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27.10.04<$BlogDateHeaderDate$>

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O ainda: sobre a volta da insistência
Guilherme L. Póvoas
É inevitável: insisto em alegrar-me com luzes e as esperanças alheias. Fico sabendo por uma linha de felicidade, de descontida emoção. Algum sentimento, de força púrpura da paixão, forte e insistente, melancólico mas não impotente, uniu-os de novo para o futuro definir: não mais separar dois pensamentos que se merecem tanto. Um quanto o outro. Assim como a exatidão de Marx e os cutucos de Proudhon. Pensamentos: agora, finalmente, abstratos. Quando penso na esperança alheia, é a minha vontade que reflito. Pois, nada mais é tão estimulante, na direção do amor como vontade comum a duas pessoas, quanto ser observador e agente influente na homogeneização de dois pensamentos tão cristalinos e problemáticos, como todas as coisas que beiram a perfeição. Sinto que estamos todos alérgicos e viciados a algum tipo de emoção.

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11.10.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Alguém lembou
Guilherme Póvoas
Quando mais precisou, ninguém lhe falou. Bastou ele mesmo refletir e dizer:
Tenho que ser forte,
chega de mesmos e tais.
A dois nascemos com corte,
agora não espero atar jamais.
Demorei a perceber,
já era tarde, perdi mel,
nesta noite não vou remoer,
não poderei comer o doce com pincel,
pois era uma vez. Não mais retroceder.

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8.10.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Notícias de um Mapeamento
Guilherme Póvoas
Espero novidades de um mundo distante: uma simples cidade do interior, que por eu não conhecer, mas ouvir histórias sobre, já rotulo como distante. Tal qual a bela Paris, donde julgo muito saber, mas está lá. Numa Europa tão longe. Espero novidades de um trabalho com calhaus. De uma pessoa que com isso agora estuda. Sinto falta do ato de estudá-la.
As notícias de um mapeamento teimam em não vir. A fonte é distante, mas esbanja credibilidade. Porém o veículo não cumpre o papel que desejo: é apenas um telefone.

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4.10.04<$BlogDateHeaderDate$>

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O corpo que perdeu a cabeça para o passado
Gabriel Silveira
Bolhas e mais bolhas infinitamente dispersando-se pelo indispersável amor das comunhões do destino. Via tudo girando como antes, via tudo girando como sempre e nada era visível, somente as bolhas. Mas ele sabia o que era aquela visão do transtorno, aquele vão de escolhas, aquele não-arbítrio: era a perda final de um grande amor. Há tempos atrás, enquanto era, viu que além do mar havia terra firme e piso firme e tudo firme. E viu também que havia montanhas para serem escaladas e espaços para serem preenchidos e destinos para serem amados. Então respirou o ar seco do não azul e viu que fora havia tudo do que dentro não havia. Respirou. Mais uma vez. Gostou. De um só pulo corajoso pôs-se fora da água e caminhou, sem as companhias que gostaria mas seguiu a caminhar e caminhou e caminhou até alcançar o que nunca desejou mas que era do seu gosto e sem posto mas com esperança. E foi tamanha sua angústia do descobrir que as chamas já eram passado e ele via a luz com os mesmos olhos que tinha mas agora menos apreciados. E quando tudo parecia conquista e o passado já era península esquecida, ele a viu: uma grande lâmina, sem cor, sem alma, só luz brava, forte, impiedosa, que lhe arrancou a cabeça do corpo, separou razão da emoção, privou o nariz dos pulmões, secou a boca sem ventre. O corpo, burro, tosco, improdutivo, ficou parado no mesmo lugar, no alto da colina, sem ver, sem esfomear-se, sem sedentear-se. A cabeça desceu a picar em pedras pontiagudas, cortando-lhe a face, arrancando-lhe a beleza, rasgando-lhe a barba e em slow como são todos os prantos solitários, ela caiu e cedeu ao mundo e mergulhou em triunfante agonia no mar que já esquecera. E as bolhas lhe voltaram à mente e os sofrimentos também. E a cabeça a girar e a girar, chorando, derramando sangue e culpa e remorso sem cor e tristeza sem dó e odores sem desejo até perder-se no borbulhar infinito das dores que voltam por trás das máscaras. E o vermelho do sangue, do coração, do amor desvirtuava o azul marinho que no marinho dominava. Então ele a viu. Chorou. Cadenciou o movimento e o slow voltou ao girar e a sua mente abstraiu. E o passado passou entre os peixes. E o mar o corrompeu. Mas por que ele? perguntava. E que demônios vieram trazer-me a espada quando buscava a flor? questionava. E ficou ali, com a cabeça em transtorno. E a dor ficou e o vermelho secou nas feridas mesmo entre o mar, mesmo entre o molhado, mesmo entre o fim. E a imagem dela também: ficou, durou, eternizou em pranto. E fadinhas da paixão vieram iluminá-lo durante a noite em que padeceu da dor maior. E pela manhã do outro dia, ele ainda via bolhas e mais bolhas infinitamente dispersando-se pelo indispersável amor das comunhões do destino. Via tudo girando como antes, via tudo girando como sempre e nada era visível, somente as bolhas. Mas ele sabia o que era aquela visão do transtorno, aquele vão de escolhas, aquele não-arbítrio: era a perda final de um grande amor.

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