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Assim se faz a dor
Guilherme Póvoas
Sentei com meu coração. Não que ele se ausente, mas desta vez, como algumas outras, estava falando. Eu me sentia responsável por cada ferida dele. Cada angústia, incerteza, fraqueza e impotência - tudo aquilo foi ocasionado por mim. Era como se o mundo tivesse sido destruido por um asteróide gigante e a única coisa viva que sobrou, uma árvore, fixasse o olhar neste asteróide. E com paciência o encarasse. Fiquei com pena: "Pobre coração, meu contentamento não contenta ele". Meu órgão estava estafado, no chão, ao meu lado, vermelho como o coração do amor é, mas desta vez, vermelho de raiva. E eu, vermelho de vergonha. Num suspiro de insatisfação e monotonía, resolvi encará-lo um pouco mais. Então, ele me observou com olhos de compaixão, carinho e pena: as minhas principais características. Logo ele disse:
- Sou eu que lhe causo dor. Pelo menos a verdadeira dor, a do amor. Pobre de ti, ser humano, que aprendeu a conviver comigo.

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O espelho do passado
Gabriel Silveira
Em passos secos e medrosos adentro a casa. Aperto a mão de minha mãe. Ela não nota. A outra mulher pede que entremos na cozinha. Minha mãe obedece, manda-me fazer o mesmo. Tenho medo. Depois a sigo, escondendo-me atrás dela. Confio em minha mãe, mas não sei o que há lá dentro. Elas discutem assuntos em uma língua que não conheço. A mulher dobra o corpo levemente à direita, tentando expiar-me. Ainda escondo-me. A mulher levanta os olhos para minha mãe com ar ressentido e balança a cabeça em sinal de afirmação. Não gosto daquela mulher. Tem estatura média, pouco mais alta que minha mãe, um lenço jogado sobre os ombros, cabelos negros que brotam para depois escorrerem sobre as orelhas, tocando os ombros com leveza. Suas pernas grossas, ranhuradas de varizes, saltam das saias longas e negras, para terminarem em dois grandes pés socados em sandálias de couro escuro, gasto e mal limpo, que parecem mal-cheirosos para mim, apesar de nenhum cheiro estar sentindo, maltratado pela renite que estou. Levanto os olhos solícitos para minha mãe e ela entende que peço perdão por meus atos, que o que mais quero é ir para casa, ser um menino bom e deitar ao sol nos domingos para vermos o horizonte. Ela relaxa as sobrancelhas em sinal de compreensão, mas logo arremessa por terra minhas esperanças: - Vai ser bom pra ti. Não te preocupes, filho.

Agora jogo um olhar raivoso para a tal mulher. Ela dá as costas para mim, vai até a pia lavar as mãos velhas e cheias de anéis. Depois volta, desgarra-me do esconderijo com muita dificuldade e põe suas duas mãos sobre minha cabeça. Enquanto ela diz algumas palavras que não entendo, procuro a saia de minha mãe com a mão direita. Depois as palavras vão me deixando sonolento, sonolento, até que me sinto possuído por uma estranha tranqüilidade. Eu sorrio, a senhora devolve-me a simpatia e me conduz pela sala, até um pequeno e estreito corredor. Leva-me até a primeira porta, deixando-a aberta para que eu entre. Olho para trás no corredor e minha mãe está a observar, com um sorriso estampado no rosto. Devolvo-lhe e volto os olhos para a sala que está tomada pela escuridão. Vejo que, no fundo dela, um grande espelho revolve a pouca luz que entra do corredor. A senhora empurra-me levemente para que eu entre na sala. Obedeço. Escuto a porta sendo fechada. Não tenho medo. Dou passos firmes até o espelho. Ele persiste iluminado, mesmo sem a luz de fora. Vejo a mim mesmo. Penso que são imagens fortes para uma criança. Vejo a mim mesmo no futuro. Sei que sou eu. Vejo em meus olhos envelhecidos, a dor terrena. Vejo na pele as marcas do calejar sereno das decisões, nas sobrancelhas a maturidade do tempo e da virtude. Vejo nas lágrimas o que sou hoje, um menino com medo do mundo. Aos poucos, o espelho mostra-me milhares de cores, transformadas segundo a segundo. Vejo faces de tantos conhecidos, meu querido pai, minha nobre mãe, meus irmãos. Seus rostos estão sempre felizes e me mostram passagens alegres, casamentos, aniversários, viagens. Do arco-íris de cores, porém, passa à escuridão total. Vejo a morte. Não a compreendo. Ela vem em todas as faces, a levá-los como em predestino comum. Ajoelho-me em frente ao espelho e banho-me em lágrimas sem fim. Volto a levantar o rosto e o espelho me reflete. Vejo um menino jovem de sete anos, olhos vermelhos, úmidos de dor, pequenas mãos sujas do chão da sala, vestindo somente um blusão vermelho com preto, uma calça azul jeans com joelheiras de couro e cabelos castanhos brincando de rebeldia. O menino chora-me. Depois abre um sorriso, desperta um brilho e me dá esperança. A porta se abre, volto-me para ela. A luz branca ofusca minha mãe. Ainda assim vejo seu sorriso. Corro até ela, que me abraça cheia de compaixão. Depois volto os olhos para o espelho novamente. O menino se foi, voltou para minha lembrança, para meu ontem. "Já passou, já passou", diz minha mãe.

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