<$BlogMetaData$>

« Home | <$BlogPreviousItemTitle$> »

22.7.04<$BlogDateHeaderDate$>

<$BlogItemTitle$>

Última chance
Guilherme L. Póvoas
Depois do chá, ela era o que mais aquecia aquele carrancudo velho. Ora despojado, ora envergonhado, só tinha uma pretensão: fazer a moça feliz, dando prazer a ela, mesmo quando tal pele jovem servia de cobertor. Aquém dos defeitos, ele era um intelectual do amor, pois aqueles óculos também serviam para olhar o coração. A voz rouca do homem, poluída, servia-lhe como caixa acústica para pensamentos joviais, maduros, inteligentes e alentadores. Quando falava com medo, notava-se a vergonha em seu semblante. E cada cacoete, trejeito ou erros natos, sua companheira lapidou a bel-prazer, até deixá-lo a contento.
Esta vida a dois era nova a ela, mas não ao ancião. O idoso não chegara nem aos trinta, ainda tinha virilidade e força, apesar dos cigarros. Ou seja, de velho nada tinha, senão uma idéia eterna: depois de tanta gente, a jovem ao seu lado era sua última esperança para o amor. E, infelizmente, neste mundo contemporâneo, isto é atestado de velhice. Que bom!

<$BlogCommentBody$>

<$BlogItemCreate$>

Links to this post

<$BlogBacklinkControl$> <$BlogBacklinkTitle$> <$BlogBacklinkDeleteIcon$>
<$BlogBacklinkSnippet$>
posted by <$BlogBacklinkAuthor$> @ <$BlogBacklinkDateTime$>

<$BlogItemBacklinkCreate$>

21.7.04<$BlogDateHeaderDate$>

<$BlogItemTitle$>

Igual a procurar
Gabriel Silveira
Sentou-se à luz do sol
esperou a ver navios
ficou ao léu na rua
chorou ao vento frio

caiu à via sacra
enjoou-se ao jantar
penou ao escurecer
chorou ao som do mar

Caiu à indiferença
saiu a cruzar ruas
pairou à maresia
chorou ao ver a lua

correu a procurar
cansou ao amanhecer
madrugou a esperar
chorou até morrer

<$BlogCommentBody$>

<$BlogItemCreate$>

Links to this post

<$BlogBacklinkControl$> <$BlogBacklinkTitle$> <$BlogBacklinkDeleteIcon$>
<$BlogBacklinkSnippet$>
posted by <$BlogBacklinkAuthor$> @ <$BlogBacklinkDateTime$>

<$BlogItemBacklinkCreate$>

16.7.04<$BlogDateHeaderDate$>

<$BlogItemTitle$>

No samba de Geni
Gabriel Silveira
Há Chico no ambiente. As secreções do choro escorrem sob as cadeiras, corroendo os inoportunos. Choram almas de Nazarés e Cartolas. Músicas não, chamamentos. Dançam espíritos da virtude sorrindo alegremente, negros no suor do sofrimento. As marcas estão lá: exalam pútridos odores, choram as penadas desvirtudes. Mas há Chico no ambiente. E o choro nos olhos, o choro no sangue, o choro chora o passado. Há barulho na escada. Eu desfaço a feição de tolo, continuam os passos. É Geni que chega. Sua roupa é de Geni. Com o cheiro do lençol fértil, a porra da calhorda, o olhar do demônio. Eu só observo. Conheço a história triste da pequena. Geni é salvadora. As sombras a acompanham. Esfregam-se em suas lástimas, em seus vícios. Ela, escória, escora-se na parede gelada, fica a sentir o medo do frio, procurando em meus olhos um conforto que já perdeu há tempos. Mas há Chico no ambiente. Eu abro um sorriso sem melancolia disfarçada. Ela chora e sorri sem miséria, sem vontade, só com nada. Eu desço de meu pilar, passo a mão no copo, sento-me ao lado dela. E ela vê um Zeppellin. Eu tiro os versos, faço poesia de meu corpo e me desmancho em gestos de carinho que ela não vê com os olhos mas que escuta com a alma. Há Chico no ambiente. Ela treme. Eu também. As sombras foram embora, o cheiro nada mais é. E eu me vou mais fresco de alma, mais resto de corpo. Geni levanta-se, vê o Zeppellin ir embora, clama pela companhia das sombras. Depois chora caminhando em outras nuvens, anda descalça na terra úmida de outras estradas sem entender qual anjo, sem entender qual demônio, que levou o samba à sua vida.

