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Razon de vivir
Gabriel Silveira
O baixo do violão silencia a conversa. Param Geraldo, Dolores, Edson, Vaguinho, todos silenciam. Recolhem-se em seus palas, cigarros, garrafões de vinho, e mordiscam suas nostalgias para escutar o som melancólico do violão. O chão à frente da barraca está úmido do sereno leve que deita-se sobre todos. Eles não se importam: sabem sentir o espírito da vida. O violão ordena acordes dedilhados, invoca os deuses da América Latina, clama por bombos legueros de outras invernadas. Os espíritos dão seu espetáculo: dançam por sobre o grupo com flautas, charangos, uivos de liberdade, prantos da miséria milenar. A voz entrega-se, ¿Para decidir si sigo poniendo / Esta sangre en tierra / Este corazon que bate su parche / Sol y tinieblas. / Para continuar caminando al sol / Por estos desiertos / Para recalcar que estoy vivo / En medio de tantos muertos./ O choro lhes é comum como a dor o é; a agonia lhes é comum como a melancolia o é. Ali são todos iguais, latino-americanos. São todos Guevara, Bolívar, Tiarajú, Tupac, Neruda, Cortazar, Márquez, Amado, Veríssimo, Borges. São todos iguais, latino-americanos. Dali o futuro brotaria, regado pela fraqueza humana, germinado pela miséria social, carcomido pela não-poesia dos nossos dias, mas, acima de tudo, brotaria firme, rebelde, índio, missioneiro. Dali nasceriam joguetes da história como eu, como nós. Escravos do profundo sabor melancólico que carregamos, todos nós, gaúchos, índios, hermanos de tantas bandeiras, que nascemos com o peso da honestidade, da justiça, da repugnância à servidão. O minuano uiva mais uma vez, o violão se cala, alguém sorri depois da lágrima, repete o que tantas vezes nosso povo já fez. Sorriso depois da lágrima. Todos sorriem, retomam a conversa, voltam à servidão do concreto. Aquele momento, como este, como tantos, fica lá, parado à memória temporal, fixo nos corações de tantos meninos índios, tantas almas missioneiras, tantas cabeças rebeldes, tantas mãos guerreiras, tantas palavras de ordem; fica lá, sorrindo após o pranto, eternamente; fica lá, regendo, lá dos campos divinos do além vida, nossa maravilhosa sina de latino-americanos.
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