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27.5.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Razon de vivir
Gabriel Silveira
O baixo do violão silencia a conversa. Param Geraldo, Dolores, Edson, Vaguinho, todos silenciam. Recolhem-se em seus palas, cigarros, garrafões de vinho, e mordiscam suas nostalgias para escutar o som melancólico do violão. O chão à frente da barraca está úmido do sereno leve que deita-se sobre todos. Eles não se importam: sabem sentir o espírito da vida. O violão ordena acordes dedilhados, invoca os deuses da América Latina, clama por bombos legueros de outras invernadas. Os espíritos dão seu espetáculo: dançam por sobre o grupo com flautas, charangos, uivos de liberdade, prantos da miséria milenar. A voz entrega-se, ¿Para decidir si sigo poniendo / Esta sangre en tierra / Este corazon que bate su parche / Sol y tinieblas. / Para continuar caminando al sol / Por estos desiertos / Para recalcar que estoy vivo / En medio de tantos muertos./ O choro lhes é comum como a dor o é; a agonia lhes é comum como a melancolia o é. Ali são todos iguais, latino-americanos. São todos Guevara, Bolívar, Tiarajú, Tupac, Neruda, Cortazar, Márquez, Amado, Veríssimo, Borges. São todos iguais, latino-americanos. Dali o futuro brotaria, regado pela fraqueza humana, germinado pela miséria social, carcomido pela não-poesia dos nossos dias, mas, acima de tudo, brotaria firme, rebelde, índio, missioneiro. Dali nasceriam joguetes da história como eu, como nós. Escravos do profundo sabor melancólico que carregamos, todos nós, gaúchos, índios, hermanos de tantas bandeiras, que nascemos com o peso da honestidade, da justiça, da repugnância à servidão. O minuano uiva mais uma vez, o violão se cala, alguém sorri depois da lágrima, repete o que tantas vezes nosso povo já fez. Sorriso depois da lágrima. Todos sorriem, retomam a conversa, voltam à servidão do concreto. Aquele momento, como este, como tantos, fica lá, parado à memória temporal, fixo nos corações de tantos meninos índios, tantas almas missioneiras, tantas cabeças rebeldes, tantas mãos guerreiras, tantas palavras de ordem; fica lá, sorrindo após o pranto, eternamente; fica lá, regendo, lá dos campos divinos do além vida, nossa maravilhosa sina de latino-americanos.

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25.5.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Força mútua
Gabriel Silveira
Ela estava, já há duas semanas, aterrorizada com a notícia: o grande amor de sua vida iria partir. Ela demorou muito para perceber que ele era, enfim, o amor de sua vida. Na verdade, ela nunca acreditou que ele poderia ser o amor de sua vida. E foi só agora, sabendo que ele iria embora, que ela percebeu o quanto amava aquele jovem. Ele, entretanto, há dois anos, desde que aqui chegara para terminar o curso de filosofia, não descansou nem por um segundo: ordenava-lhe flores, dedicava-lhe serenatas, improvisava poemas mas sempre obtendo da parte dela uma única resposta: quando estiver pronta, escrever-te-ei uma resposta. Terminara, enfim, o seu curso e embarcaria hoje mesmo, à tarde que já se anunciava na janela, para o Rio de Janeiro, onde havia conseguido uma vaga na universidade para realizar seu mestrado.

Ela desesperou-se. Foi rápida em vestir sua melhor roupa, serpentear os cabelos, banhar-se em perfume e correr para o lugar onde ele pegaria o ônibus que o levaria à rodoviária. Parou ali e esperou pensando em cada palavra do que lhe diria: "irei contigo se desejares" ou "nada mais para mim importa além de estar a teu lado" ou ainda "agora seremos somente tu e eu" e subitamente entraria no ônibus, antes dele ainda, claro que simbolicamente, pois teria que voltar para sua casa, onde, afinal, todas suas coisas estavam. Mas ele não haveria de se importar com este detalhe e a aceitaria para sempre. Ele vinha em passos largos carregando as duas malas. Ela enervou-se. Ele levantou levemente os olhos que carregavam um visual sombrio. Ela inspirou seco. Ele aprumou-se ao lado dela na parada do ônibus, sorriu e não disse uma palavra. Girou sobre os pés e ficou olhando na direção de onde o veículo deveria vir. Ela expirou, inspirou novamente, olhou para ele estufando o peito e disse-lhe:

- Agora seremos somente tu e eu.
- Que dissestes? - perguntou ele.
- Agora seremos somente tu e eu. - repetiu ela.

