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23.2.06<$BlogDateHeaderDate$>

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Guardado e separado
Guilherme Póvoas
Eu nunca brinquei de príncipe. Mas estou louco para vestir a fantasia. Então, se é carnaval, não diga o que é, o que quer, o que se busca nestas noites de imenso regojizo da liberdade e esquecimento da dura realidade, que como um relógio tic-tac que nunca pára, sustenta o barulho dentro de nossas cabeças. E se não me guardei o suficiente, ou se não posso aproveitar tudo que a época me propõe - ou incita - basta saber que pelas ruas, os blocos e cordões continuam mantendo a vida exatamente assim: como ela não deve ser.
Como se isso tudo não bastasse, sábado, quando eu chegar da labuta, tarde da noite momesca, ligarei a televisão nem que seja apenas para ver que alguém faz as coisas por nós. Assim como nós fizemos por eles. Assim como Ele fez, e faz, por todos nós.

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13.2.06<$BlogDateHeaderDate$>

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Há temporais
Gabriel Silveira
Hoje sei que foi uma boa escolha termos ido passar aqueles dias na fazenda. O ar livre, o contato com a natureza, com os animais, sabia que tudo isso seria muito bom. E creio que, agora, até ela pensaria diferente, já se convenceria que foi uma boa alternativa. Vamos poder repensar tudo, ver o mundo de longe, respirar outros ares, foi isso exatamente o que eu havia dito. Depois de doze anos, imagine só, doze anos, os casais têm seus problemas, ou se toma alguma atitude ou as coisas desmoronam naturalmente, a tristeza abocanha cada pedacinho de felicidade. Ontem pela manhã, quando chegamos, eu pensava que talvez tivesse me precipitado nesta fuga. Pudera, com o escândalo que a pequena fez. A pobre Dona Rosita viu logo que algo não estava bem. Logo que chegamos, fui obrigado a levá-la até o quarto e ficar ali até que se calasse, que controlasse os ânimos. Gritava que era eu o culpado, eu o culpado. Imagine o que Dona Rosita iria pensar, que talvez eu fosse destes homens que possuem romances em cada trabalho que arrumam. Só quando ela prometeu que ficaria calada é que pude soltá-la, beijei-a na face, como gostava antigamente, e fomos conhecer a fazenda, sabia que um passeio a faria bem. Vimos juntos as ovelhas, expliquei o funcionamento da tosa, ela até aceitou segurar um borreguinho recém nascido para que eu tirasse uma foto. Almoçamos todos juntos e demos graças pela mão de cozinheira de Dona Rosita. Levamos um bocado de tempo até terminarmos com todas as guloseimas com que nos brindou. Depois, enquanto as duas lavavam as louças e organizavam a cozinha, aproveitei o momento sozinho para levar o carro até os fundos da fazenda, estacioná-lo atrás da casa, fora da vista da estrada. Notei que o céu fechava-se no horizonte e bastaram alguns minutos para que a chuva me confirmasse com um espetáculo maravilhoso. O restante do dia, ficamos os três em frente à lareira, tomando chocolate quente e nos divertindo com as histórias de Dona Rosita. O fogo fazia reluzir a beleza dela que já não chorava, já parecia a mesma de antigamente, já parecia do meu lado mais uma vez.

