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Chuva ácida de um redator III - a final batalha entre o homem e seu destino
Gabriel Silveira
Ele tropeçou sem querer manter-se em pé. Sem titubear jogou seu rosto seco no cimento áspero. Roçou a pele fresca nos pontiagudos pixels de um piso frio, tenso em maleficência, duro em sua finita não vida. Ele pulou sem tentar voltar ao chão, voou sem agarrar-se nas nuvens, pecou sem ajoelhar-se em céu divino. Jogou-se ao chão, mordeu a terra suja que lhe servia de segurança única, piso supremo, fim corrupto e brotar eterno. Entretido em volúpia, ludibriado pela maldade, corrompido pelo medo, distorcido em discrepância mental que não era sua mas de outros. Correu sem tentar parar, sem ponto de chegada, sem lembrar de onde saíra, sem buscar ajuda. Pisou em gramas encharcadas, em parques inundos, imundos, dançou sobre a ponte negra da vaidade, cantou silenciado pelo sufocante ar da meia-noite russa. Despertou sobre a cama de mulheres que não conhecia. E pior: de muitas que conhecia. Despiu-se na frente do espelho e não viu nada mais que a dor externa, o corpo encharcado de volúpia, as mãos calejadas com marca da foice, do martelo, da vassoura. Cortou os cabelos com os dentes, despiu-se do corpo e sobrevoou a própria cama. No outro dia, pela manhã nobre que pairava sobre o mundo, ele mostrou os dentes para o sol que lhe despejava insultos. Era-lhe insulto o calor ao frio do seu coração. E dormiu compilando seus pensamentos em um: o de sobreviver à esperança que lhe brotava. Invocou os ventos que vinham dançar sobre seus olhos fazendo-lhe de bobo. "Estúpidos", gritava enraivecido. A chuva lhe inundou a alma, os ventos sufocaram-lhe o peito, os raios infernizaram-lhe a cabeça. Então "Nem mesmo da densidade me liberto" e mergulhou no corpo novamente, ficando ali até perder-se, até encontrar-se, que foi nunca.
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