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Ciclos
Gabriel Silveira
Chegar em ponto tal e desfazer-se dedo por dedo, para logo tirar o muco da boca morna, gritar ao meio-dia que já, lamber o troféu da estafa e bordar-se o medo à inércia de múltiplos grises. Aí refazer o silêncio, matar a bala no peito, vala perdida, e ecoando silêncio na mueca de gargalha, chorar pincéis atômicos e manchar o mundo de negro, despencar à terra-tela, rosnar inundo em barro-tinta e erguer-se até um outro ponto, onde recomece a sonhar, até que chegue novamente, esperadamente, ao ponto tal donde voltará a desfazer-se dedo por dedo para logo tirar o muco da boca morna.

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¿Onde?
Gabriel Silveira
Andrade, onde? Meteu o pente no bolso, lambeu o pelo que brilhou e brilhou seu sorriso. A colônia sete amêndoas sugou o ar. Abriu o bolso de cima da camisa, passou a mão na maleta marrom e conferiu gás, fogo e janela antes de bater a porta do quartinho que arrendava. Já era o terceiro ano que vivia na pensão da João Pessoa com a Sebastião Leão. Quando entrara prometeu que não passava ali mais de dois. Meses. Andrade, onde? Passou pela frente do bar do Branco segundos depois. A noite espiralava o vento com o calor e o suor começou a dançar-lhe sobre os olhos. Sacou o lenço, pano na cara, carteira na mão, entrou na padaria que já fechava. Cara feia de um, pago teu salário de outro, acabaram-se entendendo - um com a pressa de sair que tinha, o outro com a lata de cerveja que queria. Saiu a passos largos Santana acima, cortando as ruazitas que cortavam a cidade que cortava a noite, iluminando-a de cima abaixo. Ahhh cerveja fazia-lhe cosquinhas bebendo seu corpo e ele sorria, sorriu até que a Bonifácio lhe impôs o tom sério, estas horas, sabe-se lá, ¿onde, Andrade? A cerveja terminou, hesitou, lata no chão, uma mão na outra, procurou o cigarro, em casa, ¿onde Andrade? Enfezou, viu as luzes da Osvaldo, voltou o sorriso, caminhou batucando Jacob do Bandolim, tranquilizou, já na Garibaldi, o Voyage estacionado em frente a casinha, abriu o portão de leve, cheiro de comida, bateu e abriu, estava aberta, Vem cá minha filha, a menina saltou do sofá, abraçaram-se, ele a cabeça, ela a barriga, ¿Pai, veio jantar? Risada e não, minha filha, vim falar com teu irmão. Entrou na cozinha, abraçou por trás a ex-mulher, cara feia dela, Nem vem que não tem janta, e ele, Calma, mulher, vou como vim, só quero falar com o Jorge, taí? Taí sim, no quarto, tem compromisso, é? Coisa minha, coisa minha. Viu a cara feliz dele, aí sim torceu o nariz, cara feia mesmo é a do ciúme. Ele já estava no corredor, bateu na porta, ¿Filho? Já foi abrindo, o rapaz abatoava a camisa, fez sem-surpresa, Pai, ¿tudo bem? Vem cá rapaz, dá-me um abraço. O cheiro, do cheiro veio mais sem-surpresa. Deu o abraço e ¿Essa hora e já enchendo a cara? Só uma cervejinha, moleque, senta aqui, preciso te pedir uma coisa. O outro nem sentou, tirou a carteira do armário, sacou vinte, toma aqui, também vou sair, saímos juntos, a mãe que não veja isso. Obrigado, filho, te pago quando sair o meu. ¿INSS? O pai não respondeu, o filho sorriu sem-surpresa. Jogou o braço direito por cima do pai, que lhe devolveu com um afago na barriga, saíram pelo corredor, Vou sair, mãe. ¿Com teu pai? Acompanho o velho até por aí, depois vou para a casa do Marquinhos, qualquer coisa liga. Tem comida quando chegar. Tchau, meu amor, disse Andrade, mas ¿onde? Saíram batucando ambos, o um alcançou cigarro ao outro que não tinha, o dois agradeceu. Íam juntos até que, Vai com Deus, não exagera, e o outro, Tem juízo, cuida da tua mãe, e um pra cá, um pra lá, fossem dois era dança. Vistos de cima, eram x e y traçando v. O filho foi pra onde quer que seja, Andrade foi pra onde? Foi descendo a Garibaldi pensando no filho, na mulher, na comida quente, no de sempre e foi pego pela idéia do de hoje, do de nunca e a responsabilidade evaporou. O primeiro vento a levou à independência. Andrade sorriu leve, cruzou duas esquinas e empurrou a portinha vermelha com as costas da mão. Longa escada, gigante sorrindo, tapinha nas costas, olha a senha, De costas se sabe se é homem ou mulher?, Andrade sorriu, Na dúvida não ultrapasse, e subiu rindo e dobrando o passo nos degraus. Cheiro, o cheiro, o fumo lhe divertindo o nariz, a luz lhe divertindo a alma, o rosto no fundo da sala lhe divertindo os olhos. A música dali não importava. Tudo lhe soava Jacob. Desviou de um, de dois quantos foram os dois e os uns, encostou na copa, dinheiro do filho, a garrafa, Dois copos, Dezinho, já está. Navegou entre os mares de suor e os amores naufragados até o canto da sala, o porto seguro, o rosto que ainda era de seus olhos, a cintura ainda de seus braços. Voltou o meu pirata dos mares? disse Rosinha e ele, Só vim buscar o tesouro que me pertence. Jogou a âncora no quarto do fundos, deitou-se depois dela, rosnando como um lobo do mar. Ela afogou o rosto entre as pernas dele, ¿onde, Andrade? e ele só fazia sentir a onda quente entre as pernas dela, foi que mergulharam no colchão, boiaram à deriva, ele dormiu depois dela, com a lua já despertando o sol, com o dia já acalentando a noite. E nova maré já chegava.

