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31.1.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Sete dias antes da meia-noite
Guilherme L. Póvoas
Por decreto que ousei redigir: te substitui. E acaso venhas tu perguntar-me sobre esta decisão perpétua, direi-te que é vontade, involuntária e protetora. Coloquei minha conquista principal - tu - empalhada, congelada, para os mais altos e distantes tempos, até onde o vento quisê-la carregar. Pois sê sincera, não escondida, sê ousada, mas não ouse ser estática. As aventuras minhas desejadas contigo foram-se diante do decreto. Ainda posso vê-las, caindo, voltando a mim. Quase tornando-se realidade novamente, até que o vento leva-as embora. Quem será foi colocada em lugar teu? Não vens mais com os seus raios rebrilhantes de sol, tão menos com suas luzes sedutoras de lua. Fácil não foi. Não é sinônimo. Troquei-te por um nada, que me completa o tudo. Que era você. A nova peça não é branca como tu, não me dá ordens, mas eu obedeço-a. Busquei nos mais estridentes devaneios a equação que com falta, completasse a ausência. Rosa, foste substituída por um ser alguém que atende, prontamente, por Saudade.

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Três cigarros para a meia-noite
Gabriel Silveira in memorian de um sofredor
"A alegria protelada fez da angústia uma noite", disse Gabriel, ousando quebrar o aspecto boêmio do bar. Eu silenciei frente ao dançar ininterrupto do vento. As cores haviam sido sugadas por algum bueiro qualquer naquele caminho intrépido e de odor pútrido no qual empreitei minhas ânsias. Em minha vista só o cinza, e em minha mente só o olhar tristonho e sincero que, sobre mim, ela despejava em outros dias. Nos momentos que cortavam os segundos, ainda escutava ao longe meu nome em chamados amigos - Guilherme - os quais eu não mais respondia. Ousei sozinhar-me, como diria o que ao meu lado observava-me, e o fiz. Contemplei minha dor, pisei passos silenciosos e cansados mas o caminho até a República nunca foi tão pobre em mentiras e verdades. Sem mais contrastes, dormi de olhos abertos, talvez esperando a chegada da visão daquela que hoje me faltou em corpo mas que me sacrificou em alma. Na noite profunda em melancolia doce, fiz-me a espera do amanhã, quando ainda restavam, na caixa de dobras exatas e papel seco, exatamente três cigarros para a meia-noite.

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30.1.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Que mulher tem o direito de ganhar um homem honesto? Talvez aquelas que prometam a si mesmas serem fiéis e honestas. Conciliadoras e sinceras. Ou, talvez, quem sabe, aquelas que conseguem enganar os singelos cavalheiros como ninguém mais consegue fazer?
Mas, afinal, para quem, em quem, os honestos galantes clássicos tem o dever de entregar-se?

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Segurança
Guilherme L. Póvoas
Atrativo ao pecado
véu que preserva o errado
Sombra da esperança
último passo do cavalheiro armado
Conveniência protetora
atitude inibidora ao mundo perpetrado
Janela aberta com cortinas fechadas
figura caricata do quarto trancado
Prazer, caso bem me conheça
sou o Medo.

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Deu prá ti constante e lúcido, esquivo da regra, baixo astral. Estou indo para um Porto mais Alegre, tchau.

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26.1.04<$BlogDateHeaderDate$>

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O último mártir da esperança
Gabriel Silveira
"A sinceridade sobrepõe a sabedoria", eu disse. Ela sabia que doía em meu coração o pronunciar daquelas palavras. Era um desafio único e amedrontador admitir que o melhor era mesmo que empreendesse sobre mim com suas palavras duras, cruéis como só a verdade pode ser, saídas enfileiradas e organizadas de seu coração não recíproco como cavaleiros da honestidade em marcha imperial com suas flâmulas azuis e suas longas espadas reluzentes e assutadoras aos olhos dos fracos. Perdido na iniqüidade daqueles momentos, silenciei fitando-a melancolicamente.

- Era preciso dizer-te querido. Não posso mais seguir prendendo-te à esta fantasia.

Fantasia. Eu sabia muito bem o que ela queria dizer com isso. Poucas pessoas conseguem reconhecer o nível de paixão que atribuo aos meus romances. Neste último caso, mais do que todos, nossos breves mas intensos momentos poderiam muito bem fazer parte de uma narrativa shakesperiana em Verona: cenários contemplativos, citações in memorian, beijos ao luar, discussões morais e filosóficas, românticas e tudo mais que pudesse temperar o romance com sagacidade e força como aqueles que vieram do mediterrâneo. Assim o fiz. Mas ela, entretanto, ao inverso, doravante, prendeu-se à concretude da razão, desviou o olhar das nuvens e com suas pedras jogou-me sobre o peito a verdade como quem livra-se de um peso extra para a fugir com maior velocidade. Agora, restava-me ser hipócrita com meu coração, dizer-lhe que, sim, a sinceridade arrasa qualquer forma de sabedoria, inútil à olhos adocicados como o de amantes. Levantei-me com dificuldade da escadaria de pedra cinza e amarga e, depois de ajudá-la a fazer o mesmo, dei-lhe um beijo na face. Ela sorriu, disse-me que gostaria de ter me encontrado em outra situação, "quem sabe o que seria?", e entrou sem olhar para trás no prédio feio e de arquitetura simplória como manda a pobreza institucionalizada. Virei para o lado do viaduto, limpei o suor medroso que me inundava a face e hesitei em chorar. Pus-me a caminhar, olhei para a perimetral com os olhos distantes como os da criança que vê um arco-íris em sua fatalidade de nunca alcançá-lo e aí sim, sozinhei-me à noite, esqueci-me na solidão de minha própria fantasia, em meu próprio romance. Um escritor que estivesse sentado às estrelas da República, teria escrito: "lá vai um Dom Quixote, lá vai o abstrato em vida, lá vai o último mártir da esperança.

