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28.11.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Escarro
Gabriel Silveira
O ritmo embala meus pensamentos. Novamente escondo minhas tristezas e angústias nos castelos da arte, no rubro do coração. Estas sombras negras que insistem em seguir-me às paredes. Estas virtudes falsas que insistem em me petrificar com o orgulho. Desfaço-me em nada. O vento assim, de voar os cabelos de Diana, Gil ao fundo de Lua e Vivi lá, em aventuras tão distantes. Eu aqui, em sol (bemol) trocando em miúdos o que já é nada, farelo. Corto os naipes que já me incomodavam, sou curinga esfaqueado por dama de copas em deleite chulo. A música novamente é companheira. E as folhas de comédia aristotélica em bocas de mensageiros, editado em sacrilégio por capitalistas, me faz pensar, ousar mudar, diferenciar-me de mim mesmo, do eu que já não alcanço. Me perco, reverto-me em sol e Lua e os meus textos perdem a pontuação e talvez até as maiúsculas como os de Vivi. Aquela luz branco azulada faz-me falta no momento e a música ainda serve para manter-me aceso, em harmonia viva, não ida. Ligo todas as luzes da sala para que elas me olhem, me incomodem, para que meus sentidos sobrevivam à dormência do momento e eu fujo delas, tão estúpido, faço e fujo, bato e corro, medo, caio e fico ali, atirado ao chão, com a barba roçando o tapete que me incomoda, faz de conta de merda e eu durmo, fecho os olhos mas sobrevivo... sim, sim... e este calor que não passa... não passa.

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27.11.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Outro mundo
Gabriel Silveira
O cheiro doce das flores amareladas entorpece meus sentidos. No horizonte, o poderoso crepúsculo inverte visões, provoca meus instintos: eu amo. O céu, rubrando em misericórdia pelas penadas que nesta hora vagueiam, traz velho sentimentos do coração hoje duro, pedra, medroso. O vento resseca o tempo. O tempo cruza-me a mente. A mente me leva ao choro. Mas este choro de sorriso, com olhos abertos, desses que vêm com o nascimento de um filho ou a promessa de um grande amor. O brilho branco azulado ao meu lado começa a crescer. Eu já havia visto que ele estava ali: tanta felicidade, tanta paz... nunca poderia sem ele. Eu tenho precisado de ti ultimamente, falo sem olhar. E sinto que ele sabe disso. E me abençoa mais uma vez. Ergue sua energia e desaparece. E eu sorrio novamente. Em paz. No azul. Para sempre.

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Vida de Faz de Conta
Gabriel Silveira
Nos caminhos escuros que, como Dante, caminhava, encontrou um vale escuro. Lá, onde ao verde fez-se negro, onde às aguas fez-se pântano, onde à luz fez-se breu, ele encontrou a Senhora da Solidão. Ela, uma mulher alta e bonita, pomposa em roupas e postura, olhava para escuridão parada, fixa, lasciva em seu orgulho. Jonas seguiu em passos medrosos, tremidos, em meio ao lamaçal que se encontrava. Ela olhou-o com seus olhos verdes encantadores mas atrofiados pela cegueira do orgulho. Mesmo assim Jonas sentiu-se instigado. Foi caminhando em direção a ela que, em escárnio, mostrava seus dentes brancos e pálidos. Jonas continuou caminhando, encantado pela gigantesca beleza e serenidade da figura daquela Senhora. A cada passo, a escuridão aumentava e a névoa grafite já abraçava seus pensamentos. Pisou mais uma. E mais uma. E escuro se fez.

Jonas foi encontrado 3 meses depois morto em sua casa. No bairro disseram que ele era louco. No jornal que era doente. E algum mendigo, ao ler a notícia da morte de Jonas no jornal, pensou que ele havia morrido de solidão. E os alaúdes dos anjos tocaram mais alto em misericórdia.

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O cansaço arrancando-me pedaços
Gabriel Silveira
...às 4 e meia da manhã. O trabalho me cansou esta madrugada [...] sei, sei da incoerência do [...] a chamada está legal mas [...] recebi, sim, email que gostei [...] viste que o [...] obrigado por trazer-me [...] zzzzz.

