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46 músculos
Gabriel Silveira
Parece incrível que, onde eu vejo equilíbrio, os outros vejam o contrário. Nunca foi uma questão opinativa. É como se, simplesmente, eu tivesse um extra sentido, um dispositivo a mais - ou a menos, insistem alguns - que me permite saborear ao máximo a estabilidade e o comportamento civilizado nas pessoas. Sei bem, ninguém precisa repeti-lo aos ventos, que cada qual tem suas maneiras e seus pontos-de-vista, sería uma ofensa de minha parte conceber a liberdade individual de uma forma distinta a de meus contemporâneos. E, para a surpresa de alguns, é exatamente neste ponto - nas bases do sagrado liberalismo! - que esteio meus principais argumentos em meu favor. A questão é que, fruto de minha paixão quase orgânica pela estabilidade material e pela manutenção da harmonia moral, brotou-me uma verdadeira rejeição a um ato que parece totalmente natural no restante das pessoas: o gargalhar.

E não se trata, como alguns poderiam de antemão supôr, de uma inquietude despertada pelo som que emitem. Isso, apesar de que em algo realmente me incomode, não chega a ser de todo um distúrbio grave em meu discorrer diário. Talvez seja tamanha a ¿oferta¿ de barulhos em nossa sociedade, que minha concepção de mundo já venha auto-programada para recebê-los sem maiores problemas. O que, sim, me quita a paciência por completo e atua em meu cérebro como se lhe enfiasse milhões de mínimas e pontiaguas agulhas cirúrgicas, é o lento contorcer que precede a abertura repentina da boca, o balançar impaciente das cadeiras sobre as pernas e, finalmente, o dobrar oblíquo dos joelhos, deixando o corpo cair para trás e os ombros dançando sempre no sentido inverso das costelas. Desequilíbrio! Todos os meus sentidos me dirigem a esta verdade. Parece realmente - somente se percebe estando atento aos sentidos! Aos sentidos! - que são quase como macacos buscando voltar à caminhar sobre quatro patas, ou restos de uma raça bizarra e agonizante que agacha-se para se aproximar ao pó que lhe gerou um dia. O que tenho certeza é que, somente o citar de tal ato, choca a cada milímetro nervoso do meu corpo, deixando-me totalmente extasiado. Já me instruiram: nestes momentos é preciso respirar fundo, contrair e estirar cada um dos dedos da mão e contar lentamente até 100 (este exercício me ensinou o velho Dani, que se burlava dizendo que só funcionaría se eu fizesse esta contagem em números romanos).

Enquanto exercía um cargo absolutamente acadêmico, esta espécie de sexto sentido nunca me foi prejudicial. Está claro que o mundo intelectual em que convivia não era lá muito chegado a dito mal e eu podia estar sempre confortável - e seguro - enquanto estava no Campus da Universidade. Meu medo restringia-se às grandes reuniões docentes ou às festas de final de ano, em que sempre precisava construir argumentos que me liberassem de tais eventos. Apesar de que, desde muito jovem, eu tenha perdido contato com qualquer tipo de família - morreram meus pais e avós meses antes de completar 12 anos e, portanto, sempre quando me refiro a eles visualizo o representante da seguradora que me tornou um homem rico alguns dias depois - é deles que me utilizo para minhas escapadas. Assim, uma nobre avó que sofre de uma síndrome qualquer me evita o confronto com uma turma de estudantes juvenis e um solitário pai na noite de ano-novo me poupa da abertura de vinte e cinco garrafas de champagne em sequência pelos diretores de cátedra.

No final, foi a própria falta de entrosamento com os tais diretores que acabaram por desgastar minha imagem interna na Universidade. Depois das duras críticas que recibi pelos artigos em que defendia uma fundamentação schopenhauriana a Joyce - o preço que se paga por não seguir as modas! - fui primeiro obrigado a estabelecer minha posição ética frente a meus colegas e finalmente, como única e última forma de evitar um confronto que quebraría qualquer tipo de harmonia que ainda mantinhamos, deixar o corpo acadêmico, abandonar o colegiado de desenvolvimento intelectual que ajudei a fundar e ausentar-me de meu retiro de tranquilidade.

