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23.5.05<$BlogDateHeaderDate$>

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O pateta e a empáfia do pateta
Gabriel Silveira
Esconjurado eu, o pateta dos patetas. Jogado ao léu pelo vento, choram de rir os demônios do monte leste, gargalhando a empáfia do pateta. Depois torcem o nariz, dançam cercando-se de utopia e voltam a gargalhar, apontando-me a falsa alegria. Eu giro o corpo caído de cabeça para a terra, ergo-me sobre as mãos esfoladas e miro o chão a chorar. Das lágrimas faz-se broto e me alimento. Depois giro para os demônios que esfolam-se uns aos outros em bacanal de vitória e grito: - Morcegos do submundo, deixem-me sonhar! Deixem-me sonhar! Não vêem que aqui desmorona um coração?

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21.5.05<$BlogDateHeaderDate$>

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Arriesgando
Gabriel Silveira, para ela
Gérberas sem mim é só.
Porque mim, sem ela, sou um.
Elas, sem um, é ela.
Nós, em um, somos gérberas.

Pétalas são dor e riso.
Sem riso, é triste a dor.
Riso é dor tão triste,
quando vai, voando em pétalas.

Aroma de eu-ca-lip-to.
Lips sabor de tu.
Your lips in my lips,
eu cap-to o aroma.

Sabia que eu sabia?
Até iria, mas não disse.
Hoje, sabia que eu,
se te tivesse, te sabia?

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17.5.05<$BlogDateHeaderDate$>

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O conselho
Gabriel Silveira
Certa feita, em uma das esquinas do labirinto da vida, encontrei Deus, à beira do mar. Ele sabia de tudo que eu havia enfrentado, como era de se esperar, e ordenou que eu fosse até o mar e provasse da água do destino. Eu obedeci e fui até a margem, represando a água entre minhas duas mãos. No mesmo instante, fiquei fascinado pelas inúmeras nuâncias de colorações, escondendo os brilhantes que navegavam por entre as veias do suco azul segurado em minha mão. Era mesmo como se tivesse, em meu poder, um pequeno pedaço do paraíso. Rapidamente, levei o suco até a boca e provei do destino. Quando voltei a abrir os olhos, poucas gotas ainda sobravam, enquanto o restante esvaia-se por entre meus dedos. Desesperado pela perda de tamanha doçura, pus-me a chorar, o que só fazia aumentar a velocidade com que a felicidade se atirava ao mar. Em lágrimas, voltei o rosto, mirei a Deus e perguntei: - Mas como? Pediste-me para provar do amor, mesmo sabendo que eu não conseguiria contê-lo? Ele sorriu, mostrou os dentes amarelados e respondeu-me: - Então não vês o infinito de beleza em tua frente? Vai, filho, mergulha!

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1 d.J.
Gabriel Silveira
O silêncio, hoje, gritou a tua falta.

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15.5.05<$BlogDateHeaderDate$>

