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Estirpe
Guilherme L. Póvoas
Às três da tarde Juan acordou. Havia dormido, havia almoçado. Chagara as sete horas, ensolarando a manhã de sua casa. Entrou à porta dos fundos, cuja qual sua mãe deixava aberta quando o rapaz saia para noite. Ela já havia se acostumado com as férias do filho: muito álcool e festas romanescas. Naquele verão ele resolvera romper o hímen que rondava, durante todo ano, suas atitudes moldadas pelo colégio interno em que estivera. Se foram duas semanas ininterruptas de paganizes. Pós isso, em mais um almoço nauseado, o pai de Juan, um vendedor clássico chamado Heraldo, interrompeu o esbaforar da quentura do arroz e disse, com sua voz autoritária, porém serena - Ouvi dizer que anda gastando um bom dinheiro na Casa de Mulheres -, alfinetou. Juan, empedrado, resignou-se sob a frase e os procedentes risos de seu irmão mais velho.

Era a mãe. Ela havia sido cúmplice durante todo tempo. Agora resolvera dedurar. Pelo menos era essa a resolução de Juan. Pensando bem - Mamãe agiu de forma correta. Eu não conseguiria chegar em casa por mais tempo daquela forma. Era incapaz de distinguir, à sombra, a escuridão, do dia com alto sol. E os seus pesos já estavam no fim. Economia de anos.

Não sabia. Coitado do Juan. Insciente diante da novidade da vida vadia. Luiz Enrique, seu irmão primogênito, era um freqüentador assíduo daquele lar, onde, dizem por aí, satanás tira suas botas e toma banho no fim da madrugada. Mas não era o irmão o delator. E sim, seu pai um investigador. Não um investigador por natureza, mas pelo acaso. Pois qualquer um descobre alguma coisa quando vê, e depois a sente. E Heraldo viu, durante as duas semanas, pela fresta aberta da porta de um quarto, seu filho, na pista de dança, com as mulheres da vida.

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Aprendizado
Gabriel Silveira
Ele não via Virgílio. Mas sabia que ele estava ali, nas sombras ou na luz, esperando por qualquer fraquejar, qualquer desistir de sua fé. Levantou-se da cama encharcada com o suor sofrido da doença e tirou a camiseta malhada com as manchas da dor. Só quando já estava de pé é que abriu os olhos que, sem seu comando, lacrimejavam solenemente. Virou as mãos e ficou a observar as palmas lapidadas pelo tempo, primeiro a esquerda, depois a direita e novamente chorou. Virgílio, ao canto, somente o observava: sabia que o veneno ainda o corroía e que nada poderia fazer antes que o mal abandonasse o corpo de Lúdico. Aliás o nome dado por seu pai, ainda no leito em que nasceu, regeu a vida do menino que se perdeu na brincadeira e esqueceu a missão que trazia. Entregou-se à luxúria e fechou as portas para a humildade. Agora estava ali, pútrido, moribundo, fedorento, a um passo do cair final. Virgílio levitou com suas longas asas branco-azuladas até o lado de Lúdico. Soprou-lhe ao vida o vento da sabedoria e Lúdico abriu um sorriso. Do sorriso veio a verdade que disse de sua boca, Eu errei, mas quero aprender, quero melhorar. No momento em que Lúdico libertou-se através das palavras, Virgílio o abraçou. Deu-lhe um beijo fraternal e o carregou para a colônia do aprendizado. Lá, ele haveria de reconhecer, entender e aprender a aplicar os mandamentos da moral. E, entre o branco divino e as montanhas cinzentas da sabedoria, viajaram por 3 dias e por 3 noites.

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25.12.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Uno para todos y todos para uno
Guilherme L. Póvoas
Foi o momento de união de todos os reis cristão da Península Ibérica. Os mouros já haviam tomado o castelo Salvaterra, próximo a Toledo, numa Espanha bárbara e medieval de 1211. Ximenes de Rada fora o escolhido pelo Papa e, de posse da bula, anunciou à Itália, Alemanha e França: "Caso estes seguidores de Maomé rezem com tranqüilidade na Espanha, a Europa inteira logo estará em mãos islâmicas".
O califa Abu Muhammad al-Nasir já havia subido de Marraquesh e pousado na parte já muçulmana das terras espanholas: Andaluzia. Lá, era local de várias etnias e junto a elas, estava um poderoso exército muçulmano com mais de 100 mil homens.
Para bater de frente com os mouros, os reis Afonso VIII de Castela, Sancho II de Navarra e Pedro II de Aragão comandaram uma armada enfurecida. Era manhã de 16 de julho de 1212, os raivosos cruzados, sob os primeiros raios nascentes de sol, botaram a pique as forças mouras. Os soldados muçulmanos que lutaram, foram pisoteados pelos cavalos cristãos. Esses tiveram suas patas encharcadas pelo sangue árabe. O califa Al-Nasir fugiu, resignado. Ao passo que o guerreiro El-Cid ficava com as glórias da vitória.
A cruz vencera a lua crescente. Os cristãos se vingaram indiretamente de Saladin.
Talvez os mouros tenham se recordados, no fogo da luta, destas frases do poeta Antera Saddad (525-615):
"Lembrei-me de ti quando as lanças me feriram e dos brancos sabres gotejava o meu sangue. Quis beijá-los porque brilhavam como a tua sorridente boca".

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24.12.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Guilherme L. Póvoas (Jihad)
Vicente acordara do lado esquerdo da cama naquela manhã. E sentira muito bem o reflexo disto no decorrer do seu dia. Brigas, frustrações, aquele funcionário que nunca funciona... tudo aconteceu, como se Deus tivesse aberto a caixa de pandora pessoal de Vicente.
Em casa, um cigarro, vinho, som, telefone. "Onde estão as chaves do meu carro?". Não queria procurar, pois não queria sair. Mas que infâmia: globalização, violência, fome, guerra, avião, buraco-esconderijo! "Hmmm, tudo isso! Esta deve ser a verdadeira caixa de pandora contemporânea", pensava, agora resignado, diante do imenso problema do mundo. "Que imensidão irreal em que vivo, espelhando meus problemas, de sentimentos vis, na pequena realidade desconhecida".

Finaleira... que este 2004 seja vivido para contarmos o 2003.

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23.12.03<$BlogDateHeaderDate$>

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A rainha de pedra
Gabriel Silveira
Quando ouviu ecoar, no silêncio mais distante, seu grito desesperado, desatou-se a chorar. A solidão havia cavado tão profundas fossas ao seu redor que ninguém mais a ouvia. A miséria da alma e seu orgulho haviam erguido tamanhas muralhas em seu coração que ninguém mais a desafiava com a palavra. O rancor e a angústia haviam lhe ludibriado tanto a mente que nem mesmo ela conseguia conversar com si mesmo, tentava em vão alcançar sua consciência. Sentada à rua, escorada à parede de sua casa, iluminada à sua própria escuridão, endureceu-se novamente. As carrancas da janela gesticulavam como se confabulassem armações contra ela; as formigas disfarçadas de aranhas que cruzavam a calçada pareciam dirigi-la sorrisos irônicos. Então foi um corvo de Odin que, pairando sobre os pés encharcados de Clarissa, alertou-a que somente o uso da razão que tanto lhe sobrava poderia salvá-la dos mundos negros do orgulho, Quando o coração está perdido, disse ele, somente a mente pode salvar o que ainda há. Então ela se fechou. Lá dentro de si, olhos vermelhos odiosos lançaram sobre ela o desafio do medo. A razão, a força da razão, ela pensou. Arrancou do ventre a podridão do medo, tirou das entranhas as pedras do egoísmo e da vaidade, expurgou o câncer do orgulho e do egocentrismo e caiu no chão morta, mas vitoriosa. Deixou aqui um trono de erros, um manto de vaidade, exuberantes vestimentas do orgulho, anéis valiosíssimos da intolerância, para contemplar-se em outros mundos levando somente a coroa da sabedoria.

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Guilherme L. Póvoas
(com aquela "alguma coisa" atrapalhando o viver)
Saudade. Mas que palavra tão delirante. Que sentimento tão metafísico concreto à realidade humana. Saudade, se não fosse tu, dor selvagem, aperto carinhoso, estaria vazio, pois haveria muito espaço para o nada trabalhar. Como alguém insensível, pode expor-se a teu sentimento. Como alguém tão frio, pode resignar-se ao teu tato. Oh, Saudade! Que senhora tão misteriosa que és. Desculpa, mas desta vez, terei que matar-te.

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20.12.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Sigo uma senda reta,
ou pelo menos a tento seguir,
A senda daqueles não-extraviados
dos que ainda colocam Deus acima de tudo.

E como o Profeta Mohammad (SAWS) disse: "A prudência traz a bondade".

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17.12.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Inciso I
Guilherme Póvoas
E se a cada passo que um homem fosse dar, estivesse uma mulher...
olhando para ele. Olhando os sentimentos, escolhendo cada um, e fermentando-os.
Sim, elas fazem isso. Cada manobra escolhida é um açoite à fragilidade masculina: incapaz.
Pois sabem, e fazem. Sabem machucar, fazem machucar.
Frases escolhidas, palavras guardadas a sete chaves... e nada disso adiantou. Tudo muda, as palavras não, se não seus significados. Não o é, não? Tic-tac... tóim... e... Acabou! Mais um coração a cair: tum-tum. Tum... Final! Foste vencido. E agora? E agora José? Qual deles irá responder, hein?
Nem a passos firmes, largos e claros conseguiria (nós) livrar-se.

