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31.10.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Se alguém estiver a me ouvir...
Gabriel Silveira
Isolo-me do mundo neste momento para pedir-te que nos abençoe com a tua chuva.
Lava nossos corações tão sujos de arrogância e egoísmo. Desfaz em água nosso ego destruidor e ganancioso. Inunda-nos da tua fonte abençoada de paz e amor.
Considera meu pedido de simples sofredor, ignorante dos ventos, e roga teu perdão azul claro sobre nossas cabeças infames e burras.
Que do cinza que paira sobre nós faça-se a chuva do perdão;
que da terra mal tratada e desgostosa brote a alegria e a humildade;
que das nossas bocas, braços e olhos sejam feitos teus intrumentos da paz e de tua verdade suprema.
Dá-nos a chuva, dá-nos o perdão.
Muito obrigado por tua sabedoria e por teu exemplo digno da supremacia de tua natureza.
Que por teu desejo, seja.

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30.10.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Relato de um rebelde
Gabriel Silveira
Lá estava ele: sentado sob uma cadeira mais cara do que a que achava que deveria sentar; tomando um café muito mais caro do que, no fundo, ele achava que mereceria pagar; olhando para um mundo caminhando para muito longe do norte que ele queria lhe dar. Entretanto, em sua cabeça, a virtude da esperança vivia. Ele era um combatente, alvejado, mas não morto. "A ansiedade que mora no coração de um rebelde é a sua maior e eterna virtude; alguns nem isso tem" pensava. Ele levantou-se, foi até a janela e pensou no que haviam lhe dito, sobre ter "se entregado à pressão inimiga". Então decolou: "onde está o inimigo senão em nosso corações? Não é a nosso egoísmo que impede as pessoas de nos ajudarem a alcançar nossos sonhos? Não é a falta de coragem uma face da falta de oportunidade? Não são as pessoas cegas frente suas obrigações? Em mundo de cego, quem tem olho..." ia pensando quando foi interrompido pelo canto de um pássaro na janela. Ele silenciou sua mente, clareou seus olhos e chorou nostalgia. Então o gosto salgado das lágrimas fê-lo lacônico novamente. Voltou para suas tarefas e esqueceu aquela crítica imbecil (aliás a mesma que ele lhe fazia todos os dias de sua vida). Sabia que no fundo de cada uma de suas atitudes, de cada gesto solidário ou de cada endurecer da sua voz, seus contexto se revolucionava e seu pingo de verdade mergulhava no mar dialético da razão universal.

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Una canción mixteca
Gabriel Silveira
Da janela do hotel conseguia ver a multidão se aproximando. A música, mágica e encantadora, soprava em seus ouvidos como a brisa de primavera. As pessoas, com sorrisos mais abertos do que honestos, mais ofuscantes do que consistentes, dançavam rodopiando e pulando ao som dos metais. "Mariachis! Mariachis!", alguns turistas gritavam. Perez levantou-se da cadeira de balanço e foi encostar-se na varanda. Ali via, no além da arquitetura do início do século que a cidade ostentava, o crepúsculo invadindo o rubro do sol e o azul do céu:a lua da noite espelhando-se na luz do dia. A cantoria seguia. Lembrou-se de La Llorona de Lila Downs e sorriu. "Boas lembranças", pensou. Ficou ali, com os sonhos sobre a cabeça, voando sobre sua aura nostalgicamente. A fragrância cultural que subia das ruas só reforçava a mágica do momento. Quando despertou a multidão já havia passado. Na rua dois meninos ainda cantarolavam, aprendizes, a música dos mariachis. Então Perez levantou os olhos novamente para os céus e "una canción mixteca" invadiu-lhe o coração. Num ato fausto de sua sensibilidade, chorou.

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Petulância
Gabriel Silveira (ainda lacônico)

Oh tamanha petulância esta de querer escrever sobre a vida, sobre o coração. Existe maior estupidez do que ousar entender o inintendível? Existe maior infunção do que lutar por algo invencível? A alma do poeta perece sobre a vista da areia infinita quando a verdadeira vida está mergulhada nos mares. Oh tamanha petulância esta de escrever sobre a vida.

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28.10.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Lacônico
Gabriel Silveira

Amo-te.
Ama-me
e amaremo-nos.

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27.10.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Sem perder a honestidade
Gabriel Silveira
Mathias Guerreiro sempre foi um homem do campo. Criado no galpão, filho da terra, alma campeira, era um "doce de pessoa", como diziam as "donas" da velha Estância do Sobrado. Barba alta, mal penteada, cabelos cortados ladeados para o ombro direito, magro mas alto, costas largas. Os olhos negros, mágicos, combinando com o tom queimado da pele morena, herança da vó índia, e uma disposição para ajudar os outros raramente encontrada em outros. Entretanto, tudo que a vida lhe deu ao coração lhe tirou em oportunidades de aprender. Não fosse o tio Agripino, capataz da Estância que lhe dera algumas dicas, hoje não saberia nem escrever seu nome. Aliás, que nome era este? Mathias? Com este "th" que lhe complicava as idéias. Começara a escrever, nas raras vezes que necessitava, "Matias" mesmo, sem "th", sem frescura, como era sua vida. Afinal, era um homem que vivia tropeando nos horizontes do campos verdes e floridos das primaveras e que aprendia era nas longas conversas e mateadas dos trabalhos das invernadas. Mas à beira do fogo, iluminado por centelhas da poesia, rodeado de Martín Fierros de outras gerações, Mathias Guerreiro transformava-se: crescia em tamanho e em presença. A sua voz humilde e ressabiada do dia-a-dia, do sim patrão, do sim senhora, dava lugar a uma rouquidão ousada e melodiosa, extremamente poética, que, acompanhada do velho violão entonecido de ranhuras históricas, transformava as rodas de chimarrão das madrugadas em verdadeiras viagens temporais aos acampamentos farroupilhas. Nas noites em que a cantaria ia tarde, as mulheres dançavam nas canções mais animadas e derramavam prantos envergonhados nas mais cadenciadas pelo ritmo lento. Mathias Guerreiro era sempre o último a deixar a roda, mantendo o violão em riste sobre o peito como se quisesse aproximar ao máximo o coração do instrumento. Nas manhãs seguintes já voltava a ser o envergonhado Mathias Guerreiro. "Nervoso na viola, medroso no coração", como diziam. Foi em uma destas noitadas, quando a maioria já havia se bandeado para o mundo dos sonhos, que Mathias encarou a face misteriosa e encantadora do amor. E isso deu-se quando ele já pensava em seguir, também, o caminho dos outros: "tá na hora", pensou. Quando firmou as batidas botas de "garrão de potro" no chão marrom de harmonia da música, e ergueu-se satisfeito da noitada, viu a Dona Ritinha, filha do patrão, olhando atentamente para ele. Depois de um "putcha vida" do susto e um "vou prá cama, boa noite", Mathias virou-se e foi a passos firmes em direção ao galpão. Seus olhos, inundos em vergonha da filha do patrão (imagine só!), expremeram-se em pensamentos que desejavam que ela não falasse nada. Falou.

