O corpo que perdeu a cabeça para o passado
Gabriel Silveira
Bolhas e mais bolhas infinitamente dispersando-se pelo indispersável amor das comunhões do destino. Via tudo girando como antes, via tudo girando como sempre e nada era visível, somente as bolhas. Mas ele sabia o que era aquela visão do transtorno, aquele vão de escolhas, aquele não-arbítrio: era a perda final de um grande amor. Há tempos atrás, enquanto era, viu que além do mar havia terra firme e piso firme e tudo firme. E viu também que havia montanhas para serem escaladas e espaços para serem preenchidos e destinos para serem amados. Então respirou o ar seco do não azul e viu que fora havia tudo do que dentro não havia. Respirou. Mais uma vez. Gostou. De um só pulo corajoso pôs-se fora da água e caminhou, sem as companhias que gostaria mas seguiu a caminhar e caminhou e caminhou até alcançar o que nunca desejou mas que era do seu gosto e sem posto mas com esperança. E foi tamanha sua angústia do descobrir que as chamas já eram passado e ele via a luz com os mesmos olhos que tinha mas agora menos apreciados. E quando tudo parecia conquista e o passado já era península esquecida, ele a viu: uma grande lâmina, sem cor, sem alma, só luz brava, forte, impiedosa, que lhe arrancou a cabeça do corpo, separou razão da emoção, privou o nariz dos pulmões, secou a boca sem ventre. O corpo, burro, tosco, improdutivo, ficou parado no mesmo lugar, no alto da colina, sem ver, sem esfomear-se, sem sedentear-se. A cabeça desceu a picar em pedras pontiagudas, cortando-lhe a face, arrancando-lhe a beleza, rasgando-lhe a barba e em slow como são todos os prantos solitários, ela caiu e cedeu ao mundo e mergulhou em triunfante agonia no mar que já esquecera. E as bolhas lhe voltaram à mente e os sofrimentos também. E a cabeça a girar e a girar, chorando, derramando sangue e culpa e remorso sem cor e tristeza sem dó e odores sem desejo até perder-se no borbulhar infinito das dores que voltam por trás das máscaras. E o vermelho do sangue, do coração, do amor desvirtuava o azul marinho que no marinho dominava. Então ele a viu. Chorou. Cadenciou o movimento e o slow voltou ao girar e a sua mente abstraiu. E o passado passou entre os peixes. E o mar o corrompeu. Mas por que ele? perguntava. E que demônios vieram trazer-me a espada quando buscava a flor? questionava. E ficou ali, com a cabeça em transtorno. E a dor ficou e o vermelho secou nas feridas mesmo entre o mar, mesmo entre o molhado, mesmo entre o fim. E a imagem dela também: ficou, durou, eternizou em pranto. E fadinhas da paixão vieram iluminá-lo durante a noite em que padeceu da dor maior. E pela manhã do outro dia, ele ainda via bolhas e mais bolhas infinitamente dispersando-se pelo indispersável amor das comunhões do destino. Via tudo girando como antes, via tudo girando como sempre e nada era visível, somente as bolhas. Mas ele sabia o que era aquela visão do transtorno, aquele vão de escolhas, aquele não-arbítrio: era a perda final de um grande amor.
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