Nunca pude ver com clareza aquele vácuo em que simplesmente deixei de existir para o mundo. Lembro de sentar-me na janela do décimo sétimo andar em que fica meu apartamento, com um único e solitário cigarro ao lado. Prometia a mim mesmo, como prova de disciplina, fazer com que durara por toda a noite e, assim, o acendia, tragava e logo o apagava, e via-me obrigado a gastar todo o tempo que me esperava até a próxima tragada com o único entretenimento que me restava: pensar.

Levei algumas semanas para organizar meu currículo e revisar todas minhas publicações, então o enviei a diversos contatos que haia construído no mundo editorial. Confesso que esperava um trabalho como uma espécie de correspondente ou articulista, mas me vi obrigado a aceitar o cargo de especialista técnico em uma revista científica. O grande problema é que tinha que estar na redação diariamente, o que nunca imaginei que pudesse tornar-se tamanho suplício.

Só trabalhando seis horas diárias com esta raça para saber do que se trata. Jornalistas! Jornalistas! Menos deles e teríamos um mundo parcialmente melhor. São dispersos, disconectos, momentáneos e supérfluos. Menos de cinco dias levei para constatar a impossibilidade de dividir meu espaço vital com esta espécie intolerável. Não pensem que sou eu o intolerante, não me encaixo para nada ao estereótipo sensível que preenchem os intelectuais à moda antiga. Até as nove da manhã, enquanto estes corvos certamente ainda dormiam baixo seus ninhos preguiçosos, eu conseguia desenvolver todo o trabalho que me encargavam, com o silêncio da manhã balançando suavemente a palmeira que terminava à janela da editorial. Mas logo antes das dez já começavam a soar os telefones, o abrir e fechar dos elevadores e os jornalistas se amontoavam nas pequenas salas fumando seus cigarros baratos, enchendo de gritos o ambiente e, o que é pior, gargalhando sem parar, como se, a cada frase, lhe descargassem correntes de altas tensão que lhes fizessem abrir as grandes bocas cheias de sorriso e gargalhar, gargalhar, efusivamente gargalhar.

Na segunda-feira seguinte à minha admissão, solicitei uma sala em que pudesse ficar em meu ambiente reservado. Frente à negativa - mais que previsível - da diretora que me havia contratado, propus um horário alternativo em que pudesse trabalhar em paz. Em princípio parecia uma loucura, mas certamente pude estar mais tranquilo, ao menos nos primeiros dias. Começava meu labor diário às seis da manhã e, até as nove horas, organizava meu artigo diário. Saía antes da chegada da manada de gargalhantes, e voltava a meu apartamento, onde passava grande parte do dia. Às cinco e meia, então, voltava à editorial, que já estava de volta à normalidade, para terminar o artigo com as idéias e conceitos que estavam totalmente maduros em minha cabeça. Trabalhava com muito mais facilidade a este horário e por algum tempo pensei que, ali, havia finalmente encontrado meu verdadeiro modelo de trabalho. O primeiro incidente que tive foi em um destes dias em que meu trabalho havia fluído com total naturalidade. Desci da editora por volta das dez da noite e voltei passeando pela cidade silenciosa, como sempre fazia questão. A melhor amiga do homem é a noite - ao menos sempre que esteja em silêncio. Tão somente saí do edifício e cruzei a rua, notei que um grupo de pessoas conversavam alegremente na esquina com a avenida que me leva a casa. Respirei fundo e segui adiante, sem mudar o caminho. Quanto mais me aproximava, entretanto, mais baixo tornava-se o volúme de suas vozes. Isso me ajudou a relaxar tanto, o que só piorou o momento em que finalmente passei ao lado dos dois casais, que soltaram uma imensa e aparentemente infinita gargalhada ao meu lado. Meu susto foi tamanho que, automaticamente, fui jogado no gramado que costeava a esquina. Os quatro me olharam com olhos mais do que assustados, ameaçadores, como se fosse eu um demente ou algo assim. Só tive tempo de levantar-me e correr pela avenida afora, até chegar a meu apartamento, onde o décimo sétimo andar finalmente me deu um pouco de tranquilidade.

