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30.12.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Verme de boca
Gabriel Silveira
Sim, um pequeno verme preso aqui, em minha garganta, disse ele, Mas como um verme? Deixe-me ver, qual verme é este, Mas não haverás de ver se é um verme destes endêmicos, cupincha das dores, frenético dos abismos, surdo, sem voz, não vê, só sente, só morde, só resta. Então o primeiro ergueu-se e cerrou os olhos com dor profunda, franzindo a testa. Gemia-lhe o cabelo que saltava do couro, chorava-lhe a pele, desfazendo-se em suor pelas ancas, pela virilha, pelo pescoço. O segundo que era ela levantou-se também, procurou por um copo de água, disse-lhe, Que posso fazer, que devo fazer?, Mas ele nada dizia, sem silenciar, só escarlatina dor, só o mesmo verbo tosco da eructação, dito arroto, este escarninho demoníaco. Então ela, o segundo, começou a bater-lhe nas costas, a tentar o tudo depois do nada para salvá-lo e, Ahh, meu Deus, que devo fazer?, mas o homem já exalava morte, já contorcia-se em desespero. E o terceiro, sua cunhada, só fazia lembrar do seu vô que morreu com algo entalado no intestino grosso, entre o ceco e o reto, pelo menos era o que diziam mas ela nem sabia o que era isso senão pelas vacas já secas sendo carneadas por seu pai qando já eram só o que restavam no pátio seco de terra aerada que consumiu sua infância. Então foi que um, dois e ele foi-se ao chão, e do mal cheiro que subiu, veio o vômito do terceiro, a cunhada, e a ação do segundo, ela, que agarrou o primeiro das asas botou-lhe com a cara já roxa virada para baixo e pôs-se a apertá-lo e apertá-lo até quantas vezes permitiu a força de seu pequeno braço de não-atleta criada no berço de uma família de sedentários, não pela riqueza mas pela preguiça, e que foram mais do que suficientes para que o verme, o quarto, que era caroço não verme, saísse, ou fosse saído, da garganta já cambiante entre o vermelho e o roxo, escarlatada como um pequeno potrilho que nasceu morto, conforme narrado nesse impróprio instante pelo terceiro, a cunhada, que já se recuperava do nojo expurgado e que punha-se de volta à rotina faladeira incapaz de sensibilidade alguma que fizesse silenciar. O primeiro se pôs rijo à frente do segundo, ela, e levando a mão em A até a boca, respirou fundo por três ou quatro segundos até, Muito obrigado, sem palavras para agradecer-te, e ela, o segundo, Por que palavras? Não eram palavras que esperava de ti. E ele saiu da cozinha e foi até o banheiro procurar por uma escova de dentes, pensando em dá-la um beijo, no segundo, ela, exatamente no segundo após lavar o verme que lhe corrompia a boca.

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23.12.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Do agora ou até quando se deve arriscar
Guilherme Póvoas
Não há nada que não possa ficar pior. E, quando está ainda pior, piorando, aí sim...aí sim a coisa piora. Ainda mais. O problema não é desistir de ter, de ser ou de fazer, mas é de não tentar. Largar ao vento a esperança alimentada pelo outro. Uma preguiça do poder. E não se conquista longevidade sem paciência. Irrita-se, chora-se, anseia-se. Pois de nada adianta querer amar, e se der ser amado, sem tornar-se condescendente, tolerante. No fim, acaba-se pedindo desculpa sem saber o porquê. Sem se estar ciente de que o buscado não é o perdão, mas é, involuntária e sutilmente, dizer "Quero ficar contigo, junto, mesmo assim, sendo assim". Venha a mim, paciência!

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forma-Q-informa
Gabriel Silveira
a forma é a beleza que informa é norma que toda forma é uma forma de ser de ser-estar no todo é norma que toda forma é uma forma de ter ver também é ter ter também é ser ser também é crer mas nem tudo é crível nem tudo é passível de ser sem ter forma nem tudo é passível quando só disforma o tudo que informa não é mudo é tudo mas este passa e com ele passam e com eles passarão outros e só o que marca é marca faca em carne fraca em goma-laca que eterniza o que eterniza marca o que marca não é a visão do passado mas a perspectiva do futuro porque o futuro é filho do passado passado criado com forma que entorna conteúdo que disforma o que era regra tudo que disforma design não é mas forma que é beleza que informa marca a história a memória a glória da imagem nos seres.

