Sonhos
Gabriel Silveira
Já era o terceiro dia de reclusão. Sua irmã perguntara por ele nos últimos dois dias. Como de costume, não respondeu. Não visitou o banho e só serviu de alimento a comida que ela deixava na porta. Estava tudo planejado, tudo planejado, quem duvidava? ninguém, era tudo certo, já sabia de tudo, era seguir o plano e tudo estaria correto, consumado, feito, ele seria um homem famoso, um herói. Era isso que tinha em mente quando levantou ainda de madrugada, sim, poderia tê-lo levantado mais tarde, mas o momento assim exigia, era mister o sacrifício para o êxito total, como não? Teve dificuldade para vestir-se. Foi até a porta, retirou do bolso uma chave amarrada a um pequeno cordão e tentou destrancar a porta. Estava aberta. Chateou-se com sua irmã, ela sabe que eu gosto da porta fechada, sabe bem. Empurrou a porta sem jeito, ainda com a chave na mão. Foi deslizando sobre o chão com os chinelos postos sobre a meia. Suas mãos cuidavam o despertar de alguém enquanto os ouvidos eram guia no escuro. Cruzou o longo corredor até a cozinha. Retirou com a mão esquerda o pano que estava sobre o bolo. Com a mesma mão arrancou um pedaço que levou a boca e ficou a mastigar, resmungando um sorriso e, a cobertura, sim, gosto de cobertura, sim, é bom, é chocolate, sim, mas a irmã sabe, sim, sabe sim que gosto de cobertura de morango, como não? Recobrou o tom sério. Foi até a porta da rua, ao lado encontrou as chaves da casa, colocadas uma a uma, em seus respectivos lugares. Pegou a vermelha, sim, a chave vermelha é a do quartinho do Paulinho, sei bem, como não? Na rua, o frio obrigou-o a abraçar a si mesmo. Largou a chave que ficou roçando no chão, dependurada no seu bolso pelo cordão. Saiu no jardim e pelo corredor lateral foi até o pátio nos fundos, pondo-se de frente para uma pequena construção de alvenaria podre, umedecida pelo serenar da noite. Pegou a chave vermelha no bolso, Paulinho é esperto, sim, não? Entrou no quarto e acendeu a luz. Sorriu de sua esperteza. Buscou, sob vários desenhos, uma caixa de sapatos lacrada com uma fita crepe que ele logo fez partir-se. Abriu e ficou maravilhado com sua própria construção, uma bomba, sim, uma grande bomba que eu fiz, grande bomba de buummmmmm, uma bomba que faz buummmmm, resmungando o eme até faltar-lhe ar. Um barulho na rua fez com que se alertasse. Fechou a caixa, enfiou-a com cuidado em um pequeno bornal de desenhos, que jogou ao tira-colo, e saiu em disparada até a frente da casa. Olhou para ambos os lados, guiado por algum papel que tinha em mãos e correu para a direita.
Teu irmão acordou, Marisa. Que? Como sabes? Acordou, vejo daqui o reflexo da luz do quartinho, deve estar lá novamente com seus desenhos. Pobrezinho, deixa ele. Pobrezinho? Um homem deste tamanho? É louco por falta de vergonha na cara, falta de coragem de enfrentar o mundo, este encosto maldito. Que falas? É meu irmão, esqueceste? Teu irmão e uma boca a mais que sustento, esqueceste também? Se pelo menos ele voltasse a trabalhar, eles adoravam ele por lá, não adoravam? Estava no perfil, brincava com as pessoas, as pessoas brincavam com ele, não é? Ele disse que bateram nele, lembra? Ah, e tu acreditastes? O que bateu nele foi preguiça, este instinto tosco de ser encosto, de viver da carne que outro caçou, qual homem não quer isso? Retardado sou eu que sustento este sem-vergonha. Marisa começou a chorar, o marido saturou-se, virou para o lado e dormiu. Ela fingiu que fez o mesmo.