Nesse momento o ônibus veio em velocidade. Ele levantou o braço e dirigiu-se à porta que se abriu rangendo sobre o destino. Somente aí parou, sorridente, já com as malas na mão, virou às costas e disse-a:

- Agora será somente tu. - disse ele.
- Mas por que? Não me amas mais? - falou ela.
- Não sei, mas não te preocupes: quando souber, escrever-te-ei uma resposta.

Mesmo assim, ela entrou no ônibus. Ambos foram passageiros.

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24.5.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Dois pensamentos idiotas: o meu e o meu.
Gabriel Silveira
Escrever por escrever, diria alguém. Bom mas agora algo me vem à cabeça e acho interessante descrever esta minha ânsia, este meu sentimento, já que o meu trabalho está adiantado e meu chefe está deveras ocupado para adiantar-me coisas novas e falar-me dos meus antigos projetos. Bueno, este sentimento, este astral que lhos falo é o astral da Cidade Baixa. Ah, como me é doce e reconfortante aquele ar. Sentar-me ao Jardim Elétrico, contemplar os passos ousados de cada indivíduo que embreta-se na noite procurando descanso da mente e cansaço do corpo, realmente tudo isso me fascina. Ainda mais, é evidente, porque foram ali, nestes ambientes como o Frango no Cesto da Lima e Silva, que brotaram minhas mais astuciosas ambições; meus projetos mais calorosos e verdadeiros, alguns deles já em execução no momento. Escrever, ousar crescer, navegar por novos mares, apaixonar-me por diferentes estátuas e ícones, etc, etc, etc, e ainda por ela, apaixonar-me por ela que não me deseja. Como é puro o amor platônico, é verdadeiro, sincero, honesto em sua maior característica: a solidão. É nela que me divirto. Rolo em seus campos de escuridão com minha claridade inata. Já diziam quando muito pequeno eu era que, se muito tempo ficasse no escuro, logo, logo estaria vendo as coisas com mais facilidades em qualquer ambiente enegrecido. Pois assim é, cavalgo nas matas da solidão, banho-me nos riachos do Um, reconforto-me ouvindo sozinho aos pássaros de suas clareiras. Mas acostumar-se não é a mesma coisa que apaixonar-se. O primeiro é conseqüência, o segundo causa. Eu prendo-me à causa de seguir cavaleiro corajoso, desbravador sem nunca esquecer de meu coração conformado com as florestas da solidão. Vejo no escuro e nele me aventuro. Ela sabe, somente ela, entre todos, ela e mais um, talvez, saibam realmente o que sinto. Porque eu, em verdade, não o sei. Ludibriado devo estar pelo sangue vermelho que me cega os olhos depois de tantas batalhas. Ludibriado devo estar para continuar batendo com minha cabeça já banhada em vermelho no muro que ergueu-se em minha frente. Sou tolo, não há mais dúvidas, pois, se não o fosse, negaria o mundo, regeria minha orquestra e voaria por sobre os terrenos corruptíveis da inércia sentimental. Cavalga ó cavaleiro! mas a compaixão me aprisiona, me traz para baixo mais uma vez, me condena à este lugar. Eternamente, ou enquanto ela não me amar, enquanto ela não entregar-se, enquanto eu permanecer na escura floresta da solidão.

