Vida de um literato
Gabriel Silveira
"Leve o Sarameño para casa", era o que dizia o enorme outdoor colocado na frente da Giant Bookstore que, a julgar-se pelo nome, era uma das maiores livrarias de que se tinham notícia, destas que tem mesmo dentro delas uma vasta gama de assuntos e temas além de contemplar seus clientes com inúmeras vantagens desde cafezinhos servidos gratuitamente até computadores que sozinhos faziam o que antes era romanticamente feito pelos próprios leitores interessados. José olhava aquele outdoor e não conseguia sentir-se preenchido por orgulho. Apesar de ter a absoluta certeza de que, sim, era ele quem estava estampado ao lado daquela chamada deveras comum de algum redator publicitário qualquer e de que, sim, Sarameño era o nome do líder político por ele criado e que estrelava seu último romance, sentiu-se, de alguma forma, como mero personagem de um jogo hiper-real enquanto a vida estava às suas costas, fora do alcance de seus olhos. Mas, talvez, tudo isto que pensara fosse apenas uma grande bobagem da cabeça de um grande escritor como ele era considerado, uma prova de criatividade, sim, isso mesmo, uma grande prova de criatividade e foi por isso que, mesmo sem sentir orgulho nenhum, abriu um grande sorriso e disse ao seu produtor, Sim, está ótimo, muito bom. Desde seu terceiro livro, Vidas Livres, era sim que funcionava, livro pronto, contrato fechado, campanhas mirabolantes nas grandes livrarias do país inteiro. Ele gostava disso, mas sentia, ao mesmo tempo, que a cada outdoor iluminado, a cada anúncio de página inteira, a cada capa colorida, perdia um pouco do seu dom, um pouco da sua natureza, um pouco da sua profundidade. Esqueceu de tudo e adentrou a livraria. As próximas três horas estaria a distribuir autógrafos a dezenas de intelectuais interessados na profundidade intelectual do seu romance e a centenas de compradores errantes conquistados pelo outdoor de fraco apelo.
Antes de ir embora, como já virara mania sua, passeou pela livraria, já fechada, para escolher três ou quatro livros novos para sua biblioteca pessoal. Filosofia, política, poesia até chegar aos romancistas famosos nacionais e internacionais, contos fantásticos, Gabriel García, seu xará Saramago, Górki, este de quem é, ah, sim, não o gosto, este, qual nome, José, será este o título. Talvez surpreso por ver seu nome estampado onde deveria estar o título do livro ou talvez por sentir sua consciência dizendo-lhe que naquele livro havia algo de importante para si ou algo que lhe interessasse de forma mais profunda, pegou a capa branca com cuidado e observou por cerca de dois minutos a capa. Depois, escolheu mais dois livros, que não importariam aqui se citados fossem ou não mas enfim eram Oscar Wilde e Máximo Górki seus autores, e dirigiu-se a fim de ir embora passando pelos donos da livraria que negaram que lhes pagasse o valor pelos livros e que lhe agradeceram e que Tens aqui os teus maiores fãs, e foi embora, deixando para trás o gigantesco outdoor da Giant, com o perdão da repetição que se faria inútil não fosse a funcionabilidade que tem em destacar o enorme impacto visual que aquela expressão publicitária representava, e foi para casa. De carro. Chegou no seu apartamento nobremente iluminado com artefatos, trazidos da viagem à Guatemala em janeiro último, e pôs os livros sobre a mesa, de forma que lembrasse de pegá-los para levar à cama quando fosse ao escritório. Morava sozinho e há quatro anos estava solteiro, por assim dizer, descontando os namoricos e rolos normais de qualquer homem, que as mulheres tem mais honra em manter-se fiel à solidão, e passava suas horas de repouso lendo e lendo e em alguns momentos escrevendo e lendo novamente e escrevendo em alguns outros momentos mais. Serviu-lhe com elegância um denso vinho que não tartamudeou e deitou-se calmamente ao fundo do copo para acompanhá-lo no seu crepuscular ao escritório. Pegou os três livros, hesitou, mas acabou por levar os três mesmo consigo para a sua sala pessoal. Lá chegando arredou, como de costume, a poltrona até a luminária maior que ostentava um estilo helênico conservador e, antes de sentar-se guardou à prateleira o Oscar Wilde que já havia lido mas que desejava fazer algumas consultas despertadas por sua última leitura, uma biografia de Shakeaspeare assinada por um pesquisador holandês. Enfim, sentou-se à sua preferida poltrona, já devidamente iluminada, e pegou o livro que levava seu nome no lugar invertido ao de costume. Pôs-se a lê-lo.