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25.11.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Mensageiro - a Dante
Gabriel Silveira

Desviou da luz seu caminho
e nas densas florestas adentrou
salvo por um anjo que, enviado, do mal lhe alarmou

Da escuridão à materia trouxe
em poesia o que aos fins divinos,
por lei, muito daqui foi-se

Nas amareladas páginas virtuose deixou
das visitas, por Ele, permitidas, feitas
e meu, entre de tantos, conceito recriou

Homenagem faço tão pequena à grande média
ao que do inferno, purgatório e paraíso,
desfez-se em sincera e divina comédia.

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24.11.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Um momento para a eternidade - A morte de Arnor de Grindhill
Gabriel Silveira
3 dias de cerco. Era este, sem dúvida alguma, o máximo de tempo que poderiam aguentar. Os últimos redutos à oeste já haviam caído e agora restava ao povo de Grindhill orar para que alguma ajuda distante viesse em seu auxílio. Naquela noite Arnor resolveu tomar uma atitude. Do palácio covarde onde escondia-se há anos, desde que assumiu o reinado com a morte de seu pai, Amanor, saiu em passos firmes, decididos. Trouxe consigo os últimos soldados que não haviam caído na escuridão do mal. Montaram-se em cavalos cinzentos, como todos de Grindhill, e cavalgaram até os portões grafites que temiam há horas a invasão final do exército da escuridão. Quando Arnor chegou até o portão, pode ouvir os urros e gemidos das feras que esperavam-no do lado de fora. A rubra fumaça de fogueiras que iluminavam o céu com sangue e medo, fez com que seus cavalos sentissem o cheiro da morte. Arnor sabia que era o fim. Quando ordenou que abrissem os portões, ergueu a espada e urrou "Por Andanor, cavaleiro de Grindhill" e correu à batalha. Seus cavaleiros, iluminados pela coragem de seu líder e pela lua mágica que o iluminava, dispararam atrás de seu líder, cada um erguendo sua espada e seus olhos.

O menino Elminor não sabia o que estava acontecendo. Somente depois que as crianças foram recolhidas aos refúgios de subsistência ao leste da cidade é que ficou sabendo do cerco e da ameaça de seu povo ser dominado pela escuridão. Elminor era o que mais sentia a saudade do seu pai Eldor. Naquela noite ele correu até o primeiro berço das colinas da tristeza e observou a cidade rubra de medo à oeste. Então viu que uma luz iluminava os portões da cidade. Um gigantesco cavaleiro levantou-se sobre o gigantesco exército negro e, com sua espada reluzente, matou um a um, até fenecer, ele mesmo, à lâmina da escuridão. Elminor nunca havia visto seu Rei, mas sabia, quando viu o grande cavaleiro, que ali estava Arnor, o famoso cavaleiro e Rei de Grindhill. Chorou.

No outro dia, ainda ao crepúsculo em tons de rosa e azul claro, as crianças, juntamente com seus tutores, puderam voltar à cidade. A tristeza da batalha que exterminara com a momentânea ameaça do mal ainda estava na alma das pessoas. Toda a a guarda real havia sido exterminada juntamente com seu Rei e por diversos dias ninguém ousou quebrar o silêncio das almas. Enterraram solenemente os corpos. Grindhill levou décadas para voltar a ser a velha cidade de imponência cinza das duas últimas eras. E Elminor, quando completou 120 anos e despediu-se do comando da Guarda Oeste do Cinza de Grindhill, resolveu escrever um livro que contasse a história de Arnor. Na sua capa, à tinta negra da antiga pena, Elminor escreveu em letras grandes: "Aqui há história do homem que, pela sobrevivência do seu povo, fez da espada sua morte, e da coragem sua eternidade".

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21.11.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Possível. Quando se torna nítido a invasão de anseios reais para a abstração do fazer irreal. Aquela sensação imaginária de praticar a hiper-realidade, de qualquer forma. Sonhos, devaneios! Até... Para quê?

