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29.7.05<$BlogDateHeaderDate$>

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Amor por Loa - Calendário
Gabriel Silveira
Se já passam 13 sextas-feiras
mais aquela que é a primeira,
então já se vão 14 sextas-feiras
sem chegar nosso fim de semana.

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Saber fazer valer
Guilherme L. Póvoas
Foi quando ela percebeu: todo esmero era recompensado.
Fazia tarde a madrugada. Havia chegado tarde também, pois se estivesse ali antes, teriam ficado com sono, ido à cama e não brigariam. Mas há situações onde todo acontecido não escolhe motivo. E o último embate do casal não seria diferente. Sem motivo. Esse também era o motivo dele amar ela: por não ter motivo. Para ele, isto era o maior elogio de um homem a uma mulher. "Como não entendes?", questionava. As brigas começavam a assumir um papel fundamental no relacionamento, pois ditavam as curvas: como eram feitas, se sinuosas de mais, se de menos. Havia momentos em que tudo estava tão difícil de guiar, devagar, onde os dois não conseguiam andar juntos lado-a-lado nesta estrada. Porém, à bonança, um belo horizonte de flores holandesas banhadas por um leve e marcante sol, esperava-os. Mas toda esta construção da imagem de satisfação e gozo de nada adiantaria se fosse, realmente, ilusão. À frente teriam mais curvas. Mas continuavam. Ela, depois dele, percebeu que todo esmero era recompensado àqueles que sabem fazer valer.

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18.7.05<$BlogDateHeaderDate$>

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Amor por Loa - Acupuntura
Gabriel Silveira
Sofro milhões de dorzinhas
nesta espera afiada.
Cada segundo que passa
é uma agulha retirada.

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Amor por Loa - Passarinho
Gabriel Silveira
Quem no ninho fica,
não tomba e algo bica.
Eu tombo faminto,
mas morro de amor.

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12.7.05<$BlogDateHeaderDate$>