Mas quando acordamos, vi no seu rosto que a noite tinha trazido lembranças ruins. Os olhos abertos, olhando para o infinito, uma cara de quem apenas viu um monstro, um fantasma ou algo assim, como se estivera decidida a gritar, mas simplesmente não pudesse acreditar em si mesmo, em que aquilo tudo fosse verdade. A beijei na face e saí do quarto sem dizer palavra, deixando a porta, por conveniência, trancada. Fui em busca de Dona Rosita que observava as angolistas no fundo da fazenda e a expliquei que não estávamos bem, que precisávamos de um tempo sozinhos, não fosse isso aborrecê-la. Ela respondeu com uma bondade que me encheu de esperança, disse que sabia como eram os casais, ela também já tivera seu casamento, essas coisas passam. E como precisava mesmo de mantimentos para nos entreter durante o temporal, que novamente se armara no céu, logo saiu para a cidade com a camionete D20, se perdendo na estrada barrenta lavada pela chuva. Esperei que sumisse no horizonte, encilhei dois cavalos e fui ver como ela estava no quarto. Parecia dormir tranquilamente. Dei-lhe um beijo no nariz, que a acordou sorridente, e puxei ela nos meus braços até que ficasse de pé, mesmo que contra sua vontade de continuar deitada. Esperei-a vestir-se e fomos até o fundo da fazenda, onde a avisei de uma surpresa. Ficou realmente fascinada quando a convidei para que saíssemos juntos a cavalo pelo campo, apesar de que Dona Rosita houvesse avisado, já ontem, que para isso esperássemos a estiagem. Fomos. Poucas vezes senti ela tão próxima a mim como nestes momentos em que descemos até a plantação de eucaliptos, rodeamos os açudes fartos de traíras, cruzamos o corredor da meia-lua e chegamos até o Penhasco do Tuma, onda ficamos pelos menos duas horas consumidos pela paisagem das montanhas ao longe, os cavalos a mastigar o pasto molhado, o cinza das pedras formando desenhos bizarros na descida do penhasco. Ela sorria embalada pelo vento, eu a acariciava inundado pela alegria. Aí, mais uma vez, o temporal voltou a se armar, o ruído dos raios fez assustarem-se os cavalos e achei melhor voltarmos para casa, Dona Rosita também haveria de chegar logo. Levantei e apertei os arreios antes de irmos, mas quando resolvi chamá-la ela já estava consumida nos pensamentos, nas memórias que nunca deveriam ser lembradas, nas idéias que nunca deveríamos ter tido. Quando ela se virou com os olhos cheios de lágrimas, decidi que o melhor era tranquilizá-la, era ajudá-la a despertar deste pesadelo maldito, desta aventura bizarra e a abracei apertando-a forte contra o meu peito que umidecia com as lágrimas do seu choro que agora era forte como a chuva também logo seria forte e já estávamos ambos encharcados, a visão dela já perdia-se entre os fios de água do temporal, o cinza já consumia o horizonte e ela era cada vez mais uma sombra, um misto de frustração e pesadelo que me tentava abraçar e eu ia ao encontro dela e senti quando meus braços a tocaram e vi quando ela caía ao som dos cavalos que fugiam relinchando e quando seu corpo já estava entregue aos ventos e às pedras e ao infinito. E ali, como eu nunca havia desejado, também haveria de cair o outro corpo que estava no porta-malas do carro, o corpo que realmente havia matado a ela naquela tempestade infindável de medo e remorso.

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10.2.06<$BlogDateHeaderDate$>

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Mentiras sem tempo
Gabriel Silveira
Verdade seja dita, é sempre mais quente o pão que o diabo amassou, por obviedade. Entre o céu e o inferno sempre use a razão.

Verdade seja dita, antes fumante do que estressado, antes estressado do que morto, antes morto que mal vivendo.

Verdade seja dita, sabor nobre é do que é roubado, nobre é nobre porque é ladrão, é natural pobre ser enganado.

Verdade seja dita: é melhor comer do que lavar, melhor lavar do que secar, melhor secar do que não ser convidado pra janta.

Verdade seja dita: o tu é sempre mais estranho que o eu, o nós é sempre mais importante que o eles, o vós é sempre esquecido nas prateleiras.

Verdade seja dita: a vontade comandava o ser, quando ele entrou em extinção, passou a controlar os idiotas que nada são.

Verdade seja dita: uma mentira verdadeira é sempre mais honesta que uma verdade mentirosa.

A verdade que se cale: a mentira tem razão.