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18.11.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Desacatos da sociedade moderna - Ato I e único
Gabriel Silveira
Tzzzzzzzzzz. Ele não aguentava mais o zumbido constante daquelas fluorescentes. Toda vez que com ódio e irritação ele as mirava parecia que devolviam-lhe um sorriso de deboche, um escárnio bobo por sua falta de controle. Voltava os olhos para o computador e seguia a digitar seus formulários infinitos, "pôrra de multinacional", pensava mas não ousava falar alto; nestas hierarquias sem chefe comum as paredes tem olhos e qualquer um de seus favoritos colegas tinham boca suficiente para denunciá-lo ao primeiro superior que aparecesse e talvez ganhar uma bonificação por sua fidelidade à empresa. Não era a primeira vez que Rafael sentia-se assim: o stress diário, a falta de educação e cultura de seus colegas, as múltiplas ironias da ala masculina e a condescendência rubra da ala feminina. Suas mãos ainda digitavam o barulhento teclado. Olhou novamente para as artificiais luas que zumbiam quase dentro de sua mente, impedindo-o de pensar. Começou a digitar mais forte. Apenas uma das meninas do outro lado da sala notou sua alteração. "Pôrra de stress", reclamou, insistente, mas ainda silencioso. Então seu digitar impiedoso contra as fracas teclas chamaram a atenção de outro. Quando notou que haviam o notado, que de inalgo para inalgo havia sido feito notório, irritou-se ainda mais. Catou seu celular, ou tijolar como seus colegas insistiam, com sua mão já vibrante em tremeliques e atirou-o sem dó em direção às fluorescentes que em sua boca já eram estúpidas, luas fajutas. Ela despedaçou-se em milhares de cacos, também fajutos, e todos os funcionários calaram-se virando-lhe a atenção banhados em vidro. Da lâmpada emanavam fagulhas incandescentes frutos de um curto circuito que, de um a dois, levou todo o andar a escuridão. Sobrenaturalmente, somente o seu computador continuou ligado, aceso. Rafael ficou tão impressionado que chegou a esquivar-se na cadeira para ver se realmente era o único funcionário que ainda dispunha de computador para trabalhar. Quando recompôs-se na cadeira, mirou o computador, despejou seus dedos novamente no teclado e desatou-se a fazer seus formulários. De poucos em poucos minutos, ainda ousava dar um sorriso, talvez debochando de si mesmo, talvez envergonhado dos funcionários que até agora o miravam sem pestanejar, sem entender. Rafael ainda foi ao banheiro antes de ir embora e teve dificuldade de urinar sem a luz que já fazia falta no crepúsculo que abarcava as janelas. Quando fechou a porta da empresa parou por dois segundos e tentou escutar algum ruído que viesse lá de dentro, onde os funcionários estavam paralisados. Nada. Sorriu novamente e pôs-se a descer a escada do prédio. Saiu pela calçada. Foi para casa.

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17.11.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Hoje só vim de meus ombros este peso descer, da garganta irritante catarro cupir, dos olhos congelantes lágrimas chorar. Do contrário, com o peso faliria, asfixiado pereceria, cego estaria em tempo pouco. É de minha sina parte perecer no desabafo diário, entre corcéis e anjos, entre negros e pálidos, e rubros vez em quando. E que assim seja, se Dele desejo for. Meu é.

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14.11.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Exato. Talvez o Guilherme esteja ausente. O Jihad, ainda no Ramadã, não conseguiu o que queria. Mas tento ter paciência. Ou ao menos a peço.
Obs.: esqueçam tudo! As conversas nos comentários da Vivi e do Mingo extrapolam a barreira dos sentidos.

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13.11.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Escolha
Gabriel Silveira
Ontem um telefonema com notícias rubras de raiva fê-lo sentir como um outro. Adonis já não era o que era. Adentrou tanto o caminho da poesia que quando olhou para trás, para o lado negro, viu que não mais havia volta. Só o que ouvia daquele mundo eram gritos de ajuda desesperados e palavras que magoam. Ele não podia mais voltar. A evolução moral o impedia. Agora só era vento uivante. Era paraíso manifesto. Era água disforme em mares do futuro. Mesmo assim ele chorou. Sentiu saudade de outros tempos e "...imensa nostalgia invade mi pensamiento". Então virou-se novamente para o lado da luz, para os raios com gosto de prata. Correu. A luz o inundou. E ele dissolveu-se.

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12.11.03<$BlogDateHeaderDate$>

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"Olhai para os céus e rogai"
Gabriel Silveira
"Chuva! Chuva! Chuva", gritavam as pessoas aninhadas ao redor dos prédios. O trânsito havia parado. O calor era tamanho, que o grafitar indecente do céu, alarmando nuvens passageiras, fez com que toda a cidade parasse: pessoas deixaram os escritórios, largaram os telefones, esqueceram os balcões, e ousaram incentivar Deus em humilde submissão. "Chuva! Chuva! Chuva!" continuavam os gritos. Então um corcel alado desbravou nuvens e comandou a partilha dos mares divinos. Da benção fez-se a algazarra: alguns dançavam, outros tantos choravam saciados, e ainda outros simplesmente sorriam. E satisfez-se a vontade dos mortais e à mortalidade eles voltaram. Lá no alto, Deus estava satisfeito por conseguir o que queria: fazer com que, pelo menos por alguns minutos, as pessoas deixassem de olhar o plástico, o concreto, e olhassem para o divino, para a origem eterna.

