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28.11.05<$BlogDateHeaderDate$>

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Morte encomendada
Gabriel Silveira
Uma pausa para escrever, escrever sempre é uma pausa. Lá vem à cabeça uma história do menino que corria de um lado para o outro, enquanto a mãe lhe dizia, não vai pra lá, não vai pra cá. Lá vem à cuca uma história do rapaz que corria de um lado para o outro, enquanto a mãe lhe dizia, não vai pra lá, não vai pra cá. Lá vem à cepa uma história do homem que corria de um lado para o outro, enquanto a mãe lhe dizia, não vai pra lá, tampouco acolá. Lá vem à fuça o cheiro de um velho morto que nunca correu, enquanto a mãe lhe dizia, vem pra cá, vem pra cá. Pausa para chorar, nunca em tempo.

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27.11.05<$BlogDateHeaderDate$>

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Perdão
Guilherme Póvoas
Era para ser um perdão, não fossem os erros cometidos por mais trezentas vezes. Chegou um momento em que o baú dos perdões, sustentados à base do amor, minguou. Não fossem minhas palavras, sempre tardias, deixaria de tentar reacender, com águas frias, o fogo de paixão que está para lá de escondido - no meio do mato erguido. E se fossem, como não fossem, apenas perdões, eu desistiria. Mas sei que a cada renovação concedida, passo a acreditar no tudo, de novo. E vejo o baú de perdões mais distante, bem longe, como se não fosse, como se fosse, usar ele jamais.

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24.11.05<$BlogDateHeaderDate$>

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Poucas coisas são divertidas tanto quanto ricochetear no destino. Ele vem de lá, vais tu contra ele, mas com força toda, mas com vontade exemplar, daí gozarás o sentir da emoção nobre de ser lançado ao passado.

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Quem com ferro fere vai preso.

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O tu é sempre mais estranho que o eu.

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Harmonias em si não são nada. Tenha dó!

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Troco em recados
Do além-mar, fala o que vos ama, fala um que vos quer, porque vos é igual. Mas além-mar, cá estou, do lado de ancá do outrem que é o tudo, que pensam ser nada, que é o oceano (como quem cá está, nada sabe daí, quem aí está, quer saber de cá, onde nada de diferente há, senão amor que sim, já, há a toda), tá-estar-estando só me resta falar de alhures, porque a de cá língua não cala e eu me calo. Mas cacaca é fazer merda onde já a há. Vá lá com cuidado no que dizes. Eu só os aviso que ganhei um coração em sítio, já não preciso das lágrimas que havia encomendado de acolá, em fora. Me despeço de aí, hão muitos de cá com saudades de si mesmos. Lá, que não cá nem aí, tem também. Fico cá, calado às vezes, lha amando sempre, que minha está, como amo a vós que aí cantam em mi. Beijos de lá para ali.

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18.11.05<$BlogDateHeaderDate$>

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Ensaio sobre a riqueza
Gabriel Silveira
Ela tinha uma gata que se chamava Amelie, como não poderia deixar de ser. E para ela os gramados eram sempre verdes, como não poderiam deixar de ser. O vento era frio, ou quente, sempre perfeito para a hora que viesse a bater. As flores eram sempre rosas, como não poderiam deixar de ser. A verdade era sempre inteira, como sempre previra ser. Ninguém era nem tão errado nem tão certo que uma conversa não pudesse ter. E tudo que tinha era dela, como o fizera ser. Sua casa era linda, e clara, e de ar refrescante, uma casa exatamente como ela sonhava ter. E amava muito, e todos os amores eram sinceros, como somente um amor pode ser. E quando morreu, pôde levar tudo que conquistara. Até a pequena Amelie, porque a amava.

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Fluxo vital
Gabriel Silveira
Me consumo, me consumo, me consumo, me consumo e de tanto me vomito.

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Teorema da sobrevivência
Gabriel Silveira
Se correr eu pego o bicho. Se ficar, eu passo fome.