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9.2.06<$BlogDateHeaderDate$>

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E se, sim.
Gabriel Silveira
E se o seco molhasse,
evaporasse o concreto,
brilhasse o opaco,
se o sim fosse veto,
se a faca servisse
o que cortara a colher,
se cristo fosse o diabo
se fosse deus, baudelaire,
se tudo fosse o nada
e o nada fosse um pouquinho,
se o pão não fosse partido,
se o sangue não fosse o vinho,
se fosse negro o branco
e fosse o branco o oprimido,
se nada fosse a razão,
se tudo fosse sentido,
se a história fosse piada
e a piada, mentira,
se o mundo fosse risada,
se já a tristeza partira,
se o de um fosse feio
e o de todos fosse belo,
se a terra fosse vermelha,
se o sangue fosse amarelo,
se a vaca fizesse bé,
e a ovelha fizesse mu,
ainda a gente se amava,
tu como eu como tu.

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7.2.06<$BlogDateHeaderDate$>

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Sua boca entreabriu-se, mas o ar não entrou, um soco no peito, dentro pra fora, era falta de ar, faltar, cotovelos abriram, dois, deitaram-se as mãos, jogaram-se os dedos, um a um, a pele escorregou pingando entre as unhas, os olhos olharam, mas logo a pálpebra caiu e a outra e cegaram, bendito eles que podem, joelhos cederam, ê peso pesado, ao pó voltaremos, já voltou, todo escorrido, feito bucatini, nem tão denso, cabelos ao vento, foi com ele o perfume, pele sem cor, peito opaco, nem ar nem tabaco nem amor nem necas de nada. Só ficaram os ouvidos, intransigentes, retumbando - Eu não te amo mais.

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6.2.06<$BlogDateHeaderDate$>

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Estavam dois espanhóis a conversar pela manhã em um bar, enquanto já fumavam os primeiros. Um respondia ao outro. O que mais me incomoda nestes imigrantes é que invadem nosso país em busca do nosso dinheiro. O outro, mais sábio, sorriu e contestou. Enquanto for isso, ¿no pasa nada¿. Quero ver é quando aqui entrarem em busca de vingança.

