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30.4.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Fosse um menino
Gabriel Silveira
Fosse, eu, um menino, correria em disparada por caminhos secretos; esconderia-me atrás da saia de minha mãe; pediria asilo secreto à meu pai; subiria em alguma árvore alta e plena de disfarces e subterfúgios. Fosse, eu, um menino. Mas não. Ah, meus joelhos e as ranhuras na pele denunciam-me: não mais sou um menino. Deste, só sobrou-me o medo, o tremer de pernas, o chorar solitário, o aspecto melancólico e o sorriso envergonhado. E este meu menino agora ousa pensar viajante nos caminhos dos adultos. Entra perdido em choramingos e pânicos terríveis pelas veias de um mundo cruel e sofrido. Em um mundo onde a infância é nada sendo tudo. E ninguém fará nada por esta criança. Pobre menino.

Sentou-se no banco da praça. O pequeno casaco azul marinho de mangas compridas lhe aperta levemente os ombros. Por baixo dele, um pequeno suéter bordô lhe cobre o peito infantil. Uma bermuda que lhe toca levemente os joelhos, também em azul marinho, lhe encerra o visual de infante. Ele mantém os olhos baixos, observando algo no solo. O vento sopra. Uma pequena borboleta mancha o céu com suas cores múltiplas. Dá-lhe um solfejo de pureza. Ele levanta a cabeça e, pela primeira vez nos últimos tempos, sorri. Sorri mais, com os olhos em vida, e percebe que as pequenas coisas podem ser-nos conforto quando o mundo não é do modo que desejávamos. Ele põe-se a correr e parte. Para o futuro.

Fosse, eu, um menino, correria em disparada atrás desta pequena borboleta. Correria e, ao encontrá-la, diria-lhe: agora, entendendo tudo, é que percebo que não entendo nada. Ela beijaria-me a face e creditaria-me um pouco mais de vida, de esperança, de oportunidade. E voaria aos céus.

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28.4.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Do amor viemos, ao amor voltaremos
Gabriel Silveira
Vê-se um bosque. Ao repouso crepuscular do horizonte, as nuanças do sol bronzeiam levemente a face da floresta a qual, acredita-se, é rica em beleza e vida. A esperança brota em lágrimas de ousadia e o firmamento alegra-se com a pureza deste pensamento. Muitas flores no caminho até o bosque. Ao chegar, entretanto, a noite tomou seu posto à divina potestade. No escuro da cegueira humana, o convívio consigo mesmo é duro e penoso à alma expiada. Mas do amor brota a esperança e ganha-se o bosque com a coragem do sétimo herói. Faz-se virtude. Não se sabe que naqueles primeiros passos vive a última luz de uma empreitada abreviada pelo ceticismo. Aos poucos, o coração que sentia esperança, padece à reticência e, dela, floresce a incredulidade; o olho que via anjos, ludibriado pela inóspita razão humana, vê demônios e monstros escarninhos em esconderijos saudosistas; o peito que selava a fronte da coragem, agora busca subterfúgios atrás dos braços da covardia. E assim o broto belo mostra faces horríveis: a fatalidade da imperfeição que nos é imposta. Falece-se no bosque negro ou na manhã melancólica do pós-louvor. Falece-se na insólita vontade de acreditar ou na prepotente incredulidade da satisfação voluptuosa. Falece-se no contemplar ou no agir. Falece-se. Resta-nos decidir onde está o louvor: se na coragem ou na covardia, se no amar ou no esconder-se, se na força ou na miséria, se na rebeldia ou no silêncio, se respondendo o amor com o amor ou a miséria com a miséria. Resta-nos decidir se cairemos com ou sem o louvor que nos ressalva a existência. E só. Assim rege a sempiterna e ranhurada caligrafia do destino. Que assim seja enquanto perdurarem os tropeços, porque aprenderão a amar os fiéis ao ceticismo inebriante. Bem-aventurados todos eles que, assim como eu, sofrerão com a irreciprocidade de um amor sem brilho, ganhando o louvor do amar que ressalva a existência.

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27.4.04<$BlogDateHeaderDate$>

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À sacada
Gabriel Silveira
As lágrimas do pranto divino, disfarçadas de estrelas cadentes, deslizavam pelo firmamento. Iluminavam teu caminho. E eu aqui, no escuro, fora de tudo, espectador, esperando à sacada para ver-te passar.

