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Vou te contar
Guilherme Póvoas
É, quando eu falo, ninguém acredita. Mas depois, não dá outra: todo mundo cita. Mas o causo é o seguinte, e aconteceu prá baixo das bandas de Santo Antônio da Patrulha, descendo o Rio dos Sinos, mais perto ainda das bandas de Sapucaia do Sul e São Leopoldo. Passava das 80 toneladas de peixes mortos, vivente! É. Viu? Essa tua cara, bem que eu sabia que não irias acreditar. Mas era. É que uma empresa, mejera, andou largando uns densos caldos, daqueles que não se organiza com água de rio. É peixe por peixe, seu! O rio estava que era um tapete de escamas ¿ com um cheiro de fazer qualquer pescador enjoar. Deixa estar, pois ninguém mexeu muito em coisa de punição. Logo acontece de novo. E nem é acontece, é ocorre ¿ porque a gente sabe que vai acontecer. Tal qual uma tragédia anunciada, falada, discursada. Ah, é aí. No discurso que acaba tudo. O cardume, olha, subia à superfície, tentando respirar... Nada, vivente! Teve até um, experiente, desses que já viu de tudo no Amazonas, chegou ali e falou: "Nunca passei por coisa igual." É, aí a vergonha fica maior. Mas é que era muito peixe. É, de retroescavadeira e tudo que é técnico tirava eles de lá. E, por aqui, se inventou coisa nova: cemitério de cardume. Não, não foi esse nome que deram pro lugar. É, não foi. Fizeram um aterro em Sapucaia mesmo e largaram os coitados dos bichos por lá. E vou te avisar: tinha de tudo quanto era tipo. Dourado, pintado... peixe fraco aos montes e peixe forte a dar com pau. E eram robustos, davam um bom assado. Engraçado é que nem se pescar podia lá ¿ a água, de tão podre, não deixa comer os peixes. É, podre mesmo.
Mas isso tudo faz um tempo já. É coisa de dois meses. É sim, mas nada mudou. Só que o causo fecha no seguinte, vivente, e vê se nisso tu acreditas: o verão está se avizinhando. A água vai baixar e a coisa vai piorar. E aí, tu podes até não estar aqui para ver, mas eu vou viver isso de novo e, infelizmente, terei que te contar. E é.

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14.11.06<$BlogDateHeaderDate$>