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Chuva ácida de um redator II - o vento contra Zarathustra
Gabriel Silveira
Nem tudo no irrisório mundo do desapego é facilidade. Do contrário. Do lado de cá, tudo é agonia, desespero. E, na maioria dos momentos, a sombra da melancolia gruda-me aos pés como se um sol de tristeza abatesse-se sobre minha forma dura. Eu gero, degenero, em gênero e grau. Morro perturbado por meus sentidos avulsos e desfaço-me em não-poesia. Mas agora onde está o mel dourado que alimenta Zarathustra? Onde estão o animal mais prudente e o mais elevado, ambos amigos de Zarathustra? Ah, doce é o pensamento que navega em ares abstrusos do preconceito concreto do humano burro. O humano é o mais desumano dos seres. O humano é o mais desumano dos seres. Abram o deserto para novos profetas, esqueçam os leões do deserto pois agora lhe resta somente a dor final, o abatimento absoluto. Volta não há, só há pena e ranger de dentes. Então fujam marotos. Fujam os medrosos e os covardes pois agora só há espaço para Zarathustra, o rei dos bobos. Aquele que não mostra seus joelhos senão a si mesmo. Lá no alto da colina, alguém disfarça-se de anjo. "Mas não ó é, mas não é", eu canto. Lá no alto da colina passam desencantos. "Mas não pra mim, não pra mim", no entanto. Eu corro, talvez seja Zarathustra, o ímpio, a encontrar seus demônios pedintes por virtude verdadeira e miseráveis de coração. Sim, reconheço-o, é Zarathustra, o rei dos ímpios, o solfejo da escuridão total. Onde estão os seus amigos Zarathustra? Estão a cavalgar pelos ventos, imagino. Não o acompanham hoje. Onde foi Zarathustra? Onde foi? Não há mais escuridão aqui para Zarathustra, imagino, foi-se esconder em algum pântano onde mora a concórdia do mal com o nojo. Foi-se Zarathustra, foi-se esconder com seus monstrinhos decadentes e nojentos. Pois suma-se Zarathustra, estarei com a luz e antes que aprendas a caminhar estarei voando sobre tua cabeça oca, imbecil! Rasteja lesma maldita porque antes que encoste os joelhos no chão estarei a pisotear-te com a sabedoria sem dor. Faz-te chão agora! Ao menos será mister para que cultive em ti minhas plantas vermelhas da ternura. Faz-te adubo e, ao menos assim, de ti brotarão frutos para algo ou alguém que não tua imbecilidade plena. Suma-se atordoado e não voltes antes que o mundo não seja mais mundo e que o desolo impere sobre estas raízes cheias de fungo. Esqueça teus disparates metediços, rei dos ímpios, esqueça tuas parábolas de poeta chulo e despreparado, pois não mais serão ouvidos teus lamentos de ego esquecido pelo giro da vida e da evolução. Onde está teu braço Zarathustra? Está até agora congelado pelo tempo a apontar caminhos que não existem velho caduco. E estão também tuas pernas a pisar em ilhas há muito afundadas pela arrogância de teus filhos nobre vilão. Pois agora esquece de teus filhos que nunca nasceram, esquece de tua semente que nunca brotou e corra em direção ao abismo que, estavas certo, é o teu lugar, idoso perverso. Não mais Zarathustra nem qualquer outro humano haverão de entender a sabedoria, nem tu cachorro, nem teus ratinhos de companhia, estes que chamas de humanos, estes que dizes que odeia, enquanto geme por seus amores à sombra da floresta. Não mais serão, vós, libertos nos caminhos do conhecimento. Porque eu morri e todos vocês perecerão, fruto de minha mortalidade.

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O jogador
Gabriel Silveira
Alexis Ivanovitch entrou na sala. Envergonhado, cabisbaixo, puxou uma cadeira e juntou-se ao grupo. Ao passo que ninguém falava nada, eu levantei-me, abri espaço ao lado de minha cadeira e disse-lhe: "Também eu entendo do vício, meu amigo. Venha, aqui há espaço para tua aflição". Ali sentou e aquietou-se.

