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16.12.05<$BlogDateHeaderDate$>

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Foi ao banco, inferno caíndo do céu. Milímetro por milímetro, não chegou a derreter um centímetro, para estar no banco bastava cruzar a calle Menendez, dobrar à Doce de Octubre, já está. Entrou no ritmo lento dos quarenta graus. Abriu a porta primeira, tocou a campainha na segunda, já abriram, já está lá dentro, acolá os caixas atendem às pessoas, aqui espero eu, já me atendem também. Assim esperou, imaginando que Deus tinha morrido, que o inferno havia tomado conta da Terra, já estava a ligar suas calefações por todo o planeta. Riu de si mesmo, passou um lenço na testa, aí já era o primeiro da fila. Usava uma camiseta azul com detalhes amarelos, da companhia, a camiseta da companhia, além disso um boné na cabeça que tirava, dois em dois, para secar o cabelo que suava mais que ele.

Já quase dava o primeiro passo em direção ao caixa. A mulher responsável por este, então, baixou a cabeça escorando o queixo no peito e levou as duas mãos ao rosto. Ele estranhou, olhou para trás, viu que o vigia tomamava a mesma atitude, sem esquecer de antes trancar a porta do banco. Olhou para as mesas de gerência, a mesma cabeça subcolocada, as mesmas mãos espalmadas no rosto. Ele era o único cliente. Único, silêncio absoluto. Ele olhou de um lado a outro, depois pensou um pouco, alucinações, passou a mão no rosto e ao erguer a cabeça convamente, paum!, abriu-se uma tampa no solo do banco silencioso, dali saíram dez guardas mascarados, formaram uma fila indiana, depois um círculo ao redor dele, 3, 2, 1 e paum!, o agarraram. Quase sem possível reação do nosso herói, o jogaram no mesmo fosso de onde vieram. Saíram pela tubulação. Ele caiu por dez segundos e foi sobre um grande colchão branco. Imediatamente, cinco homens, por decerto do mesmo grupo dos primeiros, o carregaram por um corredor. Ao fim, abriram a porta que dava a uma sala, onde a iluminação só permitia-se ver uma mesa grande com um grande e felpudo coelho. Estava posto de quatro e de costas para a porta. Deu-se os gritos, Já está aqui o homem, grande coelho! O tal virou a cabeça para trás, na parte da fantasia branca que cabia à face via-se um homem de óculos que mirou com certo desespero para o prisioneiro e gritou, Não é esse! Idiotas, tenho certeza que não é esse! Tentem outro, outro! Os guardas rapidamente puseram uma venda nos olhos do nosso herói, arrancaram-o da sala e, depois de o carregarem por alguns segundos, o jogaram em um novo fosso.

Acordou com o inferno caindo do céu. Levantou, viu-se dentro de uma grande lixeira. Que foi que passou, que foi? Recordava os momentos no banco em pedaços. Andou ao redor, viu que estava longe, mesmo assim foi caminhando até em casa. A conta para pagar no bolso, o dinheiro no bolso, o lenço na testa. Não explicou para Jauli porque não pagara. Só disse, O calor, o calor... e foi deitar. Jauli, sem entender, ficou olhando o banco da janela e nem deu atenção aos dois homens que terminavam de fechar a tubulação.

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Basta estar sentado para perceber que pernas é que descem escadas, pernas é que sobem degraus, pernas é que pegam o metrô. Dentro de um vagão, minhas pernas vêem a mais de 80 pernas que caminharam até ali, decidiram por aquele caminho, sentaram-se nestes bancos. Agora sorriem, felizes de estarem cumprido seu trajeto sem sequer mais um movimento. Por isso distraem-se. E isso acontece das formas mais engraçadas: ali vai uma que recebe a massagem de uma mão carinhosa e visivelmente agradecida por estar sendo carregada - a mesma responde, nada, é tu que sempre me abres as portas; ali vai outra que às escondidas distrai-se roçando uma bunda alheia - que o permite, não estamos cá a narrar um assédio sexual neste trem; mas as pernas, em grande parte, simplesmente distraem-se jogando-se arriba de seus pares - sendo que destas umas contentam-se só com o calor proveniente da que está embaixo e assim se revezam, enquanto outras ficam em um vai e vem que bem significaria um coito, não fossem suas irmãs. Sim, porque pernas direitas e esquerdas são irmãs gêmeas univitelinas, ai de quem diga e prove o contrário, basta ver que usam a mesma roupa, medem o mesmo tamanho, possuem o mesmo tipo sangüíneo e a mesma cor de pelagem. Pois assim vai o metrô, sustentado por oitenta pernas de quarenta tipos. Essas diferenças, vez em quando, proporcionam alguns contratempos. Aparece cá uma perna que, dormindo, toma conta do espaço pertencente ao banco alheio. Cá já está uma perna em exemplo cívico a lhe empurrar de volta ao seu lugar. Às vezes a primeira não gosta da interferência e ficam a brigar por aquele espaço até que uma chame sua gêmea e vá embora. É válido saber que, quando são pernas de longa caminhada, nada é motivo para discussão, afinal todas entendem o sacrifício que é carregar o peso da vida. Ao contrário dos ônibus, onde as mãos é que decidem os paradeiros, para desconforto das pernas submissas, no metrô ninguém ousa interferir no trabalho magnânimo dos membros inferiores. Entra-se, levanta-se, sai-se a caminhar. Valhemo-nos, claro, de não esquecer os casos de excitação lascíva, principalmente no exemplo dos homens, donde vez ou outra a mão interfere para colaborar com a manutenção dos direitos de ir e vir das pernas. Já aí está a estação, já as pernas sabem de sua obrigação, já espreguiçam-se, já lá vão a sair do vagão e... ops, não se preocupem, onde uma perna cai por distração acidental, já outras dez surgem para lhe ajudar. Já vão lá, cheias de orgulho, a pisar no mundo.

