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Leite derramado
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7.8.07

Três dias de sol
Guilherme Póvoas

Quando acordou, três dias depois, continuava sem acreditar. Estava cansado, abatido ainda. Mesmo depois das 72 horas de olhos fechados. “Vai, dorme aí e não conta nada para ninguém”, sugeriu o irmão, com olhar de ordens, antes de fechar a porta do quarto. Sem desejar um pouco sequer, obedeceu de alguma forma as palavras do mais velho. Quando acordou, três dias depois, continuava sem acreditar.

Joaquim despertou Marcos pelo pé. E nem teve muito trabalho: naquele frio de inverno onde nos jornais só se lia declaração de estudiosos do clima, não precisou muito para o caçula abrir os olhos e enxergar a lata do irmão, com a boca de sorriso e os olhos arremelados. “Vamos, vamos que hoje o dia vai ser divertido”, atiçou Joaquim, prometendo tudo aquilo que uma criança deseja. Típico de um início de férias de inverno. Os dois foram “enviados” à chácara do tio, no interior mais frio do Rio Grande do Sul. “É passando São Francisco de Paula, mas antes de Cambará, senhor Rodrigo”, explicou a mãe ao motorista, que levou junto uma carta de agradecimentos aos tios , que “tenham paciência, só mais esta vez”, finalizava a epistola.
Seriam dez dias a fio – descontando o dia inteiro de viagem – onde Joaquim poderia provocar Marcos, e Marcos fugir de Joaquim. Tudo à vontade. Tudo a ser apagado no final das férias. Tio Flau e tia Iê juravam não se incomodar com a visita, mesmo que a fome dos dois denuncia-se a idade: 10 e 12. “Larguem as coisas lá em cima e venham já comer, chegaram ainda na hora da janta”, avisou Iê, na noite em que os dois entraram na chácara à procura de cachorro para chutar e passarinho para assustar. Porém, como quem sempre quer por banca acaba sem cadeira para sentar, os dois moleques, que chegaram atrevidos e levados nos campos da Serra gaúcha, iriam voltar sem olhar para trás.

Marcos seguiu Joaquim até o fim da cerca “para ver onde iria dar”. E o caçula nem titubeava em fazer o que seu irmão decidia – era um Sacho Pança melhorado. Quando avistaram o fim do cercado de arame farpado, que dizia ter acabado as terras do vizinho dos tios [o Estancieiro, como era conhecido], Joaquim teve que assustar um boi de pêlo bem preto que estava entre a estrada e a estância. Para Marcos, aquilo era perigo extremo e, como conseqüência, adrenalina de fazer os olhos brilharem. Mas, diferente da razão que dava coragem a Joaquim, o boi preto não foi se afastando para o lado, voltando para as terras do Estancieiro.
Olhos brabos, tão pretos quanto os pelos. Visão pétrida, fixa. E, de repente, as ancas se voltam para cima e a cabeça começa a se aproximar do chão – as patas dianteiras enrijecem. “Ah tá! Só falta bufar agora”, gracejou Joaquim, com um sorriso que diminuía a cada secada braba do boi. “Mano, acho que este bicho vai atacar”, alertou Marcos, com a sabedoria sobrepujando a ingenuidade das crianças. Joaquim ainda chegou a exclamar um “que nada”. Logo em seguida sua vontade era dizer “o tio falou que eles são todos mansos”. Mas não deu tempo de completar. Joaquim se virou e Marcos já estava correndo. Eles, que sempre correram por alguma travessura, com graça e ironia na cara, agora fugiam apavorados, com os chinelos entre os dedos da mão. “Tira o chinelo que se corre mais, Marcos!”
Joaquim foi o primeiro a perceber. Num misto de surpresa e interesse, estancou a corrida e gritou para Marcos fazer o mesmo. O boi preto não estava mais no horizonte. Ao mesmo tempo, o sol foi encoberto por alguma nuvem muito escura, que fez uma sombra intensa sobre os dois moleques. Enquanto se olhavam, boquiabertos, Marcos foi o primeiro a notar: “E tem a forma de boi. Ou será de vaca?” Enfim, não dava para perceber se tinha chifres ou não. “Sei lá! Mas está voando”, constatou, sem acreditar, Joaquim. O caçula ainda cutucou: “E ele nem faz barulho para isso, né?” Mas seu irmão estava absorto naquele fato. Olhando, olhando, ainda boquiaberto. E, quando de apavorado Joaquim passou a maravilhado, Marcos perguntou: “Mano, isso não é estranho?” Era, de fato, mas para as crianças, aquilo tudo vale muito mais que qualquer história. nem na estância, nem na chácara, e muito menos na cidade aquele caso iria passar de lorota.

Depois de dormir três dias seguidos, Marcos descobrira que Joaquim não havia cerrado os olhos durante todo aquele tempo. “Como?”, era só isso que dizia e perguntava o primogênito. Algumas vezes acrescentava um “mas” à frase – para não parecer repetitivo. “Não faço nada há três dias senão descobrir como”, explicou ao caçula. E, para isso, se valeu da Barsa do tio Flau. Nada. Dos contos sobre bois e vacas que são falados pelos empregados da casa de baixo. Nada. Das poucas lembranças das aulas. Nada. “Ora, férias”, explicava-se. Enfim, voltaram para a casa dos pais, na cidade. E, ao descerem do carro, perceberam que o sol estava diferente. Era sol, sem nuvens, tão pouco bois preto, mas não era a mesma coisa. Joaquim e Marcos viveram, viveram, mas nunca usaram óculos de sol, boné, guarda-sol. Nem mesmo ousaram levar a mão à testa para assistir lances do jogo sentados nas ensolaradas arquibancadas do estádio. Tudo involuntariedades de um dia às voltas com a desconhecida natureza.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 01:33 Comentários: