Novas vidas secas
Gabriel Silveira
Nem deu tempo de chover e molhar, a água secou, o gato comeu e o vento levou. Foram eles, a velha com o bebê no colo, o vento e o gato farto pela terra batida. Crescer, ali, nem fome mais crescia. E ainda assim o céu padecia de tristeza, traía o astral do mundo e levava as nuvens lavradas pelo azul. A velha, que nem suava tamanha era a sede, ia olhando pra frente, nunca pra dentro, tinha era vergonha de olhar o sentimento, lhe arrepiava toda tocar o medo com os dedos. E nem a menina ousava sorrir, levava a boca aberta como se fosse falar, mesmo sem nunca ter falado, e vez em vez parecia que fechava os olhos para meditar sobre algum tema. Cruzaram seca e seca, o sol também cruzou e acabaram chegando até a beira de um precipício, donde tudo que caía era nada. Como ninguém lá embaixo alguma vez havia chegado sem saltar da vida, tampoco sabia-se de alguém que ali tivesse subido. Aí é que a velha pela primeira vez olha para baixo, vê o rosto solene da menina e dói como melado fervendo fritando a pele do antebraço. Então olha para o gato, lhe dá uma raiva do pobre gato, safado que mais vida tem, que mais esperto é, raiva do gato só porque ele hoje comeu. Mas alguém viu? Ela sabe que ele comeu, viu mastigar, viu roçar o focinho com as patas, viu que não gemeu como nos últimos quinze dias. Era fato, o gato comeu, o gato é culpado, o gato que faça a vez. Aí a velha disfarçou-se de sombra, sacou o pano - um dia branco - que levava na cabeça, atou a menina na ponta de cá, o gato na ponta de lá e jogou o bichano, deixando que ele é que levasse a menina. Aí deixou que o vento - também presente - fizesse o resto e ficou na beira do mundo, vendo a leveza da vida, a fraqueza do corpo e a velocidade do vento, que lhe soprava a tristeza.
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