21.7.07
Artúrio Mozefa
Gabriel Silveira
O sono é franco às noites. Mas não às tardes, quando o silêncio é o acidental, quando os brios esquentam à luz do sol navegando no ritmo das máquinas que machacam o tempo. Minguado em forma, discretíssimo em sons, mas determinado nas sensações, é o sono das tardes, uma de suas espécies menos estudadas, mas entretanto um dos que mais expõe homens e mulheres às suas artimanhas bucólicas. Não são poucas as vezes em que, à hora do almoço, o sono encrava-se à região mais elevada de nosso orifício encargado da alimentação - ironicamente denominado "céu" da boca - e põe-se, desde aí, a buscar sítio para suas canções taciturnas e ações chamadas "contra-horárias", manipulando nosso sistema nervoso que se vê implicado em ridículos desvios de conduta cronológica.
Uma das conseqüências mais comuns deste mal é o neurodistúrbio frontal dos maxilares, também conhecido como bocejo. São diversos os tipos de bocejo. Muito conhecidos são o foice-e-martelo (que dura até que a face fique totalmente enrubescida) e o caça-vampiros (decorrente da alimentação carregada com os elementos da família dos alliaceae, como alho e cebola). Mas também os menos conhecidos irrompem nos sonolentos da siesta, como o bocejo engole-besouros (que se desenvolve de forma muito singular, com a boca quase fechada e com um leve soluço no final, como se o inseto, que o dá nome, entrasse pelo pequeno orifício do gesto até chegar à garganta do sujeito) e o trem-da-meia-noite (que possui a maior abertura bucal de todo o mundo dos bocejos e, de tão silencioso, pode passar desapercebido, excluindo-se o caso de flagrante visual, que normalmente pode ser evitado com o auxílio de um simples fólio).
Outro problema comum - dos inúmeros que são conseqüência dos ataques silenciosos do sono das tardes - é o refluxo inconsciente de idéias, popularmente conhecido como o "sonhar acordado". São diversas as toxinas que o corpo produz para chegar a tal ponto, as mesmas que geram outros diversos distúrbios emocionais, como as paixonites e as depressões, mas nenhuma de ambas motiva tanto dito refluxo como o sono das tardes. São milhões os que se põe, a diário, a misturar realidade e sonho, mundos tão paralelos como distantes, enfiando seus pés em um, enquanto suas cabeças já estão em outro.
Se o sacro ministério da saúde pública houvesse decretado já um grupo de risco aos ataques do sono das tardes, certamente Artúrio Mozefa faria parte dele. Agora mesmo está atirado em sua grande cadeira equipada de rodinhas e furos de cigarro, combinando com sua camiseta das últimas eleições - pelos furos, não pelas cores, visto que o vermelho das estrelas do candidato destoa do bege manchado do estofamento. É bem verdade que nem preciso levantar-me, ir até a entrada de meu pequeno despacho, escorar-me levemente na porta até que um suficiente vão me permita a visão completa de Artúrio. Assim mesmo o faço, talvez como uma forma de passar o tempo que titubeia no relógio, talvez como uma doentia e apaixonante maneira de massagear-me o ego, tão vital ego que me rege nesta vida insossa. Não pensem que não me pergunto o porquê de deixar-me levar por tão tola ânsia. Afinal, por que um homem tão pronto para ganhar, tão desenhado para estar no topo, simplesmente deixa tudo de lado para desaguar suas atenções em um ser tão mórbido quanto patético, feito Artúrio Mozefa. Mas basta com que surja a silhueta tão desastrosamente pincelada sobre a cadeira, com que reponte sob o emaranhado graxento de seus cabelos a piriforme cabeça levemente descentrada do tronco, basta com que me assalte a visão dos gordos ombros que lutam sem sucesso por alinhar-se, para que qualquer das minhas razões abandone as tentativas de devolver-me à lucidez – afinal alguém nunca é ou está lúcido, à lucidez ou se pertence ou se é estrangeiro – e me entregue de corpo e alma ao deleite masoquista de observar a miséria humana, tão bem representada neste desprezível ser, como uma forma de contemplar a mim mesmo, atestando-me do distante que estou da escória humana.
