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Última chance
Guilherme L. Póvoas
Depois do chá, ela era o que mais aquecia aquele carrancudo velho. Ora despojado, ora envergonhado, só tinha uma pretensão: fazer a moça feliz, dando prazer a ela, mesmo quando tal pele jovem servia de cobertor. Aquém dos defeitos, ele era um intelectual do amor, pois aqueles óculos também serviam para olhar o coração. A voz rouca do homem, poluída, servia-lhe como caixa acústica para pensamentos joviais, maduros, inteligentes e alentadores. Quando falava com medo, notava-se a vergonha em seu semblante. E cada cacoete, trejeito ou erros natos, sua companheira lapidou a bel-prazer, até deixá-lo a contento.
Esta vida a dois era nova a ela, mas não ao ancião. O idoso não chegara nem aos trinta, ainda tinha virilidade e força, apesar dos cigarros. Ou seja, de velho nada tinha, senão uma idéia eterna: depois de tanta gente, a jovem ao seu lado era sua última esperança para o amor. E, infelizmente, neste mundo contemporâneo, isto é atestado de velhice. Que bom!
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