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10.11.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Saudade do tudo
Gabriel Silveira
É possível de nada falta sentir
e dor no peito causar
o que ainda está porvenir
o que solto navega ao mar?

É possível agonia desperdiçar
pelo que o sol face inda não tocou,
pelo que na terra ainda esconde-se
feito semente que não brotou?

É possível desabar meu pranto
por mortos ainda não esperados,
por tragédias guardadas ao futuro,
por cantos ainda não encantados?

Na tua face que tão pouco vi,
senti que possível é,
e na saudade do nada pereci

Por isso melindro pensamentos, em fé,
de ao meu lado ter a ti
sabendo que tudo possível é.

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9.11.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Amor e inferno
Gabriel Silveira
Ela não acreditava mais nele. Ali, sentada naquele humilde sofá bordô maculado por suas paixões, ela via a boca de Maurício despejar palavras de ressentimentos. Somente via. Seus ouvidos estavam em outros mundos. Talvez estivessem criando trilhas para o que sua mente imaginava. Ali, olhando os traços daquele jovem rapaz que tanto ela amara, a quem tanto de si entregara, ela divagava sobre os fundamentos da paixão, sobre a veracidade do amor. Naquela boca em que tanto entregou seus doces desejos de caramelo, naquelas mãos em que tanto ousara repousar a cabeça cheia de dias cansados, ela inspirava seus devaneios. Enquanto isso Maurício sacrificava palavras (não se sabe se sinceras ou não) sobre situações que não vale a pena agora recordar. Cristina, entretanto, não acordou de seu transe filosofal até a hora em que Maurício foi embora. Negou-se a continuar o namoro, despediu-se dele coom um abraço e um adeus sincero e fechou a porta. Passou a tranca uma, duas vezes e foi até a cozinha. Fechou os olhos por alguns segundos. Sonhou estar em paz. E ficou. Seu pequeno e simples apartamento bege ficou em silêncio. Os sons da perimetral cessaram. Tirou a pequena jarra de vidro esverdeado da geladeira. Serviu o copo olhando atentamente cada gota desfalecer-se no todo. Imaginou a ela mesmo como uma gota, mergulhando em um oceano de iguais. Largou a jarra na geladeira, ao lado de duas maçãs. Lembrou de Maurício: "- uma era para ele". Tomou a água percebendo cada um dos seus sentidos: o constraste do gelado nos lábios secos e ansiosos, o filtrar delgado de sua garganta às sedosas gotas que lhe banhavam o interior tão sujo, tão carente. Largou o copo meio vazio ou meu cheio sobre a pia e foi até a janela. De lá, pode ver as luzes da cidade piscando códigos desconhecidos, ousando comunicar sem o consentimento dos homens. Foi vendo o horizonte negro, soturno, que lembrou do dia de amanhã. E aqueles odores invertebrados que subiam da urbana visão, aqueles cavalgantes sentimentos exalados pelo mundo que cruzavam-lhe a janela fizeram com que ela chorasse. E ela chorou. E ali, tenaz às suas lagrimas como às suas dores, lembrou de Dante e das palavras por ele lidas na porta o inferno. Lembrou de uma das partes do doloroso verso: "Por mim se vai das dores à morada, Por mim se vai ao padecer eterno, Por mim se vai à gente condenada [...] No existir, ser nenhum a mim se avança, Não sendo eterno, e eu eternal perduro: Deixai, ó vós que entrais, toda a esperança". Cristina rogou lágrimas aos céus e tomando a face de uma virago, questionou em voz alta e raivosa: "- Não é esta, que Dante leu às portas do inferno, uma perfeita definição do mundo da paixão?". Um anjo branco com asas amareladas que a observava chorou de piedade. E ela foi dormir, esquecida, mas sem esquecer de verificar, mais uma vez, se as portas estavam bem trancadas.