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22.5.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Menos criança
Gabriel Silveira
Maria Teresa levantou-se da cama. Jonas pesava-lhe nos braços. Deitou-o no pequeno e rústico berço com uma solitária almofada e um modesto cobertorzinho de tecido verde. Ele não chorou. Não é preciso muito tempo para aprender a suportar a dor da miséria. Ela olhou e abriu um sorriso. Ele dormia. Depois ela olhou a própria barriga e chorou. "Como vou cuidar de mais um?". Olhou para a mesa. Mathias e Laura, de seis e sete anos, estavam sentados, com os pequenos e ingênuos olhos olhando para uma jarra de água. Maria ficou observando. "Quer mais?", perguntou Laura. "Mais um pouco", respondeu o pequeno. Maria Teresa deixou uma lágrima escorrer do coração, limpou com o braço o rosto e engoliu a dor em seco. Depois dobrou as roupas de Jonas e colocou-as na beira do bercinho. Foi em passos rápidos até a mesa onde os dois filhos estavam e segurou o choro ao mandar-lhes para a cama, "Vamos, seu pai vai chegar logo e não vai gostar nada de pegar vocês dois acordados ainda". Mathias e Laura tinham no coração uma doçura inata. O menino segurou a irmã pela mão e disse, exalando a maturidade que lhe desabrochava nos olhos inchados, "Vem que eu te levo". Maria Teresa nem se mexeu. Voltou a chorar e quando viu que os dois já haviam acomodado-se no outro lado do pequeno quarto que todos dividiam, decidiu que estava na hora de ir para a rua. Colocou um pequeno casaco de lã para proteger-se o intenso frio da noite, passou a mão em uma sacola plástica e fechou a porta com a ânsia e o medo de qualquer mãe em busca de sustento para os filhos. A barriga, de sete meses e meio, lhe despertava um misto de medo e esperança que não entendia. "Pobre criaturinha", pensou.

Cruzou a Praça Argentina com os olhos banhados pela escuridão das árvores. Sabia que elas andam sempre acompanhadas. Via os olhos da besta em cada homem recostado em lixos que passava. Os olhos pareciam segui-la a cada passo, mudando de forma, de companhia, de passatempo. ¿O único demônio que existe é esta merda de miséria¿. Estava certa. Assim chegou, com passos curtos, até as proximidades da Cidade Baixa. A escuridão da noite lhe abraçava com pensamentos tristes. Sentou-se à porta de um pequeno mercado e esperou por olhos de amizade, olhos de consciência ou simplesmente olhos de misericórdia. Só encontrou olhos do egoísmo. Nenhum alimento, nenhuma moeda, nenhuma mão. Olhou novamente para a barriga. ¿Como vou cuidar de mais um?¿. Então, sem levantar sua cabeça, notou que uma mão escondida sob um manto negro, tocou sua barriga levemente. Ela teve medo de olhar para cima. A mão levemente levantou sua blusa, deixou a barriga grávida à mostra e atirou por sobre ela três pequenas moedas de prata. A mulher olhou as moedas com pavor. Olhou para cima. Não havia mais ninguém, somente um grito escarninho ao longe. Em uma das moedas, ¿À César o que é de César¿. Ela não entendeu, e deixou a barriga à mostra. O frio da rua lhe congelava as entranhas. ¿Pobre criaturinha¿, repetiu e abriu um sorriso com lágrimas. Na escuridão, o belo é reluzente, disforme, marginal. Na escuridão, somente a escuridão é conforto. À escuridão o que pertence à escuridão. Ao terror da barriga exposta, as faces estúpidas da sociedade onde reina a imagem, jogavam moedas reconfortando-lhe o próprio ego. Assim ela ficou e ali dormiu, morbidamente, fazendo parte de um mundo um pouco mais escuro, um pouco mais desonesto, um pouco mais adulto, um pouco menos criança.

Maria Teresa perdeu o filho do qual estava grávida. Laura e Mathias também, mas ambos para a vida, para a fome, para o dinheiro. Seu marido não voltou para casa naquele dia nem em qualquer outro. E quando ela, pela manhã, entrou na tapera em que viviam, lá estava a sombra negra com as mãos escondidas sob um manto, sorrindo com o escarninho. Tomou-lhe as moedas da mão e vida do peito.

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21.5.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Há fundo
Gabriel Silveira
Em um oco profundo
minha alma caiu.
E eu nada mais era,
só solidão do vazio.

Libertos, meus monstros
contaram-me sonhos.
Inflando-me a angústia
de passados risonhos.

Sozinhei-me, medroso,
vencido pela tristeza.
Minhas vaidades se foram,
reduzi-me à natureza.

Cordas? não mais.
Deixem-me aqui
com meu eu incapaz.

Vida? não vi.
Deixem-me em paz
com o amor que perdi.

E nada mais foi no mundo dos sonhos.