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23.1.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Tratado masculino
Guilherme L. Póvoas
Sou um daqueles poucos cavalheiros da paixão. O vento coça-me, enquanto estou tropeando a pé, coberto pelo céu aberto de noite escura. Olhando para os lados. Taciturno. Pensando em tempos passados, de presente que não mais terei: o futuro não vai me dar. Mas ainda que falte, nas horas incertas, a mãnha, a raça, sobra-me esperança. E muito. Não sendo a última que morre, mas a única que ainda vive. Vegetando. E quando falta-me paciência, fujo da palavra, capo-me. Quase já na raiva, exarcebando a tênue fortaleza do agir, eu paro e escrevo. Invento. Pois a fé dos educados românticos de amor e a gentileza cordial dos moços simbolistas é inversamente proporcional à mescla do cerne ingênuo, imaturo, infantil e divertido anexo à malícia nelson-rodriguiana.

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À espera da homogeneidade
Guilherme L. Póvoas
Nossas promessas não te servem mais
As conquistas não significam
A história
O documento assinado
Ainda intacto
Oferece nada mais que nostalgia
Uma época onde
Minha garganta estava sempre lavada
Diferente
Com os teus beijos cancelares
Impedidores
Minha voz estava cortada

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22.1.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Luto do poeta
Gabriel Silveira
Estou de luto. Estou de luto pois veio a falecer, ainda hoje pela manhã, meu honesto e apaixonado coração. O rubro não suportou, em vida, a crueldade da última batalha em que se aventurou. Após sofrer com tormentos que se acumularam desde o início de sua breve juventude, entregou-se à divina providência ao final de uma noite de sofrimento e dor, na qual foi visitado 7 vezes pela divina luz que ainda postergou sua esperança até o final do crepúsculo. Não chegou a sentir a brisa fria da aurora que tanto amava. Entretanto, em sua fraqueza apaixonada e egoísta, ousou prever a última emoção que causaria: o choro incansável dos que não desistiram. E este pensamento o fez sofrer ainda mais. Nunca almejou o choro, mas na busca pelo sorriso, as lágrimas o perseguiram. Hoje me despeço de um amigo do qual dependia. Um amigo que, ao enrubrecer, me levava às lagrimas de felicidade; um amigo que, à uma simples visão daquela que fez-se minha Dulcinéia, ousava irromper-me em emoções lindas e mágicas. Um amigo que mostrou-me hinos da alegria e da tristeza, pintou-me quadros da moral e da esperança. Um amigo que foi tapeado pelo destino ao ser pungido às costas pela tristeza tendo seu olhos ludibriados pelo amor. Com ele, vão as dores e as felicidades, os alaúdes e os equinócios de verão com encontros inesperados. Com ele, vai-se minha esperança e toda a magnífica forma de ver e amar o mundo que ele me concebeu. Em sua lápide, fria como as mãos que brotaram em seu mundo, pela última vez, uma flor da esperança, eu escreverei: "Jaz aqui o sentimento puro e honesto, a felicidade e a tristeza em sua maior amostra de franqueza. Jaz aqui a doçura do amor e a amargura da decepção. Jaz aqui o que viveu pelo amor, e morreu por ele."

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Pensamento das sombras
Gabriel Silveira
O coração é o carrasco do poeta.

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O sequëstro da verdade
Um jovem. Rapaz bem vestido. Ele aproximou-se da verdade. Antes da alvorada, onde os galos a mandariam para casa, o homem deveria decidir-se. - Que atitude diferente esta que tomei! A espera sempre estranha a mim. Ela não me gosta. Definitivo. - Pois o moço havia de conquistar os olhos anis da verdade. Os encarando. - Não existe espécie mais sem paciência do que você. Espere, pois me revelo ao gosto daqueles que, ao contrário de sua alma, sabem aquietar-se diante da agonia e acalma-la. Até que seja possível impor um caminho às trilhas desconhecidas - disse a Dona Verdade.
Quanto é mais bela, reveladora e prazerosa a veracidade desvendada à noite?

