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28.2.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Amor e ceticismo
Gabriel Silveira
Agarrou-a pelas mãos e saiu a correr pelo campo. As flores amarelas e vermelhas abraçavam os dois em suas imensas alegrias. Eles sorriam. Cantavam. Seus dedos cruzavam-se como uma promessa de união pela eternidade. Abraçavam-se rodopiando entre o verde infinito que tomava a paisagem. O céu condecorou-os com o mais bonito de todos os crepúsculos. E eles beijaram-se. Seus corpos em um, suas almas em sintonia pura. O modus-vivendis perfeito. Enrolados em uma energia plena de luz e felicidade contemplaram seus corações chorões de emoção:
- Amarte-te-ei para todo o sempre, disse ele.
- E serei tua pelo tempo em que este amor durar.
- Serei a noite para teu pranto, a luz para teu sorriso, as montanhas para o teu contemplar, os campos para teus devaneios.
- E serei tua por todo o tempo que esta disposição tu mantiveres. E serei porque te amo como o tempo ama o infinito.

Quando a palavra infinito lhe terminou de sair à boca rosada e frisada pelo frio que abatia-se sobre seus corpos amantes, ele beijou-a. A força daquele beijo não deve virar literatura pelo simples risco de motivarmos demais os corações amantes. Dali seguiram dançando. Contemplaram o nada e o tudo. No fundo, o horizonte tocava sem parar uma gaita-de-fóle estonteante em simpatia com o casal. Eles não perceberam, mas a noite durou dez vezes mais do que o normal. Não notaram, mas as estrelas apareceram para iluminar-lhes a escuridão. Os pássaros vieram em bandos infinitos de todos os cantos do mundo para que pudessem também ouvir daqueles corações apaixonados as palavras de ternura sem escrúpulos senão a paixão imensa e infinita. Deitaram e amaram-se em plenitude angelical. Um pequeno pássaro cético que acompanhara um bando apaixonado disse ao vê-los abraçados ainda iluminados pela paixão:

- Pobrezinhos, não sabem que o amor vem como vai, sempre na hora em que menos imaginamos.

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Noites em vão
Gabriel Silveira
Recostou seu peso na cadeira amarela de praia e puxou o cigarro. Fechou a porta da pequena varanda com a mão esquerda sem levantar-se e com a mesma agarrou a caixa de fósforos que já lhe encaixava à palma como se a pertencesse. Com o dedo indicador empurrou a caixeta, tirou um palito e, tirando-lhe a ponta riscada, jogou o pedaço de madeira à boca. Depois, quando já mastigava o primeiro, tirou um segundo da caixa e riscou-o. A pequena chama nem de longe se comparava com a labareda queimante que lhe roçava o coração. Levou a ponta do cigarro até o fogo orientando-o com a mão direita e, quando percebeu que havia tido sucesso na empreitada jogou-se novamente para trás ao mesmo tempo em que atirava a caixa de fósforos na beira da varanda. "Agora sim", pensou. Ficou ali, acompanhado somente das luzes noturnas das estrelas errantes e da coreografia do pequeno sol flamejante que a ponta do seu cigarro desenhava na escuridão. Por alguns minutos pausou acompanhando o deslizar espectral da fumaça que expurgava de seu fumar inglês, vaidoso. Um apanhado de frases lhe vieram à mente mas não as falou. Rememorou-as com a dor e o silêncio de um homem ocupado com sua própria vida e fraco demais para estratagemas do amor. "Não nasci para ser um Julien Sorel. Nunca teria forças para fazer de mim um purista do espírito em seu rodízio de atitudes pensadas e repensadas". Olhou fixamente para a ponta do cigarro como lhe incriminasse por suas fraquezas e levou-o até a altura dos tornozelos onde ao lado da cadeira estava o pequeno cinzeiro vermelho. Sacrificou-o. Depois voltou a rescostar-se e pensar naquela que haveria de ser ainda por muito tempo sua última Dulcinéa. As palavras simples e secretas de alguma mensagem chegada de algum lugar da mente de sua amada fizeram-lhe sentir-se honrado: "Estou com saudades". Ele sabia que aquelas palavras não significavam, em tempo, nada mais do que "Estou com saudades". Mas ele via nelas toda a volúpia necessária para recriar-se uma expectativa de um relacionamento, para resgatar todo o amor que ele produziu e que foi por ela reprimido e bem que elas poderiam ser traduzidos romanticamente para "Estou querendo ver-te". Silenciou seu pensamento. "Que estou fazendo novamente comigo mesmo?", pensou. "Não me basta a morte para aprender que ela não mais me quer?". Levantou da cadeira irritado com seu pensamento de amor ou por tê-lo reprimido. "O homem sábio é um homem burro", falou em voz alta enquanto catava os cacarecos que estavam atirados na varanda. Pegou do chão o sacrossanto Márquez e entrou novamente em casa com a promessa de continuar sua leitura. "Se não posso suportar minha própria história de vida ao menos entretenho minha melancolia com as aventuras de outros". E mergulhou na literatura.

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26.2.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Soneto de incentivo à Mingo e Lua
Gabriel Silveira
Fiz este pequeno soneto como forma de incentivar a mim mesmo e à minha querida amiga Lua, em um email que troquei com ela. Agora posto-o como homenagem à Chris.


Na escrita do livro onde a vida é personagem,
escreve-se com alma, atitude, coração.
E nas paisagens escritas que pincelamos com alegria
vemos que nada em nossa natureza é em vão

Quando o céu azul pinta-se de luz
e faz da aurora apaixonada uma memória,
douram-se campos do fascínio com volúpia
encenando com prazer o que já é história.

E se a nostalgia hoje escreve nossas felicidades,
minha de Literato, perdido, e tua de Lua, que brilha magia,
vamos aproveitá-la com a façanha de amar o vento
e contemplar a história, perdendo-nos em alegria.

