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Horizonte no Guadalquivir
Gabriel Silveira
Não era por isso que ia estragar seu dia. Saiu pela porta dos fundos, abrindo espaço entre as missangas coloridas que escorriam do marco e logo batendo o pequeno portão verde que estremeceu e desfez-se em milhões de cacarecos de tinta. Em frente à casa parou, sacou o olhar e observou a calha meio solta sob o telhado, atravessou as nuvens e chegou até as palmeiras que pareciam crescer do céu. Engoliu seco pensando no ocorrido e, mais uma vez, repetiu que aquilo não ia estragar seu dia. Foi encontrando calçada entre os pedaços de lajota e levando o nariz na cara. Sentia o cheiro de tudo, até do sol que lutava contra as copas para atirar-se ao solo. Foi por levar a cabeça concentrada no nariz que sentiu que o Guadalquivir lhe chegava em rufadas contaminadas de desejo. Ele chegou a cessar os passos e respirar fundo fechando os olhos para enganar os sentidos. Aí resolveu fugir do centro, pegou à esquerda e chegou à ponte que lhe dava os bons dias. Sentiu o sorriso lhe subindo do estômago, como querendo saltar-lhe na boca, mas não pode desfazer a cara de nojo, voltou a pensar no ocorrido e respirou fundo uma vez mais. Seguiu caminhando, vendo a ponte romana ao longe e parecia que o horizonte lhe fugia, mas logo viu que era ele quem percebia o movimento da água de forma inversa, que o horizonte, na verdade, vinha carregado pelo Guadalquivir, em sua direção, lhe ameaçando os pés, lhe tomando o dia que tanto defendera. Correu até a ponte romana e seguiu observando as águas que pareciam crescer e crescer, até que subiram a tal ponto que as ruas todas da Córdoba mergulhariam no Guadalquivir, não fosse ele o que caía desde o alto do seu dia, tão precioso dia que era para estragá-lo por uma bobagem.
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