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Lotah e as formigas, uma boa noite para minha princesa
Guilherme Póvoas
Enquanto o sol castigava vagarosamente Lotah, o mar carioca rugia batidas cristalinas diante da janela do quarto desta menina, que jamais gostou de verão. Quando o calor apertava, ela esperava a única pessoa da família: seu pai. Ele sempre chegava com o paletó empapado e as costas molhadas. A única saída que eles tinham era o mar, logo em frente à casa.
A filha estava angustiada. O pai havia-lhe informado de uma mudança. O Rio Grande do Sul seria o destino: iriam de uma nuvem de verão ao um sol de inverno. Pensando assim, Lotah jurava que esta viagem, para sempre, seria crepúsculo à sua vida. A promessa que fizeram ao pai era de uma fazenda, no interior gaúcho, para plantar café e "o que mais a experiência de agricultor lhe permitia". Aos 5 anos de idade, quando perdera a mãe para a tifo, Lotah só conhecera, só conversara com mais duas mulheres, suas amigas desde a infância. Agora, aos 16, era hora do adeus a estas moças. Tal coisa o conservadorismo do pai não percebia: os únicos amigos que ele tinha eram as ações do café.
No sul, a fazenda em que moraram era enorme, coisa de perder-se a si mesmo encontrando a natureza. Uma casa de três quartos, o mais belo para Lotah. Um imenso campo verde com árvores. Noutro extremo dois cavalos bem cuidados, e meia dúzia de rês. A temperatura atingira a menina de repente: nem mesmo seus cabelos, tão belos e bem cuidados em época carioca, eram lavados mais. O frio, que ela muito gostava, fez o banhar tornar-se algo raro. A sujeira a protegia do fio.
De como Lotah conseguiu amigas
Era uma solidão sem fim para Lotah. Passava o dia inteiro a andar pela casa, vez em quando saia ao campo (ela insistia em chamar de jardim) e perto da noite, esperava seu pai chegar das plantações. Numa tarde de um sol exibicionista a moça saiu a caminhar pela imensidão verde que rodeava a casa. Sentou-se perto de uma árvore. E, no mais alto id do imposto isolamento social, viu formigas, ouviu formigas. Suas novas amigas. Lotah, ali na grama seca, conversava com as formigas.
Foi uma tarde inteira com suas novas companheiras. Conversou sobre tudo: amor, obrigações, amizade e, o que mais incomodava a menina nos primeiros meses de Sul: o frio. As formigas eram azul, amarelas, vermelhas, roxas. Até mesmo verdes, difíceis de achar na grama. Lotah, sentindo o sol descer ao crepúsculo, despediu-se de suas novas amigas e voltou à casa, normal, tranqüila. Porém mágica, como sempre foi. Deste jeito, passaram-se inúmeros dias, com a pequenina parceria das formigas, distintas, fiéis. Ela via, nos coloridos bichos, um pedaço de si nas várias cores que representavam sua heterogeneidade.
Domingo. O pai, como o costume sulista o imporá, colocou água para aquecer. Enquanto preparava o chimarrão ele observará algo corrente nas últimas semanas: Lotah, olhando a grama, e falando com alguém. Era hora de tirar esta pulga da orelha:
- Filha minha, que fazia sentada no verde?
- Conversando, papai - respondeu ela, com a obviedade da inocência.
- Mas estava falando com quem?
- Com minhas primeiras novas amigas. As formigas.
- Querida - o pai se ajoelhou - sei que nem bem completou 18 anos. Está sozinha, sem mãe nem companhia...
- Papai - interrompeu ela - agora não precisa mais se preocupar com isso. Agora não mais.
Os dois foram juntos procurar estas "primeiras novas amigas" . Lotah apontou ao pai. "Olhe elas ali". Pela mão, ele levou a moça para perto da árvore.
- Viu, pai? Viu?
- Boba! - exclamou o pai sob seu grande sorriso e gargalhadas.
Assim, sem pulgas pelas orelhas voltaram os dois à casa. Um pensando ter esclarecido problemas que não apagamos depois da infância; o outro, tranqüilo: era, porque costuma ser.
De como Lotah passou a odiar o inverno
Numa tardinha, o pai voltou com o cocheiro, trazendo um grande baú. Lotah logo pensou ser mais um presente infantil. Livros para crianças, revistas ou bonecas. Desta vez, eram roupas. Mas do tipo que ela jamais vira antes: grossas, pesadas e estampadas.
- Trouxe para você, filha minha. Dizem por aqui que a palavra clemência não existirá no vocabulário do inverno deste ano - disse o pai, dando algumas sacolas de vestimentas à moça.
Animada, ela foi correndo ao quarto experimentar. Sempre se achou mais esbelta com várias roupas. "Elegância, para mim, vem com o frio". Lotah insistia em se arrumar para o nada, senão formigas.
Era estranho: as amigas coloridas estavam cada vez mais ausentes, cada vez mais com pressa. E, no primeiro dia em que a temperatura exigiu as roupas pesadas e grossas, Lotah percebeu de que nada fora avisada. Lembrou-se das aulas de ciências e do que as formigas faziam durante o inverno.
- Inverno? Eu, agora, o odeio.
A solução
Todas manhãs Lotah se arrumava à mais bela sensação para, só no campo verde do lado de fora, perceber que se ajeitava para nada. O frio tinha efeito inverso das formigas, pois a menina queria sair, ver o verde molhado, congelado. Nas horas de desespero, ela procurava o motivo da crueldade divina. "Por que as coisas são?"
Não se sabe, mas pode ter sido uma resposta de Deus. Numa tarde, depois da grama ter secado por completo, Lotah sentou-se no mesmo local onde costumava conversar com a formiga azul. Olhou para aquele imenso verde-vazio. Vira a mesma figura oca das últimas três semanas. Porém, suas pernas que pela primeira vez estavam cruzadas, acusaram: não via, mas sentia as formigas. Estavam formigando.
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