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Olha! Conto publicado e virei correspondente acolá.

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14.12.05<$BlogDateHeaderDate$>

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- Papai falou que foi fazer o pré-natal.
- E desde quando homem faz pré-natal, menino mentiroso?
E o sujeito tinha ido pegar o extrato bancário na primeira quinzena de dezembro.

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Surpresa foi ver que, depois de um ano, acordara na lua.

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Oito e meia, tarde quase noite, pós-crepúsculo pelas ruas, as pessoas com ar de sono, com cheiro de cama. Guardou as pastas com relatórios dentro da mochila, se despediu dos três colegas de trabalho e desceu a escadaria da estação, já com olhar em casa, na mulher que lhe esperava, na cama. Por isso nem percebeu o caminho com as escadas rolantes, o trajeto em direção ao centro da terra, até a linha 7. Chegou junto com o trem. A porta se abriu, ele entrou, cadeira vazia, sentou. Nem bola para as estações que iam passando, as pessoas iam descendo, nada de novo. Foi adormecendo, adormecendo, até que acordou com o trem parado. Viu a porta escancarada na estação de Las Musas. A última da linha, pensou, não tinha certeza. Voltou os olhos para os mapas internos, foi aí que percebeu a multidão de velhinhos imóveis, à espera, talvez, como ele, de que o trem enfim voltasse a andar, que assim são os trens, chegam até o final do caminho demarcado e já dão meia-volta, assim também são alguns homens. E o trem necas. Las Musas era a última, confirmou. Resolveu esperar e acabou perdendo o sono, pois se tornara interessante ficar a mirar aqueles senhores e senhoras, imóveis, absolutamente imóveis, começou a crer que por demais imóveis. Olhou para o lado, um senhor mantinha um sorriso congelado enquanto lia o jornal, junto a ele uma senhora apontava alguma notícia, também sem mexer um fio de espaço. Curvou-se para a frente, olhou para o fundo do vagão, a mesma floresta de idosos, cada qual com sua espécie de copa, os senhores mais desbastados, as senhoras como os pinheiros de parque, com uma forma artificial, grosseira. Ele fechou a jaqueta, catou a mochila que estava escondida atrás dos pés e se pôs para fora do trem. Bastou sair à porta para que ela se fechasse, os idosos, todos, continuassem o curso normal do seu tempo e o trem continuasse sua rota. Mas em casa lhe esperava a mulher, o café, a cama. E ele nem percebeu que o trem seguiu para além da última estação.

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Sagacidade, meu filho, sagacidade é a palavra. Tem quem ache que não lembrar é a melhor forma de esquecer. Nada. Alguns acham até que raiva é que resolve. Mas essa misturinha de rancor e fraqueza só dá em papelão. E papelão só serve pra tapar buraco, não esquece. Tá, vá lá que a fraqueza é de todo ser, mas eles entenderam tudo errado, filho. Fraqueza nossa, natural, tá na cabeça, não no coração. O resto é maldade pura, ódio, ignorância, tudo, tudo fruto do quê? Da mais pura burrice. Isso é gente burra, de burra passa a metido a besta, de metido passa a orgulhoso, de orgulhoso passa a estagnado, de estagnado passa a presunto morto. Sim, porque este tipo de gente não sabe do pós-morte. Saber, sabe. Mas não acredita. Dizem que são realistas. Sei, realistas seriam se admitissem este medo de conhecer o novo. Medo, puro medo. Adoram é criticar aqui, criticar ali, mas na hora de sentar o pé na porta, de fincar a faca no mapa, aí desconversa cá, desdobra acolá, tudo vira impossível. Difícil, filho, não esquece, é ser homem de verdade, rapaz, carregar nas costas o peso da vida, sem usar carrinho de mão dos outros. E se for usar, filho, aí que sejam dois carregando juntos mesmo, nunca essa farsa que aí chamam de casamento. Tem quem case pra sair de casa, tem quem case pra montar apartamento, tem quem case pra não ficar sozinho, tem uns que simplesmente pra se livrar da fraqueza de gente que são. Mas filho, digo agora e nunca mais, vê se não esquece: casar só se for assim, que nem eu e a tua mãe, amor destes que um morre e o outro capota junto, tão um somos os dois. Não vá lá perder teu tempo com gente pobre de espírito, pobre de alma, essa gentinha que coleciona crítica pensando que isso é ter opinião. Vá sempre pelo caminho do coração, filho. Pra chegar lá, o que precisa? Isso, filho meu, sagacidade, sagacidade, esta é a palavra. Agora dorme, filho, vai, dorme acordado.