Acordou onde, Andrade? Nem sabe como desgrudou a cara do lençol, nem sabe como abriu os olhos de pedra, nem sabe como estava no quartinho da Sebastião Leão. Deitou a mão no bolso, pobre mais pobre que doce de batata doce é doce. Levantou o peito magro, seco, buco, velho, no espelho mais que na vida, foi o que pensou, caminhou, pia de lousa fria, lava a cara, olha nos olhos, mais água na cara, vergonha não se lava. E come o quê? Puxa a carteira reserva, não de dinheiro, de cigarro, fuma um Potro, coice no peito, sai baforando com a regata branca tapando o peito murcho, a calça de sarja do trabalho tapando o pau cansado, o de forquilha calçando o pé descalço. Sentou na escadinha da rua, à beira da porta que tudo esconde, ficou olhando o Julio de Castilhos ao longe, lembranças do filho e outro coice no peito. Franze a testa porque vem sua mulher, a ex, a mãe, a de sempre, mas que é de nunca caminhar, vem com passos chorosos, ¿onde, Andrade? vem se derretendo, Andrade não sabe se é o calor, mas vem em ondas, vem chegando, vem como maré alta roendo o chão, de pouco em pouco, até bater em cheio à terra à vista, que é ele, o destino e se desfaz nos braços, Que houve? Que foi? Me fala, mulher! e ela é só suco de mulher, é batida de medo de falar com pedaços de não sei como dizer. Ela nem fala, ele só olha, ela munheca, ele engasga e, Cadê o Jorge? Foi ontem, tentei te achar, onde tu tava? ¿Onde? Cadê o Jorge, que foi com o Jorge? Foi um assalto, uns riquinhos de merda armados, foi na ida pra casa do Marquinhos, ¿Onde, Andrade? e parecia que ia seguir falando, mas teve medo porque os olhos de Andrade viraram um inferno duplo, dois infernos redondos, brasinhas de medo fritando o coração de Andrade, faíscas de uma alma que é joguete de carontes, alma pra cá, pra lá, cantando joguinho da vida é joguinho da morte, joguinho de azar e joguinho de sorte, o que o de lá não quer o de cá quer todinho, com osso, com alma, com tudo inteirinho. E Andrade caiu de joelhos, doeu pouco, doeu muito pouco pensou, queria mais, queria sentir a morte do filho a brotar nas entranhas, levantou bambo, teve pena da mulher que se escondia na neblina do calor e foi se afastando, foi caminhando de costas olhando ela desmantelar o olhar, mendigar no tempo, e foi em passos de cachaça até se perder na névoa das quatro da tarde de um domingo de merda na puta esquina da Sebastião Leão com a João Pessoa. ¿Onde, Andrdade?

