Amor e inferno
Gabriel Silveira
Ela não acreditava mais nele. Ali, sentada naquele humilde sofá bordô maculado por suas paixões, ela via a boca de Maurício despejar palavras de ressentimentos. Somente via. Seus ouvidos estavam em outros mundos. Talvez estivessem criando trilhas para o que sua mente imaginava. Ali, olhando os traços daquele jovem rapaz que tanto ela amara, a quem tanto de si entregara, ela divagava sobre os fundamentos da paixão, sobre a veracidade do amor. Naquela boca em que tanto entregou seus doces desejos de caramelo, naquelas mãos em que tanto ousara repousar a cabeça cheia de dias cansados, ela inspirava seus devaneios. Enquanto isso Maurício sacrificava palavras (não se sabe se sinceras ou não) sobre situações que não vale a pena agora recordar. Cristina, entretanto, não acordou de seu transe filosofal até a hora em que Maurício foi embora. Negou-se a continuar o namoro, despediu-se dele coom um abraço e um adeus sincero e fechou a porta. Passou a tranca uma, duas vezes e foi até a cozinha. Fechou os olhos por alguns segundos. Sonhou estar em paz. E ficou. Seu pequeno e simples apartamento bege ficou em silêncio. Os sons da perimetral cessaram. Tirou a pequena jarra de vidro esverdeado da geladeira. Serviu o copo olhando atentamente cada gota desfalecer-se no todo. Imaginou a ela mesmo como uma gota, mergulhando em um oceano de iguais. Largou a jarra na geladeira, ao lado de duas maçãs. Lembrou de Maurício: "- uma era para ele". Tomou a água percebendo cada um dos seus sentidos: o constraste do gelado nos lábios secos e ansiosos, o filtrar delgado de sua garganta às sedosas gotas que lhe banhavam o interior tão sujo, tão carente. Largou o copo meio vazio ou meu cheio sobre a pia e foi até a janela. De lá, pode ver as luzes da cidade piscando códigos desconhecidos, ousando comunicar sem o consentimento dos homens. Foi vendo o horizonte negro, soturno, que lembrou do dia de amanhã. E aqueles odores invertebrados que subiam da urbana visão, aqueles cavalgantes sentimentos exalados pelo mundo que cruzavam-lhe a janela fizeram com que ela chorasse. E ela chorou. E ali, tenaz às suas lagrimas como às suas dores, lembrou de Dante e das palavras por ele lidas na porta o inferno. Lembrou de uma das partes do doloroso verso: "Por mim se vai das dores à morada, Por mim se vai ao padecer eterno, Por mim se vai à gente condenada [...] No existir, ser nenhum a mim se avança, Não sendo eterno, e eu eternal perduro: Deixai, ó vós que entrais, toda a esperança". Cristina rogou lágrimas aos céus e tomando a face de uma virago, questionou em voz alta e raivosa: "- Não é esta, que Dante leu às portas do inferno, uma perfeita definição do mundo da paixão?". Um anjo branco com asas amareladas que a observava chorou de piedade. E ela foi dormir, esquecida, mas sem esquecer de verificar, mais uma vez, se as portas estavam bem trancadas.
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