Carta a ti
Gabriel Silveira
Que ironia há no conteúdo desta carta. Depois de tantas poesias, tantos agrados, tantas palavras bonitas, venho escrever-te, agora, com um único objetivo: vingar-me. Vingar-me pois nada mais é declarar o meu amor do que massacrar a tua piedade inerente que dentro de ti carregas. Sei que a cada elogio a ti que despejo, arranco tuas escamas de compaixão, sangro-te a alma, expurgo-te o orgulho. Sei, que a cada beijo que te peço desfaço tua máscara, ausento tua lábia, corrompo tua volúpia. Sei e por isso o faço, agora: para vingar-me. Mas não sou, e nunca o fui, um homem vingativo. Sou, sobretudo, um romântico antiquado e, tendo minha nobre honra arranhada por tua inóspita forma de encarar o amor, os ventos lúdicos, as harmonias de Vênus, resguardo-me ao direito púdico de sacrificar-te, ao menos por alguns instantes, para que tu possas ir ao céu com o frescor da beatificação martirizada, e eu possa despir-me à escuridão pútrida do barco de Caronte no Inferno corrompido pelo orgulho.
Pois bem, saiba que não menos do que a palavra amor poderia ser-me grifada no peito, tatuada na alma, quando me refiro a tua bela e inconstante pessoa. Saiba que não menos que a vida eterna é o meu desejo mais profundo quando estou ao teu lado e não mais do que a morte seca e dura quando estou de ti distante. Portanto, senhora dos abismos incontroláveis do amor; majestade onipotente das belezas do universo; imperatriz soberana dos ventos do infinito, não tivesse minha vida um pingo de virtude e sabedoria, agora desfacelaria-me em nada, abdicaria do respirar para adentrar o corrupto livro dos jovens mortos e penetrar nos inconscientes estúpidos da morbidez institucionalizada de nossa sociedade. Não fosse eu egoísta o bastante para ainda desejar ver-te ao léu, mesmo que a maior e mais doídas das dores me corrompa nestes momentos, me deixaria levar pelo silêncio estanque, pelo sono disforme das manhãs e das tardes, pela covardia da impunidade material, pela irracionalidade de deixar de ser quando já não se é. E não menos do que O Romântico Eterno deveria estar grifado em meu túmulo vesgo de irreconciliação. Seria só eu, como sou agora, como hei de sempre ser.
Se nos braços da virtude vier a observar-me, dá de ombros, corrompe teu sorriso e chora quieta. Não mais humilhações para mim. O mundo já se foi junto com teu sorriso e não há mais esperança para os que choram durante o dia. Não mais humilhações para mim. O último sol pôs-se ontem e o amanhã será escuro como já se mostra o dia de hoje.
És ainda a mais linda e não menos brilhante do que a mais brilhante das estrelas do firmamento.
Lembranças do teu eterno Dom Quixote, apaixonado irreconciliavel pela sobrevivência da esperança que faleceu junto a mim.
Eu.
Ps.: Não observas o pôr do sol no crepúsculo que hoje prostrar-se-á. Deixa-o só para mim, com minhas mágoas, já lhe será o bastante. Conforma-te com a eternidade do sobrepujo e deixa-me enaltecer o despir-se do último dos sóis dourados.
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