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27.12.06<$BlogDateHeaderDate$>

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À noite, onde o frio é dançarino uivante,
com passos de orgías pagãs feitas de vento,
não há mortal sequer, ainda que amante,
que não encontre, na sombra, medo e tormento.
Os gemidos, quase sussurros, do parque maldito,
levam falsos consolos de esperanças finitas,
que escritos com verso e verbo proscritos,
errantes passeiam por mentes aflitas.
A mim, tal o de Mântua em caminho tenebroso,
tal filho de Anquises em busca eternal,
me resta rezar, réu sob véu tão assombroso.
E faz-se meu único guia, como Virgílio desigual,
a lembrança de teu olhar, presente do Divino Generoso,
lanterna e alívio em meu martírio moral.

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23.12.06<$BlogDateHeaderDate$>

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Diante do presépio
Guilherme Póvoas
Saiu e ficou em casa para começar, adivinhar, advir e copiar o que lhe havia parecido até então tudo aquilo que lhe pareceu vida. Sem saber tentou se posicionar, tecer, fazer críticas, ou fazer acontecer, até para não cair em desgraça. Não era a última noite, ainda, em que a lua nua iria iluminar a rua sem que tão sua ela fosse. E foi. Já não é mais, não foi atrás por tantos "capaz". Oh, meu rapaz, agora não adianta se tornar um brabo assaz. Não tem efeito. Acorda e vai ver: é Natal. Não faz diferença para ti, mas, por aqui, muita gente está contente.

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17.12.06<$BlogDateHeaderDate$>

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Atrás dele
Guilherme Póvoas
Uma multidão correu atrás do homem de cabelos grisalhos. As calçadas do bairro onde moravam foram tomadas. E não tinha hidrante, cachorro apertado ou poste de iluminação em conserto que impedisse a caça. O velho até já tinha guardado seus óculos no bolso de dentro do paletó e jogado fora o pente de plástico que ficava guardado na calça bege. Tudo aquilo estava lhe atrapalhando. Sapato de sola dura. "Eu jamais imaginei que iria desejar um Nike", pensou, enquanto o povo inteiro se aproximava. Cada passada que o velho dava a multidão avançava cinco. Se tivesse optado pelas exatas, faria uma rápida conta, de cabeça mesmo, para calcular onde e quando a massa o alcançaria. Enfim, não demoraria muito. Coisa de mais três quadras. Mas três quadras se não tivesse um muro no meio do caminho. "Se fosse uma pedra, ajudaria." Parou, tentou pular a parede. Upa! Mas nada. Ficou ofego, cansado até mesmo para se virar e encarar a multidão que chegava perto. Ou será que era medo? E o povaréu enxergava um homem com as mãos nos joelhos que tremiam. Dava para sentir seu coração pulsando e seus pulmões inflando rápido. Diante de um muro escuro e sujo, havia um homem de cabeça limpa. E branca. Alguém vai respeitar?

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8.12.06<$BlogDateHeaderDate$>

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Lição mal passada
Guilherme Póvoas
Quando acordou, lembrou que já não era mais hora de deixar o diabo do sono prega-lo na cama. Até porque estava sozinho. Nem pregos, nem mãos, nem braços. Tão pouco o frio, que deixava o vidro da janela embaçado. Colocou as calças, tomou às pressas um ovomaltino batido e desceu as escadas sentindo remexer a língua por toda boca. Talvez estivesse sentindo falta de ter escovado os dentes. Mas ele sabia: quando o dia começa assim, tal qual o roteiro dirigido pelo cotidiano, as coisas prosseguiriam ao bel-prazer da esperança - até que, ao final, iria se criar uma enorme vontade de voltar para o quarto, para o leito, sob as cobertas, e esperar uma mão, um braço para apregoa-lo junto à cama.

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3.12.06<$BlogDateHeaderDate$>

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Aguarde!
Guilherme Póvoas
Cansou de desistir. Cansou porque sabia: desta vez não iria ser diferente. E, ao invés de deixar as coisas passarem com o vento dos entusiastas, se atirou na primeira brisa do sopro quente de verão. E não deu outra. Deu tudo errado. Que estafa! Sempre acabava tendo que pernoitar sozinho enquanto nada acontecia. Nada acontecia fora de seus pensamentos. "Será que está isso tudo dentro da minha cabeça está em algum lugar?" A resposta estava já na pergunta. Mas não era o suficiente. Não era o suficiente pois sabia: lá no fim, quando o vento pós-primavera acaba, é onde ficam guardadas todas as coisas boas. Até aquele cigarro de chocolate derretido que costumava tirar da mochila na hora da merenda. Que sina! Enquanto isto tudo se eternizava na curva da brisa de verão, elas desapareciam de sua cabeça. Desapareciam porque sonhava de graça, sonhava em vão. E foi por isso que cansou. Cansou por desistir em demasia. Que lástima! Chegou um momento em que sua idade se contrapunha à sua vontade. Matutava idéias, tão distantes com o passar dos anos que mesmo cem deles não dariam conta. E olha que já deram uma vez, em algum livro. Que figura! Em segredo, o que desejava era ser desejado. Desejado por alguém e até por ele mesmo - que não almejava ser quem era. Mas como cansou de desistir, começa agora a tentar ser desejado num vagão junto à janela, para acompanhar aquele vento quente de verão, dos entusiastas, das coisas eternas e das coisas boas. Sem saber que este vagão é, por si só, ele mesmo.

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1.12.06<$BlogDateHeaderDate$>

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Novas vidas secas
Gabriel Silveira
Nem deu tempo de chover e molhar, a água secou, o gato comeu e o vento levou. Foram eles, a velha com o bebê no colo, o vento e o gato farto pela terra batida. Crescer, ali, nem fome mais crescia. E ainda assim o céu padecia de tristeza, traía o astral do mundo e levava as nuvens lavradas pelo azul. A velha, que nem suava tamanha era a sede, ia olhando pra frente, nunca pra dentro, tinha era vergonha de olhar o sentimento, lhe arrepiava toda tocar o medo com os dedos. E nem a menina ousava sorrir, levava a boca aberta como se fosse falar, mesmo sem nunca ter falado, e vez em vez parecia que fechava os olhos para meditar sobre algum tema. Cruzaram seca e seca, o sol também cruzou e acabaram chegando até a beira de um precipício, donde tudo que caía era nada. Como ninguém lá embaixo alguma vez havia chegado sem saltar da vida, tampoco sabia-se de alguém que ali tivesse subido. Aí é que a velha pela primeira vez olha para baixo, vê o rosto solene da menina e dói como melado fervendo fritando a pele do antebraço. Então olha para o gato, lhe dá uma raiva do pobre gato, safado que mais vida tem, que mais esperto é, raiva do gato só porque ele hoje comeu. Mas alguém viu? Ela sabe que ele comeu, viu mastigar, viu roçar o focinho com as patas, viu que não gemeu como nos últimos quinze dias. Era fato, o gato comeu, o gato é culpado, o gato que faça a vez. Aí a velha disfarçou-se de sombra, sacou o pano - um dia branco - que levava na cabeça, atou a menina na ponta de cá, o gato na ponta de lá e jogou o bichano, deixando que ele é que levasse a menina. Aí deixou que o vento - também presente - fizesse o resto e ficou na beira do mundo, vendo a leveza da vida, a fraqueza do corpo e a velocidade do vento, que lhe soprava a tristeza.

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