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19.4.04<$BlogDateHeaderDate$>

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O mundo será pouco
Gabriel Silveira
Contra o pesado cinza, dêem-me uma cor, qualquer uma. Contra a melancolia, dêem-me
um café, mais café do que nunca. O cigarro? Contra a angústia do coração. A bala de hortelã será doce na amrgura dos lábios esquecidos pela inóspita desvirtude de meu viver. O vento será pai, o espaço será mãe, minha dor será o filho no portão. O farfalhar do parque novo será minha alma gêmea e a ele me doarei. Por inteiro. Serei correnteza no rio dos dias e a música doce será afluente. Dêem-me um livro triste que divirta minha mente e um romance que entretenha minha nostalgia. Dêem-me uma caneta e um papel e não mais precisarei da fala. Se não me queres, terei o mundo. E ainda será pouco.

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17.4.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Tudo que você queria saber sobre as conversas dos Literatos mas teve medo de perguntar (para eles)
Porto Alegre, madrugada de sábado.

Mingo, entre a felicidade pura e a felicidade plena. diz:
Não sou nem superhomem do Nietszche nem Quixote do Cervantes, sou um mero aprendiz de Julien Sorel batendo a cabeça na merda pútrida e malcheirosa dos relacionamentos do nosso século.
Jihad: com geotectônica na cabeça diz:
Foi um inútil Soren? (sic)
Mingo, entre a felicidade pura e a felicidade plena. diz:
Um Sorel nos piores momentos de angústia vulgar causada por momentos de podridão inútil cheios de não poesia e ceticismo tolo.
Jihad: com geotectônica na cabeça diz:
Eu tentei preparar o campo pra ti, enquanto conversava com ela, mas como Sancho fui um total merda.
...
Jihad: com geotectônica na cabeça diz:
Se não há mais como fugir, e isso as evidências já provaram, corremos atrás então. Mas com sabedoria.
Mingo, entre a felicidade pura e a felicidade plena. diz:
Num entendi nada (sic)
Jihad: com geotectônica na cabeça diz:
Vamos se ralar, se é pra dá certo vai dá.
...
Jihad: com geotectônica na cabeça diz:
Não esquece de uma coisa:
Mingo, entre a felicidade pura e a felicidade plena. diz:
Mata
Jihad: com geotectônica na cabeça diz:
Time is gone for honest man, sometimes time is too long for snakes.
Mingo, entre a felicidade pura e a felicidade plena. diz:
Eu, como um bom honest man, faleço, padeço na estrada barrenta do submundo sentimental.
...
Jihad: com geotectônica na cabeça diz:
Mas fica tranqüilo, enquanto tua namorada não te trocar por uma garrafa de cerveja, tá tudo bem.
Mingo, entre a felicidade pura e a felicidade plena. diz:
{risos melancólicos}... vê se publica esta conversa no literato que foi magistral. Abraço
Fim da noite.

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16.4.04<$BlogDateHeaderDate$>

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...Em direção
Guilherme L. Póvoas
Eram três horas da madrugada. Ele, desta vez, iria ver o inferno pela janela de seu quarto.
À noite, não há canto da rua de sua casa onde não tenha um mísero ser humano a fazer festa, gastar dinheiro ou proferir heresias. Um noturno banquete romano, de terça a domingo. Este retrato caricato da sociedade tanto lhe encanta, pois dele o rapaz faz parte; e tanto lhe causa repulsa: "para onde devo rumar?".
Na madrugada daquela noite ele recém havia ficado sozinho. Enfrentando um cansaço diário, fatiga cotidiana pútrida. Circundado por músicas que lhe agradavam e de entretenimentos fúteis. O cenário estava perfeito para o mundo lhe apresentar a vida. Como um moribundo elegante e intelectual, o jovem pôs a cabeça pela janela, procurando algo para repudiar. À direita, em mais um bar daquele purgatório, estava uma bela moça. Essa, ele conhecia por sua. A mulher dele estava a tomar alguns goles de cerveja, acompanhada do único bom fogo amigo: o cigarro. Ele só, ela lá. Não lhe causou espanto a repetida frase dantenesca que reverberou pelos céus, vindas debaixo da terra:
- Deixai, ó vós que entrai, toda a esperança.

