Sem perder a honestidade
Gabriel Silveira
Mathias Guerreiro sempre foi um homem do campo. Criado no galpão, filho da terra, alma campeira, era um "doce de pessoa", como diziam as "donas" da velha Estância do Sobrado. Barba alta, mal penteada, cabelos cortados ladeados para o ombro direito, magro mas alto, costas largas. Os olhos negros, mágicos, combinando com o tom queimado da pele morena, herança da vó índia, e uma disposição para ajudar os outros raramente encontrada em outros. Entretanto, tudo que a vida lhe deu ao coração lhe tirou em oportunidades de aprender. Não fosse o tio Agripino, capataz da Estância que lhe dera algumas dicas, hoje não saberia nem escrever seu nome. Aliás, que nome era este? Mathias? Com este "th" que lhe complicava as idéias. Começara a escrever, nas raras vezes que necessitava, "Matias" mesmo, sem "th", sem frescura, como era sua vida. Afinal, era um homem que vivia tropeando nos horizontes do campos verdes e floridos das primaveras e que aprendia era nas longas conversas e mateadas dos trabalhos das invernadas. Mas à beira do fogo, iluminado por centelhas da poesia, rodeado de Martín Fierros de outras gerações, Mathias Guerreiro transformava-se: crescia em tamanho e em presença. A sua voz humilde e ressabiada do dia-a-dia, do sim patrão, do sim senhora, dava lugar a uma rouquidão ousada e melodiosa, extremamente poética, que, acompanhada do velho violão entonecido de ranhuras históricas, transformava as rodas de chimarrão das madrugadas em verdadeiras viagens temporais aos acampamentos farroupilhas. Nas noites em que a cantaria ia tarde, as mulheres dançavam nas canções mais animadas e derramavam prantos envergonhados nas mais cadenciadas pelo ritmo lento. Mathias Guerreiro era sempre o último a deixar a roda, mantendo o violão em riste sobre o peito como se quisesse aproximar ao máximo o coração do instrumento. Nas manhãs seguintes já voltava a ser o envergonhado Mathias Guerreiro. "Nervoso na viola, medroso no coração", como diziam. Foi em uma destas noitadas, quando a maioria já havia se bandeado para o mundo dos sonhos, que Mathias encarou a face misteriosa e encantadora do amor. E isso deu-se quando ele já pensava em seguir, também, o caminho dos outros: "tá na hora", pensou. Quando firmou as batidas botas de "garrão de potro" no chão marrom de harmonia da música, e ergueu-se satisfeito da noitada, viu a Dona Ritinha, filha do patrão, olhando atentamente para ele. Depois de um "putcha vida" do susto e um "vou prá cama, boa noite", Mathias virou-se e foi a passos firmes em direção ao galpão. Seus olhos, inundos em vergonha da filha do patrão (imagine só!), expremeram-se em pensamentos que desejavam que ela não falasse nada. Falou.
- Espere! - disse ela.
Mathias parou.
- Gostaria que me ajudasse a levar estes bancos lá para dentro. Deve chover pela madrugada. - prosseguiu.
Ele, ainda envergonhado, deu meia volta sem dizer nada e foi catando como um malabarista os tocos de madeira mal lapidados. Antes que ela percebesse, já estava voltando com o trabalho feito.
- Pronto. Alguma coisa mais? - resmungou Mathias como quem é educado por obrigação.
- Acho que não - falou Dona Ritinha com um sorriso malicioso no rosto que fez Mathias Guerreiro tremer do dedo ao cabelo, congelando a espinha de pavo e embaraço. Recuperado, deu boa noite e foi deitar. Ritinha também foi.
Mathias chegou no seu pequeno quarto e viu que a janela estava aberta. Largou o violão com cuidado e recostou a persiana. "Haraaa mosquiteira", puxou um lençol e se atirou sobre o pequeno colchão úmido e mal cheiroso. Deitado tirou as botas e a bombacha e fechou os olhos. Aos poucos foi tomado pelos sonhos. Via-se montado em um corcel negro, desbravando os campos dos céus. No reponte da coxilha os anjos do senhor montados em cavalos brancos alados tocavam cornetas. Dos seus olhos escorreu uma lágrima tamanha a beleza daquela visão. Quando os anjos começaram a cavalgar novamente, entretanto, ouviu uma voz lhe chamando: "Mathias, posso entrar?" e ele respondia "Entrar onde se estamos no campo?". Foi quando acordou. A voz não era sonho. Aliás estava mais para pesadelo. Pelo menos foi o que pensou Guerreiro quando viu, empurrando a porta com uma mão doce e meiga, a própria Dona Ritinha, filha do patrão, quase desmaiou. Puxou a bombacha, tapou-lhe as partes e perguntou:
- Dona Ritinha, aconteceu alguma coisa? O que foi? A sennhorinha deveria estar dormindo. A Sra sua mãe sabe que tu está aqui?
