30.1.07
Me disseram mais de uma vez: «há dois caminhos para tornar-se um escritor: nascendo em berço de ouro ou passando fome mesmo». Já encontrei uma forma bacana de justificar minha gastrite.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 14:36
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28.1.07
Despierto
Gabriel Silveira
Hay veces en que uno piensa que, para empezar a escribir, basta con sentarse de la forma que más le guste en su propia silla, sorberse un poco del té que mejor le valga para tranquilizarse, echar en el cenicero el pucho del cigarro que acaba de fumar, para que luego, como si un dios despejara el cielo y saliera el sol, o como si, al revés, le asaltara un viento que comandara una tormenta, arrastrando fuerzas y pensamientos, las palabras simplemente empezasen a saltar, como ranas contentas en el día que amanece lleno de humedad, desde un mundo lejano - o, si no lejano, al meno oscuro y aparentemente inaccesible - describiendo acciones, es decir historias, es decir dramas - que, al fin y al cabo, todas historias lo son - hasta que no quede nada más que espacios carcomidos por personajes y tramas sin más ley que las que uno crea; sin más vida que las que uno inventa; sin más poesía que las que uno posee. Y es ahí, al releer lo que se ha escrito en este breve período, que uno se entera de la fragilidad de la escritura que nace del escritor y no del personaje; de la infantilidad de las palabras que brotan de una mente y no de una boca; de la incapacidad de otorgar vida a nombres y mentes falsas, cuando las verdaderas ya están a su lado, en el mundo más que real del más allá, que es este mundo tan dulce y sereno al cual llamamos, con el cariño y el cuidado que sólo a él podríamos tener, de mundo de la fantasía.
Entonces, al debatirse con dicha imposición, uno es obligado a retroceder, caminar en pensamientos buscando Cortázar por el boulevard St. Michel o F. Pessoa en el alto Chiado, o quizás por las callecitas floridas de Etretat, buscando la posibilidad - si es que es posible buscarlas en algún mundo - de darse con Guy de Maupassant o Proust, hasta que uno de ellos le indique el camino al mundo de la idea humana, donde uno puede reconocer el verdadero mundo de la fantasía real, la noche de nuestro día, la muerte de nuestra vida, la ceguera opuesta a todo lo que vemos. Es ahí donde uno, tan sabiamente convicto de su papel de creador y criatura, quita toda la veste que lleva encima, corta el pelo de forma a que apenas quede algo de su antigua apariencia humana, y se pone a modelar sus personajes, dibujando lo que ya está dibujado, escribiendo diálogos que ya han sido dichos, relatando sentimientos que ya están plasmados en el ancho y largo agujero de la conciencia humana, sus sufrimientos y angustias, sus incapacidades y perezas, sus miedos y aflicciones, sus victorias y secretos.
Son más de la una de la mañana cuando uno despierta sentado en la silla - que todavía le gusta - y ve sobre la mesa el té, así como el cigarro, ambos consumidos por el frío y por el tiempo. Encontrarse devuelto a una realidad enferma, identificar las señales que así lo testifican y comprueban, estornudar una o dos veces por la alergia que siempre tuvo a dicha realidad, todos esos motivos son más que suficientes para que uno guarde parsimoniosamente el archivo al que estuvo añadiendo historias en este pequeño rato metafísico, mire otra vez más a la luz que brilla sobre la puerta de la habitación donde duerme y espera la mujer de uno, y empiece a echar otro cigarrillo - qué daría, che, por otro té ahora -, esperando que otra vez más las palabras turbias le salgan y se vea obligado a buscar a ver si encuentra un Cortázar, un Borges, un Márquez, un Chejóv a indicar caminos por ahí afuera. Ahí, una vez más, podrá salir del mundo de la realidad fantástica para adentrar la fantástica realidad, tan buena y sabrosa que siempre podría haber sido.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 22:07
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Casa
Guilherme Póvoas
Olha vivente, não te conto mais nada depois daquela vez que tu foste fofocar lá pra Dona Branca. E a história nem era verdadeira. É, não era. Mas deu um problemão daqueles. Senta aqui, desta tu vais gostar. E pode ter certeza: é tudo acontecido mesmo.