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9.12.05<$BlogDateHeaderDate$>

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Com amêndoas, por favor
Gabriel Silveira
Estava Méri a sair da loja de chinos, carregava nos braços uma baguete de pão, ainda uma caixa de suco, que mundo é este em que sucos vêm em caixas, uma barra de chocolate e um pote de margarina. Já passavam das dez da noite, encostou a porta sem perceber que se fechava sozinha, mas isso porque olhava aquele bando de meninos de um lado da rua, do outro estava um outro bando, ela contava uns vinte pra cada turma, a história faça justiça se a conta de Méri estiver errada. A noite caía sem segurar-se ao céu, chegava ao chão sem perceber árvores, prédios e o mundo. Foi Méri na outra direção, não vai querer ver outra briga de gangues, isso não é coisa para uma mulher da sua idade, no berço dos sonhos maternais. Cruzou a avenida, vou fazer a volta, pensou. Foi caminhando sem perceber a escuridão inundando cada folha, o vento silenciando cada pássaro, até alcançar a outra quadra. Pois não é que lá, dividindo a outra rua, estavam também dois bandos? Dali pareciam mais jovens que os outros, vai saber, mas lá foi Méri, não custa nada a ela caminhar mais uma quadra pra lá, mais duas pra cá, está contornado o problema. A outra quadra estava ainda mais escura e silenciosa, mas Méri nada percebeu. A calçada, sim, lhe pareceu mais suja, seu namorado diria que era uma neurose. Alcançou a esquina, outro bando. Mas será o pé do cabrito? Méri foi até a outra quadra, ali não havia outro bando, havia tão somente o mesmo chino em que acabara de comprar o que precisava em casa. Claro, o chocolate não era assim tão necessário, mas quem pode julgar o sacrifício diário de Méri para poder, enfim, comprar um chocolate sem prestar satisfação a leitor qualquer? Ela estava ali, sem dúvida, na quadra do mesmo chino, mas no lado de cima. Ainda olhou pra trás como duvidando de seu trajeto, depois voltou os olhos para a frente. Nada de bando. Depois deu-se conta de que, se estava lá acima, já havia vencido a barreira que antes lhe impedira, sabe-se lá onde foi aquele gente toda, enfim tudo houvera sido mais fácil, por certo se perdera em pensamentos e já lá está. Quando virou-se para seguir para casa, levou um susto, deixou cair a sacola no chão. Um caminhão cruzara o caminho de um ônibus, a batida estrondosa, estavam os dois a fechar a rua que levava à sua casa. Ela olhou para ambos os lados, silêncio absoluto. Nada de motoristas, nada de sirenes, nada de nada nos minutos que Méri ficou ali, congelada. Virou-se de lado para o novo caminho bloqueado. À direita, é por ali que vai, então. Poderia ser mentira, não fosse este um relato sincero, porque Méri encontrou uma fossa aberta no asfalto, mas tão grande e intransponível era o cinza escurecido descendo às entranhas da terra que voltou-se para o lado do chino, sem reclamar de nada, chega de maldições por hoje. Entrou na loja. Repensou o assunto? Que assunto? O que eu havia lhe dito, sobre levar esta outra barra de chocolate, com amêndoas, mais crocante, muito mais saboroso. Leni olhou o chocolate que tinha na sua sacola amassada, mirou o chinês atrás do balcão, mais um vez seu chocolate artesanal, adorava este chocolate com aquele leve gostinho de hortelã, soltou-o sobre o balcão e pagou a diferença pelo outro, o indicado. Depois foi pra casa, sem gangues, sem quadras rotativas, sem acidentes, sem buracos meteóricos, pensando em que mais, afinal, a propaganda ainda haveria de inventar.

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Mundo de iguais 2
Gabriel Silveira
Nenhum homem jamais o havia visto frente a frente, mas diziam que era o mais poderoso dos homens. Certa feita, ele precisou de um dentista. Dr. Liturgo foi o escolhido. Chegou na mansão, foi recebido por uma comitiva que o revistou, fez o mesmo nos aparelhos odontológicos, ele lançou mão da metade de suas coisas. Aí o deixaram à porta de um pequeno corredor. Outra porta ao fundo. Foi até lá, abriu-a, entrou. Foi até o fundo da sala, como o haviam instruído. Lá estava o homem magro, olhos fundos, sentado em uma grande poltrona. Sem palavra alguma, o primeiro soltou sua bolsa sobre a mesa, começou a retirar seus instrumentos, quieto como um rato morto. O homem poderoso recostou a poltrona, olhou o dentista e, antes de abrir a boca perguntou. Doutor, vai doer?

