<$BlogMetaData$>

« Home | <$BlogPreviousItemTitle$> »

31.8.05<$BlogDateHeaderDate$>

<$BlogItemTitle$>

Mire donde mire
Gabriel Silveira
Seria uma flor, não fosse de plástico; não fosse preto; não tivesse botões e números; não fosse de desenho duro no plástico áspero, seco, textura do moderno; não fosse programado; não tivesse fios e mais milhões de fios e chumbadinhas mil a prender aqueles mesmos fios em placas verdes que parecem ruas de uma mini cidadezinha de um outro mundo; não fosse móvel; não pudesse ser trocado e jogado e atirado; não fosse comprado; não fosse um que é só um de tantos; não tivesse número de data, barra, produção, aduana; não tivesse número seu; não fosse só pedra feia no horizonte laboral; não fosse imortal. Ah, se não fosse tudo isso, o telefone seria uma flor.

<$BlogCommentBody$>

<$BlogItemCreate$>

Links to this post

<$BlogBacklinkControl$> <$BlogBacklinkTitle$> <$BlogBacklinkDeleteIcon$>
<$BlogBacklinkSnippet$>
posted by <$BlogBacklinkAuthor$> @ <$BlogBacklinkDateTime$>

<$BlogItemBacklinkCreate$>

<$BlogDateHeaderDate$>

<$BlogItemTitle$>


Crepúsculo
Gabriel Silveira
- Será tarde para um café? Nem bola e senta o menino à beira da janela, observa o todo, depois chora, chora uma lágrima por ser, destas lágrimas que vem como a tristeza do Cruz, que entretem como o gotejar da chuva, que é solitária como o crespo sol do outono. Crespo cinza. Cinza como a chuva na escola de Friederich. O menino, menos disciplinado, rasga a janela e vê o céu aberto ao mundo. Salta da casa e entra no todo. Sorri nas brincas sem mostrar os dentes. Riorriso de dia sem escola. Leva a mão ao queixo. Face cordorrir. Negriazul sopra entre seus olhos. Noite com N. O vento é lento. Ele cerra e ahhh. Desperta para o mundo do sonhar ser. - Queres um? Acho que ainda dá tempo para um café - diz a mãe do menino de costas para o universo.

Acima, faceta de Van Gogh.

<$BlogCommentBody$>

<$BlogItemCreate$>

Links to this post

<$BlogBacklinkControl$> <$BlogBacklinkTitle$> <$BlogBacklinkDeleteIcon$>
<$BlogBacklinkSnippet$>
posted by <$BlogBacklinkAuthor$> @ <$BlogBacklinkDateTime$>

<$BlogItemBacklinkCreate$>

26.8.05<$BlogDateHeaderDate$>

<$BlogItemTitle$>

Observa
Gabriel Silveira
Era um mendigo e um cãozinho. As pessoas, que nem latiam, só falaram com o segundo.

<$BlogCommentBody$>

<$BlogItemCreate$>

Links to this post

<$BlogBacklinkControl$> <$BlogBacklinkTitle$> <$BlogBacklinkDeleteIcon$>
<$BlogBacklinkSnippet$>
posted by <$BlogBacklinkAuthor$> @ <$BlogBacklinkDateTime$>

