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Horizonte no Guadalquivir
Gabriel Silveira
Não era por isso que ia estragar seu dia. Saiu pela porta dos fundos, abrindo espaço entre as missangas coloridas que escorriam do marco e logo batendo o pequeno portão verde que estremeceu e desfez-se em milhões de cacarecos de tinta. Em frente à casa parou, sacou o olhar e observou a calha meio solta sob o telhado, atravessou as nuvens e chegou até as palmeiras que pareciam crescer do céu. Engoliu seco pensando no ocorrido e, mais uma vez, repetiu que aquilo não ia estragar seu dia. Foi encontrando calçada entre os pedaços de lajota e levando o nariz na cara. Sentia o cheiro de tudo, até do sol que lutava contra as copas para atirar-se ao solo. Foi por levar a cabeça concentrada no nariz que sentiu que o Guadalquivir lhe chegava em rufadas contaminadas de desejo. Ele chegou a cessar os passos e respirar fundo fechando os olhos para enganar os sentidos. Aí resolveu fugir do centro, pegou à esquerda e chegou à ponte que lhe dava os bons dias. Sentiu o sorriso lhe subindo do estômago, como querendo saltar-lhe na boca, mas não pode desfazer a cara de nojo, voltou a pensar no ocorrido e respirou fundo uma vez mais. Seguiu caminhando, vendo a ponte romana ao longe e parecia que o horizonte lhe fugia, mas logo viu que era ele quem percebia o movimento da água de forma inversa, que o horizonte, na verdade, vinha carregado pelo Guadalquivir, em sua direção, lhe ameaçando os pés, lhe tomando o dia que tanto defendera. Correu até a ponte romana e seguiu observando as águas que pareciam crescer e crescer, até que subiram a tal ponto que as ruas todas da Córdoba mergulhariam no Guadalquivir, não fosse ele o que caía desde o alto do seu dia, tão precioso dia que era para estragá-lo por uma bobagem.

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10.8.06<$BlogDateHeaderDate$>

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10 mil vidas
Gabriel Silveira
Não é de hoje essa minha cara melancólica. Antes de passar por aqui, enfrentei lugares tão mais piores que este, tão mais imersos em temores e maldições, que fui me encarcelando pouco a pouco. Enquanto o mundo começava a brotar do nada, eu cacei, pus fogo e pintei a vida. Fui mercenário líbio decapitado nas fronteiras egípcias, enquanto o mundo mal sabia que era um mundo. Como cananeu, montei emboscadas contra as forças hebráicas e paguei com cada órgão do meu corpo. Mas me vinguei, porque vi com meus próprios olhos quando Nabucodonosor pôs fogo ao templo de Salomão e levou consigo a Arca da Aliança. Assassinei e paguei com a vida na batalha de Salamina, agonizando por cinco dias na proa de um barco inimigo. Morri três vezes na batalha de Gaugamela, a ultima delas atingido pelo punho de um soldado pessoal do próprio Dario. Fui ostrogodo e morri com o ventre aberto nos cárpatos ucranianos, depois de ser traído por um irmão. Pelo braço firme do pró cônsul Craso, lutando em terras da capadócia, fui esfolado até a morte. Ordenei rebeliões ao lado de Judas e estava pregado em uma cruz ainda antes de Jesus pregar a verdade. Durante as convocações para o Conselho de Nicéia, caí em um emboscada que calou na alma qualquer das minhas revoltas. Fui feliz levando a mensagem de Maomé aos desertos da Eritréia. Fui por duas vezes líder entre os aztecas, mas provei de meu próprio veneno ao ser assassinado, muito tempo depois, como camponês maia. Carrego nas costas a vida de cinco de meus familiares, que morreram congelados ao me acompanharem na busca pelos confins do universo, através do gelo norueguês. Fui célebre professor em Alexandria e miserável agricultor no Chipre. Cavalguei ao lado das tropas de Saladín. Fui conselheiro pessoal e senhor dos gaviões de Kublai Khan, e foram eles que me mataram quando assim o quis o imperador. Alimentei minha família como pastor na Lapônia e como amo de porta da Alhambra. Fui padre inquisidor e bruxo incinerado, e em ambas vezes era um apaixonado por cristo. Reescrevi as mitologias irlandesas em um gelado quarto de mosteiro católico. Fui poeta do Albaicin. Testemunhei o terremoto de Lisboa e a guerra civil americana, escondido em um navio mercante francês. Tive toda minha família queimada pelos Afrikaners em sua busca desenfreada por terra. Fui expulso da China quando Lin Zixu Lin Tse-Hsü declarou a Guerra do Ópio. Atentei contra a vida de Lawrence da Arábia. Matei e fui morto en 17, em 59 e em 68. Fui companheiro de Lumumba, Biko, Kwame e Ben Bella. Chorei na copa de 50. Estive em Serra Pelada e em Serra Leoa. Lutei nas trincheiras soviéticas do Afeganistão e era comandante dos homens que mataram Marighella. Então não me diga para desfazer esta cara de asco. Eu não nasci assim há dez mil anos atrás.

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E não é que o pobre foi pregar e acabou pregado?

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1.8.06<$BlogDateHeaderDate$>

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Sorriso só vale quando é sério.

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