Faça do teu dia, minha querida,
tu que és distante mas tão igual,
um capítulo a mais em tua nobre vida

Faça do teu dia, sem mal,
mais uma página para ser lida,
mais uma flor linda em teu quintal.

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25.2.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Devaneios do alto mundo
Gabriel Silveira
No alto mundo, onde os verdes iluminam-se com a alegria das estrelas, não há forma inabstrata. No alto mundo, onde as cores dançam entre si divertidas em seu mundo remido, a sensibilidade é ponto de partida. No alto mundo, não há escuridão pois não há concretude. A luz simplesmente cruza os seres com sua sabedoria eterna formando desenhos da imaginação infantil. No alto mundo, os ventos deliberam sobre o coração e as almas plasmam belezas infinitas da magnificência divina. No alto mundo mais há do que falta. No alto mundo, o que é não se mostra, e o que se mostra nunca é. As gaitas deslumbrantes, perdidas na harmonia cintilante do amor profundo, deslizam por sobre as montanhas cheias de neve que observam os vales floridos de paixão. Não há tristeza e a melancolia é ausência do passado. As lacunas estão completas no alto mundo. Por que a mim é concedida a graça de ver estes mundos? Que sofrimentos meu coração passou para que agora eu adentre estes campos do florescimento natural? Que chagas carreguei para agora ousar contemplar teus mundos etéreos? O umidecer sereno das flores de virtude na beira do riacho da saudade me dá respostas e eu choro juntamente com suas pétalas divinas confortadas pela onipresença da sabedoria. Olho para trás e vejo entendendo. Há de se compreender as dores. Há de se engatinhar nas sombras. Há de se perverter nos antros. Há de se perder nos mundos da paixão. Para, somente aí, contemplar a magia do abstrato; a harmonia do sonho infinito; a pureza da vida eterna que existe no alto mundo.

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22.2.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Sobre insistência
Guilherme Lazzaretti Póvoas
Eu. Esta pessoa ainda imatura, insegura e esperançosa. Eu. Pois, este confiante em si, estava. Eu. E como mais nada pudesse ajudar, nenhum outro recurso, senão eu.

A insistência de ter alguém ao lado. Quando acordei, depois de uma madrugada cuja qual ainda não me lembro se mais lia Scliar ou dormia sobre o livro, pensei no almoço. Não exatamente no almoço como comida, mas sim na companhia. A mais desejada de todas. Ligação, troca de conversas. E o almoço, mais uma vez, irá ser apenas comida.
A insistência do tudo poder. Pois trato de arranjar dinheiro para o cinema. Promessas para todos: depois das férias, voltarei a trabalhar, ganharei dinheiro, e devolverei tudo. Se acreditaram, não sei. Mas pretendo restituir a todos: 20 reais e um carro para a sessão da 18h.
A insistência do vazio. Em Porto Alegre pode-se dirigir de olhos fechados. A cidade continua alegre, mas o conteúdo é o nada. Todos viajaram. Creio que na sala do cinema estaremos apenas nós dois, o rapaz do projetor, e talvez um casal de idosos, que vieram ver este filme mais pela comodidade do horário do que pela arte da película.
Porém, se toda insistência não vingar, simplesmente me resignarei. Neste carnaval, limito-me a mim. Eu. Mesmo acompanhado de um escritorzinho judeu gaúcho laureado pela mídia.

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17.2.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Noites em Nietzsche
Gabriel Silveira
"O homem se comporta involuntariamente nobre, quando se habituou a nada querer dos homens e sempre lhes dar". Foi assim, citando Nietzsche, que ele terminou sua carta de despedida. "Não há razão alguma para que o sedento aventure-se no deserto quando pode viver em um oásis", convenceu-se. Pedro Paulo era um grande pensador, um filósofo guarnecido de armas mentais poderosíssimas sortidas por fontes inesgotáveis. Entetanto, aos olhos macetados da sociedade moderna, ele era um vagabundo, um tolo e, portanto, um desempregado. Na última noite, sua mulher Débora havia lhe dado um ultimato, "Ou arranjas um emprego, ou eu arranjo um novo marido. Não há mais como sustentar-te a vida inteira". Nesta manhã que agora descerrava-se no horizonte, Pedro Paulo resolvera ir embora, libertar Débora do sofrimento que seu modus vivendi lhe trouxera. Há doze anos atrás, quando casaram-se, ela estava encantada em ter ao seu lado um grande pensador, um empreendedor das idéias. Ela não ponderou as inúmeras dificuldades que um marido de grande espírito lhe traria. Acreditava ter tudo em suas mãos. "Mas o tato é o mais traiçoeiro dos sentidos", disse Pedro em voz alta. Esta frase era de sua autoria, estava em seus "Escritos caminhantes, parte IV - Erga Omnes", um de seus livros nunca publicados. Dobrou suas poucas roupas e lhas deu conforto no fundo de uma pequena bolsa verde musgo. Colocou sobre elas, seus livros preferidos, priorizando abranger diferentes correntes, Nietszche, Leibniz, Voltaire, e outros. Pensou um pouco e retirou-os. Colocou os seus e somente após as edições dos grandes mestres. "Eles estão muito acima de mim", ponderou. Com uma volúpia e um ânimo surpreendentes em uma homem precocemente enxotado de casa, retirou-se do quarto, passou pela sala saiu pela porta, sem deixar de pegar o pequeno bornal com suas últimas anotações e trabalhos. Qualquer outro homem, em seu lugar, talvez se resignasse à ficar em casa e, tal qual uma galinha garnisé, proteger seu alimento diário. Ele não. Nada fizera de mal para Débora e não era, nem nunca havia sido, sua intenção explorar o seu trabalho para poder viver em sua "contribuição à humanidade", como sempre repetia. Mas, a facto ad jus non datur consequentia. Não é necessário relatar os pesadelos que infernizaram a pobre Débora ainda por muitos anos. O inteligente leitor, já deve ter entendido a posição da pobre mulher que tinha em seus olhos uma visão limitada sobre o mundo abstrato que há sobre nossas vidas. Ela não era, de modo algum, uma mulher má. Afinal, não é algo simples o entendimento de grandes espíritos como o de Pedro Paulo. Ele nascera para pensar. E ponto.