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A menina do lago
Gabriel Silveira
Sou menor do que pareço. Chego caminhando sozinho, metade de mim, em passos menores do que minha menor perna permite. A casa é toda cercada de vida verde. Coloco os olhos no grande portão e não são precisos mais do que alguns segundos para que uma mulher alta, com um longo cabelo a lhe escorrer da cabeça, venha me atender. Sem observar-me, abre-o, estende-me a mão e depois volta a fechá-lo. Eu, menor do que pareço. Ela volta a se virar para o lado de dentro do jardim, que agora se prostra sobre meus olhos medrosos. Minha pequena cabeça procura o céu, encontra. A mulher da mão que me guia é carinhosa, mas vai me condenando ao destino a cada passo que procura com seus pés leves. Contornamos a casa e vamos caminhando pela grama verde, pulverizada de borboletas e pássaros de todas as cores. Meus olhos buscam algo que não conheço. Sou menor do que pareço. Aqui, o verde parece ter absorvido o mundo. Tudo é tão verde que somente os animais e o ar, de tão leve, parecem livres dele. Minhas pernas tremem, não compreendo. Paramos. A uns poucos metros de mim, há um pequeno lago. Verde. Envolto pela vegetação, parece respirar absorto pela natureza. Possui uma beleza modesta como a dos humildes. De costas pra nós, virada para o lago, uma menina de cabelos negros que lhe brotam uniformes, vestindo apenas uma túnica branca, procura diversão em jogar pequenas folhinhas no lago, que as consome lentamente. Ela está sentada, o pescoço levemente inclinado para a direita, como se estivesse à espera de algo. Serei eu? A mulher coloca a mão em minha nuca e pela primeira vez escuto sua voz, disfarçada de sussurro: - Vai, filho. Não reflito. Uma energia estranha doura levemente meu sorriso. Obedeço à mulher e em passos pequenos me aproximo da menina. Ela ainda não me viu. Sigo os passos, até que falte apenas um para chegar até ela. Então ela se vira, talvez sentindo a mesma energia que eu, e conforta-me: - Oi! Sou menor do que pareço. Somos, agora, duas pequenas crianças, tomadas pela magia do verde e pela ingenuidade de nossos sonhos. Somos duas pequenas crianças, sentadas à beira do lago verde do destino. Digo-lhe que parece ser mais velha do que eu. Ela me olha com a profundidade de um desejo e responde-me apenas com um sorriso deslumbrante em alegria. Depois fala: - Sabia que estamos juntos aqui porque seremos marido e mulher? Recebo a notícia assustado e, só depois de olhar e constatar que a mulher já não está a nos observar, volto meu pequeno rosto para a menina e: - Mas não somos muito jovens? Ela se desfaz em sorrisos, tão graciosos que me convencem a fazer o mesmo. Depois me mira com a mesma doçura de antes e me explica que não, agora somos jovens, mas quando a hora chegar em nossas vidas o destino nos unirá em uma única aura de amor e felicidade. Eu apenas sorrio. Ainda sou menor do que pareço. Então me apoio nos pequenos braços para me esticar até seu rosto e beijá-la na face. - Meu nome é Juli, ela diz. Olho feliz pra ela e respondo, arteiro: - O meu é Romeu.

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Prometo que já vou
Gabriel Silveira, a minha Juliana Julieta
Por que já vai, se mal chegou?
O que, afinal, há no teu destino?
Que força move tuas doces pernas
se não as do carinho com que minhas
mãos as confortam?
Por que já vai, se mal chegou?
Tocou-me a boca em segundos,
pra logo disparar contra o mundo
em tua ânsia de liberdade;
disparar contra um mundo que
não te ama como eu.
Por que já vai, se mal chegou?
Se teus olhos já criaram
nos meus o retiro da paixão,
se meu peito já é porto aberto
pra tuas esperanças?
Por que já vai, se mal chegou?
Por que não morde-me mais uma vez
o peito? Por que não arde-me mais
uma vez o ventre? Por que não
enxagua, uma última vez, meus olhos?
Por que já vai, se mal chegou?
Já vai, se tão bem chegou?
Por que já vai?
Por que não vou?

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14.5.05<$BlogDateHeaderDate$>

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Tornado Corbellini
Gabriel Silveira
Como vim parar em meu destino? Pergunto antes de escorar ambos os braços sobre os joelhos. Conforto o queixo sobre as mãos e fico a observar, just looking for. O horizonte brinca com a brisa boba a lhe bordar borboletas e eu aqui, desenhando versos mudos de um amor sozinho. Eu-ca-lip-to. Minha boca chora verde doce. Passo os dois dedos da mão esquerda na testa, seco a melancolia. Hoje o céu caiu mais cedo. Lá no fim do mundo, um uivo parece imitar-me o choro. E o pôr-do-sol enrubesceu demais antes de dar lugar ao negro. Voam alguns segundos que são minutos. O mundo é preto. Ou peças pregadas ou devaneios de luz, surgem coriscos de alma a brilhar no horizonte. Vêm cortando o olhar, indiferentes como uma quarta-feira. Eu-ca-lip-to. Uma brisa, disfarçada de vento, vem jogar-me o sabor cheiroso das folhas do campo. E os poucos coriscos viram centenas. E as centenas viram milhares. E os milhares viram todos. Rebento da natureza, vem ao longe o dançar feroz de um tornado. Tornado. Meu rosto é vítima. Sorrio. Ele, ao longe, a devorar os caminhos, refazer os destinos, repicar lamentos da existência. Potência latente de luz, fomento divino de energia, encerra o tempo em segundos, e a terra ajoelha-se em sua presença. Um mar de terra e vento, deserto de um tormento fazendo do espaço terra firme, da terra firme espaço. A emoção chora-me. Eu-ca-lip-to. A voar nos céus, o mundo. E o torvelinho onipresente negando-me o ar, dispensando-me o peito. Eu, seguro apenas em mim, com os pés a voar. O resto já não há. Ele beija-me a face por um, dois, três, antes de me jogar ao centro, fazer de mim bola de fogo, orgasmo múltiplo, joguete do amor. Primeiro o desejo, depois o amor, o silêncio, o fim. Acordo ao léu. Não há mundo. Só brisa muda. Só tempo seco. Abro os olhos e murmuro em lágrimas: o vento levou o meu destino.