No outro dia, estendi-me um pouco mais no trabalho, prevenindo-me de um novo encontro com os mesmos casais. Inclusive fiz um caminho alternativo, saindo dos fundos do edifício e obrigando-me a contornar toda uma quadra a mais para sair do outro lado da avenida. Entretanto, quando já a tranquilidade invadia-me, no segundo semáforo depois do cruzamento, três jovens, como verdadeiras aparições, como vultos fantasmagóricos de uma nostalgia, saltaram desde um poste de luz, cortando-me o caminho bruscamente, e soltaram verdadeiras ¿carcajadas¿ com tal manobra, despejando-se pela calçada como se fossem bebês famintos a chorar. Me protegi daquela agressão violenta, disparei entre os carros que cruzavam o sinal verde e, por muito pouco, não me atropela um ônibus metropolitano que vinha contra minha direção. Utilizei os buzinaços como uma espécie de cobertura para minha fuga e me perdi na escuridão dos cedros do parque municipal.

Semelhantes ataques ocorreram nos dias que se seguiram. Na quinta-feira à noite, cheguei em casa perdido em lágrimas, totalmente inundado em medo e pavor, arranhado de cima abaixo pelas trepadeiras de meu condomínio e tremendo-me com os nervos saltando-me da carne. Na sexta não fui trabalhar. Nem na segunda ou qualquer outro dia da semana que vem. Simon Paez, velho amigo psicoanalista, enviou-me um atestado de saúde que me preveniu da perda do emprego. Na outra segunda, não pude abrir a porta de casa. O quadro de Beckett, dependurado detrás da porta, me mirava com um desafío nervoso, me lembrando das demências do mundo, das limitações dos horizontes a céu aberto e das virtudes do isolamento. Às três da tarde, levantei-me, troquei minhas roupas empapadas em suor e fui até a editora. Era dia da entrega de um prêmio jornalístico especializado - único evento ao qual refuguei com um argumento verdadeiro em toda minha vida - e por isso pude trabalhar em silêncio. Revisei os textos que haviam sido publicados em minha ausência, os quais já tinham preparados no caso de alguma emergência como realmente ocorreu e deixei o edifício por volta das onze e meia da noite. As luzes da cidade pareciam querer acordar todos meus fantasmas. Assim mesmo, não fiz rodeiros, cruzei a rua em direção à avenida e preparei-me para o pior. Logo ao cruzar o primeiro poste, comecei a sentir uma sensação estranha. Olhei com atenção por detrás dos bancos de concreto da esquina e não havia ninguém, assim que segui em meu caminho silencioso. Aos poucos, senti que algo me adentrava, assombrando-me desde dentro. Sentia que ofegava mais do que o normal, certamente uma reação ao momento que enfrentava a respiração acelerava, ao passo que minhas narinas abriam-se lentamente e senti que minha pele enrugava-se abaixo do pescoço, minha língua parecia querer saltar de dentro de minha boca e meus olhos foram fechando-se mais e mais, até que o peso de meu peito me levou a dobrar os joelhos, jogando o corpo harmoniosamente para trás e naturalmente, como se uma faca cruzasse de lado a lado meu peito inflamado, gargalhei, gargalhei solenemente, até cair de nádegas no solo, respirando fundo para novamente gritar em meio à gargalha e morrer com um sorriso estampado no peito, mais que no rosto; e uma tristeza infinita da derrota que me condenava à morte.

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A vida cai gota a gota
e o mundo, de secura, encharca,
despindo da veste, goma-laca,
o que outrora escondeu toda amargura.

Aí é que a mente pura (não crua)
alcança as certezas da vida,
e de suas chagas e feridas
tem visão e consciência.

Lhe ataca a fúria, a demência,
vê a razão em loucura embebida,
lhe roga pragas a penitência.

Chora em tom de despedida,
vaga frio sem rumo, sem ciência,
até morrer de morte chovida.

