Passado mal redigido
Gabriel Silveira
Saiu da agência por volta das dez e trinta da noite. Ficara até tarde por seu perfeccionismo brutal. "Mesmo assim a frase não ficou perfeita". Parou à porta, jogou sobre o lombo cansado o sobretudo negro e tirou do bolso um maço de cigarros. Olhou para ambos os lados. Somente depois é que puxou da caixa um deles e prendeu-o à boca queimando em fogo seu extremo. Virou fumaça. A passos longos, cruzou a rua de pedras serenadas pela noite e decidiu ir para casa. Os carros que passavam iluminavam seu caminho, refletindo-lhe as dores no óculos pesado. No caminho, ministrou pensamentos racionais e decidiu levar algo para comer. Mudou, então, a rota que traçava e pôs-se na direção da Factory, lanchonete na qual tantas noites madrugara nos tempos de café e literatura. Não demorou mais do que dez minutos para chegar até lá. Empurrou com a mão direita a porta pesada de vidro temperado e sorriu ao ver o velho balcão. Pendurou o sobretudo, secou levemente os óculos soprando-lhe as lentes e sentou-se já com um sorriso na face sobre o banco de assento rubro.
- O mesmo de sempre? - perguntou-lhe a atendente.
Ele ergueu os olhos ironicamente e respondeu:
- Não é possível que ainda lembre-se de mim, Patrícia - disse.
- Lembrastes até de meu nome, por que não poderia lembrar do que costumava pedir?
- Tente.
- Expresso duplo com chantilly, amanteigados e dois Parlament avulsos.
- O duplo com o extra e os biscoitos vou querer. Quanto ao Parlament, traga-me uma carteira inteira. Meu último foi-se no início da noite.
- E o nome?
- Que nome?
- O seu.
- Ah, isto não lembrastes?
- Não basta lembrar do seu pedido? - disse ela servindo-lhe o café com os amanteigados.
- Marcelo Diniz. Mas acredito que o café e o cigarro digam-lhe mais verdades sobre mim do que este nome.
- O que a gente faz sempre supera o que a gente é - disse-lhe a mulher, já saindo para atender outros três homens que chgavam no bar.
Marcelo ficou com aquilo na cabeça e pensou que a frase poderia ter sido melhor proferida para tornar-se mais profética. "O que fazemos sempre supera o que somos". Pensou que ainda não estava bom mas, quando ia a reformular recriminou-se, "Será que não consigo esquecer esta função de redator nem por um único segundo?".
Saiu dali quinze minutos depois. Pagou a conta com o mesmo valor que pagava em outros tempos e Patrícia deixou assim mesmo, "deixe-o no passado se o presente lhe incomoda". Marcelo resolveu tomar a Av dos Quinze para chegar até seu apartamento. Só quando já estava nela e que descobriu-a na escuridão. Os postes de iluminação pareciam árvores mortas em busca do dia. Cruzou-a assim mesmo. Quando chegou no cruzamento da Av. com a Sofia, rua em que morava, escutou seu nome sendo chamado. Só depois de alguma resistência é que olhou para trás. Patrícia, carregando um casaco negro na mão, chamava-lhe ofegante.
- Seu sobretudo, esquecestes na lanchonete.
- Oh, não era necessário, muito obrigado.
- Estás indo para casa? - perguntou ela.
- Sim, moro logo na...- falava quando ela o cortou:
- Eu ainda me lembro do seu apartamento.
- Queres me fazer companhia?
No outro dia, quando Marcelo acordou, seus óculos estavam colocados sobre seu casaco. Ela não estava mais ali. Os vidros embassados, a cama desarrumada, o cigarro pela metade: era o que sobrara da noite. Sem levantar-se jogou um travesseiro nas costas e sentou-se à cama. Da cabeceira direita, puxou um caderno azul com capa aveludada. Escreveu, no topo da página do dia seguinte que já vivia, "O passado é companheiro daqueles que não suportam o presente e não visionam o futuro". E pensou que a frase poderia ter sido melhor redigida.
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