<$BlogItemBacklinkCreate$>

<$BlogDateHeaderDate$>

<$BlogItemTitle$>

Confórmico
Gabriel Silveira
Que cadeira, quê? Quê? Não deu pro café, vai dá pra esperar sentado? Espero aqui, não dá? Dá, sim, tem que dar, tenho minha ficha, quando chamarem eu vou. Quê? Aqui ó que eu vou ficar esperando sentado. Me sinto tosco, tolo, tonto, tomei a decisão, espero de pé. Vai que eles me atendem mais rápido. Certeza que botaram cadeira aqui pra isso, pra que eles não fiquem estressados vendo uma puta fila até a porta. Quê? Aqui pro povo, que querem saber do povo? Ovo preles. Espero de pé. Se eu não chegar até as onzz, quê? Não, obrigado, fico de pé. Ou até as onze ou ela me mata. Devia ter trazido um pedacinho daquele bolo. Teria o que fazer aqui, de pé. Ê, Maria. Bom o bolo da Maria. Será que eles chamam ou aquela porrinha tá funcionando? Espero de pé, claro. Ah, sim, tá funcionando. Só esperar, logo, logo. Bom exemplo, sim, a moda que pegou foi a do mau exemplo. Não sei como os caras não tiram isso do rádio. Este rádio é outro jeito de deixar todo mundo calmo nesta demora do inferno. Putz, este velho vai custar a sair. Cinco minutos só pra lembrar o que veio fazer aqui, mais dez pra lembrar a senha. Tô até vendo, vai custar. Todo mundo que tá sentado deve tá pensando a mesma coisa. Só ver a casa de tristeza, quê? Ali, pega ficha ali. Não, só senta se quiser. Prefiro ficar aqui do que me acomodar. É isso, acomodar, essa é a palavra, acomodar. Quem se acomoda, já era. Quem não reage, rasteja. Aquele bolinho agora era tudo que eu precisava. Que mamata este empreguinho. Decorar meia dúzia de números, ficar sentado nesse balcãozinho o dia todo, depois é só pegar a graninha no final do mês. No próprio trabalho, diga-se de passagem. Com um empreguinho desses ela me largava do pé. Melhor, até voltava a ser aquela maravilha que eu conheci. Dois meses, já vão dois meses sem trepar. Que custa? Um carinho, tira a roupa, senta no colo, ah, não posso pensar nisso agora, se não, aí sim, vou ter que sentar nessa cadeirinha do conformismo. Joãozinho? Que canalha, garanto que tá vindo depositar a grana preta que anda ganhando. Podia ter me arranjado aquela boquinha. Não, não dá, quem sabe outra vez, Maneco. Maneco o cacete. Ali, pega ficha ali. Nada. Não, só senta se quiser, a fila é pelo número. Ok. Ei, ei, morena dos sonhos. Se ficar de pé eu já ganhei meu dia. Ah. Bom, todo mundo senta nesta porcaria desta cadeira, não sei por que tenho esperança. Sou um mártir da resistência. A revolução vive neste banco. Fico de pé, sim, que tem? Podia ler de novo aquela biografia, putz, bons tempos. Se der troco, compro um cigarro. Pim, beleza, vai, vai, pim, mais um desses e sou eu. Se foi o oitenta. Pelo jeito dessa menina é rapidinho. Pô, onde escondeu este envelope? Não me diz, ahhhh, pôrra? Que menina é essa? Com essa idade e tanta conta? Tá, sempre me fodo, não é por isso que me sento. Ainda chuto uma cadeira dessa. Ali. Nos tempos de fila ficava com medo que me chamassem e eu trancasse toda a fila. Agora, não. Bom, isso pelo menos é bom. Dá, sim, fico de pé. Se eu tivesse mastigando o bolo não ia conseguir falar com a caixa. Bom o bolo da Maria. Facilita, sobra. Pim. Eeeeeu. Oi, sim, tudo, quero pagar tudo. As quatro, isso. Tá aqui, já calculei esse juros do inferno. Lula do inferno. Vermelho do inferno. Bonitinha essa mulher do caixa, se conseguisse esse empreguinho, substituia a minha de casa por ela. Beleza. Agora vai. Meu sonho é roubar uma dessas canetas, isso é um desafio eterno de todo homem que entrou no banco desde menino. Os sonhos nascem lá, na infância. Os pesadelos também. Já? Rapidinho, obrigado, lá vem a morena. Lá vou eu. Joãozinho, safado. Dez, trinta e cinco, oitenta e cinca, beleza: compro um cigarro, depois como um bolo. Será que o Lula cai? Espero de pé.

<$BlogCommentBody$>

<$BlogItemCreate$>

Links to this post

<$BlogBacklinkControl$> <$BlogBacklinkTitle$> <$BlogBacklinkDeleteIcon$>
<$BlogBacklinkSnippet$>
posted by <$BlogBacklinkAuthor$> @ <$BlogBacklinkDateTime$>