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16.12.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Vida de alguns
Gabriel Silveira
Duas da manhã, "vida de merda!", ela gritou ao atingir o orgasmo. Depois deitou-se ao lado dele por alguns segundos descansando da cópula animalesca, vulgar e ao máximo prazeirosa que tiveram, ela como profissional e ele como fraco. Ezequias nem pensou por que ela havia gritado aquilo. Também não lhe importava. "Por que me importaria com esta vagabunda?", pensou. Ficou a olhar o teto. O cheiro de sexo que vinha do lençol molhado, misturado com o mofo do travesseiro embolorado daquele motel de quinta categoria embrulhou-lhe o estômago. Ela levantou-se, vestiu a roupa rapidamente como se ansiosa por algo, e o estava pelo dinheiro, passou a mão nos dez reais em notas de um e algumas moedas que ele já havia jogado no chão e foi ao banheiro. Ele repensou o que ela havia dito, vida de merda, e fechou os olhos. Quando os abriu, não ouvia mais o som da mulher no banheiro. Levantou-se com uma sensação de que lhe remexiam as entranhas causada pelo odor que lhe grudava a carcaça. Vomitou na privada do banheiro e, depois de lavar o rosto na pequena pia de pedra sentiu-se ainda mais sujo do que antes. Saindo do banheiro, preferiu não sentar à cama novamente. Jogou a camiseta sobre o corpo molhado e fechou os botões com uma paciência tão lenta que irritou-se. Quase fechando os olhos colocou os sapatos marrons vividos, passados. Passo a passo foi deixando no carpete sem vida suas marcas do pecado ainda fresco. O ar seco, sujo e traidor lhe corroeu a alma. Abriu a porta negra e saiu do quarto. Um espírito negro agarrado à sombra da escada zombou de sua fraqueza e lhe empurrou as costas. Ele caiu pelos degraus da vida, tropeçou por erros vividos, fraquejou ao tentar agarrar-se à oportunidades, ironizou a fé da parede de madeira podre e foi morrer à mercê das moscas que contaminavam o ar já pútrido da recepção do lugar. O segurança do motel, unido em ironia a um cafetão que ali estava, lhe chutaram as costas e, Não vá morrer aí filho da puta, Saia daqui e vá cair lá fora bêbado de merda. Antes de entregar-se à outros mundos, antes de desgrudar-se da matéria que tanto idolatrou, ainda conseguiu, no único esforço de sua vida, dizer-lhos, Vida de merda, vida de merda, vida... e morreu.

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Devagar, rapaz
Cuspir, trair, jorrar, movimentar
E essas coisas ainda lhe batiam à cabeça
Não é agora o momento de abrir a porta
Calma!, iria dizer ele se não fosse tão afobado

Ele abriu a porta e bem recepcionou
Cuspiu, traiu, jorrou, movimentou
Fez tudo. Tudo que tanto toc-toc
Fez tudo, mas o fez na hora errada

Não era o momento de abrir a porta.

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12.12.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Previsão caótica
Gabriel Silveira
Quase tudo no longínquo mundo dos perfeitos é aqui visto mas pouco sentido. Sei.. vejo lá no futuro algumas luzes que me contam sobre amores, poesias, vales verdes, estes e outros devaneios da nossa mente que tem como único sentido criar-nos esperanças de melhora, de um dia escaparmos de tudo isto que chamamos de vida, mas que deveríamos chamar de morte. Abstraio do peso, vôo sobre minha matéria, observo-me do alto e sinto nojo, pobre corpo, digo, pranto se vai, dores vêm e eu me vou. Onde estão aqueles antigos amigos iluminados que vinham carregar-me versando cantigas dos mundos de paz, de mundos abstrusos da iracusidade e da dor? Eu ouso vagar por aí, deleito-me em ares de alegria mas em nada encontro satisfação. O espelho do orgulho me confronta e eu choro e fujo assustado e volto para a covardia da matéria com medo do confronto, da auto-crítica, do suicídio moral. Encolho-me aqui, com dores, é verdade, mas aqui. E choro de novo. Choro porque sei que aqui, preso à esta máquina que me estupidifica, que me aprisiona a instintos imbecis e baixos, aqui ninguém me escutará, nunca me escutam. E eu grito, pobre homem, grito com força mas não há comunicação entre eu e eles, pertenço à sombra, à esquiva, à margem, enquanto outros mergulham no nada, atiram-se no oco, amam o vácuo. Eu, observador, chorão, repito, pobre homem, caminho mais assustado do que consciente; mais medroso do que vivo. Minha face se desmancha com o pranto torna-se massa cinza, sem imagem só palavra, all-type, dizendo, falando, gritando. Lá fui eu aos últimos de meus dias. Lá fui eu ao que ainda não haveria de ser. E eles não me ouviram e eu caí sozinho, respirei não mais sozinho, meu coração em silêncio sem ousar bater, matando-me sem ritmo, meu sangue esvaindo-se em poesia caótica e morri, liquidei-me. Fiquei eu com as entranhas de fora, corvos e cães não queriam minha carniça de falsidade, de medo, os cães desconfiam do medo e fugiram e fiquei preso ao meu exitinto corpo olhando o mundo que se ia sem me ver, sem se importar, esquecendo-me, deixando-me gozar a morte, moribundo desgraçado, alguns diziam, e eu ali, sem ver, sem sentir, só sentindo, só sendo bolo podre de carne e odor, de sangue coagulado e cabelo branco como os que terei como os que virei a ter um dia, quando morrer do tal jeito narrado que hoje é só devaneio ou ainda somente medo, este mesmo que um dia há de levar-me ao fim.

