Última voz para o sempre
Guilherme Lazzaretti Póvoas
Cruzada. A primeira. Segunda parte do ano de 1099. Os cristãos, sobre uma cavalgadura armada até os dentes, infligiram guerra contra os muçulmanos na Palestina, com o objetivo de "limpar a terra santa". Aqui vamos nós, de novo.
Hassam era o almuezem (homem encarregado de fazer o chamamento à oração) duma pequena mesquita em Jerusalém. Pouca gente costumava freqüenta-la. Todos optavam por ir à sagrada de Al-Aqsa. Mas ele, como responsável pelo santuário, permanecia, para quem com ele quisesse orar.
Era sexta-feira. Dia em que todos os muçulmanos, religiosamente sob pena divina, devem se dirigir à mesquita para orarem, juntos, a reza do meio-dia. Hassam havia comido o tradicional pão-árabe com um pouco de azeite que ainda restara. Devagar, se lembrando da morte a cada passo que dava, tal qual a religião islâmica recomenda, se dirigiu à sala de banho da mesquita. Com uma calma que a idade dera-lhe (ou impusera-lhe) ele escovou os dentes. Encheu o balde com mais água, fazendo a ablução. Lavando-se para purificar o seu corpo. Primeiro as mãos, a boca, o nariz. Depois o rosto, molhando a velha barba branca cuja qual ele apalpava durante as leituras do Alcorão. Limpo, enfim, para entrar na área de reza da mesquita e fazer a aclamação. Sentados no tapete escuro, encontravam-se cerca de 30 muçulmanos, tendo aula com o xeique local, que daria o discurso da oração do meio-dia, cujo assunto era a "Jihad: esforço contra os cruzados. A batalha eminente".
O almuezem olhara para o sol através das janelas arqueadas do santuário.
- Achra? - perguntou-lhe o xeique,
- Naam - afirmou Hassam com a cabeça. Estava na hora da oração.
Na pequena mesquita não havia lugar específico para o chamamento, diferente das outras sobre as quais o almuezem costumava comentar quando caminhava por Jerusalém: "Que belas, graças a Deus". Posicionando-se frente a todos fiéis, ele levou a mão direita à orelha, tapando-a com os dedos. Ergueu um pouco a cabeça para cima, todos deveriam ouvir, os anjos agradecem. Sua voz doce e ao mesmo tempo rouca ecoava pela sala:
- Allah´u Akbar, Allah´u Akbar! (Deus é o maior) Allah´u Akbar, Allah´u Akbar!
Ao fundo, os muçulmanos repetiam as mesmas palavras, solfejando do fundo do coração. Pela janela sempre se viu areia fazendo um balé com o vento. Nesta sexta-feira, porém, seria diferente.
Ainda durante o chamamento, a mesquita fora invadida por 12 cavalheiros imponentes e esbeltos. O islâmico mais próximo da porta era um rapaz, dos 15 anos não passava. Fora o primeiro de todos fiéis a sentir a lâmina quente e grossa da espada cristã entrar no seu peito, levando-o à morte justo no lugar mais cheio de vida em todo seu corpo: o coração. De então, iniciou-se a gritaria. Corrida brusca para a fuga por parte de alguns, a jihad para a eternidade, conforme havia dito o xeique alguns minutos atrás, para a maioria. A próxima vítima cruzada seria justo o xeique, que pela roupa trajada e a face de sábio culto, chamava mais a atenção: a cabeça mais inteligente da mesquita caíra no chão. Dentre os muçulmanos não havia um soldado, armador ou arqueiro. Tudo durou menos de um minuto, ninguém conseguiu fugir. Quando os gritos acabaram, ouvia-se algum som além dos relinchos dos cavalos europeus:
- Allah´u Akbar, Allah´u Akbar! Lé Ilaha Ilallah! (Não há outra divindade se não Deus).
Hassam havia continuado o chamamento, não mais para a oração, mas sim, agora, para a sua vida eterna. Antes de virar-se para os cruzados, ele lembrara-se de quantas aclamações iguais a aquela já fizera. Recordou também o dia em que o profeta Mohammad tomou a cidade de Meca, sem derramar uma gota de sangue e pediu a Bilal, o negro, para fazer o mesmo chamamento na mesquita sagrada, sob os olhos racistas, vingativos e odiosos da tribo árabe de Coraix.
A espada foi erguida e a lâmina refletira o sol, que naquela sexta-feira seria mais vermelho.
<$BlogCommentBody$>
Posted by <$BlogCommentAuthor$> | <$BlogCommentDateTime$> <$BlogCommentDeleteIcon$>
<$BlogItemCreate$>