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Mais fácil
Gabriel Silveira
Largou o Kafka na cabeceira e fechou os olhos. Pensou em Esopo e suas fábulas morais. Pensou em Sócrates e sua maiêutica pedagógica. Pensou em Guevara e sua coragem inquietante. Pensou em tudo e não entendeu mais nada. Afinal, o que era aquilo, esta vida, este viver? Por que respirar, por que amar, por que saber? Será que tudo será sempre tão vago quanto meu futuro? Será a vida uma eterna escolha de disparates? Estará o mundo entregue a um girar desregrado, disforme, inútil? Então abriu os olhos novamente de solavanco. A sua cama não era mais sua cama, era chão. A sua roupa não era mais sua roupa, eram trapos. Seu cobertor não era mais seu cobertor, já não era. Sua vida já não era mais sua vida, era a de outro. Algo o incomodava, era o frio, era a fome. Ele olhou ao seu redor, uma parada de ônibus, uma calçada fria na qual estava deitado e restos de lixo atirados ao seu lado: ele era agora um mendigo. Então lembrou Kafka e Esopo e Sócrates e Guevara. E sorriu. Gargalhou. Desfez-se em alegria de não mais ser o carrasco mas de ser o bravo, o guerreiro, o rebelde, o barbudo. E chorou de medo.

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Discórdia com o futuro
Gabriel Silveira
Há discórdia no estômago
do angustiado com seus tormentos
que justiça e resposta busca
em um mundo onde só há lamentos

Há medo, há ironia mesmo,
há vergonha em seu viver
pois esconde-se em covardias
de não ter mais no que crer

Perde-se em devaneios,
orienta-se por estrelas invisíveis,
e deságua em disparates
com finais tão previsíveis

Dá temor aos próprios sonhos
arrancando os próprios joelhos
expulsando futuros risonhos

Falece em campos ermos
negando a vida destes outros,
mortos, crentes só em si mesmos

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20.5.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Chuva ácida de um redator: só ânsia sem trama
Gabriel Silveira
Lá vou eu de novo, iniciando um processo criativo de auto degeneração, morte súbita, suicídio brevemente calculado, aos poucos, degradatante, vou submetendo-me à doença dos outros, carniça em meio à jacarés famintos. Muda-se o astral buscam-se anjos, não monstros. Busca-se paz, não guerra, não violência. Busca-se o branco, a pureza, o curar, o matutino, a alvorada, a corneta diurna, o café da manhã, os pássaros no jardim, as flores cantarolando beleza, os girassóis amarelando vidas, tudo isso e mais um pouco. Talvez mais detalhados, um café preto com um pão quente, uma manteiga desmanchando-se em sabor junto à frutas frescas, à manhã de laranja, sucos de laranja, prepotência de vários, não de um, de muitos, de todos. Sobrevivamos, transformemo-nos em super-homens, superemos a mesquinharia das doenças, das desvirtudes, das fraquezas, dos porquês, das penas e dos invertebrados. Cresçamos sozinhos, loucos, mágicos, melhores, sem joelhos, sem louvores, só fantasmas livres de uma esfera contaminada pela doença da ignorância, da estupidez, do medo burro, do conformismo condescendente, da tragédia pura. Vivamos sem dó do presente, sem nostalgia do que foi, sem preocupações com o que será. Vivamos impacientes, desejados pelo maior de todos, mas sem abater-se por ele. Nós construímos nosso próprio mundo, sistema, desmantelamos nossos próprios meios, nossas próprias razões, nossos próprios seres fracos, deslumbrados com sua própria falta de entendimento, sua própria falta de compreensão, sua própria podridão mutuamente atacada. Ousam, vocês, mestres da estupidez, levantar a voz contra o que supera-os? Ousam levantar a voz contra o super-homem, este que chamam de Zarathustra? Levantem-se todos, agora, e chorem pela vaga lembrança do que um dia foi o homem, pois ele não mais será. É chegado o grande meio-dia, a hora da transformação, o último acordar, a final e decisiva batalha íntima do homem com sua alma. Sabem os poetas, os pensadores, os cientistas, todos eles, que nada mais importa senão a superação do próprio universo. Haveremos de mudar ou faliremos no modelo imbecil da corrupção generalizada. Disformes com seu próprio chão, os espíritos livres aprenderão a voar e não ousarão falecer no erro de olhar para as formigas que serão restos em terremotos do fim de um ciclo, o fim da era da burrice. E não serão chamadas pelo nome, estas pequenas formiguinhas, para que caiam no abismo com todo seu egocentrismo, com toda sua falta de entendimento e sem sequer uma lágrima livre da vaidade. Sim, cairão as formigas no abismo e a aves voarão para terras distantes, onde o que há de mais será valorizado e o que há de menos far-se-á de mais. Portanto, virem-se para o sol hoje, somente hoje, porque será a última vez, formiguinhas, que haverão de vê-lo tão de perto. Após o último anoitecer todos sentirão o vibrar da tragédia humana e cairão em pedaços de nostalgia, fragmentos do passado, restos esquecidos. Mas não. Não, não e não aos que olharem para suas próprias asas, porque estarão mergulhados em seu próprio orgulho e afogar-se-ão antes do grande meio-dia. E não também aos que agarrarem-se aos que tem asas porque subirão aos céus e, de lá, cairão, sendo mais dolorosa sua queda. Fatal. Talvez algum dia seja descoberta a terrível história do meio-dia pelas formigas e ratões que por aqui viverem. Porque os espíritos livres, os pássaros libertos, os deuses da sabedoria e do controle subirão às nuvens e olharão com desdém as formigas que ainda ajoelham-se e pedem ao que nada tem. E vibrarão em alta voz: "levantem-se dos seus chãos e de suas rezas vergonhosas e marchem sobre o mundo, sobre a ignorância, sobre a prepotência e entreguem-se aos ventos, às asas, à supremacia de ser ave livre e eterna."

