Outro sonhador
Gabriel Silveira
Torceu o pescoço para ver quem o seguia. Sua pele enrugou-se na nuca. Os olhos vermelhos, cansados do navegar sereno por todas as direções, agora se dedicavam a somente um ponto: o cabelo cinza e negro, os fios grossos e texturizados que escorriam daquele ser sem mente, forma sem alma, dor corporificada na sombra e no pó. Seus olhos amedrontaram-se mais. Tentou acordar. Depois pressionou uma mão contra a outra, forçando-as até que se estralaram entre si, não os dedos mas as próprias mãos, seus ossos a estralar, quebrando-se em movimento ritmado. Depois virou o restante do corpo, mantendo a cabeça onde estava, e pousou as mãos banhadas em sangue sobre os ombros, utilizando-se, para isso, da força dos braços já que as mesmas já haviam perdido totalmente o movimento que lhes são próprias. Ficou ali, em posição inócua e por certa inconstante, até que o outro que ainda lhe mirava começou em passos lentos a se aproximar, dando ares de que propunha em olhares o fim, propunha em som o escrutínio do dia final. Enquanto o verme se aproximava de cabelos longos escorridos, vestes brancas escorrendo-lhe pelo corpo, as mãos quebradas prostradas pelo ombro não deixavam de sangrar. Pelo contrário, em hemorragia intocável elas começavam a jorrar o sabor da vida e da morte, o sabor da vida morte, até transformar o ombro em uma única e uniforme massa rubra cheia de bolotas grossas de consistência farinhenta que, certamente, lhe brotavam junto das veias sujas cheias de dor e podridão, frutos corruptos da vida que levava. Aos poucos, mãos e ombros começaram a fundir-se, consumindo-se em um único grande bloco de pelo, osso e sangue, vida morte. O demônio, já colocado de quatro aos pés do primeiro, lambendo-lhes os pés cheios de sangue, lambendo-lhe as entranhas, as pernas sujas, a coxa crespa de pele, saboreava o espetáculo, tirando-lhe a vida em doses pequenas, em parcelas intermináveis de sofreguidão. O escárnio dos céus pousou no centro da terra. Seus cotovelos ergueram-se, as mãos grudadas sobre os ombros voltaram a ter seus ossos quebrados e, enquanto berrava a da dor que sentia arrancando-lhe a alma, seus braços começavam a abrir-se ainda mais, esticando-se e esticando-se até começarem a criar grandes penas que lhe brotaram de todos os lados do braço e foram pousando verticalmente, formando uma camada uniforme, uma verdadeira asa que lhe fez, de vítima, um anjo. Que lhe fez, de réu, um juíz. Soltou mais um grande berro, este acompanhado de uma enorme luz que brotou do céu e caiu como uma onda de lucidez e frescor, lho enxurrando de divina luz. O verme secou, soltou o verbo do medo covarde, esbugalhou os olhos negros e fugiu como um rato, desviando da luz que o céu disparava. O outro, o anjo, abriu os olhos depois da dor, apresentando duas grandes esferas azuis, contemplou-se a si mesmo no reflexo do sangue que ainda lavava o chão e acordou.
Jorge levantou da cama ao escutar um barulho. Correu até a porta do filho e, vendo-o sentado na cama, disse-lhe, "foi só um pesadelo, filho, só um pesadelo". O menino cessou o choro, olhou-o firmemente com os mesmos olhos azuis e afirmou-lhe, "papai, virei um anjo".
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