Guilherme L. Póvoas (Jihad)
O começo para Joel
Uma semana de férias. Era isso que Joel (des)esperava ao longo de dois anos. A firma estava enxuta, tudo funcionava; mãe, irmão, a família estava tranqüila: enfim, tudo em serenidade, sem preocupações. Aquela semana no litoral era excelente para elevar ainda mais o número de livros lidos, olhar o sol nascer e dormir enquanto o astro rei se põe. Uma praia pequena, rica e em ordem. Um apartamento pequeno e simples, para Joel bagunçar. "Era disso mesmo que precisava", pensava o moço.
Recém o segundo dia de férias, chegara à conclusão de que não adiantaria comer em restaurantes a semana inteira: muito gasto, muita azia. Na esquina, havia um modesto mercado, daqueles que tem um faturamento estupendo durante o verão, porém em baixa temporada o corte de filé é dado às moscas. As placas dos corredores não diziam muitas coisas a ele. Massas, Condimentos, Congelados. "Do que preciso, mesmo?". Era uma farofada o que tinha em mente, daquelas com carne picada. "Bife! É claro! E farinha. O resto tenho em casa", comentou Joel com seu eu interior. À procura do coxão-de-dentro (ou qualquer outra parte de carne vermelha) ele viu uma senhora desviando seu carrinho de compras de uma criança. Ela não lhe era estranha. Com os braços esticados e um enorme sorriso ela se dirigiu a Joel.
- Joel. Sou eu. Bela! Não te lembra mais de mim, é?
- Claro que lembro. Está diferente. Como vai? Tudo bem?
Ele era tímido. Ainda mais diante da mãe de uma ex-namorada. Ficou surpreso ao vê-la. Fazia tanto tempo. Quase dois anos de namoro sem conhecer Bela. Dois dias antes de desatar, Joel fora apresentado à ex-possível sogra. Na ocasião ele falou: "Rita, dois anos de namoro vicejante e você me apresenta sua mãe justo na nossa primeira e derradeira crise". Enfim, táticas femininas.
- Bom, tenho que continuar minhas compras, Joel. Amanhã tem carreteiro. A Rita está por aí, também.
- Certo. Prazer em revê-la. Até mais.
As férias eram descanso. Mas agora, algo cutucava os joviais neurônios do moço. Mas a farofada ele faria. Estava mesmo perturbado: "O que tenho que comprar mesmo?". Na fila da carne, onde milhares de adolescentes bronzeados faziam os planos para noite, ele recebe um toque leve e carinhoso nas costas. Homem não pode ser.
- Hmmm.. que saudades, cara - lógico, quando Bela disse que "Rita está por aí" ela não se referia apenas à praia, mas ao mercado também. E depois de outro longo abraço, mas este com desejos:
- Rita! Muitas saudades mesmo. Tinha encontrado sua mãe antes. Não pensei que estivesse fazendo rancho com ela. - (é, ela nunca fora assim, deste jeito de mulher).
- É! Amanhã vamos fazer um carreteiro. Eu vou cozinhar. - ela havia mudado - Vem lá em casa almoçar com a gente amanhã. Última quadra antes da avenida. Na primeira casa.
Feito! Joel teria de ir ao banquete.
Um fim com ela
Se acostumando cada vez mais a acordar tarde, o moço despertara com o toque de seu celular às 11h. Banho, tosa no bigode. Pronto. Alguns 8 minutos de caminhada estava lá. Mesmo ela morando do outro lado daquela urbe praiana, a pequenitude da cidade parecia ser mais um fator para aproximar o antigo casal.
Foi recepcionado de forma cordial e nada formal pela família de Rita. Ele definiu de vez: eram todos muito legais e espontâneos. Inclusive aquele irmãozinho pentelho dela, que agora se tornara um leão viciado em nicotina. Antes de Joel sentar à mesa, Rita veio recepcionar-lhe com um beijo antigo, quase fedendo à naftalina de tão nostálgico, mas que ainda provocava as mesmas sensações a cada toque de lábio. E com aquele beijo esfomeado sorvido de surpresa, Joel sentara-se à mesa e, com a timidez nata que Deus dera-lhe, saboreou o carreteiro. Após, todos satisfeitos, o acanhamento do rapaz obrigava-o a fazer coisas nada envergonhadas de vez em quando.
- Deixa! A louça eu lavo - disse ele, levantando-se da mesa.
- Capaz. Hoje a louça é comigo. Vai assistir Tv com a Rita lá na sala.
Bem, ordens de mãe não se contrariam. E a cada baforada de cigarro, os beijos renovados voltavam à tona, esticados no sofá da primeira casa da última quadra antes da avenida. Desse lugar, Joel não saiu mais durante toda a semana. Ficou, jantou, amou. Ah! E conseguiu lavar pratos também.
No derradeiro dia da semana de férias, o moço saiu de lá, feliz. E, acompanhado, foi para o seu apartamento de praia, aproveitando aquela última noite no litoral, tentando fazer tudo o que havia planejado: livros, sol, mar, até mesmo uma farofada.
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