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Teu enigma
Gabriel Silveira
Quatro passos para trás. Somente quatro passos para trás são necessários para que eu me satisfaça com tua luz. Lá tu estás, me observando, o teu maravilhoso olho lunar: não maligno como o de Sauron mas misterioso como o de Galadriel. A luz pálida e aconchegante domina meus sentidos. Eu surpreendido como um fantasma de Canterville. O prateado toca minha pele levando tons caramelados de magia até o chão seco de angústia. Minha face congelada de encanto rege orquestras de sentidos despertados por épicos feitiços ousados somente em noites de luz cheia. Como hoje. Ah e os dias passaram rápido desde a última vez. Ah e os dias pássaram secos de ti desde a última vez. Ah e eu esperei como um louco esta tua palidez fria, mágica, cruel em sabedoria. As estrela dançam no céu em tua homensagem. Os corvos estão à voar cantarolando canções por ti ensinadas. Num aresto divino é a ti concebida a graça de ostentar teu poder. Como sempre. Poderosa como sempre. Mais mágica do que nunca. Estás a crescer. Ah e este teu jeito ardil de tocar-me o coração. Cruza-me com teus corcéis de prata, tuas estrelas de bronze negro, pó fino e mágico que paira em tua luz me enaltecendo como mortal por ti apaixonado. Um frescor gelado desliza em meu corpo comouma despedida. Então um anjo das sombras tapa-te a face, cobre-te o rosto... e tu te poupas. Sabes que teu encanto é mais encantador quando dosado em gotas de clepsidras. Sabes que do pouco vem o tudo. A tua luz cessa por um segundo. Eu perco meu rumo. Ao norte tua luz reponta novamente e uma grevilha robusta, sóbria em luz mas musicada em magia, ostenta sua copa prateada por ti. Eu sei que foi o bastante, mas por hoje, somente por hoje. Eu me retirei. E a noite dormiu.

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6.11.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Nightwalk
Gabriel Silveira
Eu caminho em pedras negras, em vales escuros. Só meu brilhar verde da esperança ilumina o caminho. E o medo que me atormenta não será páreo para vencer minha força. Os montros com seus olhos delirantes amarelados como astros reis da petulância me observam, me caçam. Eu sigo caminhando. Os gemidos de dor e raiva aumentam. Eu corro e corro. Eles estão a me perseguir. A minha luz verde brilha com mais intensidade, mais verdadeira. A honestidade brilha no escuro. Aos poucos as criaturas negras, doloridas, errantes, que já agarravam-me os calcanhares, despertam para o medo, correm desesperadas, escondem-se em seus subterfúgios da dor. Uma luz ilumina meus olhos que se fecham tamanha a sabedoria desperta naquele momento. Eu choro e pacifíco. E chega o mar branco, com navios azul claros de virtude e sabedoria. E pássaros da nostalgia que vêm e vão. E meu sorriso desperta do nada, me levando ao tudo, ao todo.

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Densidade passageira
Gabriel Silveira
No alto da noite, as almas brotam como pragas em envenenados plantios. Aninhando-se ao meu redor, velhos esquecidos já abstratos da matéria conversam sobre assuntos já imersos em subliminares lembranças. Eu, azul, observo o dançar desatento das almas errantes em traumas recriados e recriados e novamente recriados que as prendem nessa aura de sofreguidão. Eu oro, estabeleço-me em minha própria vibração magnética: todo o sofrimento vira aprendizado, toda o aprendizado vira perspectiva e esta transforma-se em esperança branca, pálida de cor mas rubra de sentimento. As almas ao meu redor choram ao som da harmonia das cores, ao rufar dos tambores divinos da paz e da alegria. Lá no alto, as estrelas começam a dança da virtude humana: formam formas esquecidas, ousam sorrir sem medo, cantam as magias dos proibidos mundos. Eu não me altero. Minha harmonia já está deveras poderosa. Sou um todo. Sou um cerne branco de energia, um conceito, uma idéia, um sentimento. As almas, aliviadas, em passos retos destinam-se a outros universos, deixam-me sozinho, consoladas. Eu começo a retornar ao meu corpo. A matéria densa me absorve fazendo arder meu sentido áureo. O gosto de menta verde na úmida boca me felicita, me comove. "Apesar de tudo, estes sentidos têm o seu valor", penso. Minha pele na ponta dos dedos sente as ranhuras do aprendizado sobre meus joelhos cansados e abatidos. Uma lágrima doce escorre de meus olhos. A luz reflete uma sombra amarelada sobre o piso frio. E me lembro que o meu coração está sofrendo. E de que também preciso de ajuda. O egoísmo consome as virtudes criando chamas de arrogância. Levanto-me, vejo a sala vazia. As paredes brancas maculadas por minhas experiências desmembradas da matéria desejam contar-me de seu pavor. Eu não ouso interrogá-las. Vou dormir. Já está na hora de adentrar o meu mundo de elfos, anjos, deuses, ninfas, vales verdes e borboletas coloridas. O mundo ao qual eu pertenço.