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21.1.04<$BlogDateHeaderDate$>

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NOITES DOURADAS: Lima e Silva de Porto Alegre.
Recém passou as 2h30min da madrugada de sexta-feira. Um jovem rapaz estava acompanhado de um casal de namorados. Ele tomou o último gole do refrigerante de lata vermelha. Dele, se aproximou uma linda menininha, com não mais de uma década de vida. Em seu braço, um pequeno balde sujo, com pouca água e meia-dúzia de pequenas e murchas flores. Eram rosas. O moço olhou para a pequena vendedora que cada vez mais se aproximava de sua mesa na calçada do restaurante.
- Posso pegar o resto do refri, tio? - perguntou a menina.
- Acabou! - disse ele com pena - Agora a pouco tomei o resto que havia - lamentou o jovem.
Cabisbaixa, a indiazinha testa a sua sorte dirigindo-se para uma outra mesa onde haja alguém tomando refrigerante. Ela está mais preocupada em conseguir um gole do que em vender as suas tristes rosas.
- Espera! Espera! - gritou a amiga do rapaz - Volte para a nossa mesa. Te compraremos algo para beber.
A menina apenas consentiu com a cabeça, que naquela altura era sua única voz.
- Mas tu vai me dar fechado, né tia? - preocupou-se a garotinha, falando alto.
- Sim. Fechado se é assim que queres.
Depois que o moço pediu ao garçom mais um refrigerante da lata vermelha, a neófita vendedora parou do lado dele. Quieta e com uma paciência dos velhos sábios, ela olhava em sua volta. Logo, o garçom largou a lata sobre a mesa com mais um copo. Gelo e limão.
A menina, absorta, abriu a lata de alumínio reciclável com os dentes ainda de leite. Apoiada sobre a mesa do rapaz, ela tomou alguns goles. Deu tchau. Se foi.
O moço observava tudo de longe: a garotinha deu um gole para sua amiga, tão nova quanto ela e que também comerciava pelo local. A amiga, que tinha uma grande postura metafísica autoritária, tomou um pouco e depois levou a lata para uma mulher que aparentava uns 25 anos. Esta, bebericou o refrigerante. Apenas alguns goles. Após, a Coca-Cola foi passada para dois rapazes. Drogados, eles secaram a lata.

Uma cena da capital gaúcha.

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Notícias hemorrágicas
Gabriel Silveira
"Acostumado com a miséria, mas não com a maldade", foi o que André pensou quando leu as palavras soltas que ela tinha organizado naquele e-mail. Não ousou chorar. A humilhação estava tão presente nas palavras dela que desfalecer-se em pranto agora seria decretar o adormecer final de seu próprio ego. Ao contrário, sorriu. Sorriu para seu coração como quem tem pena de um amigo que é apunhalado pela dor, de um companheiro que tomba em meio a um campo aberto de batalha. Sorriu por sentir decência em si mesmo. Depois franziu a testa, quase fechando os olhos, e repetiu, agora em voz alta, "acostumado com a miséria mas não com a maldade". Sim, porque aquele descarte, aquela afronta à sua paixão, daquela maneira tão inexplicável, tão sem sentido, era maldade pura, era fatalidade das palavras duras que ousaram cair naquele email de merda, errante, quase divino em sua natureza independente e enfadonha. André setiu-lhe escorrer uma lágrima rubra, escarlate, de seu olho espelho, vitrine, janela, oceano. Aos poucos, sua mesa estava banhada em sangue, assim como o chão cinzento que se curvava à fatalidade de morrer encharcado, e André ali, não pensava em estancar a hemorragia de podridão que estava lhe matando, lhe incentivando à falência moral, só pensava em entregar-se, em entender o inintendível da loucura, o devanear da imensidão magnificente do pensamento. Ficou ali, até morrer afogado em sua própria tristeza, inundo em tristeza como Werther. Da veia cruelmente esvaziada pelo sopro sombrio da solidão sobrou o nada e ele ficou ali, esperando notícias para reerguer-se, preso a outras dimensões onde o concreto não há e o abstrato não é.

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20.1.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Loucura do apaixonado
Gabriel Silveira
Morrerei de poesia, isolado em um castelo de vidro, preso à fatalidade de ser um pensador, um apaixonado, um romântico. Eu hei de morrer poetisando, imaginando o que não há, vendo branco onde há negro e este onde há branco. Morrerei louco, podemos pensar. Porque nada mais é do que loucura ousar escutar alaúdes quando só há o silêncio; perceber o brlho quando só há o opaco; amar de coração quando o que há é falsidade. E que esta dor que agora me afronta, que me cruza o peito, me esfaqueia a alma, esta dor que dizem ser a dor de amor, mas que penso ser esta a dor do não-amor, ainda há de extorquir-me a vontade de viver. Nesta loucura em que vivo, há vida, há verde, há fidelidade e paixão. Nesta loucura em que vivo, há sonhos palpáveis, há nuvens e ventos e auroras da divindade final. Nesta loucura plena e consciente em que vivo, há mais do que um coração poeta, há o sofrimento e o aprendizado, mas não a falsidade. Quem me dera ela vivesse aqui, neste mundo de loucura plena onde acredita-se que amar é tudo e que a paz é fruto da sabedoria. Sou sozinho na estrada da loucura, no caminho do sofrimento absoluto do amar.

