O destino de Gork
Gabriel Silveira
Dirium Gork morou sua vida inteira em Tribusk, em algum ponto esquecido da velha e congelante Sibéria. Perdeu seus pais ainda menino e nunca tivera irmãos. Não foi nada fácil para uma criança de 13 anos construir seus próprios caminhos em um vilarejo tão desconhecido quanto inabitado (não mais do que 34 pessoas viviam ali) cercado de gelo e dificuldades por todos os lados. Mesmo assim, Gork sobreviveu. Agora com 21 anos, já era um lenhador experiente e trabalhava, como quase todos os outros homens do vilarejo, para Aslan Kadyrov, o único que tinha dinheiro o bastante para levar grande parte da lenha para as outras pequenas cidades da região. Entretanto, o senhor Kadyrov não era lá uma daquelas abelhas da qual desfruta-se mel com alguma facilidade. Era conhecido por impor seu poder através de condenações injustas e torturas cruéis. Para o pequeno grupo de trabalhadores, entretanto, não havia outra saída: ou ocupavam suas fileiras ou morriam de fome e congelados.
Dirium nunca foi submisso. Não fosse por seu impressionante desempenho com um machado, talvez já estivesse unido aos muitos que pagaram pela insurreição. Não agüentava mais aquela eterna dependência e naquela tarde, quando chegou em sua pequena tapera, estava mais furioso do que nunca. Empurrou a velha porta de tábuas largas e frestas que, só de enxergá-las, congelava seus ossos lembrando-o do frio da noite. Após aquecer-se com uma mistura de folhas e vodka, criada por ele mesmo, deitou-se e ficou observando a neve que caia castigando os corajosos que atreviam desafiá-la à noite. Dormiu.
Acordou de sobressalto, algumas horas depois. O frio estava congelante e seu estoque de lenha, por mais contraditório que isto pareça, estava a ponto de terminar. Apesar da crueldade da tempestade do lado de fora, Dirium ergueu o gigantesco machado até as costas, armou-se de todos os casacos que achou e pôs-se à rua desafiando a raivosa neve. Com um caminhar lento e pesado, andou cerca de 300 metros ao fundo de sua casa, onde ainda restavam algumas árvores recém cortadas, que necessitavam apenas de um ou dois talhos. Notou que, apesar da neve forte, o céu parecia tomar um colorido estranho, chegando a criar um contraste entre suas fortes cores azuladas e o branco que a neve ostentava em meios as árvores. Quando voltava do corte, notou que a forte neve começara a apertar. Continuou até que uma árvore tombou em sua frente tamanha a força que a neve começava a exercer sobre a floresta. Procurou, então, algum lugar para proteger-se até que a tempestade diminuísse. Jogou-se na direção de uma pequena caverna há cerca de 200 metros de sua casa, onde ergueu uma pequena barricada, com a lenha cortada, para que a neve não invadisse sua entrada. Quando por um instante sentiu-se seguro, deu-se conta de que nunca havia visto aquele lugar. Alertou-se com a preocupação de que ali poderia viver algum animal e começou a entrar mais para o fundo da pequena caverna. Com o machado em riste começou a notar que o lugar era maior do que imaginava e que, a medida que caminhava, parecia crescer cada vez mais. Pouco a pouco começou a enxergar uma luz azulada no fundo da caverna. Só agora conseguia ver, com a luz irradiada daquele ponto, as fortes paredes e como era impressionante que nunca tivesse visto tamanho buraco quase no pátio de sua própria casa. Ao passo que aproximava-se, a luz tornava-se mais forte a ponto de que não conseguiu mais segurar seu pesado machado e levou as mãos aos olhos para protegê-los de tamanha dor. Foi, então, a primeira vez que viu aqueles traços dos quais nunca mais esqueceria. Não sabia o que ela era, talvez uma fada ou algum tipo de anjo, só sabia que sua beleza era estonteante. Seu rosto, irradiando luz, transmitia pureza, sabedoria e tamanha tranqülidade, que fez com que Dirium se ajoelhasse a contemplá-la. Ele nunca havia sentido tamanha demonstração de seus sentidos. Sentia um perfume reconfortante e mágico como se fosse uma mistura de todos os perfumes e cores do mundo. A luz tocava sua face deixando-lhe cada vez mais maravilhado com aquela experiência. Foi então que ela lhe disse:
- Sou apenas um instrumento, mas trago-lhe um presente do qual farás bom uso sendo bom homem que és.
Dirium estava cheio de perguntas a fazê-la como ¿quem és?¿, ¿o que és? Ou ¿que presente?¿ mas estava tão vibrante que não ousou falar nem uma palavra. Então ela, sentindo suas dúvidas, disse-lhe:
- Tudo que precisas saber é que me chamo Dnork e que trago-lhe um presente de meus deuses. ¿ estendeu-lhe a mão e entregou a Dirium um pequeno cordão de couro com uma pedra azulada em sua ponta e disse-lhe ¿ Sê justo, trabalha com dignidade e terás tudo que um homem pode ter e ainda tudo com o qual possas sonhar, mas não te esqueces: tudo que traz o poder pode trazer a ruína ¿ e disse ainda ¿ A mágica nada mais é que a realização da fé. Portanto crê de coração em ti mesmo e serás recompensado pelos deuses.