<$BlogCommentBody$>

<$BlogItemCreate$>

Links to this post

<$BlogBacklinkControl$> <$BlogBacklinkTitle$> <$BlogBacklinkDeleteIcon$>
<$BlogBacklinkSnippet$>
posted by <$BlogBacklinkAuthor$> @ <$BlogBacklinkDateTime$>

<$BlogItemBacklinkCreate$>

14.7.04<$BlogDateHeaderDate$>

<$BlogItemTitle$>

Geni pura e o Zepellin de mentira
Guilherme Lazzaretti Póvoas
Passava das duas horas de uma madrugada fria e confortável. Zepellin tentava colocar a chave na porta de casa. Não tinha bebido, mas o cansaço e o sono tornavam árdua tal tarefa. Ele acabara assustando-se: a porta abrira-se, de repente. Era Geni. Calma, bela e desengonçada. Fez cara feia com o fedor sufocante vindo de Zepellin: ele fumara no bar.
- Estava a tua espera. Quer sentar e conversar? - perguntou a moça.
- Por mim tudo bem. Mas hoje já conversei de mais, sentado, e com pessoas agradáveis - disse ele.
O balão de hidrogênio voltava para casa após a meia-noite nas quartas. Nunca mais havia convidado a singela Geni a um passeio, cinema, bar, ou qualquer outra coisa que os casais fazem para passar um tempo juntos sem enjoar-se um do outro. A noiva queria fazer o seu papel de discutir relacionamento, falar que estava ficando tudo cada vez mais gelado, e ao contrário de outros invernos, o frio não os aproximara na cama. O noivo não queria encarar a realidade. Que segurança! Nem medo de perder, nem risco de traição: estava satisfeito com a peneira, pois aquele sol não o atrapalhava mais.
Quando Zepellin abriu a geladeira para tomar o resto de água gelada da garrafa, Geni, como um assalto, bateu forte na mesa com um copo de vidro, vazio e limpo. E logo saiu, ao quarto, para deitar-se, desaparecendo. O rapaz já sabia, apesar de não apresentar espanto nem preocupação: o fim estava no último gole de água. E ao sentar na cama, preparando-se para dormir, ouviu da moça ou de um outro alguém:
- Sabe que o Zepellin não consegue mais levar Geni para grandes altitudes. Tão pouco explode com uma mínima faísca!
Sim, era o fim. Por culpa dele.

<$BlogCommentBody$>

<$BlogItemCreate$>

Links to this post

<$BlogBacklinkControl$> <$BlogBacklinkTitle$> <$BlogBacklinkDeleteIcon$>
<$BlogBacklinkSnippet$>
posted by <$BlogBacklinkAuthor$> @ <$BlogBacklinkDateTime$>