Pedro Paulo foi até a pequena ponte da Ribeira, à saída da cidade, ousando um discurso empolado à sua alma, como se tentasse encontrar coragem na prosopopéia que autodesferia contra seu coração. Encontrou. Quando o barulho dos carros da rodovia já lhe ludibriavam a mente, adentrou um pouco o campo que se estendia à oeste e pôs-se a meditar sobre a vida, acocorado no pasto ralo. "Causa cognoscitur ab effectu" e deitou-se. O crepúsculo nunca lhe pareceu tão profundo. O dançar solfejante dos pássaros negros em harmonia com a escuridão; o vibrar silencioso dos sulcos divinos escorrendo às extremidades do mundo; a rouquidão disforme dos grilos ansiosos pela noite; tudo lhe foi divino naquele dia. E à noite, quando os medos reluzem à sua própria heterogeneidade, ele silenciou à imensidão de seus pesadelos. Seus olhos semicerrados fitaram sua vida por toda a noite. Ao seu lado, Virgílio lhe auxiliava em seus pensamentos, preparando-o para a libertação. Foi quando Pedro Paulo fez vivaz seu olhar para a madrugada que Virgílio, em luz resplandecente e magnifícia lhe disse, "Vem companheiro, aos espíritos livres, reservamos livres mundos". E desapareceram à visão da matéria.

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16.2.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Sobre lendas e destino
Guilherme L. Póvoas
Domingo. Dezenove horas e vinte e três minutos. A mais luminosa criação de Deus começa a cair, a desaparecer no horizonte. Um casal de jovens neófitos ainda no pintar o sete da paixão, tenta lembrar-se do estrondo das ondas da praia escutando o rio, que acompanhado de pouco vento, estava a parecer mais uma piscina com silenciosas crianças brincando. O crepúsculo do fim de dia começava a despertar a atenção. Os olhos curiosos, procurando provas da Divindade, observavam o show único do astro-rei: rodeado por nuvens, o pôr-do-sol era a imagem ampliada da bandeira de guerra japonesa. Os samurais nunca estiveram tão perto.
Carinho, beijos, anseio. E uma pergunta estava pronta a estourar da boca do rapaz. Pois bem, o beijo não deveria se acabar. Ao homem, sobrava-lhe vontade, porém faltava-lhe coragem para questionar. Quantos já se sentiram assim, tal qual? Os lábios então se separaram. A coragem, agora, sobrepôs-se à vergonha de nada dizer. O jovem não queria parecer afobado, pois não é certo atravessar a linha natural, o tempo. Também não lhe apetecia parecer receoso, pois deixaria a transparecer insegurança. Tão pouco mostraria o medo, cujo qual nem o demônio atreveria aproximar-se. Assim, com as árvores a farfalhar, com as gaivotas a rastejar pelo véu irrequieto da água, o namorado questionou a moça, que ainda encontrava-se embebida pelo ósculo ensolarado:
- Isto é para sempre? - indagou o homem, olhando para os últimos braços da maior bola de fogo.
- Se te referes ao sol, eu não sei. Mas nós, juntos, somos para sempre. E morreremos um com o outro, feito a honra dos antigos samurais.

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14.2.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Sobre o amor sacro
parafraseando García Márquez
O que se via já não era mais amor, e sim vício. Sérvia fora criada para não amar, não ser amada. Mas para obedecer e servir. Ainda criança, divertindo-se com cantigas junto ao seu pai, perguntou ao velho:
- Papa, é verdade tudo isto que estas músicas dizem, que o amor pode tudo?
- É minha filha, mas é melhor não acreditares - respondeu, precavido, o homem.

Guilherme Lazzaretti Póvoas
E se o amor é envolto por demônios açoitantes que fazem como Cristo, dando a outra face ao tapa, mas também revidam, feito Talião, com uma intensidade muito maior, o que resta se não esperar o sempre chegar ao fim?

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12.2.04<$BlogDateHeaderDate$>