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Cegueira do destino
Gabriel Silveira
Um vale verde. Verdes e mais verdes cobrem em trança a entrada do sol que apenas em alguns momentos vence a barreira natural. Ao meio, um pequeno riacho azul, cheio de pequenos peixes coloridos e brilhantes, corta-lhe o caminho em sonora poesia. As pedras, banhadas em correntezas pela água, soltam um doce canto de felicidade. No alto, as famílias de passarinhos dançam incessantemente como se entendessem toda a magia do lugar. As borboletas e os beija-flores competem em beleza e cores, desbravam brisas com piruetas e outra maravilhas nos ares. Eu, em vida medito aqui. Uma lágrima amarga escorre de meus olhos fechados e cansados. A lágrima ousa corre por minha face, enxugando-me a secura, foge-me aos lábios, até atirar-se em desespero no pequeno riacho azul. Mas quando o amargo de meu sofrimento feio, burro de ser humano, toca a magia da fantasia, do amor pleno, da contextualização da magnificência, tudo se transforma. E meu coração endurece. Um vento do leste traz uma areia densa e escura como a noite, soterrando o pobre riacho. Os peixes morrem à falta de água. Os passarinhos, assustados, fogem pró-salvação. As borboletas e os beija-flores, descontentes com o negro iminente, choram ao despedir-se do seu amado vale. As árvores enfraquecem e murcham com o deserto. Então o céu, espelhando sua irmã terra, falece à escuridão, traz-me a tempestade e a chuva que terminam o espetáculo da destruição do qual todos fugiram. Menos eu. Esta é a minha vida mas eu não sou essa vida. Três segundos à luz desta escuridão e chega, não quero mais, não mais. As lágrimas aqui são incessantes e clamo por salvação. "Como pode?", pergunto, "Como pode algo tão belo ser destruído em tão breves suspiros?". Virgílio sopra-me ao ouvido: "Abra os olhos, filho, abre os olhos".

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19.1.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Fraqueza minha
Gabriel Silveira

Se és pura em tua verdade,
sim, fere o meu coração.
Resigno-me a entender minha obviedade.

Se és sincera em teus desejos,
sim, corta-me a alma.
Desfaço em pó meus almejos.

Se és tu quando dizes,
sim, eu deixo de ser.
Meus olhos deixo-os infelizes.

Se fui o que pensei,
era, não mais serei.
Que Ele te ilumine os caminhos.
Eu, resignado às sombras, chorarei.

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Buscando a luz
Gabriel Silveira

Minha luz foi-se embora, retirou-se.
Em busca de outros vales,
sumiu ao longe, apagou-se.

Ainda antes de entregar-se ao horizonte, sorrindo,
supirou, hesitante, e fitou-me,
como se não satisfeita por estar indo.

Eu, tão fraco em minhas virtudes,
tão obsoleto em minhas verdades,
fantasiei anjos e alaúdes.

Mas mesmo viva em minha esperança,
na tragédia do humano em seu destino
onde nem tudo que se quer, se alcança,

ela despediu-se em verbo e lábio,
e acabei ficando ali, derrotado,
como o aventureiro que desafia o sábio.

E se não fosse a doçura daqueles momentos,
hoje não aguentaria este amargo
que na solidão me traz tormentos.

E se não fosse o calor de tua mão
hoje não aguentaria o frio
que agora congela meu coração

Mas nessa aurora, corrompida pelo medo,
brotou, em tempo, a flor da esperança
nem muito tarde, nem muito cedo.

E contemplando-a, orei:
leva-me adiante, flor da esperança,
leva-me à luz, sempre e sem hesitar,
que o que difícil é, mais longe avança,
e o que é verdadeiro, não há de acabar.

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Shakespere de botequim
Gabriel Silveira

Teseu - Por Netuno! Que o grasnar de um corvo inquieto acorde este serviçal sonolento para que traga-nos uma cerveja!

Hortênsio - Parece-me que, por seu semblante inerte e despreocupado, seriam necessários todos os corvos do mundo a grasnar, ou mesmo uma manada furiosa de elefantes.

Fundilho - Resolvamos isto como homens. (levanta e fala a garçom) Pois bem, infame, acorda-te mais rápido do que os raios de Zeus e serve-nos ou terei que profanar este bar como fez Apolo a Delfos quando deu fim à sagaz Píton.

(entra Garçom)

Garçom - Perdoem-me cavalheiros. Que eu sinta o calor do fogo de Hefesto por minha displicência. Mas não agora. Dizei-me o que desejam e eu irei rapidamente atendê-los.

Teseu - Justiça seja feita, sim, e que Hércules não te salve desta águia! Agora vai e traz-me três cervejas para que eu e estes nobres cavalheiros esqueçamos de tua pobre falta.

(sai Garçom, entra Bianca)


Fundilho - Meu caro Hortênsio, não é aquela que se aproxima uma pomba de Afrodite? Diz-me, caro Hortênsio, se não é Bianca, filha de Romero, com a doçura matinal de seus longos cabelos, com seus lábios rubros e entumescidos pelo veneno da paixão... ah Bianca, Bianca, dá-me teu veneno para que eu possa despedir-me da tristeza que é viver sem teu afeto, dá-me e eu adentrarei os céus sem o véu de encantamento que teus olhos mágicos jogam sobre mim.

Hortênsio - É sim, meu bom Fundilho, esta é a bela que de tantos cavaleiros retirou a hombridade ao ajoelharem-se sobre seu manto de beleza e juventude, ludibriados pela idéia de tê-la como companheira em seu cavalgar em direção aos horizontes ensolarados da felicidade e nos campos verdes e floridos da paixão eterna. Agora contenta-te, Fundilho, e acalma-te, ela se dirige a nós.

Bianca - Meus caros senhores, amigos de confiança de meu pai, eu procuro por meu irmão, Vincenzo. Não teríeis, vós, que nesta mesa divagam ao longo de horas e mais horas na volta de suas cervejas,(Fundilho engasga-se) visto aquele que se fez meu irmão por amor não menos que por sangue?