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13.5.05<$BlogDateHeaderDate$>

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Vozes
Guilherme L. Póvoas
Começou a falar, a gritar e a expurgar diante dela. Falou, gritou e expurgou. Tudo! Até demais. E, então, sofreu as conseqüências. Ouviu tudo de toda ela. E por ela. Enquanto escutava, coisas novas e velhas, refletiu senão teria sido mais sábio ficar calado - pelo menos em relação aos gritos. Mas era, já, deveras tarde. A moçoila continuava, impávida e com seu orgulho ferido, os disparates contra ele, falando verdades também, claro. Porém, com o coração inverossímil. O rapaz, do outro lado, agora na defensiva, atrapalhava-se, dizia-se e contradizia-se. Talvez fosse o vinho, desta vez chileno, mas não o era. Não desta vez. Deitado, com a cabeça encostada no travesseiro, ele continuava a ouvir detalhes sobre a sua pessoa. E por mais que tentasse, não, "ela não conseguirá arrancar o amor de dentro do meu coração. Não, pelo menos, pelo ouvido".

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9.5.05<$BlogDateHeaderDate$>

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Outro sonhador
Gabriel Silveira
Torceu o pescoço para ver quem o seguia. Sua pele enrugou-se na nuca. Os olhos vermelhos, cansados do navegar sereno por todas as direções, agora se dedicavam a somente um ponto: o cabelo cinza e negro, os fios grossos e texturizados que escorriam daquele ser sem mente, forma sem alma, dor corporificada na sombra e no pó. Seus olhos amedrontaram-se mais. Tentou acordar. Depois pressionou uma mão contra a outra, forçando-as até que se estralaram entre si, não os dedos mas as próprias mãos, seus ossos a estralar, quebrando-se em movimento ritmado. Depois virou o restante do corpo, mantendo a cabeça onde estava, e pousou as mãos banhadas em sangue sobre os ombros, utilizando-se, para isso, da força dos braços já que as mesmas já haviam perdido totalmente o movimento que lhes são próprias. Ficou ali, em posição inócua e por certa inconstante, até que o outro que ainda lhe mirava começou em passos lentos a se aproximar, dando ares de que propunha em olhares o fim, propunha em som o escrutínio do dia final. Enquanto o verme se aproximava de cabelos longos escorridos, vestes brancas escorrendo-lhe pelo corpo, as mãos quebradas prostradas pelo ombro não deixavam de sangrar. Pelo contrário, em hemorragia intocável elas começavam a jorrar o sabor da vida e da morte, o sabor da vida morte, até transformar o ombro em uma única e uniforme massa rubra cheia de bolotas grossas de consistência farinhenta que, certamente, lhe brotavam junto das veias sujas cheias de dor e podridão, frutos corruptos da vida que levava. Aos poucos, mãos e ombros começaram a fundir-se, consumindo-se em um único grande bloco de pelo, osso e sangue, vida morte. O demônio, já colocado de quatro aos pés do primeiro, lambendo-lhes os pés cheios de sangue, lambendo-lhe as entranhas, as pernas sujas, a coxa crespa de pele, saboreava o espetáculo, tirando-lhe a vida em doses pequenas, em parcelas intermináveis de sofreguidão. O escárnio dos céus pousou no centro da terra. Seus cotovelos ergueram-se, as mãos grudadas sobre os ombros voltaram a ter seus ossos quebrados e, enquanto berrava a da dor que sentia arrancando-lhe a alma, seus braços começavam a abrir-se ainda mais, esticando-se e esticando-se até começarem a criar grandes penas que lhe brotaram de todos os lados do braço e foram pousando verticalmente, formando uma camada uniforme, uma verdadeira asa que lhe fez, de vítima, um anjo. Que lhe fez, de réu, um juíz. Soltou mais um grande berro, este acompanhado de uma enorme luz que brotou do céu e caiu como uma onda de lucidez e frescor, lho enxurrando de divina luz. O verme secou, soltou o verbo do medo covarde, esbugalhou os olhos negros e fugiu como um rato, desviando da luz que o céu disparava. O outro, o anjo, abriu os olhos depois da dor, apresentando duas grandes esferas azuis, contemplou-se a si mesmo no reflexo do sangue que ainda lavava o chão e acordou.

