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O velho e o jovem
Guilherme Póvoas
Costumo falar das pessoas sempre julgando antes a mim mesmo. Há vezes, óbvio, em que isto não acontece. Logo que o conheci, conversei amistosamente. Era um árabe. Cara de sábio, porém trejeitos de homem moderno. Em inglês nossa conversa fluiu sobre comércio. Ele queria abrir alguma empresa relacionada à informática. Enfim, meu sacramento definitivo: mais um oriental, esquecido de suas raízes; ele vivera apenas para o hoje.
Durante todo o dia eu não estava bem. Problemas acolá desanimaram minhas virtudes. E aquele homem, um novo amigo, não me ajudara em nada, foi-se a réstia de esperança naquele dia. À noite, enquanto tomávamos café rodeados de outros companheiros ao som ruminante de conversas alheias, percebi o ambiente inóspito. Tinha de ir embora:
- Já vai, amigo? - perguntou-me em inglês, ferindo o meu fraco vocabulário árabe.
- Sim, estou indo.
- Percebi que está triste, por favor não fique assim.
- Não, apenas estou com sono - menti.
- Na próxima vez quero te ver feliz. Promete?

Incrível como me surpreendi. Aquele velho árabe sabe quando um jovem está triste, mesmo se nunca o viu antes.

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23.8.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Velho com café
Gabriel Silveira
Entregue ao suave balançar das pernas, o jornal se desdobra em fatos e histórias de ruídos urbanos. Contando o amanhecer de ídolos ou o anoitecer de sonhos, vai regendo os dias em sua retórica silenciosa de mudo orador rotineiro. Seu leitor, como se despertasse da ausência do saber a cada palavra absorvida, enche os olhos de ansiedade, franze a testa em interesse e viaja em mundos que ainda não chegaram até a sua porta, e talvez nunca o façam. Seu suspirar sereno contrasta com o ofegar intranqüilo do café ainda quente que, esquecido no recipiente de branco opaco que segura às mãos, é desculpado apenas pela promessa de lhe dar o prazer voluptuoso e amargo da cafeína. Mas nada, nada senão o discorrer harmonioso das linhas, o caminhar obediente das letras grudando-se umas a outras, roubam a atenção beata de seus olhos, em atenção lúdica e marginal ao mundo, transferindo desejos à alma que recorta pensamentos à lembrança e desperta esquecidos sabores nostálgicos de outrora. Iluminados pela doçura uniforme do crepúsculo que na alvorada tem seu fim, o nada vira tudo e o tudo vira nada repousando no disforme brilhar atencioso do sol, mestre maior, cognato único da suprema luz.

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19.8.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Máscaras
Gabriel Silveira
Desta vez haveria de vencer. Na última, incrédulo de si, desabou, crispou-se à possibilidade de dar um passo a frente. Agora havia destripado o próprio corpo, exposto seu coração ao próprio crivo astral, desvendado seus próprios segredos. Agora acreditava estar pronto, majorado, corajoso.

O sinal do interfone era seco, carcomido pela rotina. Ele cerrou os punhos, sentiu o suor expurgando o medo, detendo a tensão no peito. Ela apareceu à janela, olhou para baixo como quem reclama o passado. Ele contemplou seus negros cabelos a dançar no ar, maquiando-lhe a face como o vale que amansa o rio. Momentos de transe para ele. Sua mente ainda ditava imagens quando ela apareceu à porta, vestindo uma calça de jeans escuro e um moletom branco que lhe destacava os olhos. Há quanto tempo, ela disse e ele Tenho pensado em ti. Ela retraiu-se, seus olhos buscaram refúgios no chão. Ele encheu os olhos de lágrimas e acovardou-se Não, preciso seguir em frente, Quixote, Quixote, Quixote e disse Preciso te ter ao meu lado, por que disfarças a temperatura do teu sangue a quem sabe da tua tormenta Por que procuras na razão o sabor que está na alma, na acidez do espírito, no deslumbre do momento Assassina tua sombra, faz da tua moral um papel de anotações estúpidas, mata tuas virtudes se teu amor elas reprimem.

Ela deu dois passos para a frente e disse-lhe Nada sabes da vida se acreditas que a máscara é mais forte que o personagem; que as palavras valem mais do que a ação; que a razão é dispensável ao amor. Chorou. Então deu-lhe um beijo no rosto, tocou-lhe com os pequenos dedos a nuca sem cabelo e virou as costas para ir embora. Ele a segurou pelos ombros e pensou ah, Compsom fracassado, mostra tua face manchesca ao menos hoje e disse Não esqueças que vida é mais curta que os sonhos, que os sonhos são mais opacos que a poesia e que poesia nada mais é do que amor. Ela vibrou mais baixo, genuflexa ao chão e disse-lhe É isto que queres Que eu me entregue à morte Que eu desista de ser o que sou e ele És o que não sabes, és o que não esperas e o que não compreendes e ela Mentes, esta pessoa que pensas conhecer não sou eu, é outra qualquer de tua mente doentia que sabe triunfar quando nada há e ele retirou os passos, escondeu o rosto novamente na sombra e desistiu de assombrá-la para sempre. Ela rezou, subiu as escadas e não mais teve a companhia do mundo dos mortos.