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E se, de uma hora a outra, o frio uivante do fim do mundo corrompesse todos os sóis, todos os ardis amanheceres; e o mundo inteiro, desde o fim até o começo, desde os altos picos até as mais baixas profundezas, desde os mais pobres que choram até os mais ricos que não consolam; se tudo, de um só golpe, ficasse sob o opaco do gelo e das almas enfriadas; se todo o universo e todas as almas e incluso o tempo fosse congelado em um único e breve instante; eu ainda vivo seria, pois brilharia a lembrança de teu sorriso feito chama de vida, como uma brasa que não se apaga, uma fagulha de vontade em minha eternidade individual e intransferível.

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Espelho meu
Gabriel Silveira
Momento interessante este, em que o sujeito se põe em pé, mirando-se frente a um grande espelho - com que outras pessoas decoraram o banheiro que agora é seu. Primeiro observa atentamente a cor que lhe contorna os olhos, nota como pequenos circulos escurecidos é que lhe dão o aspecto cansado, logo passa a mão sobre o cabelo como se pusesse à prova sua reação ao vento, para depois, repentinamente, lhe assaltar um pavor ao ver como as orelhas saltam da sua cabeça, como se fossem nascer ali novos braços ou pernas, mas este medo dura somente alguns segundos, até que o espectador raciocina sobre a visão que teve, compara-a com todo o já visto em sua vivência e registrado em sua memória vital e pode, enfim, descansar relaxado porque tudo em seu rosto parece totalmente normal, de acordo com o que entende e estabelece sua civilização. Mas engana-se quem pensa que o sujeito, a estas alturas, simplesmente apagará as três pequenas lâmpadas que iluminam o espelho e irá até a sala para tomar o chá que sua governanta preparou para quando terminara o banho. Não. Acabada a análise facial, chega o momento da análise moral, como se, somente nu e depois de cinco minutos discorridos mirando a si mesmo, o homem pudesse ver o que realmente habita dentro de sua alma. Este momento normalmente é o que me eriça os pêlos, a barba parece crescer até roçar-me o peito e, não poucas vezes, levo menos de um minuto para terminar esta análise, apagar as três lâmpadas que iluminam o espelho e dirigir-me a sala, onde, certamente, já me espera uma xícara de twinnings e uma pequena madalena de maçãs verdes. Ontem não. Estava tão preocupado com a janta dos Forero que levei mais de meia hora analizando-me a alma, buscando minhas facetas mais bonitas, rememorando meus escritores favoritos, minhas noitadas de cinema francês com Sr. Wagner, repassando - ou simplesmente inventando - histórias autobiográficas que pudessem enriquecer o diálogo, elevar o nível da conversação, propôr novas pautas de discussão, tudo para não ser tratado como um cão destes que vivem na rua, aos que todas as pessoas distribuem sorrisos solidários, sem escutar seu coração latindo por um pouco de comida. Depois do chá, levei horas relendo trechos soltos de romances do boom hispano-americano e decorando aforismos de Nietszche, até que o sono cessou tréguas e eu, solidário comigo mesmo, entreguei-me a um sono tranquilo que durou até hoje pela manhã.

Não consigo saber se em decorrência do estresse, gerado por tamanhos estudos, ou ainda se pela demasiada importância que dei para este jantar, só o que sei é que, quando acordei, senti um estranho aperto na garganta. Quando fui até o banheiro vi, no mesmo grande espelho em que tão cuidadosamente havia me analisado no dia anterior, que uma espécie de ovo, de coloração vermelha e densidade gelatinosa, me havia surgido no pescoço. Ordenei, como precaução, que me trouxessem o café na cama, o qual recebi com um simples, ¿muito obrigado¿, desde meu esconderijo no banheiro. A questão é que outros ovinhos foram surgindo em todo o corpo, até que não me restou mais alternativas que a de chamar minha governanta e lhe solicitar ajuda. Mas imaginem que a primeira idéia que a pobre pôde conceber foi a de avisar a um médico que avaliasse o ovo imediatamente, não fosse isso ser um mal de morte. Lhe respondi que de maneira alguma um médico deveria ser contatado. Fizesse isso e certamente toda a vizinhança, incluídos o casal Foreiro, me veriam nesta assombrosa situação e arruinariam meu estatus local. Por isso ordenei que a ordenança fosse levada com total naturalidade durante o dia, com a única diferença de preparar-me alguns lenços umedecidos, sob o efeito dos quais os ovinhos certamente reduziriam ou desapareceriam por completo.