- Espere! - disse ela.

Mathias parou.

- Gostaria que me ajudasse a levar estes bancos lá para dentro. Deve chover pela madrugada. - prosseguiu.

Ele, ainda envergonhado, deu meia volta sem dizer nada e foi catando como um malabarista os tocos de madeira mal lapidados. Antes que ela percebesse, já estava voltando com o trabalho feito.

- Pronto. Alguma coisa mais? - resmungou Mathias como quem é educado por obrigação.

- Acho que não - falou Dona Ritinha com um sorriso malicioso no rosto que fez Mathias Guerreiro tremer do dedo ao cabelo, congelando a espinha de pavo e embaraço. Recuperado, deu boa noite e foi deitar. Ritinha também foi.

Mathias chegou no seu pequeno quarto e viu que a janela estava aberta. Largou o violão com cuidado e recostou a persiana. "Haraaa mosquiteira", puxou um lençol e se atirou sobre o pequeno colchão úmido e mal cheiroso. Deitado tirou as botas e a bombacha e fechou os olhos. Aos poucos foi tomado pelos sonhos. Via-se montado em um corcel negro, desbravando os campos dos céus. No reponte da coxilha os anjos do senhor montados em cavalos brancos alados tocavam cornetas. Dos seus olhos escorreu uma lágrima tamanha a beleza daquela visão. Quando os anjos começaram a cavalgar novamente, entretanto, ouviu uma voz lhe chamando: "Mathias, posso entrar?" e ele respondia "Entrar onde se estamos no campo?". Foi quando acordou. A voz não era sonho. Aliás estava mais para pesadelo. Pelo menos foi o que pensou Guerreiro quando viu, empurrando a porta com uma mão doce e meiga, a própria Dona Ritinha, filha do patrão, quase desmaiou. Puxou a bombacha, tapou-lhe as partes e perguntou:

- Dona Ritinha, aconteceu alguma coisa? O que foi? A sennhorinha deveria estar dormindo. A Sra sua mãe sabe que tu está aqui?

- Fale menos - respondeu Ritinha. E com a todo encantamento que a beleza proporciona aos abençoados da matéria passou suas mãos em volta do pescoço de Mathias e levou-lhe a sua boca à face dele. Mathias Guerreiro, apesar do nome, não era forte o bastante para contê-la. Era como se uma "princesa beijasse o escravo", "era como nos livros", dizia ele. Assim uma coisa levou a outra e o resto da noite desenrolou-se entre o suor dos amantes e a festa dos mosquitos nos lombos descobertos. Ali, no mesmo colchão úmido que Mathias dormira a vida inteira, tinha maculado as formas límpidas e puras da filha do Patrão.

Antes da aurora, quando Dona Ritinha, ou agora só Ritinha, foi para sua cama, Mathias ajoelhou-se e chorou. Como pudera fazer isso? Fazer isso com a filha do Patrão, homem tão bom que sempre lhe deu oportunidades. "E não posso me esquecer da sua família", pensou, "que ajudou a mãe e o pai quando eles nada tinham além de mim". Entristeceu-se. Mas e agora, o que poderia fazer? Decidiu-se por contar tudo ao patrão, afinal, honestidade é tudo. "Se houve um erro, que Deus me perdoe, direi a verdade".

Assim, depois de soltar o gado no campo, chamou o patrão no galpão. O homem tinha gigantesca adoração por Mathias. "Este homem nasceu com o dom da música" gritava, feliz, quando ouvia Guerreiro cantar. Entretanto, era uma homem sério e por isso um grande negociante, pelo que diziam na cidade.

- Fale índio - disse o homem levando um sorriso à boca.

- O Sr. me perdoe o modo de falar mas é a maneira mais fácil de contar-lhe algo que aconteceu.

- Desembucha homem! - ainda no tom de brincadeira.

- Se o Sr. estivesse em uma jornada em seu cavalo pelo campo e visse em uma árvore o mais lindo fruto, à altura de sua mão, mostrando-se com toda sua beleza, o que faria? - questionou Mathias.

- É claro que pegaria o fruto - respondeu o Patrão repousando os cotovelos sobre os joelhos.

- Mas e se acaso o fruto ainda não estivesse maduro?

- Certamente que esperaria a árvore dar-lhe mais vida e alimento até que estivesse no momento, enfim, de colhê-lo.

Mathias pensou um pouco e continuou:

- Agora digamos ao passar pela árvore, por um descuido do destino, o lindo fruto, ainda por amadurecer, caísse sobre suas mãos?

- Bom, acredito que neste caso, eu ficaria com o fruto. Mas ainda assim me sentiria culpado pela árvore que tanto trabalhou para gerar uma bela fruta - respondeu o Patrão, ansioso.

- Pois eu sinto muito pelo Sr. também. A questão é que eu me sinto culpado mas provei do seu maior fruto. - falou Mathias, fechando os olhos.

- Ritinha?

- Sim. Dona Ritinha.

- E por que diabos você veio me contar isto?

- Porque acreditava que precisava ser honesto com o senhor. Mas não se preocupe. Hoje mesmo estou indo embora daqui. Com muito pesar, é claro, mas sabendo que errei.

E assim Mathias levantou-se e saiu. O Patrão muito gostava dele para ousar uma atitude violenta e ficou ali, chorão como os campos.

Alguns meses depois, Guerreiro já havia se instalado em outra fazenda próxima a Bagé, quando entra pela porteira um homem montado em belo cavalo tordilho. "O patrão" pensou Mathias. Foi recebê-lo com o máximo de educação e resguardo:

- Como vai Sr? E o pessoal da estância? O que lhe traz por aqui?

- Eu vim lhe buscar! - disse o patrão.

- Me buscar? Como assim? Eu não poderia voltar assim para o Sobrado. Não teria cara para ver o pessoal da casa novamente. - disse Mathias.

- Pois a sua cara está lhe parecendo muito bem colocado sobre a cabeça. Arrume suas coisas que no caminho eu lhe conto o que aconteceu.

- Mas Sr., eu preciso saber o que está havendo.

- Bom, já que insiste tanto, vou lhe contar: digamos que as sementes do fruto ainda por amadurecer que o Sr. resolveu apanhar, agora estão dando frutos.

Mathias Guerreiro caiu para trás desmaiado. Quando acordou já estava na Estância do Sobrado acompanhado da nova mulher, do filho e da sua honestidade.

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25.10.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Deriva
Guilherme L. Póvoas - Jihad - (voltando de algum lugar do passado, mas ainda não no presente)

Venho de um lugar distante. De lugares distantes. E para eles volto, sempre que sinto medo, como se fossem todos, um único mar acima da terra. Onde minha fragata navega, apenas com um eterno e leve zéfiro, que cócegas fazem em rostos novos. Nessas querências que me refugio, não existem imensidão vazia, amor não preenchido e neófitos professores. Lá em cima, cada gota d´água representa um instante mau vivido em algum lugar. Algum lugar que não quero lembrar. Não vim aqui, aqui no alto, junto à proa de minha fragata, para rememorar todos instantes de discórdia e desentendimento. Este relato de um náufrago (da internet) não merece ser saciado e digerido, como foi a balsa carregada de peixes, pelos tubarões.

