersburgo e uma hora depois estava embarcando em um grande avião Pulkovo. Ali terminavam as férias de seu 48º aniversário. Sempre solitário, Dirium sentou-se na poltrona e fechou os olhos. Dormiu. Sonhou que via a pequena Elfa. No sonho ela lhe dizia: - Eu lhe pedi que fosses justo e tu foste impiedoso e intolerante. Eu te pedi que fosse honesto, tu foste ganancioso e inescrupuloso. Eu te concedi a riqueza mas agora vejo que merecias a miséria. Fugiste do teu destino e agora é o destino que fugirá de ti.

Dirium acordou de sobressalto. Estava em sua pequena tapera. Esfregou os olhos e correu para a frente do espelho, ainda era jovem. ¿Tudo foi um sonho¿, pensou. Correu até o cercado: duas vacas. ¿Tudo foi um sonho¿, repetiu novamente.

Sentindo-se triste por não possuir mais toda aquela riqueza, ergueu seu machado à altura das costas e foi trabalhar. E assim foi, e foi, e foi por muitos dias até que, em uma noite em que o céu ostentava um azul negro estrelado, sentiu frio no meio da noite. Lembrou-se da Elfa e decidiu não ir buscar lenha. Na tarde do outro dia foi achado em sua tapera. Morrera de pneumonia, ou de arrependimento.

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Acabei de conversar, como fazia antigamente, com a única estrela que está no céu azul negro que paira agora sobre mim. Daqui ainda posso ver ela sorrindo. Ela me disse que tudo ainda vai acabar bem. Enquanto as estrelas acompanharem meus passos nesta jornada, ei de estar bem e seguro. Vou desligar os computadores e ir para casa. Sei que estou bem acompanhado, sempre bem.

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Respostas no café
Gabriel Silveira

Estava sentado sozinho há quase 3 horas. Totalmente mergulhado em meus pensamentos, depois de três cafés duplos com chantilly, comecei a observar as pessoas que entravam na pequena livraria. Este tipo de análise, apesar de ser às vezes um bocado constrangedora, pode nos dar muitas respostas sobre a vida e os enganos de cada um e, na maioria das vezes, dos nossos próprios. Com os olhos fixos em algum lugar do plasma mental entre eu e a porta da entrada, comecei a analisar. Por algum motivo, talvez pelo mais óbvio, comecei a reparar nas roupas e no grande aparato visual que algumas pessoas, literalmente, "carregavam". "Pôxa vida", disse a mim mesmo, "somos prisioneiros eternos da estética, quanta energia dispendemos nisso". E foi ali, naquela palavra "prisioneiros", que percebi algo muito interessante. Percebi que a liberdade, esta tão famosa liberdade do indivíduo de pensar, de opinar, começa e termina ali, no próprio ser. Quantos compram brigas com grandes forças, não percebendo que a prisão central está no "não ousar" ser diferente e fugir da escravavidão das coisas materiais, tão fúteis e passageiras. Então olhei para minhas roupas: uma camisa xadrez (juro que me senti em uma festa de São João), uma calça sem bainha, um all-star batido e uma touca na cabeça, além da barba(eternamente falhada) e o cabelo precisando de um corte. Como é bom ser liberto deste mundo. Liberto de me preocupar, dia a dia, se tenho roupas novas ou "boas para sair" como o pessoal costuma falar. A liberdade está em não ter vergonha, em não ter medo de não obedecer as regras da sociedade. E isto passa pela estética, pelas atitudes, pela idade que você vai casar, em que festas você vai, até que tipos de livros você lê. "Claro", pensei, "as pessoas, pela falta de conhecimento, começam a orgulhar-se do que está fora para não precisar se preocupar com o que está dentro". Alguns responderiam: "O mundo de hoje é assim: se você não trabalha o que está fora, ninguém valoriza o que está dentro". "Mas se a gente não valoriza a si mesmo, imagina se os outros vão valorizar", pensei. Nesse momento chegava meu quarto café, este sem chantilly. Logicamente perdia muito visualmente para os outros, por não ter o contraste do preto e branco dado pelo creme. "Aqui está a prova, os outros me conquistaram mais do que este último pelo visual" - argumentei e continuei contra-argumentando - "a diferença é que taças de café não pensam".

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Minh'alma campeira

Lá dentro de minh'alma
moram medos e tropeços.
Sentimentos que do avesso
mostram formas monstruosas.

Lá dentro, no cais da vida
onde a angústia está ancorada,
tempo em tempo faz morada
uma tal de rebeldia.

Lá, onde são amos os demônios
e onde como escravo me postulo,
sou nostálgico no escuro
por, do mundo, conhecer virtudes

E quando lá fora as bandeiras
dão vitória à matéria
relembro a magia gaudéria
quase esquecida no ataúde:

o coração aguçado pelo canto
do barreiro companheiro,
entre rezas de gaiteiro,
gera idéias de atitude

Mas lá no fundo, onde o que disse é perene
e o que não disse é indescritível,
'inda sobrevive em tons azedos
verdes campos cheios de medos
dos arrepios da solitude.

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