Enfim
Gabriel Silveira
Não entendo por que hoje. Ainda se viesse no próximo mês, na próxima semana, que fosse, mas hoje, por quê? Na sexta, por exemplo, Virginia já teria saído de viagem, poderia instalar suas coisas no quarto ao lado. Mas assim, tão na correria e hoje, por quê? Na última vez que esteve aqui se preocupou com minha situação, notei bem como trocou palavras em silêncio com Dr. Osgavitz, com o próprio Dr. Barreto. Mas desde lá não ligara, não enviou sequer uma carta, coisa que mamãe costumava fazer mesmo quando o câncer já a consumia profundamente. Vá lá entender agora esta urgência em vir. Talvez o Dr. Osgavitz tenha esquecido de avisar-me da viagem, largou o envelope que ela enviara na mesa, depois esqueceu - são tantas as ocupações que lhe cabem -, vieram alguns papéis por cima, algumas revistas e acabou não lembrando de dizer-me. Talvez por isso é que estivesse estranho esta manhã quando pediu que Virgínia me arrumasse, avisando que ela estava por chegar. O suor avermelhado destes dias do alto verão contrastavam com sua pele branca, que ironicamente é tal qual a neve do inverno. Sempre achei sua aparência divertida. Nos primeiros dias - quando ainda conseguia sair do quarto - costumava espiar seus movimentos no escritório, sorria ao ver como seus braços pequenos esforçavam-se para trabalhar ao redor do corpo roliço. Seus óculos redondos, a armação dourada, os olhos fundos, cada coisa parecia dar sua contribuição à atmosfera estranha, misteriosa, quase bizarra. Costumava ser carinhoso comigo quando há pouco havia chegado. Depois do ocorrido com a jovem Luana, do vinte e dois, é que foi se tornando um pouco mais bruto, o sorriso como que apagando-se aos poucos. Daquele fato me lembro somente do choro no corredor, os gritos, as enfermeiras a correr. Depois vieram avisar-me que Luana tinha sido transferida para um hospital na cidade. Nem tive a oportunidade de devolver-lhe o livrinho de contos do Oscar Wilde, a fita com Fred Astaire cantando Irving Berling. Pobre Luana, foi tão importante companhia pra mim e eu talvez nunca saiba o que se passou com ela. Naquele dia todo Luana não aparecera no meu quarto porque havia recebido visita da família. Devem ter vindo para a transferência, mas tenho certeza que pra ela também foi uma surpresa, teria me avisado. Ou então achou melhor que eu não soubesse. Eu já estava triste o bastante naqueles dias, a doença não dava sinais de enfraquecimento, tratamento com coquetel vinte e cinco e aqueles dois compostos malditos. Hoje sim, tenho motivos para comemorar. Quatro horas, ela deve chegar logo. Mas por que hoje? Também já chega de me preocupar. É até bom. Posso contar-lhe como estou melhorando, que a medicação já não está tão forte. E que apesar de ainda não poder voltar a sair ao sol, Dr. Barreto já me disse que logo estarei outro, que o coquetel será substituído por um tratamento mais moderno, uns raios não-sei-o-quê, disse que será o fim dos enjôos. Talvez até ela tenha lido algo sobre este novo tratamento, talvez me traga algumas revistas para que eu saiba tudo tin tin por tin tin. Gosto de saber o que se passa no meu corpo. É só um corpo, como diria o Padre Milton, mas é meu, ora bolas. Pode ser que ela confie mais nas minhas melhorias, sei que é difícil para ela me sustentar aqui, bem sei. Pobrezinha. Depois da morte da mamãe ela se pôs cada vez mais estranha, cada vez mais distante. E agora esta visita assim, de surpresa, sem aviso prévio. Tenho certeza absoluta que Dr. Osgavitz esqueceu de avisar-me. O sentimento de culpa estava grudado em seus olhos hoje. Mas logo ela chega, conversamos, como nos velhos tempos: ela me conta dos namoros, do emprego, eu conto a ela sobre meus coquetéis, os avanços e os recuos da doença. Talvez ela desista daquela idéia louca de me levar para casa, de desistir destas do Instituto. Mas eu confio no Dr. Osgavitz. Tenho certeza que logo vamos encontrar um tratamento que acabe de vez com este demônio que me atormenta, logo poderei voltar ao sol, à vida, ao trabalho, quem sabe até arrumar uma namorada. Ah, que saudades do Parque do Silêncio, do verde entrelaçado com o azul do céu, os passarinhos a dançar. E pensar que só de imaginar tudo isso me volta a vertigem, como se fosse um alarme dizendo que ainda não estou curado, ainda falta muito. Mas o Dr. Osgavitz garantiu que vamos tentar de tudo antes de desistir. Eu confio muito nele, dizem que sabe mais do que todos os doutores da capital. Juntos. Só não consigo entender por que não me avisou antes que ela viria. Por que este tom de surpresa, de mistério?