Não fosse esta distração em meio às minhas jornadas laborais, eu certamente já estaria com um cargo e um salário muito mais convincentes do que os atuais, a mim outorgados por um concurso fajuto que fiz para este mísero posto de coordenador de projetos. Talvez a única vantagem que tal cargo me permita – e uma das únicas coisas que extraio de proveitoso desta rotina infundada – é a de ser responsável pela busca e seleção dos estagiários necessários aos projetos de minha alçada. Usualmente não passam de dois, e, por políticas da empresa, não há qualquer restrição para as contratações, que não as que eu mesmo encontre e imponha. Assim que acabo sempre por ceder à minha maior virtude, a de admirador do prazer e da liberdade, e contrato jovenzinhas que, durante as entrevistas, me pareçam mais bem estimuladas para o trabalho, no melhor sentido que a palavra poderia possuir. Não me importa que no final eu necessite tocar o projeto sozinho. O primordial, para mim, é disfrutar o possível do pouco poder que meu posto oferece.
Meu problema surgiu, vale lembrar, no dia em que pensei ter finalizado meu último processo de seleção. Eram já as doze e lembro do escritório absolutamente vazio, dividindo espaço comigo somente as fotos de alguns currículos que eu comparava atentamente, o que fazia para distrairme do calor infernal. De repente, sentí que uma aura pesada e mal cheirosa entrava pela porta, mas tão forte que até pensei ver uma sombra aplastada de vermes arrastando-se pelo chão. Imediatamente fui até a janela, mas não encontrei mais do que o sol debruçado sobre as casas e o mundo que suava feito um porco escaldado. Nunca havia visto Madrid assim. Voltei até minha cadeira, o controle remoto fez despencar a temperatura do ar-condicionado e relaxei por um segundo, libertando meus pensamentos simplesmente para saber até onde iam. Foi a primeira vez que vi Artúrio Mozefa. Levava uma camisa branca-amarelada de mangas curtas, com dois grandes círculos de suor marcando a região das axilas, o colarinho por passar e ainda identificável somente por uma gravata listrada marrom e negra, que quase o estrangulava. Como os vidros de meu escritório são espelhados, não podia ver-me desde o lado de fora, por isso grudou uma de suas mãos gordurentas na janela, tentando avisar alguém de sua inóspita e incômoda presença. O natural, para mim, seria simplesmente ignorar que aí estava, inclinar a poltrona até que me permitisse um ângulo perfeito para recostar-me as pernas, fechar os olhos em harmoniosa e condescendente sincronia, para depois, e somente depois de entregue à escuridão dos sonhos, jogar triunfalmente os braços para trás, sustentar a nuca com a palma de cada uma das mãos e acolher-me em um sono petulantemente tranquilo. Naquele dia não. Naquele dia, levantei-me da poltrona esforçando-me para transmitir um ar de desentendimento, fui até a porta e dei com a cara abatida e em decomposição de Artúrio, preso que estava aos mais de quarenta e três graus daquela tarde. O pior era a umidade, mas umidade em Madrid? Me disse que estava ali pela vaga de estagiário, bla bla bla, a vaga já está preenchida, blé blé blé, sabe-se lá por que razões infames do destino lhe abri a porta, ele entrou e, assim, nesta tarde pegajosa de fevereiro, iniciou-se uma história de devota admiração por toda a marginalidade e a conseqüente pureza que Artúrio representava. Dois dias depois, estava decidido sobre meus estagiários. Um deles, uma jovem mexicana de dezenove anos, Mariana, porque tinha a certeza de que logo estaria em minha cama. O outro, Artúrio. Por incrível que parecesse, Artúrio Mozefa.