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11.12.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Notícia
Guilherme L. Póvoas

- Para quê? Que lhe adiantaria fugir do medo numa hora destas?
- Não sei. Pelo menos me sentiria mais confortável e corajoso - disse a vítima.
- Garanto que é daquele tipo de gente que sempre corria do medo. Medo do próprio medo. E na ilusão vivia. Achando que dentro do lar estaria preservada. Não existe mais ninguém aqui, hoje em dia, como você. E eu tenho raiva e asco deste tipo de pessoa!
- Sim, senhor! Eu sou assim. Até agora, pelo menos. E não vejo, dentro de mim, vontade de mudar. Sempre, isso tudo, me pareceu sereno. E aquela imensidão fantástica que achava ter dentro de minha casa era realmente meu mundo, donde não queria fugir, nem sair, nem entrar de verdade. Você me seguia faz tempo?
- Desde que saiu do mercado. Sei que havia me notado. Não tente se fazer de desnorteado. Acabara sendo risível. Este beco aqui não é um lugar onde você costuma passar sempre. Pelo menos não é um local em que uma pessoa medrosa como voltaria com as compras de início do mês.
- Realmente. Mas hoje queria chutar alguma coisa, nem que fosse aquele caminho movimentado com mesas de bar nas calçadas. Desviando, desviando, assim passo por elas. Muitas pessoas rindo. Elas riam por mim, não de mim. Hoje tinha que mudar algo.
- Quer fugir do medo? Ainda?
- Sim. Não mudaria nada em minha personalidade. Não agora, numa hora dessas. Em uma situação delicada. Com esta arma apontada para minha cabeça.
- Então corra. Fuja!

EXTRA!: Homem é assassinado pelas costas

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Às sombras de uma lenda
Guilherme L. Póvoas

Nome: Omar ibn Khatab. Idade: mais de 30 anos. Estado Civil: casado.
E ele era forte, grande, inteligente e decidido o suficiente para saber o que queria fazer e onde gostaria de chegar. Naquela Arábia, da primeira década do século VII, um enviado de Deus, sob o nome de Mohammad ibn Ahmad trazia a mensagem do divino para a pátria dos poetas e das tribos. Omar, disso tudo, não gostava nada.
Com o advento bem-aventurado do islamismo, ou seja, a mensagem deste tal de Mohammad, cada dia que se passava entravam vários integrantes para o Islam. Em algum ponto crucial da vida, a religião de Deus iria cruzar com os interesses de Omar. E essa hora havia chegado.
Omar passara toda tarde batendo em uma escrava que recém convertera-se ao Islam. "Só parei de surrar-te pois estou cansado", disse ele, suado, ao acabar de açoitar a nova muçulmana. Sua ira contra Mohammad e a mensagem de Deus era gigantesca.
Uma noite, na casa de uma parente, viu e ouviu, sua irmã lendo versículos do Alcorão - mensagem de Deus à humanidade, trazida pelo profeta - desta vez, algo iria mudar no coração de Omar. Ele sentiu a força da palavra, relutou. Esbravejou contra sua irmã. Bateu nela, que caída no chão falou: "Tu poderas fazer o que quiser, mas não conseguiras afastar nossos corações do Islam". Assim as paredes de gelo dos sentimentos de Omar foram derrubadas.
Como fiel, ele foi um dos maiores amigos e companheiros do profeta Mohammad, e por este apelidado de Faruq (aquele que separa a verdade da falsidade). Liderou os muçulmanos durante anos, sendo proclamado Amir al-Muminim (líder dos fiéis). Ao tomar posse, como Califa, fez o seguinte discurso:
"Ó povo de Madina, vocês tem direito sobre mim* que deverão sempre ser reivindicados. Um desses direitos é o de quem vier até mim para pedir algo, deve sair satisfeito. Um outro direito é que vocês devem exigir que eu não use injustamente as receitas do Estado. Também podem exigir que eu fortaleça suas fronteiras e não os coloque em perigo. Também é seu direito que, ao saírem para lutar, eu cuide de suas famílias como um pai faria na sua ausência. Ó povo de Madina, permaneçam conscientes de Deus, perdoem minhas faltas e ajudem-me em minha tarefa. Oriemtem-me no bem e proíbam-me o mal. Aconselhem-me em relação às minhas obrigações impostas por Deus".
Um homem de fé invejável. Aquele que um dia falou: "Se Deus me der o purgatório, ficarei satisfeito". Ah! Se Deus der o purgatório a ele. O que dará a nós, se não o maior fogo infernal.
Omar morreu no meio do século VII. Estava rezando quando um homem esfaqueou-o, pelas costas. O líder se virou, olhou a face do homem com admiração, e, aliviado, disse: "Graças a Deus que ele não é um muçulmano".
O que diria Omar se nos visse agora...