<$BlogItemBacklinkCreate$>

24.8.05<$BlogDateHeaderDate$>

<$BlogItemTitle$>

Sonhos
Gabriel Silveira
Já era o terceiro dia de reclusão. Sua irmã perguntara por ele nos últimos dois dias. Como de costume, não respondeu. Não visitou o banho e só serviu de alimento a comida que ela deixava na porta. Estava tudo planejado, tudo planejado, quem duvidava? ninguém, era tudo certo, já sabia de tudo, era seguir o plano e tudo estaria correto, consumado, feito, ele seria um homem famoso, um herói. Era isso que tinha em mente quando levantou ainda de madrugada, sim, poderia tê-lo levantado mais tarde, mas o momento assim exigia, era mister o sacrifício para o êxito total, como não? Teve dificuldade para vestir-se. Foi até a porta, retirou do bolso uma chave amarrada a um pequeno cordão e tentou destrancar a porta. Estava aberta. Chateou-se com sua irmã, ela sabe que eu gosto da porta fechada, sabe bem. Empurrou a porta sem jeito, ainda com a chave na mão. Foi deslizando sobre o chão com os chinelos postos sobre a meia. Suas mãos cuidavam o despertar de alguém enquanto os ouvidos eram guia no escuro. Cruzou o longo corredor até a cozinha. Retirou com a mão esquerda o pano que estava sobre o bolo. Com a mesma mão arrancou um pedaço que levou a boca e ficou a mastigar, resmungando um sorriso e, a cobertura, sim, gosto de cobertura, sim, é bom, é chocolate, sim, mas a irmã sabe, sim, sabe sim que gosto de cobertura de morango, como não? Recobrou o tom sério. Foi até a porta da rua, ao lado encontrou as chaves da casa, colocadas uma a uma, em seus respectivos lugares. Pegou a vermelha, sim, a chave vermelha é a do quartinho do Paulinho, sei bem, como não? Na rua, o frio obrigou-o a abraçar a si mesmo. Largou a chave que ficou roçando no chão, dependurada no seu bolso pelo cordão. Saiu no jardim e pelo corredor lateral foi até o pátio nos fundos, pondo-se de frente para uma pequena construção de alvenaria podre, umedecida pelo serenar da noite. Pegou a chave vermelha no bolso, Paulinho é esperto, sim, não? Entrou no quarto e acendeu a luz. Sorriu de sua esperteza. Buscou, sob vários desenhos, uma caixa de sapatos lacrada com uma fita crepe que ele logo fez partir-se. Abriu e ficou maravilhado com sua própria construção, uma bomba, sim, uma grande bomba que eu fiz, grande bomba de buummmmmm, uma bomba que faz buummmmm, resmungando o eme até faltar-lhe ar. Um barulho na rua fez com que se alertasse. Fechou a caixa, enfiou-a com cuidado em um pequeno bornal de desenhos, que jogou ao tira-colo, e saiu em disparada até a frente da casa. Olhou para ambos os lados, guiado por algum papel que tinha em mãos e correu para a direita.

Teu irmão acordou, Marisa. Que? Como sabes? Acordou, vejo daqui o reflexo da luz do quartinho, deve estar lá novamente com seus desenhos. Pobrezinho, deixa ele. Pobrezinho? Um homem deste tamanho? É louco por falta de vergonha na cara, falta de coragem de enfrentar o mundo, este encosto maldito. Que falas? É meu irmão, esqueceste? Teu irmão e uma boca a mais que sustento, esqueceste também? Se pelo menos ele voltasse a trabalhar, eles adoravam ele por lá, não adoravam? Estava no perfil, brincava com as pessoas, as pessoas brincavam com ele, não é? Ele disse que bateram nele, lembra? Ah, e tu acreditastes? O que bateu nele foi preguiça, este instinto tosco de ser encosto, de viver da carne que outro caçou, qual homem não quer isso? Retardado sou eu que sustento este sem-vergonha. Marisa começou a chorar, o marido saturou-se, virou para o lado e dormiu. Ela fingiu que fez o mesmo.