Teseu - Cara e respeitada senhorita: apesar do pouco tempo que dispomos nos intervalos de nosso árduos e respeitados trabalhos, (Fundilho faz sinal de confirmação com a cabeça) sim, tivemos a felicidade de ver aquele que da tua mesma nobre semente brotou. Põe-te, doce e encantadora Bianca, na direção da casa de teu pai, porque, aos meus cálculos, lá ele deve estar chegando em pouco tempo.

Bianca - Agradecida pela atenção dos cavalheiros, partirei, para que tão importante informação não tenha sido me dada em vão.

Fundilho - A graça é toda nossa por, de tua luz e teu louvor, termos desfrutado destes breves momentos.

(sai Bianca)


Teseu - Traz-me outra cerveja, Garçom imprestável, precisamos brindar algo.

Fundilho - Sim, precisamos brindar a formosura deste linda filha de Romero, e que formas mais perfeitas, se me permitem a colocação.

Hortênsio - Como não permitir, frente à visão daquela que, do punhado de todos nós, faz apenas um, na vontade de tê-la.

(Garçom traz a cerveja)

Teseu - O que nos resta: um brinde à cerveja, à Bianca e ao botequim.

Fundilho - À cerveja, à Bianca e ao botequim.

Hortênsio - À cerveja, à Bianca e ao eterno botequim.

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Segredo entre amigos
Matheus L. Póvoas (irmão de Jihad)
Num dia de verão os companheiros Mauricio e Eduardo estavam indo para uma festa que o amigo Rafa planejou.
A festa foi legal. Todos se divertiram. No dia seguinte Mauricio e Eduardo entrando na escola não encontraram Rafa, mas de repente Ana falou que ele depois da festa tinha morrido de envenenamento e todos podiam ser culpados até mesmo um deles. Naquele momento Mauricio e Eduardo se olharam com desconfiança. Mas aquele olhar foi interrompido quando Ana perguntou se eles irião com ela para a casa de Rafa ver as investigações. Mauricio e Eduardo concordaram.
No outro dia eles foram até a casa de Rafa para ver a averiguação do caso, mas chegando lá eles perceberam que não tinha policiais dentro e nem fora da casa. Ana perguntou se eles não queriam investigar com ela a casa. Eles decidiram que sim.
Dentro do quarto de Rafa eles estavam procurando por alguma pista, de repente eles acharam um pote e Ana, que era observadora, disse que o pote podia ser do veneno, mas eles não tinham certeza. Mauricio disse que era melhor eles voltarem para casa porque já era tarde. Ana falou que ela não iria porque continuaria investigando.
No dia seguinte Mauricio e Eduardo estavam procurando Ana no colégio para saber das novidades. Ela falou que tinha pegado o pote e uma xícara que Rafa podia ter bebido o veneno. Ana sugeriuque eles se encontrassem na casa de Mauricio, mas ele rapidamente discordou da idéia. Então Ana falou: "Minha casa. Vamos se encontrar lá".
À casa de Ana, primeiro Eduardo chegou e disse para Ana que foi estranho o comportamento de Mauricio. Ela perguntou se ele achava que ele podia ser o assassino. Mas de repente chegou Mauricio, eles disfarçaram a conversa. Depois da reunião Ana decidiu investigar a casa de Mauricio, chegando lá ela entrou pela sala de estar e a mãe de Mauricio perguntou o que ela queria, Ana deu a desculpa que iria entregar um trabalho para o colega, mas a mãe dele disse que não estava e perguntou se Ana queria esperar. Ela esperou.
No quarto de Mauricio, Ana começou a procurar algo que podia culpa-lo. De repente ela viu que na mesa dele estava escrito: eu vou matar Rafael. Então Ana não teve outra escolha se não culpa-lo.
Dias depois no colégio Ana e Eduardo foram ver se a mãe de Mauricio estava bem, na casa dele Ana viu um cachorro velho quase morto. A mãe de Mauricio disse que esse cachorro ia ser morto no dia que Mauricio foi preso. Ana perguntou qual era o nome dele a mãe de Mauricio disse que era Rafael, Ana pensou se era o cachorro que ia ser morto e não o Rafa muito rapidamente ela foi até a policia para falar sobre aquilo.Algumas horas depois Mauricio foi inocentado da acusação.
O ex-presidiário perguntou para Ana porque ela esta estranha. Ela disse que era porque ele não sabia quem era o assino, Mauricio falou que o assassino deve estar ligado em tudo o que está acontecendo naquele momento Ana perguntou: cadê o Eduardo?
A menina foi correndo para a casa de Eduardo. Chegando lá a porta estava aberta. Ela entrou e encontrou uma carta onde estava escrito:
Desculpe Ana e Maurício, vocês não são detetives muito bons para me pegar, desculpe Eduardo por te prender. Não me procurem porque já estou bem longe.
Assinado: seu caro amigo Eduardo


Alguns anos depois...
Ana e Mauricio, já velhos, comentam sobre o assunto do assassinato:
-Qual será que foi o motivo do assassinato? - pergunta Ana
-Talvez a gente nunca descubra. - lamenta Maurício.

