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28.6.05<$BlogDateHeaderDate$>

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Lotah e as formigas, uma boa noite para minha princesa
Guilherme Póvoas
Enquanto o sol castigava vagarosamente Lotah, o mar carioca rugia batidas cristalinas diante da janela do quarto desta menina, que jamais gostou de verão. Quando o calor apertava, ela esperava a única pessoa da família: seu pai. Ele sempre chegava com o paletó empapado e as costas molhadas. A única saída que eles tinham era o mar, logo em frente à casa.
A filha estava angustiada. O pai havia-lhe informado de uma mudança. O Rio Grande do Sul seria o destino: iriam de uma nuvem de verão ao um sol de inverno. Pensando assim, Lotah jurava que esta viagem, para sempre, seria crepúsculo à sua vida. A promessa que fizeram ao pai era de uma fazenda, no interior gaúcho, para plantar café e "o que mais a experiência de agricultor lhe permitia". Aos 5 anos de idade, quando perdera a mãe para a tifo, Lotah só conhecera, só conversara com mais duas mulheres, suas amigas desde a infância. Agora, aos 16, era hora do adeus a estas moças. Tal coisa o conservadorismo do pai não percebia: os únicos amigos que ele tinha eram as ações do café.
No sul, a fazenda em que moraram era enorme, coisa de perder-se a si mesmo encontrando a natureza. Uma casa de três quartos, o mais belo para Lotah. Um imenso campo verde com árvores. Noutro extremo dois cavalos bem cuidados, e meia dúzia de rês. A temperatura atingira a menina de repente: nem mesmo seus cabelos, tão belos e bem cuidados em época carioca, eram lavados mais. O frio, que ela muito gostava, fez o banhar tornar-se algo raro. A sujeira a protegia do fio.

De como Lotah conseguiu amigas
Era uma solidão sem fim para Lotah. Passava o dia inteiro a andar pela casa, vez em quando saia ao campo (ela insistia em chamar de jardim) e perto da noite, esperava seu pai chegar das plantações. Numa tarde de um sol exibicionista a moça saiu a caminhar pela imensidão verde que rodeava a casa. Sentou-se perto de uma árvore. E, no mais alto id do imposto isolamento social, viu formigas, ouviu formigas. Suas novas amigas. Lotah, ali na grama seca, conversava com as formigas.
Foi uma tarde inteira com suas novas companheiras. Conversou sobre tudo: amor, obrigações, amizade e, o que mais incomodava a menina nos primeiros meses de Sul: o frio. As formigas eram azul, amarelas, vermelhas, roxas. Até mesmo verdes, difíceis de achar na grama. Lotah, sentindo o sol descer ao crepúsculo, despediu-se de suas novas amigas e voltou à casa, normal, tranqüila. Porém mágica, como sempre foi. Deste jeito, passaram-se inúmeros dias, com a pequenina parceria das formigas, distintas, fiéis. Ela via, nos coloridos bichos, um pedaço de si nas várias cores que representavam sua heterogeneidade.
Domingo. O pai, como o costume sulista o imporá, colocou água para aquecer. Enquanto preparava o chimarrão ele observará algo corrente nas últimas semanas: Lotah, olhando a grama, e falando com alguém. Era hora de tirar esta pulga da orelha:
- Filha minha, que fazia sentada no verde?
- Conversando, papai - respondeu ela, com a obviedade da inocência.
- Mas estava falando com quem?
- Com minhas primeiras novas amigas. As formigas.
- Querida - o pai se ajoelhou - sei que nem bem completou 18 anos. Está sozinha, sem mãe nem companhia...
- Papai - interrompeu ela - agora não precisa mais se preocupar com isso. Agora não mais.
Os dois foram juntos procurar estas "primeiras novas amigas" . Lotah apontou ao pai. "Olhe elas ali". Pela mão, ele levou a moça para perto da árvore.
- Viu, pai? Viu?
- Boba! - exclamou o pai sob seu grande sorriso e gargalhadas.
Assim, sem pulgas pelas orelhas voltaram os dois à casa. Um pensando ter esclarecido problemas que não apagamos depois da infância; o outro, tranqüilo: era, porque costuma ser.