Passou quatro horas ouvindo a prima Martinha contar que odiava o próprio pai. Tudo porque ele amava mais aos porcos que a sua família, tanto que quando morreu pediu que suas cinzas fossem todas atiradas a lama cinza do porqueiro do sítio da família. Talvez por isso Andrade tenha vomitado tanto, talvez por isso tenha sentido a gastrite como um milhão de soldadinhos que lhe apontavam suas milhares de escopetas minúsculas e, todos ao mesmo tempo, lhe disparavam uma chumbarada na altura do ventre. Levantou a cabeça com os lábios sujos, teve vergonha, limpou-se na camisa mal pasada que lhe vestira para o velório. Saiu dançando sem par e nem guentou chegar a lugar algum, ficou em lugar nenhum, ventre pra cima e pele cor de burro quando foge. Burro quando foge. Depois fugiu, foi até a casa da mulher, tudo vazio, aproveitou e foi até o quarto do garoto, do seu garoto, até ontem estava ali, lhe emprestara vinte, lhe contara das garotas que tinha e, hoje, era só um ontem. Deu raiva, vermelhou, mas ¿vai onde, Andrade? Passou a mão na carteira, não do dinheiro, a outra, pegou também uma foto do filho que jazia na cama, saiu fumando o tempo, gaguejou o coração e o frio resfriou a alma. Espirrou medo quando pôs-se de novo debaixo do mundo, sentiu o cinza das nuvens lhe pesar na cabeça, pensou em descansar no caminho, mas não, seguiu firme, manobrou as maneiras, acostou no viaduto da Duque. Era a Borges que embaixo passava mas, visse-o quem fosse naquele momento, imaginaria que as lágrimas não tardariam em fazer cursar ali um rio. Um riachinho. Segurou a foto na mão, beijou-a com água salgada banhando o garoto que lhe disse, É assim, velho, os bons morrem cedo. Desculpa nunca ter sido um pai. Tu não teve culpa de nada. Desculpa ou não? Sim, te desculpo. Andrade escapou o olhar e virou as costas para a foto. Saiu batendo as pernas pela Duque escurecida, botou os pés sobre o mundo e pensou que desejava ser de cabeça para baixo só por hoje, só para sentir o fedor de merda que já sentia por dentro. E nem viu que morria, que evaporava e que o único que lhe amava tinha se perdido, se ido, mas pra onde, ¿pra onde, Andrade?

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Os Julianos - A vaca Libéria
Gabriel Silveira
Era uma rez. E, como toda rez de Osgavitz, pastava e engolia e ruminava e vivia. Lá fosse assim tão simples esta rez não teria esta história e outro personagem teria hoje sua vez. Mas não. Cá não é tão simples, tampouco acolá, brinde à literatura. Pues, possam se acomodar nestes tocos de madeira, mais não há aqui na serra de Osgavitz, onde a nossa querida rez tem moradia, comida - como já dito - e, sim, tem amores. Lá vaca tem amores? vocês irão me perguntar, e eu responderei, Não, vaca não tem amores, mas esta não é uma simples vaca, por isso a chamamos de rez, ou ¿coisa¿. E esta é uma coisa pensante. Soubessem vocês do que é capaz esta rez, diriam que foi da sua espécie que originou-se a expressão ¿cabeças de gado¿. Pois agora só resta um gado com cabeça, última da espécie, esta vaca, esta rez, Libéria. Era uma vez, ela.

Estando todos acomodados já à beira do fogo, aí, mais um toco de lenha, já está, todos arreglados para a história? Pues, saibam que Libéria nasceu em uma fazenda de julianos ao sul de Osgavitz, cerca de noventa quilômetros desta fazenda em que estamos. Parida de uma reconhecida matriz de Ortenthauz com um padreador local, Libéria foi uma ternerinha linda, veloz, disposta e sempre bem tratada. Os capatazes eram amáveis e carinhosos, como são todos os julianos. Não a criaram mocha, cresceu perto da mãe e mamava sem parar, o que, na época, lhe proporcionou o apelido de Manduk. Depois de 7 meses, já Libéria, dava gosto de ver-se correndo ao verde com o sol a lhe brilhar o rubro do pêlo.

Passou mês e mais mês, chuva e sol e mais chuva, o vento trouxe a seca e, certo dia, os julianos foram roubados. Acordaram com o mugir ao longe, com o estrondo dos arames, com o caminhão no horizonte. Lá está o touro, aqui estão as ovelhas, as galinhas estão todas, as vacas de leite ali perfeitas, e Libéria? Roubaram Libéria.