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Mundo de iguais
Gabriel Silveira
Era uma vez uma doença que se alastrava. Ela chegou ao primeiro, depois ao segundo, depois à fonte de água, depois aos metrôs e, finalmente, tomou conta do mundo. Quando encontrou o último homem que restava não-contaminado, parou e ficou a fitá-lo, olho no olho. Ele, brando, pacífico, perguntou. Por que não vai em frente, é o que te falta, por que não me faz doença? Ela sorriu com seu fúnebre rosto e respondeu. Porque tu virás até mim. E como tens tanta certeza? Olhe ao meu redor, só resta a doença, o mundo inteiro já está contaminado. E então, ainda assim não compreendo. Os homens são todos iguais, é isso, é só isso, agora a doença é a regra. Não irei. Virás, sei que virás. Saiu mancando, podre, dobrou a esquina e foi pra casa, esperar.

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Conversas sem fim
Gabriel Silveira
Sentei à janela e um pássaro preto e branco, amansado pelo azul, sentou-se ao meu lado. Pedi por notícias e ele consentiu-me, voou. Preparou seu trajeto no jardim à minha frente, abrandou-se para o vento passar e depois seguiu a corrente, perdendo-se no sol. Contemplei a espera. Depois voltou, disse-me que voara no tempo, que no presente vira o Retiro em seus verdes tantos, que vira o asfalto e os carros, que vira a magia nos postes de luz apagados, como são engraçados os postes apagados, vira as calçadas como formigueiros, como são engraçadas as pessoas como formigas, e vira as formigas também, são engraçadas como pessoas. Voara até o fim e o começo ainda lhe pareceu mais belo. Depois silenciou. Perguntei do futuro, e o futuro? Ah, o futuro. Disse-me que no futuro, as pessoas são como formigas, as formigas como pessoas. Disse-me que o Retiro são como postes acesos e os postes são cada vez mais, como os carros. Sacudiu-se, bicou sob a asa, olhou-me profundo. Pensou, por certeza. Então me disse, viste que para voar entre o presente e o futuro preparei um trajeto, esperei o vento certo, me entreguei aos caminhos e depois me fui com facilidade? Sim e entendi. Por que ficou a escutar-me, então, ao invés de fazer o mesmo? Porque meu coração é lindo e puro, como o teu, mas minhas asas são de ferro, pesadas como o tempo. Ele nem escutou. Ficou ao meu lado até o entardecer sem acreditar no que havia dito. Eu não ousei dizer mais nada. Sabem como os pássaros são intolerantes com as formigas.

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De momento
Gabriel Silveira
Por um segundo, ela teve vontade de caminhar de costas até a cama, pegar o celular sobre o livro do Cortázar, ligar para alguém, pedir que viesse, não estava bem. Não o fez. Ficou ali, comparando-se ao rosto, ao olho, à voz. Sentia-se à vontade, quase sozinha. Pergunta-me, a outra disse. E ela nunca havia pensado nisso. Perguntar o quê? Já o sabe, está claro, que vai aparentar os anos, que é inverdade, enfim, o que dizem os cremes da Avon, isto já está estampado entre o marco da porta, a mirar seus próprios olhos. Oportunidade única, insiste a outra. Ela olha com avidez para si mesma, pensa no trabalho, não; no marido, não; nos filhos que virão, não; pensa no Brasil, também não. Franze a testa, olha desvendando os olhos, enquanto ela continua congelada, esperando pela pergunta. O frio entra lentamente pela porta e esconde-se em suas pernas. Ela apressa o pensamento. Terei outro homem na minha vida? Por que fizeste esta pergunta? Porque foi o que me veio, o que há de mal nesta pergunta? Então é isso. É isso o quê? Já tinhas esta incerteza nestes tempos. Que dizes, do que está falando? Sim, esta é a resposta à tua pergunta. Terei outro homem? Sim, terás. Mas por quê? Está aí, por esta tua incerteza. Botarei tudo a perder, é isso? (Fez sinal de afirmativo com a cabeça). Ai, mas como posso evitar? Acredite, estar aqui é, em verdade, uma tentativa de que repenses esta idéia louca que tens aí na nossa cabeça. Lá estás triste, é? Seria melhor se nunca tivesse pensado nesta bobagem. Hmm, mas que pensas que devo fazer? Sei lá, precisas tentar algo, levantar esta auto-estima, acabar com esta insegurança. Que tal voltar para a academia? Não, ele é de lá. Quem é de lá? O outro homem. Hmm, melhor não arriscar. E pra aula de piano? Com o Marcos, o Lúcio iria enlouquecer, capaz de ser pior. Não, pior não dá. Muito ruim, é? É. Tenho que dar um jeito. Temos. (Suspiro) Quer entrar um pouco? Não, tenho que ir ou perco a hora. Bom, quando puder apareça aqui, às vezes é bom relembrar o passado. Quando der, prometo. E foi saindo pelo corredor. Quando foi virar a escada, ela falou da porta. Mas foi bom? O quê? A vida, até onde sabes? Foi difícil, mas foi. E o Lúcio? Fica longe das academias. Tá, não esqueço. Também não.