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No caminho do que há
Gabriel Silveira
O pé enchinelado pela sujeira deslizou seco na pedra barro da frente do barraco. Reinaldo, oito anos, cara e corpo de moleque, coração e alma de homem, deixou a escuridão fedorenta do pequeno cômodo de madeira e papelão, mais deste do que do outro, em que morava com sua mãe e seus seis irmãos, todos mais jovens que ele. Não olhou para trás. Suas mãos negras, já ranhuradas pela vida de desapego forçado, ergueram-se até os olhos, secaram-lhe as lágrimas que do lhe brotavam. Parou por alguns segundos até "engolir o choro", como sua mãe dizia. A tristeza era consequência da pobreza e da fome. Não a dele. Reinaldo sofria era de ver seus irmãos menores aos berros com suas barrigas inchadas de vermes, suas mãozinhas secas de desconforto, seus olhos marcados pelo ódio que a dor traz, sempre. "Esta pobreza é uma prisão disfarçada", ele ouvira seu pai dizer um dia antes de morrer. O "velho" morreu com 29 anos. Fazia entregas de baseados, "o melhor vendedor que esta favela já viu", diziam Roger e Seu Odonis, seus colegas de "serviço". Sua mãe dizia que ele "vendia a alma, fazendo o que fazia", Reinaldo acreditava. O tun-dum-tun-dum anunciava agitação na casa da velha Maria Doce. Ele correu no ritmo dos apitos, cuícas e reco-recos que cantavam alto. Na escada curta e curvada ao lado do barraco de Dona Ionice, quase caiu. Seguiu firme e, à medida que o vento cortava-lhe o rosto, secando-lhe as lágrimas sem limpá-las, ele abria um sorriso, lhe confortava saber que a natureza não o abandonara. Quando chegou no samba da velha Maria Doce encontrou meia-dúzia de amigos que lhe entreteram até a noite com brincadeiras e aventuras supra-reais. Quando o meio crepúsculo jogou sua benção sobre os cortes distintos e quebrados dos barracos, ele decidiu voltar para casa. Entretanto não gostava do pensamento de ter que suportar aquela visão novamente, seus irmãos urrando de dor, com seus pequenos estômagos sendo engolidos pelo tempo que caminha sem olhar para trás. "Amanhã te encontro no asfalto, três horas", gritou Jeninho, seu amigo desde a infância. Reinaldo não respondeu, só virou para o lado de casa e seguiu caminhando. Seus passos ficavam mais lentos a cada metro que se aproximava da madeira fúnebre, do palácio fatal. Era como se ouvisse, só de olhar para a água que corria ao lado do barraco, as palavras soltas "dinheiro", "fome", "dor", "morte". Uma voz que não fazia parte de seu transe, lhe atingiu "deixe-me ir, preciso andar, vou por aí à procurar, vou rir prá não chorar". As palavras semearam a emoção no carranco sério que lhe dominava a expressão. "Vou rir prá não chorar, se alguém por mim perguntar, diga que eu só vou voltar, depois que me encontrar" continuaram. Era seu Odonis, velho companheiro de seu pai, tinha mais de 40 anos, uma raridade entre os homens da favela. Foi até ele e deu-lhe um abraço. "O que foi? Por que esta cara?", perguntou-lhe o velho ancião. Ele não respondeu. "Tome aqui, já passei por isto", falou dando-lhe uma nota de dez reais. Reinaldo sorriu e correu para casa. Antes de entrar no ambiente escuro que mais parecia um túmulo, de onde nunca mais poderia sair depois de entrar, ainda ouviu o velho cantar "A alvorada lá no morro, que beleza, ninguém chora, não há tristeza...". Reinaldo sorriu e decidiu, "amanhã começo a trabalhar com o velho Odonis". Entrou e perdeu-se no escuro.

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09:16, e só
Gabriel Silveira
Passei cedo por este caminho tão maculado pela melancolia poética, pela sofreguidão dramática da literatura, pela sinceridade quixotiana da paixão desenfreada pela vida. Neste cedo, onde os azuis do céu despido de cinza e negro são espelhos da artimanha dos mares, eu penso em revoluções de contexto, amizades distantes mas tão plenas, facilidades tão longe de meus braços. Quando o pestanejar sonolento de minhas mãos cansadas ficam mais raros, eu fortifico-me. As articulações ruidosas, barulhentas em sua vulgaridade de mecanismo material, são, agora, conforto de escravos da alma. Na vibração índiga do céu terreno encontro inspiração, corrompo barreiras entre concreto e volátil. Na dureza das teclas mal disfarçadas de caminho, desfaço-me em letras bobas sem sentido, apenas para escrever sem medo. Sou letras duras em terrenos pálidos. E as páginas se vão, se vão, como fatos inesperados catalogados em jornais da memória de uma sociedade míope e incompleta. Ainda lembro de um pequeno poema que fiz no futuro. Agora revelo-o a mim mesmo:

Dance, dance na poesia
pois não há, fora dela,
vida alguma de alegria

Os que resignaram-se à forma
hão de ficar sem o conteúdo
e tudo que só a magia contorna

Dance, dance na poesia
pois não há, fora dela
amor algum sem agonia

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Última voz para o sempre
Guilherme Lazzaretti Póvoas
Cruzada. A primeira. Segunda parte do ano de 1099. Os cristãos, sobre uma cavalgadura armada até os dentes, infligiram guerra contra os muçulmanos na Palestina, com o objetivo de "limpar a terra santa". Aqui vamos nós, de novo.

