foto nouvelobs.com
Embarcados
Gabriel Silveira
A barca havia chegado a Melilla duas horas antes. Todos menos um resgatados. Era, o um, como todos, um negro subsaariano. Seus olhos, embaçados dos quatros dias de viagem, receberam a luz da costeira, ele saltou, jogou-se ao fundo preferindo a morte. Salvo por Deus. Boiou até a costa, chegou ao novo país já de joelhos. Não foi erguido, ergueu-se. Tudo nele queria morrer. Limpou a boca de areia, secou-se na toalha de vento e saiu caminhando pelo paraíso. Mas era o demônio quem estava alerta. Na primeira rua em que se meteu, foi metido, o mundo rebolava em seus olhos amedrontados pelo novo. Passou o dia a caminhar, olhando e sendo olhado, odiando e sendo odiado. Foi só quando também o dia se esquivava é que despertou para a necessidade. Encontrou dois iguais, my brother, foram todos a um pequeno centro de imigração, ilegalmente negros. Chegou com olhos de cão, hesitando buscar o que diziam não lhe pertencer, lhe tomaram do braço como uma criança, lhe afanaram a cabeça como um escravo e agora já não era ele, já era seu pai, já era o avô, já era o bisavô que comia a sopa vermelha na mesa da escravidão. O soldado espanhol mirava da porta o negro que enfurecia na cadeira. E ele pensou ouvir o estalar do chicote, pensou sentir o arder do lombo em chamas de sangue. Levantou sem terminar o prato, entrou no salão dos dormitórios. Ali perdia os olhos em uma imensidão sem forma que se amontoava a espera de um destino. E a lembrança lhe consumiu o ventre mais uma vez, fê-lo ajoelhar mais uma vez e só caiu no sono quando as forças se renderam à realidade cruel. A fraqueza era tanta que nem percebeu o estrondo na cozinha, o fogo que veio da rua, o desespero do lado de dentro. O pesadelo da vida não lhe contaminou o sonho, ficou iluminado em meio ao fogo, fogueira cristã, o mundo não muda, só acordou a tempo de ouvir os gritos que vinham da rua e ele sozinho do lado de dentro, todos resgatados, menos um, porque a salvação já lhe chegava.
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