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7.12.05<$BlogDateHeaderDate$>

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Manifesto do esgoto
Gabriel Silveira
Ou alguém desentope ou todo mundo apodrece. Tô cá, entre milhões de bactérias, sedento por ar no gás de um presunto entalado, sedento por água em meio ao barro seco, sedento por fome em um mundo de saciados. Ou alguém desentope esta literatura ou ela esgota-se, esgotou-se, bóia poluindo a costa. Se eu chegar a boiar eu comemoro, juro, fraco, sou. Porque enquanto o Marcelino nada, nada os que bóiam e fico cá eu, tentando ver algo ainda no cano, preso entre o que é verde e o que é burro fugido, entalado na merda e no que é doce, tá tudo aqui. Nem nada, Marcelino. Lá fora, vejo a luz na fim do túnel, mas não é túnel, é cano, porque boiando na costa ou ainda entalado, tudo esgotou-se, deu-se fim à nossa rima podre dos neo-nada, à trama seca dos neo-tudo.

Explico: os esgotados que estão lá fora, por verem o céu, pensam que estão no paraíso, mas não. São vômitos do mesmo esgoto que eu e tu, que também entrou pelo cano, como todos os valorosos amantes e defensores da literatura brasileira. Leiam, leiam os clássicos e enquanto Machado de Assis faz fortuna no paraíso, Marcelino vira publicitário deste inferno. Eu sou publicitário, eu como e mastigo e, quando abençoado, cuspo o pão amassado pelo demo. Valha-me Deus a afirmação. Mas cá sabemos, eu e tu e eles, que a tentação de não ser nada em um mundo em que ninguém é tudo, é puta tentação. É por isso que peço, êta pôrra, salvem o Marcelino da propaganda.

Talvez revolução seja um termo esgotal para falar no assunto, mas creiam, precisamos dar um chute no nariz desta paranóia literária, fazer sangrar esta estagnação que nasce no peito desta forma calada, desta retórica esgotada, deste requebrar contemplativo, deste mundo silencioso. Carecemos de resultados, menos somas. Carecemos de dar literatura transformadora aos poetas reflexivos, carecemos de teoremas, carecemos de sementes, menos frutos, carecemos do realmente novo que é trimassa, galera, carecemos dos esgotados, eus e tus.

Funciosa assim: organizemo-nos, os escritores publicados (boiantes), não-publicados (entupidos como eu) e leitores sem vida, juntemo-nos ao redor de uma grande fogueira de livros e oremos, oremos e oremos, com fé toda, com orgasmos múltiplos, erguendo mãos e paus e rabos ao céu, clamando por um profeta, um profetinha qualquer, unzinho mesmo, que nos indique o caminho de volta, para que possamos subir o cano, saltar do lixo, desesgotar-se, caminhar à praia e depois, com o livro do Marcelino em uma mão e del Fuego na outra, mirarmos o cano acolá embaixo e dizermos: - Ar puro, enfim. Como é que nos metemos nesta merda?

Depois choremos, choremos na miséria e contemplemos os poetas que nascerão, os jornalistas que relatarão, os novelistas que dar-nos-ão a trama de uma nova literatura.

E agora? E amanhã, José?

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6.12.05<$BlogDateHeaderDate$>

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Conselho
Gabriel Silveira
De cá das fazenda antecéu,
caji tudo já foi feito
só falta contá certinho,
só falta escrevê direito.
Segui os conselho do Antônio,
dexei de lado o cerimônio,
vamo já pro dito e feito.

Prá conta essa prosinha
que é estória da nossa história
saibam todos que essa rima
to escrevendo de memória
se mudar porque esqueci
vou fazer como os dali:
vou aumentar a nossa glória.

Os dali que lá reinavam
contaram tudo invertido
botaram o filho de pai,
a esposa de marido.
E fizeram deste santo,
armado de fé e manto,
o senhor dos pervertido.

Era um homi de missão,
feito Zumbi ou Sepé,
que saiu a pregar a verdade
levado na sola do pé.
Quem via o mendigo imundo
cabra velho e moribundo
não levava muita fé.

Mas a força do divino
deu palha pro nosso palheiro.
Criou fama e freguesia
não tardou nem ano inteiro.
O povo inteiro rezava,
chorando se ajoelhava
para o velho conselheiro.

Foi que ergueram cidade
bem no peito do sertão
tiraram seu grito da terra
tiraram comida do chão.
Era tanta fartura e beleza
êta vida, que beleza
a Bello Monte é a salvação.

Mas pra coronel ficar fulo
basta sorrir o pobre.
De arapuca em arapuca
transformaram ouro em cobre.
A pátria armada chegou
a força unida engatilhou
contra causa, Deus, tão nobre.

A resistência foi tamanha,
do tamanho da opressão.
Qualquer pedra era arma santa
contra a força do canhão.
Pracinha voava aos montes
não dúvide, lá neste fronte
caíram mais de um milhão.

Mas Deus olhando aquilo
achou que não carecia.
Deixou os diabo aqui embaixo
levou pro céu o que ainda havia.
Bello Monte virou paraíso
e pra gente aqui criá juízo
é só imitá essa cabraria.