Eu estava esperando o Zé Destino chegar com sua rural na frente da porteira da fazenda. Ali ó, vê? Eu estava bem ali. Era bem de manhã cedo, ninguém passava. Ainda bem, se não comeria poeira a manhã inteira. Acontece que fiquei a esperar por três horas. Acabou até as palhas para o meu cigarro - e me vi arrancando um sabugo do milharal para ver se inventava alguma coisa. Mas não adianta, tem que ser a palha que tem na venda mesmo. Então compadre, compadece de mim, que estou cansado mas vou longe para te contar este causo. Que é verdade! Ocorreu que, enquanto esperava o Zé Destino não vir - sem saber que ele não viria mesmo - me dei conta dumas cousas estranhas que estavam acontecendo do outro lado da estrada. Ali ó, do outro lado da estrada, na casa do Bastião. Umas cousas muito das estranhas por demais. E eu vi tudo. E foi por isso que as três horas em que eu fiquei esperando o Zé Destino chegar com sua camioneta me passaram tão depressa. Vê se presta a atenção, para depois, quando fores fofocar, fazer o troço direito.
Tu podes ver daqui que o casebre do Bastião é dum vermelho bem velho. Numas épocas passadas, bem atrás, deveria ser de um vermelho tal qual lenço colorado de guri com pilcha nova. Bom, agora não é mais. Até as roupas de baixo de minha falecida mãe são de cor mais viva do que aquilo ali que é a fachada do lar do Bastião. E eu tava lá já fazia uns quatro cigarros, minha palha acabando, olhava para tudo isso que costumo enxergar todos dias. Foi depois que peguei a carapuça de milho para tentar usar de palha: a casa do velho Bastião começou a piscar. Assim ó... Sabe daqueles vaga-lumes em dia de calor sufocado? Pois é, tal qual. E bem rápido. Piscava e piscava. De luz bem forte, porque era já de dia e eu enxergava aquele piscarel. Olha, vou te contar!
A luz vermelha vinha da parede de fora. Era mais estridente que a sinaleira que tem lá na cidade, na frente do colégio das crianças. Piscava e piscava. E dentro da casa, era a mesma cousa. Só que aí era tudo amarelo. Tanto que até olhei pro céu para ver se o sol não tinha caído dentro da casa do Bastião. Mas não era o caso. Compadre, demorei a acreditar no que minhas vistas haviam de avistar. O telhado também trocava de cor. Trocava, assustava e não parava. Vermelho piscante da fachada, amarelo sol de dentro da casa e verde limo de pedra de cachoeira vindo do telhado. Pensei, e me perguntei: o que será que o coitado do Bastião está passando? Será que precisa de ajuda? Se precisa, problema é dele. Por aqui a gente não se mete muito na vida dos outros, não é? Eu nunca me meti na vida de ninguém. E não iria fazer isso agora, colocando a minha própria vida em risco. Sei lá o que eram aquelas luzes a piscar.
Fiquei mais atucanado quando me lembrei que o Zé Destino estava pra chegar. Ih, o que aquele velho carrancudo iria pensar de tudo aquilo. Eu já estava vendo: o Zé dando ré naquele trambolho velho, engatando uma primeirona e depois entrando com tudo, portão a dentro, na casa do Bastião. Mas antes ele iria pegar a espingarda que fica atrás do banco da camioneta - não conta isso pra ninguém. É, da espingarda. Ninguém sabe. Enquanto estava sentado, ali na frente da porteira, cheguei a me ajeitar melhor na pedra para pensar em alguma coisa para fazer. Mas não me passou nada pela cabeça, compadre. E também não queria alarmar ninguém. Mas aí, antes de eu pensar em desistir em aguardar o Zé Destino, o negócio no lar ali na frente começou a mudar.
