Reaching horizons
Gabriel Silveira
Chegou no trabalho atrasado. Seu olhar estava caído, sua língua carregava o pastoso e amargo sabor do dissabor. Passou entre corpos que vagavam no ambiente petrificado pelo futuro, depois sentou-se e pôs-se a digitar. Volupiosamente discorria em temas abstrusos, pranteando copiosamente seus versos sem destino, até que procurou seus olhos uma luz no outro extremo do terreno-faida. Ela crescia, verde, brilhante, em horizonte úmido, até que tocou-lhe os lábios, derreteu-lhe a máscara e o transportou para o paralelo. Lá estavam crasculáceas brotando em cantos encantados. Ele sentiu o sabor de hortelã, depois kiwi. Sorriu. Pôs-se, então a voar entre a relva esmeralda que, mergulhada em um sei-que-tu-me-sabes, deu-lhe o frescor das manhãs, cantando-lhe minuetos da paixão, esquecidos já há muito no seu passado. Passado. Passado. Ele sentiu a palavra. Passado, falou novamente. Passado. Seus pés perderam a magia, o vento parou. A crasculácea voltou para a sombra. O hortelã caiu no amargo e o minueto transformou-se em silêncio opaco. Ele agachou-se, pediu perdão a Virgílio e disse, sincero, Ainda não está terminado, ainda não, há mais, há muito mais, talvez só um pouco mais. Virgílio expôs-se em voz e, A paciência é a virtude mais bela do homem de bem. Então pegou a sua mão, o trouxe até o mais alto posto da virtude e mostrou-lhe a imensidão da evolução. Sagaz é o homem que venceu a própria sagacidade. E deixou-o a contemplar o anil infinito das terras do futuro, as montanhas da sabedoria e os lagos da pureza cristalina. Ele ficou ali, contemplando, contemplando, chorou, voltou ao quarto, despertou e evoluiu.
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