Imagine agora, querido leitor, qual foi o susto deste escritor, não o que agora lhe escreve, mas este a qual história deleitamo-nos, nosso já querido personagem, ao perceber que as primeiras palavras do livro referiam-se a cidade de São Tomás, pois imagine, se ele mesmo era de São Tomás e agora este livro, além de levar meu nome, ainda cita aqui minha cidade, pois, sim, grande coincidência. E assim foi, as coincidências seguiram-se, Maria do Rosário, mas este é o nome de minha mãe, veja só, que coisa louca, e assim o livro foi, contando a história do homem que mais se alarmava, ainda mais desesperava-se a cada virada de página, um misto de orgulho e desespero e, Tenho que ligar agora para alguém, mas que já passa das 23 da noite e que farei sobre isto, algo está errado e, na dúvida do que fazer, resolveu mesmo que o melhor a fazer agora era terminar de ler o livro pois se ainda vivia precisava saber até que ponto este homem, que homem é este, Ronaldo Duarte, professor, douto em literatura, autor de grande biografias de grande autores e calou-se em pensamento, concentrou-se em saber o final de sua vida. Assim foi, capítulo em capítulo, lançamentos em lançamentos, amores em amores, tudo ali, sua vida transformada em literatura, um trabalho jornalístico excelente, confessaria a qualquer um e talvez até merecesse um artigo elogiando o escritor mas agora deveria terminar o livro e assim o fez, engolindo cada palavra, saboreando cada passo na sua própria vida, nos seus próprios sucessos. Eram 6 horas da manhã quando passou da página de número 304 para a de número 305 que iniciava novo e finaleiro capítulo chamado, O último suspiro de um guerreiro. Tremeu. Seus cabelos arrepiaram em medo e agonia. Seus dedos não conseguiam levantar a próxima página. Sim, a próxima pois os títulos vinham em páginas separadas portanto, era óbvio, precisaria virar a página para saber, imagine só, sobre seu último suspiro quando ainda ali suspirava, vivo como nunca. Pensou em ir diretamente até a última página. Não ousou. Seria um desacato à toda a classe dos literatos, pensou, mas na verdade tinha medo de saber todo o final assim, bruscamente, se o autor nesta ordem a história colocou, é nesta ordem que lida ela deve ser. Página por página, leu o relato de sua chegada à famosa livraria Giant onde acontecia o lançamento de seu último romance As aventuras de Ludo Sarameño, um personagem criado por ele e que tinha a perseverança de um Dom Quixote misturada à uma coragem e um realismo que dariam um belo exemplar de Guevara. Foi então que desatou-se a chorar. O livro narrava sua saída da livraria, o acidente de carro na frente do Restaurante Magnata, a fatalidade que havia lhe tomado a vida e pensou, Não pode isso ser verdade mas como pudera, nada vi, cheguei aqui vivo e só pode isto ser uma brincadeira de mal gosto, mas nem lembrar-me do momento consigo e seguiu lendo sobre seu enterro, o carinho dos fãs, os elogios dos grandes nomes do país e do mundo até que, em um final muito bem redigido, fato bem percebido por nosso personagem, o biógrafo levou José ao choro contínuo, à reconhecer a própria fatalidade. Quando dos livros tirou os olhos e olhou sua sala, notou que não estava sozinho. Dez anjos brancos cercavam-lhe na sala a observar sua dor, seu pranto e o quinto lhe dirigiu a palavra, Fazem doze anos, disse-lhe. Mas como, perguntou o homem e, foi difícil fazê-lo acordar para nosso lado, continuou o anjo e, Então o livro, Sim, o livro foi um artefato para tira-lo da fantasia por ti criada, perdido tu estavas revivendo aquela cena, o outdoor, a sessão de autógrafos, recriando fins literários para teu desfecho. João, de alguma fora, vangloriou-se de sua eterna criatividade, Veja bem, mesmo deste lado continuo a criar, e o anjo pegou-o pela mão e foram seguidos pelos outros. Antes de sair dali, entretanto, José olhou para trás, visualizou mais uma vez seus livros, uma lágrima escorreu-lhe do olho abstrato e ele virou-se decido a continuar seu romance eterno. E parafraseou sua vida dizendo, Sim, vivi um sonho mas quem não viveu?
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