Passei o dia inteiro sem sair do quarto. Estudei o que pude das tragédias de Ésquilo e das fábulas de Esopo, e ainda me sobrou tempo para folhar algumas páginas do estudo sobre Klimt com que minha sobrinha normanda me presenteou na festa do doutorado. Durante o dia, apliquei várias vezes os lenços umedecidos sobre os ovinhos - que eram cerca de nove ou dez distribuidos entre o pescoço e as pernas - e quando tocou as sete horas, já quase não se notavam. Ainda assim, chamei minha governanta, lhe disse que aplicasse uma base para que desaparecessem por completo e me vesti com um fraque negro e as abotoaduras da congregação.

Cheguei pontualmente às 21h e fui recebido pelo mordomo dos Forero. Para meu disgosto, perguntou se estava bem, e minha reação imediata foi deixar que me tirasse o casaco e somente lhe contestar com um movimento da cabeça. Não pude deixar de sentir-me um pouco nervoso, então me dirigi discretamente, e esforçando-me por parecer descontraído, até a sala de estar de onde vinham vozes animadas. Quando cheguei, já estavam ali o engenheiro Sánchez e sua esposa, sentados no bar e que pareciam levar uma animada conversação com o casal Forero que permanecia de pé. Cessaram o debate para me receberem e notei que, do fundo da sala, vinha também o reverendo Paez, que fumava compenetrado seu tradicional charuto. Todos fizeram questão de me saludarem a pontualidade, o que me instigou questionamentos de por que já estavam ali todos menos eu, e se não haviam chegado mais cedo para manter conversações da qual me excluiriam. Tentei manter a dose de equilibrio e me senti um pouco aliviado quando a Sra. Forero convocou todos para a sala de jantar.

Durante a cena, não houve maiores percalços. Saboreamos deliciosamente as entradas exóticas que havia preparado a cozinheira grega que haviam trazido de sua última viagem, e depois nos esbanjamos com uma variedade de pescados e frutos do mar que, segundo a Sra. Forero, haviam sido escolhidos para divertir o ambiente e entreter-nos antes das discussões que a noite previa. Eu limitei meus elogios efusivos ao vinho de Imaz - que realmente estava excepcional ¿ o qual tirou um pouco do peso que o nervosismo me apregoava. À sobremesa, foi servido uma maravillosa baclave, outra surpresa da contratada ateniense.

Então nos dirigimos novamente até a sala de estar, donde escolhemos cada um o licor que lhe apetecia e servimo-nos dos deliciosos cohiba, para a alegria do reverendo Paez. A partir deste ponto, senti que as coisas tornavam-se mais difíceis para mim. A primeira discussão entrou em campos religiosos e discordei severamente da posição radical que o reverendo guardava sobre as declarações de um imán valenciano e só fui salvo de um possível mal estar porque a Sra. Forero concordou com meu ponto de vista - segundo o reverendo, conservador. Depois deste primeiro confronto, deixei que os outros se desgastassem também, fiquei restrito à interrupções que me soavam inteligentes - mais do que necessárias - e consegui inclusive encaixar algumas das idéias de Ortega y Gasset, além das citações da Religação dos Saberes de Morin, durante a discussão sobre o modelo de aprendizagem francês.