Lembro que, nas primeiras reuniões sobre o projeto, já tomado pela curiosidade sobre sua figura, eu sempre lutava por descobrir novas maneiras de estender nossos encontros, inventava problemas, levantava questões absolutamente dispensáveis, propunha temas, exercícios, mil maneiras de encarar cada questão, até que, ao final da tarde, como último refúgio, lhes convocava a uma cerveja, todos precisamos relaxar, me acompanham? Não lhes restava outra se não acompanhar o novo chefe, vá lá que este é daqueles que por qualquer coisa se magoa, não vá lá nos chutar do emprego por não ir a um happy-hour. Íamos, os três, sentar-nos em um bar vasco da Bravo Murillo, até que algum resquício de responsabilidade me obrigava a dispensá-los.
A verdade é que, nestes tempos, eu ainda não estava consciente de minha aficção. Minhas ações e comportamentos eram regidos por uma vontade que ainda não havia brotado, como um cogumelo que jaz em vida, escondido na umidade de um porão eternamente encerrado. Fui abrir dita porta, e dar-me conta da situação, quando me flagrei pela primeira vez acocorado atrás de um vão do exaustor, pelo qual as duas salas – a minha e a dos estagiários – respiram entre si. Estava atento vendo-o manejar a copiadora – certamente xerocando para os amigos mais uma das infinitas piadas que recebia em seu email diariamente – e não me importava um pepino se iam para as cucuias os cartuchos de tinta e os estoques de papel, o único que me consumia era a maneira tosca incapaz de pressionar os delicados e singelos botões da pequena máquina, a torpeza ao mover as folhas, esmagando-as com seus grossos e sudorentos dedos, a inquestionável ausência de escrúpulos – chula palavra, escrúpulos! – de sua genética, que o imprimia um caminhar quase enigmático entre o ar que caía morto ao seu lado, incongruentes que eram.
Qualquer outro, que também conheça a Artúrio Mozefa, bem poderia gastar-se aqui, defendendo-o de tamanhas acusações e infâmias (elogios?). E talvez falasse com muito mais razão e autoridade com as quais eu o faço. Também admito que Artúrio não está entre os mais repelentes seres deste mundo, mas é um exemplar admirável de tão dispersa e variada espécie. E também foi o único que adentrou minha porta. Fatalidade do destino? E mais: o admirador, que de certa forma o sou, constrói o mito de acordo com a visão sonhadora que tem do homem. E esta, muitas vezes, ultrapassa a realidade com uma leveza cor-de-caramelo que só as fantasias podem ter.
A verdade é que, passados alguns meses, eu estava feliz. Artúrio me fazia feliz, a sua maneira. Eu utilizava as primeiras horas do dia, além de grande parte das noites, para adiantar o trabalho diário, o mínimo essencial para o bom encaminhamento do projeto. Depois deslizava minha cadeira até a porta da sala, abrindo um vão na exata medida para que pudesse analisar os movimentos da sala contígua. Passava tanto tempo aí, absolutamente imóvel, que muitas vezes cochilava, exausto, sobre o trinco da porta.
Foi numa destas oportunidades, nas quais entregava-me ao sono depois de alongada vigília, que Mariana deu-me com a porta na cabeça, ao vir pedir-me que assinara uma folha de cheque, e caí estatelado abraçando-me ao chão. A desculpa que dei me caiu do céu. Lhe disse que espiava a ela, que já me tinha consumido pela forma que roçava uma perna na outra, que ficava horas a imaginar o calor quente que escondia-se sob os saiotes justos que sempre levava e que naquele dia, sem falta, necessitava que ficasse até mais tarde, revisando alguns documentos comigo. Então pôs uma cara assustada e esboçou um choro quieto.
- É uma piada – lhe disse.
Ela respirou fundo, sem desmanchar a expressão de susto e ficou em silêncio.
- Menos a parte de ficar hoje pela noite. É realmente indispensável para o projeto. Sabes que estamos na reta final.