Pelos telhados, começaram a se arrestejar um bando de bicho estranho. Era tipo um jacaré do filme do crocodilo, mas bem pequeno. Pequeno assim, um pouco maior talvez. E tinham uma coisa na cabeça que parecia cabelo duro coberto por escama. A língua eu conhecia, era língua de cobra. De cobra, não vai se confundir. Mas não eram cobras, estavam mais pra lagartão. E, compadre, tu sabes: já andei por toda extensão destes pagos. Mas nunca tinha visto bicho daqueles. O que ocorreu foi que aqueles jacarés miúdos começaram a sair do telhado, desceram pelas paredes que ainda piscavam, e se desaparecem mato a fora. Até pensei que o Bastião fosse perder a vaca leiteira com uma dentada daqueles bichos. Mas ela está lá ainda. E os animais foram embora, o telhado parou de se fresquear. Voltou a sua cor normal, cor de telhado, tu conheces, é só olhar pra minha casa, pra tua, tudo cor de telhado. Logo me deu uma aliviada, compadre. Um pouco porque pelo menos o telhado não piscava mais, e muito porque aqueles lagartão não vieram se meter a besta perto de mim - foram bem na direção contrária. Te mete!
Vivente, mas aí logo que parou o telhado, foi a vez da fachada rubra. Parece que aquela tinta fraca das paredes de fora da casa do Bastião começara a descascar e foi caindo como se fosse peça de um quebra-cabeça sem desenho. Tinha pedaço de tinta por todo pátio do velho. Só que aí, uma que outra lasca de tinta, dura e velha também, começou a pipocar. É, estou te falando. Isso, saltitar. Sabe quando tua mulher faz pipoca, né? Então, tal qual. Só que não faziam barulho. Mas tinham cheiro, isso logo eu senti. Mas não era de tinta, não. Era doce, compadre. É, tu vê. Eu senti. Um cheiro doce que parecia aquela maçã melada que eu comi com a Dona Branca quando levei ela no parque que visitou a cidade no ano retrasado. O cheiro daquilo nunca vou esquecer, e nem das cascas de tinta da casa do Bastião. Elas começaram a saltitar cada vez mais alto. Pra cima, e chão. Pra cima, e chão de novo. E nisso ficou um tempo, vivente. Ah, não sei quanto, mas o sol deve ter se movimentado bastante. Mais alto, mais alto. E cada vez mais. Mais cascas. Quando todas pararam e permaneceram no chão, o Bastião parecia rei: à entrada de sua casa, estava estendido um longo tapete vermelho. Mas, alegria de pobre dura pouco. Rápido, rápido vi que aquilo já não eram mais cascas de tinta velha. Borboletas vermelhas começaram a voar. Se me fiquei um pouco assustado com os lagartos, aqueles passarinhos de papel me deixaram de boca aberta. Mas era um mundo de borboleta, tudo vermelha. Demoraram, custaram, era muito compadre, mas foram embora. Seguiram o mesmo caminho dos miúdos jacarés, mas foram pelo ar. É, cada animal tem seu jeito - e direito - de ir para onde quer. As borboletas foram voando. Aí me deu duas pontadas de dor no coração: uma porque eu achei aquele retrato todo muito bonito, mas as borboletas haviam ido embora; outra porque aquela velha e enjoada cor voltou à fachada da casa do Bastião. Depois das borboletas, aquele vermelho não passava nem por rosa. É, ri, mas é verdade, nem por rosa de mulher.
Aí, compadre, tal qual se foram os piscos do teto e das paredes, eu fiquei esperando ir embora as luzes amarelas de dentro da casa. E o Zé Destino que não inventasse de aparecer agora - eu já tinha perdido o medo e estava já gostando daquela cena toda. Mas o que ocorreu foi que o amarelo luminoso demorou mais para se ir. Porém, compadre, quando se foi...