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18.8.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Chorando a Faulkner
Gabriel Silveira
Não é, disse. Pensou sobre aquilo e nada disso é passível de vida, tudo é dissoluto em vento, quebrou mais uma vez e rogou prazeres extremos, voltou atrás e lha conservou em paz, ao menos por enquanto. Melhor não arriscar, pensou. Seguiu caminhando enquanto outros lhe diziam o rumo a tomar, dobra aqui, disse um e ele a concordar e tropeçou mais uma vez e merda de caminho que não acaba ela mesmo poderia ter feito não, não é minha culpa muito tempo gasto em bobagens? eu bobagens? achas que eu não, simplesmente não sei mais o que dizer. Atravessou o chão mole, cortou sua sombra com a humildade, cuspiou arrogância ao vento e chorou ao ver que ela partira e o que? sim fui muito lento estúpido como sempre culpa? pena isso sim é o que eu sinto e cruzou mais uma vez o oceano em nado passo, paliativo para sua pós-morte que deslizou sobre o mundo em agonia e derrota pura trancando-o ao que nada é: a verdade infinita.

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Carta a ti
Gabriel Silveira
Que ironia há no conteúdo desta carta. Depois de tantas poesias, tantos agrados, tantas palavras bonitas, venho escrever-te, agora, com um único objetivo: vingar-me. Vingar-me pois nada mais é declarar o meu amor do que massacrar a tua piedade inerente que dentro de ti carregas. Sei que a cada elogio a ti que despejo, arranco tuas escamas de compaixão, sangro-te a alma, expurgo-te o orgulho. Sei, que a cada beijo que te peço desfaço tua máscara, ausento tua lábia, corrompo tua volúpia. Sei e por isso o faço, agora: para vingar-me. Mas não sou, e nunca o fui, um homem vingativo. Sou, sobretudo, um romântico antiquado e, tendo minha nobre honra arranhada por tua inóspita forma de encarar o amor, os ventos lúdicos, as harmonias de Vênus, resguardo-me ao direito púdico de sacrificar-te, ao menos por alguns instantes, para que tu possas ir ao céu com o frescor da beatificação martirizada, e eu possa despir-me à escuridão pútrida do barco de Caronte no Inferno corrompido pelo orgulho.

Pois bem, saiba que não menos do que a palavra amor poderia ser-me grifada no peito, tatuada na alma, quando me refiro a tua bela e inconstante pessoa. Saiba que não menos que a vida eterna é o meu desejo mais profundo quando estou ao teu lado e não mais do que a morte seca e dura quando estou de ti distante. Portanto, senhora dos abismos incontroláveis do amor; majestade onipotente das belezas do universo; imperatriz soberana dos ventos do infinito, não tivesse minha vida um pingo de virtude e sabedoria, agora desfacelaria-me em nada, abdicaria do respirar para adentrar o corrupto livro dos jovens mortos e penetrar nos inconscientes estúpidos da morbidez institucionalizada de nossa sociedade. Não fosse eu egoísta o bastante para ainda desejar ver-te ao léu, mesmo que a maior e mais doídas das dores me corrompa nestes momentos, me deixaria levar pelo silêncio estanque, pelo sono disforme das manhãs e das tardes, pela covardia da impunidade material, pela irracionalidade de deixar de ser quando já não se é. E não menos do que O Romântico Eterno deveria estar grifado em meu túmulo vesgo de irreconciliação. Seria só eu, como sou agora, como hei de sempre ser.

Se nos braços da virtude vier a observar-me, dá de ombros, corrompe teu sorriso e chora quieta. Não mais humilhações para mim. O mundo já se foi junto com teu sorriso e não há mais esperança para os que choram durante o dia. Não mais humilhações para mim. O último sol pôs-se ontem e o amanhã será escuro como já se mostra o dia de hoje.

És ainda a mais linda e não menos brilhante do que a mais brilhante das estrelas do firmamento.

Lembranças do teu eterno Dom Quixote, apaixonado irreconciliavel pela sobrevivência da esperança que faleceu junto a mim.

Eu.

Ps.: Não observas o pôr do sol no crepúsculo que hoje prostrar-se-á. Deixa-o só para mim, com minhas mágoas, já lhe será o bastante. Conforma-te com a eternidade do sobrepujo e deixa-me enaltecer o despir-se do último dos sóis dourados.

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