- Sim, senhor, respondeu disfarçando um sorriso. Aí virou, forçou a porta que eu mantinha escorada e voltou ao escritório.
Às seis, Artúrio se foi. Mariana veio bater em minha porta por volta das seis e quinze, carregando uma pasta cheia de documentos e uma lapiseira encaixada entre os dedos.
- Um segundo, - lhe disse - sente-se enquanto termino um e-mail.
Pôs-se na cadeira em frente à minha mesa, mas não me dirigiu o olhar, que manteve na janela de vidros espelhados.
- Já podemos começar. Lembra do que conversamos antes?
- Dos documentos do projeto, claro, estão todos aqui. Jorge Motta me ligou hoje e confirmou que a numeração do exped...
- O outro tema.
- As faturas?
- Outro.
Ela respondeu pondo a mesma expressão assustada da tarde, comprimiu as mãos e se reajustou na cadeira.
- Que outro? – perguntou, visivelmente conturbada.
Então levantei de minha poltrona, contornei a mesa e sentei-me na cadeira ao seu lado.
- O tema que realmente me interessa – disse e levei as mãos às suas coxas, levantando sua saia até ver suas justas calcinhas. Algodão, quem diria, algodão! Ela tentou levantar-se e eu a segurei, apertando com força minhas mãos contra suas pernas.
- Mariana, é um tema indispensável de trabalho. Está tudo incluído no seu salário – afirmei, levando os dedos até suas nádegas – Não está?
- Por favor, por favor...
Mas eu já lhe erguia com as duas mãos, já lhe traía erguida até meu colo, já lhe beijava o pescoço e, de cada lágrima que lhe brotava, mais me contaminava a vontade de penetrá-la com força, deslizar por entre suas coxas douradas que já a mantinham de quatro, respingando do suor que exalava. Virei-a de barriga pra baixo e penetrei-a suavemente, forçando com os dedos a calcinha até quase arrebentá-la. E vendo como sua pele dançava ao ritmo do seu suor, sabia que me tinha asco, que me tinha nojo. E meu gozo, por isso, era maior.
No outro dia pela manhã, quando cheguei, Mariana não estava. Artúrio estava em sua mesa, fingindo trabalhar, e me cumprimentou com certa aspereza.
- Mariana ligou. Se sente mal, não virá pela manhã.
- Okay.
- Quando saiu daqui, ontem à noite, ela estava bem? – me perguntou, de uma forma que não pude deixar de interpretar como uma espécie de desafío, como se ele soubesse de tudo que havia passado.
- Claro, parecia bem. Ligaste o ar condicionado?
- Não.
- Melhor. Precisamos guardar energía para quando chegue a tarde. Dentro de um mês teremos que prestar contas.
Entrei direto em meu escritório e, como sempre ocorría, me martirizei pelo que havia passado, fiquei imaginando em todos os problemas que poderia acarretar-me. Depois terminei dois relatórios que tinha pendentes, recostei outra vez na poltrona e passei o resto do dia tranquilizando-me, afinal já era um fato tão banal, uma espécie de costume destes horríveis que se herda da família ou do grupo de amigos e que, exatamente por isso, nos parece tão natural e legítimo, incontestáveis, digam o que digam.