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11.4.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Passado mal redigido
Gabriel Silveira
Saiu da agência por volta das dez e trinta da noite. Ficara até tarde por seu perfeccionismo brutal. "Mesmo assim a frase não ficou perfeita". Parou à porta, jogou sobre o lombo cansado o sobretudo negro e tirou do bolso um maço de cigarros. Olhou para ambos os lados. Somente depois é que puxou da caixa um deles e prendeu-o à boca queimando em fogo seu extremo. Virou fumaça. A passos longos, cruzou a rua de pedras serenadas pela noite e decidiu ir para casa. Os carros que passavam iluminavam seu caminho, refletindo-lhe as dores no óculos pesado. No caminho, ministrou pensamentos racionais e decidiu levar algo para comer. Mudou, então, a rota que traçava e pôs-se na direção da Factory, lanchonete na qual tantas noites madrugara nos tempos de café e literatura. Não demorou mais do que dez minutos para chegar até lá. Empurrou com a mão direita a porta pesada de vidro temperado e sorriu ao ver o velho balcão. Pendurou o sobretudo, secou levemente os óculos soprando-lhe as lentes e sentou-se já com um sorriso na face sobre o banco de assento rubro.
- O mesmo de sempre? - perguntou-lhe a atendente.
Ele ergueu os olhos ironicamente e respondeu:
- Não é possível que ainda lembre-se de mim, Patrícia - disse.
- Lembrastes até de meu nome, por que não poderia lembrar do que costumava pedir?
- Tente.
- Expresso duplo com chantilly, amanteigados e dois Parlament avulsos.
- O duplo com o extra e os biscoitos vou querer. Quanto ao Parlament, traga-me uma carteira inteira. Meu último foi-se no início da noite.
- E o nome?
- Que nome?
- O seu.
- Ah, isto não lembrastes?
- Não basta lembrar do seu pedido? - disse ela servindo-lhe o café com os amanteigados.
- Marcelo Diniz. Mas acredito que o café e o cigarro digam-lhe mais verdades sobre mim do que este nome.
- O que a gente faz sempre supera o que a gente é - disse-lhe a mulher, já saindo para atender outros três homens que chgavam no bar.
Marcelo ficou com aquilo na cabeça e pensou que a frase poderia ter sido melhor proferida para tornar-se mais profética. "O que fazemos sempre supera o que somos". Pensou que ainda não estava bom mas, quando ia a reformular recriminou-se, "Será que não consigo esquecer esta função de redator nem por um único segundo?".

Saiu dali quinze minutos depois. Pagou a conta com o mesmo valor que pagava em outros tempos e Patrícia deixou assim mesmo, "deixe-o no passado se o presente lhe incomoda". Marcelo resolveu tomar a Av dos Quinze para chegar até seu apartamento. Só quando já estava nela e que descobriu-a na escuridão. Os postes de iluminação pareciam árvores mortas em busca do dia. Cruzou-a assim mesmo. Quando chegou no cruzamento da Av. com a Sofia, rua em que morava, escutou seu nome sendo chamado. Só depois de alguma resistência é que olhou para trás. Patrícia, carregando um casaco negro na mão, chamava-lhe ofegante.
- Seu sobretudo, esquecestes na lanchonete.
- Oh, não era necessário, muito obrigado.
- Estás indo para casa? - perguntou ela.
- Sim, moro logo na...- falava quando ela o cortou:
- Eu ainda me lembro do seu apartamento.
- Queres me fazer companhia?

No outro dia, quando Marcelo acordou, seus óculos estavam colocados sobre seu casaco. Ela não estava mais ali. Os vidros embassados, a cama desarrumada, o cigarro pela metade: era o que sobrara da noite. Sem levantar-se jogou um travesseiro nas costas e sentou-se à cama. Da cabeceira direita, puxou um caderno azul com capa aveludada. Escreveu, no topo da página do dia seguinte que já vivia, "O passado é companheiro daqueles que não suportam o presente e não visionam o futuro". E pensou que a frase poderia ter sido melhor redigida.

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10.4.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Três formas de ver o mundo: a parcial, a imparcial e a absoluta.
Gabriel Silveira
Pôs-se a correr. Atrás dele somente chagas: a inveja, a arrogância, a negligência. Escutava os urros, os gemidos da brutalidade humana, oslamentos sombrios da não piedade material. El não virou a face para trás nem mesmo uma vez. Sabia que botaria, assim, tudo a perder. O passado sempre condena o futuro. Seu rosto cerrado em formas de dureza exterior começou a modificar-se. Ao passo que vencia cada obstáculo, as chagas lhe sumiam da face; a cada lamaçal de corpos endurecidos que cruzava, escorria-lhe a dor para transformar-se em terreno vencido. Seguiu correndo. Cada vez mais leve. Ao reder de seu caminho, no vale verde enegrecido que cruzava, via faces conhecidas, olhares familiares, prantos escutados. Não ousou olhá-los e ficou mais leve. O negro melancólico transformava-se em luz e ele teve fé. Sem cessar, abriu caminho entre as últimas vertigens da libertação: o amor. E o superou, e viu a luz, e voou para a eternidade plena em consciência e sabedoria: a vida absoluta.