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Enfim
Gabriel Silveira
Não entendo por que hoje. Ainda se viesse no próximo mês, na próxima semana, que fosse, mas hoje, por quê? Na sexta, por exemplo, Virginia já teria saído de viagem, poderia instalar suas coisas no quarto ao lado. Mas assim, tão na correria e hoje, por quê? Na última vez que esteve aqui se preocupou com minha situação, notei bem como trocou palavras em silêncio com Dr. Osgavitz, com o próprio Dr. Barreto. Mas desde lá não ligara, não enviou sequer uma carta, coisa que mamãe costumava fazer mesmo quando o câncer já a consumia profundamente. Vá lá entender agora esta urgência em vir. Talvez o Dr. Osgavitz tenha esquecido de avisar-me da viagem, largou o envelope que ela enviara na mesa, depois esqueceu - são tantas as ocupações que lhe cabem -, vieram alguns papéis por cima, algumas revistas e acabou não lembrando de dizer-me. Talvez por isso é que estivesse estranho esta manhã quando pediu que Virgínia me arrumasse, avisando que ela estava por chegar. O suor avermelhado destes dias do alto verão contrastavam com sua pele branca, que ironicamente é tal qual a neve do inverno. Sempre achei sua aparência divertida. Nos primeiros dias - quando ainda conseguia sair do quarto - costumava espiar seus movimentos no escritório, sorria ao ver como seus braços pequenos esforçavam-se para trabalhar ao redor do corpo roliço. Seus óculos redondos, a armação dourada, os olhos fundos, cada coisa parecia dar sua contribuição à atmosfera estranha, misteriosa, quase bizarra. Costumava ser carinhoso comigo quando há pouco havia chegado. Depois do ocorrido com a jovem Luana, do vinte e dois, é que foi se tornando um pouco mais bruto, o sorriso como que apagando-se aos poucos. Daquele fato me lembro somente do choro no corredor, os gritos, as enfermeiras a correr. Depois vieram avisar-me que Luana tinha sido transferida para um hospital na cidade. Nem tive a oportunidade de devolver-lhe o livrinho de contos do Oscar Wilde, a fita com Fred Astaire cantando Irving Berling. Pobre Luana, foi tão importante companhia pra mim e eu talvez nunca saiba o que se passou com ela. Naquele dia todo Luana não aparecera no meu quarto porque havia recebido visita da família. Devem ter vindo para a transferência, mas tenho certeza que pra ela também foi uma surpresa, teria me avisado. Ou então achou melhor que eu não soubesse. Eu já estava triste o bastante naqueles dias, a doença não dava sinais de enfraquecimento, tratamento com coquetel vinte e cinco e aqueles dois compostos malditos. Hoje sim, tenho motivos para comemorar. Quatro horas, ela deve chegar logo. Mas por que hoje? Também já chega de me preocupar. É até bom. Posso contar-lhe como estou melhorando, que a medicação já não está tão forte. E que apesar de ainda não poder voltar a sair ao sol, Dr. Barreto já me disse que logo estarei outro, que o coquetel será substituído por um tratamento mais moderno, uns raios não-sei-o-quê, disse que será o fim dos enjôos. Talvez até ela tenha lido algo sobre este novo tratamento, talvez me traga algumas revistas para que eu saiba tudo tin tin por tin tin. Gosto de saber o que se passa no meu corpo. É só um corpo, como diria o Padre Milton, mas é meu, ora bolas. Pode ser que ela confie mais nas minhas melhorias, sei que é difícil para ela me sustentar aqui, bem sei. Pobrezinha. Depois da morte da mamãe ela se pôs cada vez mais estranha, cada vez mais distante. E agora esta visita assim, de surpresa, sem aviso prévio. Tenho certeza absoluta que Dr. Osgavitz esqueceu de avisar-me. O sentimento de culpa estava grudado em seus olhos hoje. Mas logo ela chega, conversamos, como nos velhos tempos: ela me conta dos namoros, do emprego, eu conto a ela sobre meus coquetéis, os avanços e os recuos da doença. Talvez ela desista daquela idéia louca de me levar para casa, de desistir destas do Instituto. Mas eu confio no Dr. Osgavitz. Tenho certeza que logo vamos encontrar um tratamento que acabe de vez com este demônio que me atormenta, logo poderei voltar ao sol, à vida, ao trabalho, quem sabe até arrumar uma namorada. Ah, que saudades do Parque do Silêncio, do verde entrelaçado com o azul do céu, os passarinhos a dançar. E pensar que só de imaginar tudo isso me volta a vertigem, como se fosse um alarme dizendo que ainda não estou curado, ainda falta muito. Mas o Dr. Osgavitz garantiu que vamos tentar de tudo antes de desistir. Eu confio muito nele, dizem que sabe mais do que todos os doutores da capital. Juntos. Só não consigo entender por que não me avisou antes que ela viria. Por que este tom de surpresa, de mistério?

Pelo barulho do motor reconheci que ela estava chegando. Poderia sabê-lo onde e quando fosse. Estas capacidades são um privilégio - se é que existe esta palavra em um lugar como este - de quem passa o dia em uma cama, distraindo-se a classificar os cantos dos pássaros, os verdes ao longe, o avançar das estações. E também a parte mórbida, os gemidos de cada paciente, os maltratos das enfermeiras, as discussões no andar de baixo. Sorte que Virgínia, minha enfermeira, cuida bem de mim, tenho certeza de que é uma excessão aqui dentro. Quando ela se for de viagem, na sexta, não sei quem será responsável por me carregar daqui até o banheiro, dar-me o banho, comida. Só de pensar minhas pernas tremem, sinto um vento congelante desde o calcanhar até a metade das costas, como se fosse mesmo uma mensagem ao coração. Se ali chegou, pronto, já está, já passou. Agora ela está a conversar com Dr. Osgavitz, posso ouvir suas vozes, talvez ele esteja a dizer que estou melhor, quase bom. Ela admirada lhe perguntando quando poderei voltar pra casa, já pensando em arrumar meu quarto, organizar minhas coisas, comprar-me uma coleção de revistas e a torta de ameixas da confeitaria da Arenal. Mas o tom não era de tanta felicidade quando Virgínia entrou no quarto com cara de choro, sentou-se ao meu lado sem dizer palavra. Que passa, mulher? - perguntei. Ela deu de ombros, fez uma careta com a boca e disse que estava ali para se despedir de mim, que faria sua viagem hoje mesmo, que desejava que ficasse bem enquanto ela não estivesse por perto para cuidar-me. Eu respondi somente com um sorriso, mas não acreditei na minha própria teoria de que Virgínia viajaria somente para que seu quarto ficasse livre, agora que eu tinha visita. Me perdi nestes pensamentos e só acordei depois que já havia me beijado a testa e se recolhido ao seu quarto, quiçá para arrumar suas coisas. Resolvi dormir mais um pouco para estar descansado na hora em que ela chegasse.