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Guilherme L. Póvoas
A noite para Sofia
O Smack´s era o único restaurante onde eu poderia sentar e conversar com meus amigos, mesmo saindo de casa sozinha: lá todos se encontram. Aqueles conhecidos antigos de faculdade, do trabalho. Enfim, toda patota se reunia no único restaurante da cidade em que não se apagava os recados deixados nas portas dos banheiros.
Uma, duas, na terceira cerveja já estava rodeada pela metade da turma de Relações Públicas de 98. Sábado à noite, os solteiros de nós estavam todos ali. Com as mesmas conversas, o mercado de comunicação, as notícias, os que tiveram filhos, os que perderam filhos, encararíamos a noite inteira. Não me lembro de forma precisa, mas acho que o assunto era a guerra no Iraque quando Michel olhou para mim com um sorriso que nunca havia visto naquela boca que pouco falava.
- Quanto você é parecida com minha ex-namorada - eu jamais esperaria isto de Michel.
- Sério? Mas você se refere fisicamente ou no jeito de pensar, agir? - eu falei a ele, pouco desconfiada.
- Em tudo, até onde os meus pensamentos conseguem chegar.
Antes de apagar o cigarro que fumava, já estava aos beijos com ele. Logo quem! Me recordo que nem à formatura ele foi pois era tão envergonhado.

Uma noite para Michel
Neste sábado não poderia ser diferente. No Smack´s tínhamos um encontro marcado, meio que por osmose: todos os solteiros da turma de RP de 98 freqüentavam aquele lugar. De vez em quando, apareciam aqueles (as) que pulavam a cerca.
Na minha sétima long-neck vi algo brilhar em algum lugar naquela mesa. Não estava tão bêbado para ver demais e nem de menos. Eram os belos olhos de Sofia, aquela colega com quem eu só conversava nos trabalhos de grupo, sempre a evitando. E ela a mim. Se isto acontece entre um homem e uma mulher é porque algum sentimento recíproco existe.
O assunto no momento era filhos. Quem os queria? Quantos? Quem já os teve? Aquele tipo de conversa não era muito bom para eu poder me aproximar de Sofia. Nunca tive experiência em conversar com segundas intenções. Costumava ir direto ao assunto. Juarez, o mais político da turma, foi da água para o vinho.
- E o Saddam. Pegaram ele.
- Pois é. Até teste de DNA fizeram para ter certeza de que realmente era ele. Dizem que tem vários iguais ao Saddam pelo Iraque a fora - esta colocação (não me lembro quem falou) caiu do céu. Logo, me aproximei de Sofia.
- Sofia, sabe que estas conversas de intrigas internacionais. Sósias de Saddam. Me lembrou o quanto você é parecida com minha ex-namorada - nunca esperava ser tão cara-de-pau.
- Sério? Mas você se refere fisicamente ou no jeito de pensar, agir? - não saberia levar aquela conversa muito longe depois desta pergunta.
- Em tudo, até onde os meus pensamentos conseguem chegar.
Preferi beija-la enquanto ela estava a fumar, transferindo de alguma forma meu nervosismo à Sofia.

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Do fundo do coração
Gabriel Silveira
Fechou a mão direita ao redor do pulso esquerdo e roçou sua pele. Não conseguia, de maneira alguma, sentir-se à vontade naquele ambiente escuro e barulhento. Dorian Kalsing era um homem das letras, um apaixonado pela literatura e, não fosse por sua fraqueza à luxúria, ele certamente não estaria ali agora. Mas estava e, assim, era sua obrigação não desperdiçar o soturno momento senão em sua busca por uma companhia. Entretanto, por mais que as mulheres lhe incitassem à ação, ele não se levantava da pequena cadeira que havia sentado logo que chegara, ainda cedo, à festa. Ora, Dorian, apesar de desprovido de todos os apegos materiais, era, por natureza, um homem bonito e atraente, alto, ombros largos, cabelo moreno e elegante. Mesmo assim, não sentia-se à vontade naquele ambiente pulverizado com míseras e estúpidas mentes da mesma idade física que a sua, mas atrás anos luz em capacidade intelectual. Quando já estava adentrando pensamentos críticos sobre a sociedade moderna e seus contrastes morais, uma menina sentou-se ao seu lado. Sou Gabriela, disse, e você, qual seu nome? Dorian, Dorian Kalsing, disse ele, sem entender muito bem do que se tratava aquela desinibida forma de aproximação. Nos próximos dois minutos, o silêncio dos padres convertidos mais à resignição do que à fé religiosa, tomou conta da mesa. Por mais paradoxal que possa parecer naquele ambiente aquecido pelo vulgar, enrijecido pela sensualidade, arrogante pelo volume regulado ao extremo, foi o silêncio de palavras que criou um elo entre os dois. Bastou então um observar simultâneo, um olhar confesso e os dois saíram dali. Dorian a pegou pela mão e a levou até onde pudessem conversar, longe da escuridão das luzes da boate. Sentaram-se à beira de um pequeno jardim que se prostrava à margem da concretude da boate e puseram-se a conversar. Entre as saudações que não foram necessárias e as explicações que perderam-se no caminho, discutiram assuntos como se fossem velhos conhecidos, concordando em alguns ponto, discordando em outros mas sempre assim, com uma naturalidade sutil e ao mesmo tempo envolvente. Quem via a cena de dentro da festa, imaginava estar tendo uma visão do éden, dois corpos brilhantes em euforia pelo descobrimento de seus iguais, um verde doce da natureza de fundo e luz artificial formando um astral crepuscular como um véu de encantamento. Ali, assim, os dois permaneceram por uma, duas e outras muitas horas que talvez fossem apenas minutos. Dali só saíram quando a rainha das azaléias já tomava o horizonte anunciando a aurora. Foram caminhando por ruas e assuntos sem perder a fascinação até que encontraram o desencontro necessário: na frente da casa dela, Dorian silenciou e o desejo luxurioso adentrou novamente seus pensamentos. Ergueu sua mão em lentidão doce e sincera e, em carinho manifesto disse-lhe, Deixa-me beijar-te a boca. Ela sorriu e disse-lhe, Neste mundo de tão concretos argumentos e de tão dolorosas expiações não há perfeição, não há felicidade plena. Dá-me a satisfação de não esquecer nunca mais o que tu foste esta noite. Priva-nos de macular nosso encontro com a dor e a tristeza que vem com os ventos da paixão. Uma lágrima ousou molhar a resignação de Dorian. Gabriela virou-se, respirou fundo e foi caminhando lentamente até a porta como se pensasse duas ou vinte vezes no que acabara de fazer. Ele a respeitou e foram sozinhos para sempre.

