Toda culpa tem todos?
Gabriel Silveira
O vigia
Recostou a cabeça suavemente na parede, adentrando o breu seco que se formava onde o poste de luz não mais podia ver. Não dormiu. Aproveitara o dia para descansar, como fazia todos os sábados em que trabalhava como vigia de ruas à noite. Já era a quinta vez que era chamado desde que se inscrevera e, levando em consideração a opinião de seus colegas, isso era sinal de que haviam gostado dele. Nada de problemas em seus turnos até agora. Talvez algum dos moradores na rua houvesse simpatizado com seu jeito obscuro, retraído. Ou talvez sua cara iracunda simplesmente lhes passasse algum tipo de segurança e pouco lhos importava se era seco, úmido, vivo ou morto. Importava que lhes fosse escudo. E pronto. Os carros que passavam faziam com que o reflexo da luz alcançasse vez em quando seus olhos, impedindo-lhe que se deixasse levar pelo sono. Tirou a mão esquerda da jaqueta, desvencilhando-a com pequeno esforço do bolso cheio de furos, e buscou a carteira de cigarro que estava no pé da cadeira. Sem a direita, ainda retirou o cigarro, colocou-o na boca, acomodou a carteira novamente ao seu lugar primeiro, descobriu o isqueiro no bolso da calça, fez uso do fogo e pôs-se a fumar. Quando tragava, tirava a cabeça do encosto da cadeira, voltando à luz e pondo-se à vista dos que passavam pela rua. Foi no terceiro tragar que viu o menino que vinha em passos lentos, sonolentos, respirando a própria mão em A. Seus olhos atentaram-se. O menino cruzou a rua em \ e acabou no outro lado da calçada em que ele se encontrava. Ele recostou-se ao breu novamente e ficou a observá-lo. Não fosse o menino negro como a noite é negra, o vigia teria notado a quantidade de ferimentos que levava no rosto. Não notou. O menino puxou do bolso uma faca, no que o vigia murmurou, Moleque desgraçado! Se, por acaso, inventa de fazer bobagem, nunca mais me chamam para o turno dobrado de sábado. Por causa deste negro vou acabar tendo que escutar sermão daquela vagabunda de novo.
O menino
Quando finalmente conseguiu emergir dos socos, não pensou em nada senão em correr. Nem precisava ter pensado em fazê-lo, bastava seu instinto de sobrevivência lhe rogar para tal. Mas os instintos são educados a partir da repetição e não era nem a primeira nem a vigésima vez que passava por tal desafeto com os meninos da Rua XV. Mas era ali, naquele bairro branco, rico, apartado que Dona Lica morava. E era ela que o ajudava com os estudos, ela quem lhe dava comida, ela que lhe dava o suporte que toda mãe, que não mãe sem mão cheia como a sua, a pobre, dá ao filho. Por isso valia a dor dos socos e dos, Negrinho de merda, que tu quer aqui, moleque? Volta pra vila!, que escutava ao longe, vindo dos meninos, enquanto corria. dona Lica sempre lhe ajudava pela noite. Precisava esperar o marido dormir, como sempre às 21h, para que não lhe impedisse de ajudar o ¿vagabundinho¿ e, depois, depois sim, lhe recebia de braços abertos, lhe acarinhava, lhe saboreava os relatos, lhe amaternava. Era por isso que, para tirar de seu rosto o sorriso de cá à lá era preciso mais que um bando de meninos racistas e sem dó. Não os tinha raiva. E naquele dia estava mais ansioso do que nunca.