O fim da noite estava quase chegando e eu me sentia plenamente satisfeito e vitorioso. Havia até me esquecido dos ovinhos, quando notei que o engenheiro me dirigia um olhar ¿a la vez¿ estupefacto e atônito. Me recoloquei na poltrona tentando esconder minha preocupação, mas minha estratégia não funcionou, porque acabei ficando tão próximo da Sra. Forero que era quase impossível que não percebesse o ovinho que revelava-se no meu pescoço. Foi então que o reverendo, como se relembrasse um bom argumento para impor-se sobre mim na questão do imán valenciano, levantou e começou a discursar, com a lareira de fundo, sobre a ética otomana e o sistema judicial do império anatólio. Enquanto isso eu me esforçava por fugir do foco dos presentes. Me pus ainda mais nervoso, processo que teve seu auge quando notei que o Sr. Forero - banhado em suor - quase caía da sua longa poltrona ao tentar identificar de que se tratava o globo azul que saía de minha nuca. Me sentí afogado naquela situação e minha postura - esforçada por levar tudo com total naturalidade - impedia que qualquer dos outros tomasse alguma atitude ou fizesse algum questionamento em relação ao fenômeno. Finalmente, para surpresa de todos e meu absoluto pavor, um dos ovinhos que crescia em meu pescoço estourou, soltando um som totalmente patético acompanhado por um pus inegavelmete asqueroso. Levei até a área, rapidamente, um lenço úmido que trazia no bolso da calça, mas de nada adiantou pois outro ovinho - desta vez o que já aparentava um globo em minha nuca - estourou soltando aquela babosa escarlate por toda a poltrona. Somente neste momento o reverendo deu-se conta da situação e me dirigiu um olhar atônito, com um cruel sorriso no canto da boca. Certamente calculava que com a pontuação de estatus que eu perderia com tal cena, ganhariam ele e suas idéias. Era bem verdade que não podia me orgulhar do que ocorria. Estávamos todos ainda sentados nas poltronas, mas haviam como que se afastado de mim, inclinando-se para os lados contrários ao que eu estava. Nenhum deles me ajudava, e já estava claro que precisava de auxílio, visto que mal conseguia levantar a cabeça, pois logo onde o globo havia estourado já haviam surgido outros tantos ovinhos que me impediam dobrar o pescoço. Foi aí que o reverendo explodiu em uma gargalhada insensata, a qual - para minha surpresa - foi seguida de imediato pelos outros presentes, que roçavam-se em espasmos de alegria, extasiados com a bizarra forma que contemplavam mexendo-se na poltrona. Como se fosse meu último movimento, fui até a lareira andando de quatro, passei a mão em um forcado e finquei no pé do reverendo que pôs-se a dançar de dor no chão, ao redor do seu próprio sangue. Os outros não fizeram mais que seguir gargalhando, apenas mudando a direção de onde apontavam, que agora dirigia-se ao cura agonizante no chão. Fiz um esforço para levantar a pesada bola que saía-me do braço e dei com o mesmo forcado na nuca do Sr. Forero, que caiu levando consigo sua esposa, extendida no solo. Aproveitei para morder-lhe a orelha e bater-lhe com o punho na nuca. Ao mesmo tempo, vi que o engenheiro e sua esposa começavam a desnudar-se sobre o sofá e não fossem os ovinhos que me saíam dos ouvidos, teria escutado os gemidos do casal que desmanchava em prazer. Fui arrastando-me pela sala, agarrando-me em cada fio do tapete e alcancei chegar até a porta da saída. Dei as graças por não topar-me, na situação em que me encontrava, com o mordomo dos Forero. E apenas pude gritar à minha governanta desde o meio da rua e ela já estava aí para resgatar-me. Enquanto me arrastava puxando-me pelo asfalto, repetia que nunca mais, que nunca mais, nunca mais. Mas nem eu, e muito menos ela, acreditávamos que seria assim.

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3.10.06<$BlogDateHeaderDate$>

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O casamento de Luís
Gabriel Silveira
Até ali, nem sombra dela. Mas eu estava bem preparado para o caso de que ela aparecese. Pra dizer bem a verdade, sabia que ela estaria lá, foi pensando nisso que eu estive me preparando todos estes dias. Aliás, o próprio Luís, ainda duas semanas antes do casamento, me chamou uma noite para umas cervejas e lembrou-me de que ela estaria ali, alertando sobre o difícil - ou pelo menos constrangedor - que a situação poderia tornar-se. Lembrou-me de que deveria ir com calma, prevenir-me de qualquer encontro com ela e, claro, sempre primar pela discrição. Confusão desnecessária era o último que queriam.