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13.12.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Notícias de um mundo paralelo
Gabriel Silveira
Foi só então que percebeu que o ônibus chegara. CEFER. Roçou a nuca com os 4 dedos longos da mão direita, enquanto olhava sonolento o vagaroso escalar dos passageiros, um a um, um, Espera, já estou a subir, e outro, Sim, mas estou a esperar, só não tenho todo o dia. Ele ficou a ver as bocas mexendo-se, beijando o ar, incessantes, até sumirem-se no vão da porta que ameaçava fechar a qualquer instante, dada a irritação em que se encontrava o cobrador. Já com a cabeça alçada à janela do ônibus, gritava sem escrúpulos que, Não será estranho se chegarmos lá à noite, cambada de vagabundos, a que respondiam os passageiros com vaias ou berros do tipo, Vai-te à merda filho da puta, quem mandou não estudar? Agora encerra-te neste ônibus e despeja tua insatisfação com os que te pagam o salário, corno?
Ele levantou o pé direito e apoiou firme no andar do ônibus. Tão logo postou o segundo sob o piso preto emborrachado, as portas entrefecharam-se quase que jogando-o para dentro do veículo. Olhou com desdém a situação, fez o mesmo para o cobrador. Ainda teve ânimo para agradecer-lhe quando catou a ficha cinza, o vt, que despejara sob a vigia dos olhos carrancudos do já famoso funcionário da empresa de ônibus. Ergueu os pés levntando a mochila com os ombros até que não lhe atrapalhasse a passagem pela roleta. Depois jogou-se no banco da janela à direita de quem vai e ficou a fitar o crepúsculo salpicado pelas luzes da propaganda que prostrava-se sobre a cidade. Ao passo que o ônibus engatou seu ritmo, a conversa tomou conta de tal forma daquele ambiente que não era possível a ele compreender o que se dizia ou que desdiziam os homens e mulheres que vomitavam assuntos, Que? Não me interessa! É, uma canalha mesmo, mas que fazer? Já sei! É câncer! O preço é muito, mas muito baixo para um importado. Ele crispu a testa como se sofresse com tudo aquilo. fechou os olhos. Levou mais uma vez a mão direita à nuca e olhou para o seu lado. Não o lado da poltrona ao lado porque estava vazia, mas o lado da dupla de poltronas ao lado, ou seja, o outro do lado do ônibus, em si, que também possuia uma das poltronas vaga mas que tinha a outra, a que desde o princípio deste entrevero buscamos, ocupada por uma menina de pele negra, certamente possuia pouco mais que a idade do belo, olhos tristonhos, roupa conservadas, não fossem as mangas que necessitavam de algumas costuras, mas que, em algo, posuia uma melancolia profunda. Aurótica, talvez. Ele despertou de seu morno fim de tarde, catou a mochila com a mão que antes roçara a cabeça e sentou-se ao lado da menininha. Qual seu nome? Rochele. Onde estão seu pais, Rochele? Meus pais? É, seus pais. Não tenho pais, moço. Ah, e para onde está indo? Olhe, seu moço, se depender do que falam na rua para mim, vou é para o inferno. Não diga isso, menina, que inferno o que? Por que pensa isso? É que fui criada por uma tia minha, lavadeira, que morreu louca faz pouco tempo. Lá ninguém quis ficar comigo, não. Fiquei é na rua, vivendo de esmola. Mas já me falaram, nem uma nem duas vezes, que sou coisa do diabo, feia assim. Outro ia um moço me chamou de marginal só porque pedi um pedaço do pão dele. E fazer o que quando se passa fome? Foi aí que um dia, enquanto dormia na rua, um homem grande veio até mim, me abraçou, eu tremendo de medo, tirou a calça e fez coisas que nem sei o que é, só sei que chorei muito mas não conseguia gritar. Foi tanta dor que desmaiei. Acordei aqui, já neste ônibus, sozinha, andando sem parar, sem rumo, sem vida. Por que não fugistes? Por que não fugistes? Por que não fugistes?

Piscou duas vezes o olho para poder ver quando acordara. Puta merda, e não é que passei do meu ponto? Lembrou da menina, olhou para o lado, nada, a poltrona vazia. A conversa havia cessado. Era o único ainda no ônibus. Ele levantou da poltrona, à esquerda de quem vem, jogou a mochila nas costas, ordenou a parada, foi até a porta e esperou. O freio, o olhar do cobrador, a porta e o olhar para a esquerda: a pequena menina sentada de costas, só ouvia-se o ruído melancólico, o choro convulsionário que não cessava. Deus do céu, ilumina esta alma sem descanso. Deu seus três passos em direção ao asfalto, pisou em terra firme aliviado e orou silencioso mais uma vez. Antes de virar as costas, ouviu o sussurro no ouvido, Obrigado por me escutar, obrigado, vou fugir, sim, tenho onde ficar, sim, obrigado.

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9.12.04<$BlogDateHeaderDate$>

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Do hoje ou até quando se deve acreditar num amor
Guilherme Póvoas
Foi sob choros, novela, beijos e abraços que ela afirmou, no auge de seu egoísmo, como se nada mais importasse: "Tenho medo de que não daremos certo". Essa era a conseqüência de recentes brigas e confusões resultantes de uma falta de comunicação recíproca, tão normal para dois jovens como qualquer outro - que chamam de mídia a TV de sua casa e denominam conversação as mensagens por celular. Porém, que resposta o rapaz deveria proferir diante de um desanimo do não lutar? Uma única era a certeza: o futuro ele não pode definir.
À frente, a retórica. "Assim como passamos bem, agora vemos uma nuvem que não a chamamos mais de distância, e sim de medo". Era comum a eles, concomitantemente, saber que a humanidade conseguia lutar pelo amor, contudo desistia fácil dele. E este amor é uma via de duas mãos que cruza uma horizontal de leste a oeste: nasce e morre sempre com o mesmo brilho crepuscular.

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