Primeiro começou a ventar bem forte. Vinha reto na minha cara, mas, não sei como, deixava de levantar poeira. Era um vento reto. Custei a perceber, vivente: aquela ventania vinha de dentro da casa do Bastião. E olha que o casebre do velho só tem duas janelas bem picurruchas. Mas vinha de lá. Cada vez mais pesado. Vento, vento, ventania, vendaval, e eu comecei a achar que aquilo iria acabar tal qual o filme de furacão e tornado que vi no cinema lá na capital com a Dona Branca. Aí voltei a me assustar. Não, vivente, não sou homem disso. Mas tu sabes que estas coisas deixam qualquer um de calças na mão. É ou não é? A luz amarela começou a ficar cada vez mais potente. O vento também e também. E quando eu pensei que a casa estava a ponto de explodir com o Bastião e sua mulher lá dentro, aquelas duas janelas pequeninas começaram a vomitar um exagero de passarinhos de fogo. Um monte. Parecia a colheitadeira de trigo colocando pra dentro do caminhão aquelas intermináveis toneladas de semente. Saia, saia, tudo passarinho de fogo. No ato, compadre, na mesma hora eu senti que a temperatura havia subido uns quinze graus. Assim, pá-pum, dum tempo pro outro. E, também, nesta hora, tive que colocar o meu chapéu na frente das vistas, se não ficava cego. Mas a luz que vinha daquelas aves era bem mais forte que o sol. Muito mais. Quando aquele amarelo começou a fraquejar, eu tirei o chapéu da cara e ainda consegui avistar um que outro passarinho de fogo atrasado. Mas fiquei olhando aquela caralhada de aves batendo suas longas asas que já estava bem distante - e olha como estes bichos voam rápido. E estava na cara, vivente: eles não seguiram o rumo dos miúdos jacarés ou das rubras borboletas, foram diretos para cima. Eu acho que era para o sol. Aves.
Não sei bem direito. Mas o Bastião eu ainda vi ele depois, estava comprando palha na venda. Mas, olha, a Alemoa, a mulher dele, essa, depois da manhã que eu vi tudo isto que acabei de te contar, nunca mais avistei. E o Bastião não é de fazer cousa estranha, é velho certo, não ia largar duma mulher prendada feito a Alemoa, com aqueles cabelos cor de fogo de nó de pinho. Mas o que ocorre é que nunca mais a vi. Nem ela, nem o Zé Destino, por quem espero até hoje.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 02:50
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25.1.07
Às voltas com o tempo
Guilherme Póvoas
Si vis pacem, para bellum. Três horas diante da mesma mulher. Ali, cara a cara, mas com olhares desviados. Era o medo. E foi um inferno. Não é fácil achincalhar tudo falando a verdade para alguém que merece ouvir mentira. Porém, se lembrou que as coisas boas vêm com sacrifício e as ruins vêm com a mesma intensidade e semelhante esforço: o sacrifício daquele que pensa estar certo. E até agora ele não sabe. Certo ou errado? Três horas de uma batalha onde as palavras só feriam - nunca matavam. O ditado em latim vale: Se queres paz, prepara-te para a guerra. Durante os 180 minutos, lutou como bravo guerreiro: caiu, levantou, chorou. E, por fim, amou como se o único amor impossível fosse a paz que sucede a guerra.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 22:43
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Horizontes
Gabriel Silveira
Calavera no llora. Morre Kapuscinsky e Bush, chaval, envia mais soldados ao Iraque, hey ho lets go. Ainda os curdos (minoría?), ainda os palestinos, ainda Darfur. Vengo a ofrecer mi corazón, mas o pequeno laberinto de merda e suor sem sangue vai escoando as virtudes do mundo para um riachinho qualquer, um eco do mundo que, como tantos outros, logo secará. Pero calavera no llora, ya lo sabía Posada. Água fervendo sobre o mundo, vem abaixo a goma-laca, vem abaixo o delicioso mundo Daniel Auteuil, fica só a fumaça do petróleo-putrefacto, fica só o espelho da ação sem o manto do verbo, fica só o esqueleto de um pobre-podre-mundo. Êta tristeza, pero calavera no llora. ¿Pero qué más da? ¿Qué más da si la bomba viene de los israelís o iranís; de los norte-americanos o de los alemanes? Que importa se, no final, todas levam a mesma etiqueta "made in..."? Baixa a voz e respira fundo, baixa o sangue e respira a vida, mas para que pensar se não há mais o que pensar? Enxaqueca de chá de mundo, pur eh de mundo, deste mundo de Bush e Aznar e tantos, Hitler e Mussolini e outros, farinha do mesmo, mais do mesmo, mais farinha ao lixo. E a luta ideológica da vez é saber quem cai antes, Fidel ou Guantánamo, je ne sais pas, et alor?. Entre técnicas de humilhação coletiva, inundados no fenômeno da mentira verdadeira, resta engolir seco, engolir ao léu a lágrima que nem vem, de um olho que não mais vê, uma pontinha de nostalgia de almas que já não são, das quais só ficou o alicerce, não ficou nem gota d'água, só ficou a calavera. Alguém se anima a chorar?
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 15:00
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19.1.07
¡pal carajo con guantánamo!
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 13:34
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18.1.07
E esta fragata que navega preguiçosa.... ousando sentir o cheiro azul do mar, interpelando sonhos pelos ventos; corta pensamentos, ousa reencontros e continua lá, ao léu. E é lá, sobre as virtudes do mar, cortando o canto dos pássaros marinhos que lutam pela vida com os peixes, que está a saudosa folhinha verde da sabedoria (no meio do mar??? Sim, ela está em todos os lugares), pairando sobre corações que ousam ser pacientes e aguardam pelas oportunidades verdes da vida. E eu aqui, no deserto de sentimentos do mundo, inundado de maresia.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 19:24
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15.1.07
Me ajuda?
Guilherme Póvoas
Quando caiu na desgraça da dúvida - daquelas que procura sempre um momento de fraqueza para tomar mais força - seu fiel escudeiro disse: "Vai." E falou isso assim mesmo, acompanhado de um ponto final, sem vírgulas ou espaço para uma conjunção adversativa. Se era certo ou errado, não interessava para seu coração. Mas era o conselho que desejava ouvir. A dúvida era: qual a dor mais forte? De largar ou de se largar. De interromper ou ser interrompido. Pois o amor - prosseguiu o amigo - não toma conhecimento do egoísta, do solícito ou da felicidade. Mas é amor? Não sei - respondeu, aflito - mas prefiro acreditar que sim. É nestas horas em que a palavra acreditar toma força e acaba, enfim, sobrepujando a dúvida. "Vai." Ficou olhando para o conselheiro, esperando um mas, um porém. Nada. Assim, se foi. Desfez e começou tudo de novo, em outro lugar.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 22:21
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Céu e inferno
Gabriel Silveira
Era uma voz que falava duro, nada desta voz furada dos humanos, feito panela de barro. Comparando assim, era mais uma panela de cobre, porque deu eco. E ela falava o que era, nada do que foi nem do que será, claro está que era a voz de um adulto. E foi isso que o assustou, tal como se uma bola de gude rebentasse em sua cabeça de latão, tirando em casquinhas o pouco de brilho que lhe restava. Restou contar os segundos até cair em si, virar o rosto, arredio, e dar de cara com um fígado, pequeno era ele, acima da média o outro. Resetou a expressão do rosto, pendurou-se no fio da vida e devolveu com meias palavras tristes, mas honestas:
- Me matarás de novo?
- Sei quem eres.
- Te perguntei se me matarás de novo.
- Nunca te matei antes.
- Dar a vida é matar.
- Quer dizer que te salvei a vida?
- Quero dizer que eres meu pai.
- Pai?
- Sim, pai.
- Queres dizer que fui teu pai.
- Isso.
- Pois saiba que aqui ninguém morre, ninguém vive. Neste limbo, para jovens como tu, só resta divertir-se por aí.
- Não sou divertido.
- Não puxastes a mim?
- Não me lembro de que, alguma vez, estiveras ao meu alcance para que te puxaras. Que sei eu de ti?
- Que és sangue do meu sangue.
- Se te matasse agora, que aconteceria?
- Eu seguiria vivo, dentro de ti.
- Então é a mim que deveria matar?
- Aos dois.
- Já não importa, aqui não há mais mortes.
- Há mortos.
- Meu corpo está gelado.
- Aí algo que puxaste a mim.
- Já te disse, nunca pude puxar-te. Aliás, por que tens raízes nos pés?
- Não sei. Uma vez apareceram juízes por aqui, me disseram que era por tua causa e que sería o melhor para mim.
- Minha causa?
- Isso, minha culpa, tua causa.
- Quer dizer que estás pagando o preço por matar-me?
- Nunca te matei, mas pode ser que tenhas razão.
- E se te digo que fui eu quem te matei?
- Nunca tiveste la oportunidade, mentes descaradamente.
- 27 de fevereiro, estava escuro mas me lembro que vestias um sobretudo negro.
- Ainda estou com ele.
- É verdade, não o havia notado. Pois aí ainda está também a marca da bala. Uma única e certeira bala.
- Então foste tu.
- Sim, sim, por isso é que também tenho raízes nas pernas.
- Outra coisa que puxaste a teu pai.
- É verdade.
- É verdade.
- E ficaremos pra sempre assim, nunca nos moveremos?
- Bom, já estou aqui tanto tempo... não há nada que não possamos nos acostumar. Até que venha o próprio Deus e nos libere de nossos juízos.
- E isso é quando?
- Quando ele quiser.
- Então devemos esperar.
- Esperar e esperar.
- Como a Godot.
- Dizem que ele era Deus.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 15:37
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13.1.07
Gente Grande Miúda
Guilherme Póvoas
- Sobre o que fala esse livro que está lendo?
Uma menina que parece andar pela inocência dos 12 anos não costuma perguntar isso para um alguém dentro de um ônibus que sacolejava aquele povo cheio de sacolas de compras do Centro da cidade.
- Fala de uma enorme família cheia de gente diferente. Fala sobre magia, música e também bastante de amor.
A menina, morena e ainda com a pele surrada pelo sol, apenas abria mais os olhos. Isso demonstrava atenção, mas era seu único gesto. Depois que o rapaz falou, ela voltou à cabeça para a capa do livro. Nas mãos do jovem, o dedo indicador marcava a página. Ele recém havia começado a ler a obra. Pela terceira vez.
- Tem mágica, é?
O rapaz não falou a língua da inocência. Era magia, não mágica. Mas, se ela assim entendeu, assim o é.
- Sim, tem bastante. Chove por décadas nesta cidade - respondeu o homem, abrindo os braços para mostrar o quanto significativo é chover tanto assim.
- Nossa! Lá onde moro, se chove dois dias quem está na rua não entra em casa, e quem está dentro do lar não pode sair.
A face do jovem rubreceu. Talvez a moça entendesse mais daquele livro do que ele mesmo, soubesse mais daquela realidade do que todos os seus estudos em cima daquelas linhas.
- Pois é. E nessa cidade faz muito calor também. Ela fica no Caribe colombiano - explicou o rapaz, tentando mostrar que alguma coisa, que não era do conhecimento daquela pequena cabeça adornada por longos cabelos escuros, ele sabia.
- Nossa! E esta cidade então fica bem longe, né?
- Sim. Macondo fica muito longe. Mas você pode ir até lá. Quer? - e o rapaz fez a pergunta estendendo o braço e oferecendo o livro à menina.
Cara, em 2007
Cem Anos de Solidão completa 40 anos de existência. Fica aqui, registrada modestamente, a nossa homenagem (quase póstuma) a um daqueles que fez tudo isso acontecer. Tudo tu por aí, tudo eu por aqui.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 01:29
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8.1.07
Lágrimas do mundo
Gabriel Silveira
Sim, bem fundo olhei nos olhos
daqueles meninos de Guantánamo,
e me tomou o medo ou a certeza
de que os olhos eram teus,
companheiro, como se o destino, de um,
sempre fosse o destino de todos.
E foste tu o que vi na terra seca,
no rosto sentindo o passado a soprar,
olhando o longe de perto.
Era tua a busca e, tua também,
a ânsia daqueles meninos de Guantánamo.
Vi tua dor na dor deles
e vi também todos teus medos.
E que humilde orgulho senti quando vi
que era tu o que rezava nas mesquitas,
em meio à guerra buscando a paz.
Pedi ao meu e ao teu Deus, que são um só,
a explicação de ver-te, perdido,
de Mazar-e Sharif a Kandahar,
caminhos de um só mundo feito muitos,
vendo-te pelo homem aprisionado e,
do teu destino de homem, privado.
E ao ver-te rodeado dos teus, tive medo,
sem saber, ou esquecido, de que o demônio,
tão conhecido, vivia em minha casa.
E que pavor quando vi tuas negras sobrancelhas
a tremer frente à mão executora,
assim como o sol que, eterno,
vibra sob as passageiras gotas de chuva;
ou quando ouvi teu grito de horror
saindo do peito de cada um daqueles meninos,
em cada instante de tortura,
em cada segundo de injustiça,
em cada amanhecer proibido.
Era tua a mão que segurava o Corão,
teus os joelhos que caíam sob o sol,
tão ilustre e maculado sol do Caribe.
E mesmo com um saco negro a tapar-te o rosto,
sabia que era o tu o que ali sucumbia,
com a única esperança de inspirar uma vez mais.
Ai que dor, companheiro, pois vi tua barba,
tua pele e teu futuro sendo destroçados
pelo enemigo, que só sabia mentir-te.
E vi teus olhos, e os meus,
bem no fundo dos olhos daqueles meninos.
Nos olhos dos meninos de Guantánamo,
neles eu vi as lágrimas do mundo.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 13:33
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7.1.07
Na palma da mão
Guilherme Póvoas
Três horas de cavalgada lenta para longe da sesmaria de seu pai, sem visão do lago dos peixes azuis, descampado enorme e os urubus a voar. Mesmo assim, só veio a perceber que estava perdido quando acabou o cantil de água. E uma criança de 11 anos bebe isso bastante. No seu caso, bebe outras coisas também. O pequeno não era Dom Quixote, e também o animal que o acompanha não prestava para Rocinante. Mesmo assim, titubeou antes de tentar voltar às terras do senhor seu pai. Nada. Moleque de bombachas grandes tinha se perdido só para ir atrás de chuva - se molhar um pouco. E nem isto encontrou. Se fosse pela máquina de Erico Verissimo, estaria numa emboscada sem índia velha para proteger seus finos braços loiros. Se fosse pela pena de Josué Guimarães, esperava seu coração parar enquanto conversaria com uma senhora gorda, sentada à beira do barranco de diferentes cores verdes. Mas, como não era nenhum Dom Quixote, nem Mortágua, tão pouco um Cambará, pôs-se a chorar. Mais e mais. O cavalo comia o pasto molhado pelas lágrimas do guri que fazia o trabalho da chuva. Uma solidão de cem anos baixou naquele momento, os raios de sol diziam adeus, e o frio recebia as boas-vindas da noite.
As buscas pelos capatazes não duraram mais que trinta minutos. Três tropeiros acharam o guri, rápido. Se ele foi atrás de chuva, deve estar perto do barranco das árvores verdes coloridas, raciocinaram. E como a inteligência da palma da mão não falha, chegaram ao encontro da criança antes que a velha índia pudesse lhe ensinar como voltar ali, de novo, à hora que quisesse.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 22:59
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4.1.07
Na rua, na frente de casa
Guilherme Póvoas
Olha, não te acordei por pouco. Foi um estrondo daqueles! Feito carro velho batendo - Fusca contra Variante - dá mais barulho que estrago pois não há mais nada para estragar. Eu estava deitado de rádio ligado, hora do tango, quando aquele troço caiu em frente a minha rua. Scarabum! E vários outros buns que não sei descrever. Também não sei se deu rajadas de luz porque eu estava de olhos fechados virados para parede - com o nariz tão perto daquele muro frio, cor gelo, que a gripe persiste até agora. E como incomoda! Antes de me levantar, esperei para ouvir a reação dos bêbados e desocupados que adentravam a madrugada nos bares da frente daqui de casa. Nem um bah! Nem um mas ah! Nem um mas o que é isso? Aí, só depois disso, depois do nada a acontecer, comecei a me preocupar - o que causou tanto barulho lá fora? Para me levantar não custava nada. Eu estava acordado, mas, como disse, não te acordei por pouco. E por muito menos, nem virei para o lado. Quando se está com sono, a distância da cama até a janela é tão grande, tipo aquele guri novo que vimos tentando subir a escada-rolante que descia. A cara de "não estou entendendo nada" que ele fez dizia tudo. Já perto da janela, senti uma dor no peito. Não era bem dor, mas alguma coisa estava faltando. Olhei para janela, vi, espatifado lá fora, o meu coração. Retornei à cama, olhei para ti, já não te amava mais.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 22:57
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Começar o processo da escritura é tão complicado quanto dar-le um fim. Enquanto ao primeiro tudo parece um deserto que precede um maremoto, o outro é um oceano inteiro de idéias e conceitos de tamanho tal que às vezes é quase impossível conceber que em algum momento chegarão a cessar, a estancar, a secar por completo deixando somente o perfume da criação a envolver o ambiente. São como crepúsculos do desenvolvimento intelectual - e talvez uma das únicas situações que possam honrar o uso de tão perfeita palavra: crepúsculo. Já verão que se trata de uma saudável analogia. Começar o processo da escritura é como desvendar, por entre a escuridão da madrugada, os primeros reflexos rosados no horizonte; é encontrar as primeiras variações de nuances no verde das imensas árvores de um bosque; é sentir os primeiros golpes de calor de um sol que ainda não nasceu, de um dia que ainda não é, mas que já ousa compor seu habitat como seguro de que seu esplendor chegará. Até que, então, de um só golpe, nascem as idéias como um imenso sol que domina o universo, imperialista em sua posição soberana e infindável, líder supremo do teto do mundo, renovando as almas e empurrando a história adiante, até que o anoitecer venha escurecer o poder da criação. Também é verdade que, muitas vezes, o dito crepúsculo dá-se de fuça contra um nada, um cinza de nuvens emboloradas a cubrir o dia que não vem. Como agora, que nada chega, que nada é. E acabo, como sempre, escrevendo por escrever: cantando nada, mas cantando algo.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 21:50
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2.1.07
Aurora lisboeta
Gabriel Silveira
Amanhece em Lisboa, não tarda,
desagüando ouro trás-os-montes,
e sinto-te próxima, mãe-pátria amada,
nascendo colônia em original horizonte.
E de irmãos o brado, calado na fonte,
cantando em vingança tua liturgia,
só faz mais intenso o defronte
entre teu carinho e minha agonia.
Com amor de mãe, em tua vilania,
e ingratidão de filho, em verso fatal,
nosso dia amanhece em umbilical tirania.
Teu raiar me seduz, cativo natural,
e me entrego em teu colo, vil ironia,
escravo outra vez, sob o sol de Portugal.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 20:26
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