¿Onde?
Gabriel Silveira
Andrade, onde? Meteu o pente no bolso, lambeu o pelo que brilhou e brilhou seu sorriso. A colônia sete amêndoas sugou o ar. Abriu o bolso de cima da camisa, passou a mão na maleta marrom e conferiu gás, fogo e janela antes de bater a porta do quartinho que arrendava. Já era o terceiro ano que vivia na pensão da João Pessoa com a Sebastião Leão. Quando entrara prometeu que não passava ali mais de dois. Meses. Andrade, onde? Passou pela frente do bar do Branco segundos depois. A noite espiralava o vento com o calor e o suor começou a dançar-lhe sobre os olhos. Sacou o lenço, pano na cara, carteira na mão, entrou na padaria que já fechava. Cara feia de um, pago teu salário de outro, acabaram-se entendendo - um com a pressa de sair que tinha, o outro com a lata de cerveja que queria. Saiu a passos largos Santana acima, cortando as ruazitas que cortavam a cidade que cortava a noite, iluminando-a de cima abaixo. Ahhh cerveja fazia-lhe cosquinhas bebendo seu corpo e ele sorria, sorriu até que a Bonifácio lhe impôs o tom sério, estas horas, sabe-se lá, ¿onde, Andrade? A cerveja terminou, hesitou, lata no chão, uma mão na outra, procurou o cigarro, em casa, ¿onde Andrade? Enfezou, viu as luzes da Osvaldo, voltou o sorriso, caminhou batucando Jacob do Bandolim, tranquilizou, já na Garibaldi, o Voyage estacionado em frente a casinha, abriu o portão de leve, cheiro de comida, bateu e abriu, estava aberta, Vem cá minha filha, a menina saltou do sofá, abraçaram-se, ele a cabeça, ela a barriga, ¿Pai, veio jantar? Risada e não, minha filha, vim falar com teu irmão. Entrou na cozinha, abraçou por trás a ex-mulher, cara feia dela, Nem vem que não tem janta, e ele, Calma, mulher, vou como vim, só quero falar com o Jorge, taí? Taí sim, no quarto, tem compromisso, é? Coisa minha, coisa minha. Viu a cara feliz dele, aí sim torceu o nariz, cara feia mesmo é a do ciúme. Ele já estava no corredor, bateu na porta, ¿Filho? Já foi abrindo, o rapaz abatoava a camisa, fez sem-surpresa, Pai, ¿tudo bem? Vem cá rapaz, dá-me um abraço. O cheiro, do cheiro veio mais sem-surpresa. Deu o abraço e ¿Essa hora e já enchendo a cara? Só uma cervejinha, moleque, senta aqui, preciso te pedir uma coisa. O outro nem sentou, tirou a carteira do armário, sacou vinte, toma aqui, também vou sair, saímos juntos, a mãe que não veja isso. Obrigado, filho, te pago quando sair o meu. ¿INSS? O pai não respondeu, o filho sorriu sem-surpresa. Jogou o braço direito por cima do pai, que lhe devolveu com um afago na barriga, saíram pelo corredor, Vou sair, mãe. ¿Com teu pai? Acompanho o velho até por aí, depois vou para a casa do Marquinhos, qualquer coisa liga. Tem comida quando chegar. Tchau, meu amor, disse Andrade, mas ¿onde? Saíram batucando ambos, o um alcançou cigarro ao outro que não tinha, o dois agradeceu. Íam juntos até que, Vai com Deus, não exagera, e o outro, Tem juízo, cuida da tua mãe, e um pra cá, um pra lá, fossem dois era dança. Vistos de cima, eram x e y traçando v. O filho foi pra onde quer que seja, Andrade foi pra onde? Foi descendo a Garibaldi pensando no filho, na mulher, na comida quente, no de sempre e foi pego pela idéia do de hoje, do de nunca e a responsabilidade evaporou. O primeiro vento a levou à independência. Andrade sorriu leve, cruzou duas esquinas e empurrou a portinha vermelha com as costas da mão. Longa escada, gigante sorrindo, tapinha nas costas, olha a senha, De costas se sabe se é homem ou mulher?, Andrade sorriu, Na dúvida não ultrapasse, e subiu rindo e dobrando o passo nos degraus. Cheiro, o cheiro, o fumo lhe divertindo o nariz, a luz lhe divertindo a alma, o rosto no fundo da sala lhe divertindo os olhos. A música dali não importava. Tudo lhe soava Jacob. Desviou de um, de dois quantos foram os dois e os uns, encostou na copa, dinheiro do filho, a garrafa, Dois copos, Dezinho, já está. Navegou entre os mares de suor e os amores naufragados até o canto da sala, o porto seguro, o rosto que ainda era de seus olhos, a cintura ainda de seus braços. Voltou o meu pirata dos mares? disse Rosinha e ele, Só vim buscar o tesouro que me pertence. Jogou a âncora no quarto do fundos, deitou-se depois dela, rosnando como um lobo do mar. Ela afogou o rosto entre as pernas dele, ¿onde, Andrade? e ele só fazia sentir a onda quente entre as pernas dela, foi que mergulharam no colchão, boiaram à deriva, ele dormiu depois dela, com a lua já despertando o sol, com o dia já acalentando a noite. E nova maré já chegava.