Todos no céu dos beato,
que do nosso mundo é lindeiro.
Lá onde exército não tem,
lá onde o último é primeiro.
Se quiser achar o caminho,
sussure bem devagarinho:
viva Antônio Conselheiro.

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5.12.05<$BlogDateHeaderDate$>

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Meu Tejo
Gabriel Silveira
Quando me olhas, me atravessas
sem cadenciar tua correnteza.
Solto-me das cabeceiras e
deixo-as, minhas certezas.
Lá vou eu, permita-me a paz,
me regozijam as tuas cores.
Vá-te, segue teu rumo,
em ti pairo, donde fores.
Ai, mas se soubesses...
lindo é tua água a correr.
Deus deu-te um espelho,
é o céu, se parasses para ver...
Já cruzamos vales e mundos,
cá chegamos sem um dano,
prepara-te, fluxo de beleza,
desagüaremos no oceano.
Meu amor, meu grande amor,
correnteza múltipla, torvelinho,
ainda estou cá a boiar,
ainda está tu a caminho?
Desbrava o mar,
apaixonas a brisa vã,
deixas em cada onda fugaz
teu aroma de hortelã.
Mais um venceste, o oceano,
depois das florestas, os montes.
Que mais falta para ti,
torna-te-ás o horizonte?!
E eu cá, boiando lento,
escrevendo-te o que vejo
Teu confidente mais fiel,
desde que ganhaste o Tejo.
Agora vem, banha-me,
quero sentir-te em meu labor.
Inspira-me a poetisar,
deixa espantar-te o dissabor.
Ahhh... refrescam-me tuas águas,
donas de ar, terra e céu,
fico a boiar meu corpo-letra,
inventando versos sem papel,
E sinto chegar-te, serena,
à cabeceira do paraíso,
tua ondas a encobrir-me,
"favor fotografem este sorriso".
Fiquemos os dois aqui,
ahh... deixa o mundo pra lá.
Aproveita, recosta-te em mim,
agora é tua vez de boiar.

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Metro: Av. de la Paz
Gabriel Silveira
Puxou as duas mangas até ficarem lindeiras com as mãos. El tren efectuará su entrada en la estación. Sorriu profundo, quedou sério. Terno cinza, repousando sobre o largo corpo, sapatos pretos espelhando seu rosto de barba espessa e cabelos longos, úmidos e lisos, que tocavam os ombros indiferentes. Na mão cansada, um livro. No bolso vazio, um lenço. Nos pés, o movimento, o trem já chegara, já apitara, já entrara, ele. Nas suas costas a porta, na sua frente 39 pessoas silenciosas, olhando o tempo ir-se. Segurou-se até o trem partir, cinco minutos até a próxima parada, abriu o livro na página 28. Leu por uns segundos em voz baixa, depois voltou o rosto para cima, fez seus olhos brilharem com a verdade, levantou a mão trêmula contorcendo os dedos abertos e começou o discurso em tom fúnebre. Ustedes que son corderos de una mentira; ustedes que son ovejitas de un cielo que está inmerso en sangre; ustedes que no desean quedarse para siempre como un lapso de oscuridad, porque pueden tener la virtud de la eternidad (neste momento trocou a página do livro e subiu a entonação da voz); ustedes que no están aquí para morir solos, que desean abrir fuego contra un Dios que nunca habrá de salvarlos; aquí, ahora, pueden tener un nuevo Dios, un misericordioso Dios y que guiará todos para la súper vida eterna de Catón. (Voltou a subir a entonação da voz, dando sua ordem final) ¡Para Catón!, vengan todos conmigo. Nisso deu as costas para as ovelinhas, o trem parou, ele desceu e, sem abrir os olhos, ergueu a cabeça para os céus. Gracias, mi señor Catón, ahora nuestra comunidad está pronta para hacer la última viaje. Abriu os olhos para contar quantos estavam ao seu lado. Nenhum, estação com eco. Ele baixou os braços que quase tocavam o céu, puxou as duas mangas até ficarem lindeiras com as mãos, passou rapidamente a mão cansada sobre o cabelo ainda úmido, fechou o livro e pôs-se a esperar. El próximo tren llegara en três minutos. Sorriu profundo.

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1.12.05<$BlogDateHeaderDate$>

