28.10.07
Dizem que depois de quatro anos de namoro a coisa vai. Se não casa é porque alguém está enrolando – hoje em dia, não raro é a mulher. E ainda tem a lenda da crise dos sete anos, mas aí é muito tarde para deixar de fazer alguma besteira. A ficha só cai depois. Mas a história a seguir não envereda pelas formalidades dos relacionamentos informais. Trata-se do ponto onde a insistência sobrepõe a vontade e não resta outra coisa se não acreditar. Eis o causo:
À província
Eucária e Perpétuo se conheceram ainda quando ela usava saias ripongas e ele insistia contra os pais em seu cabelo comprido a andar pela noite com um vinil do Black Sabbath por debaixo do braço. À época, sonhavam juntos com o dia em que um novo Woodstock – tão real e original – fosse reinventado e o som da voz de Ozzy Osbourne e da guitarra de Tony Iommi pudesse se materializar em show na frente do casal. Enfim, o tempo se encarregou de mudar as melenas de Perpétuo e de transformar as vestes de Eucária em algo menos colorido. Passaram a freqüentar respeitáveis casas de espetáculos assistindo a shows de Maria Rita e Nei Lisboa. Muita coisa além do gosto musical mudou, mas eles continuavam juntos.
E aí que um dia Eucária resolveu perpetuar sua carreira profissional: iria para a Argentina fazer “aquele doutorado sobre o qual eu tanto falei.” Dinheiro, reconhecimento, aprendizado, dinheiro. Tudo contava muito.
– É uma grande oportunidade – comentou Perpétuo, ainda com os olhos flagrantes de espanto, abismado com a ousadia da mulher. – Mas logo na Argentina – resmungou.
– É! Cortázar, Esquivel e Borges. Estarei mais perto deles, pelo menos dos lugares de onde eles fizeram suas linhas.
– Faz sentido, faz sentido – resignou Perpétuo. Ele sempre pensou que assim que acabasse a faculdade de Letras, Eucária iria se limitar a dar aulas de espanhol “em qualquer lugar”.
A moça deixou claro: se não quiseres, eu não vou. Ah! Mas e a culpa de ter atravancado todo um potencial que ele enxergava em sua mulher?
O sol ainda buscava espaço atrás de morros no horizonte quando Perpétuo estava já com a cabeça inclinada sobre o vidro que dá visão ao pátio central do aeroporto. E assim viu aquele Airbus-A320, de detalhe azul, escrito bem grande Aerolíneas Argentinas, levar embora quatro anos de namoro. “Não é qualquer homem que perde sua mulher para Cortázar, Esquivel e Borges”, pensou Perpétuo. E enquanto fumava o primeiro cigarro do dia, numa das pequenas poltronas de couro rasgado do lado de fora do aeroporto, teve emoção suficiente para se irritar com um bando de argentinos que tiravam suas luxuosas malas da van para retornar. Como se não houvesse mais nada o que pensar e dizer, resolveu fazer os dois, ao mesmo tempo, discretamente: “Filhos da puta!” Só não arranjou confusão ali mesmo porque os hermanos ignoraram o caso. Mas Perpétuo queria descontar tudo naquele “time de pólo” que visitava o país que julgam ser uma farra. Marginalia!
O primeiro e-mail já veio com o endereço do remetente mostrando seu serviço: eucaria@uniba.com.ar. Qual outro da Universidad de Buenos Aires teria um nome como Eucária? Num texto com erros em demasia, coisa rara para Eucária, o que denunciava a pressa com que foi escrito, a mulher mandava saudações e limitava as palavras típicas de namoro a um “tudo vai dar certo”. Àquelas alturas, nem a Velhinha de Taubaté acreditava naquilo.
