O trem e a caça
Gabriel Silveira
Se torcia de tanta lágrima ao ver o caixão descendo sem dó ao pó. E assim gritava:
- Èta, pôrra! Êta, pôrra! Hai hai, Deus-pai. Pra donde leva meu véio?
Ao lado dela, só um coveiro amigo da morte e as carpideiras que já se iam. E ela, mais incompreensível do que incompreendida, seguia:
- Êta, porra! Pra donde leva meu véio? Tirou logo de mim, que podia dar por não perder?
E o coveiro já lhe cobria de um todo, e a velha já era só uma sombra sozinha, e o sol já parecia acostar-se, mas a mulher insistiu:
- Tirou logo de mim, que podia dar por não perder?
E falar isso é como dar queijo pra cabra, é farelo de pão no trigo, é entrecote no espeto para desaiúno de vaca de abate. Era o corpo à morte. E era ela, a morte, quem já preparava suas maletas para a próxima cidade, quando a dita velha disse tal dizer. Por baixo do grande sombrero negro, escondida com suas longas tranças também noturnas, quase fez careta de preguiça, quase negou o instinto, mas acabou por soltar as maletas e decidir ficar. Ainda olhou um instante para o horizonte, não pensem que divagava sobre quão bonito estava ou sobre como o silvar das catorritas é bonito ao crepúsculo, não, só se divertia vendo o vermelho sangrento que tomava conta do céu e sentiu-se totalmente inserida no grande circo da criação. Ficava, afinal era o destino do mundo que tinha que ser cumprido.
Caminhou sob o entardecer, pensando se alcançaria descobrir o endereço da encomendada já para a noite, sempre ideal para as idas. Passou com seu longo sombrero negro em frente aos bares nos quais as gentes começavam a apuleirar-se e não um nem dois, mas nenhum dos que ali pereciam pelo cigarro ou pelo álcool, vendo-a, pensaram no destino mortal que lhes aguardava. Foi aí que viu a prometida já cruzando ao longe e apertou o passo, pensando em pegá-la de surpresa na chegada à casa. O lusco-fusco, no entanto, lhe confundia as vistas e só voltou a ver-la quando já cerrava a porta do barraco donde vivia.
A morte, então, soube que sería obrigada a encontrar outro plano para dar o que não se diz à dita velha. Pôs-se a observar desde a janela e inconformada ficou - ai e como - quando notou que a prometida, a mesma que agora mesma se esbugalhava em água e sal, estava abraçada em outro homem, mais jovem e gordo que o último - que eu o tenha! -, com a saia já levantada, esfregando as partes donde as outras partes hão de caber.
Mais raiva não lhe deu por estar gozando da vida. Isso bem lhe apetecia. O que lhe indignava é que estivera gozando da morte, ou seja, era bem mentira o que ela mesminha havia ouvido agora há poucos minutos de cá, a mesma mentira que lhe havia tirado as malas da mão e a viagem dos pés. E lhe subiu um sangue colorado entre as crinas negras, lhe explodiu um ser que há muito não tinha voz, e sem que percebera abriu a maleta extendida no chão, passou a mão na foice mais afiada que levava e abriu a janela jogando as longas tranças para o lado de dentro.
- Boas noites - ordenou.
A mulher saltou de cima do homem, gritando muito assustada, mas a morte, com um simples movimento de braços, impediu que ela fugisse até a cozinha. Ficaram os dois nus, o homem totalmente em silêncio e a velha em transe, até que a morte sorriu como se fosse começar a falar e realmente o fez:
- Não havias dito que daria tua vida pelo outro defunto que já foi?
- Disse? Será?
- Sim, disse. É por isso que estou aqui.
- Tens bem certeza disso? Olha que não...
- Juro pela minha vida. - respondeu a morte.
Ficaram alguns segundos em silêncio a pensar se tal dizer cabia na boca e contexto.
- A proposta está ou não está de pé? - repetiu a fúnebre.
- Não, não está - irrompeu o homem, com tom desafiante.
- Entendo - disse a morte virando o rosto para baixo por um segundo - então darte-ei outra opção para que puedas escolher..
Pensou um momento e enquanto o fazia começou a arrastar o cabo da foice na altura do ventre, volteando-o na palma da mão.
- Deixo que te esqueças de mim - coçou o lóbulo da orelha esquerda com a mão direita como se lembrasse de umas palavras e seguiu - mas para que fiques com teu novo maridinho, terás que casar-te com ele. E agora mesmo! Sem mais rolos que suas vidas estão por um fio!
Então a mulher olhou para a foice, virou para o homem que já protestava, não, não, isso não, e ele começava já a vestir-se para largar-se, mas a morte lhe ordenou que parasse ali mesmo e virou-se, esperando a resposta da mulher:
- Eu caso. - respondeu a velha firmemente.
E o homem tentava correr, no desespero que estava, e gritava que já tinha outra esposa e, assim sendo, uma mais não lhe cabia, mas a morte lhe disse que a ela não lhe vinham bem estas frescuras de fidelidade - principalmente à vida - e começou a disparar cânticos sem alma e idade, acendendo incensos por toda a casa. Quinze minutos e a cerimônia já tinha ido - não fizera jus ao nome.
- Pode beijar a noiva - disse a morte.
E a velha sapecou um beijo ao homem que se via preso por uma espécie de encanto ou mágica ou sabe-se lá que coisas. Mas logo beijou-a calado porque com a morte mais vale estar de bem do que estar com ela. Aí a morte pôs o sombrero negro arriba das tranças e quase sorriu, tanta graça que foi findar a função com frase e foice:
- Lhes declaro marido e mulher, até que a morte lhes separe.
Olhou para o relógio, pensou que o último trem ainda não saíra, passou a mão na maleta e foi indo pela porta, com as duas sombras negras que lhe seguiam.
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