<$BlogItemBacklinkCreate$>

8.7.04<$BlogDateHeaderDate$>

<$BlogItemTitle$>

Como mais uma noite
Guilherme L. Póvoas
Eram 6h30min. "Caro, todo tempo em que vivemos juntos já não é suficiente para sustentar este 'para sempre' que você quer passar comigo. Isto é um Adeus". A moça acabara de escrever uma epístola de despedida ao namorado. Apagou o cigarro no cinzeiro de vidro enquanto as luzes do caminhão de lixo iluminavam as folhas de rascunho. Inúmeros erros. "E assim foi nosso relacionamento: erros. Um único rascunho, sem direito à obra final", escrevera no primeiro parágrafo. Pelo quarto de hotel onde ela mora, não permeava mais o odor delicado e protetor do amante. Restava, por entre as fumaças de fumo, seu próprio cheiro feminino de discórdia e insegurança. Tomou um banho longo, que tanto irritava seu agora ex, e penteou os longos negros cabelos diante do espelho. A imagem refletida era a figura que ele tinha: cada dia, cada instante, cada sono, cada vez mais bela, majestosa. De forma permanente. "E se um dia for aos nossos lugares, escutar as nossas músicas, comer a nossa comida, faça com prazer. Pois assim estarei fazendo. Com outro".
A longa carta foi entregue sem mágoas, sem piedade: era o machado do carrasco. Dada, em mãos, a ele como se existisse mais uma noite.

<$BlogCommentBody$>

<$BlogItemCreate$>

Links to this post

<$BlogBacklinkControl$> <$BlogBacklinkTitle$> <$BlogBacklinkDeleteIcon$>
<$BlogBacklinkSnippet$>
posted by <$BlogBacklinkAuthor$> @ <$BlogBacklinkDateTime$>

<$BlogItemBacklinkCreate$>

1.7.04<$BlogDateHeaderDate$>

<$BlogItemTitle$>

Tudo como antes
Gabriel Silveira
Olhou para cima e viu os raios do sol cruzarem o denso trançado verde da folhagem verde que deitava sobre o parque. Voltou os olhos para frente, depois para dentro e novamente para a frente, observando a grama muito bem cortada que costeava o chafariz central. Puxou a carteira de cigarro do bolso com a mão direita. Usou a esquerda para guardar a carteira e riscou o fósforo observando atencioso o queimar lento, pretensioso que estralava. A fumaça desenhava seus pensamentos no céu, contornando as nuvens enegrecidas pelo crepúsculo que cheigava boicotando o dia e nada mais era certo como antes; tudo era complexo e discutível.

Escutou os murmúrios do chão. Alguém dava passos lentos na sua direção, quebrando, sem dó, os galhos caídos parque afora. Os ventos uivavam sobre as estátuas, dando vida às pedras mortas, e o sereno amadurecia nos cantos do céu, quebrando nos versos simples da ousadia urbana. Aos poucos, na trégua do lusco fusco, o visitante mostrava seu rosto, até que ele percebeu tratar-se de Virgílio. Sorriu. Com as duas mãos, ergueu-se chegando até um extremo do banco de madeira frisada e desgastada pelo medo da noite. Ao lado dele, Virgílio sentou-se. A alegria lhe contaminou o coração. Virgílio disse, sereno, confiante, "estou de volta e há muito mais para aprender agora. Vem, os alaúdes estão a tocar nos vales verdes; as flores estão desabrochando nas beiras do infinito; a passagem terminou, é chegada a hora de subir o degrau, caminhar em frente, sobrevoar a evolução". Ele fechou os olhos e seu coração chorou em nostalgia breve de sua vida humana. Mas a felicidade que a sabedoria de Virgílio exalava, o brilhar incessante de sua pureza fizeram-lhe sorrir e acreditar. Virgílio botou a mão em seu ombro. Ele deixou de olhar para frente, olhou para cima, voltou a olhar para a frente, a grama rasteira, com mais beleza do que antes, e só então olhou para dentro, perdeu-se no encontro, almejou o que já tinha e viveu eternamente.

<$BlogCommentBody$>

<$BlogItemCreate$>

Links to this post

<$BlogBacklinkControl$> <$BlogBacklinkTitle$> <$BlogBacklinkDeleteIcon$>
<$BlogBacklinkSnippet$>
posted by <$BlogBacklinkAuthor$> @ <$BlogBacklinkDateTime$>

<$BlogItemBacklinkCreate$>