Hassam era o almuezem (homem encarregado de fazer o chamamento à oração) duma pequena mesquita em Jerusalém. Pouca gente costumava freqüenta-la. Todos optavam por ir à sagrada de Al-Aqsa. Mas ele, como responsável pelo santuário, permanecia, para quem com ele quisesse orar.
Era sexta-feira. Dia em que todos os muçulmanos, religiosamente sob pena divina, devem se dirigir à mesquita para orarem, juntos, a reza do meio-dia. Hassam havia comido o tradicional pão-árabe com um pouco de azeite que ainda restara. Devagar, se lembrando da morte a cada passo que dava, tal qual a religião islâmica recomenda, se dirigiu à sala de banho da mesquita. Com uma calma que a idade dera-lhe (ou impusera-lhe) ele escovou os dentes. Encheu o balde com mais água, fazendo a ablução. Lavando-se para purificar o seu corpo. Primeiro as mãos, a boca, o nariz. Depois o rosto, molhando a velha barba branca cuja qual ele apalpava durante as leituras do Alcorão. Limpo, enfim, para entrar na área de reza da mesquita e fazer a aclamação. Sentados no tapete escuro, encontravam-se cerca de 30 muçulmanos, tendo aula com o xeique local, que daria o discurso da oração do meio-dia, cujo assunto era a "Jihad: esforço contra os cruzados. A batalha eminente".
O almuezem olhara para o sol através das janelas arqueadas do santuário.
- Achra? - perguntou-lhe o xeique,
- Naam - afirmou Hassam com a cabeça. Estava na hora da oração.
Na pequena mesquita não havia lugar específico para o chamamento, diferente das outras sobre as quais o almuezem costumava comentar quando caminhava por Jerusalém: "Que belas, graças a Deus". Posicionando-se frente a todos fiéis, ele levou a mão direita à orelha, tapando-a com os dedos. Ergueu um pouco a cabeça para cima, todos deveriam ouvir, os anjos agradecem. Sua voz doce e ao mesmo tempo rouca ecoava pela sala:
- Allah´u Akbar, Allah´u Akbar! (Deus é o maior) Allah´u Akbar, Allah´u Akbar!
Ao fundo, os muçulmanos repetiam as mesmas palavras, solfejando do fundo do coração. Pela janela sempre se viu areia fazendo um balé com o vento. Nesta sexta-feira, porém, seria diferente.
Ainda durante o chamamento, a mesquita fora invadida por 12 cavalheiros imponentes e esbeltos. O islâmico mais próximo da porta era um rapaz, dos 15 anos não passava. Fora o primeiro de todos fiéis a sentir a lâmina quente e grossa da espada cristã entrar no seu peito, levando-o à morte justo no lugar mais cheio de vida em todo seu corpo: o coração. De então, iniciou-se a gritaria. Corrida brusca para a fuga por parte de alguns, a jihad para a eternidade, conforme havia dito o xeique alguns minutos atrás, para a maioria. A próxima vítima cruzada seria justo o xeique, que pela roupa trajada e a face de sábio culto, chamava mais a atenção: a cabeça mais inteligente da mesquita caíra no chão. Dentre os muçulmanos não havia um soldado, armador ou arqueiro. Tudo durou menos de um minuto, ninguém conseguiu fugir. Quando os gritos acabaram, ouvia-se algum som além dos relinchos dos cavalos europeus:
- Allah´u Akbar, Allah´u Akbar! Lé Ilaha Ilallah! (Não há outra divindade se não Deus).
Hassam havia continuado o chamamento, não mais para a oração, mas sim, agora, para a sua vida eterna. Antes de virar-se para os cruzados, ele lembrara-se de quantas aclamações iguais a aquela já fizera. Recordou também o dia em que o profeta Mohammad tomou a cidade de Meca, sem derramar uma gota de sangue e pediu a Bilal, o negro, para fazer o mesmo chamamento na mesquita sagrada, sob os olhos racistas, vingativos e odiosos da tribo árabe de Coraix.
A espada foi erguida e a lâmina refletira o sol, que naquela sexta-feira seria mais vermelho.

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A dança literária das cadeiras
Gabriel Silveira
Ela levantou-se devagar. Ele percebeu. Ela virou-se e pausou. Ele a fitou. Ela caminhou com ritmo. Ele sorriu. Ela foi à frente, fez-se caminhante e adentrou o bar sem hesitar. Ele titubeou por um, dois, três e alguns mais segundos. Ela lá dentro. Ele aqui fora. Ela lá dentro. Ele de pé, corajoso, pôs-se caminhante e adentrou o bar. Ela Julien Sorel. Ele Dom Quixote. Nenhum George Samsa. Os dois Romeu e Julieta. The End.

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Cinza
Gabriel Silveira
O cinza saltou do embassado pleno em que vivia. Gritou, "que viva o azul" ousando libertar-se e foi aceito no mundo da virtude, transformando-se em sabedoria. E, desde então, o cinza é visto como beleza pelos que enxergam mais do que matéria no que há.

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Espíritos livres
Gabriel Silveira
"Fartos de comida, esfomeados de moral", esse foi o comentário de Brida que, silenciosa, observava a dúzia e meia de fidalgos que contemplavam uns aos outros em troca de favores e abraços políticos. Ela, atrás da elegante copa de mármore branco em seu traje branco de serviçal, encantava-se ouvindo as conversas dos nobres materiais que carregavam medalhas e fitas azuis, mas que eram ignorantes em seus ceticismos bobos. Ela, submissa ao dinheiro mas soberana à cultura, lembrava, às gargalhadas internas, o recente Voltaire, os enciclopedistas e Horácio, conhecimento herdado de seu pai. Quando acordou de seu transe pobre, grande parte do imponente salão já estava vazio. Alguns aspirantes políticos e eclesiásticos ainda rondavam as mesas cheias de grandes espíritos da política e do clero. Deu lugar à companheira serviçal que, certamente, veria no salão um sonho de consumo e não um pesadelo da realidade como via Brida. "Falta-lhe astúcia", pensou, depois encaminhou-se à porta de madeira nobre e escura que dava para os fundos do palácio. Sentou-se por um momento na grama molhada da noite e ficou a observar as carruagens ornamentadas com ouro e rancor, carregando homens e mulheres perdidos no mundo dos interesses e do poder. Sorriu. "Eu não ostento meu poder", pensou e caiu em gargalhadas imensas e solitárias, à escuridão da noite, ao seu esconderijo nas costas do castelo, onde não havia ricos e pobres, somente a natureza plena em sua criatividade. Ali ficou, sorrindo, debochando de sua pobreza imensa e de seu contrastante espírito livre. No outro dia, as nuvens sorriram azuis e o dia acenou com o amarelar da aurora. Ela acordou em seu pequeno quarto que compartilhava com outras duas empregadas, sentindo-se livre. Ela não sabia, mas este tipo de liberdade de espírito, esta leveza interior, não é bem vinda em serviçais. Foi feliz àquela manhã na qual brotava a tarde que traria sua morte. Após servir o almoço e lavar as botas e as esporas de ouro de seu Senhor, retirou-se ao seu quarto. Então cohilou. No seu sonho, encontrou um homem lindo de vestes azuladas. Os ombros bem postados e os longos cabelos dourados vertendo até a metada das costas, levaram Brida a pensar que ele seria um anjo. Ele lhe disse:
- Querida, você é um espírito livre. Agora sim, querida, você é um espírito livre. Você pode, agora, minha querida. Chegou uma nova era, contemple a imensidão de seu próprio mundo, o mundo dos espíritos livres.