Que ela estaria ali, era óbvio antes mesmo de que ele dissera. Não iria perder este dia por nada. Mas quando ouvi aquilo pela boca de Luís, foi como se o que estava guardado em uma velha gaveta voltasse à pilha de assuntos não-acabados. A cerveja começou a me descer em solavancos e não pude deixar de notar seu desconforto frente a uma perigosa e inevitável situação. Naquela noite neguei sua carona e voltei para o hotel a pé. Tanto a Balden quanto a Arenal ficaram pequenas para minhas angústias e só quando cheguei na puerta de Sol, onde renascia Tio Pepe já iluminado pelo escuro frio da madrugada, é que consegui vencer os meus demônios. Deixei-os com o porteiro noturno do hotel Paris e subi para o quarto.

Não tive a mínima dificuldade para pegar no sono. Isso sim, tive muitas turbulências durante a noite. Mas do único sonho que lembrei, dos muitos que tive naquela madrugada, só ficou em minha cabeça a cena em que eu estava no púlpito da catedral de Almudena, esperando a entrada de minha noiva. Ela chegava triunfante e, depois das palavras do padre - estas não me lembro do que se tratavam, certo mesmo só a ordem de beijar a noiva - eu quitava-lhe o véu e, para minha surpresa, comigo mesmo é que estava casando. Logo já me via do outro lado, sob o véu e o noivo que o erguia. Tratava-se de mim novamente. Fiquei assim, intercalando-me posições até que acordei totalmente encoberto pelo edredon e passei o resto da noite me convencendo de que o pesadelo era conseqüência do calor.

No outro dia, o primeiro que fiz foi ligar para Luís e dizer-lhe que não se preocupasse. À primeira vista, sim, havia sentido medo da situação, mas raciocinei sobre tudo e lhe assegurei que nada de ruim iria acontecer. Que eu estaria alí, como o prometido, e que nem ela nem pessoa alguma poderiam interfir na minha vida e nas coisas que deveria fazer. Se eu me submetesse a este jogo, certamente em muito pouco estaria escanteado novamente em meu próprio mundo.

A partir deste dia, em que tudo ficou esclarecido, as coisas melhoraram. Uma semana antes do casamento, poderia mesmo dizer que estava nas nuvens. Era como se tudo estivesse encaixando-se na minha cabeça e eu via uma clara possibilidade de que fosse o fim de todas minhas angústias. No final de semana que antecedia a festa, saí pela Gran Vía a comprar os presentes para os noivos e tudo mais que necessitava para o casamento. Assim que pude gastar o restante dos dias para meditar sobre meus próprios assuntos e até terminar de ler o Chejóv que me havía deixado Luís. Às noites, ficava fumando horas e horas na janela do hotel, observando as pessoas que se amontoavam na entrada do metrô e os chinos com suas pedrinhas mágicas. E uma vez ou outra - três oportunidades no máximo - saí a conhecer o que oferecian de diversão as ¿callejuelas¿ da moderna Madrid, na qual apenas havia vivido antes de ir-me a Paris. As mulheres que conheci não hesitaram em apresentar-me - isso, claro, com um mais do que justo incentivo econômico de minha parte - algumas das inúmeras atrações durante as intermináveis madrugadas que não levavam a dias cheios de obrigações.

Sei que, quando por fim havia chegado o dia do casamento, eu estava me sentindo totalmente pronto para cumprir com minhas incumbências. Levantei quase radiante, respirei fundo os ares madrileños, enquanto me asegurava de aproveitar ao máximo cada último instante no ¿balcón¿ do hotel Paris. Sabia que aquele dia sería inesquecível. Pus o traje que havia comprado e pareceu sentar perfeitamente em meu corpo. Ninguém podería descrever o quão tranqüilo e completo eu me sentia durante aquele ritual de preparação. A sensação beirava um orgasmo, e aquela euforia, por não mais do que um segundo, me trouxe a preocupação de que talvez o êxtase tivesse chegado cedo demais. Descartei esta possibilidade, ou simplesmente a esqueci, e peguei um táxi para a catedral, pela dificuldade de carregar os presentes e a maleta que me acompanhava.