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Medo de ti
Gabriel Silveira
Quanta contradição há no medo. No meu, ao menos. E digo isto porque ao dizê-lo estou inundo nele. Há medo no querer e medo no esperar. E hoje eu quero e espero. Há medo no incerto e medo na virtude. E hoje sou só incerteza, da virtude isolei-me. E nesta incerteza do querer, sem virtude, embebido por pensamentos úmidos e gelados, eu vagueio na espera por disformes palavras que não conheço. Espero por ela, a noite. Sempre tão doce na companhia, sempre tão amarga na solidão, sempre tão conteúdo no coração dos melancólicos, a noite esparrama-se por sobre o dia, espaçosa em seu silêncio modesto. Ah e eu, Zarathustra fracassado, ainda ouso marchar na trilha de monstruosos pensamentos. Ah, ainda insulto a mesquinhez de meu próprio coração, inflando-me em justo orgulho. Vaidade. E volto à concretude, olhando o sol que por hora ainda impera nas honestas janelas, ainda diverte a secura dos pântanos e digere os mórbidos pensamentos que surgiram na madrugada. E espero, cheio de medo e alegria, que ele se vá agora, que se perca na escuridão porque sei o que mas não como o futuro se prepara; sei das festas mas não das fantasias que a noite vestirá; sei dos frutos mas não de seus sabores vermelhos ou amarelos; sei que tenho medo e que por ele perecerei à alegria de amar a contradição eterna da paixão.

Lua, Diana, Vivi, Pri e cia, desculpem-me por minha ausência em seus cantos, o vento é rápido demais, não me permite escalas, não agora... mas volto, prometo. Bjs.

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A luz
Gabriel Silveira
Três tocs à porta mas eu nada respondo. Silencio porque sei que, se abrirem a porta, ficarei à mercê da entrada do sol. Então me calo. Outros três tocs, toc, toc, toc e eu nada mais vejo. Já sei, a porta foi aberta, o sol me atingiu, a luz é deveras cega para o recluso à escuridão. Então ergo meus braços, rogo por misericórdia e a porta é novamente fechada. Mas o intruso já está na sala. Posso ver sua sombra avermelhada. Olhos castanhos. Aproxima-se, desvia da pequena mesa em que jogava o escarrado cigarro e vira a cara para os quadros sujos de pó secular. Não há brilho aqui dentro e não fosse a luz que o intruso irradia, também nada veria. Ele se aproxima, novamente ponho minhas mão sobre o rosto, medroso, covarde. Ele põe suas mãos pequeninas sobre meu braço. Estarreço. São mãos femininas. Então ele vence o próprio nojo do eu-morto e passa a mão em meu rosto, limpando-me a face. Eu ajudo-a com meu pranto. Pela primeira vez vejo seu sorriso. Agora entendo porque estava apreensivo. Foi ela quem me trouxe aqui, me apresentou este lugar. Agora é a mesma que vem me buscar. Eu levanto-me, ela guia meus passos, leva-me em direção à porta. Eu choro. Não há tocs agora. Ela simplesmente abre a porta. Eu, cego, vejo a luz.