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Em Madrid, silêncio.
Gabriel Silveira
Corre um silêncio que desemboca em qualquer ruazinha. Mas não é o mundo, sou eu. Não é que eu não fale o castelhano. Falo. Difícil mesmo é entender o que estou dizendo. Nem sequer os passarinhos entendem. E só de pensar que Deus por aqui talvez também não me entenda, é de gelar os ossos, é de rebentar os tímpanos de tanto grito. Só o silêncio permanece. Como o amor. Já percebi que ele é o escravo, não eu. Mas não que eu não fale. Falo. O difícil é pensar o que falar. Nisso os passarinhos me entendem.

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Amor por Loa ¿ Paraíso
Inferno ou purgatório
não tiraram meu juízo.
Como é que essa anjinha
o fez aqui no paraíso?

Amor por Loa ¿ Margaridas
Me entendem tu e as margaridas
quando me perco por amor:
tu, o jardim cheio de flores,
eu, o atordoado beija-flor.

Amor por Loa ¿ SMS
¿Com¿ antes do ¿amo¿?
Até entendo o celular.
Somente estando contigo
é completo o meu amar.

Amor por Loa ¿ Eletrônico
De esperas é este amor.
Com quantos prazos me entope!?
Mil e uma horas a te esperar
com o reloginho do laptop.

Amor por Loa ¿ Té
Vem sempre com cafeína
minha filosofia, que não é vã.
Tivesse eu tua energia
e te bebia com hortelã.

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Em construção
Nem poesia abstrata, tampouco concreta. Longe disso. Sou uma prosa difusa, inalâmbrica, fugaz em cada das milhões de partículas que dançam, formando meu ser. Ser e estar pleno de espírito, fuso confuso de convicções que nada são, nem eram. As convicções vão a destruir-se, produzindo um viver em fagulhas que vai formando um ser ainda sem estar, ainda sem berço, ainda fugidio. Uma a uma se interlaçam. Mergulham no vinho dividido entre o natural e o químico, entre o rubro e o negro, entre a música e o silêncio. Nem poesia abstrata, tampouco concreta. Que a predileta seja a prosa. E predileções vão a esvair-se nos horizontes que pintam cheiros de um ser novo, um ser estar que já quase é. Dos doze, sobraram um para contar a história. O que vos fala. Nem poesia abstrata, tão pouco concreta, faz a rosa, em prosa cheirosa, no papel de vilão que não se entrega ou no papel de mocinho que não se cala. Que não se desarma. Do abstrato, sobram as flores. Do concreto, sobram os medos. Fico sem os dois, minha prosa doce deste tão impensado ser, inundo em amar. Ser e estar sem ser, sem estar. Nenhum dos abismos é caminho. Salvo a mim, destruo a eles, remonto, planejo, contesto, inverto sem pensar, sem estar em meu pensamento. Sou folha de outono na primavera doce que conduz ao ser, viajando lento na velocidade dis abismos. Anoitece a aurora, amanhece já noite. E o tempo me ensina com sua força: - Voar sem rumo nunca me fez calar.

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3.11.05<$BlogDateHeaderDate$>

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Amor por Loa ¿ Apetite
Gabriel Silveira
Cheguei e o que é?
Amor cheio de fome.
Me abre o apetite
cada vez que ela me come.