* Na tradução que consegui, não estava contido, mas tenho suspeitas de que além disso ele também fala: "Eu também tenho direito sobre vocês", revelando a força e responsabilidade de um líder.

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9.12.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Opa! Faturei a sétima posição no Grande Concurso Literário .

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Vida de um literato
Gabriel Silveira
"Leve o Sarameño para casa", era o que dizia o enorme outdoor colocado na frente da Giant Bookstore que, a julgar-se pelo nome, era uma das maiores livrarias de que se tinham notícia, destas que tem mesmo dentro delas uma vasta gama de assuntos e temas além de contemplar seus clientes com inúmeras vantagens desde cafezinhos servidos gratuitamente até computadores que sozinhos faziam o que antes era romanticamente feito pelos próprios leitores interessados. José olhava aquele outdoor e não conseguia sentir-se preenchido por orgulho. Apesar de ter a absoluta certeza de que, sim, era ele quem estava estampado ao lado daquela chamada deveras comum de algum redator publicitário qualquer e de que, sim, Sarameño era o nome do líder político por ele criado e que estrelava seu último romance, sentiu-se, de alguma forma, como mero personagem de um jogo hiper-real enquanto a vida estava às suas costas, fora do alcance de seus olhos. Mas, talvez, tudo isto que pensara fosse apenas uma grande bobagem da cabeça de um grande escritor como ele era considerado, uma prova de criatividade, sim, isso mesmo, uma grande prova de criatividade e foi por isso que, mesmo sem sentir orgulho nenhum, abriu um grande sorriso e disse ao seu produtor, Sim, está ótimo, muito bom. Desde seu terceiro livro, Vidas Livres, era sim que funcionava, livro pronto, contrato fechado, campanhas mirabolantes nas grandes livrarias do país inteiro. Ele gostava disso, mas sentia, ao mesmo tempo, que a cada outdoor iluminado, a cada anúncio de página inteira, a cada capa colorida, perdia um pouco do seu dom, um pouco da sua natureza, um pouco da sua profundidade. Esqueceu de tudo e adentrou a livraria. As próximas três horas estaria a distribuir autógrafos a dezenas de intelectuais interessados na profundidade intelectual do seu romance e a centenas de compradores errantes conquistados pelo outdoor de fraco apelo.