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Guilherme L. Póvoas
Era uma visão tão bela quanto desesperadora. Imaginemos: Pelé sem a bola; Hendrix sem a guitarra; Cervantes sem a pena tinteira e um Profeta sem seus seguidores. Mas isso tudo não distante. Usemos o caso de Cervantes com sua pena:
Ele a olha. Está muito perto dela. O autor de Dom Quixote sentiu uma vontade imensa de segura-la em suas mãos, não para olha-la, mas para usa-la. Escrever!, pois foi para isso que ela se criou. Por alguma razão intrínseca, Miguel resiste às tentações esferográficas. "Não, hoje não!", pensa ele, num tardio exclamar de arrependimento e confiança. Ele devia saber o que estava fazendo.
Então, como Cervantes, estava nosso parceiro: a sentir a força logística natural da vida pressionar por todos os lados, entre a enorme distância metafísica e a mínima distância física. Ambos conseguiram obter a resistência ao irresistível. Cervantes queria usar a pena para escrever - pois para isso a tinteira havia sido criada. Nosso companheiro queria aquela mocinha apaixonada - pois, segundo ele, era uma mulher para se amar.

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Resitência ao irresistível
Gabriel Silveira
Hoje o Quixote submeteu-se ao Dom. E assim ficou. Mais Dom, como os grande "Dons", frio, calculista e responsável, fiz de minha noite uma resistência à tentação suprema de possuir o que é desejo e de falecer na própria vida. Fiz-me seco. E de minha intolerância em repartir-me novamente, em minha insistência em não mais quixotear, não sobrevoei outros campos e, ainda assim, derivei-me ao sofrimento. Hoje, ao brilhar imenso das estrelas da virtude, cerrei meus olhos; ao melodiar pausado dos alaúdes doces e encantadores, fiz-me surdo; ao prantear comovente do amor sereno, fiz-me ausente; e assim, ainda assim, corompeu-me a tristeza. Entre conversas subterfugidias e pensamentos insinceros, disfarcei dores, virtudes e palavras. Minha boca, dura como nunca ousou ser, silenciou da poesia e, em ressalva literária, atirou-se à crítica veemente e materialista, corrupta em seu cerne raivoso pouco-meta-muito-físico. E os segundos que dos minutos foram filhos, enterneci os olhos, penoso de meu coração. Desabafei em silêncio. Assim discorreu os três e os quatros e os cincos mais a seguir, porque não bastavam segundos, eram precisos momentos. Nestes fui maldoso com o coração e sincero com minha mente. Nada mais seria, nada aconteceria. O judeu traído, crucificado e incorruptível permaneceria ali, estampado ao mundo, maculado pelas moscas que contemplavam o odor de merda pútrida,sem ação, medroso ou consciente, vitorioso ou derrotado. Assim foi-se a noite mais racional de minha vida: sem dúvida alguma a pior de todas.

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Repetições 2
Gabriel Silveira
Como estão longos estes dias de angústia. Como é melancólico o gotejar sereno do céu quando sabe-se que o temporal está por vir. Em letras mal adormecidas, em versos sem cor e sem alma, brotam tristezas que são adorno em um prato cheio de delícias que está por chegar da cozinha, suando sabor. E são os nós mal desatados, são as portas semicerradas que ousam renascer como liturgias esquecidas trazendo à tona pútridas lembranças alimentadas à ódio e desprezo. E as distâncias abstratas, que por estradas nunca serão vencidas, prostram-se como rainhas da eternidade marchando sobre sonhos desfalecidos de paixão e valentia. Haja virtude, haja harmonia, haja força pura e doce para vencer tais barreiras da incredulidade. Qual cavaleiro pode ser tão forte e imponente para vencer tais exércitos de bárbaros impiedosos da falsidade e da ignorância. Enquanto alguns sonham rasgando em lágrimas rubras seus joelhos pelos duros caminhos da esperança, outros estufam peitos hipócritas e levantam bandeiras estúpidas da pseudo-sabedoria: douram frutos empodrecidos. Levantemos nossas humildes cabeças pesadas pelo pensar arredio, oremos canções que falem de um novo e harmônico mundo, e deslizemos nos arredores da sabedoria única e inatingível: a felicidade.

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Repetições
Guilherme Póvoas
Como estão longos estes dias de distância. Pois, se já não fosse por demais estar à distância, ainda nos reservamos, por algum motivo do amor, uma distância que só a paixão faz existir ou falecer. Porém, cabe a nós tornar tais quilômetros abstratos, suportáveis ou não.
Assim acaba mais uma quinta-feira: antecedendo outro fim de semana das distâncias.

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