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Eu tive um pesadelo agora
Gabriel Silveira
Acordou suando coito. Donde estou? Que fizeste, José? Donde andas? Nu, estava, mas fez questão de rapidamente mergulhar nas calças, meter a camisa, pisar o sapato. Foi com as mãos ao bolso, nem dinheiro, nem chaves, nem nada. Donde estou? Passou a mão sob a água do banheiro azulejado, a mão no rosto, ainda foi até a janela ver de que lugar e de que altura olhava. Segundo. Teve cuidado pra não fazer barulho. Podia ouvir alguém conversar na cozinha, era o que parecia. Que fizeste, José? Suspirou, abriu a janela e se pôs a descer, segurando-se ao cano que também descia, depois ao muro de cacos de vidro, depois à rua. Donde andas? Pelo sol, deu crédito de horas ao meio-dia. Ajudou-lhe o olfato de comida, zona residencial. Donde estou? O sol da Porto Alegre de janeiro evaporava seu fedor de sexo. Que fizeste José? Foi cruzando as ruas, até encontrar uma parada de ônibus, observar um a um, já sei por onde andas, José. Fez sinal ao primeiro, correu pressionado pela calça de escritório, a camisa de escritório, o fedor do sexo de escritório, e entrou sem cumprimentar o motorista. Faça a fé, seu moço, tô sem grana, me assaltaram. O cobrador olhou para o sujeito de escritório, desconfiou do bigode sem barba, fez cara feia para o cheiro e tudo bem. Senta aí. Ele sentou, ficou vendo o sol cair do céu, a panela de água quente que descia de lá virando fumaça em segundos. Limpou a testa com a mão, a mão na calça, a calça no banco. Uns quinze minutos e levantou, agradeceu ao cobrador, desceu na Protásio. O cabelo preto lhe enrolava o suor, aquecendo a cabeça, o bigode aparava o suor que a sobrancelha aparava que ia escorrer pelo pescoço e lhe molhar a camisa. Desabotou o primeiro botão, via-lhe a regata branca. Entrou no primeiro bar. Uma bem gelada, seu Antunes. O tal olhou desconfiado, foi até a geladeira, serviu a tal, o outro bebeu. Bota na pendura que hoje a coisa tá ruim. Pendura, só pra conhecidos. Sorte a minha. Paga a cerveja pra não se incomodar rapaz, disse um outro da mesa. José olhou para o lado, voltou a olhar o velho Antunes, sabe lá que pensa José. Tô sem nada, tô duro, seu Antunes, vai me deixar numa dessas? O relógio, respondeu de trás do bar, deixa o relógio. José botou o relógio na mesa, saiu puto. Velho filha da puta, como se não me bastasse acordar na pôrra do fim do mundo, este velho puto ainda me faz desta. Explica isso pra Rosinha, explica? Sem chave, sem dinheiro, sem documento, sem a pôrra do relógio. Entrou no portão de casa, cheiro de comida, ainda sol do meio-dia. Três batidas na porta, um grito. Rosinha! Três vezes o tamanho de José, abre a porta um homem alto, barba fechada, cara feia. Quer o que com ela? Como, quer o quê, é minha mulher, pôrra! Tua mulher o cacete, Rosinha! Chega esta. Quem é, amor? Um safado dizendo que é teu marido. Tu conhece? Nunca vi mais louco, nem mais fedorento, e saiu a dar risada, levando uma menina pequeno com ela. Peraí, quem é essa menina, perguntou José, quem é? Minha filha e isso não é da tua conta, tarado. Bastou o ¿filha¿ para que José perdesse a força dos braços, se deixasse jogar para trás pela força que o outro exercia na porta e blam, tá lá porta fechada, homem lá dentro, José lá fora. Que fizeste, José? Tomaste uma bomba, José? Levantou, ficou olhando a casa, da janela o homem ainda olhava com raiva. Nem engolira e já vomitara José. Dos fundos, vem o cão a latir, vade retro, José levanta apressado, junta a si mesmo, se toca até a rua, bate o portãozinho de ferro, olha mais uma vez para o marido de sua mulher. Vai embora, José. A mesma água quente dançando no ar, deve ter queimado o vento. Para em frente à casa da vizinha, pergunta as horas, ela responde. Quinze pra uma, moço. Moço, quer dizer que nem tu me reconheces, Joana, pôrra? Desculpa, moço, se conheço o senhor e não tô lembrada, mas nem sua cara nem seu tom de voz me parecem comuns. E vai lá pra dentro a Joana, a moça brava, vai cozinhar e lavar para o marido, vai ler revistas e costurar camisas e deixa José na rua. Mais uma vez a mão na testa e sai a caminhar, pega uma sombra, caminha tantas quantas quadras forem possíveis, não são muitas. Ainda o cheiro de almoço subindo das casas, ainda o cheiro de sexo subindo do corpo. Pára em uma ruela, olha uma casa, família almoçando nos fundos com os amigos, a porta da frente aberta, bons tempos de fé nos homens, a carteira sobre a cristaleira, ali ele entra de mansinho, de malandro, pega a carteira, da sala uns olhos o encaram, um menino não mais que seis, não mais que sete. Teu pai pediu que eu pegasse a carteira dele aqui. Meu pai não tá aqui. E onde é que tá? Meu pai tá na vó. Pois, guri, também eu tava lá agora, vim cá só pra buscar a carteira pra ele, mas ó, não conta pra ninguém, bico fechado, viu? Não entendeu se foi o cheiro ou foi o tom de voz, só viu que o piá se botou a chorar, engoliu o ar do mundo a chorar, vieram todos a escutar