Brida nunca mais acordou no mundo da matéria.

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9.2.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Donde o vento vier
Guilherme L. Póvoas
Eles casaram-se hoje. Uniram laços de responsabilidade e liberdade para todo o sempre. "Até que a morte desuna-os", alguém havia dito durante a cerimônia. Pouco tempo passou entre o beijo primeiro e aquele na festa, diante do religioso, que os acorrentava à verdade:
- Dona, me dá um beijo - murmurou o jovem, puxando-a para perto.
- Venha aqui, ainda mais junto, pois o calor inicia no beijo, mas deve se propagar ao resto do corpo - retrucou a Dona.
E do encanto, fez-se magia à matéria. Foram dois, três, quantos mais meses terá de durar até a certeza perpetuar? "Não muito", viria ser a resposta do tempo. Ao fim do 159° dia, uma aliança, alguma conversa, e outras cervejas mais sendo sorvidas pela goela dela: nervosismo, insegurança, pessimismo, presentes, vestido. Ele teria que usar terno com aquela gravata que só embeleza gordo, ou melhor, apenas o Jô Soares.
Confiança não, mas uma fidúcia pertinente tomava-o. Desde o primeiro encontro, a certeza obstinada do rapaz declarou-se eterna, um casamento, ao menos uma vez, a chance de constituir família, ver, orar, chorar com todos, sendo aquele que chamam de pai, feito uma plataforma arquitetada à mão de gênio, mas esperando um humilde engenheiro interiorano traze-la para realidade cotidiana. Ao tanto, na noite fria que se aproximava, o jovem apaixonado pela Dona, trajado (à falta apenas da gravata) olhou em torno de si. O vento lá fora consegue levar coisas que jamais poderiam mudar, posições, ideologia, paixão, fé, fome, porém, e nos é verdade peremptória, os sentimentos que não entram na caçamba do vento permanecem trancafiados sob nossos corações e, do próprio vento, fortalecendo-se.

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Samsas
Gabriel Silveira
Tendo encontrado o amarelo ao sol e o azul ao céu, só lhe faltava o rubro para começar o dia na tonalidade que bem entendesse. Por isso, na esquina da XV com a Júlio, pegou à direita, buscando a padaria que adorava nos fundos da galeria Oscar Niemeyer. "A arquitetura não faz por merecer o nome", pensou. E não fazia mesmo. Era uma destas pequenas galerias que tentam renovar suas faixadas quebrando todo o uniformitarismo e o balanço que o design do começo do século passado prezava tanto. Em passos lentamente medidos chegou até à porta da pequena Padaria Kafka. Este nome, que a tantos já seria razão suficiente para tornarem-se clientes do lugar, a ele nada importava. "Que porra de nome é esse?", foi o que pensou na primeira vez que viu aquela faixada mal pintada em estilo construtivista, coisa que também desconhecia. Mas o que importava realmente para o nosso herói era que ali, naquele café, naquela manhã em que buscava o rubro para completar-lhe a trama colorida, naquela vertente em que engembrava sua força corrente da madrugada silenciosamente bem dormida, veria a deusa que havia transformado suas duas últimas semanas em sonhos permanentes de fervor apaixonado; haviam feito do homem cético e frio que sempre fora, um Dom Quixote de carteirinha e militância. No trabalho, passava os dias contemplando a janela que lhe mostrava as ruas cheias de sonhadores e céticos, pessoas como ele é e como ele fora. Entrou no café sentindo o piso de lajota vermelha levemente úmido sob seus pés. Olhou o relógio grande e de design moderno atrás dos atendentes no balcão: 7h47, faltando, exatamente como ele prevera, três minutos para que ela viesse buscar seu café levemente mentolado e sem açúcar, os três pequenos biscoitinhos amanteigados, sem esquecer os dois guardanapos dobrados como leques e a bala 7 belos, certamente para tirar o sabor forte que o café deixa na boca dos melancólicos viciados na soturna rotina de cafeinar-se todas as manhãs. Ele sentou-se à mesa do fundo, escondeu-se atrás da fumaça de um cigarro e pôs-se a fitar o relógio que ainda encontrava-se no mesmo lugar mas que olhava-o de um modo diferente, mais nervoso. Colocou o açucareiro para o meio da mesa, como se precisasse de mais um esconderijo. Seus dedos ficaram adoçados, seu olhar também. 7h50 minutos. Ele hesitou em sua respiração. Da porta, um vento cheiroso e ludibriante entrou sem esquivar-se à beleza de Picasso e Dali que sentavam à altura do olho dos mortais nas paredes de gelo. Gelou-le a alma. Imagine, prezado leitor, tamanha a muralha de admiração que pode um homem construir, tendo como inspiração somente o superficial de uma mulher explicitamente linda, como a seguir iremos especificar, mas sem ter, ainda, conhecimento de toda a profundidade intelectual e moral que poderiam habitar sob os negros cabelos que lhe brotavam maciamente da cabeça; sem saber, ainda, do puro e adorável coração que o busto, engrandecido pelo grande decote, escondia roubando-lhe a atenção. Nosso herói quase faleceu passionalmente quando ela adentrou o ambiente com suas longas e fortes pernas, a meia-calça valorizando-lhe as formas, a saia valorizando-lhe as nádegas, o delicado cinto valorizando-lhe a mínima cintura, tudo ali era valorizável. Ela postou-se à frente do balcão enquanto ele a seguia harmonicamente com seus olhos arrogantes em desejo. Convenhamos que a tentação que o momento lhe rogava não era das pequenas, ao contrário, era quase surreal. Um momento de tal forma descrito por nosso amigo em seu ambiente de trabalho que, se ele dispende-se algum segundo de sua atenção para algo que não fosse sua Deusa, veria dois ou três novos adeptos frutos de sua apaixonada explanação. Ela virou-se deslizando suavemente o sapato preto, já com seu pedido em mãos, e tomou o caminho da porta. Ele, literalmente um boca-aberta, ousou levantar o traseiro da cadeira como se buscasse segui-la. Faltava-lhe coragem. Depois correu até a porta e fitou-a até que ela parasse na entrada da galeria com seu porte forte e magnífico de rainha absoluta, olhasse para ambos os lados e saísse carregando toda aquela carga sensual que lhe derivava do corpo esbelto. Olhou novamente para o relógio, 7h54. Entrou, tomou o pequeno copo de água que ainda o esperava sobre a mesa e recostou-se na cadeira como se uma ressaca nervosa o invadisse. Então levantou-se, deixou duas ou três moedas sobre o balcão, pensou no trabalho e no inferno que lhe esperava naquele escritório abafado e cheio de vermes prepotentes. Depois saiu com passos rápidos pela porta e foi seguido por seus colegas até entrarem novamente, hesitantes e medrosos, na realidade cruel.