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Rebento do tempo
Gabriel Silveira
Escrever sobre escrever é a melhor maneira para voltar a escrever depois de um bom tempo de silêncio. Silêncio aí, no fora, no vácuo buco do não-amor. Aqui dentro, onde tudo se escrevia, onde despertavam as harmonias da magnificicência astral e donde brotavam crasculáceas da paixão sobrehumana, aqui dentro não havia silêncio algum. Mas, como já diria um maestro ao atingir a desencantal perfeição, a música só é perfeita quando acaba. Bueno, por isso começo, por isso recomeço, porque escrever sobre escrever é não escrever sobre não escrever. E uma orelha faltando bem pode significar uma inocência. Mas onde chegar? Para que lado ir? Qual o ponto de partida e a estação de chegada? Quem dirá onde e quando e para quê? O triunfo do poeta é ser eternamente triste. Pois morreu, sei bem que morreu. Hoje, em nossa escola do pensamento, vamos a ver como desenvolver uma nova idéia. Comecemos construindo uma típica cena, nem mais interessante nem menos que a realidade, somente uma cena, pincelando alguns triunfos da natureza como belas árvores no background oleoso do ar úmido que contorna nosso universo. Veremos como se sai nesta mesma cena, com árvores ao fundo, melhor, com uma grande floresta ao fundo, folha secas ao chão de terra batida, ainda o ar oleoso, agora incrementando-se a este o ar umidecido, as folhas de hortelã que divertem-se espalhadas pelo caminho e o nosso personagem, sim, o temos, aquí o está, já o narraremos, veremos como se sai em nossa cena o nosso herói que deverá ter, pois assim devem o construir vocês que agora lêem este jovem autor, pois bem, lho construam, em seus grandes salões da imaginação, com um terno cinza claro, camisa branca, e a gravata como bem quiserem, um chapéu da cor mesma do terno sobre a cabeça, levemente erguido na frente, como o faria kevin costner, pois bem, podem o imaginar com a mesma expressão de Kevin Costner vestido de terno cinza, não o esqueçam, e a tal gravata que todos já devem, a estas alturas de enrolação para vestir o tal homem, tê-la personalizado ao gosto e à sensibilidade ao mundo das vestimentas que cabe a cada um. No meu caso, não me cabe nenhuma capacidade destas e é por isso, somente por isso, que não o coloco nenhuma gravata, deixo-o sem, os que não conseguirem pensar uma cor de gravata que lhes apeteça podem seguir o meu exemplo e arrancá-la fora, se é que já haviam vestido nosso querido personagem com alguma. Pois bem, lá está nosso Kevin Costner, bem vestido com um terno e o chapéu sobre a cabeça, levemente erguido na frente e com a camisa desabotoada em cima, onde não há gravata nenhuma (adaptem tudo o que se mostrar necessário às suas imaginações, não o encarem como intromissões). Pois bem, ele vai a caminhar na tal floresta, pisando com seus sapatos nas folhas secas que se distribuem banhando o chão de outono. Ele pisa firme, não o pensem que é um maricas qualquer este nosso personagem. Não, o é firme, está decidido a fazer algo, pelo modo a que vai a pisar e pela velocidade a que caminha. Um pouco menos de velocidade, aliás, e teria notado os lindos passarinhos que cantam ao pé de um lindo bouganville. Pois bem, mas nossa história não fala de pássaros, tampouco de flores, fala, em verdade, do contrário de tudo isto, e não fossem, os ítens citados, tão importantes em qualquer texto que se proponha humildemente a transformar-se em literatura, não estariam na boca do que vos fala através de voz escrita. Pois bem, Kev está a dar tamanhas passadas que, ao nosso simples discorrer sobre a importância das ingeniosas construções da mãe natureza na literatura, já o atravessou a floresta inteira, ao passo (largo) que podemos ver, agora, tratar-se de um jardim particular, acreditem, pois estou a ver, ali vai o nosso prezado Kev, se assim posso a ele dirigir-me, Sim, obrigado Kev, ali o indo posso perceber tratar-se de um jardim particular que dá nos fundos de um tenebroso castelo, que daria arrepios às jovens mulheres que, à noite, possuem medo de fantasmas. Mas creio que as mulheres já espantaram suas sombras há tempos. Nós, os homens, é que ainda vivemos com nossas