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23.10.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Do outro lado do portão
Gabriel Silveira
Os olhos dele não estavam na sala. Enquanto todos falavam, comentavam, discutiam ao som de Yupanqui, ele abria a alma para horizontes distantes. Seus pensamentos cavalgavam em um corcel branco que desbravava campos divinos. Ao seu redor, monstros negros com olhos rubros de raiva ousavam enfrentá-lo em sua posição de guerreiro dos céus. Cavaleiro armado da poesia e da mágica dos anjos, ostentava o brasão dos reinos do senhor da terra e do mar: uma estrela branca sobre duas asas azuladas que representavam o grande líder dos cavaleiros divinos. Ele, um dos representantes da força poética, um libertador do coração e das almas com seus traços políticos, com seus temas sociais e, acima de tudo, com seus olhos maravilhados pela magia da alma. Após derrubar os monstros com raios iluminados de sabedoria e virtude seguiu cavalgando, ousando até encontrar grande portões cor de gelo. Parou e por um instante receou adentrá-los. Respirou fundo, olhou para trás e viu ainda alguns monstros que reerguiam-se para continuar a resistência. Mas ele saia que necessitava estar lá, além dos portões. Com um comando gritado, guerreiro, fez o corcel saltar à frente e cruzar o portão. Ele acordou. As conversas diminuíram na sala, a música de Atahualpa ainda tocava mas o mundo havia mudado: estava mais claro, mais mágico, mais esperançoso. Percebeu que havia conquistado algo que só a literatura lhe proporcionava: dourar o mundo com as lentes da magia, encontrar beleza em não poder extrair beleza da vida.

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21.10.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Jardins esquecidos
Gabriel Silveira

Um tropel de estrelas
iluminando a densa escuridão,
anunciam que as lágrimas da chuva
ainda não despertaram da reclusão
que um falho amor a elas impôs,
levando-as a esquecer de semear novos campos
desta minha terra tão preta, tão forte,
que ao invés de brotar vidas, seca em desencantos
Óh divina chuva, rega-me em sonhos,
brota-me em esperança,
semeia meus pensamentos de ordem,
copia meu pranto, chorando-me em semelhança,
levando velhos rostos aos restos,
trazendo-me gérberas cheirosas e puras
que colorirão meus caminhos funestos
E só assim sumirão do coração as ranhuras
e brotarão virtudes do que é modesto
renascendo flores a penas duras.

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Tentando alcançar a vida que sempre me escapa...
Gabriel Silveira
Em Atahualpa lembro nomes já esquecidos de histórias distantes. As violas em harmonia brotam vidas mal regadas e sementes nunca despertas. A poesia é, para quem ama, a seiva mais completa. E dela me alimento; nela me conforto. O cheiro do pasto pisado, a úmidade do cinza rural, o céu bordado de histórias e meu coração lapidado em formas de saudade. Yo quiero un cavallo negro.....

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Gáudio em gérberas
Gabriel Silveira
Tento escrever sobre outra coisa mas não consigo. Preciso relatar o que vejo daqui, da marquise do mundo, sobre as divinas escadarias dos céus, onde os seis anjos me deixaram. Ah.. que sorte ter conhecido estes seis pequenos anjos. Andam me concedendo oportunidades que poucos tiveram antes de deixar este corpo. Na imensidão da sabedoria branca, em montanhas de paz como imensas formas infantis de algodão, vejo a Mãe Alegria armando suas arquiteturas e estratégias de reconquista sobre o mundo. No horizonte, derramando harmonia, cantarolam os Nove Anjos Reis do Mundo Invisível da Terra. São eles que, dia após dia, fazem o penoso trabalho de levar tranqüilidade à corações desesperados, esperança à mentes escurecidas, harmonia à almas ludibriadas. Lá no fundo, ostentando suas torres como três grandes montanhas de gelo, está o Castelo Central da Poesia: suas fundações e paredes são todas frutos do pensamento, voláteis e eternos como a alma. Mas nem tudo é branco nestes horizontes: como baldes de tinta colorida sendo despejados em bandeiras brancas, surgem as Trinta e Três Borboletas da Oportunidade. Cruzam por sobre a imensidão açúcar com seu encanto doce e multicolorido: azul, vermelho, amarelo, lilás, laranja, verde, todas em inúmeras texturas da esperança e da determinação. A emoção me leva a chorar. Aos poucos, uma brisa úmida e confortante cruza os espaços do pensamento trazendo virtudes e sabedoria. Então minha própria insignificância do coração faz com que meus olhos deixem de ver a beleza. Meu apego à matéria, por mais que eu lute, começa a me arrancar daquele mundo de pureza. Tento me agarrar a algo, um pensamento, uma idéia que me mantenha lá mas só apresso as coisas. Ainda não entendo que a única coisa que me leva a estes mundos são os caminhos da harmonia da alma e não os da razão. Levanto-me da poltrona, ponho em ordem alguns livros sobre a mesa e um pensamento deveras escarninho me faz lembrar das gérberas da paixão que vi antes de cair novamente na prisão do meu corpo. Um gáudio trazido por algum sopro de virtude de outros mundos é que traz-me o reconforto final: saber que depende somente de mim, de minha evolução intelectual e moral, a permissão para alcançar os vales da eternidade e viver na constância da sabedoria.

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20.10.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Aurora
Gabriel Silveira
Do negro fez-se cinza e com este veio a esperança. Olhos solitários mas atentos à vida que renasceria em forma de benção divina. Aos poucos, os pássaros surgem em sombras negras em constraste com a luz que começa a despertar. Os clarins angelicais despertam no horizonte. O ensudercedor som da paz. As almas perdidas do mundo começam a esconder-se na escuridão do adormecido. As crianças despertam no mundo protegidas pela felicidade divina do amor. O céu rubra os olhos e o coração, as nuvens dão espaço à claridade. O cinza dá lugar à múltiplas colorações de amor e alegria. Anjos erguem-se divinamente prostrando suas lágrimas sobre a terra em respeito às dores do mundo: lava-se o mundo. Então, quando a brisa desperta marcando o último estágio do prólogo da aurora, surge, imperioso e divino, a estrela da sabedoria: o rei das luzes, a própria representação do éden sobre as almas errantes do mundo. O mundo rubra-se de respeito sob a luz do sol. E ele, completando o ciclo do renascer da vida, da esperança e da fé, paira sobre os corações com todo seu ardor: toda a força que o silêncio da noite lhe concedeu em forma de amor e virtude. E, ao despertar do mundo, ao final da aurora sacerdotisa da magia do éden, eu não ouso falar, eu silencio e oro por todos, por mim, por você.

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16.10.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Desculpem, pessoal, a minha persistente ausência. Correria é correria, mas desculpas não são aceitas para aqueles que carregam a mensagem.