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Reverencia. Não é este o propósito do Literato, mas vou transgredir a regra para colocar uma pequena frase sobre um grande livro.
Viver para contar
É a prova de como Deus moldou a vida de Gabriel Gárcia Márquez para este se tornar uma égide de sustentação literária.

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Guilherme L. Póvoas (Jihad)
O começo para Joel
Uma semana de férias. Era isso que Joel (des)esperava ao longo de dois anos. A firma estava enxuta, tudo funcionava; mãe, irmão, a família estava tranqüila: enfim, tudo em serenidade, sem preocupações. Aquela semana no litoral era excelente para elevar ainda mais o número de livros lidos, olhar o sol nascer e dormir enquanto o astro rei se põe. Uma praia pequena, rica e em ordem. Um apartamento pequeno e simples, para Joel bagunçar. "Era disso mesmo que precisava", pensava o moço.
Recém o segundo dia de férias, chegara à conclusão de que não adiantaria comer em restaurantes a semana inteira: muito gasto, muita azia. Na esquina, havia um modesto mercado, daqueles que tem um faturamento estupendo durante o verão, porém em baixa temporada o corte de filé é dado às moscas. As placas dos corredores não diziam muitas coisas a ele. Massas, Condimentos, Congelados. "Do que preciso, mesmo?". Era uma farofada o que tinha em mente, daquelas com carne picada. "Bife! É claro! E farinha. O resto tenho em casa", comentou Joel com seu eu interior. À procura do coxão-de-dentro (ou qualquer outra parte de carne vermelha) ele viu uma senhora desviando seu carrinho de compras de uma criança. Ela não lhe era estranha. Com os braços esticados e um enorme sorriso ela se dirigiu a Joel.
- Joel. Sou eu. Bela! Não te lembra mais de mim, é?
- Claro que lembro. Está diferente. Como vai? Tudo bem?
Ele era tímido. Ainda mais diante da mãe de uma ex-namorada. Ficou surpreso ao vê-la. Fazia tanto tempo. Quase dois anos de namoro sem conhecer Bela. Dois dias antes de desatar, Joel fora apresentado à ex-possível sogra. Na ocasião ele falou: "Rita, dois anos de namoro vicejante e você me apresenta sua mãe justo na nossa primeira e derradeira crise". Enfim, táticas femininas.
- Bom, tenho que continuar minhas compras, Joel. Amanhã tem carreteiro. A Rita está por aí, também.
- Certo. Prazer em revê-la. Até mais.
As férias eram descanso. Mas agora, algo cutucava os joviais neurônios do moço. Mas a farofada ele faria. Estava mesmo perturbado: "O que tenho que comprar mesmo?". Na fila da carne, onde milhares de adolescentes bronzeados faziam os planos para noite, ele recebe um toque leve e carinhoso nas costas. Homem não pode ser.
- Hmmm.. que saudades, cara - lógico, quando Bela disse que "Rita está por aí" ela não se referia apenas à praia, mas ao mercado também. E depois de outro longo abraço, mas este com desejos:
- Rita! Muitas saudades mesmo. Tinha encontrado sua mãe antes. Não pensei que estivesse fazendo rancho com ela. - (é, ela nunca fora assim, deste jeito de mulher).
- É! Amanhã vamos fazer um carreteiro. Eu vou cozinhar. - ela havia mudado - Vem lá em casa almoçar com a gente amanhã. Última quadra antes da avenida. Na primeira casa.
Feito! Joel teria de ir ao banquete.
Um fim com ela
Se acostumando cada vez mais a acordar tarde, o moço despertara com o toque de seu celular às 11h. Banho, tosa no bigode. Pronto. Alguns 8 minutos de caminhada estava lá. Mesmo ela morando do outro lado daquela urbe praiana, a pequenitude da cidade parecia ser mais um fator para aproximar o antigo casal.
Foi recepcionado de forma cordial e nada formal pela família de Rita. Ele definiu de vez: eram todos muito legais e espontâneos. Inclusive aquele irmãozinho pentelho dela, que agora se tornara um leão viciado em nicotina. Antes de Joel sentar à mesa, Rita veio recepcionar-lhe com um beijo antigo, quase fedendo à naftalina de tão nostálgico, mas que ainda provocava as mesmas sensações a cada toque de lábio. E com aquele beijo esfomeado sorvido de surpresa, Joel sentara-se à mesa e, com a timidez nata que Deus dera-lhe, saboreou o carreteiro. Após, todos satisfeitos, o acanhamento do rapaz obrigava-o a fazer coisas nada envergonhadas de vez em quando.
- Deixa! A louça eu lavo - disse ele, levantando-se da mesa.
- Capaz. Hoje a louça é comigo. Vai assistir Tv com a Rita lá na sala.
Bem, ordens de mãe não se contrariam. E a cada baforada de cigarro, os beijos renovados voltavam à tona, esticados no sofá da primeira casa da última quadra antes da avenida. Desse lugar, Joel não saiu mais durante toda a semana. Ficou, jantou, amou. Ah! E conseguiu lavar pratos também.
No derradeiro dia da semana de férias, o moço saiu de lá, feliz. E, acompanhado, foi para o seu apartamento de praia, aproveitando aquela última noite no litoral, tentando fazer tudo o que havia planejado: livros, sol, mar, até mesmo uma farofada.