assombrações. Pois bem, Kev acaba de entrar no tal tenebroso castelo e ser atendido por um homem alto e magro, olhos fundos e terno escuro e sombrio. O tal parecia conhecê-lo, dado que o cumprimentou e ofereceu que entrasse no castelo. Agora só nos resta esperar alguns momentos aquí fora, enquanto nosso querido herói resolve os assuntos que, se a ele dizem respeito diretamente, o que tudo mostra a crer, a nós também nos parece muito interessante, mas creio que não poderemos narrar o que se está a passar lá dentro, ao menos agora, já que nossa história trata-se somente de um exercício literário e nosso querido amigo Kev, que nos serve de herói, personagem principal e modelo de moda, tenho certeza não deseja ter seus assuntos pessoais envolvidos em um simples exercício literário, talvez nem tão simples e talvez nem tão literário. Mas, finemos o papo furado que lá vem nosso querido amigo. Sai do castelo, não sem se despedir e receber do mesmo homem alto, que como imaginam vocês, tenho certeza, pois assim também o imagino, deverá tratar-se de um mordomo, uma pasta que creio deve conter, sim, perdoe-me Kev, vamos a frente, sim, desenrole seu dia que prometemos, eu e meus queridos leitores não mais intrometeremo-nos nas peripécias pessoais que se destacam de sua capacidade humana. Por mais que eu não aconselhasse tal fato, Kev acaba de puxar uma carteira de cigarros do bolso, tirou-a com uma mão, sem tirar a outra da tal pasta secreta, sim, secreta porque não o sabemos seu conteúdo, apenas literatura Kev, apenas literatura. Pois bem, nosso prezado personagem acaba de mostrar-se muito habilidoso, pois, tendo uma mão ocupada com a pasta do segredo, puxou a carteira de cigarros com uma mão, sacou um deles com a boca, depois com o dedo polegar, também conhecido pelo codinome de dedão, levantou o isqueiro de dentro da mesma carteira que, com o apoio da mão, se fez aceso, assim como se fez o cigarro. Guardou carteira e isqueiro no bolso e voltou-se ao prazer do cigarro que, aparentemente, deixa Kev um pouco mais à vontade por nossa presença aquí. Não? Pois bem, assim são os ingratos personagens, frutos de nossa própria imaginação que depois vem a buscar regalias de intelectuais quando estão dentro de nossas próprias cabeças. Ingratos, isso o que são. Pois bem, chega de raiva por agora, Kev terá o que merece, pois assim o posso fazer. Claro que Kev está um pouco mais nervoso com as minhas intenções agora demonstradas, mas bom é para que aprenda a respeitar criador quando não basta de uma infame, porém interessante, criatura. Kev mantém, ainda, queridos leitores, o passo apressado de antes. Carrega a pasta firmemente na mão, e seu chapéu ainda levemente erguido, mantém sua visão dominando os 180 graus que lhe competem necessária atenção para que vá adiante. Já saiu dos portões do castelo e parece dirigir-se a uma pequena taberna. Vai rápido, com pressa de personagem que busca o fim de um livro, e eu o consigo seguir somente pela fumaça do seu cigarro, ainda aceso, que vai cuspindo cinza no azul claro do úmido pós chuva que sobrecai do crepúsculo noturno de nosso ambiente de atmosfera lúdica e medieval. Se meus prezados leitores não tiverem gostado desta última sentença, talvez por demais poética, prestem-me o favor do entendimento, pois havia perdido de vista nosso querido Kev que, agora o vejo, está para entrar na taberna Verde e não na taberna vermelha, como, acreditava, iria entrar. Sim, claro Kev, ficaremos aquí fora. Não, não me esqueci que seus assuntos pessoais não devem estar expostos neste exercício literário. Claro que lembro que me pediste um livro dedicado a tais experiências. Com certeza. Boa cerveja, Kev. Lá vai ele. Entrou decidido na taberma. Kev, Kev. Teimo em criar personagens de personalidade forte, aí está o resultado. Dezenas de passarinhos a voar e nenhum a bicar-me a palma. Pois vou o mostrar. Antes de disso faremos um combinado, eu e vossas senhorias, os leitores, que me acompanham até este ponto desta tão descabida e absurda aventura. Pois lhos explico: o que faremos é entrar na taberna verde, na qual Kev está a tomar algumas cervejas, e expiaremos tudo o que se passa no mundo