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21
Gabriel Silveira
Hoje é dia de meditação, constância, suspiros ao léu. Hoje é dia de rever e ver à frente. Hoje é dia de contar e rememorar o que está por vir. Hoje é dia de chorar. No vigésimo primeiro passo de minha jornada estou cansado. Mas, como o aventureiro que vê-se despedindo-se de planícies e empreendendo sobre as primeiras saliências de uma gigantesca cordilheira, eu me sinto potente, determinado. Lá no alto, as barbas de neve dos sábio montes não me assusta, mas sim sua distância. Mas somente por hoje vou descansar da minha jornada. Somente por hoje vou rever meus mapas, consultar meus guardiões, escutar os conselhos das estrelas, rever meus passos marcados na neve. No crepúsculo que a vida teima em criar sobre as almas errantes como nós, cristos sofredores (como já disse p/ Vivi), eu canto orações de tempos esquecidos, eu choro lágrimas sobre dispersos ocorridos. Meu ossuário de sonhos ainda está quase vazio; quase. Olho novamente para a estrada que fiz até aqui: as pequenas digressões, os desvios de rota, os aprendizados em tropeços ainda na vegetação rasteira. Sobressair na densa neve da vida (esta é escura, bem escura, e deixa-nos cegos), escapando dos corvos que insistem em bicar atacando os viajantes, os andarilhos que aventuram-se no lado leste desta imensa cordilheira. Mas é lá que o sol bate, derretendo as mentiras, o ódio. É com o sol que brotam as virtudes multicoloridas. E é lá, ou aqui, neste tão difícil caminho, que insisto em me embretar, insisto em insistir, e volto a me embretar. No vigésimo primeiro passo de minha jornada em direção a algo, aos vales verdes talvez. Bolo? Festa? Não. Meditação, constância e suspiros ao léu.

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15.10.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Na seiva dos sonhos
Gabriel Silveira
Lá longe, sobre os céus, ele viu a montanha. Ela se formava como uma espiral irregular, um turbante de terra e pedra coroada com uma gigantesca pedra, assustadoramente equilibrada sobre a montanha. Ao longe, a impressão era de que uma gigantesca Naja Rainha pairava sobre as nuvens, ameaçando um bote final contra a humanidade, contra o universo. Acordou assustado. "Ufa, que pesadelo" disse e olhou seu urbano quarto. Descobriu os pés tirando o pesado cobertor de lã trazido da última viagem à Bolívia, tocou o chão gelado e levantou-se do pequeno colchão atirado no quarto sem cama. Olhou seu reflexo na janela negra e soturna, diluída na solvente madrugada que jogava escuridão sobre os fracos vidros. Viu algumas moedas, sobre os dois livros de Vinícius na pequena cadeira de madeira, e lembrou-se que não teve dinheiro para comprar comida na última noite. O choro não lhe ameaçava mais nestas lembranças materiais. "Já me acostumei com isso" pensou. Pensou em ligar a TV para esquecer de tudo. Um filme mais estúpido que a estupidez da vida o fez desligá-la de novo. "Hiper-realidade" falou suspirando. Levantou-se novamente. Olhou para um lado do quarto, para outro como quem busca o conforto espiritual na matéria mas nada achou, como poderia ser previsto. Então cobriu-se com o velho e pesado cobertor altiplano e ainda ousou ser irônico com a vida. "Prefiro o sonho" começou e completou "a montanha se formava como uma espiral irregular...uma Naja", lembrou e sorriu. Nada como a realidade para levar-nos a ver nossos sonhos com outros olhos, os da humildade de errantes, de ínfima matéria.

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Vivendo em frente
Gabriel Silveira
Naquela manhã fria mas ensolarada de outubro, preguiçosa com seu vento choroso, ele acordou para a busca da sabedoria. Naquela manhã ele levantou-se à imagem de Alexandria. Caminhou. Marchou. Esqueceu do conformismo dos vales floridos e embretou-se em florestas negras, cinzentas, ousando descobrir mais. Empreendeu jornadas intermináveis nas montanhas escuras de Nietszche, mergulhou nos oceanos profundos de Sócrates, atravessou os jardins perdidos de Fernando Pessoa, caiu em buracos negros de Sartre, enfrentou exércitos da religião, buscou conforto em casas de recuperação de Lamas e Príncipes, ousou desertos da resignação como Cristo, foi aprisionado nos castelos soturnos de Umberto Eco. E prosseguiu. E sofreu de amores. E por estes morreu também. E hoje, nesta manhã fria mas ensolarada de outubro, talvez não tão preguiçosa como a outra mas ainda rodeada por um vento angustiante, ele olhou para o seu longo caminho. E, como o sábio que não se satisfaz, como a natureza e seu potencial criativo, virou para a frente, olhou para o futuro, ousou ousar, ousou viver.

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Passos leves
Gabriel Silveira
"Três passos leves na escuridão densa da noite." Foi assim que Acunha definiu sua mudança para La Paz. Desde que nascera nunca havia saído da guarda atenciosa dos deuses da montanha, dos altiplanos bolivianos. Agora haveria de mergulhar na nova civilização, tão cheia de horrores, tão contrastante com a sua: calma, doce e totalmente estruturada sobre a fé, sobre o mítico. Acunha, que era um conhecido xaman em suas terras, recebeu, há 4 meses, a convocação de seu mestre espiritual para que fosse trabalhar na grande cidade: abandonasse o império da montanha para fixar-se sob o império do concreto. Ele hesitou. Não entendia por que a grande civilização, com sua tecnologia e suas provas científicas, precisaria da ajuda de um xaman, um médico da fé, um curandeiro da alma. O seu mestre espiritual, ao receber este questionamento, disse-lhe que tivesse paciência porque a resposta viria quando ele menos esperasse.

Passavam das 15hs quando Acunha chegou à La Paz. Apenas com uma pequena mala de couro de Lhama, ele não ousou descansar. Resolveu que, antes de tudo, precisava saber como os doentes eram curados na nova medicina. Os odores da cidade o incomodavam. Com pequenos passos pelas sujas calçadas de concreto burro, chegou até o Hospital del Niño. Entrou quieto, quase abstrato e acompanhou o tratamento de um pequenino boliviano, 7 anos. Sua pequena cabeça, seus olhos banhados em choro, seu pulmão tentava arrancar o ar dos céus, tamanha sua ofegância, suas pequeninas mãos sujas. Acunha sentiu que a sujeira também estava em seu coraçãozinho. Acunha procurou mas notou que sua mãe não estava por ali. Os médicos prognosticaram um pequeno ataque de asma e, depois de dá-lo medicação, o liberaram. "Não é a primeira vez que ele vem aqui", pensou. Alguns minutos depois o menino já estava levantando. Agora Acunha pode ver que parecia um menino de rua pelos farrapos que vestia e pelos pés descalços, podres. Acunha o seguiu. "Os médicos curaram seu corpo..." - começou um pensamento. O menino saiu à rua. Acunha o seguiu. Há três quadras dali, sentou-se abaixo de um viaduto. Outro meninos traziam um saco plástico onde aspiravam algo. Ele acompanhou-os no ato. E chorou. "...mas não curaram sua alma", finalizou. Acunha decidiu passa o resto da vida ajudando os meninos de rua em La Paz. Naquele momento iluminado, as montanhas altiplanas sopraram um vento gelado, fazendo o mundo chorar de agonia.

