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Ave, nobre
Guilherme Póvoas
Vou te contar a história de uma galinha. Era ela e mais três, numa meia-cerca, atrás da casa de uma velha idosa, vivendo de milhos espalhados pelo galinheiro durante as tardes de sol. O causo é da galinha rosa - a branca, a marrom e a preta eram quietas, sem brilhantinas no ego. Bem ao contrário da azul, que já não estava mais por lá. Pelas manhãs, a galinha rosa sorvia a poeira da fazenda levantada pela Kombi do marido velho da idosa, sorvia a duras penas pequenas, que nesta hora não pareciam mais rosas, bolas. Mas, vivente, o sonho dela era conseguir voar. É ruim, nem na caçamba bamba da camioneta preta do leiteiro, e nem na do pedreiro, ela conseguia se jogar, avoar, nem pensar. Ao contrário da galinha azul, ela era rosa, sem portfólio, tão pouco forma de aerofólio, para pular e se manter por lá, lá por cima.
Com o tempo ela foi deixando a esperança se perder pelo galinheiro. Não tinha jeito: era com ela o problema. A mania de se rebaixar era, além de egoísta, também antropocêntrica. Era um estorvo, reles vida, cacarejar e, na obrigação, colocar ovo. Mas, ah, a esperança. Podia até tirar a vida de alguém, mas não seria morte morrida por desgosto. A galinha rosa tentava voar, continuava, e não tinha agricultor, daqueles de posses grandes ou pequenas, dali da região, que não a avistavam, por vezes zombavam, da mania daquela ave. Mas que coisa chata, correria todo dia para tentar ficar alguns segundo a mais do que o normal, do natural, permitia.
Sem jeito, e sempre sem argumento, a galinha rosa, já bem desbotada, acabada, estancou seu sonho, suponho, pois não agüentava mais correr. Assim, sem correr, passou a temer - pois não poderia voar - a morte.
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