Somente duas horas depois do barulho do carro é que ela entrou no meu quarto, sentou-se ao meu lado. Não sei bem o que me deu, resolvi fingir que continuava dormindo, vendo entre os cílios sua face cansada, tristonha, fragmentada pelo meu olhar semicerrado. Vi que vez em vez descia-lhe uma lágrima no rosto, ela levava o lenço com a mão esquerda, engolia seco. Depois ficou uns bons minutos com os olhos na direção da minha janela, a mesma da qual eu mirava os passarinhos, os verdes, as estações. Voltou a olhar-me maternalmente, com um doçura que lembrava em tudo nossa mãe, mas depois cerrou a face, franziu a testa e levantou-se de forma brusca, pondo-se a caminhar pelo quarto, como se estivesse pensando em uma solução para um problema muito sério. Talvez só estivesse esperando que eu acordasse. Ela sempre foi assim, nervosa, decidida, a mais velha. Depois foi até a mesma janela, abriu as cortinas, pois o sol já baixara, e acendeu um cigarro. Agora eu só podia vê-la graças ao espelho do armário do outro lado do quarto, já que qualquer movimento denunciaria meu sono fingido, que nem sei por que o fazia. De sopetão, sem que eu pudesse chamá-la, saiu pela porta do quarto e ouvia descer as escadarias. Fiquei morrendo de culpa por não ter dado atenção à ela e me mordendo também de curiosidade, afinal ainda não sabia o motivo da sua visita relâmpago.

No outro dia pela manhã, quando acordei, pude ver que tinha sido medicado. Não sei a que horas nem de que forma, mas esta sensação de enjôo, esta visão embassada e, claro, a impossibilidade absoluta de falar denunciavam que recebera uma alta dose de anestésico. Não podia sequer mexer meus braços, só via o branco do teto, com as estrelinhas e planetas da Coleção Espaço que Virgínia havia me regalado no último dia de Reis. Tive a sensação que passei algumas horas assim, viajando em minha própria galáxia, até que entrassem no quarto os doutores Osgavitz e Barreto, mais duas enfermeiras que desconhecia. Todos os quatro com semblantes carregados. Eu só queria saber onde ela tinha ido, será que a visita surpresa foi assim rápida, nem sequer ficou esta noite? Mas então por que as férias adiantadas de Virgínia? Dr. Osgavitz fez um sinal com os olhos para um dos enfermeiros, que sacou um pequeno recipiente de vidro, furou-o com uma agulha, já o devolveu às mãos do Dr. Osgavitz. Confio nele tanto que nem sequer questionei o que estavam fazendo. Nem mesmo quando o Dr. solicitou que o deixassem a sós comigo, ao que até mesmo o Dr. Barreto assinalou que sim com a cabeça. Na verdade me senti até mais tranquilo, não gosto que estranhos como estas enfermeiras entrem no meu quarto, toquem meu corpo. Pensei até em dormir, mas desisti quando notei que ela já entrava devagar pela porta do quarto de Virgínia, como se não quisera que o doutor percebesse sua presença, quando vi que ela trazia algo reluzindo nas mãos, quando vi os olhos profundos assustados debaixo da armação dourada, quando senti o sangue quente espirrar no meu ventre e me parecia que era a salvação, o remédio, a cura que chegava assim, no mais, de surpresa, enfim.

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