A dona
Lá vem ele, pensou dona Lica. Cola de novo? E ele me disse que tinha parado. É a fome, pobrezinho. Correu em passos leves até o corredor, depois caminhou pelo corredor até o quarto. Abriu da porta somente uma fresta em I e já pôde ver o marido em sono profundo e desatencioso com o mundo exterior. Voltou até a sala no mesmo ritmo e viu pela janela que ele já estava à sua espera na porta. Viu que trazia na mão o lápis, a caneta e a régua, certamente comprados com o dinheiro que lhe havia dado ao meio-dia, enquanto seu marido se preparava para voltar ao trabalho. Então correu mais uma vez até o quarto, conferiu novamente o adormecido, que ainda parecia realmente adormecido, e foi até a porta para receber o menino. Tratava-o como um filho. Era o filho que nunca fora, pois era órfã desde os cinco, época da qual nada restou marcado na goma laca de sua memória.
O marido
Mulher idiota. Que é que anda fazendo quando durmo? Pensa mesmo que sou otário, corno? Hoje ela vai ver só. Seu plano havia dado certo, ela não percebera que estava acordado. Cerrou novamente os olhos e, entre o traçar inconstante dos cílios, ficou a espiar a porta fechada como se pudesse ver alguma coisa do que acontecia lá fora.
O desfecho
Quando o vigia ergueu-se para impedir o menino de ficar estorvando à porta de uma das casas da sua rua, já era tarde para alcançar o homem que, em menos de cinco, esfaqueou o menino, Ele esfaqueou o moleque!, e pôs-se a correr, mergulhando no breu. Quando o vigia alcançou o lugar onde o menino já era, não lhe restava nas mãos senão o sangue que escorria de tudo e o pequeno lápis, a caneta e a régua de ferro que confundira com uma faca há apenas dois minutos atrás. dona Lica abriu a porta no mesmo instante e deparou-se com o olhar temeroso, mas ainda turrão, do vigia que segurava o menino nos braço esquerdo, enquanto direito dava sustento à mão que segurava lápis, caneta e régua ensangüentados. Ela lhe desferiu um chute encharcado de lágrimas e desatou-se a xingá-lo, Já havia notado que eras um racista assassino! Esta tua cara inundada de raiva nunca me enganou! E o vigia fazia apenas proteger o rosto de outro golpe enquanto murmurava, Não, não, por favor, não, foi outro, outro. Naquele momento, o outro já deveria estar longe pela rua, primeiro lugar onde todos se escondem. O marido ouviu os gritos e descerrou o disfarce para alcançar a mulher que ainda avançava hesitante entre o menino já morto e o guarda já quase. O homem, Não faça isso, não faça! Que fazes? Que fazes? Este homem o que fez? E este menino, que houve aqui? Fala, pôrra!
O papa-defunto
Não tinha dormido quase nada naquela noite. A mesma rotina errante das suas noites: os sonhos, o acordar, a impaciência, a TV. O sono em excesso não dormia nunca. E, por isso, era só papelão quando entrou no carro para buscar o corpo naquela madrugada. Não estava dirigindo. Chegou ao local, onde os policiais colhiam depoimentos. Só vim pegar o corpo, disse ao primeiro que viu. Desenrolou dedo a dedo cada uma das duas luvas que vestiu nas mãos e prostrou-se frente ao corpo para observá-lo. Lembrou do seu filho. Quando volta mesmo do Canadá? Foi ajudado para juntar as entranhas e colocar o menino na maca. Da onde a família deste negrinho vai tirar dinheiro para pagar nosso serviço? Particular é, negrinho? Olhou ao redor e viu uma senhora aos prantos. Ah, deve ter sido ela. Gente maluca. Virou o rosto para o corpo novamente. Pensou que era daqui duas semanas que o seu filho voltava. Colocaram o corpo no carro. Desenrolou dedo por dedo de cada uma das duas luvas que tinha colocado. Que foi que houve, amigo? Perguntou ao policial que olhava o amanhecer no horizonte. Ah sabe como são esses moleques. Aposto que estava envolvido com drogas. O homem fechou a porta traseira do carro, olhou seu nome pintado na lataria, voltou o rosto para o policial e ainda disse, Um traficante a menos, um pedido a mais.
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