Acordou onde, Andrade? Nem sabe como desgrudou a cara do lençol, nem sabe como abriu os olhos de pedra, nem sabe como estava no quartinho da Sebastião Leão. Deitou a mão no bolso, pobre mais pobre que doce de batata doce é doce. Levantou o peito magro, seco, buco, velho, no espelho mais que na vida, foi o que pensou, caminhou, pia de lousa fria, lava a cara, olha nos olhos, mais água na cara, vergonha não se lava. E come o quê? Puxa a carteira reserva, não de dinheiro, de cigarro, fuma um Potro, coice no peito, sai baforando com a regata branca tapando o peito murcho, a calça de sarja do trabalho tapando o pau cansado, o de forquilha calçando o pé descalço. Sentou na escadinha da rua, à beira da porta que tudo esconde, ficou olhando o Julio de Castilhos ao longe, lembranças do filho e outro coice no peito. Franze a testa porque vem sua mulher, a ex, a mãe, a de sempre, mas que é de nunca caminhar, vem com passos chorosos, ¿onde, Andrade? vem se derretendo, Andrade não sabe se é o calor, mas vem em ondas, vem chegando, vem como maré alta roendo o chão, de pouco em pouco, até bater em cheio à terra à vista, que é ele, o destino e se desfaz nos braços, Que houve? Que foi? Me fala, mulher! e ela é só suco de mulher, é batida de medo de falar com pedaços de não sei como dizer. Ela nem fala, ele só olha, ela munheca, ele engasga e, Cadê o Jorge? Foi ontem, tentei te achar, onde tu tava? ¿Onde? Cadê o Jorge, que foi com o Jorge? Foi um assalto, uns riquinhos de merda armados, foi na ida pra casa do Marquinhos, ¿Onde, Andrade? e parecia que ia seguir falando, mas teve medo porque os olhos de Andrade viraram um inferno duplo, dois infernos redondos, brasinhas de medo fritando o coração de Andrade, faíscas de uma alma que é joguete de carontes, alma pra cá, pra lá, cantando joguinho da vida é joguinho da morte, joguinho de azar e joguinho de sorte, o que o de lá não quer o de cá quer todinho, com osso, com alma, com tudo inteirinho. E Andrade caiu de joelhos, doeu pouco, doeu muito pouco pensou, queria mais, queria sentir a morte do filho a brotar nas entranhas, levantou bambo, teve pena da mulher que se escondia na neblina do calor e foi se afastando, foi caminhando de costas olhando ela desmantelar o olhar, mendigar no tempo, e foi em passos de cachaça até se perder na névoa das quatro da tarde de um domingo de merda na puta esquina da Sebastião Leão com a João Pessoa. ¿Onde, Andrdade?
Passou quatro horas ouvindo a prima Martinha contar que odiava o próprio pai. Tudo porque ele amava mais aos porcos que a sua família, tanto que quando morreu pediu que suas cinzas fossem todas atiradas a lama cinza do porqueiro do sítio da família. Talvez por isso Andrade tenha vomitado tanto, talvez por isso tenha sentido a gastrite como um milhão de soldadinhos que lhe apontavam suas milhares de escopetas minúsculas e, todos ao mesmo tempo, lhe disparavam uma chumbarada na altura do ventre. Levantou a cabeça com os lábios sujos, teve vergonha, limpou-se na camisa mal pasada que lhe vestira para o velório. Saiu dançando sem par e nem guentou chegar a lugar algum, ficou em lugar nenhum, ventre pra cima e pele cor de burro quando foge. Burro quando foge. Depois fugiu, foi até a casa da mulher, tudo vazio, aproveitou e foi até o quarto do garoto, do seu garoto, até ontem estava ali, lhe emprestara vinte, lhe contara das garotas que tinha e, hoje, era só um ontem. Deu raiva, vermelhou, mas ¿vai onde, Andrade? Passou a mão na carteira, não do dinheiro, a outra, pegou também uma foto do filho que jazia na cama, saiu fumando o tempo, gaguejou o coração e o frio resfriou a alma. Espirrou medo quando pôs-se de novo debaixo do mundo, sentiu o cinza das nuvens lhe pesar na cabeça, pensou em descansar no caminho, mas não, seguiu firme, manobrou as maneiras, acostou no viaduto da Duque. Era a Borges que embaixo passava mas, visse-o quem fosse naquele momento, imaginaria que as lágrimas não tardariam em fazer cursar ali um rio. Um riachinho. Segurou a foto na mão, beijou-a com água salgada banhando o garoto que lhe disse, É assim, velho, os bons morrem cedo. Desculpa nunca ter sido um pai. Tu não teve culpa de nada. Desculpa ou não? Sim, te desculpo. Andrade escapou o olhar e virou as costas para a foto. Saiu batendo as pernas pela Duque escurecida, botou os pés sobre o mundo e pensou que desejava ser de cabeça para baixo só por hoje, só para sentir o fedor de merda que já sentia por dentro. E nem viu que morria, que evaporava e que o único que lhe amava tinha se perdido, se ido, mas pra onde, ¿pra onde, Andrade?
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