Antes de ir embora, como já virara mania sua, passeou pela livraria, já fechada, para escolher três ou quatro livros novos para sua biblioteca pessoal. Filosofia, política, poesia até chegar aos romancistas famosos nacionais e internacionais, contos fantásticos, Gabriel García, seu xará Saramago, Górki, este de quem é, ah, sim, não o gosto, este, qual nome, José, será este o título. Talvez surpreso por ver seu nome estampado onde deveria estar o título do livro ou talvez por sentir sua consciência dizendo-lhe que naquele livro havia algo de importante para si ou algo que lhe interessasse de forma mais profunda, pegou a capa branca com cuidado e observou por cerca de dois minutos a capa. Depois, escolheu mais dois livros, que não importariam aqui se citados fossem ou não mas enfim eram Oscar Wilde e Máximo Górki seus autores, e dirigiu-se a fim de ir embora passando pelos donos da livraria que negaram que lhes pagasse o valor pelos livros e que lhe agradeceram e que Tens aqui os teus maiores fãs, e foi embora, deixando para trás o gigantesco outdoor da Giant, com o perdão da repetição que se faria inútil não fosse a funcionabilidade que tem em destacar o enorme impacto visual que aquela expressão publicitária representava, e foi para casa. De carro. Chegou no seu apartamento nobremente iluminado com artefatos, trazidos da viagem à Guatemala em janeiro último, e pôs os livros sobre a mesa, de forma que lembrasse de pegá-los para levar à cama quando fosse ao escritório. Morava sozinho e há quatro anos estava solteiro, por assim dizer, descontando os namoricos e rolos normais de qualquer homem, que as mulheres tem mais honra em manter-se fiel à solidão, e passava suas horas de repouso lendo e lendo e em alguns momentos escrevendo e lendo novamente e escrevendo em alguns outros momentos mais. Serviu-lhe com elegância um denso vinho que não tartamudeou e deitou-se calmamente ao fundo do copo para acompanhá-lo no seu crepuscular ao escritório. Pegou os três livros, hesitou, mas acabou por levar os três mesmo consigo para a sua sala pessoal. Lá chegando arredou, como de costume, a poltrona até a luminária maior que ostentava um estilo helênico conservador e, antes de sentar-se guardou à prateleira o Oscar Wilde que já havia lido mas que desejava fazer algumas consultas despertadas por sua última leitura, uma biografia de Shakeaspeare assinada por um pesquisador holandês. Enfim, sentou-se à sua preferida poltrona, já devidamente iluminada, e pegou o livro que levava seu nome no lugar invertido ao de costume. Pôs-se a lê-lo.
Imagine agora, querido leitor, qual foi o susto deste escritor, não o que agora lhe escreve, mas este a qual história deleitamo-nos, nosso já querido personagem, ao perceber que as primeiras palavras do livro referiam-se a cidade de São Tomás, pois imagine, se ele mesmo era de São Tomás e agora este livro, além de levar meu nome, ainda cita aqui minha cidade, pois, sim, grande coincidência. E assim foi, as coincidências seguiram-se, Maria do Rosário, mas este é o nome de minha mãe, veja só, que coisa louca, e assim o livro foi, contando a história do homem que mais se alarmava, ainda mais desesperava-se a cada virada de página, um misto de orgulho e desespero e, Tenho que ligar agora para alguém, mas que já passa das 23 da noite e que farei sobre isto, algo está errado e, na dúvida do que fazer, resolveu mesmo que o melhor a fazer agora era terminar de ler o livro pois se ainda vivia precisava saber até que ponto este homem, que homem é este, Ronaldo Duarte, professor, douto em literatura, autor de grande biografias de grande autores e calou-se em pensamento, concentrou-se em saber o final de sua vida. Assim foi, capítulo em capítulo, lançamentos em lançamentos, amores em amores, tudo ali, sua vida transformada em literatura, um trabalho jornalístico excelente, confessaria a qualquer um e talvez até merecesse um artigo elogiando o escritor mas agora deveria terminar o livro e assim o fez, engolindo cada palavra, saboreando cada passo na sua própria vida, nos seus próprios sucessos. Eram 6 horas da manhã quando passou da página de número 304 para a de número 305 que iniciava novo e finaleiro capítulo chamado, O último suspiro de um guerreiro. Tremeu. Seus cabelos arrepiaram em medo e agonia. Seus dedos não conseguiam levantar a próxima página. Sim, a próxima pois os títulos vinham em páginas separadas portanto, era óbvio, precisaria virar a página para saber, imagine só, sobre seu último suspiro quando ainda ali suspirava, vivo como nunca. Pensou em ir diretamente até a última página. Não ousou. Seria um desacato à toda a classe dos literatos, pensou, mas na verdade tinha medo de saber todo o final assim, bruscamente, se o autor nesta ordem a história colocou, é nesta ordem que lida ela deve ser. Página por página, leu o relato de sua chegada à famosa livraria Giant onde acontecia o lançamento de seu último romance As aventuras de Ludo Sarameño, um personagem criado por ele e que tinha a perseverança de um Dom Quixote misturada à uma coragem e um realismo que dariam um belo exemplar de Guevara. Foi então que desatou-se a chorar. O livro narrava sua saída da livraria, o acidente de carro na frente do Restaurante Magnata, a fatalidade que havia lhe tomado a vida e pensou, Não pode isso ser verdade mas como pudera, nada vi, cheguei aqui vivo e só pode isto ser uma brincadeira de mal gosto, mas nem lembrar-me do momento consigo e seguiu lendo sobre seu enterro, o carinho dos fãs, os elogios dos grandes nomes do país e do mundo até que, em um final muito bem redigido, fato bem percebido por nosso personagem, o biógrafo levou José ao choro contínuo, à reconhecer a própria fatalidade. Quando dos livros tirou os olhos e olhou sua sala, notou que não estava sozinho. Dez anjos brancos cercavam-lhe na sala a observar sua dor, seu pranto e o quinto lhe dirigiu a palavra, Fazem doze anos, disse-lhe. Mas como, perguntou o homem e, foi difícil fazê-lo acordar para nosso lado, continuou o anjo e, Então o livro, Sim, o livro foi um artefato para tira-lo da fantasia por ti criada, perdido tu estavas revivendo aquela cena, o outdoor, a sessão de autógrafos, recriando fins literários para teu desfecho. João, de alguma fora, vangloriou-se de sua eterna criatividade, Veja bem, mesmo deste lado continuo a criar, e o anjo pegou-o pela mão e foram seguidos pelos outros. Antes de sair dali, entretanto, José olhou para trás, visualizou mais uma vez seus livros, uma lágrima escorreu-lhe do olho abstrato e ele virou-se decido a continuar seu romance eterno. E parafraseou sua vida dizendo, Sim, vivi um sonho mas quem não viveu?