Por isso voltei a fazê-lo. Passaram-se dois meses e, ao menos uma vez por semana, dizia a Mariana que ficasse, às vezes hesitava, implorava para que eu não o fizesse, mas quando lhe tocava com os dedos entre suas pernas, sentindo o caldo quente e cheiroso que lhe empapava a calcinha, quando lhe roçava a língua nos mamilos alertas e aveludados, não fazia mais que silenciar e aceitar sua posição. Talvez por isso tenha me cansado de Mariana. Não dela, em si, mas do jogo que jogávamos, do movimento das peças, do mesmo tabuleiro. E também porque comecei a ver que Artúrio desenvolvia uma espécie de carinho protecionista por ela, podia ver em seus olhares, nas palavras que escolhia. Não sei bem se por uma espécie de ciúme - não por Mariana, mas por Artúrio - e de não ser mais o único gestor de tão nobre e altruísta sentimento que significava apreciá-lo, comecei uma vigília implacável sobre ambos. Instalei câmeras no escritório e todos os dias, ao final da tarde, fazia questão de segui-los na saída do trabalho. Criava desculpas para manter a porta de minha sala aberta, os obriguei a mudar suas mesas de posição dentro do escritório para manter um campo de visão completo e até criei horários alternativos para que saíssem a almoçar por separado. Depois de algumas semanas, me vi obrigado a dividir tarefas específicas para cada um deles e deixei de ir às reuniões para gerentes de projeto nas sextas-feiras, com o único intuito de não deixá-los a sós.
Faltava apenas uma semana para a entrega do projeto e meu estado de nervos me impedia qualquer tipo de concentração no trabalho. Tinha a certeza de que Artúrio e Mariana estavam juntos, ainda que não encontrasse prova alguma disso. Mas também já considerava a possibilidade de que tudo não pasasse de efeitos colaterais de minha obsessão por Artúrio. Pela quarta vez naquela semana, pedi a Mariana que ficasse até mais tarde. Artúrio se foi a casa com um rosto feliz, com uma expressão de tranquilidade estampada no peito. Estava especialmente pitoresco naquele dia: vestia uma calça de abrigo azul, os cordões dependurados na região do largo ventre, a regata desenhando o formato da barriga até o largo vale que a separava dos peitos, as grandes tetas femininas que lhe desfiguravam o corpo, os ombros salpicados talvez por um potencial câncer de pele, a barba empapada roçando o peito. Quando passou pelas janelas de minha sala, já do lado de fora da empresa, pude ver como me encarava com seu sorriso amarelado, sabia que eu estava ali, atrás dos espelhos, e me desafiava, aumentando minha tensão. Mariana entrou sorrindo em meu escritório, perguntou-me em tom de deboche qual o trabalho que estava pendente para aquela noite. Eu, com os pelos eriçados, me deixei cair de joelhos no carpete, abraçando-lhe o ventre. Enquanto ela, assustada, tentava evitar-me, eu lhe implorava que me amasse, lhe pedia, inundado em terror que estava, que me protegesse, que me perdoasse, que me salvasse. Então ela respirou fundo, ergueu-me por debaixo das axilas e falou secamente, olhando dentro de meus olhos:
- Te levo à minha casa.
O outono já chegava em Madrid e, como todos os outonos madrileños, trazia um ar de alívio e esperança. No céu, um avermelhado rubi escorria detrás da Catedral de la Almudena e do bairro de La Latina. Já o dia escorregava detrás do horizonte quando chegamos a sua casa. Estávamos em Aluche e eu cochilava no banco do caroneiro. Ela desligou o motor, passou a mão carinhosa sobre meu cabelo e me convidou para entrar.
- Não tens do que desculpar-te. Vem comigo, vou cuidar de ti.
Era um casa pequena e humilde, mas o local me pareceu muito reservado. Me levou até seu quarto e me disse que esperara na cama.
- Vou buscar algumas coisas, mas volto já. Deita, relaxa e não se preocupe com mais nada.