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Enya
Gabriel Silveira
Estava lento, paciente, sofredor, nos primeiros passos de um caminho cinza e complicado. A floresta negra o assustava. Respirou fundo, encheu-se de coragem e lembrou-se de que estamos aqui, nesta vida, para aprender a viver. Os erros são permitidos. Seu coração recussitou. Passo a passo, começou a acelerar o ritmo de sua caminhada. Aos poucos o que era lentidão virou encanto, virou esforço. Correu. O caminho, que era cinza, tornava-se multicolorido a medida que lhe cruzava com seu coração pulsando esperanças criadas em frações mágicas de segundos despertos, alegres. Correu, correu e correu, deixando as árvores negras muito verdes e sorridentes, tornando as nuvens carregadas de chuva muito mais brancas e vivas, fazendo dos animais raivosos e gananciosos muito mais alegres, brincalhões e animados. Multicoloridos, vivos, alegres, pulsantes, mágicos. Então ousou voar. A mágica junto consigo. Voava libertamente pelos mundos proibidos da virtude. Lá estavam os seis anjos coloridos, seus eternos companheiros, a encantá-lo cantando em cantos dos céus. Naquele momento despertava do seu sonho acordado. Abriu os olhos que nunca haviam cerrado senão no piscar inconstante e triste. Ergueu sua cabeça que nunca havia baixado. Recomeçou a viver, a ousar. Aprendeu a amar.

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Esperança
Gabriel Silveira
Ele não conseguia desvencilhar-se das tramas do sofrimento. Ali, escorado sobre a mesa, timidamente cansado, as lágrimas indagavam pensamentos terrenos. Tantos sofrimentos, tantas decepções. Ele tinha em seu coração que não desejava o mal a ninguém. Mas o mal existia, e ele sabia disso. "As pessoas sempre acabam se machucando e às vezes, mesmo sem saber, somos os principais atores deste teatro maldito" pensou. Levantou-se da cadeira, desceu os degraus da cozinha e foi até o jardim. Um espectro cinza da tristeza, que cruzava as folhagens rasteiras, parou para observar seu movimentos: ajoelhou-se na terra e, pairando a cabeça sobre o ventre de Deus, ousou pensar em todos as suas dores e em todos os sofrimentos, que não desejava, mas que causava aos outros. Então pôs-se a chorar. E do seu pranto fez-se um lacrimejar pausado, dolorido, ardente em sentimentos. "Nada será em vão se destas lágrimas brotar uma rosa, uma linda rosa". E o espectro cinza foi embora.

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Segunda Parte - Gabriel Mingo Silveira
Gilberto Braga era um homem quieto desde então. Aprendera a conviver com a solidão do seu intelecto. Abriu mão de tudo por Marialva e quando ela o abandonou, tudo ficou negro e doloroso. Braga abriu a porta com ansiedade aos velhos amigos. O telefone pela manhã o avisando da chegada encheu seus olhos de água mas não seu coração de amor. Como dito, hoje não lhe faziam falta. Nada mais importa para seu coração endurecido e cinzento. Ele não sabia, porém, tudo que aquela tarde poderia mudar em seu triste caminho.

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Proposta: meu companheiro de Literato, Gabriel "Mingo' Silveira irá continuar este conto. Mas não acaba-lo. Vamos confeccionando ele aos poucos. A primeira parte está aí.

Primeira Parte - Guilherme "Jihad" L. Póvoas
Duas mesas e um sofá. Televisão, geladeira e um banheiro num canto da sala. Mas eram aquelas duas mesas combinadas com os dois sofás que mais lhe traziam conforto. Não foi outro sentimento quando, naquela noite de inverno rude, vieram lhe visitar dois amigos. Eriberto e Afonso. Uma dupla que o fizera falta em outros tempos, hoje nem tanto. Eram parceiros na sala de aula, eram o trio infernal do ataque do time. Porém ele casou-se, os visitantes não. Mais 3 anos passados que eles não paravam para conversar.

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9.10.03<$BlogDateHeaderDate$>

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- Não te responsabilizo pelo que fizeste - e com certeza não o responsabilizaria, nunca mais. As conseqüências que embriagatinhavam em seu caminho o fizera desistir de continuar andando. Sempre seus esparramachos ao chão, tropeços e escorregões de pedras moles, colocaram um basta na cabeça já cinzenta, que expunha toda sua sabedoria. Já que não lhe culpavam, então, pelo erro cometido, ele continuaria a vagar pelo mundo, como se junto estivesse seu Rocinante alado. E ele, mesmo sabendo não ser um Dom Quixote, singrava com um cavalo, por entre o deserto que o engoliria.

- A culpa não foi minha. - talvez fosse. Todos aqueles problemas que (passa dia, entra noite, sai temporal) acabaram se tornando um só: a freqüência e a qualidade do amor. Pois nem ela, nem ele, entendem que um andarilho ama uma pessoa fixa, mas em lugares afixos.

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Soturnos pensamentos
Gabriel Silveira
"Mártir. Um mártir. Um mártir da paixão." Repetiu a palavra mártir três vezes para tomar coragem. Os acontecimentos dos últimos dias o fizeram chegar à triste conclusão de que a morte, por mais dolorosa e negra que parecesse, era, no momento, a sua única opção. Já diria o outro que o amor é cego. Entretanto, a morte tem em seu caminho uma via única: quem ultrapassa seus vales, não há de voltar atrás.

A noite já caía. Para os escravos do coração, a presença apaixonada das estrelas no céu reconforta, mas não é o bastante. Elas, obstinadamente, tentavam lhe convencer das belezas da vida. Formavam desenhos divinos no céu, brilhavam em múltiplas cores, ergueram sobre o crepúsculo uma magia tão poderosa que encheu os olhos de João Marcelo de lágrimas doces. Desabou em choro. Seu sofrimento era tanto, que o céu fraquejou: choveu dores, despejou sofrimentos há tanto esquecidos em homenagem à sua dor. As estrelas apagaram-se. Os ventos sopraram as magias embora. A terra úmida secou-se de desamor, as árvores curvaram galhos em respeito. As montanhas, no horizonte, desenhavam imensas formas de tristeza e sofreguidão. João Marcelo fechou seus olhos e ousou relembrar, pela última vez, os olhos de sua amada. A vida brotou a morte em seu coração. Genuflexo, observado pela divina onipresença da natureza, vigiado por olhos há tanto submersos nos mundos da magia, como os das árvores, perdido em lágrimas do céu e da terra, arrancando sangue dos corações de todos os seres que ali morriam em vida, João Marcelo morreu. Virou mártir, virou nada. O pavor da vida trouxe o fantasma negro da desistência. Um anjo negro pairou sobre o corpo de João Marcelo, espantando todos os seres, assustando as árvores e entristecendo os céus e a terra. Deitou-se sobre o corpo moribundo e carregou sua alma para longe. Algumas horas depois, no horizonte, ainda ouviam-se uivos da crueldade e gemidos de medo no horizonte.