De qualquer forma, não havia um santo dia de semana ou um tedioso domingo em que Perpétuo não se erguesse da cama, de olhos arregalados e corpo rijo, pensando em visitar para sempre “esta brasileira que está a aprender e ensinar numa universidade castelhana”. Nunca trabalhou tanto, e nem tão mal. Com uma barba esparsa porém longa, Perpétuo voltou – seis meses, nove dias e três horas depois – ao aeroporto em que deixara ir Eucária. Era para recepciona-la. Quem dera! O guichê da Aerolíneas Argentinas estava vazio e uma atendente de cabelos e pele morena lixava as unhas. Não querendo atrapalhar ninguém, voltou ao lado de fora do aeroporto. Sentou na mesma poltrona – que agora já tinha um rasgo muito maior no couro – e fumou de novo o primeiro cigarro do dia.
– Para Buenos Aires, tá? Dia 12 de março, o horário da manhã mais barato.
A atendente foi tão objetiva quanto ele, mas sem grosserias.
– Ida e volta custam US$ 900,00, já com a taxa de embarque – respondeu ela. A morena fixou seus olhos à face de Perpétuo, esperando alguma coisa, algo do tipo puxar a carteira do bolso e pagar de uma vez. Mas ela não sabia o que se passava. Portanto:
– Só ida – disse ele, com um tom tão autoritário quanto firme na voz. Foi a deixa para a atendente perceber a afobação.
– O senhor tem que voltar.
Perpétuo guardou as passagens numa das gavetas de seu guarda-roupa. Uma gaveta que costuma exalar perfume de maçã verde, sabonete Dove e xampu Seda. Porém, há mais de seis meses estava vazia e, nos ataques noturnos de saudade não-correspondida, ele a abria e sentava em frente ao guarda-roupa. Da gaveta escancarada parecia sair milhares de pequenas Eucárias, todas elas recém vindas do banho. O passaporte e o tíquete de viagem iriam ficar perfumados.
Mesmo com as ligações esporádicas e com as trocas de correspondência eletrônica, ele sempre escondia a viagem. Aparecer de surpresa era tão brega quanto romântico e aventureiro. Como o rapaz fosse bem isso tudo, adorava fazer as coisas para Eucária no roda-pé dos pensamentos. No dia da viagem, ela tentou ligar para a casa de Perpétuo durante a tarde inteira. Queria contar como presenciara a participara de mais um tango em La Boca. Mas aquelas ligações de preço descontados nos domingos não iriam ser respondidas naquele 12 de março.
O Aeroporto Internacional de Ezeiza era desproporcional à fama de elegância da cidade. Quando Perpétuo desembarcou em Buenos Aires, não deu muita bola para alguns xingamentos que ouvira de dois jovens vestidos de azul e amarelo. “Hijo de puta”, teriam dito. Enfim, fez questão de não querer escutar, mas tudo era por causa da camiseta que na frente trazia escrito CBF abaixo de cinco estrelas. E nas costas: Ronaldinho Gaúcho.
Foi com esta camiseta que ele entrou nos portões brancos mas enferrujados da Universidade de Buenos Aires. Como tudo aquilo fosse muito mais convidativo ao estudo do que as melhores universidades do Brasil, ele resolveu resmungar para si mesmo a ausência de árvores no local – algo que demorou a perceber. Mas não tinha insistido num namoro de quatro anos, acreditado numa vida inteira que ainda nem sabia se aconteceria, para chegar a Buenos Aires e reclamar de um verde do qual nunca fizera tanta questão.
Quando ingressou no corredor que leva ao departamento de estudos de línguas latinas, o rapaz avistou um muro que servia de suporte para um imenso desenho. De barba preta e grossa, e com um charuto que deixava escapar uma fumaça pesada, Cortázar observava o local sob a forma de grafite. “Um belo desenho”, reconheceu, já se acostumando com a universidade depois de tanto ter caminhado por ela atrás do tal de departamento de estudos onde estava Eucária. Quando parou em frente à porta, de um negro envelhecido, leu por três vezes a placa: Eucária dos Santos. E, logo abaixo numa fonte bem menor, se lia: Profesora visitante. Era uma sala só dela, a princípio. Dou uma ou duas? “Duas, sou afobado mesmo”, pensou o aventureiro. Ergueu o braço direito e cerrou o punho: toc toc.