Quem pensa que não sei? Quem pensa? Cadê a chave vermelha? Meu quartel-general, sim, sim, sou um general, todo quartel-general precisa de um general, não? Meus soldadinhos, quem são meus soldadinhos, onde estão? Um general não precisa de um exército? Sei bem que sim, como não? Depois desse dia terei meu exército, terei sim, terei sim. Eram seis e meia da manhã quando ele chegou à loja, ainda fechada. Agachou-se em frente à porta de metal, retirou a caixa do bornal, que pôs no chão, e ficou alguns minutos ali, olhando para os lados, reparando no movimento das folhas, do sol que chegava para iluminar infratores, mas não era um, era um herói, um homem que fazia a justiça e que por isso seria rico, reconhecido, nunca mais um retardado, nunca mais. Deixou a caixa ali e saiu correndo. Foi até a praça no outro lado da rua, sentou-se de cócoras atrás de um dos bancos brancos que seguiam a linha da rua, até a banca da esquina. Ficou a sorrir, sim, é jájá, sei que vai, planejei tudo certinho, é buuummm, sei que vai, tenho que ver, preciso ver, é mister para uma completa vingança, preciso planejar, executar, lambuzar-me com a vitória, sim, lambuzar-me como com o bolo, gosto de cobertura de morango, bolo de baunilha e cobertura de morango, sim, que tem? Com refrigerante, minha irmã prepara muitas surpresas para meus aniversários, sim, mas por que chocolate? Brigadeiros já bastavam de chocolate, queria morango, morango, sempre morango, irmã com morango e pensou no marido da sua irmã, malvado não gosto, muito malvado, sei bem, como não? Não cansa nunca de bater-me, sei bem, sim, mas gosto de irmã, ela prepara surpresas no aniversário, gosto, gosto sim, bolo de baunilha, ainda que com chocolate na cobertura. Sete horas e a bomba não explodiu. Oito e nada. Sei que vai, agora vai. As pessoas chegaram à loja, abriram a porta de metal e não perceberam a pequena caixa de sapatos em uma de suas extremidades. Ele começou a chorar, chorar? Generais não choram, não choro, não estou a chorar, é o calor, sim, como não? O calor, suor, só calor, no máximo nervosismo, no máximo isso. Já passava o meio-dia quando alguém bateu nas costas de Paulinho, inundado no próprio choro. Buuummm, resmungava, buuummm, atirado atrás do banco, com as mãos a arrancar as gramas do canteiro. Que fazes, homem? Perguntava o taxista do ponto da 7, conturbado com a cena que via. Paulinho, murmurava, bummm, general, bummm, depois saiu correndo, cruzando a rua cheia de carros, chegou até a porta da loja, pegou a caixa e saiu correndo, aos berros.

Que houve, Marisa? Não sei, doutora, não sei. Só vi que ele não estava aqui às 9 da manhá quando levantei para ir ao mercado. Seu marido? Já tinha saído para o trabalho, ele não dá muita atenção ao Paulinho, sabe? Sei, sei como é, Marisa. Bom, falei com ele, dei uma medicação que vai acalmá-lo. Se descobrir alguma coisa do que pode ter motivado ele a fazer isso, me liga, ok? Claro, doutora, e obrigado novamente. Sempre que quiseres e, Marisa? Sim? O convite ainda está de pé, é só dizer sim. A doutora sorriu e virou as costas, indo até o carro. Marisa sorriu, ficou alguns segundos olhando o carro ir embora e entrou em casa. Na mesa da cozinha, achou o cartão da psicóloga, as roupas que Paulinho usava e uma caixa com coisas dele. Botou as pilhas fora e guardou o desenho. Que lindo, acho que é uma fogueira.

<$BlogCommentBody$>

<$BlogItemCreate$>

Links to this post

<$BlogBacklinkControl$> <$BlogBacklinkTitle$> <$BlogBacklinkDeleteIcon$>
<$BlogBacklinkSnippet$>
posted by <$BlogBacklinkAuthor$> @ <$BlogBacklinkDateTime$>

<$BlogItemBacklinkCreate$>

22.8.05<$BlogDateHeaderDate$>

<$BlogItemTitle$>

Amor aguado
Guilherme Póvoas
Bebeu para lubrificar a garganta que ainda tinha de expelir mais e mais palavras ásperas, rudes e escusas. Em frente a dois olhos esperançosos, atreveu-se a falar muito, esganiçar a verdade e reter em consciência a realidade que a tornara inconsciente. E como a água não apagava a ira da consorte, ele, num ato infantil de adulto, jogou o copo meio-cheio meio-vazio, meio-quente e meio-frio ao chão. E, de repente, pensou que era este chão quem abastecia o fogo raivoso dela. Afinal, mal o vidro espatifara-se no assoalho, ela correu pingando lágrimas limpas junto à água suja esparramada no chão.