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Voltas por que?
Gabriel Silveira
Esperei-te na vã janela,
por tua volúpia hesitante,
mas em prantos sozinhei-me
à tua ausência inospitante

Nem dores, nem mágoas,
no encontro que temos agora
pois sou filho abandonado
que pela mãe de minh'alma, chora.

Satisfaço-me contigo, hoje,
como satisfiz-me, outrora,
quando o firmamento fez-se negro
e da dor encontrei senhora.

Já expulsei-a, já a expurguei,
por isso te aceito agora ao meu lado.
depois de tudo que, sozinho, passei.

Aceito-te por ser filho de teu legado,
testemunha da dor de mundos sem reis,
promessa de amor que deu errado.

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Troca-troca
Gabriel Silveira
Quanto à quebra de paradigmas, atenção à neblina ludibriosa que a acompanha: na maioria das vezes quem parece um paradigma quebrar nada mais está fazendo do que trocando-o por outro pilar. E nada há de especial nisso. Somente os espíritos livres quebram paradigmas para construir novos pensamentos.

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Tarde. E só.
Gabriel Silveira
Às vezes é bom tentarmos descobrir caminhos de nossa mente simplesmente escrevendo. Às vezes, é preciso botar para fora uma casca grossa de pensamentos para que o que está resguardado nas têmporas possa prevalecer aos poucos à sofreguidão do parto. Perdidos entre a inóspita melancolia da metafísica nada empolgante e do abstrato complexo em virtuose plena, meus pensamentos vão aprendendo e ensinando no silêncio de minhas palavras que já se prolonga. Até quando o sol das avenidas me será companhia? Até quando o luar dos livros me será reconforto? Até quando o abraço do diálogo me será subterfúgio? Saindo da velha tapera abandonada nos campos risonhos da ingratidão bege, ficam os ogros da dor rogando-me pragas de desconsolo. E eu, que sempre corri em outras direções, agora me vejo rodeado por estas bestas. É nestes momentos que preciso dos meus antigos vôos. Mas só ousarei alçá-los novamente quando vierem a mim os 6 anjos da reclusão divina, aqueles dos tempos em que o colorido vencia o cinza. Haja vermelho neste sangue para vencer os decrépitos verbetes que me irrompem nesta tarde.

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10.5.04<$BlogDateHeaderDate$>

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A cátedra da virtude
Gabriel Silveira
Um homem nobre, de alma, deitou-se no jardim e deteve-se a olhar o horizonte. O firmamento chorou estrelas cadentes e o homem manteve-se quieto, vislumbrando o oceano do céu. E admirou-se ao perceber que por muito tempo pensou no futuro, esquecendo-se que precisava construí-lo. Quando acordou, morreu, pois não era.

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7.5.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Esta não era a primeira vez que ela deixava-o esperando por intermináveis horas - e se ele não desse um basta, isto iria se repetir mil e uma vezes mais durante a noite -. Na longa espera o rapaz pensava, agia, gesticulava... nada faria ela retornar. E para inflamar ainda mais a humilhação flagelante, ele não gozava de um cigarro amigo, e tão pouco de um amigo com quem cigarrear. As pernas tremiam enquanto pensava no momento:
- Estás preparada para ouvir algo, cujo qual não estou pronto para dizer? - disse o jovem.
- Fala! - respondeu a moça assustada.
- Apenas te amo!

E assim, aquele basta, que no mínimo permitiria ao casal refletir sobre o que estavam passando, fora adiado. O motivo: a verdade.

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