De como Lotah passou a odiar o inverno
Numa tardinha, o pai voltou com o cocheiro, trazendo um grande baú. Lotah logo pensou ser mais um presente infantil. Livros para crianças, revistas ou bonecas. Desta vez, eram roupas. Mas do tipo que ela jamais vira antes: grossas, pesadas e estampadas.
- Trouxe para você, filha minha. Dizem por aqui que a palavra clemência não existirá no vocabulário do inverno deste ano - disse o pai, dando algumas sacolas de vestimentas à moça.
Animada, ela foi correndo ao quarto experimentar. Sempre se achou mais esbelta com várias roupas. "Elegância, para mim, vem com o frio". Lotah insistia em se arrumar para o nada, senão formigas.
Era estranho: as amigas coloridas estavam cada vez mais ausentes, cada vez mais com pressa. E, no primeiro dia em que a temperatura exigiu as roupas pesadas e grossas, Lotah percebeu de que nada fora avisada. Lembrou-se das aulas de ciências e do que as formigas faziam durante o inverno.
- Inverno? Eu, agora, o odeio.

A solução
Todas manhãs Lotah se arrumava à mais bela sensação para, só no campo verde do lado de fora, perceber que se ajeitava para nada. O frio tinha efeito inverso das formigas, pois a menina queria sair, ver o verde molhado, congelado. Nas horas de desespero, ela procurava o motivo da crueldade divina. "Por que as coisas são?"
Não se sabe, mas pode ter sido uma resposta de Deus. Numa tarde, depois da grama ter secado por completo, Lotah sentou-se no mesmo local onde costumava conversar com a formiga azul. Olhou para aquele imenso verde-vazio. Vira a mesma figura oca das últimas três semanas. Porém, suas pernas que pela primeira vez estavam cruzadas, acusaram: não via, mas sentia as formigas. Estavam formigando.

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Juan María Posada - Ato I: a descoberta
Gabriel Silveira
Só uma massa cinza encobriria seus olhos, se os tivesse. No quarto grafitado pela escuridão, dois buracos negros, antes olhos, procuravam no negro a vida que já não mais havia. Ainda deitado na cama, Juan María pensou na noite passada. Só aí lembrou de virar a cabeça para o lado, procurar Rebeca. Nada. Já havia se ido, ou ele havia. No pouco de cinza claro que vagava no cinza escuro da atmosfera engasgada e ofegante que assombrava o quarto, Juan conseguiu ver o L reluzente que atravessava as lacunas da porta. Teve a idéia de abrir a janela. Mas não era luz, não era sol, era só cinza claro. Mesmo assim decidiu abri-la. Doeram-lhe as juntas quando forcejou para abrir as venezianas. Sem sucesso, a dor fê-lo cessar por um segundo. Depois, de surto, como se tentasse enganar sua própria agonia, forcejou mais uma vez abrindo caminhos para o cinza claro que irrompeu da rua, iluminando-lhe as costelas e o crânio. Por um segundo, pensou ter aberto um sorriso quando banhou-lhe o frescor da rua. E ainda levou um minuto inteiro até dar-se conta de que o frescor não existia. De que o cinza claro era sinal de não-sol e de que o ar, apesar de mostrar-se presente no vento que desbancava as folhas cinzas no campo morto, não lhe impregnava as narinas, não entrava-lhe peito a dentro, não lhe alimentava de vida. Não pôde fechar os olhos. Muito menos desfazer o sorriso. Então mirou suas mãos que seguravam o marco de madeira podre da janela. Mas não eram suas mãos. Eram, sim, duas composições complexas, como fossem longas garras, dotadas de rigorosos encaixes que sustentavam longas falanges prostradas sobre os metacarpos. Ficou a observar osso por osso, engolindo-os com o tempo como se tivesse fome de uma maturação maior para todos aqueles pensamentos. Afinal, seus sentidos insistiam em lhe dizer, sim, não mais havia carne sobre seus ossos da mão, tampouco músculos, nervos, tendões e tudo o mais que nem imagino deve haver em uma mão para que funcione, se articule e cumpra com suas funções que assim são as mãos, predestinadas a servirem a seus mandantes e comandantes corporais, homens feitos de carne e osso. Gelou. Homens feitos de carne e osso? Em um só pensamento, refletiu sobre sua própria natureza. Refletiu que, se suas mãos haviam deixado de apresentar-se como desde que veio ao mundo apresentaram-se, por que não o restante do corpo não haveria, também, sofrido mutações, deformações, ou melhor, subtrações, dado que teria perdido material a ele inato, por que não? Lap-so. Virou-se novamente para o quarto. O cinza claro que descia da janela, frio e assustador como um acalanto gótico, fazia resplandecer o espelho posicionado no lado contrário da peça. Juan Maria era uma sombra negra. Deu um passo. Dois passos. Aos poucos, o cinza claro vindo da rua foi sendo barrado por seus ossos, criando a luz necessária para que seu reflexo fosse visto. Mas o cinza claro ainda cruzava-lhe o corpo. O sorriso não poderia ser desfeito. Muito menos desceriam dos seus olhos pálpebras: não as tinha. Suas juntas, sem nervos, tendões, cartilagens, gritavam dor por toda sua alma. Ele aproximou-se. E mais. E mais. Até que, de um só berro, definindo a dor de uma existência em um único e sincero momento, confessou aos ventos: CAVEIRA!