Ela poderia não estar na sala. Mas a porta se abriu mais rápido do que o nervosismo do rapaz poderia agüentar. E como quando as coisas são feitas com a insistência que só o coração permite, e com a destreza que apenas o amor proporciona, Eucária falou pelos dois quando o viu estanque naquele corredor de Cortázar com uma mochila verde e estufada nas costas:
– Perpétuo.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 03:22
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2.10.07
Quem é?
Guilherme Póvoas
Três batidas no peito, um aperto forte no coração e duas golfadas pelo nariz. Braços abertos, estirados sobre a mesa de trabalho. Duas semanas no hospital. Corredores de paredes cinzas e roupas verdes de doutores e aventais brancos de enfermeiras. Eram as cores da melancolia.
- Infarto, só isso - noticiou e comentou o médico, sem preocupação alguma após ter salvo a vida do velho.
Livre, por ora, o velho Gregório pensou que a morte deve aparecer daquela forma – dando três fortes toc-toc próximo ao pulmão e soprando forte o coração. O resto se faz sentir por todo o corpo. Manejou com cuidado a cadeira de rodas para o lado, não queria chegar à porta do hospital sentado num carrinho de doente.
- Eu não sei dirigir, dona enfermeira - satirizou ele, com um sorriso sincero de dentes amarelos, colocando sua locomoção distante de seu leito.
Das vestimentas que usara nos 14 dias de hospital, levou apenas as desgastadas alpargatas. No mais, não queria muita coisa que lembrasse os tempos cinzentos de passarinhos verdes e brancos – bons e ruins – que avistava enquanto esteve enfermo. Antes de sair, ainda fez uma última visita na sala do doutor para últimos conselhos. Aquilo que ouviu reafirmou a vontade de se livrar das lembranças hospitalares a partir do infarto.
- Esqueça que teve este infarto. Vá viver sua vida, por assim dizer, normalmente - arrematou o médico. O resultado foi um Gregório de sorriso mais estonteante ainda. E a carteira de cigarro, mais escondida que guardada, no bolso do guarda pó do doutor, lhe dera mais vontade de fumar ainda. Já eram duas semanas sem cigarros. Ele até tinha vontade de uma vida regrada, com suco de laranja pela manhã, alface no almoço e beterraba com cenoura no jantar.
- Mas este tipo de vida só é colorida enquanto o prato está cheio - pensava Gregório, incapaz de se desfazer dos prazeres culinários mais saborosos e menos saudáveis. Quando deixou o pátio do hospital, ainda olhando os passarinhos brancos a cuidarem dos enfermos, prometeu para si mesmo que só voltaria ali para morrer de vez.
O táxi que havia deixado Gregório em frente ao seu apartamento nem havia dobrado a esquina, o velho já entrara no Bar do João. Pequeno, mas de boa comida caseira, o local dera alguns dos prazeres mais especiais para Gregório desde que ele ultrapassara os 55 anos. Já havia jogado por ali bisca, pontinho, canastra e jogo de damas. Ultimamente, as máquinas de caça-níqueis ligadas o dia inteiro – escondidas no fundo, atrás do balcão - era a nova diversão dos conhecidos de Gregório.
- Porcaria! Estes velhos agora se viciaram nesta merda eletrônica e esqueceram o que é jogo de verdade - reclamava Gregório toda vez que encontrava a mesa vazia e os conhecidos sentados em frente à enorme máquina preta que “piscava e comia o bolso destes babões”. Ao chegar aquele dia no Bar do João, o velho pediu um filé a cavalo sem arroz e, assim, tirou aquele gosto de comida de hospital que lhe obrigava a palitar os dentes depois de toda refeição.
- Gregório, não morre tão cedo. Estávamos a falar de tua pessoa, pois - exclamou um idoso português, amigo de bar do velho. Ele teve que explicar o que aconteceu, o hospital, as duas semanas. Alguns já sabiam, outros não. Enfim, para estes que estavam cientes do estado de Gregório, este reclamou:
- E nenhum de vocês foi me visitar, seus cornos!