Pelo barulho do motor reconheci que ela estava chegando. Poderia sabê-lo onde e quando fosse. Estas capacidades são um privilégio - se é que existe esta palavra em um lugar como este - de quem passa o dia em uma cama, distraindo-se a classificar os cantos dos pássaros, os verdes ao longe, o avançar das estações. E também a parte mórbida, os gemidos de cada paciente, os maltratos das enfermeiras, as discussões no andar de baixo. Sorte que Virgínia, minha enfermeira, cuida bem de mim, tenho certeza de que é uma excessão aqui dentro. Quando ela se for de viagem, na sexta, não sei quem será responsável por me carregar daqui até o banheiro, dar-me o banho, comida. Só de pensar minhas pernas tremem, sinto um vento congelante desde o calcanhar até a metade das costas, como se fosse mesmo uma mensagem ao coração. Se ali chegou, pronto, já está, já passou. Agora ela está a conversar com Dr. Osgavitz, posso ouvir suas vozes, talvez ele esteja a dizer que estou melhor, quase bom. Ela admirada lhe perguntando quando poderei voltar pra casa, já pensando em arrumar meu quarto, organizar minhas coisas, comprar-me uma coleção de revistas e a torta de ameixas da confeitaria da Arenal. Mas o tom não era de tanta felicidade quando Virgínia entrou no quarto com cara de choro, sentou-se ao meu lado sem dizer palavra. Que passa, mulher? - perguntei. Ela deu de ombros, fez uma careta com a boca e disse que estava ali para se despedir de mim, que faria sua viagem hoje mesmo, que desejava que ficasse bem enquanto ela não estivesse por perto para cuidar-me. Eu respondi somente com um sorriso, mas não acreditei na minha própria teoria de que Virgínia viajaria somente para que seu quarto ficasse livre, agora que eu tinha visita. Me perdi nestes pensamentos e só acordei depois que já havia me beijado a testa e se recolhido ao seu quarto, quiçá para arrumar suas coisas. Resolvi dormir mais um pouco para estar descansado na hora em que ela chegasse.
Somente duas horas depois do barulho do carro é que ela entrou no meu quarto, sentou-se ao meu lado. Não sei bem o que me deu, resolvi fingir que continuava dormindo, vendo entre os cílios sua face cansada, tristonha, fragmentada pelo meu olhar semicerrado. Vi que vez em vez descia-lhe uma lágrima no rosto, ela levava o lenço com a mão esquerda, engolia seco. Depois ficou uns bons minutos com os olhos na direção da minha janela, a mesma da qual eu mirava os passarinhos, os verdes, as estações. Voltou a olhar-me maternalmente, com um doçura que lembrava em tudo nossa mãe, mas depois cerrou a face, franziu a testa e levantou-se de forma brusca, pondo-se a caminhar pelo quarto, como se estivesse pensando em uma solução para um problema muito sério. Talvez só estivesse esperando que eu acordasse. Ela sempre foi assim, nervosa, decidida, a mais velha. Depois foi até a mesma janela, abriu as cortinas, pois o sol já baixara, e acendeu um cigarro. Agora eu só podia vê-la graças ao espelho do armário do outro lado do quarto, já que qualquer movimento denunciaria meu sono fingido, que nem sei por que o fazia. De sopetão, sem que eu pudesse chamá-la, saiu pela porta do quarto e ouvia descer as escadarias. Fiquei morrendo de culpa por não ter dado atenção à ela e me mordendo também de curiosidade, afinal ainda não sabia o motivo da sua visita relâmpago.
No outro dia pela manhã, quando acordei, pude ver que tinha sido medicado. Não sei a que horas nem de que forma, mas esta sensação de enjôo, esta visão embassada e, claro, a impossibilidade absoluta de falar denunciavam que recebera uma alta dose de anestésico. Não podia sequer mexer meus braços, só via o branco do teto, com as estrelinhas e planetas da Coleção Espaço que Virgínia havia me regalado no último dia de Reis. Tive a sensação que passei algumas horas assim, viajando em minha própria galáxia, até que entrassem no quarto os doutores Osgavitz e Barreto, mais duas enfermeiras que desconhecia. Todos os quatro com semblantes carregados. Eu só queria saber onde ela tinha ido, será que a visita surpresa foi assim rápida, nem sequer ficou esta noite? Mas então por que as férias adiantadas de Virgínia? Dr. Osgavitz fez um sinal com os olhos para um dos enfermeiros, que sacou um pequeno recipiente de vidro, furou-o com uma agulha, já o devolveu às mãos do Dr. Osgavitz. Confio nele tanto que nem sequer questionei o que estavam fazendo. Nem mesmo quando o Dr. solicitou que o deixassem a sós comigo, ao que até mesmo o Dr. Barreto assinalou que sim com a cabeça. Na verdade me senti até mais tranquilo, não gosto que estranhos como estas enfermeiras entrem no meu quarto, toquem meu corpo. Pensei até em dormir, mas desisti quando notei que ela já entrava devagar pela porta do quarto de Virgínia, como se não quisera que o doutor percebesse sua presença, quando vi que ela trazia algo reluzindo nas mãos, quando vi os olhos profundos assustados debaixo da armação dourada, quando senti o sangue quente espirrar no meu ventre e me parecia que era a salvação, o remédio, a cura que chegava assim, no mais, de surpresa, enfim.
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