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Direi-te algo
Guilherme Póvoas
Estranho foi quando me acordaram na madrugada, eu já num sono oceânico de águas profundas, para dizer que alguém me amava. Foi difícil entender pois estava sem vontade de fazer qualquer coisa senão dormir. Mas falaram umas duas ou três vezes. E, para confirmar, testando meu poder de compreensão enquanto estava adormecido, queriam confirmação com aquela popular palavrinha quebrada no fim da frase: "Tá?" Espera! Alguém me ama e devo saber disso durante meu sono na madrugada, no momento em que sonho com superficialidades como tempos melhores para o meu time? Demorei a perceber que era algo importante e que, de tão importante, deveria ser dito ali, naquela hora - para isso alguém veio despertar-me.
O amor consegue, no imenso oceano do sono profundo, pescar um pequeno peixe que, de repente, me deixa consciente. Compreendo tudo:
- Te amo, tá? - disse ela. E eu, agarrado no peixe da consciência, apenas precisei responder com a verdade sonâmbula:
- Eu também.

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17.6.05<$BlogDateHeaderDate$>

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Para o futuro próximo
Gabriel Silveira
Para alcançar a felicidade, é essencial que o homem aprenda a amar a rotina. E de tal forma que tenha prazer em inventar uma nova a cada dia.

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Sonho e dor
Gabriel Silveira
zzzzzzzzzzz os dias agora choram Agora choram os dias padecendo no etéreo Etéreo mudo, seco em um mundo sem dono
Dono de cantos do divino cemitério zzzzzzzzzzz mas tem piedade de nós Nós piedosos que vivemos na injúria Injúria tosca que motiva os invejosos A invejar-nos em fracos cantos de lamúria zzzzzzzzzzz divertem-se os demônios Demônios duos que vacilam em contrapontos Contra os pontos que alegrariam-me a vida Vida de espera como a dos deuses que são tontos zzzzzzzzzzz cheiram a parideira Parideiras banhadas por rebento de outras putas Putas rebentos de dorsos mal cheirosos Buscam encontrá-lo novamente na labuta zzzzzzzzzzz escorrem as pálpebras Pálpebras onde alegria e fé não moram moram lamentos febris do que nunca vem E secam ao saber: os dias agora choram.

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16.6.05<$BlogDateHeaderDate$>

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A nascer
Gabriel Silveira
No ventre do destino, chora uma criança. Contorce os membros procurando tê-los, cega-se buscando ver, bebe buscando o ar. Mas neste ventre não há conforto. Só há um terrível e interminável sentimento de ausência, há um brusco e constante sentimento de não vida. Então ela chuta. Chuta em busca de um resposta, põe-se a exclamar o silêncio com raiva. Seu coração já é. Seu coração já pula feroz, bate em repentes disformes da ingenuidade doce e pura. Seu peito encarnado estica-se jogando o projeto de crânio para trás, força impetuosa de uma criança com medo de perecer no ventre, sem ver a luz, sem sentir o sol, o sol que ela sabe, sim, que a espera, quase ali, quase quente. Esgota suas forças. Então o calor vem de longe. Talvez de uma mão a acaricia-la, um afeto, talvez de um nobre coração a pulsar em compaixão. Deram-lhe atenção. Então a criança medrosa celebra seu pequeno feito e controla a ansiedade. Depois chora, como se pudesse. E aprende a paciência. Aprende o tempo. Aprende a escuridão. Terá fome?

Agradecimentos ao Jornal O Pioneiro e à amiga Fernanda Obregon pela citação de oLiterato em reportagem sobre blogs de literatura.

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