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Juan María Posada - Ato II: a deserta Conejo Blanco
Gabriel Silveira
O quarto ainda estava perdido na atmosfera grafite que entrava pela janela. Nos instantes que se seguiram ao choque do espelho, à experiência terrível (poderia até ser utilizado aqui o termo fatal, mas com o risco de que se confundissem as intenções deste autor) e fúnebre (ainda com o perigo da confusão) na qual nosso personagem, Juan María Posada, havia se descoberto uma grande e esquelética caveira, um ser sem carne, sem músculo, sem nervos nem sequer algum tipo de tecido senão ósseo, duro, buco, seco, pois bem, após esta experiência dramática, como relatamos, nosso personagem pôs-se absolutamente atordoado a tocar e arranhar a si mesmo, como se não bastasse o que os olhos, que já não eram olhos, mas buracos, o mostravam ali, sim, pois o que via no espelho era esqueleto, caveira, osso e nada mais. E tocava-se, tentando talvez arrancar dos ossos algum tipo de material gorduroso, algum líquido que pudesse vir a tornar-se sangue, algum sinal de que ainda era um homem, por Deus. Mas se os olhos também já não o habitavam, se somente via dois buracos negros como duas ostras no fundo do mar sem o brilho de suas pérolas, e ainda assim continuava a ver, talvez tudo não passasse de uma demência qualquer, um tipo de loucura, um acesso atormentador destes que vêm como gripe e do tipo que muito se propagou nas cidades do interior nos últimos séculos, sim, não passava de uma loucura passageira e qualquer um poderia provar isso ao olhar, simplesmente olhar para seu corpo e, não notando diferença alguma, afirmar, Como vai, Juan? Sim, estás bem melhor desde a última vez que te vi, ou, melhor ainda, perguntá-lo sobre o preço do pão ou da batata sem nem mesmo fazer consideração alguma sobre sua forma física, visto que ela, em verdade, e longe das ludibriações de sua mente, não havia em nada se alterado. Tirou os olhos de si mesmo, foi até o cabideiro capenga de madeira cinza e opaca, que estava escorado na parede, e puxou uma enorme capa preta que jogou por cima dos ombros cheios de curvas ósseas. Caveira. Decidido a apresentar-se a algum conhecido para dar como solucionado, desta forma, o seu problema, saiu sem refletir mais nenhum segundo sobre as causas desta demência e pôs-se para fora da pequena casa cinza de um só cômodo, construída sobre o chão batido e disforme destas cidades que se acumulam no interior, sem nunca serem vistas umas pelas outras. O cinza triste corrompia cada um dos bilhões de germes que voavam no grafitado ar, fazendo do mundo visível e invisível uma massa enferma e heterogênea de cinzas. Ao tocar com o osso gélido a terra úmida, água certamente proveniente de uma chuva torrente durante a noite, correu em seus ossos um calafrio generoso. O cinza pelo ar e pelo mundo continuava. Vislumbrou o pasto cinza a morrer. Comprimiu as mãos esqueléticas uma contra a outra, mas não sentiu a dor nos ossos, posto que estava muito ocupado com suas estratégias em comprovar sua teoria sobre a demência temporária, sobre sua loucura, sim, gostaria de afirmar e gritar aos sete ventos que estava louco, que não era, enfim, uma caveira, era somente um louco, um homem que via demais onde havia de menos, ou melhor que via de menos onde, por Deus, teria que haver de mais. Era um Dom Quixote, poder-se-ia dizer, mas que, se tivesse um bom tratamento e um cuidado especial, certamente estaria novamente a colaborar com sua pátria e seus concidadãos em menos de um mês. Estaria de volta à ativa, como dizem os mais velhos. O vento cinza lhe cruzou o crânio. Fez brotar das entranhas que não tinha um medo imenso. A visão da longa rua de barro que se estendia até o centro da pequena cidade de Conejo Blanco, com casinhas eventuais a lhe prestar alguma idéia de vida, não lhe animou muito. Estava vazia. E a declarou desta forma, vazia, para não utilizar expressões mais cruéis e decisivas como "estava deserta" ou mesmo "sem sequer uma alma viva", o que soaria em um tom levemente irônico, e que no momento não era, certamente, o mais adequado. Mas não haveria de desistir, é claro. Pôs-se então a correr. Imagine, caro leitor, o nível da comicidade de tal cena: uma grande e desajeitada caveira, certamente prejudicada pela falta de domínio de sua nova natureza, vestida com uma longa capa preta amarrada na cintura, a correr pela terra molhada, barro puro, jogando por entre os ossos de cada dedo uma porção de terra adelá e adelante, acumulando entre as juntas pequenas crostas de argila a lhe dificultarem o movimento, sendo que ainda vestia em seu rosto aquele sorriso asqueroso do qual não poderia nunca se despir, aquele sorriso que lhe mentia os humores, que lhe corrompia o sentimento, pois o que queria, passo após passo era se derramar em prantos, fechar os olhos, por Deus, era somente isso que pedia, e assim correu neste desespero insolícito, até alcançar quase o centro da cidade, quando tocou o pilar da prefeitura, no qual estendia-se uma velha bandeira rasgada da associação dos coronéis da revolução. Respirou cansado. Não tinha mais pulmão sobre pulmão. A falta de ar que sentia era falsa. Não seria também sua alma, seu pensamento, somente uma impressão como a falta de ar? Não seria sua alma um lapso que vivia na inércia e que, a qualquer instante, deixaria de ser ao admitir sua nova forma de vida? Estendeu, assim mesmo, o longo braço seco e cinza até o pilar e descansou. Quando ergueu novamente o crânio, sentiu, pelo frio nas costelas, a presença de um outro ser vivo, que também poderia ser um morto, pois já havia fatos suficientemente fantásticos que lhe comprovavam a possibilidade de uma realidade também fantástica, ainda que terrível. Logo do outro lado da rua, um cachorro meio preto, meio cinza, o mirava. Via, através da acinzentada nuvem que tomava as ruas, um ser vivo, sim, um complexo de pele, osso, pêlos e tudo o mais. Seu primeiro impulso foi de chamá-lo. Seria bom tocar um outro, sentir o tato da carne, visto que já estava que o cachorro não era também um esqueleto (sem considerarmos aqui, certamente, a precária condição de alimentação que estava o animal, até porque, neste sentido, a utilização do termo esqueleto seria somente figurativa e não no sentido mais realista e cruel, como no caso de nosso já amigo e infeliz personagem Juan María Posada). Depois de refletir por alguns segundos sob a chuva que caía regrada contando tempo, cansando o pouco de raciocínio que ainda lhe restava na sua embriaguez, Juan mudou de opinião quanto à idéia de que o cão lhe seria um bom companheiro neste momento. Opinião que ganhou razão quando o cão mostrou seus longos dentes caninos, como se afirmasse, Sim, aqui vale a lei do mais forte, aqui terás o que um bom punhado de ossos merece. Pois foi tamanha a compreensão de todas estas intenções por parte de nosso herói que ele, de um só súbito impulso, virou-se para o lado contrário ao do canino, que não era o lado de volta pra casa, mas o lado que apontava para a prefeitura, e pôs-se a correr daquela forma destrambelhada a qual já visualizamos, alcançando os degraus da lateral do pequeno prédio, ganhando um por um até chegar ao piso, onde quase quebrou dois de seus dedos que, sim, eram reais, sim, eram osso, sim, osso e quebrável, osso e mordível, osso e puro osso, osso e não mais do que osso. Seguiu a correr debatendo-se pelos corredores que não conhecia, até alcançar os fundos e os depósitos da prefeitura, totalmente mortos e desertos, onde encontrou, poucos segundos antes do animal, um pequeno armário de latão preto e ar cinza escuro, no qual enfiou-se e ficou a tremer, ouvindo os grunhidos do cachorro maldito por mais três horas em sua procura. Chorou seco. Até que dormiu.

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4.7.05<$BlogDateHeaderDate$>

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Silvou o navio, partiu meu coração.

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1.7.05<$BlogDateHeaderDate$>

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El conejo ha de salir.

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Conta-gotas
Gabriel Silveira
Parado sob o gotejar,
só passa vento a sorrir.
Choro ao respirar,
na clepsidra do meu ir.
Parado sob o gotejar,
só passatempo sem sorrir.
Choro o não gotejar
da clepsidra do meu ir.
Parado sob o gotejar,
o vento é tempo a distrair.
Choro ao devagar.
Parado sob o gotejir,
ao tempo choro sem cessar
na clepsidra do sorrir.

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O branco
Gabriel Silveira
O branco das nuvens fez brilhar o cinza.

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