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Verme de boca
Gabriel Silveira
Sim, um pequeno verme preso aqui, em minha garganta, disse ele, Mas como um verme? Deixe-me ver, qual verme é este, Mas não haverás de ver se é um verme destes endêmicos, cupincha das dores, frenético dos abismos, surdo, sem voz, não vê, só sente, só morde, só resta. Então o primeiro ergueu-se e cerrou os olhos com dor profunda, franzindo a testa. Gemia-lhe o cabelo que saltava do couro, chorava-lhe a pele, desfazendo-se em suor pelas ancas, pela virilha, pelo pescoço. O segundo que era ela levantou-se também, procurou por um copo de água, disse-lhe, Que posso fazer, que devo fazer?, Mas ele nada dizia, sem silenciar, só escarlatina dor, só o mesmo verbo tosco da eructação, dito arroto, este escarninho demoníaco. Então ela, o segundo, começou a bater-lhe nas costas, a tentar o tudo depois do nada para salvá-lo e, Ahh, meu Deus, que devo fazer?, mas o homem já exalava morte, já contorcia-se em desespero. E o terceiro, sua cunhada, só fazia lembrar do seu vô que morreu com algo entalado no intestino grosso, entre o ceco e o reto, pelo menos era o que diziam mas ela nem sabia o que era isso senão pelas vacas já secas sendo carneadas por seu pai qando já eram só o que restavam no pátio seco de terra aerada que consumiu sua infância. Então foi que um, dois e ele foi-se ao chão, e do mal cheiro que subiu, veio o vômito do terceiro, a cunhada, e a ação do segundo, ela, que agarrou o primeiro das asas botou-lhe com a cara já roxa virada para baixo e pôs-se a apertá-lo e apertá-lo até quantas vezes permitiu a força de seu pequeno braço de não-atleta criada no berço de uma família de sedentários, não pela riqueza mas pela preguiça, e que foram mais do que suficientes para que o verme, o quarto, que era caroço não verme, saísse, ou fosse saído, da garganta já cambiante entre o vermelho e o roxo, escarlatada como um pequeno potrilho que nasceu morto, conforme narrado nesse impróprio instante pelo terceiro, a cunhada, que já se recuperava do nojo expurgado e que punha-se de volta à rotina faladeira incapaz de sensibilidade alguma que fizesse silenciar. O primeiro se pôs rijo à frente do segundo, ela, e levando a mão em A até a boca, respirou fundo por três ou quatro segundos até, Muito obrigado, sem palavras para agradecer-te, e ela, o segundo, Por que palavras? Não eram palavras que esperava de ti. E ele saiu da cozinha e foi até o banheiro procurar por uma escova de dentes, pensando em dá-la um beijo, no segundo, ela, exatamente no segundo após lavar o verme que lhe corrompia a boca.
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