Se todos vocês curvarem um pouco, basta um pouco, já está, aquele corredor de arame que cruza longe no campo, já verão, pues, que lá está um lugar de descarregamento de gado. Foi lá que deixaram Libéria, ela e outra de outra fazenda, sozinhas no meio de ovelhas desconhecidas, cães de rosnar grave, cavalos de patas soltas. Nesta época, Libéria já pensava, Libéria já sabia e a outra morreu ao seu lado, sem nenhum destes privilégios. A primeira coisa que veio à cabeça de Libéria foi voltar pelo campo. Necas, lá estão os cachorros. Pelo corredor estão os cavalos. Libéria espantou o vento com um rabear pensativo. A outra já fedia. Libéria baixou a cabeça, ainda pensante, arrancou o pasto alto, ao menos isso. Lá na estrada o caminhão volta veloz. Pára em outro corredor, descem mais três vacas e dois cavalos. Estes não agradam aos ladrões, já estão a lhes tocar pela estrada, se de longe são, se perdem. Nem pensar pensou Libéria, nem ousar ousou Libéria, nem sorrir sorriu Libéria, ao menos para ela tudo aquilo era óbvio, um mugido dos céus, uma mamada dos deuses. Com os dentes arrancou longos fios de pasto, posicionou-os sobre o pescoço - nem sabiam vocês que uma vaca pensante pudesse ser tão ágil. Um ajuste daqui, um treino dali, já estava pronta.

Chegaram os ladrões, lá já estava Libéria do outro lado da mangueira, próxima à cerca, junto aos dois cavalos libertos que ainda estavam perdidos, na estrada. O caminhão acelerou até que ¡freia laaá! bem em frente aos três animais. Na boléia, um perguntou ao outro, Não separou os cavalos? Claro que separei. Que é aquilo ali, então? Valha-me Deus, rapaz, é uma vaca, não vê? Foi aí que Libéria, com sua crina verde e todo seu esforço intelectual, fez o impossível: relinchou. Os dois cavalos trocaram orelhas, crisparam o pelo, os homens ficaram atônitos, nem movimento nem nada. Libéria repetiu o feito. O primeiro homem tapeou o primeiro, Que vaca que, idiota? e foi até a cerca, abriu a porteira do corredor e deixou Libéria sair. Ela juntou-se aos cavalos e baixou a cabeça, satisfeita. O homem voltou ao caminho, repreendeu mais uma vez ao outro e depois tocaram-se campo à dentro, com o máximo da velocidade que poderiam alcançar.

Creiam em mim que não era a intenção de Libéria, ao forjar o penteado eqüino, e ao relinchar como um, conquistar amores fora da relação conhecida como homorracial, partindo para as ousadias do heterorracionalismo. Mas os leitores já o rememoram, sei bem, que no começo deste conto, que não tardará a acabar, que a nossa querida vaca, rez e coisa pensante tinha amores. Aqui o está, o amor: Pulineu, o cavalo.

Não que o tal acreditasse na história de que Libéria era uma égua, necas. Isto mesmo os animais não-pensantes já o sabem pelo cheiro, ainda mais o saberia Pulineu, uma exceção como Libéria, um cavalo pensante. Achou é graça, esta sensação que não tem a vulgarização do riso frouxo tampouco a melosidade da apaixonite. Achou graça, ela respondeu ao esboço de sorriso com gracinhas. Sou de leão, disse. Ele sorriu de vez - era um cavalo roubado, fosse dado e teríamos rapidamente que virar as faces para não o ver seu sorriso cheio de dentes

Saíram a galopar, ela fingindo um trote digno de poucas éguas, menos ainda às vacas, ele sorrindo com a elegância de um cavalo sangue puro - não nos escute um vampiro atento - com o pêlo tostado e uma mancha branca a lhe saltar nas frontes. Crina preta, olhos negros, corpo de cavalo - não costumam variar muito.

Foram ambos pelo horizonte - não falaremos muito cá do outro cavalo que havia sido abandonado juntamente com o nosso Pulineu, se saberá somente que nunca mais achou o caminho de volta para sua fazenda e, sem amores homorraciais - ou heterorraciais, nunca se sabe quando um cavalo vai a sair do armário - que lhe aprouvesse, acabou entrando no vício dos jogos e falindo uns quantos pelas pistas de jóquei - felizes e contentes com sua liberdade conquistada pelo jogo de cintura de Libéria. E não tardou cinco dias para que achassem o caminho até a feliz fazenda dos julianos que os receberam com todas as festas e grandes banquetes de ração e aveia.

Naquele dia, durante a tradicional contagem dos animais, estavam os touros, as galinhas, as vacas de leite, um novo e forte cavalo e, claro, a rez apaixonada e pensante que se chamava Libéria. E ela estava feliz, porque ali era só mais uma rez.

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