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Cachoeiras da sabedoria
Gabriel Silveira
A água caía. Do azul em branco desenhavam-se formas celestiais. Da pedra dura, da planta verde à água inodora, meu pensamento corria e desvaía sempre ali, na cachoeira da magnificência. O odor da paz que o tempo exala em cores do vermelho ao laranja, do laranjo ao verde, do verde ao azul, levam-me ao entendimento. O entendimento leva à fé. E creio. Lá no topo da cachoeira, onde minha ignorância ainda não me permite chegar, vejo os três poetas, Virgílio, Dante e Estácio em devaneios da magnificência literária. Eu, paradoxo da matéria, esteta do abstrato, medito solenemente sobre as águas doces que jorram energia ao mundo. O vento traz mensagens susurradas em idiomas esquecidos e o consolo é constante. No farfalhar risonho das árvores, desperto curiosidades que a harmonia não procura mas rememorará um dia. Do lábio daquele que disse a verdade, relembro palavras e harmonizo. No violão do que a Neruda contemplava mas que em grandeza era igual àquele, despertei-me e voltei. Mais vivo, mais aqui.

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Caros amigos: como aquele que, aos pós-mundos, fez viagem outrora, ao mestre e à seu único foco necessitava atenção e de seu tempo a doação, eu também, que insignificante e ousado o outro rememora, estou a entreter-me com as questões que a concreta fome sacia e a vida possibilita. Como a Estácio, que da avareza fez o inverso e por errar acabou também, ainda não cheguei, não poderei dar tanta atenção nos próximos dias a este, negro aos olhos mas branco à alma, que tanto felicidades e satisfação me dá, na manjedoura de meu coração batizado de oLiterato. Perdão peço a mim mais do que a vocês porque estarei do meu coração perdendo a companhia diária de vocês que tanto sustentam meu potencial intelectual e moral. Os textos do Literato estão sendo reeditados em um Narcisista flog que minha irmã induziu-me à criar. Aqui. Obrigado a todo e até breve.

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Prova
Gabriel Silveira
Nas ribanceiras do mundo, viajou convicto. Na companhia de Virgílio visitou os espaços em que não há concreto, só abstrato. Viu o branco absoluto, os castelos de neve, os palácios da divindade misericordiosa. Ao longe, corcéis alados da sabedoria desbravavam horizontes levando mágica, levando esperança. Virgílio viu seu sorriso estender-se divagar. Ele sabia que o sorriso já não era mais uma constante para Pedro Enrique. Pegou em sua mão e o levou até os castelos centrais. As estruturas sublimes da convicção, as belezas incontestáveis da felicidade, expostas em cada torre, em cada abóbada, em cada jardim do mundo da esperança. Em um eterno amanhecer, como em Nuñes, Pedro perdeu-se e Virgílio vagou. Por dez anos Pedro não mais teria a companhia de Virgílio. Ele estaria solto à concretude dos erros, do sofrimento e com eles haveria de construir seu próprio castelo, sua própria magnificência.

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Uma vez mais
Gabriel Silveira
Sento-me à beira do abismo. Observo o horizonte rubrar como se banhado em sangue do firmamento penado. Os outros cruzam-me a alma; divertem-me os sentidos, embassam meus olhos. As nuvens trazem o som de Trollslottet e minhas pálpebras fecham pesadas do cansaço. O crepuscular medieval me abraça e coriscos dourados em fogo lembram-me das missões que planejei, da infalibilidade de meus sonhos. Lá embaixo não vejo cores onde o vale foi verde outrora. Choro desesperado como o regougo da raposa em meio à caçada. Meu aspecto terroso, roçado por lâminas de prata nocivas, antígenas contra meu coração-pedra, confortam-me em minha conformidade néscia. Em meu ventre podre em egoísmo, em minha boca culpada em inveja, em meus olhos perdidos em vaidade, encontro motivos demais. Motivos demais são perigosos. Motivos. Virgílio está lá, observando-me. Levanto-me mais uma vez. Pela última vez. A lágrima que já foi doce agora escorre amarga e descem convictas em minha pele ranhurada em tristeza. Jogo-me ao vento para mais uma batalha, a última batalha. Da próxima vez que aqui chegar sei que não terei mais forças, não mais.

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