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7.10.03<$BlogDateHeaderDate$>

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O girar da vida
Gabriel Silveira
Jorginho fatorizou sua vida. Estava ali: uma lista de atitudes a tomar, passos vitais na construção de seu desejo-mor, ser um homem completo. Ergueu-se da cadeira de mogno escuro, com um verniz recente e brilhante, sem tirar os olhos da lista. Estava impressionado. Levara várias semanas para desenvolver a lista que acreditava ser imutável. Ele não sabia, entretanto, que a terra não se mostra ao sol de uma só vez. Apresenta-se, de parte a parte, para que, tanto o astro quanto ela mesmo, possam sentir ao máximo o calor e o esquentar do universo. Assim faz a vida. Entretanto Jorginho acreditava, com todo seu fervor inocente, no poder da sua "Lista das Atitudes Universais", como a intitulava. Naquele dia, foi dormir completo.

Manhã de segunda-feira, Jorginho acordou para ir à escola. Ele sempre adorou a escola. Agora na oitava série do fundamental, estava mergulhado em contentamento e satisfação, afinal, estava quase alcançando o Paraíso (perdido) do Ensino Médio. Entrou na sala de aula, cumprimentou seus amigos e, entre oi-como vai-beleza ele sentou-se na segunda fila, da esquerda para a direita, quarta cadeira. Fixou seus olhos na professora que parecia, na sua opinião, inspirada. Ela tinha algo de poético. Aliás é notável, em Jorginho, esta sua forma de ver ao mundo já nesta idade. Tinha em si este sentimento de prazer em sentir o que os outros sentem, ver a vida de óticas alheias. "Dito e feito", pensou quando a professora começara a falar de literatura, assunto que ele adorava. Escutar alguém falar sobre isso, entretanto, era um verdadeiro milagre, neste caso só concedido divinamente pelo bom humor e o já citado "ar poético" que a professora ostentava em seu sorriso contumaz. Ela desenrolou-se a contar a história de Romeu e Julieta. Ele acreditava já ter ouvido esta história e então lembrou-se que, há alguns anos, quando seu pai ainda era vivo, assistira ao filme do melhor modo família: tv-pai-mãe-filho-pipoca. Sentira saudade. Encharcou os olhos mas voltou atenções à professora. Ela, apaixonada, detalhava os sentidos e as palavras dos belos amantes de Verona. Jorginho voltou a encher os olhos de água quando ela contou, com todos os detalhes, o final infeliz criado por William e a trágica desilusão amorosa (pelo menos no campo material) dos amantes. Jorginho, naquele dia, foi para casa pensando naquele tal de amor, nunca tinha sentido nada como isso, mas se Romeu e Julieta haviam dado a vida por isso e se o tal William escreveu tanto sobre isso, deveria mesmo ser uma coisa muito importante.

Ao chegar em casa resolveu que iria mudar a sua lista. Precisava adicionar este tal de amor. Certamente deveria fazer parte do seu "contexto universal". Naquele dia, a terra mostrou-se um pouquinho mais ao sol e a vida mostrou-se um pouquinho mais à Jorginho.

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6.10.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Três segundos
Gabriel Silveira

O levantar da mão é clarin
avisando o que vem a seguir,
dois toques leves sobre a pele
acusando el porvenir

A aspereza dos meus lábios
encharcados em vontades,
espelhadas em lábios alheios
com frisos mágicos da suavidade

O salivar salgado de lágrimas,
ou do medo delas, que era tema,
unia mares dispersos em um,
unia devaneios em lema

O primeiro, a realeza,
de muitos, o mais tênue, e ainda,
raro por sua beleza

O último, o que finda,
do adeus tem a aspereza,
da saudade, a tez linda

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O sexo derrubando o homem
Guilherme L. Póvoas

"Estou livre de você, finalmente". Esta frase, a muito custo, foi dita por ele durante um nublado dia de primavera. Estava tão convicto de sua expressão que não deixava dúvidas: com esta ela iria cair. Vangloriou-se! Mostrou a si mesmo como uma frase de efeito, verdadeira, poderia acariciar um coração ou tapeá-lo. Parecia que em sua volta toda a razão do mundo lhe cercava, como se fosse sua escrava para toda a eternidade daquele momento. O tempo poderia parar naquela hora para ele sair por cima.
Porém, à sua frente estava uma mulher. Não uma mulher qualquer, mas sim daquelas que sabia ser uma. Ela engoliu seca aquela expressão estridente que balançou seu cérebro e a fez lembrar que, no amor, as variantes são muitas. Segura de si, e diante da razão, a fêmea transcendera para si a áurea de verdade que pairava sobre ele. Enchera o peito. E, como um soneto camoniano, ela expeliu a frase que iria tapear o coração de seu amante para todo o sempre:
- Seria livre de mim se não precisasse da minha pessoa para satisfazer os seus desejos.

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Nos caminhos cinzentos - Ato I
Gabriel Silveira

Trilhei caminhos distantes. Inspirado pelas ruas estreladas da República, pelos odores inconstantes do viaduto da João Pessoa, pelo atravessar preocupado da perimetral, pelas conjuturas sonhadoras de outros dias, orei para deuses da coragem. Fuzis em riste, ergui olhos para as flores encantadas dos mundos cinzentos da mente humana. Ali, jasmineiros cheirosos reforçavam-me a lentidão do material para acordar-me à reflexão do abstrato. E eu girino: nascendo em idéias, ousando palavras, formando nuvens e mais nuvens tão comunicativas como Toscani. Entre contextos de luta, eu guerreiro. Entre contextos de paixão, eu romântico. Entre contextos de coragem, eu ousado. Genuflexo aos deuses da virtude humana, ergui pensamentos como muralhas indissolúveis no tempo. Aos poucos, seus olhos abriam-se para o outro lado do espelho. Aos poucos, o reflexo era ela, ela era o reflexo. E quando estas identiicações soam assim, como clarins em guerras missionárias, como cantos em almas apaixonadas, aí acabam no que acabaram as minhas: em flores. Pronto. Acordei de minha inépcia para a vida. Entre rosas, chocolates, cartões motejados e rapsódias vinicinianas, encantei encantos que já repontavam no horizonte. O lábaro da paixão, salmonado, rubro, foi hasteado em campos alheios. Ousei segui-lo. "Onde há fumaça há fogo" disseram-me almas errantes em romarias pela noite cubana (talvez alguns "camilos" inspirados com misteriosas noites). Passo a passo, deixei-me levar pelas fumaças coloridas que me perseguiam (ou eu que as perseguia?) e encontrei ali, nos caminhos cinzentos de ares poluídos, o que tanto procurava: o doce veneno da madrugada.