desproporcionalmente irreal de um personagem que não existe, utilizando o termo, claro, em sua forma mais materialista, ou seja, não existe como matéria real, carneosso ou folha verde. O existe como letras que se configuram em almas. Com sorte, tão somente isso. Sei bem que, a partir deste ponto de interpretação, poderíamos também dizer que o amor não o existe, é também um reflexo de algo não bicável que toca as almas, mas façam como quiserem, interprentando do ponto de vista que lhes caiba mais à retina, vamos a dar uma expiadinha que, estando a decorrer o tempo, nós, escritor e leitores, estamos a perder, por suposição, tudo o que se passa dentro da tal taberna. Pois bem, tudo o que preciso para que nossa aventura seja um sucesso é falar deverasmente baixo, escutem bem, portanto, porque vou a sussurrar a partir de tal frase. Estão a me escutar ainda? Pois bem, lá o vamos construir o interior da taberna, pintamos aquí um belo balcão de madeira de lei, alguns nós para dar-lhe um ar mais realístico, um velho gordo, de barba e sem cabelos atendendo atrás do mesmo, diversas garrafas de todos os tipos que nossos queridos leitores, que agoram esforçam-se para escutar os sussurros, poderão imaginar de acordo com seu gosto, respeitando, é claro, a formatação rústica de todo o nosso ambiente, contrastando somente, creio que já o perceberam, com o terno cinza de nosso querido personagem que, em verdade, lhos abro o jogo, vem diretamente do futuro, de um canto qualquer do futuro, que para algo se tornar um futuro basta ser improvável e não merecer ser pensado agora. Pois bem, nosso personagem do futuro está em algum canto desta taberna rústica, medieval, mas agora não o encontro. Nem nas mesas da frente, onde meia dúzia de orcs põe-se a falar, ou a rugir, como manda o estatuto dos orcs literários, nem nas mesas do fundo, onde a taberna já está deserta. Deve estar perdido entre os outros condenados e desvalidos que se põe a beber mesmo de pé, sem mesmo assentar as bundas tolas em algo que lhes dê algum descanso pois, bem o sabem, os vagabundos nem mesmo tem do que descansar. Pois lá está o nosso querido Kev, falemos ainda baixo, aos sussurros, não esqueçamos. Se algum de vocês, leitores, resolver falar-me ou atentar-me de algo nos próximos segundos, por favor o façam em voz extremamente baixa (Kev reconhece a voz de um leitor dos seus em segundos) ou então ponha-se, mesmo, a puxar-me a camisa que já o poderei atender. Lá está Kev, quase que o perco. Retirou o terno, talvez pelo calor, o chapéu continua na cabeça e o cigarro, que creio ser outro, está na boca, mas ainda conversa. Da pasta secreta tirou um roteiro, que roteiro? Não, não posso acreditar. Está a conversar com, não creio, é ele, o Escritor, já sei o que se passa, bem o sei, são traidores, bem o sei, são traidores, crápulas, pensaram que me enganariam, crápulas, imagine só, um dos meus personagens me traindo com o Escritor que, embasbaquem-se, também é meu personagem. Pois se queres ser da imaginação de outro, aquí está, terá o máximo que minha imaginação pode lhe dar. Não, leitores, não mais é preciso sussurrar, gritem, sim, vocês conhecem o tal Escritor, sim, meu personagem fatídico e sem idéias. Ingênuos, pensaram que poderiam me enganar? Dê-me cá este roteiro que, como tudo o que aquí se pinça é de minha cabeça. Aquí está, para o meu personagem Escritor, que nem nome tem o condenado, aquí vai o fim, o fim de todo o Escritor, uma descrição me basta para destruí-lo, aquí está, era uma vez um escritor que não tinha idéias, um escritor que não tinha coração e nem mesmo tinha um cérebro. Este escritor foi morto, simplesmente morto, um presunto mal-cheiroso e dedicado ao lixo, como todo papel que não tem o que contar. Satisfeito? Quanto a você, meu querido e tão querido mas tão querido Kev, sobra-me dar-te um fim neste mesmo conto em que tudo começou, tão súbito e breve quanto o momento em que te dei tal nome. Fim.

Coda: Aos leitores, únicos sobreviventes deste conto que envolve traição e quebra de valores, deixo meu coração estendido em vermelho, para que voltem sempre à escola da imaginação literária.

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