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8.12.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Canto do mundo
Gabriel Silveira
"As gotas suadas do mar cinza que cobre o mundo caem sobre meus olhos tristes. Minhas pálpebras cansadas de abrir ficam ainda mais preguiçosas com esta chuva que me é pesada hoje. Não como aquele outro dia em que contemplamos as nuvens. Naquele dia o molhar era divertido, as águas eram límpidas pela felicidade, o som do trovoar era trilha sonora de amor. Hoje não. O tênis encharcado pesa para levantar-se, desiste de andar. A chuva lava-me o peito em sangue, dolorido em desespero. O granular da terra já não promete o brotar. A aspereza de meus dedos confessam-me que o tempo já passou, que já é tarde demais. E as dificuldades são tantas... mas já não importa mais. Sigo caminhando pela chuva neste caminho concreto que me cerca. As estrelas da república, os odores da perimetral, as tantas visões que me ficaram do parque pela noite... Aqui estou, no canto sul do mundo, à beira da quebra final. Tudo que daqui parte, que daqui cai, falece na eternidade do esquecimento, do não entender, do não saber. E daqui partirei eu, afinal já nada entendo, já nada sei e, tudo que mais quero é esquecer de tudo." E atirou-se.

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Momentos de dor
Gabriel Silveira
A mesa de plástico vermelho roçava-lhe a coxa. Ele não se incomodava. Seus pensamentos estavam longe do material, muito distante deste concreto que é senhor de muitos. Rafael estava tão longe que qualquer um que na frente do bar passasse diria que não havia ninguém sentado ali. Unificou-se em ar e pensamento. Seus olhos quase cerrados atestariam óbito de tão inúteis naquele momento. Neste, ele via com a mente e com o coração. Acima de tudo com o último. Só conseguia lembrar dos morenos cabelos deleitando-se sobre os macios ombros, os lábios úmidos de ânsia e desejo, as pequenas mãos relutantes, o falar não lacônico, contínuo. Pensava nas possibilidades de revê-la, nos desejos de em seus braços possuí-la, adorá-la. A coca-cola, cheia sobre a mesa, não lhe enchia a boca de saliva como fazia o lembrar daqueles 3 segundos de confirmação, de sucesso da coragem, de derrota do medo. Do nada piscou os olhos com força, "hum, hum" com a garganta e levou a mão ao copo ainda cheio. Levantou o copo para levá-lo à boca. Quando se preparava para tomar o primeiro gole, que agora já lhe parecia deveras refrescante, viu que havia algo no fundo do copo. Abrindo os olhos em susto e curvando as sobrancelhas fartas, mirou o fundo do copo. Era ela, sim, era ela..mas.. espera... o que estás a dizer, falava em voz alta. A atendente do bar o olhou com olhar de insatisfação e balançou a cabeça horizontalmente. Ele seguiu a O quê?, Não posso ouvir-te... e calou. Calou novamente. Ela, ou a imagem que ele pensava ser ela, dizia-lhe com uma certeza desestimulante e triste, Desista, meu amor, desista, não há mais maneiras... desista... Ele levantou da cadeira, passou a mão sobre a coxa dolorida e saiu. Quando passava pela porta ainda olhou para trás, talvez tentando lembrar se havia pago a coca-cola que, sim, estava paga ou talvez tentando escutá-la, a garrafa, mais uma vez dizer-lhe que não mais... que nada poderia mudar o que estava feito... que as chamas e as oportunidades haviam se ido com o vento do outono e que nada faria o tempo voltar atrás. Olhou o relógio com uma lágrima no olho, deu um leve tapa na própria nuca e saiu caminhando para lugar-nenhum, pela chuva que não o tocava, batendo em pessoas que não o sentiam, ou pelo menos que não sentiam a dor que no momento ele sentia. E sofreu.

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5.12.03<$BlogDateHeaderDate$>