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2.10.03<$BlogDateHeaderDate$>

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A Beleza Divina
Gabriel Silveira
Todos perguntam-se o que é a beleza. Pois deveriam perguntar-se "quem" é a beleza. Um dia um velho professor da vida (estes anjos que vivem disfarçados de mendigos pela rua), contou-me sobre a beleza. Eu, como mero personagem do maravilhoso teatro da divina criação, questionei-o, ansioso: "Então, o que é a beleza?". Ele sorriu e falou: "Não o que mas quem é a beleza." E contou-me a história que agora irei contar para vocês. Nos jardins da pré-criação (outro dia eu tento explicar o que é isso) habitavam várias criaturas diferentes, algumas vivem no nosso mundo real de hoje, outras tantas foram esquecidas e transformadas em fantasias e outras ainda foram consideradas tão sublimes que foram consagradas à eternidade dos sentimentos. Bom, neste Jardim da Criação existia uma linda e pequena mulher que era chamada de Vênus (coincidência com a mitologia?). Ela morava em uma casa simples e pequenina mas rodeada das mais coloridas flores e dos mais diversos cantos de todas as partes do mundo divino. E a pequena Vênus cuidava muito bem de seu jardim multicolorido. Mas o que mais chamava a atenção em sua casa era o grande número de pessoas que por ali passavam todos os dias. Todas as tardes, Vênus convidava seus amigos para tomar chá ou comer doces e guloseimas. O problema era que seus amigos eram tantos que, por muitas vezes (a maioria delas de propósito), ferrenhos inimigos eram obrigados a dividir a mesma mesa, já que recusar um convite de Vênus era tido como um absurdo dado seu imenso reconhecimento por sua bondade e gentileza para com todos. Assim, ali passavam tardes inteiras Elfos e Wargs, Monstros de Oito Braços (que eram reais nos jardins da pré-criação) e Homens como nós, Preto e Branco(que também era vivos), Cobras e Ratos e até, muitas vezes, deuses como Odin e Zeus, aguentando-se e tolerando-se entre esbravejos metediços e inquietações reprimidas. Vênus ficava li, dia após dia, tentando entender os dois lados, ousando, algumas vezes, dar razão a um deles (quando os argumentos eram claro, o que era uma raridade), e em muitas ocasiões conseguia unir ambos os lados, ambas as razões em um único objetivo. Pois o nosso velho professor, em um de seus passeios neste jardim da pré-criação, conversava com o Senhor, analisando cada uma das expressões divinas em tantos seres. "- Agora vou mostrar-lhe a criatura que escolhi para ser a Beleza, a maior expressão divina na Terra." Então mostrou-lhe a pequena Vênus, sua simples casa e o que fazia, dia após dia. O nosso professor, um modesto anjo missioneiro, pensou que havia entendido tudo errado, afinal, como poderia aquela simples e modesta pessoa ser a Beleza, a maior expresão divina na Terra? O Senhor assimilando sua dúvida e aflição antes que o modesto anjo falasse algo, respondeu-lhe. "- A beleza divina, a verdadeira beleza não estará nem nos poderes de Zeus, nas montanhas verdes da Natureza, muito menos nos céus estrelados da Astronomia. A beleza divina estará nos corações de cada ser vivo pensante, cada ser vive que ame. E esta beleza chamar-se-á TOLERÂNCIA.

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Fuga desesperada dos Vales Verdes que nunca chegam aos neuróticos do coração
Gabriel Silveira
Ele estava decidido. Não havia mais nada a fazer para impedi-lo de sofrer. Foi até cozinha, aproveitando que seu pai havia viajado, puxou da gaveta cor de madeira a velha faca da época de sua mãe. Colocou a faca sobre a pia. Tirou a camiseta mostrando o fraco corpo de derrotado e sofredor. Dobrou a camisa com todo o cuidado. Colocou-a sobre o microondas. Pegou a faca, ergueu os olhos e engoliu seco. Abriu bem os olhos, encostou a ponta congelante e assustadora abaixo do peito, engoliu seco mais um vez e ainda mais uma e então, com a força de quem sofre mais do que os esfomeados, os torturados, os culpados, as vítimas, aplicou-se um golpe certeiro. Não, engana-se quem pensava que mataria-se. Remexendo a faca em suas entranhas, utilizando o cabo como alavanca, começou a remexer veias, artérias e empurrou seu coração para fora. Ao vê-lo começou a chorar, sinal de que ele ainda o influenciava. Trocou a faca de mão e apanhou com vontade o coração apertado e rubro que chorava a perda de um romântico. Então arrancou-o do corpo e o jogou àbaixo da torneira na pia. Com uma pequena agulha e uma linha, também da época de sua mãe, costurou seu corpo. Pontos bem feitos, racionais. Limpou-se com a água da pia deixando os pingos atingirem o velho coração esquecido. Então secou-se, colocou novamente a camiseta minuciosamente bem exposta sobre o corpo e saiu a caminhar com passos medidos, exatos. Pelo resto de sua vida não foi feliz, não foi triste. Apenas foi. Mas foi. E é.

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Segundos de merda
Gabriel Silveira

Segundos sem fala
Minutos sem perdão
O tempo passa mas
esta porra de amor não

Segundos sem fala
sem sim ou se não
Calando minha vontade
minha ânsia de ação

Segundos sem fala
de mensagem sem receptor
eu, mente cheia de firula,
coração vazio de amor

Segundos sem fala
por esta força de "não"
que me impede, me cala?

Segundos em vão,
tentando contá-la
sobre meu coração.

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Entre rejas da guerra
Gabriel Silveira
NormanDia D: 6 de junho de 1944. O desembarque das tropas aliadas nas praias da Normandia encrustava na história muito mais que corpos e sonhos. Encrustava em nossa história toda o sentimento de raiva, ódio, separação e egoísmo inerente à humanidade. Eu estou ali, absorto em pensamentos espectador do ataque raivoso contra a raivosa defesa invasora. Entre gritos de terror e ódio, escutam-se rezas a Deus, clamores por famílias esquecidas. Eu estou ali, sentindo as dores das feridas do mundo. Minha única arma são minha a paciência e a crença na paz. Choro observando tudo do alto, das nuvens do futuro. O silvo dos obuses me arrepia a alma. Os mares coram-se em cinzas. Choravam como nunca lavando as praias com o sangue da ignorância, o sangue da enganação. Os céus levavam às nuvens os horrores medrosos que os sons dos bulldozers traziam à vida dos soldados. Já as ondas encarregavam-se de levar aos quatro cantos do mundo o vermelho e quente símbolo da vida que jorrava das praias como a virtude jorra em vidas bem vividas. Eu ali, sabendo que nada poderia fazer, só orando. O passado é mestre: ensina o erro, o acerto, na prática, sem enrolação. Os paraquedistas atravessavam meu campo vibratório. Eu, em minha meditação turva e confusa, via em seus olhos o ódio, em suas caras formas demoníacas da morte e da tristeza. Alguns desciam chorando rubras vontades de ir para casa, outros com rubras raivas de homicidas. Todos ali, juntos, por um ideal estúpido e mergulhado na ignorância. Vou deixar este lugar. Tão dolorido de se lembrar, tão difícil de esquecer.