<$BlogCommentBody$>

<$BlogItemCreate$>

Links to this post

<$BlogBacklinkControl$> <$BlogBacklinkTitle$> <$BlogBacklinkDeleteIcon$>
<$BlogBacklinkSnippet$>
posted by <$BlogBacklinkAuthor$> @ <$BlogBacklinkDateTime$>

<$BlogItemBacklinkCreate$>

<$BlogDateHeaderDate$>

<$BlogItemTitle$>

E tu?
Gabriel Silveira
Escorou a cabeça na janela do ônibus e viu sua sombra percorrer o asfalto ensolarado. Às três estaria em casa, pensou. O telefonema, o silêncio, o ônibus, o silêncio, a casa, o silêncio, o flagrante e depois, depois o destino criaria seu próprio desfecho. Ele mesmo havia criado a armadilha, ele mesmo que desse um jeito de dar fim a ela. O ônibus dobrou, irônico, na Rua dos Pares. Uma lágrima escorreu do seu olho e deslizou pela janela até deitar-se na borracha do vidro. Ele rangeu os dentes e olhou o relógio. Depois levantou-se de susto, fez sinal que desceria e, até o fazer, deu cinco passos em direção ao fundo do ônibus, mirando as árvores do parque, que ainda era na janela. Depois desceu decidido. O sapato negro tocou a pedra aquecida da alta tarde. Ele pôs-se em passos rápidos até a esquina, esperou o verde homem aparecer para cruzar a rua, cerrar os olhos nos passos ao lado do parque, distribuir alguns cumprimentos pelo mercadinho da Sé e só depois, só depois de alguns segundos a pensar na frente da porta da própria casa, é que tirou a chave do bolso e já viu-se na cozinha, sem perceber os segundos que perdera titubeando em relação à chave, tentando encaixá-la na porta, largando o casaco atrás da mesma, nada, nada, simplesmente viu-se parado na cozinha, de costas para a mesa, olhando fixamente a geladeira que parecia cochilar roncando sob a aura da tarde morta. No mais, silêncio, como previra. Foi até a gaveta, tirou a primeira faca que encontrou escondida sob as colheres, depois roeu a ponta do próprio indicador esquerdo. Medo? Respondeu subindo a escada sem perceber a blusa atirada sobre a mesa, sem ver dois telefones na escrivaninha da sala, que mal entrara. Sobre a escada, não adivinhara. Ali, o silêncio havia se esvaído no tempo, dando lugar ao óbvio, ao esperado, ao não-esperado, ao anunciado pelo telefonema, assim como por tantas cartas, era óbvio, afinal. A cada gemido envelhecia um ano. Chegou maduro à porta do quarto. Mordeu ambos os lábios, depois de escorar a cabeça em lágrimas na porta de madeira, depois de refletir se teria ou não medo de ir até o fim, somente depois de ter ouvido por alguns segundos os gemidos estridentes dos filhos da puta, pensou, filhos da puta, que fiz eu? e que fiz eu? vida de merda, de merda, e veio o choro, veio a cabeça escorada na porta, veio a mordida dos lábios e um golpe seco do golpe da faca fez arrebatar-se a porta que se perdeu no tempo entre os gritos do casal nu, ele por cima dela, ela de costas, barriga pra baixo, mãos segurando a borda da cama, os olhos virados pra porta, os peitos a esfregar no suor do lençol, enquanto ele segurava seus cabelos, genuflexo sobre a cama, sobre ela, sobre o destino, exalando por todo o quarto o cheiro do lascivo, da cópula animalesca, do fausto eterno que levavam a cabo no pequeno quarto, dando razão ao que tinha razão, e ele, cheio dela, levantou a faca até a altura que ultrapassava o armário do pequeno quarto, montado com tanto carinho, ainda pensou, depois desceu de um só golpe, levando ao desfalecimento imediato o homem, que não teve tempo algum para fugir da posição do coito, sobre a mulher que, aos berros, pedia não, não, não faça isso, mas que antes, pouco antes, segundos antes, estava a gemer com a penetração prazerosa, com o distribuir harmonioso de arrepios pelo corpo, com o deslizar sereno dos seus peitos no cochão, com o umedecer contínuo dos lábios e mais e mais, mas agora só chorava e chorava, pedindo por não, pedindo por paciência, por perdão, por cristo, por dias. O homem da faca silenciou. O outro também, morto. O primeiro se aproximou deste, olhou-o nos olhos fechados, beijou-o na boca e chorou por alguns segundos. Depois virou a cabeça para a mulher paralisada pelo medo e perguntou, E tu, quem és?