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Na poeira genuflexo
Gabriel Silveira
O cinza no céu não consegue disfarçar o tom monótono e materialista que as mentes tomam nestes dias insossos de pré-verão. O douro previsto de lombos incultos e inerentes à escravidão leva-me a recordações não tão agradáveis de tempos atemporais e de rostos já sem forma. O tempo é o único ácido a corroer os corrosíveis do segundo escalão. E esta luz que ousa cruzar o cinza agora? Será indício de novos ares? Ou somente um destes lampejos de esperteza disfarçado de criatividade? Será sangue rubro amando em veias finas ou enfartos disfarçados de palavras.. doídas... duras? Não.. o cinza já está lá de novo: dominante em sua insignificância constante. Eu odeio a constância. Odeio. Amo tentar ser o que nada é. Amo tentar viver o que já morreu. Acreditar nisso. "Quem sabe o que o amanhã dirá...". Meus olhos se fecham como o crepúsculo do inverno, soturno em magia. Meu coração chora o último pranto, a escuridão abraça minhas últimas forças e, finalmente, cesso a vida.

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5.11.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Desentendimento
Gabriel Silveira
Me escuto mas não entendo nada do que eu digo. Afinal o que são estas palavras? E estes vôos léxicos com rasantes insípidos de virtuosismo? Me debato em torno de idéias, cuspo pensamentos insignificantes, emplumados por sacadas lingüísticas que diligenciam enganações. Mentes molambentas romanizando filosofias helências me deturpam os edifícios do pensamento. Ah.. e estes pensamentos são tão fracos, tão impotentes, tão inócuos aos outros. Penso que pensei mas a criatividade não foi chuva em minha seca. E os meus pássaros não foram para o sul... hão de morrer congelados nesta prisão do não-criativo. Gelo-me, seco-me, deturpo-me, cuspo-me em textos mecanicistas e histórias sem louvor de comprovação do não-revolucionário. Espere... este não sou eu... ou simplesmente não estou entendendo-me... tudo não deve passar de um mau-entendido... ou um mal que foi entendido... no final não é tudo a mesma coisa?

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4.11.03<$BlogDateHeaderDate$>

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O rico ignorante e a insanidade da miséria
Gabriel Silveira
A pequena galinha está esperando pelo milho. Há três dias que elas não comem nada. Miséria. Muitas galinhas mais velhas ao seu redor estão na disputa pelo milho. Quando a fome bate, as mentes caem na insanidade. Os lado escuros da mente recebem os chamados da "Madre Miséria". Os galos estão em um lugar separado. A cerca ao seu redor transforma o local em uma prisão. Ela só queria fugir, buscar o próprio alimento, mas ela sabe que não conseguiria viver dependendo de sua força, de sua agressividade. A liberdade não é tudo. A caseira vem abraçando o pesado saco de milho. A galinha abaixo o peito, levanta a cabeça e fixa seus olhos no saco. Todas as outras galinhas fazem o mesmo. A mão da caseira começa a desvendar-se de dentro do saco. Um segundo. Outro segundo. Então a nuvem amarelada chove por sobre o galinheiro. O silêncio desfaz-se em gritos desesperados. Os olhos fixos enlouquecem em procuras alucinadas. Penas voam. A pequena galinha perde-se entre as grandes galinhas. Ela desespera-se e começa a pular. Olhos girantes, rodopiantes, alucinantes, alvejam sua inocência. Sua alma morre. Então uma bicada certeira que buscava um milho, fere mortalmente seu corpo sem alma, rubra suas umidecidas penas sem pompa. As outras galinhas já foram embora. Alimentadas. Ela está morta.

No outro dia, Maria Joaquina chega para alimentar suas galinhas novamente. Ela comprara um saco novo de milho ontem. "Não tive tempo para comprar antes" lamentava. Quando chega no galinheiro, vê a pequena galinha, sua preferida, feita cadáver. Esbraveja contra as outras galinhas, dá tapas perdidos por sobre as penas saltitantes e confusas. Duas galinhas machucadas. "Um dia sem comida", afirma, determinada. Maria Joaquina volta para casa, vai preparar seu jantar. Jantar racional, de gente, ser humano, pensante.

O rico explora sem ver. O explorado acha meios para viver. Quaisquer que eles sejam.

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