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Como gotas de clepsidras
Gabriel Silveira
13:57. Era isso que o relógio digital, este relógio moderno e pouco romântico, marcava ousando entardecer. Renato ali, observando-o, cuidando cada passar do minuto, cada desafio ao presente que a eternidade do futuro vencia transformando-o em história. Ele mal ousava piscar os olhos e, devido à falta de umidade do ar, molhar os lábios com a língua vez em quando. 14:00. Desde que recebera aquele veneno da madrugada(ao mestre com carinho) naquela quinta-feira tardia de inverno, estava com ares diferentes. Ares dispendidos de razão, ares abstratos, como de românticos adolescentes. Baixou os olhos à altura das mãos e arrastou seu polegar da mão direita contra o indicador da mesma, sentindo o suor nervoso que lhe banhava. Observou o relógio novamente, 14:06. "Que angústia" - pensou. Renato estava assim por um simples e comum e banal e angustiante e furioso e fatal questionamento filosófico: "- O que vou fazer da minha vida?" Começou a sonhar, ampliando horizontes como fazem os jovens que despertam para o amanhã. Viu um homem idoso, embora bem conservado, sentado à uma poltrona verde-montanha. Ao seu lado, um livro: O Condado da Baviera. O homem fumava um cachimbo longo e tinha um ar reflexivo e preocupado quando Renato o abordou:

- O livro é seu? - perguntou
- É. Mas pode lê-lo se quiseres. Eu mesmo o escrevi.
- Sobre o que o livro fala?
- Fala? É, pode-se dizer que ele fala mesmo. Bom, o livro conta a história de vidas que se cruzam, aventuras entre homens e mulheres, noites entre cachimbos e problemáticas, excesos literários e temperamentais...
- E a história é verdadeira? - questinou Renato interessado.
- Nenhuma história é verdadeira até que você acredite nela. - respondeu o homem, sorrindo.
- Mas só isso, acreditar, bastaria para que uma história fosse verddeira?
- Somente isso não, meu neto, acreditar é tudo.
- Neto? Como assim....

Acordou. Ali estava o mesmo relógio digital que observava quando adormeceu. Agora ele marcava 14:22. Ele não lembrou daquele sonho. Naquele dia, mesmo sem saber, começou a viver aquele romance, começou a transformar em vida a história do Condado da Baviera. E assim foi, e assim viveu, ritmado como as gotas da clepsidra, aventuras entre homens e mulheres, noites entre cachimbos e problemáticas, excesos literários e temperamentais. E um dia, do nada, pegou-se perguntando por que acreditava em tudo que acreditava. Uma voz, lá no fundo, a voz do coração, respondeu-lhe: porque assim está escrito no livro dos sonhos.

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Ao mestre com carinho
Guilherme L. Póvoas

Garcia Márquez, Olhos de Cão Azul. Boa companhia! E até às 22h ela ficou nas nuances mágicas do mestre colombiano. Diante daquele abajur, que a iluminava por entre as letras marquezianas como a lua guiando escoteiros à madrugada, lhe batera sono. Luz não poderia travar o peso de suas pálpebras - logo na hora final do conto - o sono.
Já na escuridão, diagramando assimetricamente os sonhos dentro do inconsciente, um brilho se acenderá. Um claro artificial bem diante de seus olhos. Era seu novo celular tocando, insistentemente, travando seu descanso. Com uma voz rouca, pomposa, mas muito feminina a moça atende o chamado. E várias vezes ela repetia, com exclamação:
- Viviane! Quem está falando? Alô!
Do outro lado nada que ela fosse capaz de reconhecer. Apenas latidos. Latidos de um cachorro, feroz e selvagem. Porém sincero como uma mulher que não faz rodeios. Eram latidos orientais, nunca havia escutado algo igual. Logo se deparou, se deu conta. Numa imensidão universal ela entendera tudo que estava acontecendo: era um sonho. Desta vez, foi o realismo mágico de Garcia Márquez que invadira a sua mágica hiper-realidade com um cão no sonho azul.

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Llego
Guilherme L. Póvoas, um rapaz latino-americano
Ah! Se essa fome passasse. Talvez todos meus problemas iriam embora, para longe. Vagariam por entre as nuvens, depois desceriam até a os pico mais almejados por alpinistas sonhadores, até no mar afundarem, para nunca mais emergirem. E todas barreiras estão nesta fome. Neste véu escuro claro de cetim. Que esconde a realidade e faz-me iludir, pensando que todos meus problemas serão exterminados com um prato de comida... e Deus me fez brasileiro.

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Conto de outono
Gabriel Silveira
"É bom fazer isso, não é?" - ele disse rodeado por onze amigos, seus desde os onze anos, em onze cadeiras, mais uma para si mesmo, em um pequeno, mas mágico, boteco de vila, destes que tem uma ou duas mesas de bilhar para abstrair a mente dos gladiadores do dia-a-dia. Ufa. Há 11 anos não se encontravam. Era ali, no velho Bar dos 13, sob as folhas que caiam das árvores no rigoroso outono, que voltavam a discutir as velhas questões e reviver as mesmas piadas que tanto os fizeram rir por todos estes anos. Conversas de flores perdidas, de mantas no pescoço, de maçãs por demais coradas, de vasos que caíram sem chorar, de invernos e outonos, poucas primaveras, e muitos verões. Ele, entretanto, não falava muito. A solidão o ensinara a silenciar. Existia em seu coração uma mescla de paixões perdidas e contos inacabados que, se despertados por outrem, poderia fazê-lo chorar na frente de todos. E ele não queria, neste momento, este tipo de exposição. Até porque, quem ele esperava, ainda não tinha chegado. Ele já estava pensando que ela não viria. Esperava pela décima-terceira. Talvez por isso ele não ousasse participar ativamente da conversa: porque, mesmo que estampasse um sorriso e uma felicidade superficial no arrendondamento indicioso de seus lábios, ele ostentava um dragão chateado e impotente dentro do peito. Assim a tarde correu entre caminhos cheios de cervejas, salgadinhos e conversas temperadas pela nostalgia. O sol começava a baixar como os céus esquecidos do Atacama fazem sobre o deserto. E um por um, dos onze mais um, começaram a ir embora. E foram. E o um ficou: ele. Parecia não ousar desistir da felicidade, da possibilidade de revê-la. Exatamente às treze para as dezessete horas, ele levantou-se para ir embora. Recolheu sua carteira e suas chaves de cima da pequena mesa metálica (a restante das seis que eles haviam juntado no começo da tarde) e foi até o bar acertar a conta. Acertou. Ainda comprou uma carteira de carlton, que fumava desde aquele dia sagrado em que beijou-a pela primeira vez no casamento da irmã, e recolheu-se à rua. Quando chegou em casa a noite já pairava cantos regueiros nos horizontes de cores múltiplas. Puxou uma cadeira, na qual confiava como melhor amigo, e ficou a conversá-la, abaixo do céu, abaixo das virtudes do mundo, e olhando o céu negro que não tinha medo nenhum de sonhar. Mas não chorou. Hoje não. Seu coração já tinha imaturidade suficiente para entender que a vida não é um conto de primavera mas um infindável e doloroso conto de outono.

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