Quem pensa que não sei? Quem pensa? Cadê a chave vermelha? Meu quartel-general, sim, sim, sou um general, todo quartel-general precisa de um general, não? Meus soldadinhos, quem são meus soldadinhos, onde estão? Um general não precisa de um exército? Sei bem que sim, como não? Depois desse dia terei meu exército, terei sim, terei sim. Eram seis e meia da manhã quando ele chegou à loja, ainda fechada. Agachou-se em frente à porta de metal, retirou a caixa do bornal, que pôs no chão, e ficou alguns minutos ali, olhando para os lados, reparando no movimento das folhas, do sol que chegava para iluminar infratores, mas não era um, era um herói, um homem que fazia a justiça e que por isso seria rico, reconhecido, nunca mais um retardado, nunca mais. Deixou a caixa ali e saiu correndo. Foi até a praça no outro lado da rua, sentou-se de cócoras atrás de um dos bancos brancos que seguiam a linha da rua, até a banca da esquina. Ficou a sorrir, sim, é jájá, sei que vai, planejei tudo certinho, é buuummm, sei que vai, tenho que ver, preciso ver, é mister para uma completa vingança, preciso planejar, executar, lambuzar-me com a vitória, sim, lambuzar-me como com o bolo, gosto de cobertura de morango, bolo de baunilha e cobertura de morango, sim, que tem? Com refrigerante, minha irmã prepara muitas surpresas para meus aniversários, sim, mas por que chocolate? Brigadeiros já bastavam de chocolate, queria morango, morango, sempre morango, irmã com morango e pensou no marido da sua irmã, malvado não gosto, muito malvado, sei bem, como não? Não cansa nunca de bater-me, sei bem, sim, mas gosto de irmã, ela prepara surpresas no aniversário, gosto, gosto sim, bolo de baunilha, ainda que com chocolate na cobertura. Sete horas e a bomba não explodiu. Oito e nada. Sei que vai, agora vai. As pessoas chegaram à loja, abriram a porta de metal e não perceberam a pequena caixa de sapatos em uma de suas extremidades. Ele começou a chorar, chorar? Generais não choram, não choro, não estou a chorar, é o calor, sim, como não? O calor, suor, só calor, no máximo nervosismo, no máximo isso. Já passava o meio-dia quando alguém bateu nas costas de Paulinho, inundado no próprio choro. Buuummm, resmungava, buuummm, atirado atrás do banco, com as mãos a arrancar as gramas do canteiro. Que fazes, homem? Perguntava o taxista do ponto da 7, conturbado com a cena que via. Paulinho, murmurava, bummm, general, bummm, depois saiu correndo, cruzando a rua cheia de carros, chegou até a porta da loja, pegou a caixa e saiu correndo, aos berros.
Que houve, Marisa? Não sei, doutora, não sei. Só vi que ele não estava aqui às 9 da manhá quando levantei para ir ao mercado. Seu marido? Já tinha saído para o trabalho, ele não dá muita atenção ao Paulinho, sabe? Sei, sei como é, Marisa. Bom, falei com ele, dei uma medicação que vai acalmá-lo. Se descobrir alguma coisa do que pode ter motivado ele a fazer isso, me liga, ok? Claro, doutora, e obrigado novamente. Sempre que quiseres e, Marisa? Sim? O convite ainda está de pé, é só dizer sim. A doutora sorriu e virou as costas, indo até o carro. Marisa sorriu, ficou alguns segundos olhando o carro ir embora e entrou em casa. Na mesa da cozinha, achou o cartão da psicóloga, as roupas que Paulinho usava e uma caixa com coisas dele. Botou as pilhas fora e guardou o desenho. Que lindo, acho que é uma fogueira.
<$BlogCommentBody$>
Posted by <$BlogCommentAuthor$> | <$BlogCommentDateTime$> <$BlogCommentDeleteIcon$>
<$BlogItemCreate$>