e ver o choro, que era choro lindo de se ver, e José já era só vento em meio ao mormaço. Desapareceu. Quando o menino engoliu as lágrimas, já estava quilômetros dali. Três cervejas, aqui não dá mais que três cervejas, pensou José olhando a carteira, que pôrra que eu vou fazer? Pegou a Venâncio ensolarada e foi até a João Alfredo, vou falar com o Marquinhos, quem sabe passo lá a noite, quem sabe ele me empresta uma grana, quem diria o Marquinhos ter que me emprestar uma grana. Chegou até a entrada do prédio, era só ele e o sol que estavam ali. 112. Sim? Marquinhos, é o José, preciso de uma grana, cara. Peraí, vou descer já. Graças a Deus, José, Deus não esquecera dele, se o Marquinhos também não. Nem três minutos levou, apareceu uma sombra no fundo do vidro, a luz do elevador, o homem vem até a entrada, mal abre a porta. Já falei que vou pagar, pôrra. Que pagar, quero uma grana, Marcos. Mas o outro nem ouvia José. Sai daqui, minha mulher não sabe de nada, vou pagar até terça, prometo, agora sai daqui. Tá falando do quê, pôrra. Sai daqui, some daqui, eu vou lá e pago tudo, já falei. Não me empurra, pôrra. Sai daqui, some daqui. E fecha a porta o homem, o Marquinhos. José dá com a mão na porta, puto, puto, que merda de sol, que merda. Que fizeste, José? Donde andas? Sai dali, sem opção, que fazer, sai dali e vai pela João Alfredo, pega a Sebastião Leão, um bar na João Pessoa, o refúgio é um bar na João Pessoa. Senta, pede uma cerveja. Fica sem ver o mundo, mas o mundo cai lá fora, vai deixando o sol se ir, vem o jogo na TV, o Inter ainda tem o mesmo time, José nem vê, mas o seu time ainda é o mesmo, nem vê quanto paga ao velho do bar. Obrigado, moço. E ele responde. Meu nome é José. Mas que fizeste? Sai da João Pessoa e resolve voltar em casa, já está suando a camisa que é do corpo, a calça que é do corpo, a lembrança que é da alma. A cara ainda é de escritório, o bigode é de escritório. Chega na ruela da Protásio, senta do outro lado da calçada, escondido atrás da Sibipiruna. Espera, espera, uma hora saem, é domingo, Rosinha sempre sai no domingo. Ele cochila na sombra, o sol nem se lembra mais dele quando os três, a família, a sua que é de outro, saem cruzando as mãos, fecham o portão, deixam a casa. José já acordou, já viu, já pulou o portão, já fugiu do cachorro, o trancou no pátio da frente, já está forcejando a janela dos fundos. Já entrou. É o seu quarto, abre o armário mas não são suas roupas, escolhe camisa e calça ao seu gosto, mas não é o seu gosto. Abre a gaveta ao lado da cama, não é seu radinho, não é sua foto sobre a cômoda, é a foto da sogra abraçando o homem, o homem beijando Rosinha, Rosinha beijando o homem, o homem abraçando a sogra. Quanta raiva é não ser quem se pensa que é. Pula até o banheiro, nem há lâmina de barbear, nem há escova de dentes sua, só a deles, abraçadas uma com a outra, dançando a rotina uma ao lado da outra, dividindo as horas uma ao lado da outra, sendo casal uma ao lado da outra. Ele ao lado, sério. Tira sua roupa fedendo a tudo, entra no box, hesita alguns segundos antes de passar o sabonete no corpo, vai, azar, que merda, que merda, lava-se do cheiro, limpa-se de si, despido de identidade, nu de história. Do chuveiro cai um pranto esquecido. Já saiu do box, já colocou a camisa que sobra, a calça que sobra, o sapato é o mesmo. Joga a toalha sobre a cama, deixa ali também o cheiro do escritório. Abrem a porta, não é ele, é o outro, com Rosinha, com a filha que seria dele, ele pula a janela, agora do avesso, o puto do cachorro está a latir, já houve o homem, já corre o homem, já está na janela dos fundos a gritar. É aquele filho da puta, é aquele filho da puta! José chuta o cachorro do outro, corre até o portão, correu até a rua, corre até a esquina, correu atrás de si, o outro também vinha correndo, cansou, desistiu. Quiçás com medo de encontrar um amante da sua esposa, vá lá saber. José não era amante da sua esposa. Era marido. O ar seco entra no peito feito cinza de cigarro, ele descansa, estrala o pescoço, se joga na parada de ônibus. O mesmo que o trouxe pela manhã já chega. Já chega. Ele chama, entra, desta vez paga com o dinheiro do pobre coitado que estava a visitar a própria mãe, o pai do menino traumatizado com o tarado que uma vez lhe aparecera na porta de casa. José desce do ônibus. Pára na rua. Donde estou? Que fizeste, José? Sobe pelas casas com cheiro de janta, anda em torno do muro com vidros, não vai pular a janela. Bate à porta da casa. Uma menina olha da janela, grita. Mãe, é o pai. Nem se surpreende. Uma esposa abre a porta, olha as roupas do marido. Donde estava? Por aí, responde José. Ontem foi tão bom, tudo tão perfeito, pensei que irias passar o domingo em casa. Cá estou. Bom, sempre é tempo de recomeçar. Recomecemos o domingo, então. Vem pra dentro de casa. Já foi.

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Olha que delícia: continuo em mi, mas estou em lá.

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