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Procuram-se verdades
Gabriel Silveira
O maior talento do homem é administrar seus talentos, foi a derradeira frase de seu discurso naquele dia. Seu olhar turvo de duas horas de fala incessante, medrosa por reparos que a platéia lhe pudessem dirigir, se desfez em tranqüilidade no momento em que o tos lhe saiu da boca. Pôs pé por pé na escada com os olhos baixos e o corpo levemente caído para a frente. Cruzou as mesas sob os olhares convictos de todos que estavam ali e somente depois de chegar até a porta de saída é que viu que os que ficavam estavam atônitos, sem fala, descabeçados, poderiam dizer, após aquele sermão incorrigível pelo qual foram tombados, eles e sua classe, assim o nosso palestrante o diria. Ele diminiu o passo quando alcançou a rua. A noite também já havia alcançado, seguida da chuva. Se o leitor estivesse sentado na praça que estacionava em frente ao grande American Bussiness Square, vendo a cena que agora lhos descrevo, e sendo assim tal fato seria impossível mas, digamos que por um artíficie do divino, os que o creditarem verdade, tal fato pudesse a vir realizar-se, o leitor que tivesse tal privilégio veria que a tristeza pode, sim, vir acompanhada do alívio, porque era isto que aquele ombro leve de tensão pura do nosso ilustre personagem unia entre-pólos. Gemia e libertava em cada lágrima do céu que lhe escorria no sobretudo. Foi que, depois de lavado pela chuva, e também corroído por ela, ele ousou levantar a cabeça. A pele do rosto, já tão viciada à seriedade, ousou dobrar-se: sorriu para a noite. Mas somente quando ouviu a música do outro lado da avenida, somente quando a latinidade lhe invadiu os ouvidos medrosos da idade é que sentiu realmente que era um novo homem. Olhou à direita, nada. Enquanto atravessava o caminho que lhe cruzava o destino, jogou um cigarro à boca, acendeu-o sem disfarce e entrou no bar baixando levemente o olho esquerdo. Sentiu-se um sendo todos. Tirou o sobretudo, pendurou-o na entrada e, sob o som dos metais dobrados ao romantismo e a voz aveludada do cantor que chorava lamentos, sentou-se no bar. Já bebendo, escutava a conversa ao seu lado, E não é verdade? Um dia ele haverá de cair, Mas é, dizia o outro, uma grande perda para todos nós seria, a perda da utopia é sempre uma desesperança para o povo. Pareceu-lhe honesta e absurda ao mesmo tempo o debate que travavam seu colegas de balcão. Era, simplesmente, por demais distante aquela questão. Era invejável, entretanto, que alguém que vivesse ou convivesse com o mesmo mundo que o seu, ainda pudesse pensar sobre tais questões. E eu? Que faço da vida que não me sobram estas lacunas e ainda vivo sobre o sobrepujo diário das futilidades da matéria? Então chamou a atenção dos dois, dobrando-se sobre o espaço dos outros e, Acreditariam os senhores, ousou, que eu posso vir a ser um homem morto ainda hoje? Os dois, desconfiados, juntos, E por que? Saibam que trabalho para o tal que os amigos acabam de comentar. Estou a coletar as informações que correm por aqui para lhes dar pareceres de quem são os verdadeiros inimigos, como travar a guerra cultural na América Latina. Então notou que os dois, apesar de ainda hesitantes, já coriscavam no íntimo para o assunto que lhes dourava o cinza do dia-a-dia. E que precisas saber? tomou coragem o primeiro. Somente preciso saber quais são seus nomes, identidade e ideologia política. Assim meus formulários terão alguma validade para o governo popular. O segundo adiantou-se desta vez e, tentando mostrar um conhecimento da arte espiã, tirou com velocidade a carteira e a identidade do bolso, passando-a em discreto manivelo ao seu comparsa. Este uniu a sua à primeira e o nosso palestrante, já espião, pôs-se a notar enquanto segurava as gargalhas nas entranhas para que os dois não percebessem a falibilidade de sua grande história. Anotou ambos os nomes e, antes de devolver-lhes os documentos, questionou-os sobre a qual ideologia, partido e/ou movimento eram ligados. O primeiro respondeu, ao passo que o segundo consentiu com a cabeça serem-lhe os mesmos do primeiro seus simpáticos. Eram de esquerda, comunistas, mas eram ligados a um partido de centro-esquerda, falho, comentariam. Foi neste instante, em que o ar já compartilhava algo de James Bond, KGB, CIA ou qualquer uma destas inverdades, que um grupo de três homens armados invadiu o bar, certamente enviados por algum grupo de comerciários indignados com as verdades denunciadas naquela noite por Carlos Telosco, nosso personagem e presidente da associação das indústrias siderúrgicas. Nem a música doce que ainda embalava com o ardor latino impediu os tais metralhas que, sem piedade, deram fim ao nosso ilustre personagem, presidente, palestrante e espião. Só lhe restou tempo para um grito: basta, fascistas! Os dois comparsas do espião, tomados por um ardor revolucionário, creditando ao morto um status de mártir revolucionário, sim, era isso que ele lhos era, um Che Guevara, ali, aos seus pés, pularam na direção dos três, sendo também metralhados e feitos cadáveres ao som de Nat King Cole.

O jornal do outro dia não soube explicar a relação entre Carlos Telosco e os outros dois mortos. A TV, no outro dia, não soube explicar por que Carlos Telosco foi até o tal bar. Os políticos, no outro dia, não quiseram buscar solução para seus próprios problemas. E todas as outras pessoas, que não partes deste seleto grupo de ignorantes, conseguiu chegar à conclusão de que eram três homens que sonhavam. Não se sabe com o quê. Sabe-se que sonhavam. E isso bastava.

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8.3.05<$BlogDateHeaderDate$>

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De a um literato
Ler, lido, já visto, corrigido. Agora revisto. Depois de deleitar-me nas linhas Etéreas fiquei com uma sensação inexplicável. Porém respaldável. Assim como na música de Tom "Eu sei que vou te amar", os menos abstratos e mágicos não conseguiriam entender de como, qual fórmula, tem-se para saber que vai se amar. Mais forte ainda, por toda uma vida. Mas, como não se precisa de explicação plausível no mundo material para este tipo de coisa, minha afirmação sobre a obra de Saavedra (o Gabriel, não Márquez, mas quase lá) é: "Eu sei que vai vingar".
Se fosse necessário expor o porquê da qualidade, seria suspeito para falar. Mas eu sei.

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Loá, a índia escrivã
Guilherme Póvoas
Recém havia aprendido a escrever. Não o seu nome, este ela já rabiscava desde pequeneninha, mas a escrever frases grandes, senteças. Tinha começado a pouco. Ganhou uma caneta de sua mãe como incentivo. A jovem indiazinha cunhou em si a obrigação de expor seus pensamentos. E como criança não tem pecado, e não costuma esconder as coisas que aos adultos são sujas, a menina inventou um jeito informal de mostrar o que aprendera com sua ainda curta vida de gente e de escritora: saia por aí a escrever em qualquer lugar tudo aquilo que vinha à cabeça. Não era a vivente mais conhecida da cidadela, mas era aquela com quem as pessoas mais corroboravam.

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