- Fale menos - respondeu Ritinha. E com a todo encantamento que a beleza proporciona aos abençoados da matéria passou suas mãos em volta do pescoço de Mathias e levou-lhe a sua boca à face dele. Mathias Guerreiro, apesar do nome, não era forte o bastante para contê-la. Era como se uma "princesa beijasse o escravo", "era como nos livros", dizia ele. Assim uma coisa levou a outra e o resto da noite desenrolou-se entre o suor dos amantes e a festa dos mosquitos nos lombos descobertos. Ali, no mesmo colchão úmido que Mathias dormira a vida inteira, tinha maculado as formas límpidas e puras da filha do Patrão.
Antes da aurora, quando Dona Ritinha, ou agora só Ritinha, foi para sua cama, Mathias ajoelhou-se e chorou. Como pudera fazer isso? Fazer isso com a filha do Patrão, homem tão bom que sempre lhe deu oportunidades. "E não posso me esquecer da sua família", pensou, "que ajudou a mãe e o pai quando eles nada tinham além de mim". Entristeceu-se. Mas e agora, o que poderia fazer? Decidiu-se por contar tudo ao patrão, afinal, honestidade é tudo. "Se houve um erro, que Deus me perdoe, direi a verdade".
Assim, depois de soltar o gado no campo, chamou o patrão no galpão. O homem tinha gigantesca adoração por Mathias. "Este homem nasceu com o dom da música" gritava, feliz, quando ouvia Guerreiro cantar. Entretanto, era uma homem sério e por isso um grande negociante, pelo que diziam na cidade.
- Fale índio - disse o homem levando um sorriso à boca.
- O Sr. me perdoe o modo de falar mas é a maneira mais fácil de contar-lhe algo que aconteceu.
- Desembucha homem! - ainda no tom de brincadeira.
- Se o Sr. estivesse em uma jornada em seu cavalo pelo campo e visse em uma árvore o mais lindo fruto, à altura de sua mão, mostrando-se com toda sua beleza, o que faria? - questionou Mathias.
- É claro que pegaria o fruto - respondeu o Patrão repousando os cotovelos sobre os joelhos.
- Mas e se acaso o fruto ainda não estivesse maduro?
- Certamente que esperaria a árvore dar-lhe mais vida e alimento até que estivesse no momento, enfim, de colhê-lo.
Mathias pensou um pouco e continuou:
- Agora digamos ao passar pela árvore, por um descuido do destino, o lindo fruto, ainda por amadurecer, caísse sobre suas mãos?
- Bom, acredito que neste caso, eu ficaria com o fruto. Mas ainda assim me sentiria culpado pela árvore que tanto trabalhou para gerar uma bela fruta - respondeu o Patrão, ansioso.
- Pois eu sinto muito pelo Sr. também. A questão é que eu me sinto culpado mas provei do seu maior fruto. - falou Mathias, fechando os olhos.
- Ritinha?
- Sim. Dona Ritinha.
- E por que diabos você veio me contar isto?
- Porque acreditava que precisava ser honesto com o senhor. Mas não se preocupe. Hoje mesmo estou indo embora daqui. Com muito pesar, é claro, mas sabendo que errei.
E assim Mathias levantou-se e saiu. O Patrão muito gostava dele para ousar uma atitude violenta e ficou ali, chorão como os campos.
Alguns meses depois, Guerreiro já havia se instalado em outra fazenda próxima a Bagé, quando entra pela porteira um homem montado em belo cavalo tordilho. "O patrão" pensou Mathias. Foi recebê-lo com o máximo de educação e resguardo:
- Como vai Sr? E o pessoal da estância? O que lhe traz por aqui?
- Eu vim lhe buscar! - disse o patrão.
- Me buscar? Como assim? Eu não poderia voltar assim para o Sobrado. Não teria cara para ver o pessoal da casa novamente. - disse Mathias.
- Pois a sua cara está lhe parecendo muito bem colocado sobre a cabeça. Arrume suas coisas que no caminho eu lhe conto o que aconteceu.
- Mas Sr., eu preciso saber o que está havendo.
- Bom, já que insiste tanto, vou lhe contar: digamos que as sementes do fruto ainda por amadurecer que o Sr. resolveu apanhar, agora estão dando frutos.
Mathias Guerreiro caiu para trás desmaiado. Quando acordou já estava na Estância do Sobrado acompanhado da nova mulher, do filho e da sua honestidade.
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