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O trem e a caça
Gabriel Silveira
Se torcia de tanta lágrima ao ver o caixão descendo sem dó ao pó. E assim gritava:
- Èta, pôrra! Êta, pôrra! Hai hai, Deus-pai. Pra donde leva meu véio?
Ao lado dela, só um coveiro amigo da morte e as carpideiras que já se iam. E ela, mais incompreensível do que incompreendida, seguia:
- Êta, porra! Pra donde leva meu véio? Tirou logo de mim, que podia dar por não perder?
E o coveiro já lhe cobria de um todo, e a velha já era só uma sombra sozinha, e o sol já parecia acostar-se, mas a mulher insistiu:
- Tirou logo de mim, que podia dar por não perder?
E falar isso é como dar queijo pra cabra, é farelo de pão no trigo, é entrecote no espeto para desaiúno de vaca de abate. Era o corpo à morte. E era ela, a morte, quem já preparava suas maletas para a próxima cidade, quando a dita velha disse tal dizer. Por baixo do grande sombrero negro, escondida com suas longas tranças também noturnas, quase fez careta de preguiça, quase negou o instinto, mas acabou por soltar as maletas e decidir ficar. Ainda olhou um instante para o horizonte, não pensem que divagava sobre quão bonito estava ou sobre como o silvar das catorritas é bonito ao crepúsculo, não, só se divertia vendo o vermelho sangrento que tomava conta do céu e sentiu-se totalmente inserida no grande circo da criação. Ficava, afinal era o destino do mundo que tinha que ser cumprido.
Caminhou sob o entardecer, pensando se alcançaria descobrir o endereço da encomendada já para a noite, sempre ideal para as idas. Passou com seu longo sombrero negro em frente aos bares nos quais as gentes começavam a apuleirar-se e não um nem dois, mas nenhum dos que ali pereciam pelo cigarro ou pelo álcool, vendo-a, pensaram no destino mortal que lhes aguardava. Foi aí que viu a prometida já cruzando ao longe e apertou o passo, pensando em pegá-la de surpresa na chegada à casa. O lusco-fusco, no entanto, lhe confundia as vistas e só voltou a ver-la quando já cerrava a porta do barraco donde vivia.
A morte, então, soube que sería obrigada a encontrar outro plano para dar o que não se diz à dita velha. Pôs-se a observar desde a janela e inconformada ficou - ai e como - quando notou que a prometida, a mesma que agora mesma se esbugalhava em água e sal, estava abraçada em outro homem, mais jovem e gordo que o último - que eu o tenha! -, com a saia já levantada, esfregando as partes donde as outras partes hão de caber.
Mais raiva não lhe deu por estar gozando da vida. Isso bem lhe apetecia. O que lhe indignava é que estivera gozando da morte, ou seja, era bem mentira o que ela mesminha havia ouvido agora há poucos minutos de cá, a mesma mentira que lhe havia tirado as malas da mão e a viagem dos pés. E lhe subiu um sangue colorado entre as crinas negras, lhe explodiu um ser que há muito não tinha voz, e sem que percebera abriu a maleta extendida no chão, passou a mão na foice mais afiada que levava e abriu a janela jogando as longas tranças para o lado de dentro.
- Boas noites - ordenou.
A mulher saltou de cima do homem, gritando muito assustada, mas a morte, com um simples movimento de braços, impediu que ela fugisse até a cozinha. Ficaram os dois nus, o homem totalmente em silêncio e a velha em transe, até que a morte sorriu como se fosse começar a falar e realmente o fez:
- Não havias dito que daria tua vida pelo outro defunto que já foi?
- Disse? Será?
- Sim, disse. É por isso que estou aqui.
- Tens bem certeza disso? Olha que não...
- Juro pela minha vida. - respondeu a morte.
Ficaram alguns segundos em silêncio a pensar se tal dizer cabia na boca e contexto.
- A proposta está ou não está de pé? - repetiu a fúnebre.
- Não, não está - irrompeu o homem, com tom desafiante.
- Entendo - disse a morte virando o rosto para baixo por um segundo - então darte-ei outra opção para que puedas escolher..
Pensou um momento e enquanto o fazia começou a arrastar o cabo da foice na altura do ventre, volteando-o na palma da mão.
- Deixo que te esqueças de mim - coçou o lóbulo da orelha esquerda com a mão direita como se lembrasse de umas palavras e seguiu - mas para que fiques com teu novo maridinho, terás que casar-te com ele. E agora mesmo! Sem mais rolos que suas vidas estão por um fio!
Então a mulher olhou para a foice, virou para o homem que já protestava, não, não, isso não, e ele começava já a vestir-se para largar-se, mas a morte lhe ordenou que parasse ali mesmo e virou-se, esperando a resposta da mulher:
- Eu caso. - respondeu a velha firmemente.
E o homem tentava correr, no desespero que estava, e gritava que já tinha outra esposa e, assim sendo, uma mais não lhe cabia, mas a morte lhe disse que a ela não lhe vinham bem estas frescuras de fidelidade - principalmente à vida - e começou a disparar cânticos sem alma e idade, acendendo incensos por toda a casa. Quinze minutos e a cerimônia já tinha ido - não fizera jus ao nome.
- Pode beijar a noiva - disse a morte.
E a velha sapecou um beijo ao homem que se via preso por uma espécie de encanto ou mágica ou sabe-se lá que coisas. Mas logo beijou-a calado porque com a morte mais vale estar de bem do que estar com ela. Aí a morte pôs o sombrero negro arriba das tranças e quase sorriu, tanta graça que foi findar a função com frase e foice:
- Lhes declaro marido e mulher, até que a morte lhes separe.

Olhou para o relógio, pensou que o último trem ainda não saíra, passou a mão na maleta e foi indo pela porta, com as duas sombras negras que lhe seguiam.

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12.11.06<$BlogDateHeaderDate$>

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Hora
Guilherme Póvoas
Ninguém compareceu ao seu enterro. Mas tudo ocorria normalmente. O caixão, a cabeça sempre baixa do coveiro. Tudo nos conformes. Estava só, ali, inconformado. Do amigo de bar, do companheiro de cervejas e de mulheres, nada. Do filho, que mesmo desgarrado recebia dinheiro pelo correio, nada. Da faxineira da casa, para quem tanto carinho depreendeu durante décadas, nem um fio de cabelo. Nada durante o enterro. Apenas o padre a rezar em vão um pai nosso com fé. Dois olhos negros observavam distante o funeral, mas não. Não era alguém. Mas um ninguém a roubar flores de outros jazigos. Até aquela vizinha, cuja qual devia-lhe algum dinheiro, não compareceu. E olha que ela havia prometido. "Não morra sem eu lhe pagar." Agora, dívida quitada. Paga com um cheque assinado pela morte. Pois nem guarda-chuva preto, aberto sob a chuva, estava lá. Aliás, nem a chuva apareceu. Sem saber o que acontecia, o morto deu por si. Deu conta, de que estava vivo. Ainda não era a hora. Ele que se ausentara tanto de sua própria vida.

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