Amigos relapsos, mas que sentiam a falta do velho para um baralho. Antes de comer tomou uma cerveja e bateu o isqueiro para acender um cigarro. Depois, tomou mais uma, e outra. Acompanhado da carteira em maço. “Três, vou embora”, exclamou Gregório, olhando para João, dono do bar, e fazendo um sinal com a mão, referência clássica ao “anota a conta”.
Quando abriu a porta de casa, o cheiro ocre de vazio e velho deixava a sala ainda mais asquerosa. O dia estava cinzento, com aparência de chuva. Talvez por isso, Gregório abriu bem as janelas e as cortinas. “Lá fora está combinando com aqui dentro”, pensou ele. Um jovem desconhecido que entrasse no apartamento diria que ninguém mora ali há anos, talvez por década. Mas havia se passado apenas duas semanas sem Gregório. Nem fantasma, nem alma, nem espírito dormira por ali. Já que se safara da morte “por um fio de cabelo de bebê louro”, como disse a enfermeira, iria agora acreditar em outras coisas além de dinheiro, solidão e em Santo Antônio “naquelas horas de desespero, sabe?”. No momento, todos os fantasmas - do Geléia ao Patrick Swayze - eram bem-vindos. “Qual deles vai descer para pegar as minhas correspondências acumuladas”, pensou, meio que falando em voz baixa e olhando para o nada.
Antes de chegar no último lance de degraus, enquanto ainda procurava a chave da caixa de correspondência, sentiu um toc único na porta do peito. Parou. Se apoiou no corrimão e deu uma forte inspirada para inflar os pulmões. Olhou para os braços, para os lados - respirava lento, de propósito - e continuou a caminhada até suas cartas. “Só não vai ser fácil subir este degraus.” O corredor era imenso, ainda cheirava a urina de cachorro que as senhoras do prédio permitiam acontecer. Eram velhas que Gregório considerava tão nojentas quanto inválidas – mas estavam sempre marcando presença no prédio, seja pelo seus berros, pelo latido de seus cachorros ou cadelas, pelas suas vontades quanto à arquitetura interna do local, ou pelo nauseante cheiro de seus perfumes, usados à exceção e que fazia aflorar um asco imenso em Gregório.
- Este é o cheiro da infelicidade - comentou uma vez com o porteiro do prédio, logo após uma destas solitárias senhoras passou pelo hall segurando um pequeno cão de pelos brancos no braço direito.
Nas correspondências, apenas propagandas e cobranças. O panfleto que mais lhe chamara a atenção foi um que conclamava os jovens ao Exército. Com 62 anos, Gregório nunca havia colocado o pé dentro de um quartel, coisa que o fazia gabar-se desde os 18 anos, quando jurou a bandeira pela primeira e derradeira vez. Além disso, o carteiro também deixou para ele a conta de água. Gregório tinha certeza de algum vazamento em seu apartamento. “Era muita água para pouca sede de vida!” Deu meia volta, rumou até as escadas. O medo de um novo infarto o fez - pela primeira vez - lamentar que o prédio não possuísse um elevador, mesmo que esse “luxo” acarretasse numa multiplicação nos números das despesas de condomínio. “E eu tenho que subir até o terceiro andar”, pensou Gregório.
Foi nas passadas feitas no jogo de escadas do segundo pavimento que Gregório sentiu um outro toc. Parou. Dois, três segundos. Não mais que isso e continuou a erguer, pé por pé, perna por perna, com as alpargatas surradas.
Arrumando com a mão direita seus cabelos grisalhos que se haviam bagunçado durante o exercício nas escadas, procurando com a mão esquerda a chave do apartamento em seu bolso. Já começava a tatear toda sua perna: em algum dos bolsos desta calça estava a chave. E, como não a encontrasse, ergueu o braço e bateu à porta.
Toc. A morte a abriu prontamente.
Dito por GUILHERME L. PÓVOAS em 22:33
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