Não sei exatamente em qual momento comecei a perder a noção do tempo. Creio que a espera por Mariana, que nunca voltava, me levou a mergulhar em um mundo de pensamentos, me induziu a refletir. O teto era de uma madeira acizentada e todo o quarto seguia a mesma aura incolor. Da grande janela que dava ao pátio, entrava uma forte luz amarelada, que me impedia distinguir o movimento das árvores no horizonte negro. Lembro de movimentar meus dedos contra a luz e pensar que seria divertido que Mariana nunca mais voltasse. E de notar que os lençóis dançavam sobre o meu corpo, fazendo-me girar no ar até encostar a ponta de meu nariz no teto cinza e novamente voltar à cama para recomeçar o percurso. Sabia que algo havia mudado, alguma regra enfim havia sido quebrada e até imaginei que a sensação que me invadia poderia ser chamada de liberdade. Então percebi que já não estava na cama, mas na sala e que Mariana estava a meu lado. Eu andava lentamente, em silêncio, com a mão direita segurando uma faca e o outro braço jogado sobre seus ombros. Vi que me sorria, me olhava aliviada e tranquila e que me dava um beijo desejando-me boa sorte. Então visualizei a porta de seu quarto. Retirei a chave do bolso, destranquei-a e vi a mim mesmo deitado na cama, remexendo-me como se lutasse contra os lençóis. Cubri os olhos rapidamente, assustado, e uma secura desceu por minha garganta até a altura do estômago. Quando abri os olhos, já estava deitado novamente, agora tentando recompor-me para olhar o homem que entrava no quarto, tentando entender por que Artúrio Mozefa estava ali, olhando-me com satisfação, abraçado a Mariana, com uma alegria e um sorriso que pintavam de dourado seus contornos despoporcionais e anti-estéticos, sua boca asquerosa e seu fedor estúpido. E enquanto Artúrio sorria com a faca na mão, ainda que assustado, eu me sentia liberto, perdoado e lhe admirava mais do que nunca. Era Artúrio Mozefa, meu salvador, e lhe devolvia o sorriso até que um sono profundo invadiu-me o corpo, um sono realmente franco, como somente o sono das noites pode ser.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 21:33
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15.7.07
Gráfica Chrislane
Gabriel Silveira
Foi de meu pai que herdei a gráfica. O maquinário, ao menos, a linotype, a tipográfica manual, o velho gaveteiro de tipos. O nome não. O nome coloquei em homenagem à Chrislane, minha mulher. Sempre fui muito creativo para estas coisas, criar nomes, motivos, letreiros. Quando meu pai morreu, trouxe Chrislane para cá e lhe disse: - De agora em diante, é aqui tua casa. Vamos viver como devem um marido e uma mulher. Aí chamei o rapaz da serigrafia e lhe disse para retirar o pequeno letreiro Impresos Márquez e substituir-lo por Gráfica Chrislane, assim lhe disse: - Chrislane, porque é o nome da minha mulher. Estava feliz por estar casado, por assumir sozinho os negócios, me sentia pela primeira vez um homem completo. Acabei tão seduzido por essa oportunidade de ser independente que a morte de meu pai não me abalou. Sentia como estivesse finalmente livre. Minha mãe, que Deus a tenha, já se tinha ido, pra mim era crescer ou crescer. E olha que custou. Naqueles tempos já completava meus trinta e oito anos e até ali não sabia o que era sentir-me como um homem de verdade. Ah, e isso Chrislane sabia fazer como ninguém. Toda manhã, quando bebia o café que preparava Chrislane, ali, ao lado dela, eu voltava a sentir o que era ser um homem. Claro, naquela época não era este café amargo que bebo hoje, nem esta broa de milho, pálida como um morto, que tenho estocada desde o inverno passado. Naquele tempo era bolo quente feito na hora, era café passado no ponto, leite morno e pão quentinho, destes que parecem recheados de vida, de calor. Aí era fácil olhar os empregados como se deve, impôr-me na labuta, nas obrigações. Era fácil ser um homem de braço firme. Era fácil porque tinha Chrislane. Mas Chrislane morreu há sete anos. Só Deus nosso protetor sabe que foi que passei, que é que ainda passo. Neste tempo, o país desenvolveu muito, todo mundo fala em oportunidades, em melhor padrão de vida, de educação, mas aqui nada disso chegou. A gráfica continua a mesma, a tinta é a mesma, os tipos são os mesmos, as resmas, a guilhotina, o chumbo, o benzeno. Pra mim esta conversa de desenvolvimento é pura invenção da televisão e dos políticos. Essa gente endinheirada querendo que o povo trabalhe calado. O político pede pra televisão falar que tudo está bem, que o povo tem poder de compra, que a economia está crescendo, que a classe média aumenta, aí o povo acredita, começa a comprar, o rei mandou, gasta tudo o que tem, se endivida, os comerciantes ganham mais, a indústria ganha mais, o político recebe voto. Só o trabalhador é que come pó nesta história toda, fica dependurado na corda, sem dinheiro e sem paz, só com a esperança de que alguém venha de lá, lhe extenda a mão, lhe puxe pra cima, lhe convide para jantar. Chrislane é que virava cuca com esta falta de condições do povo. Nunca se conformava com o pouco que tínhamos. As poucas, as raras vezes que discutimos foram por essa razão. Quando notava que estava demorando demais no banho, já sabia, andava pensando, tendo idéias, aí vem bronca. Dito e feito. Saía discursando sobre tudo, desde o preço da batata até nossa impossibilidade de viajar, de conhecer outros lugares. Que o quê? Lhe respondia. Daí pegava do seu braço, levava ela até a rua, fizesse chuva ou noite fresca, e a obrigava a olhar para o letreiro com seu nome, bem no alto, iluminado, Chrislane lá no alto, Chrislane minha luz, minha estrela, meu céu, lhe dizia. E nestes momentos ela era mais linda do que nunca, de camisola e roupão sob a confusão das luzes da lua e do letreiro. Voltávamos pra cama, nos enrolávamos e dormíamos tranquilos. Depois Chrislane morreu, nem me passou pela cabeça a possibilidade de tirar seu nome dalí, trocar o nome do letreiro. Isso sim, deixei de acender a luz pelas noites, vá saber se o fantasma de Chrislane não se incomodaria. É bem verdade, também, que há uns seis meses tentei acendê-lo de novo, mas a lâmpada estourou. Nao saí para comprar outra. Já quase não saio para comprar nada. Passo todo tempo encerrado aqui, sozinho, tocando os pocos pedidos que me restam. E pela noite fico recordando aqueles tempos, bons tempos aqueles em que passávamos as noites despertos, conversando sobre os filhos que teríamos, sobre as viagens que nos esperavam. Chrislane sorria, sorria muito. Isso é o que mais sinto falta. Daquele tempo ficou só esta mania de passar as noites em claro. Horas e horas como um soldadinho em frente a boneca chique de porcelana, sua pele de pedaço de nuvem. Hoje ainda faço o mesmo, mas no quarto dos fundos, afasto com dificuldade o armário da parede, retiro as tábuas que cobrem o buraco no chão e fico observando Chrislane com amor, com mais amor e dedicação do que nunca, sou seu marido, seu marido dedicado e fiel, seu homem. Mas agora Chislane já não tem mais o rosto tranquilo, a tez rosada, infantil, os cílios adormecidos como um campo de trigo. Agora já não reclama mais do futuro, já não perde a cabeça pelos temas pequenos do dia-a-dia, pelos pequenos vícios do homem. Agora só resta sua paz naquele buraco, um amontoado de podridão, osso, carne e a imaginação, esta minha imaginação sempre tão incrível, esta imaginaçao que ainda me permite ver aquele sorriso, o sorriso daqueles dias sob a lua, sob o letreiro, tudo aqui, tudo em minha mente. Sempre tive imaginação pra estes tipos de coisas. É só lembrar de quando chamei o rapaz da serigrafia e lhe disse: - Aqui vai escrito Gráfica Chrislane, porque Chrislane é o nome da minha mulher.
Dito por GABRIEL SILVEIRA em 14:46
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7.7.07
Do sobrado
Guilherme Póvoas
Saiu do sobrado a pé
saltou de sua boca
sílabas altas – gritava
Sombrio, satírico,
sentimento de consumo
sarcástico – como sempre
Seriam sérias suas palavras?
sem mais a dizer
sustentou a resposta – sim
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 00:32
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