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Talvez não importe
Guilherme L. Póvoas
Talvez não importe o cotidiano, com suas constâncias infindáveis. Pois não adianta firmar-lho na agenda. Talvez não importe a mudança. Pois não é meritória a pessoas incapazes. Talvez não importe o calor. Pois é o vento intocável e abstrato que nos muda o coração. Talvez não importe a fragata. Pois é da maré que se carregam as vontades. Talvez não importe o infinito. Pois do que temos à mão, fazemo-lho infindável. Não importe talvez, o não.

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Na balada do inabalável
Gabriel Silveira
O colorido fundiu-se em cinza aos olhos de André. Teria ficado cego? Os próximos três segundos foram reveladores, como todo o futuro o é, e levaram a pequena nuvem de alcatrão à viés, clareando seu fitar horizontalizado. As múltiplas cabeças, perambulando em meio à meia-luz, como zumbis irrefreáveis em sua crença, lhe testavam a harmonia como se ele, ali, fosse o diminuendo de uma grande matemática inabstrata, como nunca, ou quase nunca, é. Os ritmos e ânsias sincopados em música eram-lhe homeopatia, mas a ela não havia qualquer tipo de restrição cética. Ele sorriu da cegueira momentânea, debochou da situação em que se encontrava e continuou a contemplar a festa que mostrava-se plena em alegria mas tão carente de moral e aprendizado. Ele estava bem, sempre respeitou as diferenças de opinião(sempre?) e era isso que lhe dava segurança suficiente para ser somente ele naquele lugar. Não era preciso mudar, era preciso, como sempre, ser sincero. Ele, que gostava de auto denominar-se um glutão da literatura, agora pincelava horizontes a partir de análises breves e simpáticas das pessoas que lhe cruzavam os olhos com suas cabeças menores que seus cérebros, suas roupas mais bonitas que suas almas, com suas vontades mais expostas que seus corações. Então, em um despautério de honestidade com sigo mesmo, silenciou incisivo e rubro. O ruge esverdeado das luzes contemplaram sua harmonia, lhe ensinaram virtudes de outro plasmas, e as dimensões que lhe habitavam foram advérbio à seu infinitivo de ousar levando-o a calar-se frente ao mundo que nada queria dele no momento. André contemplou seus próprios olhos, sua própria vida e, em um egoísmo corrupto mas belo em sinceridade, morreu acordado e feliz. Quando abriu os olhos, o pingar clepsídrico do sereno da noite lhe umedecia as pálpebras pesadas da viagem. O farfalhar risonho das árvores saídas de algum Érico lhe enchiam a alma de maleabilidade. Levantou-se e sorriu aos que acompanhava. Deu-lhe o silêncio de sua virtude buscando o harmonizar de antigos erros e a negação de alguns futuros. O crepitar das folhas sob a roda do carro lhe sopraram a alma e assim todos os outros sons ou ruídos da matéria que lhe parecia tão distante. Ele respirou fundo, abicou do abstrato, "por agora, por agora", e resignou-se ao convívio da matéria pensando em quando chegará o dia em que partirá para compartilhar da energia suprema que nos aguarda em outros campos. Desvirtuado, conformou-se com a visão bela das múltiplas cores, não mais cinzas, da natureza doce, mãe absoluta dos não cegos.

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Que Deus tenha piedade dos que vivem sem imaginar
Gabriel Silveira
E então ele caminhou até o topo do viaduto que lhe rememorava o que não mais será e disse-lhes, Todos que vivem na concretude da matéria e abstém-se de embelezar o mundo e a natureza a partir da abstração e da consciência, estarão no caminho mais longo e penoso, ao passo que aqueles que, através da harmonia interior e da capacidade de explorar o campo psicossomático embelezando o mundo e seus degraus, estes sim, terão entrada livre nos campos verdes da casa do Senhor.

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4.2.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Telefone, livros, mp3, sexo, rock, desespero e outras coisas que muito bem procuradas se encontram por aqui
Guilherme L. Póvoas
Que Deus tenha piedade daqueles que vivem de imaginar! E que audácia permite esta imaginação. Pois atrevo-me a exagerar nas ações, nas previsões e ressentir. Baixar os olhos, porém levantar a cabeça. Urgindo de um cerne recessivo, onde o pessimismo reina e a precaução cautelosa e insegura é chamada de carrasco, veio a minha luz. A esperança. Doravante voei, meus olhos ergueram-se então, rentes e vistosos. Mas junto a ilusão. Resigno-me. Procuro algo entre as paredes, esperando o telefone tocar. Toque! Não demore a chamar-me. Pois se os homem de verdade vão longe, merecem receber um prêmio milhagens, por horas de vôo. Que prêmio este é? Estou confirmando com o coração, reiterando (mas sem coragem para respaldo) a voz sincera e provida de expectativa do paraninfo José Saramago, Que Deus tenha piedade daqueles que vivem de imaginar!