Nesse instante, sem que Gork tivesse pronunciado nenhuma palavra, ela desapareceu. A luz que irradiava de seu amuleto iluminou seu caminho até a saída da caverna. A neve havia parado e o céu estava multicolorido, como se a tempestade fosse apenas um artifício para que Dirium encontrasse a pequena elfa. Correu até a porta de sua casa segurando com firmeza o amuleto e não atreveu-se a pensar em nada. Havia esquecido até mesmo sua lenha na rua mas o frio não mais o incomodava, não mais. No outro dia pela manhã, Gork levantou como se nada tivesse acontecido. Preparou um café e disse-lhe em voz alta com tom de convencimento:
- Que sonho mais estranho. Tenho de parar com estas bobagens.
Sentou em sua cadeira de palha trançada e começou a tomar seu café quando olhou, em cima da mesa, o amuleto. Silenciou-se. Assim ficou cerca de cinco minutos. ¿Então nada daquilo era um sonho¿ ¿ disse a si mesmo. Lembrou do ocorrido, o que pensava até o momento que era apenas um sonho, e colocou o amuleto de lado, escondendo-o sob um livro. ¿A fé¿, disse, ainda incrédulo, rememorando as palavras daquela mulher. Levantou-se e foi lentamente até o lado oeste de sua casa, onde ficavam suas duas vacas. Saiu pela frente chutando o acúmulo de neve de suas botas e ao mesmo tempo olhando longe seus colegas dirigindo-se para o trabalho e lembrou-se que estava atrasado. Quando chegou no seu pequeno cercado teve um surpresa: além das suas duas vacas estavam ali mais cinco outras das quais ele nem imaginava de onde haviam surgido. Silenciou novamente por alguns minutos até que virou-se e voltou correndo até dentro de sua casa. Olhou para cima de sua mesa, levantou o livro e lá estava ele, o amuleto mágico. ¿Bobagem, pura bobagem¿ ¿ pensou. Ergueu seu machado e dirigiu-se ao trabalho. Naquele dia, enquanto cortava madeira, não conseguia parar de pensar no amuleto e nas cinco vacas que haviam aparecido do nada. ¿Certamente alguém quer me pregar uma peça¿, pensou. Ao final de uma semana ninguém havia dito nada apesar de alguns estranharem a quantidade de vacas em seu cercado. Decidiu-se por esperar até o segundo final de semana para depois voltar a pensar sobre o amuleto. E assim foi: um, dois, três, quatro finais de semana até que voltou a sentar-se naquela mesma mesa de café, com a mesma xícara e o mesmo livro à sua frente, focando seu olhares no mesmo amuleto mágico. Gork fingia não notar mas naquelas últimas semanas haviam surgido mais duas vacas e uma tamanha quantidade de galinhas que ficou difícil explicar aos colegas de onde haviam surgido. Levantou o amuleto até a altura dos olhos e repetiu as palavras da misteriosa mulher: ¿Crê de coração em ti mesmo e serás recompensado pelos deuses¿. Em um ato ríspido colocou o amuleto em seu pescoço e, na mesma hora, sentiu-se diferente. O sangue corria mais rápido em suas veias, pulsava-lhe o coração com tanta força que sentiu medo e tremeu. Tirou-o. Voltou a colocá-lo logo após e aos poucos acostumou-se com aquela estranha sensação.
Agora acreditava no poder do amuleto que, em pouco tempo, já fazia parte do seu corpo. Não tirava-o nunca, nem mesmo para dormir, e sua constante sorte o surpreendia com novas façanhas. Nos próximos 25 anos Dirium gozaria dos máximos prazeres da vida, construiria mansões, vingaria-se do terror de Kadyrov e ajudaria todos ao seu redor na comunidade. Entretanto, aos poucos, Dirium começou a perder sua humildade e esquecera que devia toda sua riqueza ao seu precioso amuleto. Há alguns anos, quando a tempestade de neve quase impedia os trabalhadores de cortarem as árvores, Dirium, regido pela ambição, obrigou-os a enfrentar a neve, levando à morte dezenas de pessoas de Tribusk, que apesar disso crescera muito devido aos grande investimentos feitos por ele na região. Aos poucos havia tornado-se tudo o que mais odiava: um homem rico, autoritário, impiedoso e cruel, muito semelhante ao já esquecido Aslan Kadyrov.
Saiu do Café Slavianka em São Petersburgo e uma hora depois estava embarcando em um grande avião Pulkovo. Ali terminavam as férias de seu 48º aniversário. Sempre solitário, Dirium sentou-se na poltrona e fechou os olhos. Dormiu. Sonhou que via a pequena Elfa. No sonho ela lhe dizia: - Eu lhe pedi que fosses justo e tu foste impiedoso e intolerante. Eu te pedi que fosse honesto, tu foste ganancioso e inescrupuloso. Eu te concedi a riqueza mas agora vejo que merecias a miséria. Fugiste do teu destino e agora é o destino que fugirá de ti.
Dirium acordou de sobressalto. Estava em sua pequena tapera. Esfregou os olhos e correu para a frente do espelho, ainda era jovem. ¿Tudo foi um sonho¿, pensou. Correu até o cercado: duas vacas. ¿Tudo foi um sonho¿, repetiu novamente.
Sentindo-se triste por não possuir mais toda aquela riqueza, ergueu seu machado à altura das costas e foi trabalhar. E assim foi, e foi, e foi por muitos dias até que, em uma noite em que o céu ostentava um azul negro estrelado, sentiu frio no meio da noite. Lembrou-se da Elfa e decidiu não ir buscar lenha. Na tarde do outro dia foi achado em sua tapera. Morrera de pneumonia, ou de arrependimento.
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