Jorge levantou da cama ao escutar um barulho. Correu até a porta do filho e, vendo-o sentado na cama, disse-lhe, "foi só um pesadelo, filho, só um pesadelo". O menino cessou o choro, olhou-o firmemente com os mesmos olhos azuis e afirmou-lhe, "papai, virei um anjo".

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Eco do último círculo na Terra
Gabriel Silveira
Rebento das trevas, correu com o braço manco como era manco seu pensamento. Com a pele mordiscada pela miséria, poço fedorento de álcool, torceu o olho manco em direção ao manco tempo antes de precipitar-se ao chão, fazendo do sangue chão e do chão textura óssea, cortando em verbo seco sua dor agonizante. Passasse um ou outro seria chutado. Mas só lhe chutava, das entranhas, a agonia da última noite, da última das últimas noites, querendo bufar em vômito. Escorou a mão boa na pedra gelada e o olho saltou a capturar quem vinha. E vinha freira preta e branca, ícone do falso, que, como todo dominó equilibrado no falso, vem a quedar ao passar do tempo. Apareceu-lhe como que para salvá-lo. A boca em catequese chamou-lhe ao perdão. ¿O que tens, filho?¿, perguntou a endeusada. Sem ter consciência do pus de inferno que era, sem ter na vista o véu do crepúsculo matutino que sempre há, levantou a cabeça e traduziu à mulher, em uma única fala manca, a melancolia que lhe doía no corpo: ¿Me ajuda, moça. Acho que me arrancaram o coração¿.

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Soberano de mim
Gabriel Silveira
Qualquer que seja este lugar em que agora chego, chego eu. Abaixo do pé, ainda a terra batida que sempre me acompanhou, lembrando-me do sujeito homem que sou. As pernas em sangue sem cor definida e o cheiro de queijo podre das feridas estampando a derrota de tanto e a vitória do tudo. À frente, o infinito. Vejo o mesmo em ambos os pólos do horizonte, de leste a oeste. Meu olhar é firme. Seco. A cada piscar de olhos, tua imagem me visita, provoca-me o passado. Serve-me para esboçar a esperança, lavar de terra o rosto em lágrimas e engolir seco o medo do porvenir. Um, dois, três passos. Sobre meus olhos, um véu úmido de lembrança lacrimeja serenando minha visão. Corto o tempo e recobro teu sabor vermelho de morango. Morango. Desperto e caminho ainda mais. O passado alimenta o futuro como o amor alimenta a vida: com a fome. Vou até o centro de minha encruzilhada. Cruz. Os dedos do pé se comprimem, apertam as feridas contra a terra empedrecida. O medo. Volto a ser o menino sério, com lágrimas estancadas pela vergonha, sentado à beira do futuro, com medo de ousar falar, de ousar sonhar demais. Ainda o mesmo medo. Ainda o mesmo silêncio. Uiva. O vento uiva. Uiva a vida. Quebra-me a face, congela-me cada broto de cada veia de sonho. Depois me suga o peito, arranca-me o egoísmo e vai embora, jogando meus pensamentos ao léu, doando minhas virtudes a cada menino que encontra sem mão alheia. E agora? São quatro caminhos de um mesmo caminho. Quatro caminhos com uma mesma nascente e um mesmo fim. Respiro contra o tempo, desengano meus passos e ouso olhar para cima. E por que não para cima? Por que não para a liberdade? Um fausto observa sorridente minha descoberta. Miro-o sem dó e com minhas próprias mãos sujas de terra, faço pedaços do cordão de vida, umbilical, que me prende aqui, à matéria. Olho minhas mãos em sangue, ranhuradas pela força e só então me sinto leve. Com um leve impulso, já sou só eu, sobrevoando meu destino. Olho para baixo e tristonho observo os meus, os que ficaram. Endureço, cesso o som e sigo soberano, pássaro imperial da eternidade.

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