<$BlogCommentBody$>

<$BlogItemCreate$>

Links to this post

<$BlogBacklinkControl$> <$BlogBacklinkTitle$> <$BlogBacklinkDeleteIcon$>
<$BlogBacklinkSnippet$>
posted by <$BlogBacklinkAuthor$> @ <$BlogBacklinkDateTime$>

<$BlogItemBacklinkCreate$>

17.8.05<$BlogDateHeaderDate$>

<$BlogItemTitle$>

Prosa do prazo
Gabriel Silveira
Já chega de espera.
Já chega do que desespera.
Já chego eu.
Saciemos a vontade do ser.
Saciemos a vontade do que vai ser.
Saciemos, à vontade.
Já dispensei os passatempos
Já dispensei os "passa, tempo".
Já disse e pensei.
Sei que já chega de espera.
Sei que já chega, nem desespera.
Sei que já chego.

<$BlogCommentBody$>

<$BlogItemCreate$>

Links to this post

<$BlogBacklinkControl$> <$BlogBacklinkTitle$> <$BlogBacklinkDeleteIcon$>
<$BlogBacklinkSnippet$>
posted by <$BlogBacklinkAuthor$> @ <$BlogBacklinkDateTime$>

<$BlogItemBacklinkCreate$>

<$BlogDateHeaderDate$>

<$BlogItemTitle$>

Sobre poesias e verdades
Gabriel Silveira
Ela possuía cachinhos. Com os dedos, reforçava a ondulação já natural aos mesmos, enquanto ele explicava:
- Exótica, sim, pois os olhos teus arrancam-te da normalidade, expurgam-te do mundo do comum, do sobrepujo griz do homogêneo. Exótica, sim, pois foste expulsa das planícies do igual e pungida à escalada da cordilheira do novo.
Exótica, pois fala e rala e exala sob o véu desta beleza inconformada, beleza do ocaso, do disparate e da impietude, carma da nobreza de espírito. Exótica, pois me ama e eu te amo.
Ela largou o cachinho e sorriu de uma forma desconhecida.

<$BlogCommentBody$>

<$BlogItemCreate$>

Links to this post

<$BlogBacklinkControl$> <$BlogBacklinkTitle$> <$BlogBacklinkDeleteIcon$>
<$BlogBacklinkSnippet$>
posted by <$BlogBacklinkAuthor$> @ <$BlogBacklinkDateTime$>

<$BlogItemBacklinkCreate$>

15.8.05<$BlogDateHeaderDate$>

<$BlogItemTitle$>

Amor por Loa - Biológico
Gabriel Silveira
Pra "guentar" esta espera
de check-in e desembarque,
Oxalá nosso relógio:
tu é o tic, eu sou o tac.

<$BlogCommentBody$>

<$BlogItemCreate$>

Links to this post

<$BlogBacklinkControl$> <$BlogBacklinkTitle$> <$BlogBacklinkDeleteIcon$>
<$BlogBacklinkSnippet$>
posted by <$BlogBacklinkAuthor$> @ <$BlogBacklinkDateTime$>

<$BlogItemBacklinkCreate$>

10.8.05<$BlogDateHeaderDate$>

<$BlogItemTitle$>

Amor por Loa - Fôlego
Gabriel Silveira
Quem nada na maré baixa
e na maré que não dá pé,
quando avista seu amor,
dá o bote.

<$BlogCommentBody$>

<$BlogItemCreate$>

Links to this post

<$BlogBacklinkControl$> <$BlogBacklinkTitle$> <$BlogBacklinkDeleteIcon$>
<$BlogBacklinkSnippet$>
posted by <$BlogBacklinkAuthor$> @ <$BlogBacklinkDateTime$>

<$BlogItemBacklinkCreate$>