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O baluarte Inglês
Guilherme L. Póvoas
Oito horas da manhã. Estava atrasado. Charles ainda não conseguiu se acostumar com o novo horário imposto há 6 meses pela fábrica têxtil onde trabalhava, numa cidade da Inglaterra. Naquela metade de século XVIII, o novo município gigante da terra do império britânico esbanjava modernidade.
Charles, chegando à firma, observa as novas repartições e paredes que estão sendo erguidas por camponeses que iniciaram o primeiro êxodo rural do mundo. "Mais compatriotas invadindo a minha cidade", pensava Charles. Tanto a fábrica onde trabalhava, quanto o quarto onde morava, já foram bem mais limpos, belos e higiênicos. Os industriários da Newcomen tiveram que trabalhar sob uma escuridão imensa, com ratos e baratas aos pés. Além disso, apareciam outros problemas cada vez mais freqüentes. Eram os barulhos ensurdecedores do maquinário e os salários atualizados: cada vez mais baixos. Na saleta do novo prédio, na nova rua, morava o rapaz com mais quatro inquilinos que haviam migrado para a cidade, vindo das urbes rurais. Com as estradas de ferro, elas foram devoradas pela cidade.
De antigos 5 mil habitantes, o vilarejo de Charles passou à metrópole. Cada vez mais apareciam cidadãos neófitos diante da parafernália vaporizada. Oito mil, 9, 10, 15 mil pessoas. Era a corrida contra o tempo.
Numa manhã de domingo, o jovem inglês teve de ir à fábrica, fazer a manutenção das novas máquinas a vapor que a Newcomen adquirira. No portão da firma, alguns homens, muitas mulheres e crianças protestavam contra a família Newcomen. Os empregados estavam em greve.
Charles acabara de ser testemunha do capítulo mais marcante de um dos pilares materiais da humanidade: a Revolução Industrial.

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Reescrevendo
Gabriel Silveira
O mesmo bar que era o seu há 26 anos. Agora, depois de dois filhos, uma mulher, um casamento, um fim e uma mágoa, ele estava de volta. O pequeno copo frisado lembrava-lhe os fragmentos do tempo, as facetas da ignorância do homem. A cerveja até a metade, a espuma fina e escassa, a caixa de fósforo cheia menos um do cigarro que acendera. O mesmo banco que sentara 26 anos atrás, não fora pelos logotipos atualizados de pingüins e outros conceitos que já tinha dificuldade de entender. No fundo "Minha história" de Chico parecia brincar com sua nostalgia. "Mas por não se lembrar de acalantos, a pobra mulher, me ninava cantando cantigas de cabaré...". Sorriu. E este levou a outro. Afinal, dos últimos 26 anos, pelo menos os últimos 20 não trocou simpatias com ninguém, não conseguia viver na falsidade do sorisso opaco, quando em sua casa, na verdade, as coisas estavam mais difíceis do que nunca. Aliás difíceis mesmo as coisas estavam para seu time. Era isso que olhava no jornal agora. "A situação está complicada", dizia brincando com sua própria situação de esquecido pelos filhos, de abandonado pela mulher, de imperdoado pelo seu próprio coração. Olhou a data do jornal, 05 de Dezembro de 1977. Achou que estava embriagado. Pediu um pastel, comeu-o, deixou a mesa com logotipias antigas e saiu, vinte e seis anos mais novo. E no vento que baixava da arquitetura antiga da cidade, viveu de novo o conto que ele havia escrito errado, por linhas tortas.

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4.12.03<$BlogDateHeaderDate$>

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Excusas
Agora, em férias na faculdade, estou voltando à ativa no literato, literalmente, literalitando. Esperem. Logo meus escritos voltarão a fazer parceria com os textos de Gabriel.

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2.12.03<$BlogDateHeaderDate$>

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À esquerda do mundo
Gabriel Silveira
Quatro minutos mais cedo. Somente quatro minutos mais à esquerda do mundo. Somente quatro ou cinco minutos mais à esquerda do mundo. Questão de alguns graus, sei lá. Sei que, assim mesmo, seguiu-se a vida, deu-se formas à variáveis esquecidas como X e outros, fez-se avenida com ruelas divertidas dos crepúsculos da infância, derramou-se pranto em antigas memórias e assim fez-se a nostalgia e assim me tornei escravo. Somente quatro ou cinco ou alguma década atrás era o que pensava, era sobre o que pensava. Nostalgia, nostalgia e alguma nostalgia. Um dia, então viu um beija-flor. Deste beija-flor fez rosa, fez bater de asas ou belezas ou bater cabeças em muros já caídos. A rosa murchou em paralisia. Em frente à ela, espelhada no seu bater de asas, afinal era um beija-flor em contemplação, absorvido, dourou-se o odor. Inimigo oculto estes espelhos da alma do qual falava Quintana. O beija-flor no tempo pára. Espera. Lá se foram os quatro ou cinco ou dezenas de minutos à esquerda de onde a direita mais possui espaço. Lá se foi a nostalgia e agora tudo era desacato à autoridade. Tudo era força e nada era coragem, pois são coisas diferentes. Despejou alguns dedos dos muitos que nada apontam e fez poesia como quem faz erros sem reconhecê-los. Fez literatura burra como quem faz horta sem água, como quem faz amor sem companheira, como quem faz temporal em copo vazio inodoro. Gritou na janela sem fazer barulho, jogou-se novamente na cadeira . Sentiu as chagas perispirituais que doíam-lhe os pés, que castigavam-lhe em renite e sinusite e ites e mais ites doloridas, cruéis. Então engoliu molhado do choro salgado da massa ou talvez do egoísmo e secou o sangue que escorria do peito. E foi trabalhar.

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