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Em direção a outra Meca
Gabriel Silveira
Pôs-se a caminhar. Caminhando pensou. Pensando rememorou-a. Era o que buscava: ela. No caminho da João Pessoa, que sempre leva à República, poetisou algumas páginas de Vinícius, sempre trocando o nome das mulheres pelo nome dela. Seguiu entre o concreto cinza e o abstrato colorido, cruzando lamas de asfalto e verdadeiras manifestações de almas penadas que contemplavam a escuridão da noite prostituída. Cortou os caminhos pela via mais difícil, pensou que fazia o mesmo na sua vida. Quando ultrapassou o último reduto plano antes de embretar-se no viaduto, olhou a profundidade da República e suas estrelas que perecem no chão. Virou-se e sentiu o odor texturizado que o vento da perimetral lhe trazia. Ladrilhando seus movimentos, acendeu um cigarro com o isqueiro que ganhara na companhia dela. Inflou-se. O cigarro coloria o momento pleno em opacidade nula. As nuvens borrifavam tinta criadora, plasma etéreo. E o criavam. Ele parou antes de descer o pequeno degrau antes do final do viaduto. Olhou o cigarro com desdém e, desprecavido, silenciou, harmonizou para entregar-se ao amor. Jogou-o ao universo. E cruzou o asfalto pisando mais firme, com olho semicerrados que previam a dor. Esticou seus dedos até estralarem para depois fechalos com mais firmeza. Premuniu-se de paciência e pediu por ela no interfone. "Já está descendo", a voz sem face respondeu. A pátina na parede foi-lhe distração na espera. O tempo das escadas passou e ela repontou no final do corredor. Ele não segurou o sorriso e os pêlos de seu braço esquerdo arrepiaram-se insurrectos levando-o a inclinar a cabeça para o lado. Ela achou aquilo um sinal de meiguice. Trocaram discursos fracos e pensamentos decorados. A força estava guardada para a sinceridade lacônica. "Para sempre", ele disse, exatamente quando assunto não havia e o silêncio imperava. "Para sempre", repetiu. Depois roçou-lhe as costas da mão com o dedo sereno e ousou beijá-la na testa. Ela não falou nada, não esboçou um sorriso, nada. A saliva medrosa traiu-lhe dando-lhe amargura nas rugas da face. Uma lágrima dançou-lhe. Vendo-a ela apressou a erguer a mão e "Não fique assim, o que o coração decide nós não podemos alterar". Ele segurou seu braço, já sem a serenidade de antes, e baixou-o, "Não tenha pena de mim", disse. Os olhos dela derramaram-se em prantos envergonhados. Ele serenizou-se novamente. Ergueu os olhos como se arejasse um grande salão de festas esquecido pelo tempo, e disse, frizando simpaticamente a testa: "É possível entender o inintendível. O que não posso é tolerar (nesse momento, cerrou a face) a tua tolerância em viver sem aceitar o amor". Olhou para ela com seus olhos mais azuis do que nunca e quando virou, sentiu que sua vida partia-se. Como qualquer um, deixava um pedaço de sua alma para partir em busca de outra forma de aceitar a dor, aceitar o amor. Cresceu diminuindo e ainda escutou, enquanto caminhava à outra Meca, o vento dizendo-lhe "Adeus".
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