Por pouco não me confundiram com a noiva. Aliás, a preocupação do atraso dela não era maior do que pelo meu - apesar de que eu não levava as alianças. Cheguei justo à frente da limusine e entrei na catedral quase ao lado dela. Corri pela nave direita em silêncio e, sem que ninguém o notara, já estava detrás de Luís, ao lado dos outros padrinhos. Aí a música começou, harmoniosa com o repentino choro de todos e a noiva deu os primeiros passos no longo corredor que a separava do púlpito. Pude notar que, por debaixo do véu, mantinha um sorriso profundo e por um longo momento cheguei a entrar em uma espécie de transe, como se estivesse encantado por sua aura nupcial. Finalmente obriguei-me a estar lúcido e, enquanto a cerimônia discorria, me concentrei em buscar o rosto dela nas filas da frente. Mas alguns familiares me olharam desconcertados, pois eu observava os convidados enquanto o padre ditava a missa, e desisti de buscá-la para manter meu posto em silêncio.


Certo é que, quando acabou a cerimônia - e ainda antes de entrar no carro que os levaria para a festa -, Luís me dirigiu uma expressão de tranquilidade ou satisfação, a qual não terminei de desvendar. Assim mesmo tive a certeza de que ela estava ali. Esperei que todos deixassem a catedral, voltei a pegar um taxi e me dirigi a Cercedilla, à casa de veraneio da família, onde dariam a festa. Deixei o táxi ainda na cidade, em frente à prefeitura, e fui caminhando, sempre costeando o asfalto, até começar a subida que acabaria na propriedade. Cruzei ao lado oposto do sítio, subi até ter uma visão perfeita de toda a festa e me pus a abrir a maleta e preparar-me para cumprir com minha promessa.

Quando pus meus olhos na luneta, a localizei de imediato, como se ela sempre estivera ali, esperando por este momento. Gastei alguns segundos observando como parabenizava os noivos, como fazia questão de valorizar aquele acontecimento. Depois, sem mais, dei dois tiros secos: um que provavelmente lhe atravessou a cabeça e outro que deve ter raspado levemente a perna direita. Imediatamente soltei a arma, a parti em pedaços e voltei a guarda-la. Preparei um sanduíche tranquilamente - não comia desde o almoço do hotel! - e fui comendo enquanto me dirigia à casa. Quando entrei, as pessoas estavam eufóricas e sonâmbulas ao mesmo tempo. Pareciam como meninos ao enxergar, pela primera vez, um avião a jato próximos de si. Se põe extremamente exaltados, mas uma espécie de dormência lhes invade todo o corpo, decorrência do ruído causado pelas turbinas. Claro, tudo mudou claramente quando fui até meu pai, que estava agachado sobre minha mãe enquanto ordenava a meus primos que buscassem os cachorros - e abri a maleta, mostrando-lhe a arma. Me agarrou diretamente do pescoço, chamando-me de bastardo, um grande bastardo, e pude ver que todos os outros vinham também a linchar-me. Me jogaram dentro de uma espécie de celeiro, que hoje em dia já servia somente de garagem, e me cercaram completamente. De forma que vi a meu pai, meus cinco primos, meus dois tios e todas minhas quatro tias chutando-me por todos lados, com expressões de raiva e gritando palavras de desprezo. Até que, finalmente, um silêncio tomou conta da minha cabeça - talvez minha audição tivesse sido afetada por algum golpe - e fiquei a ver somente seus rostos em movimento. Aí tive a certeza de que todos estavam ali por mim, que eu lhes possuía por todo aquele instante, que, por fim, eu era uma parte da família. E meu regozijo final veio já enquanto agonizava, quando Luís surgiu entre as cabeças, fazendo sinal de afirmativo, aprovando com toda sua bondade de irmão o ato final de minha existência em família.

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