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Mais do mesmo
Gabriel Silveira
Ah, doce melancolia por que escolhestes a mim para teu companheiro? Logo eu, que fraco de corpo e simples de alma pereço em teus campos de batalha, arrastando-me entre outros moribundos, meus irmãos de sofrimento e cruz? Por que não acolheste em tua escuridão o que imponente se mostra; aquele que, seco de sentimento e ignorante do coração, soterra o que já é profundo, esmaga o que lhe parece sensível? Deste a mim a honra de tua presença quando a solidão já me é bastante presente? Deste a mim a sombra de tuas árvores secas e soturnas quando a noite já abarcou-me chamando-me de filho? Dá-me ar, querida melancolia, diz-me que vai embora com o vento que cruza-me o peito; conta-me da viagem que planeja para corações distantes e estrangeiros à meu mundo. Ah, profunda e adorada melancolia que me faz poeta, por que me amas com tanto ardor, este amor de um que dá ódio ao outro por sua adoração sem fim? Acabarás por matar teu amado ou simplesmente por sacrificá-lo vivo em corpo, alma e tempo em tua eternidade paralela e indecifrável. Toma teu rumo, melancolia bela, pegue o primeiro trem para as estações do futuro e me liberta por hoje, somente por hoje, para que eu respire em paz sem tua presença deslumbrante, virtuosa e inesquecível. Vai e me condena ao passado, vai maldita.

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2.2.04<$BlogDateHeaderDate$>

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A noite de um literato
Gabriel Silveira
São 6:27 da manhã de segunda-feira. Estou acompanhando o crepúsculo que esbanja autoridade anunciando a chegada do dia como o clarín da manginificência do Um que ilumina a todos. Contíguo a mim, ele me orienta, como a noite fez aos meus textos que despejei. Escrevi um belo e grande conto esta noite. Um livro. É, pode-se dizer que sim. E o crepúsculo vai permitir-me dormir feliz agora, tranqüilo de ter completado minha missão de jovem escritor, Dom Quixote das letras. Arranco-me a côdea de minha personalidade que só vestirei novamente ao acordar e repousarei em pureza de instintos, faminto de sono. Será que um angorá virá irritar os cães pela manhã? Será que acordarei ao som desesperado de suas raivas humanas? Que o faça, que me acordem e mais eu viverei para contar. E como a noite mostrou-se sábia guardando-me os segredos do dia, jogando com minha não autoridade como fazem os padres com seus coroinhas exigindo-lhe deles o que os próprios não ousam ter, farei de mim um corpo morto para que meu espírito viaje em sonhos distantes até o outro dia, a outra vida, um novo acordar. Até logo e boa noite.

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1.2.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Protelanismo poético na comédia do não-divino
Gabriel Silveira
"Alguns bebem para esquecer", disseram. Dorian pensou que talvez não bebesse, portanto, para alimentar sua nostalgia, último baluarte de sua martirização em vida pela esperança. No silêncio incessante das conversas que não ouvia, rememorava bons momentos, propugnando sua batalha poética, efusivo em sua retórica interior. Do cabineiro simples retido à obrigação concreta do alimentar-se, sugava a dor, transformando-a em versos burros que se perdiam para sempre no vento sepulcral que lhe arrancava as palavras secas. No chão gelado, o mármore fajuto imitava ruelas de alguma cidadela da fantasia harmônica em sua desarmonia. Rogava plágios aos criadores enquanto as raparigas cruzavam, com o ruge exagerado estampado à face, em tentativas somáticas de manter-se acima do odor de excremento humano que sempre assomou as grandes cidades. Ser poeta é carma na eterna cacofonia que rege a vida, poetisou. O cinzeiro, com repousos apenas de um lado, como se quisesse trancafiar à escuridão o que de bom já desfez-se em cinzas, lembrou-lhe que era livre, era único. E que a única desvantagem de ser livre é a necessidade de usufruir dessa liberdade. E isso não é fácil, pensou hesitante. Sentiu o gosto do alcatrão no dédalo noturno em que havia se perdido e notou-se em um plêiade divino rodeado por Virgílio, chefe, ali, de tantos outros que o seguiam. Uma luz piriforme, abarcada à viés do poeta grego, parecia chamar, como um imã, o talento feito ferro dos discípulos versadores. Ele, incluso em campos que não lhe permitia à vontade sentir, solto como folha à uma tempestade devastadora de força e sabedoria, ousou triar o que a ele devia, o que Lho permitia. E assim o fez, como a roupa de burel podre em sujeira, branca tece-se na barrela limpa de harmonia, lavou sua alma ao delírio poético cantado em doçura verde dos poetas do martírio da esperança. Chorou e voltou a planos homogêneos de sua forma física, esquivando-se à prepotência de não incluir-se na sociedade da qual fez-se filho.

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Criação Divina (a não-comédia)
Guilherme L. Póvoas
O sol apareceu. Tal qual o seu cargo, de astro-rei, ele alvorou substituindo histórias da noite. Virando a página nocturna com um novo capítulo. Resgatando a trama da escuridão, que cada um viveu, e respondendo aquelas perguntas que se vão criando durante a narrativa real literata: a vida. Lho temos como resgate. Ou vagacidão. Com desgosto, alguma coisa boa sob as estrelas acabou. Veio a verdade. Caiu a máscara, aquela que todos nós carregamos durante as horas pós-crepúsculo, reveladora de sentimentos. Outrossim, esperança. Os ventos anunciantes do sol carregam o perfume humano para em algum lugar guardado ficar. Escondido numa metafísica pesada e nas costas dos nocturnos carregado. Vê-la, a imensidão de fogo, aflorando por entre prédios urbes é duvida: serviu plantar sob o olhar enluarado do céu para colher sob as labaredas oculares do astro-rei?

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